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Between the museum and the carnival: movement and social usage of an object/Entre o museu e o carnaval: circulacao e usos sociais de um objeto.

DO TEATRO A ALMA DE UM GRUPO; SOBRE A VIDA E CIRCULACAO DAS COISAS

A meia-noite da sexta-feira que antecede em uma semana o carnaval, um cortejo momesco parte do patio do Museu Theo Brandao de Antropologia e Folclore (MTB), em direcao ao bairro do Jaragua, em Maceio (AL). Uma vez por ano o bloco Filhinhos da Mamae arrasta centenas de folioes pelas ruas da cidade. A diversidade do publico embalado ao som do frevo e o colorido das fantasias sao tracos fortes desse rito que se repete ha 30 anos e e considerado um dos pontos altos do circuito de pre-carnaval da capital alagoana.

O elemento principal da festa e um objeto, uma boneca gigante, a Mamae. Cerca de tres metros de altura, feicoes amenas, bem tracadas, seios fartos, cabelo bem apanhado, brincos e colares compoem os tracos do personagem que e hoje o elemento central do bloco de carnaval e, ao mesmo tempo, parte de um projeto expositivo sobre as culturas populares alagoanas. Isso porque, desde meados da decada de 1980, Mamae integra tambem a exposicao de longa duracao do MTB (Figura 1).

(1)

Originalmente, Mamae foi confeccionada para ser personagem de uma peca teatral da Associacao Teatral das Alagoas--ATA. Estrela Radiosa, escrita pelo ator Ronaldo de Andrade, e uma alegoria tragicomica do processo de emancipacao do Estado de Alagoas em relacao a Pernambuco; uma "viagem" por aspectos culturais do novo estado criado, nos termos do autor. Numa cena que se passa em ambiente de carnaval, a boneca representa Dona Pernambuco, mae de Estrela Radiosa--alegoria ao Estado de Alagoas--que, enfurecida com a vontade de sua filha de ser independente, "antecipa a entrega da heranca, que e o territorio alagoano" (andrade, 1982). Pensada para ser a antagonista da trama, a boneca gigante acabou por tornar-se o centro das atencoes. Segundo relatos, apos o termino da ultima apresentacao da primeira montagem da peca--dias antes do carnaval--os atores, num misto de comemoracao e agradecimento, desceram do palco e sairam em cortejo atras de Dona Pernambuco em torno do Teatro Marechal Deodoro, contornaram a praca e se dispersaram pelas ruas da cidade.

No ano seguinte, as vesperas do carnaval, surgiu um rumor entre os atores da ATA e um grupo de amigos sobre se a boneca sairia novamente as ruas. Eles decidem repetir o cortejo, mas, dessa vez, como um bloco que destilaria nas previas carnavalescas de Maceio. Nos termos de Ronaldo Andrade, o carnaval da cidade passava por um momento de esvaziamento, e a decisao de utilizar os elementos teatrais nas festas de momo junto de um grupo de amigos era uma tentativa de impulsiona-lo. Diante de um discurso de perda cultural (goncalves, 1996), a boneca surge como possibilidade de redencao desse processo. Na ocasiao ela ja nao era mais Dona Pernambuco. Tornara-se Mamae, e aqueles que sairam no bloco se intitulavam seus "filhinhos". A boneca que no teatro era uma alegoria de Pernambuco foi ressignificada. Migrou para o carnaval como a 'grande mae Alagoas', tornando-se ela propria independente de seu papel original. Nascia, entao, o bloco Filhinhos da Mamae.

Desde entao os Filhinhos da Mamae e organizado por um grupo de pessoas cuja media etaria e hoje em torno de 60 anos. Sao atores, professores universitarios, artistas plasticos, profissionais liberais, museologos, tecnicos de museu. Em geral, se classificam como integrantes das camadas medias urbanas da cidade e moram em areas consideradas nobres, como os bairros da Ponta Verde, Farol e Jatiuca, ou aquelas consideradas mais "tranquilas", na parte alta da cidade.

O bloco, segundo seus organizadores, prima por promover a brincadeira no espaco publico, livre de cordas e abadas. E pedido apenas que os folioes comparecam fantasiados. Foi pensado como forma de atrair a classe media alagoana para as ruas da cidade e obteve forte adesao da classe artistica, principalmente do teatro, tornando-se conhecido tambem pela grande presenca de publico ho mossexual. Somam-se a estes, grupos diversos, cujo perfil se altera entre a concentracao no patio do museu e o cortejo na rua.

A fabricacao, concentracao e ponto de partida dos primeiros cortejos do Filhinhos da Mamae ocorreram na casa de Homero Cavalcante. (2) A boneca gigante havia ficado guardada em sua casa junto de outros figurinos e aderecos da ATA. Com o rapido crescimento do Filhinhos da Mamae, Homero e Ronaldo de Andrade comecam a pensar numa nova 'morada' para Mamae e ponto de partida da brincadeira. Decidem junto com Carmem Lucia Dantas, (3) entao diretora do MTB e folia adepta do bloco, que o melhor lugar seria o proprio museu.

Apos o carnaval de 1985 o objeto foi para o MTB. Uma carta redigida em tom jocoso trata Mamae como pessoa e declara que ela teria ido "residir em palacio (...) e gritou que jamais saira do Theo Brandao". A carta nao fala em doacao, mas em morada. A boneca estaria no museu, mas sua propriedade continuaria a ser dos organizadores do bloco. O documento justifica esse deslocamento em funcao da popularidade que a brincadeira carnavalesca havia alcancado. Isso a tornava passivel de ser musealizada por instituicao cujo foco esta nas chamadas culturas populares. Foi assim que a boneca (mediante artificio retorico e mediacao da direcao institucional que circulava nos dois circuitos) e consequentemente o ponto de partida do Filhinhos da Mamae migraram para o MTB, la permanecendo ate hoje. Desde entao, Mamae integra a exposicao permanente da instituicao, saindo, anualmente, as ruas nas vesperas do carnaval para desfilar pelo bairro do Jaragua.

Os termos de cessao da boneca foram estrategicamente pensados. Estabelecia sua cessao--definida como "morada"--e nao doacao. Definia, assim, as especificidades e mediacoes da relacao entre objeto, museu e organizadores do bloco. Com esse artificio estes ultimos mantiveram a autonomia para opinar e decidir sobre os usos, circulacao e significado de Mamae. Por meio dessa relacao, seus detentores criam um regime de autoridade compartilhada com o museu (Clifford, 2008; Kramer, 2006). Trata-se do permanente dialogo entre um grupo que, com um objeto, produz uma narrativa sobre determinada forma de "ser em" Alagoas a partir de sua experiencia e uma instituicao que, com esse mesmo objeto, constroi uma narrativa sobre "ser a" Alagoas a partir dos campos disciplinares da antropologia e museologia. A boneca torna-se performativa e relacional; objeto dialetico agindo no contato entre diferentes grupos e circuitos culturais.

A atual versao de Mamae e uma terceira reconstrucao. (4) Isso sugere que o poder de agencia desse objeto nao repousa numa determinada construcao material ou pelo menos nao somente nela, mas na posse que alguem--ou um grupo --detem sobre uma dada materialidade--o conceito ideacional sobre uma coisa; na autoridade que esse grupo tem de declarar e definir se aquele artefato e ou nao Mamae. O contradom desse contexto e que a propria boneca, ao ser investida como tal, passa a exercer forte influencia sobre o grupo. Ela se torna um ponto de referencia, age e autentica um conjunto de acoes dessas pessoas (GELL, 1998; INGOLD, 2011).

O reconhecimento da importancia dos objetos na vida social em suas varias dimensoes e algo que caminha junto da propria historia da antropologia. A cada perspectiva teorica corresponde um diferente papel atribuido aos objetos na construcao de sujeitos e grupos. De elementos centrais para comprovacao sobre os distintos graus de desenvolvimento da humanidade por evolucionistas e difusionistas ate as diversas perspectivas que floresceram com a chamada antropologia reflexiva, um longo caminho foi percorrido (GONCALVES, 2007). Nesse percurso, braceletes, colares e mascaras de alguns grupos tornaram-se celebres (MAUSS, 2003; DURKHEIM, 2000; MALINOWSKI, 1976; GRIAULE, 1994), ao passo que uma sorte de outros materiais, como mobiliario, cartas intimas, o isqueiro, o relogio de pulso, um livro, um instrumento musical so recentemente foram alvo de analise (TESTUT, 2000; MARTIN, 2000; BAUDRILLARD, 2000). Um campo amplo ainda esta por ser explorado.

