Printer Friendly

Avaliacao do habito intestinal em mulheres atletas e sua relacao com nivel de hidratacao e uso de suplemento.

RESUMO

Objetivo: constipacao intestinal e a queixa digestoria mais comum na populacao geral e ocorre com maior frequencia em mulheres. A atividade fisica traz inumeros beneficios a saude, mas nao se sabe ao certo o efeito do exercicio do alto rendimento na regulacao do habito intestinal. O presente estudo tem como objetivo investigar o habito intestinal de mulheres atletas e sua relacao como nivel de hidratacao e uso de suplementos por meio da Escala De Bristol. Metodos: a amostra foi composta por 45 mulheres atletas de alto rendimento, com idade media de 23[+ or -]5 anos. Utilizou-se a Escala de Bristol para caracterizacao da Consistencia de Fezes e questionarios para avaliacao do grau de hidratacao e uso de suplementos. Foram coletadas medidas de peso, perimetros e dobras cutaneas. Resultados: Verificou-se que 56% das atletas apresentavam fezes consideradas normais, 28% de fezes endurecidas e 16% de fezes amolecidas. O uso de suplemento (p=0,03) e o graus de hidratacao (p=0,04) foram fatores de risco relacionados com a maior ocorrencia de fezes amolecidas nestas atletas estiveram relacionados consideradas. Conclusao: O exercicio de alto rendimento exerceu impacto positivo no habito intestinal das atletas que apresentaram fezes descritas como padrao normal. Entretanto, o consumo de suplementos e o nivel de hidratacao altera a forma das fezes.

Palavras-chave: Exercicio. Trato Gastrointestinal. Intestino.

ABSTRACT

Bowel habit assessment in female athletes and its relationship to the level of hydration and use of supplement

Objective: Constipation is the most common digestive complaint in the average population and occurs more frequently in women. Physical activity brings several health benefits, but it is still unknown the precise impact of high-performance exercises on regulating bowel habit. The purpose of the present study is to investigate bowel habit of female athletes and its relationship to the level of hydration and use of supplements through the Bristol Scale. Methods: The sample consisted of 45 highperformance female athletes, average age of 23 [+ or -] 5 years. Bristol scale has been used to classify the stool consistency and questionnaires to assess the level of hydration and use of supplements. Weight, body circumferences and skin-folds measurements were taken. Results: It was found that 56% of athletes had stools considered normal, 28% had hard feces and 16% had soft stools. The use of supplementation (p = 0.03) and the hydration level (p = 0.04) were related to a higher incidence of soft stools in these athletes. Conclusion: High-performance exercise had a positive impact on bowel habit of athletes who had stool described as normal pattern. However, the use of supplements and the level of hydration changed the form of feces.

Key words: Exercise. Gastrointestinal Tract. Intestine.

INTRODUCAO

A analise do habito intestinal e o tipo de fezes sempre foram explorados na avaliacao realizada pelos profissionais de saude, tanto para a caracterizacao de aspectos fisiologicos dos pacientes como para o diagnostico e acompanhamento de doencas que envolvam alteracao do transito intestinal (Martinez e Azevedo, 2012).

Os habitos intestinais podem variar muito devido a varios fatores, incluindo o habito alimentar, a quantidade de ingestao de fibras e diferenca no tempo de transito intestinal (Panigrahi e colaboradores, 2013).

Constipacao intestinal (CI) e a queixa digestoria mais comum na populacao geral, sendo responsavel por cerca de 2,5 milhoes de visitas medicas nos Estados Unidos.

No Brasil, nao existem dados publicados, visto que maioria dos estudos sao realizados em subgrupos, como lactentes, adolescentes e mulheres na pos-menopausa (Collete, Araujo e Madruga, 2007).

Por outro lado, observa-se que na rotina diaria, que a CI e uma queixa muito mais prevalente que uma serie de outras afeccoes cronicas, como a hipertensao, obesidade e diabetes. Ocorre predominantemente no genero feminino (2:1) e acomete todas as faixas etarias (Trisoglio e colaboradores, 2010).

