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Aurelia de Souza: Feminism at the Mirror/Aurelia de Souza: O Feminismo ao Espelho.

Introducao

No inicio dos anos setenta arrancou todo um processo de questionamento do fazer da historia, desde os processos de museificacao e exibicao artistica ate aos processos de narracao historica que ainda hoje esta longe de se ter esgotado. A partir do seminal artigo de Nochlin (1971) sao denunciadas e questionadas as multiplas exclusoes socioculturais de que as mulheres artistas sao vitimas e principalmente as "posteriores exclusoes da propria construcao historica, sobretudo durante os seculos XIX e XX" (Vicente, 2017:35). Verifica-se que "a producao de conhecimento da historia e da historia da arte realizada no seculo XX e que, ao olhar para o passado com as lentes da discriminacao de genero e racial do seu presente, nao foi capaz de ver a existencia de mulheres enquanto agentes da historia, tambem elas criadoras de saberes como de artes" (Vicente, 2017:35). Hoje existe a percecao de que o mundo artistico e mais progressista e aberto do que outras esferas e, segundo Vicente (2017), e esta aparencia que acaba por camuflar as persistentes desigualdades de genero no mundo artistico e que dificulta o proprio reconhecimento da discriminacao.

Aurelia de Souza (1866-1922) (Figura 1) e uma artista portuguesa que foi, e ainda e, vitima de discriminacao de genero (Vicente & Vicente 2015). O seu lugar na historia da arte portuguesa e pouco mais do que uma excecao digna de nota. A maior barreira ao pleno reconhecimento do seu genio artistico depende de existir na sua obra aquilo a que Adorno se refere como "conteudo de verdade" e que e aquilo que, intrinseco a obra, a liga a verdade pessoal e historica de toda uma sociedade (Freitas, 2005).

A sociedade portuguesa de finais do seculo XIX e profundamente marcada pela desigualdade de genero e e sabido que Aurelia passou por inumeras barreiras para poder exercer a profissao de pintora. Estas dificuldades se, por um lado foram sendo ultrapassadas, tambem delimitaram a abrangencia da sua atividade e o seu pleno reconhecimento em vida e posteriormente. Ainda hoje paira sobre a sua obra uma duvida fundamental que se refere a ate que ponto as limitacoes a que a pintora se viu sujeita nao terao impedido o seu pleno desenvolvimento como artista a ponto de, eventualmente, atingir a genialidade criativa? O mesmo sera questionar se a sua obra esta ou nao imbuida de "conteudo de verdade" na acecao adorniana. A sua obra fornece-nos, ou nao, toda uma visao critica da sociedade e cultura ocidental oitocentista que resulte de todo um profundo posicionamento filosofico que cabe aos artistas ter? Tal e a questao que nos propomos aqui colocar.

1. Duvidas e desconfiancas

Uma das duvidas que a historiografia moderna lanca sobre a obra de Aurelia de Souza refere-se ao facto de, tendo a artista estudado em Paris durante tres anos e contactado com as correntes mais vanguardistas, nao ter optado por desenvolver essa linha de trabalho mais no sentido da impressao e da abstracao e, ao inves, ter-se mantido fiel a tecnica tradicional que em muitas obras e preciosista e noutras eivada de pinceladas meramente sugestivas e/ou matericas. Nesta perspetiva a obra de Aurelia de Souza surgiria indesculpavelmente desfasada da realidade artistica da vanguarda internacional sua contemporanea. No entanto esta perspetiva e falaciosa por duas razoes. A primeira porque se trata de uma perspetiva que enferma de formalismo reduzindo a arte a meras questoes formais esvaziadas de sentido. A segunda razao diz respeito a deixar de fora todas as circunstancias socioculturais da epoca e vida da artista. De facto Aurelia de Souza, como ja referimos noutra ocasiao (Pelayo, 2017) interrompe estudos em Paris abruptamente, por motivos de saude que, de resto, se prendem com a omnipresente pandemia da epoca, a tuberculose, que acompanhou e foi o lado negro do processo de industrializacao ocidental. Sendo obrigada a viver no Porto, e tal como qualquer outro artista, teve de se adaptar e encontrar o seu lugar no meio artistico portugues nao estando em posicao, particularmente por ser mulher num mundo profusamente masculinizado, de abrir mao da tecnica que funcionava como o mais importante fator credibilizador da sua atividade como pintora. Nao era ainda, e nao foi, tempo portugues disso. A limitacao, se ha alguma, seria a de toda a cultura portuguesa de entao como um todo.