A biografia e circulacao social da boneca Mamae ganham relevancia considerando o importante papel dos objetos na organizacao e percepcao individual e coletiva; fazem parte do 'eu' e tambem o criam. Sao bons para pensar a teia de relacoes humanas que desencadeiam e da qual fazem parte, assim como os sistemas de classificacao a que estao submetidos e a partir dos quais sao percebidos (HOSKINS, 1998; GONCALVES, 2007; KOPYTOFF, 1986; WAGNER, 2010). Mamae protagoniza mediacao e relacao entre estes circuitos culturais, museu e carnaval, por meio das formas como e apropriada. Se por um lado e possivel falar num processo de musealizacao de culturas populares quando ela e posta a ser vista numa exposicao museologica, por outro, cabe pensar em uma carnavalizacao do museu, considerando a dimensao ritualizada e festiva do cortejo carnavalesco que sua presenca produz na instituicao.

Este texto se debruca sobre esses aspectos. E resultado de pesquisa etnografica realizada no MTB, cujo tema e a biografia, circulacao e exibicao de objetos em instituicoes culturais e no espaco urbano. As descricoes que se seguem tem por objetivo refletir sobre os destinos dos objetos em museus, suas trajetorias e usos. Duas perguntas servem como norte: que mediacoes a boneca gigante Mamae desencadeia entre o mundo dos museus e outros circuitos culturais na cidade de Maceio? que tipos de representacoes culturais sao elaboradas com e a partir dele?

A "CASA DA ALMA DE MEU POVO"

O MTB surgiu em 1975, quando Theo Brandao, prestes a se aposentar, decidiu doar suas colecoes a Universidade Federal de Alagoas--Ufal, na qual lecionava antropologia. Cioso da importancia do material que reunira ao longo de sua carreira--e da continuidade dos estudos no campo das culturas populares alagoanas que poderiam proporcionar -, entendeu ser oportuna a criacao de um museu que pudesse funcionar como um centro de pesquisas.

Filho de familias de senhores de engenho pelos lados materno e paterno, Theotonio Vilela Brandao nasceu na cidade de Vicosa em 26 de janeiro de 1907. Formou-se em farmacia na Bahia e medicina no Rio de Janeiro. (5) Retornou para Maceio a fim de exercer o oficio de pediatra e professor de puericultura, deslocando-se em seguida para o posto de professor de antropologia na Ufal. Desenvolveu paralelamente atividades em areas como a literatura e foi presidente da Comissao Alagoana de Folclore, num periodo em que ela foi um das mais ativas do pais. (6) Faleceu em 1981, aos 74 anos. Naquele momento reorganizava seus arquivos documentais e fotograficos, no intuito de revisitar o trabalho que construiu ao longo de decadas. Theo Brandao deixou consideravel obra, hoje referencia para estudos como Folclore de Alagoas (1949), O reisado alagoano (1953) e Folguedos natalinos (2003).

O caminho trilhado por Theo Brandao ate a pesquisa etnografica e estudos de folclore e descrito por seus alunos e interlocutores a partir de duas linhas narrativas entrecruzadas: as memorias de infancia e a experiencia no exercicio da medicina. Elas refletem uma construcao biografica monumentalizada--constroem o "mito Theo Brandao"--e, nela, um modo de se formar um pesquisador em dados tempo e lugar.

Na primeira delas, a categoria "menino de engenho" ganha forca para descrever um contexto especifico. A expressao e utilizada para demarcar uma suposta maneira de viver a infancia em meio a uma rede de sociabilidade que envolvia distintos atores sociais. (7) Num universo calcado na posse da terra, seus donos agiam tambem como mecenas no campo cultural. Assim e que o alpendre da casa dos pais de Theo Brandao no Engenho da Boa Sorte, como muitos outros, era palco permanente de apresentacoes de violeiros, repentistas, cantadores e grupos folcloricos. Eram individuos que moravam nas imediacoes das propriedades --e nao raro nelas trabalhavam--recorrentemente convidados a oferecer divertimento as familias dos senhores de engenho. Theo Brandao teria crescido imerso e influenciado por esse universo e os lacos de reciprocidades que se firmavam por meio dessa convivencia.

Sobre o deslocamento da medicina para os estudos etnograficos, alem de trajetoria individual, trata-se de contexto mais amplo que marcou a formacao da antropologia na Regiao Nordeste do pais. (8) Como afirma Beatriz Goes Dantas (1998, p.34), analisando a trajetoria de Felte Bezerra, (9) "Esta associacao entre o ensino de antropologia e profissionais com formacao medica (...) imprime uma marca muito forte a antropologia do Nordeste".

No exercicio cotidiano da medicina--na area de pediatria--observou que parte consideravel das maes que atendia nao dispunha de recursos para aquisicao de medicamentos convencionais. Comecou entao, a buscar alternativas, interessando-se pela medicina popular. Esses estudos somaram-se com a experiencia que guardava das festas, objetos e literatura popular e das recolhas que ja comecara a fazer. Logo, sua trajetoria profissional seguiria outro rumo. (10) A certa altura, insatisfeito com a pratica medica e ja demasiado envolvido com estudos sobre as culturas de seu estado, abandona a catedra de pediatria e assume a de antropologia na Ufal, passando a ocupar papel pioneiro na formacao da disciplina naquele estado. (11)

O conjunto de objetos doados por Theo Brandao para a criacao de um museu constituia-se majoritariamente de material alagoano. Completavam-no artefatos oriundos de locais como Africa, Portugal e Mexico. Foram reunidos ao longo de sua vida em mercados, feiras, viagens e na interacao com os autores das pecas em suas propriedades e/ou nos circuitos festivos. No contexto das primeiras decadas do seculo 20, em que diversas manifestacoes culturais foram perseguidas e as vezes proibidas em espaco publico, locais menos comuns tambem foram fonte de coleta de objetos. E o caso dos depositos de delegacias de policia, por exemplo. Valendo-se de seu prestigio--como medico e intelectual pertencente a uma tradicional familia local--, conseguia obter alguns objetos confiscados em nome da ordem publica. (12) Ainda nesse ambito mencione-se o contato com os proprios praticantes de tais manifestacoes. Nao foram raras as vezes em que um cantador, um violeiro, entre outros, ao ser preso pela policia, solicitou ajuda de Theo Brandao. Nessas situacoes era frequente a oferta de algum objeto como forma de agradecimento. (13)

No discurso de inauguracao do museu, (14) Theo Brandao afirma doar para a universidade uma incompleta colecao que deveria crescer de modo colaborativo. Afirma nunca ter feito colecionamento sistematico e que aqueles objetos eram, antes, coisas sobreviventes e testemunhas da passagem do tempo, referindo-se a um olhar sobre sua trajetoria: a chegada dos filhos, dos netos, a circulacao de pessoas por sua casa. A ideia de transformar esses fragmentos numa instituicao foi vista como estrategia para que seu trabalho pudesse ser continuado, para que se impulsionassem os estudos sobre as manifestacoes populares em Alagoas. A partir daquele momento, no entanto, o coletor e pesquisador se tornava parte indissoluvel da instituicao. Construia-se um local para se conhecer um dado olhar sobre as culturas locais, a trajetoria de seus estudos do ponto de vista etnografico e parte da biografia de seu patrono (BRANDAO, 2007; ROCHA, 1988).

Do ponto de vista da Ufal, que acolhia o projeto, o entao pro-reitor Joao Azevedo (1977) sugere que com o museu se inaugurava a "casa da alma do meu povo". Descreve Theo Brandao como um mediador entre estes mundos e o museu que carrega seu nome e acervo, a morada de 'fragmentos da alma'. Nesses termos Joao Azevedo investe a instituicao de carater auratico, um espaco de afeto e autorreconhecimento de uma possivel essencia cultural alagoana. Outra leitura possivel afirma que ela representa uma sintese do mundo dos engenhos e do transito dessas manifestacoes entre a rua, espacos rurais e os sobrados--algo que ganhou forca no projeto atual expositivo.

A categoria central do projeto do museu tornou-se a "gente alagoana", dialogando com a perspectiva de Joao Azevedo. Pouco foi encontrado sobre seu primeiro projeto expositivo. Sabe-se, no entanto, que a "gente alagoana" era exibida de modo tipologico, com os objetos classificados por termos como barro, madeira, tecelagem, etc. Tratava-se de uma prospeccao a partir do olhar de um intelectual sobre um campo de estudos, ou sobre uma "gente" de um dado lugar e sua producao cultural. Pretendia ser uma sintese que almejava a totalidade de uma Alagoas exibida dentro de uma instituicao cultural. A boneca Mamae, nesse momento era parte dessa lista de tipos culturais locais.