A CI e um termo que define um sintoma, nao e uma enfermidade nem um diagnostico. Caracteriza - se nao so por sua natureza subjetiva, mas tambem por sua complexidade, ja que pode estar associada a varias causas, mecanismos patogenicos e fisiopatologicos.

A maioria dos pacientes a define como a presenca de um ou mais sintomas: fezes duras, irregularidade de defecacao, necessidade de esforco excessivo, sensacao de evacuacao incompleta e tempo exagerado no banheiro, sem exito na defecacao (Godoy e colaboradores, 2011).

Alem disso, a constipacao propriamente dita pode ser um sintoma inicial de doencas graves, como o cancer colorretal, que segundo a ultima estimativa mundial, e o terceiro tipo de neoplasia mais comum entre os homens e o segundo nas mulheres (Instituto Nacional do Cancer, 2014).

A CI ocorre com maior frequencia em mulheres, provavelmente devido aos efeitos hormonais, muitas vezes agravadas durante a gestacao e/ou secundariamente relacionada as mudancas anatomicas e funcionais apos o parto (De Paula, Carmuega e Weill, 2008).

A atividade fisica traz inumeros beneficios a saude e exerce influencia sobre outros sistemas que nao estao diretamente relacionados com a sua execucao, tais como: o sistema imune e o trato gastrointestinal (TGI), por meio da distensao e/ou friccao da mucosa intestinal (Paiva e colaboradores, 2013).

Os sintomas do TGI superior e inferior estao bem documentados em exercicios de endurance (como a corrida, ciclismo e natacao). A alta prevalencia de sintomas intestinais nestas atletas indica que o exercicio induz a varias alteracoes fisiologicas na funcao gastrointestinal, dependendo da intensidade do treinamento. A etiologia de disturbios na motilidade e no transito intestinal tem sido associada com a pratica de exercicio de alta intensidade (Strid e colaboradores, 2011).

Estudos epidemiologicos tem demonstrado que o exercicio fisico, em moderada intensidade e de forma regular, reduzo risco de neoplasia de colon em ate 40% dos individuos.

Ademais, estudos populacionais indicam que individuos fisicamente ativos apresentam menor frequencia de constipacao intestinal, pelo aumento da motilidade gastrointestinal e melhora do tonus muscular da musculatura pelvica e abdominal, auxiliando a eliminacao das fezes apos esforco (Instituto Nacional do Cancer, 2014).

Na ausencia de um teste especifico, o diagnostico permanece, em grande parte, clinico. Alguns criterios diagnosticos foram criados, como os criterios Roma I, Roma II e Roma III, mas a sua aplicabilidade na pratica clinica e extremamente limitada e raramente sao utilizados (Moreira e colaboradores, 2009; Lewis e Heaton, 1997).

A caracterizacao das fezes pode ser util na avaliacao do efeito da dieta no habito intestinal. Neste sentido, existem instrumentos que auxiliam na caracterizacao da consistencia das fezes (Schaffer, Hoffman e Schorge, 2014).

Uma das escalas mais utilizadas e a Escala de Bristol para Consistencia de Fezes (Bristol Stool FormScale). Esta classificacao e formada por sete imagens e caracteristicas descritivas das fezes e inclui uma representacao visual de cada tipo de fezes de acordo com a forma e consistencia (Perez e Martinez, 2009).

De acordo com esta escala tem-se demonstrado que as fezes se correlacionam bem com o tempo de transito intestinal total medido por cintilografia ou com marcadores radiopacos, tanto em pacientes com sindrome do intestino irritavel como em sujeitos saos, de maneira que os tipos 1, 2 e 3 se correlacionam com tempos de transito lento e o tipo 6 e 7 com tempo de transito rapido (Jackson e Pollock, 1978).

Portanto, a escala de Bristol e uma ferramenta util para pratica clinica, estudos epidemiologicos e clinicos (Perez e Martinez, 2009).