Outra desconfianca, esta claramente preconceituosa, que se estabelece frequentemente na avaliacao da obra de uma pioneira mulher artista e a de que, ultrapassada a barreira da formacao tecnica com brilhantismo a obra nao possua a liberdade de espirito, o sentido critico, uma necessaria tomada de posicao perante o mundo, como resultado das limitacoes que a condicao feminina, neste caso oitocentista, impunha as mulheres que estavam excluidas de muitas tertulias e de muita da vida mundana, cultural e politica apenas frequentada por homens. Mais uma vez esta questao e falaciosa porque qualquer ser humano, independente do genero, faz parte de uma complexa realidade historica e carrega consigo o peso da sua perspetiva de vida que e sempre subjetiva e limitada pela sua circunstancialidade, mas que faz parte e constroi essa mesma realidade social mais ampla. Inversamente poderiamos questionar a profundidade do conhecimento que os intelectuais da epoca poderiam ter sobre a verdadeira realidade do espaco domestico, as frustracoes e anseios das mulheres da sua epoca, ja que essa e uma realidade que faz parte das vivencias culturais e politicas daquela sociedade tanto quanto terao sido os debates da esfera publica. Assim, a questao que e pertinente dirigir a obra desta artista e se ela se imbui de sentidos e posicionamentos relativamente aquela que era entao a realidade das mulheres no quadro das vivencias do seu tempo.

Nao pode ser Aurelia de Souza uma artista maior caso a sua obra nao nos fale dessa realidade brutal, silenciada na producao cultural masculina, que e de enorme relevancia pois diz respeito a metade da humanidade. Simplificando, poderia dizer-se que o valor da sua obra depende, em grande medida, da mesma obra possuir intrinsecamente um posicionamento feminista que revele uma artista critica, criativa e visionaria como e apanagio dos grandes artistas, dinamicos agentes da historia.

E neste quadro que nos propomos proceder a uma analise visual sobre uma pequena amostra de obras de Aurelia de Souza que nos permita identificar, caso existam, sentidos e ressonancias que revelem o seu posicionamento critico relativamente a sociedade e cultura de entao. Dos varios autorretratos selecionamos os tres de maior envergadura que sao o Autorretrato (do laco) (c. 1897), oleo sobre tela, colecao Jose Caiado de Souza; o Autorretrato (do casaco vermelho) (c. 1900), oleo sobre tela, colecao Casa-Museu Marta Ortigao Sampaio; Santo Antonio (c.1902), oleo sobre tela, colecao Museu Nacional Soares dos Reis e ainda Jezabel devorada pelos caes por ordem de Jehu (sem data), oleo sobre tela, colecao Museu Nacional Soares dos Reis. Contemplemos a artista olhando-se ao espelho.

2. Analise iconografica

O Autorretrato do laco (Figura 2) e uma das obras mais intrigantes de Aurelia. O caracter patetico desta figura levou Silva (1995), numa primeira tentativa de interpretacao, a ve-lo como "surpreendido palhaco" resultado de um processo de "auto-indagacao e autotravestimento". Para alem de rebuscada e vaga esta interpretacao apresenta-se inverosimil face ao contexto da condicao feminina da epoca. De facto aquilo que as mulheres do seculo dezanove mais temiam era serem ridicularizadas ou serem alvo de chacota, coisa que acontecia face a qualquer intento emancipatorio uma vez que eram consideradas seres intelectualmente inferiores.

A obra mostra-nos uma mulher de expressao patetica que nos fita de sobrolho franzido, com a boca entreaberta onde assoma a lingua prestes a sair, sufocada por um gigantesco laco negro que lhe estrangula o pescoco. De cabelo cortado e palida como a morte esta mulher e uma vitima do seu adereco ridiculo e esta prestes a desfalecer. Seu corpo em alvas e vagas pinceladas diluido no fundo tambem ele branco numa impossibilidade existencial. Nesta cena de quase morte, o desaparecimento da figura que realca o omnipotente laco mantem, no entanto, uma aparente normalidade retratista na composicao tradicional da figura na tela passando facilmente como um "retrato normal" menos bem conseguido. Foi pintada ainda no Porto, antes da ida para Paris quando ainda frequentava a Academia de Belas Artes do Porto.

Refira-se ainda que Aurelia de Souza atribui a esta sua obra uma enorme importancia. Ela e a obra que se exibe num cavalete por detras da pintora no "retrato oficial" que lhe tera feito Aurelio da Paz dos Reis (Figura 3) onde a artista se mostra como tal, de camelia branca ao peito como referencia as pinturas que lhe trouxeram algum sucesso comercial. Aurelia surge na fotografia espartilhada em vestido negro a boa maneira vitoriana da epoca e a seus ombros, muito apertada em volta do seu pescoco, veste uma longa echarpe de cetim negro que facilmente se reconhece como a mesma que faz o enorme lacarote na pintura. Aurelia posa para a fotografia esticando com firmeza a echarpe com sua mao esquerda num renovado estrangulamento enquanto nos fita com autoridade, reforcando a atitude do autorretrato.