No decorrer de sua historia o museu passou por altos e baixos. Deteriorado, foi fechado para visitacao publica entre 1986 e 2002, quando foi restaurado, e sua exposicao de longa duracao reformulada. A essa altura os objetos de Theo Brandao ja dividiam espaco com novas coletas e doacoes recebidas. Hoje o acervo inicial e minoritario. Nesse projeto, Mamae e, mais do que um elemento adicionado ao acervo, um contraponto ao discurso predominante impresso pela proposta expografica que, de algum modo, atualizava a proposta anterior.

EXIBINDO A BRAVA GENTE ALAGOANA

O projeto museografico de 2002 continua aberto a visitacao ate os dias atuais no MTB. E dividido em modulos que correspondem a categorias inspiradas numa nocao antropologica de cultura. Reflete na verdade um modo de exibir culturas populares que ganhou forca a partir da decada de 1980. Nesse ambito o modelo que influenciou--em maior ou menor grau--varios desses projetos e o da exposicao de longa duracao do Museu de Folclore Edison Carneiro, do entao Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, no Rio de Janeiro (RJ), de 1994 (Figura 2). (15)

A exposicao distribui-se em dois andares do edificio com percurso dividido em cinco modulos--ha ainda um piso inferior dedicado a exposicoes temporarias --que procuram apresentar uma determinada representacao sobre "ser alagoano". Sua descricao e relevante por perceber o lugar de Mamae, a boneca gigante de carnaval e as mediacoes e interacoes que ela provoca dentro de uma proposta de discurso expositivo que, embora tenha sua base no citado projeto de 2002, passou por pequenas e as vezes sutis transformacoes sem, contudo, perder sua essencia.

O primeiro espaco expositivo e a sala Brava Gente Alagoana. Apresenta uma sintese do argumento expositivo ao visitante. E ambientado por instalacao circular que cobre todas as paredes da sala, formada por ampliacoes fotograficas, objetos, expressoes e frases referindo-se a aspectos culturais locais. A iluminacao baixa ajuda a atribuir dramaticidade ao espaco. De modo geral sao destacados elementos ligados ao mundo dos engenhos e da cana-de-acucar, indicando o que pretende ser dito sobre a categoria gente alagoana dentro daquela exposicao. Imagens e textos se sobrepoem e sugerem a ideia de movimento, uma metafora dos proprios fluxos sociais. Contrastam, no entanto, com os objetos, como o jogo de porcelana, os artigos de flandres, o chapeu de vaqueiro, alocados em locais fixos, lembrando que, para alem da possibilidade de transito, cada coisa esta em seu devido lugar. O espaco de deslocamento e marcado e muito bem delimitado.

Um disco suspenso ao fundo serve de suporte para um conjunto de objetos que apresentam o idealizador do museu. A infancia, o medico recem-formado, a familia e o intelectual ja em sua maturidade estao dispostos em fotografias. A elas se somam imagens de mestres e grupos de manifestacoes populares por ele registradas. Sua carteira de identidade medica, um receituario e um conjunto de medalhas tambem estao exibidos entre dois de seus livros. Esses objetos constroem uma microbiografia de Theo Brandao. Monumentalizam o patrono do museu e um recorte de sua trajetoria do menino de engenho ao medico; do medico ao etnografo que deixou significativa obra sobre as culturas populares alagoanas.

Em seu conjunto a brava gente alagoana apresentada e aquela em meio a qual transitou Theo Brandao enquanto mediador de culturas no mundo patriarcal dos engenhos (Figura 3). Pode ser lida tambem como forte referencia a orientacao teorica de Gilberto Freyre e suas descricoes referentes a sociabilidade do mundo dos engenhos e seu manifesto regionalista (Figura 4). (16)

O circuito expositivo segue pelo modulo Fazer Alagoano, composto por duas salas. Na primeira ha um texto de parede que indica a categoria fazer alagoano como sinonimo do artesanal. E indicada a diversidade dessa producao ressaltando, no entanto, uma categoria e o genero que a produz: "Sao as maos femininas, porem que produzem o artesanato mais fino e representativo de Alagoas: a renda". A renda--e as mulheres que a produzem--ganham destaque exibindo-se parte de sua diversidade estetica nos dois unicos suportes horizontais. Os demais objetos estao dispostos em 12 estantes verticais de vidro. Predominam esculturas e vasilhames em madeira e barro. Ha tambem flandres, papel, micanga, entre outros materiais. Nem todos possuem identificacao que, quando presente, consta apenas de poucos dados em economicas etiquetas. Esse espaco e ambientado com paredes em ocre e iluminacao mais "alta" em relacao ao anterior. Destacam-se os grandes paineis fotograficos que ilustram esses "modos de fazer". Sao retratos de pessoas produzindo algumas das categorias de objetos expostos nas vitrinas e suportes. Valoriza-se a estetica dos objetos e tenta-se recuperar parte de um contexto geral por meio de sua museografia.

A segunda sala dedicada ao Fazer Alagoano desloca os sentidos para o ambito eminentemente domestico, sobretudo a cozinha (Figura 5). Entre os objetos expostos ganha forca a ceramica utilitaria. Potes, travessas, panelas, jarros, bilhas, peneiras--alem de colheres de pau e raladores em metal--estao dispostos sem identificacao em quatro niveis de suportes de madeira que cobrem o espaco de coloracao esverdeada (Figura 6). Desses suportes, "escorre" uma receita de tapioca, prato considerado tipico alagoano. A receita, tais quais as imagens na sala anterior, pretende criar movimento e trazer parte de um contexto para dentro daquele espaco. O elemento que perpassa uma e outra sala e a ideia de que o fazer na verdade parece remeter ao saber fazer. Se o primeiro alude aos espacos entre a circulacao dos espacos de producao, muitas vezes domesticos e sua circulacao como as feiras e mercados, aqui remete, sobretudo aos sistemas culinarios em sua dimensao domiciliar.

O modulo seguinte e Arte Popular das Alagoas: o que ha de novo?. Nessa sala--a mais evidente alteracao em relacao ao projeto expositivo de 2002--, todas as pecas sao identificadas. Chama atencao a predominancia de uma categoria de objetos: esculturas em madeira. Sugere uma distincao tipologica em relacao aos demais classificados/exibidos nos outros espacos? Ainda que pretenda apresentar o "novo" podem ser vistos nos objetos expostos nomes ja consagrados nesse campo, como Veio e Mestre Fida. O espaco retrata, assim, o que ha de estabelecido na arte popular alagoana. Sua ambientacao e feita tambem por grandes paineis fotograficos afixados em paredes pintadas de preto. As esculturas ganham destaque em sua unicidade, diferente das salas anteriores, em que sobressai a ideia do conjunto em referencia a uma brava gente alagoana, porem quase sempre anonima.

Um espaco de comercializacao esta instalado nesse ponto do percurso. Artesanato, CDs, livros, entre outros artefatos relacionados as culturas populares--nao se trata de uma loja, como em grandes museus, mas de um ponto que serve muitas vezes como espaco de interacao com cantadores, cordelistas entre outros que procuram o museu e deixam ali sua obra para venda. Termina por criar um espaco de interacao com o publico.

Segue-se o modulo Fe. Dividido tambem em duas salas, e o unico espaco com som ambiente (Figuras 7 e 8). Seu inicio e dedicado ao catolicismo popular. O tom azulado das paredes, a luz amarelada, o som de rezas e musicas religiosas criam forte carga dramatica. Ao centro uma instalacao com um conjunto de exvotos sobre uma base no chao, e outros pendendo do teto por tios. Segundo funcionarios do museu, essa talvez seja a unica sala cujos objetos expostos sao todos ainda do acervo de Theo Brandao, que tinha grande interesse no colecionamento de ex-votos. Nos demais espacos, o material exposto mistura varias coletas e doacoes feitas ao MTB ao longo de sua historia. Nas paredes, leem-se "FE" e uma definicao de ex-votos proposta por Cecilia Meireles:

   O ex-voto e a oferenda feita aos santos de particular devocao ou
   especialmente indicados por alguem que obteve uma graca implorada.
   Ha ex-votos de madeira esculpida pelo proprio devoto, como ha
   tambem os de barro, gesso e de cera (...). De cera ou de madeira as
   esculturas de "ex-voto" representam a pessoa que os oferece, ou a
   parte do corpo onde residia o mal.


