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Between precision and accurecy: the magnifying glass of Luiz Cristiano de Andrade on Historia do Brasil (1630) by Frei Vicente do Salvador/Entre precisao e rigor: a lupa de Luiz Cristiano de Andrade sobre a Historia do Brasil (1630) de Frei Vicente do Salvador.

ANDRADE, Luiz Cristiano de. A Narrativa da Vontade de Deus: a Historia do Brasil de frei Vicente do Salvador. Rio de Janeiro: FBN, 2014. 281p.

A Narrativa da Vontade de Deus: a Historia do Brasil de frei Vicente do Salvador (2014, 288p.), de Luiz Cristiano de Andrade, com apresentacao de Marcus Venicio T. Ribeiro, e daqueles livros em que os termos precisao e rigor podem ser aplicados. Fruto de uma dissertacao de mestrado sob orientacao de Andrea Daher (UFRJ/PPGHIS), defendida em 2004, o livro de Luiz Cristiano de Andrade analisa a Historia do Brasil (1630), de Frei Vicente do Salvador, tendo em vista nao apenas as interpretacoes oitocentistas/novecentistas documentalista/positivista, mas principalmente o texto como genero em sua forma e funcao. Como discurso demonstrativo-deliberativo, didatico de estilo medio ou temperado.

No seculo XVII, historia e, como dicionariza Rafael Bluteau, palavra derivada do grego eido ('vejo', que, no passado quer dizer 'sei'). "Historia e narracao de cousas memoraveis, que tem acontecido em algum lugar, em certo tempo, &, com certas pessoas, ou nacoes" (BLUTEAU 1712). Narrativa historica, no seculo XVII, e subgenero do epiditico (ou demonstrativo) alto, com elementos do judiciario, que ajuizam o passado e do deliberativo, que aconselham os fazeres futuros contingentes.

Os meios palacianos e eclesiasticos, por onde a prosa de frei Vicente circulou, implicam a constituicao de interlocutores para quem o sentido da historia e providencial. Na base do discurso do frei, tem-se as coisas (res) presentes por meio do exemplo das passadas. Isso supoe metafisica teologico-politico- retorica. Na metafisica de que frei Vicente participa, Deus e o fundamento transcendente do poder do Estado. A historia participa da identidade absoluta indeterminada de Deus, cujo sentido providencial revela Sua vontade em coisas, homens e eventos. Experiencia que revela o ditado transcendente no pacto de sujeicao e alienacao da comunidade aos "dois corpos do Rei", o corpo terreno e o transcendente (KANTOROWICZ 1998).

Os procedimentos de leitura propostos pelo autor possibilitam reconstruir o funcionamento do genero historico. Luiz Cristiano de Andrade empenha-se justamente com precisao e rigor na empreitada de, arqueologicamente, reconstruir o funcionamento do texto. Ao investir na leitura e enfrentar a narrativa seiscentista de frei Vicente do Salvador, Luiz Cristiano nos oferece a primeira legibilidade normativa da Historia do Brasil (1630). Isto e, o trabalho mostra os modelos retoricos, teologico-politicos da historia; trata da politica catolica portuguesa do seculo XVII, da "neo-escolastica", do "aristotelismo-tomista", da sociedade de corte. Aspectos de suma importancia para esse estudo, agora publicado pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Luiz Cristiano sabe e demonstra que, para o genero historico, a analogia e utilizada para permitir o encontro do humano com o divino na historia. Analogia tem sentido tomista de participacao que as criaturas tem em Deus enquanto Seus efeitos. Ela e estabelecida, escolasticamente, na relacao entre o natural e o divino, e utilizada no discurso como base para o "ornato", entre conceitos engenhosos e os sinais divinos no mundo, entre as figuras da tecnica discursiva (colhida principalmente em Aristoteles) e as da providencia. Esse e o tipo de prova da historiografia estudada. As provas sao analogos de Deus que, em sentido tomista, levam a "verdade". A "verdade" proposta por meio da narrativa da Historia do Brasil (1630) e forjada por topicas teologico-politico-retoricas providenciais, associadas a relacao paternal de Deus para com o povo. Vontade de Deus associada a providencia, como eleicao. Razao para o livro se chamar A narrativa da vontade de Deus.

A obra de frei Vicente do Salvador fora encomendada por Manuel Severim de Faria, chantre da Se de Evora, e permaneceu inedita ate 1888 quando Capistrano de Abreu a editou, primeiro nos Anais da Biblioteca Nacional (vol. 13), segundo em uma edicao critica (1918). A Historia do Brasil (1630) tem como principais materias, dispostas em cinco livros, descricao das gentes, arvores, animais e os modos como fora governado o Estado do Brasil e por quais governantes ate 1627. Para alem da descricao da terra, frei Vicente se ocupa das capitanias hereditarias, e de narrar as acoes, sempre gloriosas, de seus governantes. Destaca-se, entre as materias da Historia do Brasil (1630), a narrativa das ocupacoes holandesas no Estado do Brasil e sua interpretacao providencial construtora do herege invasor.

Para frei Vicente do Salvador, como para letrados luso-brasileiros do seculo XVII, a guerra com holandeses foi gerada por meio do pecado. Como castigo ao pecado, o imperio portugues, ao menos parte dele, e ameacado, invadido, ocupado, saqueado.

