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Between walls, streets and moving winds: a reflection on the work of Paula Duarte/Entre paredes, ruas e ventos que se movem: uma reflexao sobre a obra de Paula Duarte.

Introducao

As questoes raciais, interseccionadas com os problemas de genero e as discussoes em torno dos modos de urbanidade constituem as principais linhas tematicas na obra de Paula Duarte. Ela explora as possibilidades da tecnologia e das diversas midias na criacao artistica e as cidades como cenario e suporte artistico. As intervencoes que promove na cidade de Juiz de Fora, interior do estado de Minas Gerais, despertam atencao, dao visibilidade a sujeitos excluidos do status quo e dialogam com as pessoas anonimas que passam por elas. Misturando elementos da vida real e da ficcao, as imagens transformam os transeuntes da cidade em personagens.

A arte urbana e impermanente. Diferente do que ocorre com uma obra no museu ou na galeria, as imagens criadas na rua sao momentaneas, sendo logo substituidas por outras. Assim, o carater fugaz da arte urbana faz com que o registro fotografico e o video sejam fundamentais para a documentacao das obras criadas nas ruas. Entretanto, a fotografia e o video fazem parte da poetica de Paula Duarte, registram as acoes mais tambem as movem.

Paula Duarte transita entre os suportes da fotografia, ilustracao, audio visual e instalacoes discutindo tematicas que envolvem a vivencia de pessoas negras brasileiras, principalmente mulheres negras que no Brasil estao na base da piramide social. A artista integra o Coletivo Descolonia, que reune artistas negros do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora. O coletivo se propoe a estudar, pesquisar e produzir arte afrocentrada e poeticas decoloniais num pais construido a base de mao de obra escrava e de valores patriarcais, LGBTIfobicos, misoginos e racistas.

Este artigo propoe refletir sobre as intervencoes urbanas da artista visual Paula Duarte e de como elas dialogam com procedimentos etnograficos, tais como a observacao participante, o diario de campo, as entrevistas e a producao compartilhada de conhecimento. A producao artistica de Paula Duarte dialoga e ecoa a pujante producao de jovens artistas negros brasileiros. Presentes principalmente nas midias sociais, eles e elas criam obras que problematizam o vocabulario das artes visuais e as estruturas sociais brasileiras.

Etnografia e arte

Hal Foster (2014) retoma a ideia de "o autor como produtor", de Benjamin (1934:160) para afirmar que na contemporaneidade surgiu um novo paradigma: o artista como etnografo. Nele, o objeto da contestacao ainda e em grande medida o sistema institucional da arte, tal como os museus, o mercado, a midia convencional e a academia, e "suas definicoes excludentes de arte e artista". Em pesquisa anterior (Carvalho, Assuncao & Pereira, 2018), verificamos que na tentativa de romper com esse mecanismo os jovens artistas afrodescendentes brasileiros dao visibilidade as suas producoes em espacos nao institucionais, apropriando-se do ciberespaco e das redes sociais para popularizar suas pesquisas artisticas e trocar experiencias com outros artistas.

A pesquisa ainda revelou duas importantes questoes: a primeira e que no caso dos artistas afrodescendentes o acesso ao mercado de arte se da apos os trinta anos de idade, sendo o nao reconhecimento de suas producoes e o racismo institucional dois graves entraves vivenciados por este grupo. A segunda, e que as disciplinas de historia da arte como se organizam hoje nos curriculos das graduacoes de artes visuais no Brasil possuem um deficit com a populacao negra ao nao nomear e invisibilizar suas producoes artisticas. Ainda baseada numa narrativa eurocentrica e positivista que marginaliza producoes e artistas que nao se enquadram nos canones e na tradicao.

Foster chama atencao para o que intitula de "virada etnografica na arte contemporanea" iniciada, segundo ele, a partir das investigacoes dos materiais, das praticas discursivas dos artistas renovadas com a aproximacao de outras subjetividades e comunidades tal como vemos em Paula Duarte, das condicoes espaciais e corporeas na producao e na recepcao artistica da decada de 1960, e, continuada ate hoje.

O processo de criacao de Paula Duarte e marcado pelo trabalho colaborativo e o dialogo com o espaco urbano. A artista dialoga e apropria-se de instrumentos caracteristicos das ciencias sociais, como o levantamento de arquivos, a observacao participante, as entrevistas e os registros etnograficos. Tais ferramentas tanto potencializam a arte enquanto linguagem como extrapolam a pratica simbolica, ao proporem obras e intervencoes que incidem no real e impactam na esfera publica de maneira significativa como ocorre com a intervencao urbana BRILHO, 2017 (Figura 1 e Figura 2).