O presente estudo tem como objetivo investigar o habito intestinal de mulheres atletas e sua relacao como nivel de hidratacao e uso de suplementos por meio da Escala De Bristol.

MATERIAIS E METODOS

Realizou-se um estudo descritivo, de corte transversal com 45 mulheres atletas que compareceram para consulta de rotina no Setor de Ginecologia do Esporte da Escola Paulista de Medicina.

O estudo foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa da Universidade Federal de Sao Paulo sob numero (CAAE 45083415.2.0000.5505). Nenhum termo de consentimento foi exigido, pois trata-se de um estudo de revisao de prontuario.

Utilizou-se um questionario especifico de avaliacao ginecologica pre-participacao esportiva ("Pre-Participation Gynecological Examination") (Parmigiano e colaboradores, 2014) e a Escala de Bristol para Consistencia de Fezes (Perez e Martinez, 2009).

[FIGURE 1 OMITTED]

A escala, composta por sete tipos de imagens de fezes, juntamente com descricoes precisas quanto a forma e a consistencia, era apresentada as participantes por meio de uma prancha desenhada. A atleta apontava o tipo que mais se assemelhava a suas proprias fezes e o resultado era anotado no prontuario (Figura 1).

Para o proposito do estudo, considerou-se os subtipos 1 e 2 como estado de obstipacao, os subtipos 3 e 4 correspondem tipos de fezes normais, e os subtipos 5, 6 e 7 correspondem a estados de diarreia (Drossman, 2006).

Para caracterizacao da amostra foram coletadas medidas de peso - Balanca Filizola[C] digital, estatura (Estadiometro Country Tecnology), perimetros (abdomen e braco) e as dobras cutaneas triciptal, subescapular, suprailiaca, abdominal, coxa, axilar media e peitoral (Compasso de dobras americano Lange).

A equacao utilizada como preditiva de gordura corporal foi a de Jackson e Pollock (1978), sendo que os calculos do percentual gordura corporal foram realizados por meio de software (Jackson e Pollock, 1978).

Os dados foram avaliados por meio de analise estatistica, utilizando o programa Prism[C], Inc. 2007. As relacoes entre a classificacao de Bristol e as caracteristicas das atletas (nivel de treinamento, uso de suplemento, recordatorio alimentar) foram avaliadas pelo teste exato de. Para comparacao das variaveis continuas, utilizou-se o teste de analise de variancia (ANOVA) seguido do teste post-hoc de Tukey. Os dados estao representados de forma descritiva por meio de medias e percentuais. O nivel de significancia foi p=0,05.

RESULTADOS

A media de idade das atletas examinadas foi de 23 anos, minimo de 13 anos e maximo de 46 anos. Em relacao ao indice de massa corporea, a media foi de 23,2 [+ or -] 4 Kg/m2. A ingestao media de liquidos destas atletas durante os treinos foi de 1809 [+ or -] 808ml (Tabela 1).

O grafico 1 apresenta a distribuicao das atletas consoante a modalidade esportiva. A maioria das entrevistadas treinava corrida de rua (12 em 45 atletas), rugbi (10) e atletismo (7) (Grafico 1).
Tabela 1 - Idade, indice de massa corporea (IMC), porcentagem de
gordura corporal e ingestao de liquidos em 45 mulheres atletas.

Variavel               Media [+ or -] DP   Minimo   Maximo

Idade (anos)               23 [+ or -] 5       13       46
IMC (Kg/m2)              23,2 [+ or -] 4       18       30
% de gordura               24 [+ or -] 5       13       33
Ingesta liquida (ml)   1809 [+ or -] 808     1000     3000

Grafico 1 - Distribuicao das 45 mulheres atletas entrevistadas
consoante a modalidade esportiva.

rugbi           10
natacao          4
judo             4
futebol          2
corrida de rua  12
ciclismo         1
boxe             4
basquete         1
atletismo        7

Note: Table made from bar graph.