O livro de Luiz Cristiano de Andrade divide-se em tres capitulos acrescidos de Introducao, Conclusao, ilustracoes, Bibliografia (atualizada) e Anexo. O Anexo seleciona documentacao relativa a edicao da Historia do Brasil (1630) nos Anais da Biblioteca Nacional.

O primeiro capitulo ocupa-se da fortuna critica do texto, com destaque para a leitura de Capistrano de Abreu. Ou seja, expoe e desconstroi a visao nacionalista que atribui a frei Vicente do Salvador o lugar de primeiro historiador brasileiro, autor de um texto que e documento da nacionalidade. Nos dizeres de Luiz Cristiano de Andrade:

[...] do mesmo modo, no Brasil, o funcionamento especifico da historiografia oitocentista resultaria em um uma leitura anacronica dos papeis coloniais, entendida ao longo do seculo XX. Essa leitura, ainda hoje [e] professada frequentemente [...]. O tratamento conferido pelo historiador cearense a Historia do Brasil foi considerado exemplar e inquestionavel pelos especialistas que o sucederam [...] (ANDRADE 2014, p. 68).

O autor, neste sentido, toma Capistrano como problema historiografico, "a medida que as nocoes romanticas de nacao e documento, aplicadas para compreensao do periodo colonial brasileiro" foram repetidas incansavelmente. (ANDRADE 2014, p. 68). Com isso Luiz Cristiano, desfaz mitos e anacronismos. Desnaturaliza, assim, a pratica letrada que estuda.

O segundo capitulo trata dos preceitos da historia, suas leis segundo Manuel Severim de Faria, dos Discursos Varios Politicos (1624), como verdade, clareza e juizo. O texto de Manuel Severim de Faria funciona para frei Vicente, e no livro de Andrade, como um "metatexto" (um comentario prescritivo) da dedicatoria que frei Vicente faz a chantre da Se de Evora. Clareza, qualidade de estilo, e traco de Joao de Barros, que frei Vicente emula. Verdade e juizo sao categorias proprias do genero historico, em sua longuissima duracao, atualizadas nos textos.

O terceiro capitulo analisa a Historia do Brasil, utilizando decorosamente categorias teologico-politico-retoricas de sua invencao tais quais: livre- arbitrio, graca, discordia, concordia, dissimulacao honesta, bem-comum, guerra justa, prudencia, razao de Estado.

Luiz Cristiano de Andrade faz critica do documento. Nao toma a narrativa da historia como um dado ou evidencia, mas reconstroi sua forma mentis. Ocupa-se das principais materias da historia e de sua interpretacao segundo sentidos do seculo XVII. Como espelho de principes a historia seiscentista, demonstrada por Andrade, atualiza as topicas, as categorias mencionadas anteriormente, para ensino e deleite.

A dissertacao, em livro, ganhou ilustracoes do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Pertinentes, as imagens concorrem para historiar o trabalho. Sao imagens como: retrato de Sao Francisco de Assis (lembre-se de que frei Vicente do Salvador era franciscano), reproducao da folha de rosto do manuscrito da Historia do Brasil (1630), reproducao de mapas, entre outras.

Se fosse escolher uma lupa para aplicar sobre a Historia do Brasil (1630), escolheria, certamente, a lupa de Luiz Cristiano de Andrade. Ela evidencia um sentido verossimil para a construcao, circulacao e recepcao da historia no seculo XVII luso-brasileiro, em particular a historia de frei Vicente do Salvador. Despsicologiza, desmoraliza e desnacionaliza o objeto "colonial".

Assim como para frei Vicente do Salvador escrever historia era batalhar, na chave letras e armas, para quem analisa uma das praticas letradas seiscentistas, a historia, e necessario ser preciso e rigoroso. Isso o autor de A Narrativa da Vontade de Deus: A Historia do Brasil de frei Vicente do Salvador demonstra ser em sua dissertacao agora em livro.

Keywords

Historiography; Ars historica; Catholicism.

Palavras-chave

Historiografia; Ars historica; Catolicismo.

doi: 10.15848/hh.v0i18.909

Recebido em: 8/4/2015

Aprovado em: 29/5/2015

Eduardo Sinkevisque

esinkevisque@hotmail.com

Doutor pesquisador

PNAP-R--Fundacao Biblioteca Nacional

Av. Rio Branco, 219--Centro

20040-009--Rio de Janeiro--RJ

Brasil

Referencias bibliograficas

ANDRADE, Luiz Cristiano de. A Narrativa da Vontade de Deus: a Historia do Brasil de frei Vicente do Salvador. Rio de Janeiro: FBN, 2014.

BLUTEAU, Rafael. Vocabulario portugues e latino (...). Colegio das Artes da Companhia de Jesus: Coimbra, 1712. T. 4, p. 39-40.

KANTOROWICZ, Ernst H. Os dois corpos do rei: um estudo sobre teologia politica medieval. Traducao de Cid Knipel Moreira. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1998.
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Title Annotation:texto en portugues; A Narrativa da Vontade de Deus: a Historia do Brasil de frei Vicente do Salvador
Author:Sinkevisque, Eduardo
Publication:Historia da Historiografia
Article Type:Resena de libro
Date:Aug 1, 2015
Words:1400
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