A ambientacao azul/amarelo do catolicismo popular contrasta e interage com o vermelho do espaco seguinte, dedicado ao sincretismo religioso. A museografia da sala conta tambem com instalacao circular ao centro. Nela pode ser vista uma cruz cercada por imagens de varios elementos do sagrado, como Jesus Cristo, Sao Jorge, Preto Velho, lemanja, entre outros. Atabaques e tambores estao dispostos nos quatro cantos e som de cantos e tambores completam a ambientacao e sua dimensao dramatica.

O modulo Fe e espaco em que a "sacralizacao" dos objetos (forte no modulo Arte) cede espaco a sua dimensao sagrada. As vezes torna-se um espaco devocional. E frequente encontrar pequenas oferendas e preces junto as pecas. Moedas, pequenos papeis com pedidos a determinados santos ou entidades e ate objetos, como grampos de cabelo, pingentes e fotos, sao deixados "em segredo" pelos visitantes. De tempos em tempos sao recolhidos pelos funcionarios e guardados. O dinheiro ofertado e usado para manutencao daquelas pecas em especifico. Por outro lado, esse e tambem o espaco do medo no museu. Nao e raro pessoas se recusarem a entrar sob o argumento de temer e/ou nao gostar do que esta exposto. Devocao e repulsa sao categorias que caminham de modo tenso no comportamento dos visitantes em relacao aos espacos do sagrado no Museu.

Por fim, o modulo O festejar alagoano, situado no piso superior do predio (Figura 9). Tambem divido em duas salas, apresenta recortes do calendario anual dos festejos populares. Um deles diz respeito ao ciclo das festas natalinas. Grande enfase e dada ao guerreiro alagoano, cujo chapeu do mestre, seu maior simbolo, foi apropriado e e largamente visto sob diversas formas de representacao pela cidade. Um texto de parede oferece uma descricao desse festejo extraido da obra de Theo Brandao:

O auto dos Guerreiros ou simplesmente o Guerreiro (...) nascido ha mais de 30 anos, em Alagoas, pela mistura do Reisado com o auto dos caboclinhos. E um reisado moderno, com maior numero de figurantes e episodios, e maior riqueza nos trajes e enfeites. Como o Reisado, consta de uma sequencia ou "suite" de cantigas dancadas por um conjunto de bailarinos vestidos de trajes multicores, imitacao dos antigos trajes nobres da colonia, adaptados ao gosto e possibilidades economicas do povo, pelo uso de fitas, espelhos, contas de aljofar, enfeites de arvore de Natal nos chapeus, diademas, coroas, guarda-peitos, calcoes, mantos, etc.--indumentos com que se vestem e enfeitam os diversos personagens do auto: o Rei, a Rainha (as vezes em um numero de tres: Rainha dos Guerreiros, Rainha dos caboclos, Rainha de Nacao), a lira, o indio Peri e seus vassalos, o Mestre e o contramestre, os dois embaixadores, o General, os dois Mateus, os dois Palhacos, (as vezes a Catarina, homem travestido de mulher, de rosto pintado de preto e com uma boneca nos bracos (...)), o caboclinho da Lira, a Estrela de Ouro, a Estrela Brilhante, a Banda da Lua, a Estrela Republicana, a borboleta, a Sereia, alem das "figuras" como nos Reisados (BRANDAO, 2003).

O excerto de Theo Brandao nesse modulo expositivo e significativo, visto ter sido o ciclo das festividades natalinas o tema ao qual dedicou boa parte de seus esforcos. A museografia e composta por grande instalacao que alude a uma casa de taipa. A exposicao, portanto, comeca e se encerra com forte referencia a categoria "casa", com instalacoes circulares. Em seu lado externo sao vistos objetos como violas, chapeus e adornos que fazem parte dos festejos das pastorinhas, acrescimos em relacao ao projeto original. Do lado interno ha um chapeu do guerreiro ao centro refletido por um espelho no chao; em seu entorno, afixadas em paineis de vidro, imagens impressas dos personagens que compoem o auto. Assim, a diversidade de formas presentes nas festas natalinas e sintetizada no guerreiro como sua maior expressao, com timida presenca das pastorinhas.

Por fim, a sala dedicada ao carnaval. A ordem de visitacao entre ela e a anterior nao e linear, preestabelecida. E nesse espaco que a boneca gigante Mamae esta exposta (Figura 10). A sala e composta por uma combinacao de fotografias e objetos. Estandartes de blocos de carnaval de rua, atuais e extintos, estao dispostos nas paredes. Um boi de chita, outro elemento comum do carnaval local, esta logo em frente. Segue-se um jaragua, tambem figura tipica do carnaval de rua--segundo relatos, hoje ja nao tao comum--, especie de fantasia de dragao que sai a rua assustando as pessoas. Num dos cantos, um conjunto de mascaras e espelhos. Colunas verticais apresentam cenas fotograficas desse conjunto de brincadeiras. Impressas em preto e branco, criam uma distancia temporal, um carnaval de outrora. Mamae e vista no canto a direita de quem chega a sala. No canto oposto, fica a Moreninha, outra boneca gigante. Segundo os monitores que acompanham os visitantes, os bonecoes sao as pecas que mais cativam o publico em todo o percurso do museu. As dimensoes da boneca e a associacao que fazem entre ela e uma dada representacao de carnaval lhe conferem certo carisma (GEERTZ, 1998).

O carnaval que se ve na sala combina um carnaval dito tradicional, que teve grande forca ate pouco mais da metade do seculo passado, com um olhar sobre o atual carnaval alagoano, sobretudo de Maceio. A enfase e posta no carnaval de rua e nas brincadeiras que ele evoca. Se o espaco pode ser visto como um lugar de memoria (nora, 1993) do carnaval de rua alagoano, ele o e tambem de uma especie de retomada desse tipo de carnaval. Nessa narrativa os bonecos gigantes estao inseridos na segunda proposta. O recorte, no entanto, e preciso: o carnaval de rua com seus blocos de ontem e de hoje e seus bois e jaraguas que circulam pelos bairros mais perifericos da cidade. O carnaval dos trios eletricos, das escolas de samba, que tambem faz parte do circuito atual da cidade, por exemplo, nao se faz presente.

Dado a destacar e o fato de a boneca gigante Mamae e a sala do carnaval oferecerem um contraponto em relacao a visao sobre folclore e cultura popular apresentada na abertura do museu e que permanece ao longo da exposicao. Enquanto a proposta da abertura Brava gente alagoana sugere um discurso sobre o universo cultural fortemente associado ao mundo dos engenhos, Mamae e o carnaval sao prioritariamente urbanos. O mundo dos bonecos e dos blocos de carnaval e o das ruas das cidades, apresentando em seus bonecos e estandartes as camadas medias da sociedade junto de grupos populares com suas mascaras de bobo, o boi (que, se tambem pode ser associado ao engenho, tem ha alguns anos sua maior expressao nas periferias da capital). Nesse dialogo entre o engenho e a metropole, espacos como os modulos Arte, Fe e Fazer Alagoano situamse em posicao intermediaria. O artista e o artesao podem estar em maior ou menor grau nas areas rurais dos engenhos, como tambem nas margens das cidades e em seus centros nas galerias e feiras; a fe, difusa de varias maneiras em varias espacialidades. O espaco do carnaval amplia e provoca, dessa forma, a proposta inicial da museografia. Traz mais um indicio de que, por mais que tentem ser coesos os discursos das exposicoes, eles trazem em si suas proprias contradicoes--e as expoem. Nesse contexto e Mamae o principal elemento provocador.

De modo geral, o percurso expositivo do Museu Theo Brandao reverbera as varias temporalidades das representacoes culturais que almeja apresentar. Ha um tempo cotidiano dos mundos dos fazeres e dos artistas que circulam pela casa de modo fluido, trazendo, levando pecas, visitando, etc. Ha um tempo das festas que se ligam ao periodo natalino com apresentacoes de seus reisados, pastorinhas, etc. Ha um tempo das festas do carnaval. De tal forma, acompanhar as circulacoes de Mamae levou a perceber que ela e parte de um calendario de comemoracoes do proprio museu, cujos pontos altos sao exatamente os citados carnaval e natal--alem do periodo junino que, embora tenha consideravel reverberacao local, nao esta presente no discurso expositivo. Ao mesmo tempo ela e parte de um calendario do proprio carnaval como um todo na cidade. E, ainda, ela produz e sintetiza o cruzamento desses dois circuitos, posto que, por seu intermedio, o proprio Museu se torna parte do periodo festivo do carnaval alagoano, uma vez que seu espaco e tomado pela presenca desses festejos.