Grafico 2 - Distribuicao do tipo de fezes de acordo com a Escala de
Bristol em 45 mulheres atletas.

Bristol 1  13%
Bristol 2  16%
Bristol 3  38%
Bristol 4  18%
Bristol 5  11%
Bristol 6   4%

Note: Table made from pie chart.

Tabela 2 - Correlacao entre os sados antropometricos, nivel de
hidratacao e uso de suplementos entre o grupo de atletas com fezes
amolecidas, normais ou endurecidas.

Variavel                     Obstipacao       Fezes Normais
                          (Bristol 1-2)       (Bristol 3-4)

Idade                   27 [+ or -] 7        24 [+ or -] 9
IMC                   23,4 [+ or -] 3      22,6 [+ or -] 4
% de gordura          22,8 [+ or -] 5,1    23,8 [+ or -] 4,4
Hidratacao          1804 [+ or -] 773    1836 [+ or -] 828
Uso de suplementos                 54%                  40%
Total de atletas                   13                   25

Variavel                      Diarreia    Valor de p
                          (Bristol 5-7)

Idade                    30 [+ or -] 10       0,3
IMC                     25,6 [+ or -] 5       0,09
% de gordura          25,9 [+ or -] 3,0       0,3
Hidratacao            2800 [+ or -] 840       0,04 (*)
Uso de suplementos                   71%      0,03 (*)
Total de atletas                      7


O grafico 2 mostra a distribuicao da caracteristica das fezes de acordo com a classificacao de Bristol.

Destaca-se que 38% das atletas apresentavam fezes do tipo 3 (formato de linguica com rachaduras na superficie) e somente 4% apresentaram fezes tipo 6 (massa pastosa e fofa com bordas irregulares). Nenhuma atleta apresentou fezes do tipo amolecidas (aquosa sem pecas solidas) (Grafico 2).

Dividindo as atletas em tres grupos de acordo com a caracteristica das fezes (obstipacao, fezes normais e diarreia) observa-se que o grau de hidratacao e o uso de suplementos foram os fatores estaticamente associados com o tipo de fezes. Atletas mais hidratadas e que usaram suplementos tiveram fezes mais amolecidas (Tabela 2).

DISCUSSAO

Doencas intestinais, como, diarreia infecciosa, colites, constipacao, incontinencia anal e sindrome do intestino irritavel, sao capazes de modificar as fezes.

A analise da forma e consistencia das fezes, durante a anamnese, pode ser determinante no diagnostico da doenca, associado com outras caracteristicas dos movimentos intestinais (Martinez e Azevedo, 2012).

Neste estudo, a Escala de Bristol foi o instrumento utilizado para caracterizar a forma das fezes das atletas e tentar correlaciona-las com a pratica de atividade fisica.

Este instrumento, desenvolvido e validado originalmente por Heaton e Lewis (Martinez e Azevedo, 2012), avalia de forma descritiva e grafica sete tipos de fezes segundo sua forma e consistencia, sendo tipo 1, a mais dura e tipo 7, a mais liquida. A escala demonstra que a forma das fezes correlaciona-se com o tempo de transito intestinal.

No estudo de Heaton e Lewis, na cidade de Bristol, unico realizado com uma populacao geral, as fezes tipo 1 e 2 (mais duras) eram mais frequentes em mulheres do que em homens, porem a maioria da populacao relatou que tinha uma evacuacao normal (sem urgencia nem esforco), quando o tipo variava entre 3 e 4 (Perez e Martinez, 2009).

Os resultados do presente estudo, demonstram que 38% das atletas associaram o aspecto visual de suas fezes com a categoria 3 da escala (formato de linguica com rachaduras na superficie) e apenas 4% referiram fezes tipo 6 (massa pastosa e fofa com bordas irregulares).

Este resultado pode ser associado a pratica de atividade fisica que melhora o padrao evacuatorio e o tempo de transito colonico em pacientes com queixas de constipacao cronica (Johannesson e colaboradores, 2010).

