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BETWEEN BACKLAND AND SAVANA: PARALLELISMS AND DISPARITIES/ ENTRE EL SERTON Y EL CERRADO: PARALELISMOS Y DISPARIDADES/ ENTRE O SERTAO E O CERRADO: PARALELISMOS E DISPARIDADES.

Introducao

O objetivo principal deste trabalho e expor mais de perto o universo cultural e ambiental das populacoes que habitam o sul do estado do Maranhao, a partir de dados coletados na pesquisa: "As comunidades sertanejas da area de abrangencia do Parque Nacional da Chapada das Mesas e a sua interacao com o bioma Cerrado: entre o cotidiano vivido e experienciado em suas dimensoes socioculturais e ambientais", realizada entre 2012 e 2014, na area do Parque Nacional da Chapada das Mesas (PNCM), sul do Estado do Maranhao, municipio de Carolina e adjacencias. Nosso intuito e documentar esse modo de vida de forma a valorizar esse grupo de populacao tradicional para sua insercao no ambito das discussoes sobre as politicas publicas para essa area.

Nessa pesquisa, pudemos perceber diversas formas de viver de uma populacao que habita o que, hoje, e uma Unidade de Conservacao de protecao integral. Essas formas de vida tem como caracteristica em comum a forte ligacao com o territorio: o sertao da chapada. Assim, enveredamos nesse universo social, cultural economico e politico de forma a compreender os lacos, os fazeres, os saberes, as crencas, os valores simbolicos, enfim, os elementos constitutivos daquele grupo humano, forjados a partir de sua relacao com aquela paisagem, aquele territorio, aquela realidade social. Acreditamos, como nos ensina Massey (2015), que o espaco e uma possibilidade aberta e, portanto, abarca forte componente politico. Assim, entendemos que, ao tratarmos deste espaco na perspectiva da coexistencia de distintas e heterogeneas trajetorias, podemos tracar algumas caracteristicas desse universo cultural do sertanejo dessa regiao.

O trabalho de investigacao cientifica como um todo ocorreu por meio de analise predominantemente qualitativa, ou seja, "partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convivio os significados visiveis e latentes que somente sao perceptiveis a uma atencao sensivel." (CHIZZOTTI, 2003, p. 221) Cabe salientar que todo dado e todo fato aqui apresentados ja sao interpretacoes, nossas interpretacoes.

Este trabalho de investigacao ocorreu no periodo de 2012 a 2014, quando foram realizadas tres viagens a campo para coleta de dados e vivencia com as comunidades sertanejas da area de abrangencia do Parque Nacional da Chapada das Mesas (PNCM), para que tivessemos contato mais direto com o cotidiano dessas populacoes.

A explicitacao da metodologia da pesquisa nao traduz, entretanto, a metodologia que utilizaremos neste trabalho. Aqui, trabalharemos com a narracao, tendo em vista que, como nos ensina Larossa (1995, p. 11), "los seres humanos somos organismos contadores de historias, organismos que, individual y socialmente, vivimos vidas relatadas". Assim, em diferentes partes deste trabalho, nossa voz, nossa gramatica, nossa descoberta, em dialogo com o outro, com a alteridade deste outro sertanejo que nos fala, nos ensina, nos escuta e nos transforma.

Este artigo subdivide-se em tres partes. A primeira traz o historico da ocupacao da regiao da Chapada das Mesas, considerando que contextualizar o universo dessa pesquisa e primordial para a compreensao alargada dessa regiao. A segunda apresenta o sertao e o sertanejo com as suas formas de viver e a convivencia com o Cerrado. Ja a terceira parte discute o territorio e a territorialidade e os conflitos socioambientais que se apresentam neste momento devido as transformacoes em seu espaco comunitario, pondo em risco o bioma cerrado e, consequentemente, a cultura sertaneja da Chapada das Mesas. As consideracoes finais propoem a sintese possivel das reflexoes construidas ate o presente momento.

Contexto historico da ocupacao das Chapadas das Mesas

A historiografia e feita de escolhas, como tao bem nos ensina Certeau (1982). A decisao sobre o que lancar luz, ou o que eclipsar, o que narrar e como, e uma escolha do pesquisador. Assim, assumimos esse papel e deixamos claro que esta nao e uma historiografia classica, mas um recorte para retratar nossos estudos e reflexoes. Sabemos que, ao selecionar o que apresentar e o que discutir, ja aderimos a um pressuposto teorico-metodologico. Desse modo, escolhemos falar da presenca de indigenas Timbira na regiao e de frentes agropastoris, que adentram o territorio do Maranhao a partir do inicio do seculo XIX1, grupo populacional advindo de diferentes partes do nordeste, em especial Bahia e Pernambuco, acompanhando a expansao da atividade ganadeira, a chamada "colonizacao do gado" que se apoia na presenca dos "pastos bons" na regiao (Figura 1).

Essa denominacao de "pastos bons" e, segundo Carlota Carvalho (2006), atribuida devido a "beleza dos campos, suavidade do clima, superabundancia das nascentes de aguas correntes e perenes e a grande quantidade de frutas naturais do pais" (CARVALHO, 2006, p. 96). Importante destacar que essa visao de sertao, expressa por Carvalho, destaca profundamente um outro sertao, descrito por Cunha (1995), que aborda o sertao da Bahia, regiao do semiarido brasileiro, com uma vegetacao "triste, desolada, calcinada pelo sol" (CARVALHO, 2006, 131).