A CARNAVALIZACAO DO MUSEU

Nos dias que antecedem as festas do pre-carnaval da cidade de Maceio, quem chegar ao MTB podera observar, alem do museu visto em suas exposicoes, um outro que ganha forca no predio anexo--de uso administrativo--, no auditorio, no patio e em alguns momentos no proprio espaco expositivo. Nesse periodo a instituicao se transforma tambem em algo semelhante a um barracao de escola de samba. Ali sao feitos, reparados e organizados todos os aderecos para o desfile pelas ruas da cidade do bloco de carnaval Filhinhos da Mamae, cujo protagonista e a boneca gigante que inspirou o nome do grupo (Figura 11).

Esse trabalho comeca no Anal do ano e no inicio de janeiro, quando os organizadores do bloco se reunem. Trata-se na verdade de um grupo que agrega pessoas vinculadas a ATA--algumas das quais tem vinculo funcional tambem com o MTB--e funcionarios do proprio museu. A cada ano e escolhido um tema que dialogue com algum aspecto da cultura local, uma data comemorativa ou um evento especifico. A irreverencia e o aspecto comico sao fundamentais. Esse processo envolve a transformacao do 'sublime' em jocoso; algo semelhante ao que aparece descrito na obra de Mikhail Bakhtin (1993) como o rebaixamento ao plano material de tudo aquilo que e nobre, elevado, espiritual e abstrato. Nesse caso, uma imagem da "sociedade alagoana" ou do mundo que a cerca de modo amplo. E tambem o seu inverso, ja que a boneca gigante e o bloco sao tratados, dentro da dimensao risivel, como algo sublime e elevado, nesse caso, o principal icone de um grupo.

Definido um tema e uma personalidade a ser homenageada, tem inicio a producao propriamente dita do bloco. A boneca gigante assume centralidade, e aos poucos todo o museu acaba de algum modo envolvido com sua festa. Os trabalhos tornam-se intensos nas duas semanas que antecedem o cortejo. Nesse periodo a rotina do MTB e completamente transformada. Quase tudo gira em torno de Mamae e do bloco. O corpo tecnico e absorvido em diversas funcoes que vao da confeccao de aderecos ate o trabalho de divulgacao da festa.

Os custos sao financiados pelo apoio que os blocos de carnaval recebem da Prefeitura Municipal, as vezes por contribuicao da Ufal e da Secretaria de Cultura do Estado, mas sobretudo pelo Livro de ouro de Mamae. O grupo de pessoas mais proximas aos organizadores e/ou que participam da brincadeira desde seus primeiros desfiles e convidado a comparecer ao museu e oferecer uma contribuicao para a producao da festa. Por telefone, Ronaldo Andrade contacta as pessoas com o bordao "Mamae esta lhe esperando". Esse rito de trocas materiais e tambem um ponto de encontro para troca de ideias, confraternizacao entre amigos, um mecanismo de reforco das redes de sociabilidade e interacao no grupo (Figura 12).

Ha grande preocupacao em relacao aos aspectos esteticos. Mamae, segundo os interlocutores, deve estar "rica" para seu cortejo. O termo designa uma concepcao estetica associada a um ideal de belo e, em alguma medida, de excesso. A indumentaria da boneca--trocada a cada ano de acordo com o tema escolhido para o desfile do bloco--e cuidadosamente desenhada e modelada. As maos devem receber aneis, e deve haver colares no pescoco, grandes brincos nas orelhas, alem de adornos de cabeca e detalhes incrustados a roupa. Mamae, alem de folia, deve ser apresentada como uma luxuosa dama, com os seios expostos, em alusao a grande mae que alimenta seus filhos.

Esse trabalho se estende aos demais elementos do bloco, que possui forte aparato performatico. Nao por acaso um ideologo do carnaval local o define como uma opera. (17) Essa definicao e, de algum modo, aceita pelos proprios organizadores do Filhinhos da Mamae, que utilizam tambem a "categoria teatro processional". Se comecaram com a proposta de um "bloco de sujos", a medida que se foram popularizando buscaram dar cada vez mais volume e, nos termos de Homero Cavalcante, "carater real para Mamae". Hoje o bloco e composto por um conjunto de seis estandartes carregados pelos chamados guardioes de Mamae. Eles seguem a frente da boneca em cortejo para anuncia-la e lhe abrir caminho. Ha ainda o estandarte do bloco--cujas cores fazem alusao a bandeira do Estado de Alagoas--e o do homenageado do ano. Atualmente, o desfile do Filhinhos da Mamae faz jocosa alusao a um cortejo da realeza, compondo-se de uma miscelanea de alegorias. Mamae ganha tratamento de rainha a conduzir seus "suditos" folioes pelas ruas. A preocupacao estetica se estende tambem ao palco principal da festa, o proprio museu. O edificio e decorado com temas carnavalescos, incluindo mascaras, bandeirolas, sombrinhas de frevo, visiveis aos que passam ao largo.

O material para essa producao e adquirido no comercio do Centro da cidade, as vezes em Recife, pois, segundo afirmam, ha mais opcoes, e os precos sao mais baixos, mesmo considerando os gastos com a viagem. Lojas de tecido, de bijuterias e de utensilios domesticos costumam ser os locais principais de busca dos elementos necessarios. As fantasias e aderecos sao sempre resultado de processos de adaptacao. A partir do que encontram fazem recortes, colagens, montagens. Sao os proprios funcionarios do museu com auxilio de alguns membros da ATA que confeccionam a quase totalidade desses artefatos. As vezes solicitam algum servico externo, de costureira, ferreiro, soldador, por exemplo. De modo geral, a producao da boneca e do bloco e trabalho semelhante ao de um bricoleur, que junta retalhos, cria e recria sobre esses materiais.

O ponto alto desse trabalho e o dia da "vestimenta de Mamae", que costuma acontecer dois dias antes do desfile do bloco. O evento e descrito pelo grupo como um ritual. A boneca e retirada do espaco de exposicao e colocada no primeiro andar, na sala do 'fazer alagoano', ou no patio. Nesse dia, alem dos funcionarios do museu, comparecem tambem outros "filhinhos da Mamae", integrantes da Ata, e ajudam no trabalho, que ganha carater coletivo. Durante todo o dia ha grande movimentacao no museu em torno da boneca. Retira-se a roupa anterior, fazem-se arremates na nova, pequenos reparos na propria boneca, afixamse suas joias e ornamentos.

Esse processo tem por intencao atrair distintos publicos e provocar distintas interacoes com e a partir da boneca. Por um lado, reune o grupo em torno de Mamae, criando um espaco de encontros que nao raro e unico ao longo do ano; por outro, atrai a midia local interessada em noticia-lo como prenuncio do precarnaval local. Ao longo do dia reporteres surgem em busca da pauta sobre um ja reconhecido circuito do carnaval da cidade. Eles filmam, fotografam, entrevistam. Parte do material e estampado no dia seguinte nas paginas dos jornais. Outras partes sao transmitidas ao vivo pela televisao.

Ao final, Mamae esta pronta e e "oficialmente" apresentada ao publico. La ela permanece ate o dia do desfile. Nesse intervalo de tempo e recorrente o fato de alguns folioes que vem deixar sua contribuicao no livro de ouro ser levados ate Mamae para ve-la. Nos termos dos interlocutores, Mamae fica a espera de que seus tilhinhos venham cumprimenta-la. Algo jocosamente inspirado nos rituais de beija-mao do periodo monarquico.