Um estudo com atletas de endurance mostrou que o exercicio intenso teve impacto no transito gastrointestinal destes atletas, provocando mudancas na frequencia e consistencia das evacuacoes, provavelmente provocado pela aceleracao no transito intestinal (9).

Entretanto, estudo que analisou o comportamento intestinal de atletas durante a pratica de ciclismo e corrida, mostrou atraso no transito intestinal, fator este que nao e esperado, pois diarreia e urgencia em evacuar sao sintomas frequentemente reportados, sugerindo uma reducao no transito intestinal (Van Nieuwenhoven, Brouns e Brummer, 2004)

Coenen e colaboradores (1991), em estudo com atletas masculinos, nao observaram efeitos da atividade fisica na frequencia das evacuacoes em no transito intestinal, mas detectaram mudancas no peso total das fezes quando submetidos a estresse fisico moderado.

A constipacao e uma queixa muito comum em mulheres, e o sedentarismo pode ser um dos fatores que contribuem com este sintoma, juntamente com o avanco da idade (Simren, 2002).

No que diz respeito a idade, observou-se que as atletas que descreveram suas fezes como normais (Bristol 3-4) apresentaram uma media de idade de 24 [+ or -] 9 anos e as atletas que as descreveram como amolecidas (Bristol 5-7) apresentaram uma media de idade de 30 [+ or -] 10 anos, alem de apresentarem maior hidratacao entre os grupos.

Achados de Nakaji e colaboradores (2002), nao encontraram significancias estatisticas entre idade e constipacao em mulheres. Em estudo com 62,036 mulheres em idade entre 36 e 61 anos, a relacao entre idade avancada e movimentos intestinais foi inversamente associada, e a possivel explicacao seria a reducao nos niveis do hormonio estrogenio apos a menopausa (Nakaji e colaboradores, 2002).

Com relacao a hidratacao, na literatura ja e sabido que a ingestao hidrica de 1,5 a 2 litros/dia reduz a constipacao e que niveis altos de hidratacao podem afetar a forma e a consistencia das fezes20.

Em estudo da National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), que tambem utilizou a escala de Bristol, observou-se que a baixa ingestao hidrica aumentou as taxas de constipacao (Markland e colaboradores, 2013).

A maior incidencia de constipacao em mulheres do que em homens, pode ser explicada pela hipotese de que os hormonios sexuais femininos reduzem o transito intestinal (Panigrahi e colaboradores, 2013), principalmente durante a fase lutea do ciclo, em consequencia da acao da progesterona (Trisoglio e colaboradores, 2010). Este seria um dos motivos que nos levam a analisar o habito intestinal em mulheres atletas e dar especial atencao a saude intestinal deste grupo.

A variavel IMC das atletas nao apresentou diferenca significativa entre os agrupamentos da escala de Bristol. A maioria se encontrava eutrofica pela classificacao de IMC (entre 18,5 - 24,99 kg/[m.sup.2]), segundo a Organizacao Mundial da Saude (Ayaz e Hisar, 2014).

Este estudo nao observou uma relacao direta entre IMC e consistencia das fezes. Entretanto, estudo chileno que utilizou a Escala de Bristol para associar a prevalencia de constipacao e doencas cronicas entre uma populacao mista apontou um IMC maior para o grupo de constipados do que o grupo de nao constipados (Godoy e colaboradores, 2011).

Vale ressaltar que, em se tratando de atletas, devem-se ter ressalvas ao analisar o valor do IMC, pois este indicador leva em consideracao o peso absoluto do individuo, sem distinguir a composicao corporal (massa gorda e massa magra).

A pratica de atividade fisica intensa e prolongada esta associada com modificacoes no trato gastrointestinal, como reducao do fluxo sanguineo no mesenterio, alteracoes hormonais, na motilidade, bem como com a ocorrencia de sintomas gastrointestinais. Tem sido demonstrados que 30 a 50% dos atletas de endurance apresentam sintomas relacionados ao TGI (Peters e colaboradores, 2000).