Ainda sobre o tema da penetracao ao interior, cabe destacar que o livro "Caminhos do gado: conquista e ocupacao do sul do Maranhao", de Maria Socorro Cabral (2008), aborda-o de forma bastante ampla, como tambem e feito em artigo resultante dessa pesquisa, publicado por Gomes & Fernandes (2014), intitulado: Sertao: Locus Mediterraneus.

O encontro entre as populacoes indigenas e a populacao que penetra o interior a partir das frentes de expansao pastoris e repleto de conflitos. Muitos autores (RIBEIRO, 2002; TROVAO, 2008) atestam o impacto nessas populacoes indigenas, que, no confronto, sao mortas ou expulsas do territorio. Entretanto, nesse processo, ocorre intensa troca cultural que resultou em uma ressignificacao dos modos de producao por parte desses novos ocupantes da terra--os sertanejos do cerrado.

Desse modo, o emprego de tecnicas de plantio itinerante via roca no toco, o manejo da caca, utilizacao de especies nativas do cerrado, que possibilitaram uma melhor convivencia com esse ambiente, assim como a utilizacao de redes para dormir elaboradas com fibras das especies locais, a presenca do pilao, a forma de fazer a farinha, as praticas extrativistas, o reconhecimento e uso das plantas medicinais sao resultados desse "encontro". Nesse sentido, corroboramos a afirmacao de Porto Goncalves (2008, p. 121): "o conhecimento dos povos indigenas do tronco Macro Je se transmitiu, em grande parte, para a 'sociedade sertaneja' que se alojou nos cerrados".

Marques & Amorim (2014) afirmam que essas relacoes de convivencia com o ambiente e adaptacoes pela necessidade de sobrevivencia perduraram intensivamente ate a decada de 1950, com a fixacao desses camponeses em areas categorizadas por Andrade (2008, p.61) como "as faixas de terra entre uma e outra fazenda de gado, cuja propriedade nao era reivindicada por nenhum fazendeiro." Nela permaneceram como agregados cultivando a terra sem pagar aluguel, em alguns casos, ate o presente. Esse modo de vida em terra de "Nacao", como e denominado, e comumente considerado posse, uma heranca ancestral e sem legitimidade perante os registros em cartorio.

Estas relacoes fundiarias foram se estabelecendo em um tempo de permanencia mais lento ate a chegada de uma nova frente de expansao, provocada pela construcao da estrada Belem-Brasilia, no final da decada de 50 do seculo passado, que abriu caminho para sensiveis mudancas economicas, ampliando, assim, a frente de expansao agricola direcionada para o mercado exportador, o agronegocio, monocultor e excludente.

Ressaltamos que o acesso a terra e aos recursos naturais do Cerrado comecaram a ser limitados por essa nova territorializacao que, de forma intensiva, deu inicio a producao comercial de soja, arroz, cana e eucalipto, inicialmente no municipio de Balsas, expandindo-se, depois, para outros municipios dessa regiao, como e o caso de Carolina e Riachao.

Nessa area onde tradicionalmente passavam rebanhos criados a solta, campos de soja e arroz vao, pouco a pouco, tomando o lugar da antiga paisagem, com ameaca de poluicao da agua, do solo e do ar, devido ao uso indiscriminado de agrotoxicos, e de devastacao de extensa area de cerrado sul-maranhense. Velhos costumes e tradicoes vao se desintegrando, ao mesmo tempo em que as categorias dos vaqueiros, agregados, posseiros, vao se transformando em assalariados da agricultura mecanizada. O secular mundo pastoril sobre o qual tao pouco se tem investigado vai lentamente se desmoronando. (CABRAL, 2008, p. 25)

Com a chegada do agronegocio, que impoe novas formas de relacoes com o territorio, antes livre para o uso coletivo por parte dessas populacoes, que, de uma forma muito rapida, transforma a paisagem natural do Cerrado em areas de extensas monoculturas, dois tempos coexistem em um mesmo espaco, impondo novos padroes de uso da terra e de consumo. Neste sentido, a territorialidade dessas populacoes e influenciada por essa nova dinamica territorial modernizante que tem alterado muito rapidamente esse modo de vida tradicional sertanejo. A chegada das monoculturas da soja, do eucalipto e da cana para a regiao da Chapada das Mesas, embutida no territorio do agronegocio, que tem ligacoes em rede com outros tantos territorios dessas mesmas caracteristicas e que ocupa as areas agricultaveis e as transformam, seguindo um modelo de producao, pode ser vista tanto na escala local, como mundial. Ou seja, evidencia-se um pacote de mudancas que incluem a questao ambiental, com o desmatamento acelerado da vegetacao nativa, a alteracao da paisagem, o uso intensivo dos recursos hidricos para a irrigacao, a introducao de agrotoxicos contaminantes para o solo, agua, ar e para toda a cadeia alimentar, alem das novas formas de relacoes trabalhistas e de uso da terra, impostos pelo modelo agroexportador.

Na decada de 1980, nesse territorio, que e palco de uma nova ocupacao pelo agronegocio, as diversas territorialidades produzidas pelos seus habitantes coexistiram. Por ultimo, como uma forma de conservacao do bioma do cerrado, temos a criacao de uma Unidade de Conservacao, que possui como determinante a imposicao de novas formas de convivencia com o ambiente, anteriormente "livre" para o uso comunitario dos povos do Cerrado.