Como ja notamos (Pelayo, 2017) esta pintura tambem figura como obra que a representa como artista, numa pintura posterior sua o No Atelier de 1916.

Aquando da exposicao postuma no Palacio de Cristal no Porto em 1936 um enorme relevo foi dado a esta peca. Ela foi colocada no centro da parede principal, face a entrada do salao. Foi colocada num cavalete e nao na parede como as outras e a sua frente exibiram-se os instrumentos de trabalho da pintora e um arranjo floral a seus pes (Figura 4). Esta foi a pintura escolhida para o folheto (Figura 5).

Nenhum deste relevo faria sentido se o mesmo celebrasse e/ou homenageasse experiencias algo pueris de travestismo da artista. Seu sentido e muito mais serio e grave. Nao se trata de uma arlequinesca auto representacao estranha e ambigua (Dias, 2012), mas sim um autentico manifesto feminista. Uma denuncia e critica seria a misoginia da sociedade oitocentista. Um grito no silencio. O laco opressor e uma clara referencia as vestes femininas de entao, com seus doentios espartilhos e incomodativas caudas de crinolina. Toda uma moda que sacrificava a saude, a liberdade de movimentos e o conforto em prol do decorativo. O laco surge nesta obra como simbolo das proibicoes familiares, sociais e politicas que aprisionavam as mulheres no espaco domestico e as condenavam a um insano aborrecimento obrigando-as a insignificantes, invisiveis, repetitivas, solitarias e infindaveis tarefas domesticas. A aparente "normalidade" do retrato tera permitido que o seu conteudo escapasse a leitura dos homens de entao que naturalmente nao esperariam mais do que "tontices" das mulheres, mas com certeza nao tera escapado a interpretacao feminina. E muito importante que nao nos escape hoje e possamos ver para la da entao necessaria ambiguidade da obra porque esta e uma obra impar na cultura ocidental.

O autorretrato do laco e indubitavelmente o retrato do feminismo oitocentista ao espelho. Uma denuncia do sofrimento das mulheres oprimidas por uma organizacao social patriarcal e misogina, uma denuncia da falta de liberdade, uma denuncia da opressao de uma cultura asfixiante para as mulheres, sem direitos e sem voz. Que uma pioneira artista oitocentista tenha esta clarividencia e produza uma obra tao claramente feminista e a todos os titulos admiravel. So um artista maior e capaz de tal audacia e originalidade critica e criativa.

Outras obras de Aurelia corroboram esta tomada de posicao da artista. No Autorretrato do casaco vermelho (Figura 6) realizado em Paris, mais uma vez, a artista nos surge espectral na frieza da composicao geometrica de uma simetria perfeita. Ela surge de olhos no vazio, face livida e macilenta como se sua possibilidade de existencia fosse ameacada. Este espectro veste agora um vibrante casaco vermelho, tao inabitual na paleta da artista, que relega para as dolorosas hemoptises tipicas da tuberculose que pensamos ter acometido a artista em Paris (Pelayo, 2017).

Mais uma vez surge a gola asfixiante sendo plasticamente reforcada a sua estrutura por orlas que lhe dao uma rigidez estrema, coroada por novo adorno: um camafeu dourado que faz do seu pescoco o ponto focal desta pintura.

No autorretrato como Santo Antonio (Figura 7) Aurelia nao se inibe de usar os mesmos recursos do oficio que os seus artistas contemporaneos que mudam o sexo do modelo usado para a pintura ou se usam a si proprios como Columbano e Carneiro (Pelayo, 2017).

Na obra Jezabel Devorada Pelos Caes Por Ordem De Jehu (Figura 8) a artista vai mais longe escolhendo representar a passagem mais misogina do Antigo Testamento. Na sua versao a cena e trazida para a contemporaneidade e Jezabelja a perversa, rica e toda poderosa personagem biblica mas sim uma inocente e indefesa mulher do povo que depois de assassinada ao ser atirada de uma janela e comida pelos caes para que dela nao haja memoria.

