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Audiological evaluation in infants with agenesis of the corpus callosum/Avaliacao audiologica em lactentes com agenesia de corpo caloso.

* INTRODUCAO

O corpo caloso e a principal via de conexao de ambos os hemisferios cerebrais. Sua funcao e permitir a transferencia de informacoes entre um hemisferio e outro fazendo com que eles atuem harmonicamente [1]. Sua formacao tem inicio aproximado na 12a semana de vida intra-uterina e encontra-se completamente desenvolvido entre a 18a e 20a semana de gestacao [2,3].

A agenesia de corpo caloso, bem como a disgenesia, referem-se a uma malformacaocom origem na embriogenese do telencefalo e se aplica a varios graus de malformacao, desde a ausencia total de suas comissuras (agenesia) ate minima deficiencia do seu desenvolvimento [45]. A agenesia oudisgenesia ocorrem em 1-3:1000nascimentos [4].

As manifestacoes clinicas da agenesia de corpo calososao extremamente variaveis. Agenesias isoladas do corpo caloso podem ser assintomaticas ou apresentar alteracoes do sistema nervoso central incluindo epilepsia, hidrocefaliae perda auditiva neurossensorial entre outros [6-8].

Estudos mostram relacao entre a ausencia do corpo caloso e escuta dicotica, com vantagem da orelha direita refletindo a dominancia do hemisferio esquerdo para a fala. O papel do corpo caloso na escuta dicotica vem sendo estudado, devido ao fato de que seria ele a ponte para a transferencia da informacao auditiva de um hemisferio para o outro [9].

Para verificar a funcao auditivaperiferica e central em criancas, tem sido recomendado o uso do teste de Emissoes Otoacusticas Evocadas (EOA),o Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefalico (PEATE) e a Avaliacao Comportamental da Audicao [10].

As EOA tem como objetivo avaliar a funcionalidade da coclea, mais especificamente das celulas ciliadas externas [11]. O potencial evocado auditivo de tronco encefalico (PEATE) e o mais utilizado na pratica clinica, pois pode ser aplicado em recem-nascidos para avaliacaoda integridade da via auditiva central [12]. Outros metodos para avaliar a funcao auditiva periferica e central, incluem aobservacao do comportamento auditivo e a audiometria com reforco visual. Por volta dos seis meses de idade a observacao do comportamentoavalia algumas das habilidades auditivas (atencao, localizacao) e audiometria com reforco visual permite avaliar a funcao auditiva periferica com obtencao dos limiares auditivos.

Frente ao exposto e, considerando-se que as alteracoes auditivas (perifericas ou centrais) prejudicam o desenvolvimento da linguagem, o objetivo do presente estudo foi o de verificar a ocorrencia de alteracoes auditivas em lactentes com alteracao do corpo caloso, comparando-os a criancas sem tal malformacao.

* METODOS

O estudo teve inicio apos sua aprovacao pelo Comite de Etica e Pesquisa da Universidade Federal de Sao Paulo, sob o numero 02840412.1.0000.5505.

Tratou-se de um estudode coorte dividido em duaspartes: retrospectivo de 2008 a 2011com analise dos prontuarios com os resultados das avaliacoes ja realizadas em lactentescom agenesia de corpo caloso; e prospectivo de 2011 a 2012 com a realizacao das avaliacoes ao nascimento e entre seise 16 meses de idade.

Para a realizacao da parte prospectiva do presente estudo, os responsaveis legais leram e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme Resolucao 196/96, no qual concordaram com a participacao dos lactentes nesta pesquisa.

A amostra foi distribuida em dois grupos:Grupo Estudo (GE) foi composto por 12 lactentes (oito do sexo masculino e quatro do sexo feminino), com media de idade gestacional de 35,95semanas, e idade corrigida no momento da EOA e PEATE de 41,26 semanas, nascidos na maternidade Hospital Sao Paulo da Universidade Federal de Sao Paulo (HSP/UNIFESP) entre 2008 a 2011 com diagnostico por neuroimagem de agenesia de corpo caloso. O

Grupo Controle(GC) foi composto por 12 lactentes nascidos no mesmo periodo,sem alteracoes neurologicas, dos quais oito do sexo masculino e quatro do sexo feminino, com media de idade gestacional de 35,51 semanas, e a idade corrigida no momento da EOA e PEATE foi de 39,27 semanas.