O PNCM esta inserido nos territorios dos municipios de Carolina, Riachao e Estreito, ao sul do estado do Maranhao, a atual fronteira do agronegocio e que sofre uma grande pressao para o uso agricola dessas terras, em sua maioria de grande fertilidade. A existencia do PNCM no espaco territorial da regiao da Chapada das Mesas promove uma singularidade representada pela paisagem natural em relacao a outras regioes do Brasil. Possui os seus desenhos em formatos tabulares que representam uma heranca geologica para toda a populacao que habita essa regiao.

Essa Unidade de Conservacao da categoria de protecao integral foi instituida como uma forma de conter o avanco rapido do agronegocio e de tentar proteger uma parcela do bioma cerrado dessa area. Essa categoria, bastante restritiva, encontra-se inserida no Sistema Nacional de Unidades de Conservacao que tem como "objetivo basico das Unidades de Protecao Integral e preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, com excecao dos casos previstos nesta Lei" (MMA/SBF--SNUC, 2004, p. 15).

Para Diegues (2000), essa forma antiga de convivencia das populacoes tradicionais com o ambiente permite que se discuta a forma como e pensada a criacao de unidades de conservacao para a preservacao de biomas, como e o caso do PNCM, em que o deslocamento dos sertanejos esta previsto, sem que seja considerada a sua historia, sua presenca e a paisagem cultural local, reflexo dessa intensa relacao do ser humano com o meio.

Esse modelo de area protegida de uso indireto, que nao permite haver residentes no interior da area mesmo quando se trata de comunidades tradicionais presentes ha muitas geracoes, parte do principio de que toda relacao entre sociedade e natureza e degradadora e destruidora do mundo natural e selvagem--a wilderness norte americana--nao havendo distincoes entre as varias formas de sociedade (a urbano industrial, a tradicional, a indigena, etc.). (MMA/SBF-SNUC, 2004, p.7)

Ressaltamos, assim, que o conhecimento e a valorizacao dessas populacoes tradicionais produz informacoes que poderao ser utilizadas para a consolidacao da implementacao dessa unidade, em que as populacoes tradicionais possuem o direito de permanecer no seu interior mediante a formalizacao de um Termo de Compromisso. (MMA/SBF--SNUC, 2004)

O sertao e os sertanejos

Gomes & Fernandes (2014, p. 21) apontam que o Maranhao nao foi, desde sempre, considerado inserido no sertao. Esse imaginario apenas se constitui "quando o poder politico concentrou-se no centro-sul da America Portuguesa; tambem passou a ser sertao pela oposicao a ideia de civilizacao que emanava da Corte do Rio de Janeiro".

A constituicao de ideia de sertao tambem nos encoraja a encontrar o sertanejo que constitui e conforma essa ideia. Assim, e possivel afirmar que o sertanejo e um povo que vive ha mais de um seculo nessa regiao, em sua maioria, como agregado das grandes propriedades instaladas com a expansao da pecuaria e, notadamente, vive reinventando a sua propria existencia. Essa populacao tem desenvolvido praticas de convivencia com o bioma Cerrado, resistindo e reformulando formas de subsistencia que a mantem tradicionalmente singular perante os novos costumes impostos pela transformacao rapida desse territorio. Nesse sentido, os sertanejos apresentam-se como um contraponto aos padroes homogeneizantes da sociedade de consumo que impoe novas formas de uso e costumes ao territorio, sem uma reflexao sobre o que nele existe e que necessita ser conservado. Nesse processo, reivindicam a manutencao de seu espaco e seu modo de vida, alertando-nos para a compreensao de um "fenomeno nao somente espacial e historico, mas de confrontacao cultural e ideologica" (SILVA, 2007, p. 285).

Reconhecemos uma atuacao desse grupo em uma perspectiva do paradigma territorial contra-hegemonico, amparandonos no conceito desenvolvido por Haesbaert (2014), que seria justamente a resistencia que esse grupo apresenta a logica hegemonica, apoiada na agricultura capitalista, com forte vies produtivista, homogeneizante e mercantil.

Assim, falar dos sertanejos e falar de grupos que possuem um movimento secular de expansao da ocupacao humana dos desertos interiores. Na vastidao do mediterraneo interior configuram-se diversas variantes de modos de vida que sao adaptacoes locais e funcionais dessa expansao sertaneja. (DIEGUES, 2000, p. 51)

Esses sertanejos desenvolvem atividades de subsistencia com sua familia, comercializam o excedente da producao, assumem atividades coletivas, quando e a epoca da producao da farinha de mandioca e, tambem, na coleta de frutos do Cerrado e festejos religiosos. Apesar de serem camponeses, adota-se aqui o termo Sertanejo do Cerrado para diferencia-los de outros grupos da mesma categoria de camponeses. Little (2002, p. 9) ressalta a importancia dessas populacoes como tradicionais:
   As populacoes extrativistas representam outros grupos sociais
   incluidos na categoria de tradicionais e tendem a ser reconhecidos
   pelos produtos que extraem e vendem no mercado--seringueiros,
   castanheiros, babacueiros, pescadores--, apesar deste ser apenas um
   elemento de um complexo sistema de adaptacao que inclui caca,
   pesca, agricultura, fruticultura e criacao de pequenos animais
   (Moran 1974). No plano fundiario, o que marca os grupos
   extrativistas da Amazonia e a apropriacao familiar e social dos
   recursos naturais, onde as "colocacoes" sao exploradas por
   familias, os recursos de caca e pesca sao tratados na esfera
   coletiva e a coleta dos recursos destinados ao mercado e feita
   segundo normas de usufruto coletivamente estabelecidas.