Os resultados do presente estudo demonstraram que o consumo de suplementos pelas atletas foi associado com fezes mais amolecidas (tipos 5, 6 e 7). As alteracoes gastrintestinais durantes no exercicio sao multifatoriais e inclui a reducao do fluxo sanguineo intestinal, a liberacao de hormonios, o estresse mecanico sobre o TGI, a desidratacao, os fatores psicologicos, a idade, o sexo, a dieta e o nivel de treinamento do individuo (Strid e colaboradores, 2011).

Entretanto, a maior parte dos sintomas e alteracoes gastrintestinais em atletas esta associada com as modificacoes e aumento na permeabilidade intestinal, ou seja, na ineficiencia das barreiras de defesa formada pelo tecido linfoide associado ao intestino (GALT) com consequencias a curto e a longo prazo (Oliveira e Burini, 2011).

O GALT e um sistema formado por tres componentes essenciais: a microbiota, a barreira da mucosa e o sistema imune local. O GALT e o principal orgao imune do organismo, produz aproximadamente 60% do total das imunoglobulinas e contem mais de 106 linfocitos/g de tecido (Bourilioux e colaboradores, 2003).

As causas desse aumento devem ser analisadas, a fim de prevenir o desenvolvimento de doencas ao longo da vida dos atletas e otimizar o desempenho (Hawrelak e Myer, 2004).

O consumo de refeicoes, suplementos e hidratacao adequados sao essenciais para prevencao desses eventos (Oliveira e Burini, 2011).

Foi observado que o consumo de carboidratos de alto indice glicemico, deixa o transito intestinal mais lento e aumenta a concentracao fecal de acidos biliares totais e secundarios no colon. E possivel que o consumo elevado desses tipos de carboidratos causa alteracoes na microflora bacteriana, pois aumentam a saida da bile. Algumas especies de bacterias intestinais se alimentam de acidos biliares e, portanto, qualquer aumento

na sua producao ira resultar em uma competitiva vantagem para este grupo de bacteria (Damasceno, Perucha e Gandin, 2014; Hawrelak e Myer, 2004).

Estudos demonstram que os carboidratos transitam pelo colon, o que eleva a osmolaridade, a fermentacao bacteriana e a formacao de gases. Podendo ocasionar distensao abdominal, colicas, flatulencia, bem como a liberacao local de peptideo YY, que aumenta a motilidade e, consequentemente, resulta em diarreia (Damasceno, Perucha e Gandin, 2014).

O consumo excessivo de proteinas tambem pode aumentar a producao de metabolitos de bacterias potencialmente maleficas. A proteina nao digerida e fermentada pela microflora do colon, resultando nos produtos finais dos acidos graxos de cadeia curta (isovalerato, butirato e 2-metilbutirato), acidos graxos de cadeia ramificada e metabolitos potencialmente prejudiciais como amonia, aminas, sulfetos e indois. A producao desses compostos toxicos esta diretamente relacionada com o alta ingestao de proteina da dieta (Hawrelak e Myer, 2004).

Os achados reportados neste estudo, referente a consistencia das fezes e o consumo de suplementos, sugerem que a capacidade absortiva intestinal pode ter ser sido reduzida e a permeabilidade alterada em funcao do consumo de suplementos de carboidratos e proteinas.

CONCLUSAO

O exercicio de alto rendimento exerceu impacto positivo no habito intestinal das atletas que apresentaram fezes descritas como padrao normal. Entretanto, o consumo de suplementos e o nivel de hidratacao altera a forma das fezes.

REFERENCIAS

1-Ayaz, S.; Hisar, F. The efficacy of education programme for preventing constipation in women. International Journal Nurse Practice. Vol. 20. Num. 3. p.275-282. 2014.

2-Coenen, C.; Wegener, M.; Wedmann, B.; Schmidt, G.; Hoffmann S. Does physical exercise influence bowel transit time in healthy Young men? The American Journal of Gastroenterology. Vol 87. Num. 3. p.292-295. 1991.