Retornaram para o acompanhamento audiologicorealizado por meio da Avaliacao Comportamental, 12 pacientes (50%) dos quais, seis do GE (quatro do sexo masculino e dois do sexo feminino) e seis do GC(quatro do sexo masculino e dois do sexo feminino), com media de idade corrigida de 8,8 meses para o GE, e8,5 para o GC.

A coleta da amostra foi realizada por meio da leitura de prontuarios medicos dos lactentes do GEe GC, onde foram pesquisados: idade gestacional, sexo, resultados de exames de neuroimagem, presenca ou ausencia de indicadores de risco para perda auditiva, resultados da pesquisa dos exames de Emissoes Otoacusticas Evocadas por Estimulo Transiente (EOAT), Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefalico (PEATE), constantes do protocolo de Triagem Auditiva Neonatal do referido Hospital.

Foram estabelecidos criterios de inclusao para determinar os grupos: o Grupo Estudo (GE) foi formado por lactentes com presenca de alteracao de corpo caloso confirmado por exame de imagem realizado no pre-natal e/ou pos-natal (primeiros meses de vida). O Grupo Controle (GC) consistiu de lactentes com ausencia de alteracao de corpo caloso e/ou do sistema nervoso central, tal como, sindromes, encefalopatias (hidrocefalia, microcefalia, convulsoes, paralisia cerebral). Os lactentes foram pareados por sexo e idade aproximada na data da realizacao do exame a dos lactentes do GE.

Todos os lactentes foram avaliados ao nascimento com pesquisa das Emissoes Otoacusticas Evocadas por Estimulo Transiente e Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefalico.

Os exames de PEATE e Emissoes OtoacusticasEvocadas por Estimulo Transiente (EOAT) foramrealizados no setor de Triagem Auditiva Neonatal do HSP/UNIFESP e a Avaliacao Comportamental no Ambulatorio da Disciplina de Disturbios da Audicao da Universidade Federal de Sao Paulo.

O preparo de todos os lactentes para a realizacao dos testes ocorreu apos a inspecao do meato acustico externo por meio de otoscopio marca WelchAllyn para visualizacao da membrana timpanica.

A captacao das EOAT foi realizada apos o posicionamento da sonda auricular do equipamento automatico portatil Accuscreen PRO no meato acustico externo do lactente, para a emissao do estimulo acustico.

** AccuscreenProfoi calibrado pelo fabricante para a analise automatica por estatistica binomial das respostas, possibilitando a obtencao do registro de "PASSA" ou "FALHA" nas EOAT [13].

** PEATEfoi realizado com o equipamento modelo Smart-EP, da marca IntelligentHearing Systems numa intensidade de 80dBnNA (pesquisa da integridade da via auditiva), utilizando-se o estimulo acustico tipocliquede polaridade rarefeita, numa velocidade de apresentacao de 27,7/seg com replicacao dos tracados.

Para a analise das respostas do PEATE, foram mensuradas as latencias absolutas das ondas I, III, V, e intervalos interpicos I-III, III-V, I-V. O criterio de normalidade considerado foi o indicado no equipamento Smart-EP Intelligent Hearing [14].

A classificacao das alteracoes encontradas no PEATE seguiram os seguintes criterios: alteracoes de carater condutivo, quando as latencias absolutas das ondas I, III e V apresentaram-se aumentadas, com interpicos normais; alteracoes do tipo coclear de grau moderado caracterizadas por latencias absolutas das ondas I, III e V e interpicos normais, com limiar eletrofisiologico aumentado e presenca apenas da onda V nos casos de perda coclear de grau severo ou profundo, com ausencia de EOAT em ambos os casos; alteracoes retrococleares, caracterizadas de diversas maneiras como latencia interpico aumentada, ausencia das ondas III e V e presenca somente da onda I, ausencia de todas as ondas, falta de replicabilidade, diferenca interaural da latencia interpico I-V, ou da latencia absoluta da onda V maior que 0,3 ms [15].