E importante considerar o papel singular dessas populacoes tradicionais na conservacao da biodiversidade, ja que, com seu modo de vida e sua intensa relacao com o Cerrado, tem assegurado a propria manutencao do bioma. Cabe ressaltar o tipo de atividade desenvolvida: extrativismo vegetal, caca, pesca, agricultura em sistema de pousio, aproveitamento das fibras, do couro, das frutas do cerrado, entre outros. O olhar e o aproveitamento do sitio, do ponto de vista fisico, tambem merece mencao, como a agricultura desenvolvida nas encostas e fundos de vale e a solta de gado e extrativismo na chapada (observacao de campo que coincidem com PortoGoncalves (2008, p., 43)

Os Povos do Cerrado sao portadores de um enorme acervo de conhecimentos fundamentais para quaisquer politicas que se queira fundada numa sustentabilidade ambiental e nao simplesmente numa sustentabilidade ecologica. Afinal, a sustentabilidade ambiental pressupoe nao so a dimensao ecologica, mas todo o horizonte de valores onde a participacao protagonica e democratica dos povos dos cerrados, com a autoridade que seus conhecimentos lhes emprestam, sejam o suporte para a justica social, para a vida e para a paz (PORTO-GONCALVES, 2008, p. 43).

Essas populacoes desenvolveram seus sistemas de vida longe dos nucleos dinamicos da economia nacional. De acordo com Diegues (2000, p. 31), "adotaram o modelo da cultura rustica, refugiando-se nos espacos menos povoados, onde a terra e os recursos naturais ainda eram abundantes, possibilitando sua sobrevivencia e a reproducao desse modelo sociocultural de ocupacao do espaco e exploracao dos recursos naturais".

Esse modo de vida, com essa arquitetura vernacular, com o uso dos recursos locais nas atividades da vida cotidiana, esse profundo conhecimento dos frutos e plantas do cerrado, dos solos e locais para desenvolvimento da agricultura de subsistencia, com experiencias coletivas envolvendo a producao da farinha, a vida comunitaria, marcada pelas rezas e festas, poderia nos dar pistas de outro paradigma societario. Nesse sentido, corroboramos as reflexoes de Porto Goncalves, que afirma que:

Essas populacoes desenvolveram ao longo dos seculos, modos de vida com uma relacao organica com os ecossistemas, baseados na sua producao biologica primaria (extrativismo, caca, pesca) e em estrategias agropecuarias que otimizavam as potencialidades do ambiente de transformar energia solar em alimentos, carnes e fibras, utilizando de forma heterogenea e diversificada. (PORTO-GONCALVES, 2008, p. 122)

Desenvolveram, dessa forma, um "patrimonio comunitario" formado por

um conjunto de valores e crencas, conhecimentos e praticas, tecnicas e habilidades, instrumentos e artefatos, lugares e representacoes, terras e territorios, assim como todos os tipos de manifestacoes tangiveis e intangiveis existentes em um povo. Atraves disso, expressam seu modo de vida e organizacao social, sua identidade cultural e suas relacoes com a natureza (MALDONADO, 2009).

Entendemos que o conceito discutido por Little (2001) de "cosmografia", que se refere a relacao que um determinado grupo social constroi com seu territorio, aplica-se a realidade estudada ja que consiste em saberes ambientais, ideologias e identidades--coletivamente criados e historicamente situados--que um grupo social utiliza para estabelecer e manter seu territorio. A cosmografia de um grupo inclui seu regime de propriedade, os vinculos afetivos que mantem com seu territorio especifico, a historia da sua ocupacao guardada na memoria coletiva, o uso social que da ao territorio e as formas de defesa dele. (LITTLE, 2002, p.4)

Nessa perspectiva, a defesa desse territorio passa pelo sentido de pertencimento que se traduz na relacao que essa populacao tem com esse ambiente.

Buscamos apresentar, aqui, algumas narrativas que serao expostas para trazer um pouco desse cotidiano e a forma de viver dessa populacao de sertanejos em ligacao direta com uma natureza que os fez ser como sao e vice versa. Traduz a forma de ser do Cerrado, que, em determinados momentos, como na epoca das aguas, e muito lamoso, barrento e, em outros, e muito seco, quase arido em determinados lugares, mas que possui, sempre, muitos frutos e sementes para serem disseminados e colhidos para dar nova vida a outro ciclo que se inicia. Os diversos tempos se sobrepoem e compoem esse territorio com sua maravilhosa sociobiodiversidade.

Dessa forma, foram realizadas entrevistas que um roteiro predefinido, contemplando 14 habitantes da area de abrangencia do PNCM, nos povoados Canto Grande, Solta e Sao Jose dos Pereiras, no municipio de Carolina e tres habitantes do interior do PNCM. Destacaremos as entrevistas utilizadas neste trabalho.

Sao muitos os relatos sobre o impacto das mudancas, tanto positivos quanto negativos. Em relacao a construcao das moradias tradicionais, ha a queixa recorrente de que os recursos naturais, como a piacava e o babacu, estao mais escassos, exigindo alto custo de transportes. Alem disso, os jovens ja nao dominam a tecnica tao bem, em especial no que diz respeito a epoca de retirada da palha e ao seu tratamento para que nao apodreca ou atraia lagartos.