3-Collete, V. L.; Araujo, C. L.; Madruga, S. W. Prevalencia e fatores associados a constipacao intestinal: um estudo de base populacional em Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil. Caderno de Saude Publica. Vol. 6. Num. 7. p.1391-1402. 2007.

4-Damasceno, I. A. B.; Perucha, V. F. R.; Gandin, P. Alteracoes da permeabilidade intestinal em atletas. In: Naves A, Paschoal V.Tratado de Nutricao Esportiva Funcional. Sao Paulo: Roca. 2014. p.27-37.

5-De Paula, J. A.; Carmuega, E.; Weill, R. Effect of the ingestion of a symbiotic yogurt on the bowel habits of women with functional constipation. Acta Gastroenterol Latinamericana, Vol. 38. Num. 1. p.16-25. 2008.

6-Drossman, D. A. The functional gastrointestinal disorders and the Rome III. In: Drossman, D. A.; Corazziari, E.; Spiller, R. C.; Thompson, W. G.; Delvaux, M.; Talley N. J.; Whitehead, W. E. Rome III: The Functional Gastrointestinal Disorders, 3rd edition. McLean, VA: Degnon Associates, Inc. 2006. p.1-29.

7-Godoy, Z. J.; Morales, M. O.; Schlack, C. V.; Papuzinski, C. A. Prevalencia de constipacion y su asociacion com enfermedades cronicas en Centro de Salud Familiar Marcos Maldonado. Revista Anacem. Vol. 5. Num. 5. p.32-37. 2011.

8-Hawrelak, J. A.; Myer, S. P. The Causes of Intestinal Dysbiosis: A Review. Alternative Medicine Review. Vol. 9. Num. 2. p.180-197. 2004.

9-Instituto Nacional do Cancer [homepage na internet]. Incidencia de cancer no Brasil. 2014. Disponivel em: http://www.inca.gov.br/estimativa/2014/sintese-de-resultados-comentarios.asp

10-Jackson, A. S.; Pollock, M. L. Generalized equations for predicting body density of men. Britsh Journal of Nutrition. Vol. 40. Num. 3. p.497-504. 1978.

11-Johannesson, E.; Simren, M.; Strid, H.; Bajor, A.; Sadik, R. Physical Activity Improves Symptoms in Irritable Bowel Syndrome: A Randomized Controlled Trial. American Journal of Gastroenterology. Vol. 106. Num. 5. p.915-922. 2010.

12-Lewis, S. J.; Heaton, K. W. Stool form scale as a useful guide to intestinal transit time. Scandinavian Jounal of Gastroenterology. Vol. 32. Num. 9. p.920-924. 1997.

13-Markland, A. D.; Palsson, O.; Goode, P. S.; Burgio, K. L.; Busby-Whitehead, J.; Whitehead, W. E. Association of low dietary intake of fiber and liquids with constipation: evidence from the National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES). American Journal of Gastroenterology. Vol. 108. Num. 5. p. 796-803. 2013.

14-Martinez, A. P.; Azevedo, G. R. The Bristol Stool Form Scale: its translation to portuguese, cultural adaptation and validation. Revista Latino-Americano Enfermagem. Vol.20. Num. 3. 2012. p.583-9.

15-Moreira, A. F.; Maciel, M. M.; Navarro, F.; Silva, B. M. Probioticos e exercicio fisico na constipacao. Revista Brasileira de Nutricao Obesidade e Emagrecimento. Vol. 3. Num. 16. p.305-316. 2009. Disponivel em: <http://www.rbone.com.br/index.php/rbone/article/view/161/158>

16-Nakaji, S.; Tokunaga, S.; Sakamoto, J.; Todate, M.; Shimoyama, T.; Umeda, T.; Sugawara, K. Relationship between lifestyle factors and defecation in a Japanese population. European Journal Nutrition. Vol. 41. Num. 6. p.244-248. 2002.