O monitoramento foi realizado entre seis e 16 meses com a Avaliacao Comportamental que constou de: observacao comportamental, audiometria com reforco visual, reconhecimento de ordens e deteccao de voz.

Na observacao comportamental, foi emitido um estimulo sonoro por meio do instrumento musical guizo (77dBNPS) apresentado a 20 cm de distancia do pavilhao auricular da crianca, no plano lateral. Esperou-se como resposta a localizacao lateral, localizacao para baixo e para cima, sendo direta ou indireta, conforme a idade no momento do exame [16].

A pesquisa do Reflexo Cocleo-palpebral (movimentacao palpebral em resposta a um estimulo subito de alta intensidade) foi feita por meio da percussao da campanula grande do instrumento musical Agogo (100dBNPS), de acordo com os parametros de avaliacao de Azevedo [16]. Para esta pesquisa, o lactente foi posicionado sentado junto do responsavel, e o estimulo percutido a 20 centimetros de sua orelha [11].

A Audiometria com Reforco Visual foi realizada com o audiometro pediatrico PA-2 da Interacoustics, que produz tons puros modulados (warble) nas frequencias de 500Hz, 1000Hz,2000Hz e 4000 Hz, a 80dBNA,60dBNA, 40dBNA e 20dB NA. Os tons puros modulados foram apresentados a 20 cm do pavilhao auricular do lactente, a direita e a esquerda, nas frequencias de 1000, 2000,4000 e 500 Hz, nesta ordem. O estimulo luminoso como reforco foi acionado quando houve a resposta de localizacao sonora de virar a cabeca em direcao ao som. Foi consideradocomo nivel minimo de resposta a menor intensidade em que a localizacao ocorreu para cada frequencia sonora [16].

No teste de deteccao de voz, sugerido por Norhern e Downs [17], o estimulo verbal foi a fala natural dos familiares, a 50 cm de distancia, no plano lateral ao nivel do pavilhao auricular da crianca, sem amplificacao sonora e sem fornecer pistas visuais. Para a pesquisa do reconhecimento de ordens foi utilizado os procedimentos propostos por Azevedo (1991) para criancas com idade entre 12 e 15 meses. As respostas foram classificadas de acordo com as referencias de normalidade para a idade [18].

Foi considerado como sugestivo de alteracao central na Avaliacao do Comportamento Auditivo, as criancas que apresentaram as seguintes respostas: respostas exacerbadas, aumento da latencia da resposta, dificuldade de localizacao sonora com acuidade normal, ausencia de habituacao a estimulos repetidos e reflexo cocleo-palpebral ausente com acuidade auditiva normal [19].

Os resultados dos exames de EOAT, PEATE e Comportamento Auditivo foram analisados nos dois grupos, levando em consideracao as respostas obtidas para cada idade, e comparados quanto a possivel diferenca no desenvolvimento das habilidades auditivas.

* RESULTADOS

Foi aplicado o teste estatistico ANOVA para analise quantitativa das latencias do PEATE, e o Teste de Igualdade de Duas Proporcoes para analise qualitativa do estudo. Foi definido um nivel de significancia de 0,12 (12%), considerando o numero reduzido da amostra e o fato dos dados serem qualitativos e menos sensiveis a modificacoes.

Para esta analiseforam utilizados os softwares: SPSS V17, Minitab 16 e Excel Office 2010.

A distribuicao da amostra em relacao ao sexo e apresentada na Tabela 1.

Na distribuicao de sexo, foi possivel notar que houve diferenca entre os percentuais de feminino e masculino para ambos os grupos, no qual houve uma maior porcentagem de homens.

A ocorrencia de alteracao auditiva na primeira avaliacao audiologica realizada com PEATE e EOAT aparece descrita na Tabela 2.

Na analise estatistica intragrupo, foi possivel concluir que houve diferenca em ambos os grupos com maior percentual de resultados normais. Na analise comparativa entre os grupos, nao foi observada diferenca relevante do ponto de vista estatistico.