Sr. Clodomir, morador do povoado Solta, que se localiza na area de abrangencia do Parque Nacional da Chapada das Mesas, relatou-nos que a piacava e considerada como uma praga do pasto. Como, no povoado, ha muitas criacoes de gado solto nas areas de pastagens, essa piacava tem ficado escassa, pois e cortada. Alem disso, utilizam-se das queimadas como limpeza de pasto e da vegetacao, o que tem provocado a diminuicao dessa fibra. Ele associa essa questao com as dificuldades existentes atualmente para cobrir as casas com a palha de piacava devido a diminuicao do produto, a distancia, ao fato de que nao compensa mais fazer a cobertura com esse tipo de material, levando, entao, ao uso da telha de barro. Segundo o entrevistado, o povo do sertao mais antigo conhece a forma de trabalhar com esse material, ao passo que os mais novos, que nao os utilizam para cobrir suas casas, nem se interessarao em aprender. Dona Deusina, moradora do interior do Parque na localidade de Riacho Fundo, na Gleba Serra Alta, casada com Sr. Moises, que alem de agricultor e tambem um poeta autodidata, mae de 13 filhos, tambem relatou sobre alteracoes ambientais. Falou sobre o modo de vida especifico do sertao, dos modos de fazer casas, preparar alimentos, de escolher o terreno onde plantar cada tipo de alimento e tambem sobre a producao de farinha.

Importante mudanca relatada refere-se a producao de farinha (Figura 2) para o proprio consumo, devido a dificuldade em continuar a produzir farinha, tendo em vista seu envelhecimento e de seu marido e a falta de bracos para o mutirao que viabiliza a producao.

Destacamos o povoado Canto Grande, que fica na area de abrangencia do PNCM, considerado uma localidade produtora de farinha de mandioca. Segundo alguns relatos de moradores, a forma de fazer essa farinha tem caracteristicas regionais, conhecida como farinha de "puba" ou farinha dagua, pelo fato de ficar de molho na agua para sua fabricacao. Marcelo nos informou que,

Para fazer a farinha. tem que acordar as 3h da manha, passa o dia e noite ate 6h da manha do outro dia (no caso, para torrar a farinha, dura 26 horas). Muitas pessoas do povoado pararam de fazer a farinha devido a poeira (liquido que sai da mandioca que e prejudicial a saude que mata ate os animais) e, para o homem, a fumaca que sai na torra da farinha. (Depoimento de Marcelo do povoado Canto Grande, maio de 2012.)

Quando indagado se queria que seus filhos vivessem no sertao, respondeu: "Nao quero essa vida para meu filho, mas quero que ele tenha esse pedacinho do sertao".

Este relato demonstra um pouco das dificuldades encontradas por essa populacao estudada, para poder sobreviver e continuar a desempenhar suas atividades de roca, fabricacao de alimentos, extracao de produtos do Cerrado, artesanato, entre outras. Hoje as atividades sao um pouco diferentes, mas permanecem as atividades na roca, como o plantio de feijao--corujinha e manteiguinha e da mandioca, bem como a coleta de frutos como o bacuri, o acai, que e conhecido regionalmente como jucara e da bacaba. Permanece, ainda, a pratica comunitaria da producao da farinha, considerada a melhor da regiao, segundo varios depoimentos de moradores do local.

Sr. Cirilo (Figura 3), morador do interior do Parque, e um mestre artesao autodidata, sendo ele mesmo que construiu a sua casa de taipa (Figura 4), com cobertura de palha de piacava e a maioria dos utensilios que utiliza no seu dia a dia, como o pilao, os tambores, as cuias, cabacas para colocar agua, cestaria, entre outros. Trabalha muito bem com o curtimento do couro, produzindo, assim, assim a sua existencia com o Cerrado.

Em sua gleba de terras, de pouco mais de 30 hectares, ainda sem registro cartorial, ele planta produtos para sua sobrevivencia, vivendo com sua filha e um neto. Reproduzimos uma parte de sua entrevista em que nos relatou como e que faz a sua roca:

De primeiro capinava, hoje nao capina mais, mas ai, depois de queimada, podia plantar. Quando chove, planta arroz, planta milho, planta mandioca, planta fejao, banana, mamao, gergelim, tem o algodao que fazia rede. Tudo a gente plantava. Eu ja mexi com tudo no mundo, a coisa que eu nunca mexifoi roubar e matar, ate que matar, tem hora que me da vontade de matar, mas ai e uma coisa muito complicada. (Depoimento de Sr Cirilo coletado em maio de 2012).

Sr. Cirilo relatou-nos ainda que participa frequentemente das festas religiosas do povoado mais proximo, denominado Buritirana, e tambem das rezas. Seus saberes sobre a localidade estao intrinsecamente ligados ao Cerrrado, de onde provem diversas substancias que usa para tratar o couro, resinas de especies que ajudam nesse tipo de artesanato que desempenha muito bem. Uma heranca que trouxe da lida com o gado. Vive com pouca renda, como a maioria do sertanejo desse territorio, utiliza do sistema de trocas e possui estreita relacao com a vizinhanca.