Realizada entre 2016 e 2017, a serie fotografica BRILHO, e formada por retratos de travestis residentes na cidade de Juiz de Fora. O contato inicial entre a artista e as retratadas ocorreu por intermedio de MC Xuxu (Figura 3), cantora travesti negra juiz-forana projetada nacionalmente pelos funks que cria e pelo trabalho politico e social que desenvolve na cidade, e, que fez, com que em 2018, recebesse o titulo de Cidada Benemerita de Juiz de Fora. Durante meses Paula Duarte conviveu com o grupo e pode conhecer em detalhes a vida de cada uma delas. Entrevistas e registros fotograficos diversos que revelaram os impasses cotidianos vivenciados por travestis e transexuais na cidade. De acordo com a Associacao Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e dados da ONG Transgender Europe (TGEu) disponibilizados em 2018, o Brasil esta no topo do ranking de assassinatos de pessoas transgeneras em todo o mundo. Portanto, situacoes de violencia e exclusao marcaram grande parte das historias ouvidas e gravadas pela artista.

A serie fotografica procurou projetar uma imagem positiva e de esperanca de cada entrevistada e contou com a producao da travesti Karol Vieira. Os retratos, selecionados pelas proprias participantes, foram projetados e intercalados por frases que revelam sobre a violencia vivenciada pelo grupo fotografado. As imagens foram exibidas em fachadas de predios iconicos da regiao central da cidade mineira, espacos muitas vezes negados a elas, locais pelos quais as travestis relatam nao transitar antes da madrugada (Figura 4, Figura 5, Figura 6).

As travestis transferem a sua vida privada para um espaco coletivo, compartilhado com pessoas que nao escolheram e que tampouco conhecem. A falta de controle sobre a veiculacao de suas imagens fotograficas e uma questao etica discutida pela artista junto ao grupo. Discussao que e basilar na antropologia e presente tambem na arte, afinal a fotografia nao pode ser entendida e recebida apenas como documento porque sua natureza nao e objetiva, tampouco fixa. E justamente quando a fotografia supera o aparato tecnico e insere-se na poetica e na criacao expressiva que se ultrapassa o campo da etnografia para adentrar-se no territorio da arte.

MC Xuxu e moradora do Santa Candida, bairro periferico de Juiz de Fora, municipio que desponta em uma recente pesquisa nacional como uma das cidades com maior desigualdade social entre pessoas negras e brancas no Brasil. E nesse bairro que aconteceu outra intervencao de Paula Duarte, a acao Eu me Levanto, 2018 (Figura 7 e Figura 8), transformada depois em videoarte. Entre linhas, pipas, sorrisos e brincadeiras infantis na tarde ensolarada de 8 de julho de 2018 uma menina negra segura uma das pipas com o rosto estampado de Marielle Franco, politica e ativista pelos direitos humanos carioca brutalmente assassinada num crime ainda nao esclarecido, assim que a pipa se solta das maos da menina os ventos criam trajetorias imprevisiveis.

Como ocorreu com BRILHO, Eu me Levanto (2018) contou com a colaboracao de outros artistas. Alem de MC Xuxu, colaboraram com a acao Lucas Melo e Mare, jovens artistas que atuam na cidade. Juntos exploraram tecnicas e materiais na construcao de pipas baseados em elementos basicos da aerodinamica. Apos definirem o papel mais apropriado para a acao, Paula Duarte fez provas de impressao com o retrato manipulado digitalmente de Marielle Franco, E 200 pipas foram construidas. Apos a definicao do dia da acao, MC Xuxu convidou os alunos que frequentam as oficinas de danca e musica que oferece no bairro, alem de divulgar a acao em suas redes sociais.

A praca do Santa Candida e um dos unicos lugares de socializacao do bairro, nele se reunem grupos que realizam atividades variadas, entre elas a de soltar pipas. Com a divulgacao da acao, muitas criancas foram a praca com pipas proprias, mas outras foram presenteadas com as preparadas especialmente para a ocasiao (Figura 9). Incialmente, a pipa torna-se um objeto de curiosidade e encanto, depois, um gerador de encontros, reflexoes e experiencias esteticas.

Conclusao

Se na etnografia os dados visuais, verbais e indiciais da pesquisa de campo sao concatenados para criar uma narrativa que procura compreender determinado fenomeno, na arte, como aponta Freire (2006), acontece o contrario. Os artistas nao pretendem oferecer modelos explicativos, mas tratar de "reprocessar os fatos, resgatar e recriar sentidos numa especie de elaboracao da vivencia para a constituicao de um arquivo para a memoria coletiva" (p. 113). Diferente do etnografo, os artistas borram os pressupostos cientificos, a realidade e a ficcao, as fronteiras entre arte e vida e injetam a dimensao da subjetividade e da criacao sensivel.