O transito entre o museu e a festa, aberto por Mamae na sala do festejar alagoano, com o passar do tempo foi-se estendendo a outros objetos doados e/ ou sob guarda do museu. E Mamae que, a partir desse setor do museu, instaura o aspecto carnavalizado que, no periodo momesco, se expande a toda a instituicao. Quanto mais se aproxima o carnaval mais vazia vai ticando a sala. A Moreninha, outra boneca gigante, e os estandartes exibidos nas paredes descem para o patio a tim de passar por alguma manutencao. Eles ticam expostos na concentracao do Filhinhos da Mamae no MTB e costumam destilar pelas ruas da cidade no sabado pre-carnaval junto com o bloco Pinto da Madrugada. (18)

A BONECA GIGANTE E OS CARNAVAIS DE MACEIO

Mais do que do transito de objetos entre festa e museu, Mamae e, no argumento de seus detentores, uma detonadora das atuais configuracoes da cena de carnaval local. Ronaldo Andrade enfatiza que, no momento em que decidiram criar um bloco a partir da boneca, o carnaval de Maceio passava por um periodo de ostracismo. A saida era ir para Salvador, a epoca com efervescente carnaval de rua pelos bairros, diferente do cenario atual, cuja circulacao, acrescenta o ator, ocorre na orla no rastro dos trios eletricos. Uma segunda opcao era ir para Recife e Olinda, que, segundo sua opiniao, naquele momento nao tinham a forca que tem hoje. Perguntado sobre o motivo da opcao por previas carnavalescas em lugar de criar esse circuito no proprio carnaval e categorico: "dessa forma podiamos ter nao so o nosso carnaval, como ainda ir brincar em Salvador." (19)

O local escolhido para o destile do bloco foi o bairro do Jaragua, proximo ao porto e ao MTB. O bairro, um dos mais antigos da capital alagoana, passou por periodo de decadencia em meados do seculo passado com o crescimento da cidade e expansao em direcao a orla da Pajucara e Ponta Verde. Ha alguns anos a prefeitura elaborou um projeto de revitalizacao do lugar. Associado a ele, veio o processo de patrimonializacao, consagrando-o nucleo historico da cidade, com o tombamento de um conjunto de imoveis. Segundo alguns interlocutores, a escolha daquele local para o circuito do cortejo momesco dialoga com um dito 'carnaval antigo' do municipio, considerado aureo e que tinha no Jaragua um ponto de referencia. E uma nostalgica tentativa de inatingivel retomada desse pertil de carnaval que esta por tras da proposta.

Depois do ato isolado desencadeado por Mamae, observa-se em Maceio, no inicio dos anos 80, iniciativas semelhantes. Elas apontam para um anseio de determinados grupos oriundos das camadas medias urbanas em ter o "seu" carnaval na rua. Alem do Filhinhos da Mamae surgiram alguns blocos que desfilavam pelo bairro do Jaragua e pelo Centro da cidade. O destino de boa parte deles foi semelhante. Surgiram, cresceram e declinaram na segunda metade da decada. Alguns foram sendo retomados a partir dos anos 90, consolidando o discurso de Maceio como cidade do pre-carnaval. (20) Atualmente, alem do espaco de desfile no Jaragua alguns desses blocos disputam tambem na memoria local o lugar de pioneirismo quanto ao suposto (res)surgimento do carnaval de rua.

Hoje, a programacao da folia pre-carnavalesca ocorre em dois dias: na noite de sexta-feira e durante o dia do sabado da semana que antecede a do carnaval. A primeira gira hoje em torno do Jaragua Folia. (21) Trata-se de evento livre de cordas e abadas criado em 1999 com a proposta de fomentar o carnaval de rua para as camadas medias urbanas. A ideia era possibilitar a qualquer pessoa que tivesse uma "troca" minimamente organizada traze-la para a rua. Trios e caminhoes de som eram e ainda sao proibidos. A musica deve ser executada por orquestras ou pequenos carros sonoros de baixa potencia. Diferente dos anos 80 com a circulacao de alguns poucos blocos pelas ruas do bairro, o Jaragua Folia envolve o desfile de mais de 100 agremiacoes, que tem seu ponto de concentracao e partida em locais variados, mas que convergem ao atravessar a rua principal do bairro, que se transforma numa especie de 'avenida do carnaval'.

Na manha de sabado o cenario da festa se desloca para a Praia da Pajucara, um dos principais pontos turisticos da cidade. Diferente da noite de sextafeira, cujo discurso e o da busca de um carnaval genuinamente local, esse e um carnaval que dialoga com as configuracoes contemporaneas da festa em grandes centros urbanos e voltadas para grandes massas. A principal atracao e o bloco Pinto da Madrugada, referencia ao Galo da Madrugada, de Recife. Composto pela juncao de varios blocos, arrasta uma multidao de cerca de 100 mil pessoas pela orla. Alem dele, outros blocos desfilam com trios eletricos e alguns com abadas, como o Pecinhas, bloco originalmente de homens que se vestiam de mulher.

Observa-se relativa tensao entre o modelo de sexta a noite e o de sabado durante o dia, em torno de categorias como nostalgia, identidade e autenticidade. Os organizadores do Jaragua Folia e membros de alguns blocos afirmam que o pre-carnaval do Pinto da Madrugada--e os blocos que circulam na sequencia--e mais uma afirmacao do resquicio da subserviencia de Alagoas a Pernambuco, (22) e que a festa feita com trios eletricos descaracteriza a essencia historica do carnaval local. Em contraposicao, o carnaval da sexta a noite seria algo investido de um discurso de pureza em relacao ao sentido original da festa e de um carnaval, como dito, genuinamente local. Os organizadores do Pinto da Madrugada, por sua vez, afirmam ser sua unica intencao a de fazer uma grande festa que possa levar as ruas as pessoas com suas familias e suas criancas para se fantasiar e brincar.

A agitacao do pre-carnaval contrasta com um discurso do esvaziamento da cidade no carnaval propriamente dito. Sao recorrentes as narrativas de que nao ha nada entao na cidade, que se torna lugar mais adequado aos que desejam descansar. Trata-se na verdade de discurso que reclama a ausencia de um carnaval estruturado e de grande porte nas areas centrais da cidade, tal qual acontece nas capitais vizinhas, Salvador e Recife. Ha, no entanto, uma serie de blocos de rua, bois de carnaval, "brincadeiras de bobo" espalhadas pelos bairros, alem do destile das escolas de samba da cidade, que ocorre na avenida proxima ao Porto. A festa desloca-se de seu eixo geografico citadino e tambem de publico, visto que o pre-carnaval e pensado e produzido para as camadas medias urbanas, e o carnaval em si circula pelas regioes perifericas da cidade.

OS FILHINHOS DA MAMAE DO MTB AO JARAGUA FOLIA

O destile do Filhinhos da Mamae ocorre sempre na sexta-feira a noite e, hoje, integra o circuito do Jaragua Folia. A festa tem inicio ao cair da noite no patio do MTB, embalada ao som do frevo por uma cantora local (Figura 13). Por volta de dez horas da noite o patio esta lotado. A medida que o publico chega, sao notorios a grande quantidade de pessoas fantasiadas e o perfil diverso dos folioes. Esses elementos sao recorrentemente enfatizados pelos funcionarios. O mais antigo deles, Ze Carlos, afirma: "o bloco e democratico, nao tem corda e a unica coisa que pedimos as pessoas e que venham fantasiadas". A presenca das pessoas fantasiadas e colocada como uma especie de "contradadiva" (mauss, 2003) ao trabalho feito pelos funcionarios de estruturar e colocar o bloco na rua; um elemento que consolida a composicao do bloco e que, segundo ele, acaba por atrair diferentes geracoes, tornando aquele um espaco ludico.

A festa engloba um conjunto de atividades e performances. A primeira delas e o concurso de fantasias Pedro Tarzan, conhecido personagem da historia do carnaval de rua local. (23) Trata-se de uma brincadeira com os "serios" concursos dessa modalidade. Os folioes sao convidados ao palco para exibir suas fantasias, concorrendo ao premio de um maraca para cada um dos tres primeiros colocados. O repertorio inclui desde as mais luxuosas e elaboradas fantasias ate um singelo nariz de palhaco. A decisao e feita pelo publico presente.

As demais atividades podem variar a cada ano, e as apresentacoes sao relativamente curtas, com cerca de meia hora. Sao bastante comuns a presenca e a performance do Transarte, grupo de teatro local voltado para o campo do folclore e da cultura popular. Do mesmo modo, e recorrente a presenca do grupo de boi Dragao Lagense, da cidade de Sao Jose da Lage, situada a cerca de uma hora de Maceio. A criacao desse grupo foi estimulada por Ronaldo Andrade, natural da cidade, como uma forma de estimular a cultura popular local. Recentemente tem sido estimulada pela nova direcao do museu (24) tambem a incorporacao de apresentacoes de grupos culturais locais como maracatus e caboclinhas.

Cerca de 30 minutos antes da meia-noite sobe ao palco a Orquestra Filarmonica Santa Cecilia. Composta por cerca de 30 membros com instrumentos de sopro, ela acompanha as saidas do bloco ha varios anos. A orquestra e oriunda da cidade de Marechal Deodoro, vizinha a capital, Maceio, e conhecida por suas 'tradicionais' bandas de musica. Ela comeca a "esquentar" o publico para o inicio do cortejo pelas ruas da cidade.