A perspectiva religiosa manifestase nas festas comunitarias, como no povoado de Solta, que mantem a tradicao da festa do divino, como descrito na fala de dona Maria Helena:

Quando e no dia do divino, inclusive no dia do divino que e domingo agora, tem duas reza, que nois chama reza, ne, do divino. Uma na casinha ali na beira da estrada e outra depois do lago na casa de uma cumadi minha que ela festeja todo o ano. Ai ela faz reza, aquele terco, o pessoal ajuda, todo mundo ajuda a ir rezar aquele terco, ai, depois, tem um grande almoco pra todo mundo que participar, aquele almoco e dado, nao e vendido. (Depoimento de Dona Maria Helena, coletado em maio de 2012)

A festa do divino, segundo depoimento dos nossos entrevistados dos povoados Solta e Sao Jose dos Pereiras (Figura 5), ocorre no periodo depois da Pascoa (abril), enquanto a comemoracao de Corpo de Cristo (junho), e feita em coletividade com a comunidade, tendo varios festeiros que pagam promessas por gracas alcancadas. Dona Elvira (Figura 6), moradora do povoado Solta, ao perguntarmos sobre a importancia para ela da festa do divino, disse-nos:

Porque o divino e um santo milagroso, a gente tem muita fe nele. Ai a gente faz essas promessas assim, ne, tem que cumprir. [...] comeca, assim, por exemplo, aqui nesse povoadof.f ele sai la da casa dele, por exemplo, ele sai daqui, ai corta ali ate chegar 11 horas. Quando chegar 11 horas, eles param pro almoco, quando sao duas horas, torno a ir cantar nas outras casas, ai dorme. Acontece que tem muita gente que faz promessa assim, pra ser tres dias, ne. Outro nao, e so um dia, ai quando e no dia do divino, ai ele reza aquele terco, as vezes dao muitas coisas, muita comida, muita coisa assim, ne!. (Depoimento de Dona Elvira, coletado em maio de 2012)

Acreditamos que as relacoes entre o territorio e a paisagem formam a configuracao de identidades e que as praticas sociais surgem a partir de uma determinada relacao com o espaco, conformadas a partir de um universo simbolico, ancorado nos campos de sentido e significado que os homens constroem na e pela relacao com seu espaco, com o lugar e com o universo material que o circunda. A territorialidade do sertanejo do Cerrado e perceptivel na paisagem por meio de sua cultura. Ele possui uma convivencia com o ambiente muito intensa, apropriando-se dele e transformando o espaco em que vive, com pouca alteracao na paisagem. Utilizase dos recursos naturais para sua serventia, como e o caso do Buriti, como relatado por Rigonato e Almeida (2003, p. 12):
   Do fruto faz-se o oleo, e o doce feito da polpa e uma das delicias
   do paladar do sertanejo. As folhas sao utilizadas pelas populacoes
   tradicionais no recobrimento das residencias, do paiol, do
   chiqueiro e dos galinheiros, alem da fabricacao de peneiras,
   quibana, couraca e outros artesanatos.


A cultura do sertanejo do Cerrado ou povo do Cerrado, por meio de uma dimensao sociologica, e percebida como o resultado de todas as acoes humanas, sendo que uma depende da outra para existir. Nesse sentido, o ser humano transforma o ambiente, mas tambem e transformado por ele, em um pleno movimento que acontece no decorrer do tempo, explicitado por Machado (2007, p. 139):
   A cultura nao envolve simplesmente o ser humano, mas penetra nele,
   modelando a sua identidade, personalidade, maneira de ver,
   perceber, pensar e sentir o mundo. E o conjunto de entidades
   subjetivas e objetivas com extrema diversidade e multiplicidade, ou
   seja, pluraridade. [...] Dessa maneira, a forma de ser das pessoas
   de uma determinada cultura apresenta caracteristicas comuns, que as
   tornam semelhantes entre si e diferentes de pessoas de outras
   culturas.


Nessa perspectiva, os costumes do povo que habita a Chapada das Mesas e convive diretamente no bioma Cerrado e muito semelhante aos dos seres humanos de outras areas, que utilizam a mesma cobertura vegetal, com caracteristicas fisicas, biologicas e culturais, que os diferenciam de outros povos de outros biomas. Entretanto, essa cultura se traduz como o modo de vida do povo sertanejo do Cerrado, que possui uma identidade propria que, ao mesmo tempo, caracterizao e o diferencia de outros povos tradicionais.

Sobre essa questao conceitual acerca do territorio e suas diversas abordagens, Rogerio Haesbaert, em seu texto "Des-caminhos e perspectivas do territorio" (2004, p. 93), discorre sobre a necessidade de se superar a "dicotomia material/ideal," propondo um territorio que envolva, simultaneamente, "a dimensao espacial concreta das relacoes sociais e o conjunto de representacoes sobre o espaco ou o "imaginario geografico" que nao apenas move como integra ou e parte indissociavel destas relacoes".

Outra forma de analise de territorio pode ser concebida por meio da geografia cultural. Nas sociedades tradicionais, onde existe uma ligacao mais intensa com os espacos de vida, com a dimensao imanada da apropriacao simbolico-religiosa, o sagrado esta presente por meio dos mortos (Haesbaert, 2004, p.111). Segundo essa concepcao, nos pertencemos a um territorio, nao o possuimos, moramos nele. Perder um territorio pode significar o desaparecimento de determinadas culturas que o habitavam.

Diante disso, pressupoe-se que as populacoes sertanejas possuem uma heranca construida no decorrer do tempo, devido as suas necessidades de sobrevivencia e adaptacao ao meio. Como arcabouco para essa afirmacao, destaca-se uma caracteristica fundamental observada no decorrer das incursoes em campo: a autonomia que os sertanejos tem exposto em seu modo de vida. Nesse sentido, neste trabalho, defende-se a vinculacao dessa com o principio da autodeterminacao que encontra respaldo na reflexao de Diegues (2000) que vincula esse modo de vida a um sentido de pertencimento a uma cultura distinta. Nesse sentido, defende-se o direito dessas populacoes determinarem suas prioridades e exercerem seu protagonismo frente aos orgaos governamentais em decisoes que impactem seu futuro, tese defendida por Carneiro da Cunha e Almeida (2000).