17-Oliveira, E. P.; Burini, R. C. Food-dependent, exercise induced gastrointestinal distress. Journal of the International Society of Sports Nutrition. Vol. 8. p.12. 2011.

18-Paiva, L. R.; Kuei, J. K.; Nacif, M.; Bueno Junior, C. R. Avaliacao das alteracoes gastrintestinais e consumo de suplementos nutricionais por maratonistas. Brazilian Journal of Sports Nutrition. Vol. 2. Num. 2. p.17-23. 2013.

19-Panigrahi, M. K.; Kar, S. K.; Singh, S. P.; Goshal, U. C. Defecation Frequency and Stool Form in a Coastal Eastern Indian Population. Journal of Neurogastroenterology and Motility. Vol. 19. Num.3. p.374-380. 2013.

20-Perez, M. M.; Martinez, A. B. The Bristol scale - a useful system to assess stool form. Revista Espanola de Enfermidades Digestivas. Vol. 101. Num. 5. p.305-311. 2009.

21-Peters, H. P. F.; Wiersma, W. C.; Akkermans, L. M. A.; Bol, E.; Kraaijenhagen, R. J.; Mosterd, W. L.; De Vries, W.; Wielders, J. P. M. Gastrointestinal mucosal Integrity after prolonged exercise fluid supplementation. Medicine & Science in Sports & Exercise. Vol. 32. Num. 1. p.134-142. 2000.

22-Schaffer, J. I.; Hoffman, B. L.; Schorge, J.O. Ginecologia de Williams. 2. ed. Sao Paulo: Artmed; 2014.

23-Simren M. Physical activity and gastrointestinal tract. European Journal Gastroenterology Hepatology. Vol.14. Num. 10. p.1053-1056. 2002.

24-Strid, H.; Simren, M.; Storsrud, S.; Stotzer, P.; Sadik, R. Effects of heavy exercise on gastrointestinal transit in endurance athletes. Scandinavian Journal of Gastroenterology. Vol. 46. Num.6. p.673-677. 2011.

25-Trisoglio C.; Marchi, C. M. G.; Torres, U. S.; Gomes, N. J. Prevalencia de Constipacao Intestinal entre Estudantes de Medicina de uma Instituicao no Noroeste Paulista. Revista Brasileira de Coloproctologia. Vol. 30. Num. 2. p.203-209. 2010.

26-Van Nieuwenhoven, M. A.; Brouns, F.; Brummer, R. J. M. Gastrointestinal profile of symptomatic athletes at rest and during physicale exercise. European Journal of Applied Physiology. Vol. 91. Num. 4. p.429-434. 2004.

Recebido para publicacao em 02/08/2015 Aceito em 19/08/2015

Tatyana Dall'Agnol (1) Maita Poli de Araujo (1) Fernanda Laino (1) Tathiana R. Parmigiano (1) Manoel Joao Baptista Castello Girao (1) Marair Gracio Ferreira Sartori (1)

(1)-Setor de Ginecologia do Esporte da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de Sao Paulo (EPM-UNIFESP), Sao Paulo, Brasil.

Endereco para correspondencia: Tatyana Dall'Agnol Rua Jose Maria Lisboa, 730, apto 103. Jardim Paulista. Sao Paulo-SP. CEP: 01423-001.
COPYRIGHT 2016 Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercicio. IBPEFEX
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2016 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Dall'Agnol, Tatyana; de Araujo, Maita Poli; Laino, Fernanda; Parmigiano, Tathiana R.; Girao, Manoel
Publication:Revista Brasileira de Nutricao Esportiva
Date:Jul 1, 2016
Words:4791
Previous Article:Prevalencia de transtorno dismorfico muscular em homens adultos residentes na fronteira oeste do Rio Grande do Sul.
Next Article:Perfil antropometrico e consumo alimentar de atletas de basquetebol em cadeira de rodas da regiao metropolitana de Sao Paulo.
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters