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Beyond the hagiographic writing: Catholic biographies and historical culture in Brazil in the late nineteenth century and early twentieth/Para alem da escrita hagiografica: biografias catolicas e cultura historica no Brasil em fins do seculo XIX e inicio do XX.

Em fins do seculo XIX e inicio do XX, a Igreja Catolica, em sua multiplicidade de discursos e posicionamentos, manteve uma linha relativamente comum: a de promover uma unificacao cada vez mais intensa sob a otica de um catolicismo ultramontano, ou seja, de uma religiosidade ainda muito vinculada ao modelo tridentino e a obediencia papal. O catolicismo contemporaneo deve ser pensado como plural (por isso o uso cada vez mais constante do termo "catolicismos"), ainda que o clero mais ligado a Santa Se e aos altos cargos da instituicao busque uma identidade mais unificada, pelo menos no recorte temporal que propomos analisar. O discurso eclesiastico anterior ao Concilio Vaticano II (1962-1965) pautava-se muito na ideia de uma Igreja centralizada que buscava uma identidade comum. Uma analise historica cuidadosa logo nos revela que isso nao passava de um discurso, ja que a vivencia religiosa (do clero e dos fieis) se ramificava em varios momentos.

Em meio as diferentes estrategias de fortalecimento da instituicao, a escrita eclesiastica assumiu um papel privilegiado na construcao de modelos exemplares de sacerdotes e de igreja. As diferentes modalidades narrativas estavam longe de representar a fe daquela epoca. Alguns tipos narrativos, como as biografias e autobiografias, constituiam-se como uma pratica discursiva em que a fe era criada/remodelada a partir dos diferentes projetos politicos. Por isso a necessidade de entende-las nao como retratacoes de um suposto "real", mas como praticas formadoras de sentido (CERTEAU 1998, p. 278).

As biografias catolicas de fins do seculo XIX e da primeira metade do XX se aproximaram do modelo das hagiobiografias, (1) sobretudo do estilo narrativo da obra de Francis Trochu (PIRES 2014). Nem sempre elas relatavam a vida de sacerdotes ou bispos com fama de santo, mas certamente descreviam trajetorias exemplares, principalmente daqueles padres ligados ao modelo romano e ultramontano. Na tentativa de legitimar seus enunciados, mantiveram um dialogo com a cultura historica desse contexto. As biografias eclesiasticas de fins do seculo XIX e inicio do XX se apropriaram de alguns elementos da historiografia brasileira que circulavam nessa conjuntura, perpassando pelas concepcoes historicas e narrativas das biografias do Instituto Historico e Geografico Brasileiro e mesmo da historiografia do inicio do seculo XX.

Neste artigo, o nosso interesse e entender de que maneira tais narrativas se apropriaram da cultura historiografica brasileira da epoca para construir e legitimar os diferentes projetos religiosos e teologico-politicos da instituicao e de seus membros. Dessa forma, nao nos prolongaremos nas definicoes de hagiobiografia e das biografias laicas modernas, ja realizadas em outros trabalhos (PIRES 2013).

Biografias catolicas no Brasil

Diferentemente das autobiografias, as biografias catolicas foram mais recorrentes nesse recorte. Devido a pluralidade das obras biograficas eclesiasticas do periodo, recortamos como material de analise a do monsenhor Jose Silverio Horta e a dos bispos marianenses D. Vicoso (1787-1875) e D. Silverio (18401922) (HORTA 1934; PIMENTA 1920; SOUZA 1927). A biografia de Jose Silverio Horta foi escrita por seu sobrinho Francisco Horta. O arcebispo de Mariana, D. Silverio Gomes Pimenta, escreveu a vida de seu mestre D. Vicoso, e o primeiro arcebispo de Diamantina, D. Joaquim Silverio de Souza, escreveu uma das biografias sobre D. Silverio. (2) Os biografados foram eclesiasticos que atuaram na Arquidiocese de Mariana, bem como os biografos, com excecao do arcebispo de Diamantina. Pratica comum, como poderemos notar, nao so nas arquidioceses mineiras do periodo.

Em um breve levantamento das biografias catolicas de fins do seculo XIX e da primeira metade do XX, conseguimos identificar um numero significativo de obras, como: Dom Epaminondas (1941), escrita pelo padre Ascanio Brandao; Dom Joaquim, 1[degrees] Arcebispo de Diamantina (1935), do padre Celso de Carvalho; D. Vital (1932), de Perilo Gomes; D. Joaquim Mamede da Silva Leite (1941) e Elogio historico de d. Joao Nery, 1 bispo de Campinas (1945), de Jose Carlos de Ataliba Nogueira; Tracos biograficos de Dom Silverio Gomes Pimenta (1941), do monsenhor Alipio Odier de Oliveira; Um grande brasileiro: D. frei Vital Maria Goncalves de Oliveira, bispo de Olinda (2a ed., 1936), do frei Feliz de Olivola; D. Jose Gaspar: biografia-depoimento (1944), de Tavares Pinhao; O bispo de Olinda perante a historia (D. frei Vital M. Goncalves de Oliveira, dos meninos capuchinhos) (1878), de Antonio Manuel dos Reis; D. Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo de Sao Paulo: esboco biografico, homenagem do clero e dos catolicos da arquidiocese, por ocasiao do jubileu de sua sagracao episcopal--1894/1929 (1929), de Julio Rodrigues; Julio Maria (1924), de Jonathas Serrano; Frei Rogerio Neuhaus (1934), do frei Pedro Sinzig (MICELI 2009, p. 187-191). Como se percebe, a construcao das biografias do clero exemplar foi feita, em grande parte, por religiosos, mas algumas tambem por intelectuais renomados, como o professor de Historia do colegio D. Pedro II e membro do IHGB, Jonathas Serrano (1855-1944).

Tais biografias nao eram escritas de forma aleatoria. De acordo com Sergio Miceli (2009, p. 39), "alguns bispos preferiam redigir biografias circunstanciadas de seus patronos quando o status reconhecido de lideres de que desfrutavam os biografados era de molde a justificar um trabalho hagiografico", ou quando ganhavam destaque pastoral nas dioceses. Esse era o caso de monsenhor Horta e de D. Vicoso, ambos com fama de santidade e iniciados posteriormente no processo de canonizacao. Outra modalidade comum eram as historias eclesiasticas, que, fazendo pequenos tracos biograficos do clero, apresentavam uma leitura apologetica e de reafirmacao da Igreja diante da sociedade brasileira (PIRES 2010, p. 5). Trata-se de um conjunto de biografias "produzidas com intencoes edificantes, com frequencia a versao oficiosa encomendada pela hierarquia a respeito de acontecimentos que deram margem a interpretacoes e as posicoes de faccoes do clero, ou de comprometer a imagem publica da organizacao" (MICELI 2009, p. 45). Alem disso, a construcao e difusao de modelos exemplares por meio de biografias era parte de um projeto reformista e politico, voltado para a reafirmacao da fe e do poder da Igreja Catolica na sociedade brasileira, sobretudo a partir da Primeira Republica.

Ainda segundo Miceli, os modelos dessas narrativas biograficas foram homogeneos, aproximando-se do estilo das vidas dos santos, relatando a vida de eclesiasticos exemplares, prestadores de servico a hierarquia catolica de suas dioceses (MICELI 2009, p. 44). No entanto, podia acontecer que esses padres e suas narrativas nao estivessem de acordo com o que a hierarquia eclesiastica almejava, tornando tal relacao mais complexa e tensional. A postura e as biografias sobre certos padres milagreiros, como o padre Eustaquio Van Lieshout (1890-1943), (3) vigario de Poa, incomodavam alguns superiores catolicos. Suas praticas de cura, interpretadas como sobre-humanas, muitas vezes eram associadas ao espiritismo ou a supersticiosidade do povo, aspectos para os quais a Igreja olhava com certa desconfianca. Lieshout foi afastado da diocese por tais questoes, vindo a falecer em 1943. Mas, nem sempre a situacao foi semelhante.

A biografia de monsenhor Horta, escrita por seu sobrinho Francisco Horta, esta repleta de casos interpretados por ele como de ordem sobre-humana, o que chamou a atencao de outros grupos religiosos. Sabendo que era apreciado por circulos espiritas de Minas Gerais, monsenhor Horta fez questao de relatar em seus escritos os perigos da participacao em tais reunioes (HORTA 1932, p. 26; HORTA 1939, p. 15-17), alem de estar em ampla afinidade com as concepcoes teologicas e religiosas da Arquidiocese de Mariana. Consciente dessa associacao com outras religioes, ele alertava de varias formas o seu nao envolvimento, e mesmo sua reprovacao, com as praticas mediunicas que ganharam notoriedade no Brasil em fins do seculo XIX e inicio do XX (LEWGOY 2008, p. 86-87). Talvez tal fato tenha feito com que Horta e seus escritos, inclusive sua biografia, fossem mais apreciados pela hierarquia da Arquidiocese, algo que nao ocorreu com as praticas e escritos sobre o padre Lieshout.