Porto-Goncalves destaca que um primeiro esforco para esclarecer sobre a importancia dessas populacoes e sua cultura vem sendo o de demonstrar a sustentabilidade economica do agroextrativismo no Cerrado,conforme a rica tradicao indigena, quilombola, camponesa vem fazendo ancestralmente. Assim, vem demonstrando que o Cerrado nao somente valor economico, mas tambem que os agroextrativistas sao capazes de organizar empreendimentos solidarios a partir desse potencial (PORTO-GONCALVES, 2008, p.82).

Essas formas de uso tradicional do Cerrado produzem uma resistencia que foi notada em grande parte das falas dos nossos sujeitos da pesquisa, que, em varios momentos, valorizaram o seu lugar, as suas tradicoes e tambem a forma como vivem nesse territorio, de uma maneira simples e sem grandes dependencias do mundo exterior. Uma conquista fruto de um seculo de desenvolvimento de modos de fazer, criacoes de instrumentos de usos para o cuidado com a terra e praticas agricolas de subsistencia, construcoes de suas moradias artesanalmente, alem de um vasto conhecimento no uso de plantas medicinais e frutos do cerrado, utilizando seus recursos de uma maneira sustentavel.

Territorio, territorialidade e conflitos socioambientais

Percebe-se, no discurso hegemonico, que a construcao simbolica do sertao, como vazio ou lugar do atraso, da aridez, da aspereza, da incultura, da ignorancia, e um pressuposto para desvalorizacao da territorialidade dessas populacoes para, na esteira desse discurso, reafirmar a modernidade, o progresso, a produtividade, a riqueza, vinculadas a importancia economica do agronegocio. Assim, consideramos as contribuicoes de Haesbaert (2014, p.12):
   Numa sociedade em que tanto se fala em hibridismo e trocas
   culturais, a definicao clara de territorios por uma base etnica
   pode parecer paradoxal. Mas o mais importante e perceber que esses
   territorios dos povos tradicionais sao tambem uma conquista desses
   grupos e que, ainda que indiquem certa separacao
   etnico-cultural--mas que pode representar a unica condicao que
   resta para sua sobrevivencia enquanto culturas distintas da terra e
   a instituicao do seu usufruto coletivo. Pelo lado socioeconomico,
   trata-se de espacos relativamente vastos (principalmente na regiao
   Amazonica) que estao vedados a apropriacao privada e que, pelo
   menos em tese, sao de usufruto comunitario, exclusivo desses grupos
   sociais--, implicam em outra conquista que e a subversao da logica
   privatista.


A territorialidade, segundo Sack (2004, p.105), vai alem da dimensao politica (controle de grupos em determinados contextos geograficos de lugar, espaco e tempo), possui tambem uma ligacao com as dimensoes economica ("uso da terra") e cultural ("significacao" do espaco), esclarecendo que a territorialidade esta ligada "[...] ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas proprias se organizam no espaco e como elas dao significado ao lugar."

Dessa forma, a analise dessa territorialidade, incluindo o sistema de representacoes, simbolos e mitos que essas populacoes constroem, demonstram como elas agem sobre o meio. E tambem com essas representacoes e com o conhecimento empirico acumulado que desenvolvem seus sistemas tradicionais de manejo, tornandoos patrimonio cultural, sendo necessaria a sua conservacao, uma vez que o patrimonio cultural de um povo e formado pelo conjunto de saberes, fazeres, expressoes, praticas e seus produtos, que remetem a historia, a memoria e a identidade desse povo. A preservacao do patrimonio cultural significa, principalmente, cuidar de bens representativos da historias e da cultura de um lugar [...] de cuidar tambem dos usos, costumes e manifestacoes culturais que fazem parte da vida das pessoas que se transformam ao longo tempo. (IPHAN, 2007, p. 12).

Imersos nesta complexidade demonstrada ate aqui neste trabalho, destacamos que existe a urgencia na valorizacao e no conhecimento desse grupo humano estudado, para que possamos ter a conservacao desse patrimonio cultural que e muito singular para a composicao da cultura tradicional brasileira.

A questao aqui, neste momento, apos a compreensao desse territorio e territorialidade dessa populacao tradicional, traz uma discussao sobre os principais impactos socioambientais que esta em curso na area de estudo, o Cerrado da regiao de abrangencia do |PNCM, que apresenta uma enorme sociobiodiversidade, como ressaltado por Porto-Goncalves (2008, p.149), quando comenta sobre o agronegocio, destacando a importancia sociocultural:
   O grande conflito que se da hoje nos Cerrados--de um lado, aqueles
   que arrogantemente ignoram toda essa enorme riqueza de vida, tanto
   no sentido biologico como cultural, e querem impor a cultura do UM
   e para poucos e, nao bastasse a desigualdade e concentracao de
   riquezas e poder que engendram, impedem que essas outras e
   diferentes matrizes de racionalidade que ali historicamente se
   desenvolveram possam se reproduzir.


Essas terras de uso comum, das comunidades sertanejas, foram paulatinamente encampadas por esse novo modelo de agricultura, que os tem deixado a merce desse processo produtivo. Como ja descrito anteriormente, nao bastasse essa perda do territorio para o uso comum, perde-se tambem os recursos como a agua, que tem diminuido cada vez mais, segundo relatos dos nossos entrevistados.