Encenadora de aparencias, Aurelia coloca em pequenos detalhes todo um mundo de ressonancias e profundas significacoes sob uma aparente normalidade. Aurelia de Souza, ate hoje olhada como uma artista regional menor que embora competente, estava afastada das grandes questoes do seu tempo pela condicao feminina que limitaria o seu entendimento, revela-se afinal genial, repleta de modernidade, rebeldia, sofrimento e profundidade. A sua obra nao so nao esta desligada da sociedade oitocentista como nos da uma esplendida, rara e critica visao feminina sobre o seculo dezanove. Estamos portanto perante uma obra cuja originalidade nao se configura no quadro da decomposicao formal abstratizante mas que frequentemente se afasta das normas e tendencias trabalhando significacoes outras cujo sentidos em aberto estao imbuidos de uma avassaladora humanidade.

Referencias

Dias, Fernando Rosa (2012) " A construcao da arte moderna portuguesa em voz feminina." Arte e Genero--Mulheres e Criacao Artistica. Faculdade de Belas Artes CIEBA: 68-90.

Freitas, Verlaine (2005). "Alteridade e transcendencia: a dialetica da arte moderna em Theodor Adorno". In: Duarte, R., Figueiredo, V., & Kangussu, I. Theoria aesthetica: Em comemoracao ao centenario de Theodor W. Adorno. Porto Alegre: Escritos. p. 45-56.

Nochlin, Linda (1971) "Why Have There Been No Great Women Artists?" ARTnews. January: 22-39, 67-71.

Pelayo, Raquel (2017) "Aurelia de Sousa: Pelo Brilho da Penumbra." Revista Gama, Estudos Artisticos. ISSN 2182-8539 e-ISSN 2182-8725. Vol.5 (9):71-81.

Silva, Raquel Henriques (1995) "Romantismo e pre-naturalismo." Historia da Arte Portuguesa--Do Barroco a Contemporaneidade. ISBN 972-759-0101.Vol. 3: 328-367.

Vicente, Ana & Vicente, Filipa Lowndes. (2015) "Fora dos canones: mulheres artistas e escritoras no Portugal de principios do seculo XX". Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher. ISSN 0874-6885. No 33: 38-51.

Vicente, Filipa Lowndes (2017) "Artes, a Ilusao da Vanguarda" XXI--Ter Opiniao, Fundacao Francisco Manuel dos Santos. No 8:.32-45.

Artigo completo submetido a 4 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 janeiro 2018

RAQUEL PELAYO, Portugal, artista visual, professora.

AFILIACAO: Universidade do Porto, Faculdade de Arquitetura (FAUP) e I2ADS-- Instituto de Investigacao em Arte, Design e Sociedade. Universidade do Porto, Faculdade de Belas Artes (FBAUP). Av. Rodrigues de Freitas 265, 4000-222, Porto, Portugal. E-mail: mpelayo@arq.up.pt

Caption: Figura 1. Fotografia de Aurelia de Sousa, s/a, s/d.

Caption: Figura 2. Aurelia de Souza, Autorretrato. c. 1897. Oleo sobre tela. Colecao Jose Caiado de Sousa, Porto. Fonte: http://www.viva-porto.pt/Geral/150o-aniversario-do-nascimentode-aurelia-de- sousa-comemorado-com-exposicao.html

Caption: Figura 3. Fotografia de Aurelia de Sousa, Aurelio da Paz dos Reis. s/d. Casa-Museu Marta Ortigao Sampaio. Fonte: Propria.

Caption: Figura 4. Aspeto da Exposicao de Homenagem Postuma a grande Pintora D. Aurelia de Souza, 1936. Casa-Museu Marta Ortigao Sampaio, Porto. Fonte: propria.

Caption: Figura 5. Capa do folheto da Exposicao de Homenagem a Aurelia de Souza, 1936. Casa-Museu Marta Ortigao Sampaio, Porto. Fonte: propria.

Caption: Figura 6. Aurelia de Souza, Autorretrato. c. 1900. Oleo sobre tela. Colecao Museu Nacional Soares dos Reis, Porto. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Self- portrait_(Aurelia_de_Sousa).jpg

Caption: Figura 7. Aurelia de Souza, Santo Antonio, c. 1902. Oleo sobre tela. Colecao Casa-Museu Marta Ortigao Sampaio, Porto. Fonte: propria.

Caption: Figura 8. Aurelia de Souza, Jezabei Devorada Pelos Caes Por Ordem De Jehu, s/d. Oleo sobre tela. Colecao Museu Nacional Soares dos Reis, Porto. Fonte: https://iolandaandrade.blogspot.pt/2016/09/my-trip-to-york-via-porto-and- liverpool_22.html
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Title Annotation:2. Original Articles/Artigos originais
Author:Pelayo, Raquel
Publication:Estudio
Date:Oct 1, 2018
Words:2672
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