Tanto em BRILHO (2016/2017) quanto em Eu me levanto (2018), Paula Duarte nao se contentou com a realidade, ou ficou presa aos fatos e dados que moverem suas acoes. Sem perder o carater contestatorio e critico suas obras se movem entre paredes, ruas, ventos e poesia. Escapam de uma leitura antropologica entre texto e imagem (Tacca, 2015) onde as cidades, as pessoas e os lugares sao apresentados em um discurso organizado para reforcar os valores simbolicos do cotidiano e do real.

As criacoes da artista friccionam as relacoes entre o centro e a periferia, entre as normas e as dissidencias, entre o que e para ser visto e falado do que e para ser escondido e silenciado. Tal como apontado por Freire (2006:114) ao refletir sobre o artista etnografo, Paula Duarte ao adotar procedimentos da etnografia inverte a direcao do discurso, pois o artista deixa de ser o que enuncia e passa a ser o que escuta. E nesse ocultamento momentaneo de si que a artista elabora e revela o lugar como territorio vivencial "definido por espacos densos de sentidos, onde o psiquico e o social se fundem aos tracos da memoria individual e coletiva".

Referencias

Antra: Associacao Nacional de Travestis e Transexuais (2018). "Mapa dos assassinatos de travestis e transexuais no Brasil em 2017". Brasilia: Antra. S/ISBN. Disponivel em: https://antrabrasil.org/. Acesso 29 de dez. 20158.

Carvalho, Francione. Assuncao, Matheus. PEREIRA, Karina. A presenca afrodescendente na arte brasileira e na formacao de docentes em Artes Visuais. EIDE: XIII Encuentro Iberoamericano de Educacion, Universidad Nacional Mayor de San Marcos, Lima/ Peru, 2018.

Foster, Hal (2014). "O retorno do real: A vanguarda no final do seculo XX". Sao Paulo: Cosac Naify. ISBN: 978854050466-0

Freire, Cristina (2006). "Contexturas: Sobre artistas e/ou antropologos". In: Lagnado, Lisette.

Pedrosa, Adriano. 27a Bienal de Sao Paulo: Como Viver Junto. Sao Paulo: Fundacao Bienal. ISBN: 858529829-4

Tacca, Fernando de (2015). "Fotografia: intertextualidade entre ciencia, arte e antropologia". In Novaes, Sylvia Caiuby (org.). Entre arte e ciencia: a fotografia na antropologia. Sao Paulo: Editora da Universidade de Sao Paulo. ISBN: 978853141525-8

FRANCIONE OLIVEIRA CARVALHO * & MATHEUS ASSUNCAO BRAZ MONTEIRO **

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Brasil, Pesquisador & artista visual.

AFILIACAO: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Faculdade de Educacao (FACED), Departamento de Educacao. Campus Universitario--Rua Jose Lourenco Kelmer, s/n--Sao Pedro, Juiz de Fora--MG, 36036-900, Brasil. E-mail: francioneoliveiracarvalho@gmail.com

** Brasil, pesquisador/artista visual.

AFILIACAO: Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); Instituto de Artes e Design (IAD). Campus Universitario--Rua Jose Lourenco Kelmer, s/n--Sao Pedro, Juiz de Fora--MG, 36036-900, Brasil. E-mail: matheus_assuncao14@yahoo.com.br

Caption: Figura 1 * BRILHO (2017), Paula Duarte. Intervencao urbana na cidade de Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.

Caption: Figura 2 * BRILHO (2017), Paula Duarte. Intervencao urbana na cidade de Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.

Caption: Figura 3 * MC Xuxu (2016), Paula Duarte. Da serie BRILHO. Acervo da artista.

Caption: Figura 4 * BRILHO (2017), Paula Duarte. Intervencao urbana na cidade de Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.

Caption: Figura 5 * BRILHO (2017), Paula Duarte. Intervencao urbana na cidade de Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.

Caption: Figura 6 * BRILHO (2017), Paula Duarte. Intervencao urbana na cidade de Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.

Caption: Figura 7 * Eu me levanto (2018), acao poetica realizada por Paula Duarte em 2018 no bairro de Santa Candida, em Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.

Caption: Figura 8 * Eu me levanto (2018), acao poetica realizada por Paula Duarte em 2018 no bairro de Santa Candida, em Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.

Caption: Figura 9 * Eu me levanto (2018), acao poetica realizada por Paula Duarte em 2018 no bairro de Santa Candida, em Juiz de Fora/MG/Brasil. Acervo da artista.
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Title Annotation:2. Original articles/Artigos originais
Author:Carvalho, Francione Oliveira; Monteiro, Matheus Assuncao Braz
Publication:CROMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2110
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