Os valores medios das latencias das ondas I, III e Ve interpicos I-III, III-V e I-V obtidos no grupo controle comparando-se as orelhas direita e esquerda estao apresentados na Tabela 3.

No grupo controle houve diferenca estatisticamente significante entre as orelhas, nas latencias da onda III e intervalo interpico I-III, com menor latencia e interpico para a orelha direita.

A ocorrencia de alteracoes auditivas no acompanhamento audiologico realizado entre seis e 16 meses e apresentada na Tabela 4.

No grupo controle houve maior ocorrencia de resultados normais. Na comparacao entre os grupos, houve diferenca estatisticamente significante, tanto em relacao aos resultados normais quanto ao alterados.

A distribuicao do tipo de alteracao auditiva obtida na avaliacao comportamental entre seis e 16 meses no GE e apresentada na tabela 5 e ilustrada na Figura 1.

Foi possivel concluir que nao houve diferenca estatistica entre alteracao central e periferica no GE. No entanto, houve uma tendencia a diferenca, com maior alteracao central.

A ocorrencia de alteracao auditiva no GE comparando-se a primeira e a segunda avaliacao e apresentada na Tabela 6.

Houve diferenca estatisticamente significante entre a primeira e a segunda avaliacao realizada no GE.

* DISCUSSAO

Neste estudo, o objetivo foi de verificar as possiveis alteracoes auditivas em lactentes com agenesia de corpo caloso, tanto no periodo neonatal como apos os seis meses de idade. Vale ressaltar a dificuldade que se encontrou no retorno dos pacientes para acompanhamento audiologico, em ambos os grupos. Apenas metade da amostra compareceu ao retorno, mesmo apos o contato telefonico, informando a importancia de acompanhamento. Tal fato pode estar relacionado ao baixo nivel socio economico e cultural da populacao atendida no Hospital Sao Paulo, que muitas vezes dificulta o retorno as consultas. Alem disso, tais criancas necessitam de acompanhamentos em outras especialidades medicas, em especial na pediatria e neurologia. Desta forma, o ideal seria o atendimento conjunto com outros profissionais da saude, evitando o excesso de retornos do paciente.

Estudos referem a dificuldade encontrada no monitoramento dos pacientes com indicadores de risco para perda auditiva [20,21].

A agenesia de corpo caloso (ACC) e uma das mais frequentes malformacoes em humanos, entretanto e dificil definir uma incidencia exata, pois a literatura e variable [22].

No presente estudo foi possivel notar maior numero de homens com agenesia de corpo caloso (66,6%) do que mulheres (33,3%). Tal achado concorda com a literatura, na qual ha prevalencia maior de ACC no sexo masculino [22-24].

Ainda neste estudo as criancas foram avaliadas em dois momentos, no periodo neonatal e entre seis e 16 meses de idade. O desenvolvimento da audicao tem seu periodo critico no primeiro ano de vida quando ocorre a maturacao do sistema nervoso central [19]. Dessa forma o acompanhamento fonoaudiologico e extremamente importante.

Na primeira avaliacao realizou-se a pesquisa das EOAT e do PEATE. Tais exames sao recomendados pelo Joint Committee on Infant Hearing para a identificacao de perdas auditivas [10] por avaliar tanto a porcao periferica da audicao, como a coclea, quanto do nervo auditivo ateo tronco encefalico.

No grupo estudo, dos 12 que realizaram avaliacao audiologica no HSP/UNIFESP, dez (83,3%) apresentaram resultados normais no PEATE e EOAT, e dois (16,7%) apresentaram resultados alterados. No grupo controle, os 12 (100%) pacientes selecionados apresentaram resultados adequados para a idade (Tabela 2), desta forma, a maioria das criancas de ambos os grupos, nao apresentaram alteracao.

Tais resultados assemelham-se aos obtidos em Triagem Auditiva Neonatal realizada com EOA e

PEATE em recem-nascidos com e sem risco, no qual mais de 90% dos neonatos sem risco e mais de 80% dos de risco apresentaram EOA presentes e PEATEA normal [25].

Na avaliacao do PEATE no GE e GC, os valores medios das latencias das ondas I, IIIe V, e interpicosi-MI, III-V e I-V foram maiores do que as obtidas em estudos realizados com lactentes nascidos a termo e pre-termo [26-28].Tais diferencas poderiam ser atribuidas as diferencas de equipamentos, parametros utilizados, tais como polaridade e velocidade do estimulo ou diferencas na idade da realizacao da avaliacao.

Na avaliacao do PEATE, o grupo controle apresentou diferenca estatisticamente significante entre as orelhas, nas latencias da onda III e intervalo interpico I-MI, com menor latencia e interpico para a orelha direita. Tal achado assemelha-se ao obtido por Casali e Santos [26], que avaliando neonatos, observaram menor latencia do interpico I-III na orelha direita.

Estudorealizado em neonatos com PEATE (clique)identificou assimetria da funcao auditiva com pequena, mas significante vantagem da orelha direita [29].

Entretanto, outros estudos nao observaram diferencas estatisticas entre as orelhas para as latencias absolutas e interpicos [25,26,30].

A avaliacao comportamental e utilizada para acompanhar o desenvolvimento auditivo, que reflete maturacao do sistema nervoso central. Sao exigidas habilidades que necessitam da via auditiva integra. Na avaliacao audiologica realizada entre seise 16 meses, foi possivel identificardiferenca estatisticamente significante de ocorrencia de alteracoes auditivas entre os grupos, no qual o GE apresentou maior ocorrencia de alteracoes (67,7%) e o GC apresentou 100% de normalidade.

No GE, comparando-se a ocorrencia de alteracoes nas avaliacoes realizadas no periodo neonatal e apos os seis meses de idade, observou-se diferenca estatisticamente significante, com reducao da normalidade, de 83,3% para 33,3% e aumento da ocorrencia de alteracoes auditivas, de 16,7% para 66,7%. Tal achado demonstra a importancia do acompanhamento audiologico de lactentes que apresentem agenesia de corpo caloso, visto que os grupos nao se diferenciaram no periodo neonatal. Entretanto, os grupos diferiram na avaliacao realizada entre seis e 16 meses. Tal resultado era esperado, visto que alteracoes centrais tendem a interferir no desenvolvimento das habilidades auditivas.

Como as criancas que apresentam alteracoes nas habilidades auditivas, tendem a apresentar maior ocorrencia de alteracao de linguagem, as criancas com agenesia de corpo caloso poderiam ser consideradas de risco para o atraso de linguagem.

Em relacao ao tipo de alteracao evidenciada no GE, houve uma tendencia a maior ocorrencia de alteracao central no GE. Na avaliacao comportamental do GE, foi possivel verificar que quatro lactentes apresentaram alteracoes, sendo tres com alteracao central e um paciente apresentou exame sugestivo de perda auditiva coclear a orelha esquerda e acuidade auditiva normal a orelha direita.

As alteracoes centrais identificadas na avaliacao foram caracterizadas por lactentes que nao responderam ou apresentaram limiares aumentados na audiometria com reforco visual. De fato, a inconsistencia de resposta a tons puros com melhores repostas para sons de espectro amplo como ruidos de banda larga e banda estreita, e considerada como sinal de alteracao neurologica [31]. A crianca que apresenta inconsistencia de resposta para tons puros entre seis e 12 meses, tem 4,7 vezes mais chance de apresentar alteracao neurologica aos tres anos [32]. Alem disso, os lactentes com agenesia de corpo caloso apresentaram atraso no reconhecimento de ordens que tambem e considerado um sinal de alteracao central [31]. Estudo refere que criancas que nao reconhecem ordens entre 12 e 18 meses tem 12, 5 vezes mais chance de apresentar atraso de linguagem entre quatro e seis anos [33]. As criancas do GE tambem apresentaram no acompanhamento, alteracao na habilidade de localizacao sonora. A dificuldade de localizacao sonora com acuidade auditiva normal, tem sido considerada como um sinal de alteracao do sistema auditivo nervoso central [31]. Estudo revelou que criancas que nao localizam som da forma adequada entre seis e nove meses, tem 1,69 mais chance de apresentar alteracao de linguagem entre quatro e seis anos [33].

Para o processamento da informacao auditiva, e necessaria a integridade dasestruturas do tronco encefalico ao cortex. O processamento auditivo compreende habilidades de atencao, deteccao e identificacao de um estimulo sonoro. O corpo caloso serve de ponte para a transmissao de informacoes de um hemisferio para o outro, o que prejudicaria a transferencia das informacoes auditivas, prejudicando as habilidades do processamento auditivo central. Dificuldades na escuta dicotica em pacientes com alteracao do corpo caloso aparecem descritos na literatura [9]. Estudos mostram relacao entre a ausencia do corpo caloso e alteracao da habilidade de escuta dicotica, pois com uso do estimulo verbal, ha uma vantagem da orelha direita que reflete dominancia do hemisferio esquerdo para a fala [9]. Desta forma, seria importante recomendar a avaliacao do processamento auditivo as criancas com agenesia de corpo caloso.

Vale ressaltar que um lactente que apresentou audicao normal ao nascimento, veio a apresentar perda auditiva coclear a esquerda no acompanhamento. Neste caso, haveria possibilidade da ocorrencia da displasia de Mondini, na qual a crianca nasce com audicao normal e apresenta perda auditiva progressiva no decorrer do primeiro ano. De fato, no retorno deste paciente em outras especialidades, foi possivel identificar que havia suspeita de sindrome genetica, com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. A agenesia de corpo caloso tem sido encontrada em associacao com perda auditiva neurossensorial [78]. Smith et al. [34] relataram um caso de associacao entre agenesia de corpo caloso e displasia de Mondini.

Segundo a literatura, embora seja mais comum a malformacao de corpo caloso isolada, pode ser encontrada em associacao com cerca de vinte e cinco sindromes geneticas, erros inatos do metabolismo, e com uso materno excessivo de alcool e cocaina 35-37.Em outro estudo no qual o autor avaliou 41 pacientes com agenesia e disgenesia de corpo caloso, foram identificados que em 32% havia base genetica [38].

Desta maneira, o estudo sugere que as alteracoes auditivas nos lactentes com alteracao do corpo caloso nao podem ser identificadas ao nascimento, com pesquisa das EOAT e PEATE provavelmente devido a localizacao das estruturas. A identificacao das alteracoes foi maior na avaliacao comportamental realizada entre seis e 16 meses, que exige habilidades auditivas mais complexas e de interacao entre os hemisferios. Dessa forma, e de extrema importancia o acompanhamento fonoaudiologico nos primeiros anos de vida, visto que estas criancas que apresentam alteracao central entre seis e 16 meses sao consideradas de risco para o atraso de linguagem e dificuldades no aprendizado escolar.

Novos estudos incluindo avaliacao do processamento auditivo central em criancas com agenesia de corpo caloso sao necessarios.

* CONCLUSAO

Houve maior ocorrencia de individuos do sexo masculino com agenesia do corpo caloso.

Na primeira avaliacao realizada no periodo neonatal nao houve diferenca entre os grupos controle e estudo.

No grupo controle houve diferenca estatisticamente significante entre as orelhas, nas latencias da onda III e intervalo interpico I-III, com menor latencia e interpico para a orelha direita.

Na avaliacao realizada a partir do segundo semestre de vida, houve diferenca entre os grupos, com presenca de maior ocorrencia de alteracao no grupo com agenesia de corpo caloso.

Houve um caso de perda coclear progressiva, e a maioria das alteracoes foram do sistema nervoso auditivo central.

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http://dx.doi.org/ 10.1590/1982-021620143013

Recebido em: 06/02/2013

Aceito em: 23/05/2013

Endereco para correspondencia:

Monica Faria dos Santos Rua Uruguai, no 1-50, bloco D, apartamento 32 Jardim Terra Branca Bauru--Sao Paulo--Brasil CEP: 17054-150

E-mail: monica_faria_s@hotmail.com

Monica Faria dos Santos (1), Rosanna Giaffredo Angrisani (2), Marisa Frasson de Azevedo (3)

(1) Programa de Residencia Multiprofissional Saude da Crianca e Adolescente do Departamento de Fonoaudiologia da Escola Paulista de Medicina--Universidade Federal de Sao Paulo--UNIFESP, Sao Paulo, SP, Brasil.

(2) Clinica do Hospital Sao Paulo da Universidade Federal de Sao Paulo--UNIFESP, Sao Paulo, SP, Brasil.

(3) Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de Sao Paulo--UNIFESP--Sao Paulo, SP, Brasil.

Conflito de interesses: inexistente
Tabela 1--Distribuicao da amostra em relacao ao sexo

           Feminino    Masculino

Sexo       n     %     n    %      p-valor

Estudo     4   33,3%   8   66,7%    0,102
Controle   4   33,3%   8   66,7%    0,102
P-valor     1,000        1,000

n: numero da amostra; Teste de Igualdade de Duas
Proporcoes; p-valor--0,12

Tabela 2--Ocorrencia de alteracao nos grupos na primeira avaliacao
audiologica (PEATE+EOAT)

Periodo    Normal       Alterado

Neonatal   n     %      n     %     p-valor

Estudo     10  83,3%    2   16,7%    0,001
Controle   12  100,0%   0   0,0%    <0,001
P-valor      0,140        0,140

n: numero da amostra; teste Teste de Igualdade de Duas Proporcoes;
p-valor--0,12

Tabela 3--Medidas descritivas da media e desvio padrao das latencias
das ondas I, III e V, e interpicos I-III, III-V e I-V do Grupo
Controle

GC      ORELHA DIREITA   ORELHA ESQUERDA   p VALOR

        MEDIA   DP       MEDIA   DP
I       1.80    0.11     1.80    0.07      0.818
III     4.61    0.13     4.71    0.16      0.005
V       7.07    0.22     7.10    0.22      0.367
I-III   2.81    0.16     2.91    0.16      0.005
III-V   2.46    0.19     2.39    0.18      0.146
I-V     5.27    0.25     5.30    0.23      0.389

DP: desvio padrao; GC: grupo controle; p-valor--0,12.

Tabela 4--Ocorrencia de alteracao auditiva no acompanhamento
audiologico (6 a 16 meses) em relacao aos grupos

           Normal      Alterado

           n   %       n   %       p-valor

Estudo     2   33,3%   4   66,7%   0,248
Controle   6   100%    0   0%      <0,001
P-valor    0,014       0,014

n: numero da amostra; Teste de Igualdade de Duas Proporcoes; p-
valor--0,12

Tabela 5--Distribuicao do tipo de alteracao na avaliacao
comportamental no GE

Av. Comportamental (GE)   n   %     p-valor

Alteracao Central         3   75%   H 1 R7
Alteracao Periferica      1   25%

n: numero da amostra; Av.comportamental: avaliacao comportamental;
GE: grupo estudo; Teste de Igualdade de Duas Proporcoes; p-valor--
0,12

Tabela 6 -Ocorrencia de alteracao em ambos os periodos no Grupo Estudo

Grupo      Periodo      Av.              p-valor
           Neonatal     Comportamental

Estudo     N    %       n   %

Normal     10   83,3%   2   33,3%        0,034
Alterado   2    16,7%   4   66,7%        0,034

n: numero da amostra; Av.comportamental: avaliacao comportamental;
Teste de Igualdade de Duas Proporcoes; p-valor--0,12

Figura 1--Distribuicao do tipo de alteracao na
avaliacao comportamental no GE

Alteracao Cental       75%
Alteracao Periferica   25%

Nota: Tabla derivada de grafico segmentado.
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Author:dos Santos, Monica Faria; Angrisani, Rosanna Giaffredo; de Azevedo, Marisa Frasson
Publication:Revista CEFAC: Atualizacao Cientifica em Fonoaudiologia e Educacao
Article Type:Clinical report
Date:Jul 1, 2014
Words:4992
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