O autor destaca que os Cerrados vem sendo alvos constantes de desmatamentos. O complexo reflorestador siderurgico-celulosico, provocado pela monocultura do eucalipto, e, rigorosamente, do ponto de vista cientifico, agente de um modelo produtivo que impacta Cerrados, agua e gente, que, de sustentavel, nao tem nada (PORTOGON-CALVES, 2004).

Alem desses impactos diretos causados pela alteracao da paisagem pelo agronegocio, existem tambem as alteracoes no bioma Cerrado do PNCM que tem sido constituidas no decorrer do tempo, pela ocupacao do gado extensivo e no sistema de plantio denominado roca no toco, que e um sistema tradicional de plantio que utiliza o fogo para limpeza da area a ser cultivada, um sistema que mantem alguns remanescentes de arvores (tocos) e necessita da abertura de novas areas florestadas para a sua implantacao. (IBAMA, 2006)

Associadas a esses problemas, as queimadas para a limpeza de pasto tem provocado grandes impactos, na epoca seca, com grandes areas atingidas, pois elas se transformam em grandes incendios, provocando a destruicao de moradias tradicionais e de cultivos para a subsistencia.

Embora exista um grande potencial de fauna no PNCM, este convive com inumeros problemas relacionados a perda de habitat, seja pelo desmatamento e queimadas, que sao constantes, pela caca predatoria, que tem causado o desequilibrio entre as especies, promovendo o aumento sem controle de algumas em detrimento da diminuicao de outras.

O processo continuo do uso do fogo para a limpeza de pastos, caracteristico da criacao de gado extensivo, forca a paisagem a se modificar, sofrendo impactos constantes, perceptiveis no momento atual com as areas de pisoteio, com processos erosivos, resultantes desse mau uso e de incendios periodicos.

Todo esse processo de impactos socioambientais nos alertam para a necessidade de um aumento de politicas publicas inclusivas para essa populacao apresentada neste trabalho, pois, no momento presente, ha muitas demandas a serem sanadas no que diz respeito a qualidade de vida e a sustentabilidade ambiental dessa regiao.

Consideracoes Finais

As reflexoes apresentadas neste trabalho nos alertam, em um primeiro momento, para a grande transformacao que esta ocorrendo com o bioma Cerrado, em especifico este da regiao sul do estado do Maranhao. Essa questao poe em risco uma magnifica sociobiodiversidade que existe ha mais de 11 mil anos, segundo estudos sobre a origem dos primeiros habitantes desse territorio.

Esse risco socioambiental e reforcado, quando trazemos ao conhecimento da sociedade a singularidade dessa populacao tradicional sertaneja, que possui um "patrimonio comunitario" formado por um conjunto de valores e crencas, conhecimentos e praticas, tecnicas e habilidades, instrumentos e artefatos, lugares e representacoes, terras e territorios, assim como todos os tipos de manifestacoes tangiveis e intangiveis que foram percebidos no decorrer desta pesquisa.

Ha a necessidade de uma atencao direcionada para essa regiao no sentido de valorizacao dessa populacao que se respalda na reflexao de Arruda (1999) sobre a analise dos mecanismos socioculturais desses grupos tradicionais que pode indicar outras formas de ocupacao do territorio, de manejo do meio ambiente, perspectivas economicas alternativas ao modelo hegemonico e possibilidades de se construir com as comunidades ja articuladas ao mercado global, caminhos para exploracao sustentavel dos recursos.

Tambem e necessaria a ampliacao do dialogo entre as instituicoes que atuam nesse territorio, a fim de assegurar a permanencia desse grupo em seu territorio e a manutencao do Cerrado em pe, condicao sine qua non para o equilibrio e a manutencao dessa paisagem natural e cultural.

Notas

* Professora Adjunta III da Universidade Estadual do Maranhao, analista ambiental do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovaveis-MA, atuando principalmente nos seguintes temas: educacao ambiental, desenvolvimento sustentavel, planejamento ambiental, ordenamento terrritorial, unidades de conservacao, terrritorialidade e impactos ambientais.

** Professora Adjunta da Universidade de Brasilia. Desde 2001 e fellow do Programa Lead Internacional, organizacao ligada ao desenvolvimento de liderancas na tematica da sustentabilidade. Trabalha e pesquisa os temas: Geografia e Infancia; Educacao em contextos culturais especificos; Questoes teoricometodologicas referentes ao Ensino de Geografia nos anos iniciais da escolarizacao.

(1) No bojo do processo de ocupacao das terras D. Joao, regente de Portugal publica Carta Regia em 1798 autorizando o Governador a explorar terras ate o rio Tocantins. (GOMES; FERNANDES, 2014, p. 25)

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ANA ROSA MARQUES *

MARIA BUENO FERNANDES **

Caption: Figura 1: Colonizacao maranhense a partir da penetracao da frente agropastoril. Fonte: (CABRAL, 1990).

Caption: Figura 2: Casa de producao de Farinha tradicional da area de pesquisa. Fonte--Marques (2009).

Caption: Figura 3--Sr Cirilo, morador tradicional do PNCM. Fonte--Marques (2012).

Caption: Figura 4--Moradia tradicional Sr Cirilo, feita por ele com palha de piacava e taipa de terra do lugar. Fonte--Marques (2012).

Caption: Figura 5--Igreja catolica no povoado de Solta. Fonte--Marques (2012).

Caption: Figura 6--Dona Elvira, moradora do povoado Solta. Fonte--Marques (2012).
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Author:Marques, Ana Rosa; Fernandes, Maria Bueno
Publication:Espaco e Curtura
Date:Jul 1, 2016
Words:7356
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