Nem sempre as biografias atendiam as demandas da hierarquia clerical, apesar desse cumprimento ser uma condicao fundamental para a aprovacao e para o projeto de escrita de muitas obras do genero. Fazendo uso de um modelo de erudicao historica, pautada no uso abundante de documentacao primaria (cartas, sermoes, autobiografias, testemunhos), os biografos tracavam a vida de seus coirmaos em um vies apologetico e memorialista, porem menos romanceado e se apropriando de elementos da cultura historica do contexto. Contudo, as biografias como obras de edificacao nao se restringiram ao ambito religioso. Como nota Dosse (2009, p. 61), "em meados do seculo XIX, o modelo de [James] Boswell cede o passo ao dominio absoluto do que chamamos de biografia vitoriana, submetida a fortes coacoes moralizadoras. Obra de edificacao, a biografia dessa epoca se confunde com a hagiografia".

As biografias catolicas foram, enfim, variadas: "historias de vida de figuras eminentes da corporacao eclesiastica, lideres, missionarios, misticos, educadores, milagreiros e santos, com participacao destacada nos principais acontecimentos religiosos e politicos da epoca". Havia tambem os perfis de prelados e "as chamadas 'polianteias', (4) editadas em homenagem a diversos membros graduados do episcopado" (MICELI 2009, p. 43-44). As biografias que analisamos, entretanto, estavam para alem do modelo hagiografico.

Para alem da escrita hagiografica: um dialogo com as biografias historicas

A fim de legitimar a autenticidade da escrita biografica eclesiastica, seus autores optaram por dialogar com a economia de verdade presente na cultura historica de seu contexto. Afinal, diante de uma sociedade em processo de laicizacao e da cultura historica circulante, era preciso mais que um texto poetico ou romanceado para difundir os modelos de sacerdotes exemplares, virtuosos e em alto grau de santidade, prototipos esses nao tao comuns na cultura clerical nacional (OLIVEIRA 2010). Dessa forma, foi necessario elaborar e projetar uma identidade clerical para o Brasil, alem de perpetuar a memoria e a gratidao a esses eclesiasticos que ganharam fama em suas dioceses como missionarios e pastores de almas de destaque (PIMENTA 1920, p. VI):

A historia vem pois derramar estes beneficios, e estende-los a um circulo muito largo. Se nao fora sua valiosa coadjuvacao, os bens do exemplo ficariam restringidos aos que tivessem a dita de os presenciar por si mesmos, ou os ouvissem destas testemunhas imediatas (PIMENTA 1920, p. V).

[...] com quantas dificuldades lutamos para nao serem muitas as inexatidoes nesta biografia bem o podem atestar os que com documentos e informacoes contribuiram para a escrevermos (SOUZA 1927, p. 7).

Uma das primeiras obras religiosas de perfil biografico nas Minas oitocentistas foi a do prelado Dom Vicoso, escrita pelo futuro bispo da Arquidiocese de Mariana, Silverio Gomes Pimenta. A primeira edicao foi publicada em 1876, abarcando, como diz o autor na introducao, um repertorio dedicado aos futuros historiadores mineiros (PIMENTA 1920, p. III). A narrativa entrelaca a vida e a doutrina de Vicoso a historia do desenvolvimento de Minas, apresentando suas virtudes, trajetoria pessoal e, principalmente, sua atuacao e formacao religiosa. Uma escrita exemplar, a servico da edificacao e imitacao dos padres e fieis da Patria. "Nutrimos esperancas que os Mineiros, ha pouco sofregos em escutar a voz de seu Pastor, e que se apinhavam em derredor dele nas cidades, nas vilas, nos arraias, e ate nas fazendas" (PIMENTA 1920, p. VI). Proximo do povo, porem nao milagreiro, o bispo incorporou um perfil de santidade ja circulante no seculo XIX, menos "sobre-humano" e mais afeito as virtudes psicologicas e morais (ROSA 2000; VAUCHEZ 1987, p. 289). Sua biografia tambem ressaltou essa perspectiva:

[...] nao dara no gosto de certos leitores, que mais buscam regalar a imaginacao com espetaculo curioso, ainda que falsos, do que nutrir o entendimento e o coracao com a narracao de virtudes simples e comuns, as quais, se nao tem o brilho do relampago, tem os encantos e suavidade da luz da autora, e os doces atrativos da verdura dos campos [...]. Nao procures, leitor, nesta biografia esses rasgos extraordinarios, e atos estupendos, com que Deus favorece alguns de seus santos, outra foi a missao de D. Antonio: ensinar com a palavra e com o exemplo as virtudes que todos podem imitar, e mostrar que um genero de vida, ao parecer, tao vulgar e singela, se podem encerrar preciosos tesouros de santidade peregrina (PIMENTA 1920, p. VII).

A biografia de Vicoso tornou-se um modelo narrativo na Arquidiocese de Mariana para as futuras publicacoes desse perfil. A Vida de D. Silverio Gomes Pimenta (1927), redigida pelo bispo de Diamantina, D. Joaquim Silverio de Souza, cita a biografia de Vicoso e adota, inclusive, o mesmo estilo narrativo. As obras sao repletas de citacoes e ate referencias, sendo estruturadas em diversos pequenos capitulos que vao da infancia a atuacao eclesiastica. A parte religiosa ocupa um espaco central, mas as vivencias cotidianas, tais como as angustias e tensoes do vivido, nao sao ocultadas da narrativa. Apesar de adotar um modelo temporal cronologico, a narrativa nao constroi uma personagem totalmente solidificada e unificada durante a vida. As variacoes identitarias e as narracoes de aspectos cotidianos do biografado nao excluem a construcao de suas virtudes, caracteristicas essas que apresentam o dialogo da biografia catolica com as biografias laicas modernas.

Tais biografias tambem dialogaram com o modelo das hagiografias, sobretudo porque os biografados e os biografos eram assiduos leitores das vidas dos santos e, dessa forma, se apropriaram da maneira de escrever e das virtudes e topicas hagiograficas. A vida do biografado e significada em Deus, sendo ele um eleito da vontade divina: "Nao eleva Deus algumas almas privilegiadas e tao levantados graus de santidade so por amor deles, senao para que sirvam de archote aos que vivem nas trevas deste mundo, e de guias seguros no caminho da virtude" (PIMENTA 1920, p. V). Nesse sentido, a biografia dialoga com a vida dos santos, porem sem necessariamente abarcar uma dimensao teofanica da temporalidade, na qual o tempo so revela o que ja foi dado no inicio sagrado da existencia do biografado. Alem disso, muitos deles presenciavam em vida, ou no final da existencia, o reconhecimento da sua santidade, sendo a escrita biografica um dos meios de construir e legitimar a vida do "santo". Esse foi o caso de monsenhor Horta, por exemplo.

A Vida de D. Silverio Gomes Pimenta apresenta variados capitulos que concatenam algumas de suas virtudes, as quais, por sinal, aproximam-se do modelo de pastor das almas tambem representado por D. Vicoso e monsenhor Horta: humildade, paciencia, suavidade, caridade, respeito ao papa e aos superiores. Dom Silverio, proximo do povo e virtuoso, porem nao milagroso, pregava com a superioridade do coracao:

[...] vendo-o viver no meio deles, mais simples e operoso que eles, interessando-se por sua saude, subsistencia e sua alma, verificara quao solida e vasta e a autoridade de quem governa pela superioridade do coracao. [...]

Seguindo-o nas penosas e continuas viagens, empreendidas dentro e fora do pais, a bem de suas ovelhas, lendo suas evangelicas instrucoes, que nao raro citaremos, contemplara o leitor um sacerdote fiel, um varao apostolico, por Deus suscitado para despertar energias, excitar santas emulacoes no servico da salvacao das almas (SOUZA 1927, p. 6-7).

Envolto em amplos debates politicos, articulados pelos seus pronunciamentos nas pastorais e nos jornais catolicos, Silverio chegou a ser acusado de simonia. Sua biografia serviu tambem para resolver essa e outras polemicas em que se envolveu, algo comum nas (auto)biografias laicas (CALLIGARIS 1998, p. 43). A Vida de D. Silverio Gomes Pimenta apresenta uma caracteristica comum as biografias catolicas: sua sujeicao a hierarquia eclesiastica e aos modelos de santidade e virtudes que almejavam construir e propagar.

Protestando inteira obediencia as leis da Igreja, reprovamos o que ela julgue neste escrito digno de censura, e declaramos nao desejar nos antecipar ao juizo dela, se neste escrito alguma expressao que significa santidade nos sai da pena ao nos referirmos a D. Silverio ou a outrem (SOUZA 1927, p. 8).

As biografias catolicas desse periodo almejavam construir as historias "verdadeiras" dos prelados exemplares ou dos possiveis candidatos a santidade, utilizando com abundancia a documentacao primaria e entrevistas com pessoas que haviam convivido com o biografado. "Consultamos as pessoas que lograram mais intimidade com o nosso Prelado, pedimos-lhes informacoes minuciosas de quantos sabiam, e estudamos escrupulosamente os documentos [...]" (PIMENTA 1920, p. VIII). Silverio Pimenta pede desculpas pelas faltas e lacunas da obra, mas expressa na introducao seu desejo de buscar a "verdade" e ser o mais fiel possivel a vida de D. Vicoso. Pautadas em um metodo historico critico e no uso abundante de fontes na busca pela "verdade" e "imparcialidade", as biografias catolicas de fins do XIX e inicio do XX nos mostram um dialogo com alguns dos principios da cultura historica desse mesmo contexto a fim de legitimar um projeto teologico-politico, indo alem, portanto, do estilo hagiografico e biografico.

Narrar a vida de personagens ilustres e exemplares nao se restringia ao ambito religioso. Uma secao especifica da Revista Trimestral do Instituto Historico e Geografico Brasileiro foi criada em julho de 1839 sob o titulo de Biographia dos Brasileiros Distinctos por Lettras, Armas, Virtudes, Etc. Ate 1899, foram contabilizados ai 154 trabalhos "sob a rubrica de biografia ou apontamentos biograficos" (OLIVEIRA 2007, p. 154). Tais narrativas estao entrelacadas na consolidacao do discurso historiografico oitocentista no Brasil, empreendido pelo IHGB em meados da segunda metade do seculo XIX, com vistas a institucionalizacao da historia como discurso dotado de regras proprias de elaboracao e validacao. Como se deve escrever a historia da nacao? Inicialmente, a veiculacao da vida de personagens escolhidos como ilustres proporcionava a construcao nao so de um tipo de narrativa, mas de um modelo de nacao que buscava no passado elementos para a sua consolidacao no presente e sua orientacao para o futuro. (5) O projeto historiografico das biografias, que incorporou os metodos historicos disponiveis, baseava-se na formula da historia mestra da vida, perdurando ate o fim do seculo XIX, quando, nao por acaso, as biografias do IHGB comecaram a desaparecer (OLIVEIRA 2007, p. 157). O abandono do genero biografico a partir de 1880 esta relacionado a mudanca do projeto historiografico do instituto, nao mais pautado na historia magistra vitae.

A escrita da historia nacional na segunda metade do seculo XIX incorporou as premissas de um regime historiografico com pretensoes cientificas na elaboracao de biografias de personalidades ilustres da historia do Brasil. A partir de tais individuos, a narrativa historica corroborava

para a consolidacao de um dos projetos politicos e historiograficos do IHGB, voltado para a elaboracao de modelos e exemplos que representassem o Brasil e sua identidade (OLIVEIRA 2010a, p. 39). Para tanto, a pratica historiografica fez uso abundante de fontes e de um olhar metodologico rigoroso, "imparcial", em busca de um passado factual e verdadeiro (CEZAR 2003, p. 78). Tais nocoes aparecem com clareza nas biografias eclesiasticas que mencionamos anteriormente, apesar de sabermos que tal rigor nao se desdobrava em objetividade e imparcialidade total.

Em todas as biografias catolicas que analisamos, a introducao das obras apresenta uma proposta de escrever a historia verdadeira do sacerdote, mais fiel possivel a sua vivencia. Utilizam-se fontes em diferentes modalidades e uma "imparcialidade" que garante ao trabalho, na visao de seus autores, um tom objetivo e historico. Para reafirmar tais proposicoes, alguns autores, como o biografo do monsenhor Horta, definem que a obra nao se trata de um texto literario, mas de uma apresentacao da vida do padre Jose Silverio Horta. Na Vida de D. Antonio Ferreira Vicoso (1876), as pretensoes em escrever um texto com valor historico e destinado aos historiadores aparecem logo na introducao (PIMENTA 1920, p. III). Talvez essa diferenciacao entre texto historico e literario seja algo mais especifico das biografias catolicas da primeira metade do seculo XX, haja vista que:

Nao seria fortuito que, no Brasil oitocentista, os homens de letras e de ciencia compartilhassem os espacos institucionais dedicados a tarefa de inquirir o passado nacional. Nesse contexto, nas palavras de Temistocles Cezar, "nem sempre ser poeta ou romancista era incompativel com ser historiador; e ir de um genero ao outro era uma opcao, nao uma impossibilidade intelectual". No entanto, tornava-se evidente a consolidacao de um ethos que, de modo mais especifico, definia aqueles que se dedicavam a escrita da historia. Nesse caso, conforme demonstrou Rodrigo Turin, uma triade de atributos caracteristicos da figura do historiador--a sinceridade, a cientificidade e a utilidade--delineavam a pratica historiografica em seus vinculos mais diretos com o projeto de nacao que se buscava instaurar (OLIVEIRA 2010a, p. 47).

As apropriacoes do estilo historiografico presentes nas biografias eclesiasticas nao sao feitas pelo simples gosto ou pela pretensao de contribuir para um projeto historiografico. Sua intencao e a de propagar e consolidar a memoria de sacerdotes virtuosos, as vezes considerados santos, servindo como material de edificacao e difusao da fe, sobretudo no contexto do pos-1890, com a separacao entre Estado e Igreja. As biografias catolicas comecaram a se multiplicar na primeira metade do seculo XX nao por acaso. Os exemplos eram para ser imitados, voltados para a consolidacao de uma identidade que a Igreja Catolica buscava reforcar. Nessa perspectiva, a escrita biografica eclesiastica do oitocentos, e mesmo a do inicio do seculo XX, apropriou-se do estilo narrativo e de algumas concepcoes do projeto historiografico do IHGB, como a historia mestra da vida e a escrita de biografias de "homens ilustres", porem ilustres para a hierarquia eclesiastica.

Na virada do seculo XIX para o XX, a historiografia brasileira deixou de eleger grandes personalidades da elite brasileira para se preocupar com a "cor local", com os regionalismos, como fez Capistrano de Abreu ao estudar o sertao. Ha uma mudanca da nocao de objetividade e imparcialidade, sendo a proximidade identitaria do historiador com o objeto algo que nao prejudica o trabalho historico (ANHEZINI 2005, p. 476-477). Diferentemente da nocao historiografica das biografias do IHGB, rompia-se com a nocao da historia mestra da vida:

Esses textos responderam a uma serie de interpretacoes que tambem concebiam o passado como referente. No entanto, esses estudos referiamse a um passado que nao mais interessava ao presente, nao trataram do passado que permaneceu preservado nos vestigios que naquele momento se descobriram e ganharam relevancia (ANHEZINI 2005, p. 481).

Tais nocoes comecaram a abrir caminho para uma escrita moderna da historia que assumiria sua forma mais visivel no ensaismo das decadas de 1920 e 1930. O passado deveria ser eliminado e, a partir da escrita historica do presente, deveria se projetar para o futuro um Brasil que ate entao nao havia dado certo, vide o desencantamento dos autores com o sistema republicano (NICOLAZZI 2008, p. 30; 340). Em meio a tais regimes de historicidade, podemos dizer que as biografias eclesiasticas que analisamos se apropriaram de elementos da pratica historiografica das biografias do IHGB no oitocentos e das nocoes de imparcialidade e verdade que se desdobraram na historiografia do inicio do seculo XX. Apesar de almejar reforcar uma identidade religiosa ate entao nao muito recorrente no pais, a Igreja nao abandonou por completo o passado em busca de modelos novos a serem construidos. Dessa forma, o dialogo com uma escrita moderna e mais tensional para o catolicismo, gracas a sua ampla ligacao com o passado e com a tradicao.

Consideracoes finais

Os estilos narrativos mencionados anteriormente (hagio-biografias, biografias eclesiasticas e laicas, hagiografias) mantem entre si uma rede de apropriacoes e aproximacoes, inclusive com o genero historiografico. As biografias catolicas assumiam os tracos heroicos e exemplares das hagiografias, fundamentando a vida de suas personagens em um vies providencialista. Todavia, incorporavam tambem as tensoes da vida cotidiana presentes nas biografias laicas modernas surgidas a partir do seculo XVIII, como as Confissoes de Rousseau, na qual a trajetoria individual do "homem comum" era valorizada e apreciada. Entretanto, essas nao eram as unicas referencias.

O dialogo das biografias catolicas com a cultura historiografica de fins do seculo XIX e inicio do XX nao almejava contribuir diretamente com o saber historico promovido por instituicoes como o IHGB. O discurso historiografico (assim como os seus metodos) servia como instrumento de legitimidade para as biografias catolicas. A intencao de construir e divulgar "uma verdade" sobre personalidades exemplares do clero e sobre a memoria da instituicao fazia com que os biografos eclesiasticos se inspirassem nos procedimentos (ainda que retoricos) da cultura historica da epoca, com destaque para os conceitos de "objetividade", "verdade", "imparcialidade" e "fontes/documentos".

O discurso historico era apropriado de maneira singular e manuseado a fim de que os escritos biograficos catolicos assumissem um tom de "verdade", contrapondo-se aos antigos estilos narrativos das hagiografias, das memorias e da ficcao literaria. Aproximar as biografias eclesiasticas do genero hagiografico ou literario poderia ser perigoso para uma conjuntura em que o discurso historico se consolidava como promotor da identidade nacional, das "cores" regionais e de outros projetos politicos da nacao.

Referencias bibliograficas

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VAUCHEZ, Andre. Santidade. In: Enciclopedia Einaudi, v. 12. Lisboa: Imprensa Nacional--Casa da Moeda, 1987.

(1) As hagio-biografias foram muito comuns durante o seculo XIX e inicio do XX. Abarcavam um estilo narrativo hibrido, que transitava entre as biografias laicas modernas, nos moldes das Confissoes de Rousseau, e as tradicionais hagiografias. Nao eram exclusivamente vidas de santos e nem biografias laicas. Havia, portanto, uma dificuldade em definir, no mundo catolico, o que era biografia e hagiografia. Para um estudo mais aprofundado, conferir as definicoes presentes em Pires (2013).

(2) Mapeamos algumas outras obras de perfil biografico sobre D. Silverio, como O arcebispo negro: ensaio de uma sintese da vida e obra de D. Silverio Gomes Pimenta (1942), de Benedito Ortiz, e Tracos biograficos de D. Silverio Gomes Pimenta (1940), do monsenhor Alipio Odier de Oliveira.

(3) O padre Van Lieshout nasceu em Aarle-Rixtel, Holanda, e faleceu em Belo Horizonte em 30 de agosto de 1943. Membro da Congregacao dos Sagrados Coracoes, sua biografia foi publicada em 1944, escrita pelo padre Venancio Hulselmans, da mesma congregacao.

(4) As polianteias "constituem um genero extremado de apologia organizacional, concedendo aos prelados assim homenageados um tratamento honorifico identico aquele de que ja desfrutavam as sumidades do episcopado europeu". Eram obras editadas em ocasioes especiais ou encomendadas pelo interessado (MICELI 2009, p. 53).

(5) Algumas personagens religiosas tambem apareciam na secao de biografias do IHGB, ganhando um espaco consideravel. Contudo, "grande parte dos brasileiros ilustres, cujas biografias foram estampadas no periodico do IHGB, teria destacada a sua atuacao concomitante nos negocios publicos do Imperio e nos servicos prestados as letras nacionais" (OLIVEIRA 2010a, p. 40). De todo modo, "no rol dos religiosos, figuras como Manoel da Nobrega (1517-1570), Antonio Vieira (1608-1687) e Jose de Anchieta (1534-1597), os dois primeiros nascidos em Portugal e o ultimo natural das Ilhas Canarias, compoem parcela significativa do corpus biografico entre 1839 e 1849: do total de 72 biografados no periodo, 19 sao integrantes de ordens religiosas, e igualmente considerados servidores da nacao" (OLIVEIRA 2007, p. 168).

Tiago Pires

tiago_pires@ymaN.com

Doutorando em Historia

Universidade Estadual de Campinas

Avenida Catanduva, 458--Jardim America

14811-220--Araraquara--Sao Paulo

Brasil

Recebido em: 6/6/2016

Aprovado em: 11/11/2016

* Este artigo e uma versao revisada e modificada de parte da minha dissertacao de mestrado, com pesquisa financiada pela Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo (Fapesp).

doi: 10.15848/hh.v0i22.1045
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Author:Pires, Tiago
Publication:Historia da Historiografia
Date:Dec 1, 2016
Words:4837
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