A meia-noite, uma queima de fogos anuncia a saida do cortejo. Mamae e erguida e parte, entao, em direcao a rua. O patio do museu esvazia-se e logo e fechado. O bloco segue pela Avenida da Paz em direcao ao Jaragua ao som das marchinhas entoadas pela Santa Cecilia. Ao longo do cortejo observa-se uma mudanca no perfil do publico. Muitos folioes de maior idade e outros que vao com suas familias vao ficando pelo caminho. Em compensacao, um publico mais jovem que estava pelas ruas brincando em outros blocos que desfilam na mesma noite vaise agregando ao Filhinhos da Mamae.

O cortejo e uma mistura da brincadeira dos folioes e da performance por parte dos elementos que compoem a estrutura do bloco. Os guardioes e o 'arauto' que leva o estandarte principal seguem mantendo tom sobrio, como uma marcha, enquanto dois carregadores fazem Mamae dancar em movimentos contidos, (25) somando-se a descontracao dos brincantes que os seguem.

O ponto alto da passagem do bloco nessa rua e do desfile em si e a chamada apoteose de Mamae (Figura 14). Consiste na subida da boneca e seus guardioes pelas escadarias do edificio da Associacao Comercial de Alagoas. Trata-se de destacada edificacao em estilo ecletico de maiores volumetria e imponencia do que as do conjunto que a cerca. A intencao e colocar Mamae no mais alto patamar, para que possa ser apresentada a todos. Ali, ela permanece por algum tempo, a fim de ser vista e tambem brincar com os folioes. A orquestra continua tocando, parada nos primeiros degraus da escada. E um momento de confraternizacao geral entre as pessoas que tem ligacao mais proxima com o bloco, como os funcionarios do MTB e os atores fundadores da ATA.

O desfile, no entanto, nao acaba ali. O bloco desce as escadas e segue ate a Igreja de Nossa Senhora da Misericordia, ou Nossa Senhora Mae do Povo, como tambem e conhecida. Apos pedir a bencao a Nossa Senhora para desfilar no ano seguinte, o bloco encerra oficialmente seu desfile, e o publico se dispersa. Mamae e carregada num caminhao de volta ao MTB. Na segunda-feira e levada para a sala da exposicao, onde, com sua nova vestimenta, ficara exposta ate o proximo carnaval.

CONSIDERACOES FINAIS

Acompanhar os usos e circulacoes da boneca gigante Mamae e uma instigante forma de observar como um grupo de pessoas exalta e reverencia Alagoas fazendo uso de instituicoes culturais e do espaco urbano. Por seu intermedio pode-se identificar uma 'parte' que se constroi da bricolagem de fragmentos simbolicos, culturais e historiograficos locais que pretende, de modo alegorico, ser uma exaltacao do todo, um mosaico do territorio alagoano e seus sistemas culturais --dos mitos fundadores presentes na peca teatral Estrela Radiosa as cidades, festas, instituicoes.

Entre museu e carnaval, a biografia de Mamae vem sendo construida num transito permanente entre diferentes "mundos"--o das coisas, o dos museus e o dos carnavais. Enquanto circula entre um e outro, Mamae agrega em torno de si diferentes sentidos e concepcoes de tempo, espaco, exibicao publica e diferentes formas de dialogo com o espaco urbano, acionadas para a construcao de sujeitos culturais. Essas narrativas (des)encontradas sao todas, entretanto, complementares, e e em seu conjunto que melhor se visualiza o projeto de um determinado grupo de se fazer visivel e construir territorios na urbe. Sob esse aspecto, as praticas de exibicao em que a boneca esta atrelada podem ser pensadas como mecanismos de distincao. Sao processos analogos a um projeto curatorial que envolve enquadramentos, selecoes, silenciamentos nem sempre faceis de ser modelados. Sao narrativas expostas no cenario urbano sobre representacoes publicas de passados, identidades, culturas. Nesse caso, Mamae exibe, entre outras coisas, um "texto" sobre ser alagoano elaborado para ser visto e vivenciado em diferentes espacos da cidade. Em torno dela se configuram museografias urbanas (REIS, 2012).

Enquanto objeto de carnaval (e, por que nao?, tambem teatral), a boneca gigante desestabiliza o estatuto recorrente desses materiais feitos para ser destruidos. Ao contrario, ela ultrapassa uso e temporalidade ritual, e carrega suas marcas para outro espaco de circulacao, o museologico. No cenario momesco, a boneca leva para a rua uma Alagoas dos atores e intelectuais, das camadas medias urbanas, do ideario romantico em relacao a um carnaval de rua animado por orquestras de frevo, cuja referencia e a primeira metade do seculo passado. Contrapoe-se desse modo ao carnaval contemporaneo dos estados vizinhos, Bahia e Pernambuco, ao mesmo tempo em que bebe de suas fontes para construir algo diferente e denominado genuinamente alagoano. O bairro do Jaragua consolidou-se como lugar dessa exibicao publica dado o apelo de sua historicidade, associado a fundacao da cidade.

Enquanto objeto de museu, Mamae subverte a perspectiva tradicional dessa instituicao e seu compromisso com a conservacao. Sua biografia atentou para possibilidades de desestabilizar classificacoes conservadoras sobre o que constitui um objeto de museu (ou, ate mesmo, um objeto etnografico?). De tal forma, alem da perspectiva recorrentemente citada de Pomian (2003), de que ao ser destinados aos museus os objetos tornam-se semioforos, deslocando-se do cotidiano para adentrar um tempo eterno, Mamae leva a pensar que alguns objetos, de outro modo, movimentam em torno de si tanto o tempo cotidiano e extracotidiano quanto o suposto tempo "estavel" do museu. Seu lugar de exibicao museologica e um dos mais conhecidos museus da cidade e que se conecta, em termos geograficos, tambem com o bairro do Jaragua. Nessa exibicao, Mamae chama a atencao para o aspecto urbano em um circuito expositivo que exalta, sobretudo, o mundo dos engenhos.

Enquanto objeto Mamae expoe a dificuldade de classificacao das coisas --e por extensao das pessoas--ou, pelo menos, chama a atencao para o fato de que elas estao expostas a diversas possibilidades de classificacao, circulando em varios contextos. De tal forma, mais do que uma boneca gigante, teatral, carnavalesca e museologica, talvez Mamae possa ser vista tambem a partir de outros olhares que nao foram explorados neste estudo.

Entre os diferentes espacos em que circula, a boneca dialoga tambem com distintas visoes sobre folclore e cultura popular. Nao se trata de sofisticadas elaboracoes teoricas sobre tais termos realizadas pelos organizadores do Filhinhos da Mamae. Antes disso, sao construcoes nativas de sentido, estrategias discursivas e de autopercepcao. Ja foi citada a construcao retorica de Mamae enquanto um objeto folclorico como estrategia discursiva para destina-la ao Museu. Justificava esse argumento o principio de que o MTB carecia de um olhar mais ativo sobre o carnaval. Mais do que isso, a boneca levou para dentro da instituicao um alargamento de sua proposta de ver culturas. Como ja dito, para alem do mundo dos engenhos, Mamae colocou-se no extremo oposto do circuito expositivo: o mundo urbano contemporaneo.

As nocoes de folclorico e popular construidas em torno de Mamae instigam a lembrar a sugestao de Fabian (1998) de que cultura popular e um conceito modelavel e uma boa maneira de pensa-lo e com "signals, discursive strategies and research practices that produces a certain kind of knowledge" (p.1). Enquanto reflexo da articulacao de grupos oriundos das camadas medias urbanas--e que assim se denominam--, a construcao do ideario folclorico e popular de Mamae e fundada tambem numa percepcao bidirecional. Por um lado, na percepcao de que a aceitacao do bloco e o crescimento de seu publico em tres anos de desfile (1983 a 1985), ja o havia tornado popular--com sentido proximo da ideia de popularizacao; por outro, e de modo amplo, partindo da ideia de que o Filhinhos da Mamae, como qualquer bloco de carnaval, estaria inserido em um todo maior do carnaval como uma festa popular.

A carnavalizacao perpassa assim as formas e diferentes espacos de circulacao de Mamae, que carnavaliza e rebaixa universos relativamente estaveis e convida a pensar em novas possibilidades de construcao de si e de agencias culturais. Oferece uma visao tensa e desestabilizadora do mundo: a permanencia no espaco do efemero, o risco do efemero no lugar da permanencia.

Ao carnavalizar museus, carnaval, pessoas, a boneca gigante dialoga com a construcao de diferentes perspectivas sobre o tempo. A "casa da gente alagoana" e o "reinado do riso" momesco colocam-na em dupla temporalidade, uma sendo a do calendario anual das festividades populares apresentadas e representadas no MTB. E parte de um cenario e de temporalidade 'vertical' em que se incluem como os 'tempos fortes' o Sao Joao em junho, o mes do folclore em agosto e o ciclo natalino em dezembro. Nesse contexto, em especial nas datas citadas, notase predisposicao da instituicao em interagir com os detentores dos saberes que exibe em seus espacos museologicos. Outra temporalidade e a do proprio carnaval: um tempo "horizontal", no qual um sistema de trocas entre o grupo citado e a cidade se torna mais intenso. Nesse regime temporal, Mamae dialoga, para alem do museu, com o circuito carnavalesco da cidade de forma intensa e agonistica, entre aproximacao e distanciamento, afirmacao e negacao em relacao a modelos e grupos que organizam determinados carnavais.

Mamae pode ser pensada em meio a um sistema de trocas totais ou de reciprocidade--ppelas quais desencadeia interacoes. Se, como afirma Marcel Mauss (2003), as coisas tem alma, os transitos de Mamae talvez possam ser vistos sob o prisma de uma "alma compartilhada das coisas". Essa talvez seja tambem uma das marcas de sua trajetoria. Nunca e ofertada como um todo, mas sempre compartilhada--e por meio desse compartilhamento se expressa um convite a compartilhar tambem determinada visao de mundo, integrando o teatro e o publico que assiste, o museu e o publico que o visita, o carnaval e o publico que brinca. Compartilhar, nesse contexto, e uma forma de expansao de subjetividades e de experiencia coletiva dos circuitos culturais alagoanos. De aprender a dividir uma visao de si e do nos enquanto alagoanos. Mamae demarca essa posicao e permite dividi-la com outrem. A coisa dada--nesse caso cedida--e acompanhada de quem a da, de quem a cede. Mamae, ao constituir moralidades e articular diferentes temporalidades, experiencias e valores, e o dinamo desse sistema de trocas e cessoes.

DOI: 10.12957/tecap.2014.16236

Daniel Reis (CNFCP)

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NOTAS

(1) Todas as fotos desse artigo foram feitas pelo autor.

(2) Homero Cavalcante e ator, professor da Ufal, membro da ATA e um dos funda dores do bloco Filhinhos da Mamae.

(3) Carmen Lucia Dantas e museologa, formada pela Escola de Museologia da Uni Rio. Ao retornar para Alagoas, em tinais da decada de 1970, foi convidada a trabalhar no MTB. No final dessa decada assumiu a direcao institucional, permanecendo ate meados dos anos 80. Voltou ao cargo em 2002, dirigindo o projeto de revitalizacao institucional.

(4) As versoes anteriores foram destruidas pela chuva e deterioracao. Em funcao do espaco concentraremos maior atencao neste texto a circulacao da boneca entre museu e carnaval do que em extensa biografia de suas versoes.

(5) Esse transito era recorrente nas familias de classe media de alguns estados do Nordeste que enviavam seus filhos para estudar--mais recorrentemente pela proximidade--em Salvador e Recife, mas tambem no Rio de Janeiro e em Sao Paulo.

(6) A Comissao Nacional de Folclore foi criada em 1947 a partir da recomendacao da Unesco para que paises signatarios criassem organismos voltados para salvaguardar manifestacoes em eminente risco. No Brasil a CNF se articulou por meio de comissoes estaduais, entre elas a do Estado de Alagoas.

(7) Essa categoria da titulo tambem a obra de Jose Lins do Rego Menino de engenho, publicada em 1932 e que marca a estreia do autor no genero romance. Diferente, no entanto, dos relatos encontrados a respeito da relacao de Theo Brandao, suas memorias e o engenho, a obra de Lins do Rego traz como pano de fundo uma serie de tensoes sobre o mundo dos engenhos da cana-deacucar das primeiras decadas do seculo XX, como afirma Antonio Carlos Vilaca no texto de apresentacao da 80- edicao publicada pela editora Jose Olympio em 2001: "O Brasil estava realmente no livro sincero e espontaneo daquele rapaz."

(8) A presenca de quadro semelhante em outras regioes do pais e algo a se investigar.

(9) Felte Bezerra, natural de Sergipe, a exemplo de Theo Brandao, formou-se em medicina dedicando-se em seguida a antropologia.

(10) Calheiros, Vera. Entrevista concedida. Rio de Janeiro, 2008; Brandao, Walter. Entrevista concedida. Rio de Janeiro, 2009.

(11) Como afirma Goes Dantas analisando a trajetoria de Felte Bezerra: "Esta associacao entre o ensino de Antroplogia e profissionais com formacao medica (...) imprime uma marca muito forte a Antropologia do Nordeste."

(12) Informacao obtida com varios interlocutores sobre Theo Brandao. Ainda nao foram localizadas em seus manuscritos referencias a esse dado nem como se, em meio a essas recolhas, devolvia tambem esses objetos a seus proprietarios quando identificados, hipotese que nao e descartavel. Sabe-se tambem que ele foi um dos atores que atuaram no processo de recuperacao da atual Colecao Perseveranca, importante conjunto de objetos hoje sob cuidados do Instituto Historico e Geografico de Alagoas.

(13) Calheiros, Vera. Entrevista concedida. Rio de Janeiro, 2008; Lobo, Fernando. Entrevista concedida. Maceio, 2008; Brandao, Walter. Entrevista concedida. Rio de Janeiro, 2009.

(14) Esse discurso foi proferido no dia 20 de agosto de 1977 na inauguracao da sede definitiva do Museu na Av. da Paz. O museu havia sido criado dois anos antes e instalado provisoriamente na casa de numero 3 do Campus Tamandare situado no Pontal da Barra em Maceio.

(15) Essa exposicao (atualizacao de um projeto realizado em 1984 e que marcou um projeto de reestruturacao institucional incorporando de modo 'forte' um discurso antropologico de cultura) foi fechada em 2010 para reformulacao. Um novo projeto esta previsto para ser inaugurado em 2015.

(16) Cabe aqui chamar a atencao para o fato de que um dos autores do projeto expografico de 2002 do MTB e Raul Loody, antropologo, leitor de Gilberto Freyre e com ela bastante identificado.

(17) Essa definicao (que costuma aparecer em relacao as escolas de samba do Rio de Janeiro nas ultimas decadas) e usada por Edberto Ticianeli. Alem de jornalista, empresario e produtor cultural, atuou tambem na area politica tendo ocupado cargos de vereador de Maceio e secretario de Cultura do estado. E personagem importante para pensar as configuracoes do carnaval recente de Maceio por ter participado da elaboracao de varios projetos, como o Jaragua Folia.

(18) A festa movimenta tambem um pequeno comercio de bebidas e comidas. Alguns vendedores se inscrevem para poder vender produtos dentro do patio do museu, e apenas um numero limitado e aceito para nao comprometer os espacos de circulacao. Do lado de fora, onde a maioria tem de permanecer, os demais chegam cedo para marcar seu lugar nas proximidades da porta do museu.

(19) Andrade, Ronaldo. Entrevista concedida. Maceio, 2010.

(20) Data tambem dos anos 90 iniciativas como o Maceio Festa, carnaval fora de epoca que obteve grande ressonancia a atraia grandes publicos ate 2005. Trata-se, no entanto, de evento com formato inspirado no modelo das micaretas, com abadas e trios eletricos.

(21) O Jaragua Folia foi planejado, como citado por Edberto Ticianeli. Foi tambem um dos criados a partir de um dos blocos que circulavam pelas ruas do Centro e Jaragua nos anos 80, o Meninos da Albania.

(22) Alagoas era parte de Pernambuco ate 1817. Ainda hoje ha debates locais sobre as influencias culturais de Pernambuco sobre Alagoas e uma identidade alagoana.

(23) Pedro Ferreira (1929-2001) ou Pedro Tarzan tornou-se conhecido no carnaval alagoano em funcao de seu porte fisico e suas fantasias sempre inspiradas em personagens do cinema.

(24) Em 2010 o antropologo Wagner Chaves assumiu a direcao do MTB. Desde entao vem realizando um trabalho de reestruturacao da instituicao, valorizando-a. Esse trabalho inclui, entre outros aspectos, a pesquisa sobre o acervo do museu e maior dialogo com os grupos culturais locais.

(25) Ha alguns anos o principal carregador da boneca e Walmir, que trabalha tambem como vigilante no museu. Ele alterna essa funcao com mais um convidado ao posto a cada ano.

Daniel Reis e antropologo, pesquisador do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.

Recebido em: 14/04/2014

Aceito em: 26/04/2014
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Reis, Daniel
Publication:Textos Escolhidos de Cultura e Arte Populares
Article Type:Ensayo
Date:May 1, 2014
Words:11172
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