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Atitudes linguisticas e r-forte em Carambei.

Introducao

Neste artigo, pretende-se descrever a situacao linguistica da comunidade 'holandesa' (1) de Carambei, mais especificamente a relacao entre as atitudes linguisticas manifestadas pelo individuo holandes em relacao as linguas --e variedades de lingua-- que fala e determinada variante de r-forte na variedade de portugues falada em Carambei, tomando como unidade de analise a comunidade de fala holandesa, a familia e o individuo bilingues em portugues/holandes. Como hipotese de trabalho propoe-se que: em relacao a lingua holandesa, os mais velhos manifestam atitudes positivas e os mais jovens, atitudes negativas. Ja em relacao a lingua portuguesa, ambos manifestam atitudes positivas. Em funcao disso, a variante de r-forte tende a tepe (2) quanto mais as atitudes em relacao ao holandes forem positivas e, por outro lado, a fricativa, quanto mais as atitudes forem negativas em relacao ao holandes.

Material e metodos

Nesta pesquisa, para fazer o levantamento dos dados a respeito da identidade dos 'holandeses' de Carambei e da variante de r-forte na variedade de portugues falada nessa cidade, utilizou-se o metodo etnografico, pois estudos etnograficos muito tem contribuido para o entendimento da historia da cultura de diferentes povos, uma vez que possibilita que "uma variedade de metodos sejam utilizados para minimizar a imposicao das percepcoes e categorias culturais [do pesquisador] no registro e interpretacao de um outro sistema", como afirma Saville-Troike (1989, p. 128). Portanto, utilizar o metodo etnografico significa levantar todos os dados possiveis de uma comunidade, no sentido de investigar um determinado grupo e sua cultura especifica.

A investigacao da comunidade 'holandesa' de Carambei, mediante aplicacao do metodo etnografico e da etnografia da comunicacao, compreendeu aproximadamente o periodo de um ano e meio: de marco de 2005 a agosto de 2006. A observacao como sympathetic participant-observer ou como analytical participant-observer, isto e, junto com o grupo e sobre o grupo, foram ambas adotadas, ja que a comunidade esta relativamente acostumada a tais formas de observacao, principalmente pelo contato com jornalistas, com turistas do pais e do exterior e com pesquisadores.

Os instrumentos de coleta de dados utilizados na pesquisa foram a observacao, a entrevista e o questionario, que sao bastante relevantes no caso de um trabalho de campo na area de sociolinguistica, como este estudo.

Os informantes selecionados para a entrevista residem tanto numa pequena area urbana, quanto em locais mais afastados, na area propriamente rural (em fazendas e sitios) e seu universo cultural foi igualmente investigado em ambas as localizacoes, uma vez que se visitaram varias familias 'holandesas' de Carambei. No total, entrevistaram-se 24 pessoas.

Os criterios gerais preestabelecidos para selecao dos informantes foram os seguintes: a) ter mais de 18 anos; b) ser descendente de holandeses (pelo lado materno ou paterno); c) ter nascido (ou se mudado ate os 5 anos) e sempre vivido na regiao de Carambei; d) ser bilingue em portugues/holandes em algum grau.

Na Tabela 1 pode-se observar o perfil dos informantes que forneceram os dados referentes a discussao sobre as atitudes linguisticas da comunidade de fala dos 'holandeses' de Carambei.

Os informantes foram divididos em grupos, de acordo com os criterios de idade e sexo. A divisao por faixa etaria e relevante neste estudo, pois um dos seus objetivos e verificar se ha diferentes graus de uso das linguas nas diferentes geracoes, diferentes manifestacoes de crencas e atitudes em relacao ao holandes e ao portugues e diferentes manifestacoes de identidade, alem de diferentes pronuncias de r-forte. Foram consideradas tres faixas etarias: o primeiro grupo abrange pessoas com mais de 70 anos de idade (primeira faixa etaria), o segundo compreende informantes entre 35 e 50 anos (segunda faixa etaria) e o terceiro grupo e formado por jovens de 18 a 25 anos (terceira faixa etaria).

Ja a divisao por sexo justifica-se pelo fato de que homens e mulheres falam de acordo com os papeis que exercem em cada comunidade (PAIVA, 2004). Por essa razao, homens e mulheres podem apresentar diferentes graus de uso das linguas holandesa e portuguesa, diferentes crencas e atitudes em relacao a essas linguas e manifestar diferentes identidades, alem de apresentar comportamentos diferentes em relacao a pronuncia do r-forte. Assim, o conjunto dos informantes foi dividido em seis grupos:

a) Grupo 1M: informantes DG; HS; JG; BD. O Grupo 1M e o grupo dos idosos de Carambei. Tem entre 70 e 75 anos. O grupo e bilingue em holandes/portugues.

b) Grupo 1F: informantes JLG; WGG; THS; WCGE. O Grupo 1F e o grupo das idosas de Carambei. Tem entre 70 e 75 anos. O grupo e bilingue em holandes/portugues.

c) Grupo 2M: informantes AF; BD; WD; RW. O Grupo 2M e o grupo dos que representam os adultos descendentes de holandeses de Carambei e tem entre 45 e 50 anos. O grupo e bilingue em holandes/portugues.

d) Grupo 2Fa: informantes WSGG; AJWB.

e) Grupo 2Fb: informantes RHB; IS.

O Grupo 2Fa e o Grupo 2Fb sao os grupos que representam as mulheres adultas descendentes de holandeses de Carambei e tem entre 40 e 45 anos. O grupo e bilingue em holandes/portugues. A subdivisao desse grupo se deve ao uso de fricativa, presente na fala do Grupo 2Fb e ausente no Grupo 2Fa.

f) Grupo 3M: informantes CD; FF; DF; MG. O Grupo 3M e o grupo dos jovens descendentes de holandeses de Carambei, que tem entre 20 e 25 anos e estao concluindo o ensino superior. Parte do grupo e somente bilingue incipiente em holandes/portugues.

g) Grupo 3F: informantes GF; SSM; MD; FD. O Grupo 3F e o grupo das jovens descendentes de holandeses de Carambei, que tem entre 20 e 25 anos. Parte do grupo tambem e somente bilingue incipiente em holandes/portugues.

Mediante a comparacao entre essas diferentes amostras, acredita-se ser possivel a generalizacao dos resultados obtidos.

Referencial teorico

Atitudes linguisticas dos 'holandeses' de Carambei

Os estudos sobre atitudes linguisticas --que, a principio, couberam a Psicologia Social-- investigam as atitudes positivas ou negativas que os falantes manifestam sobre a sua propria fala e a de outras pessoas. Segundo Giles e Ryan (1982), estudos que analisam as atitudes linguisticas de uma comunidade sao importantes porque toda sociedade tem variedades de lingua e de estilo que coexistem de forma competitiva e contrastante, variedades essas que podem envolver diferentes linguas ou apenas diferentes estilos de uma determinada lingua. Todas as pessoas, quer falem uma ou mais linguas, pertencem pelo menos a uma comunidade de fala, de modo que as variedades de fala e as normas apropriadas a esses usos e que agregam tais individuos em uma comunidade. Assim, no ambito da sociedade, as diferencas advindas de distintos grupos sociais encontram-se refletidas na variacao da linguagem e nas atitudes dos individuos diante dessas variacoes (GILES; RYAN, 1982).

No que diz respeito especificamente a nocao de atitude linguistica adotada nesta pesquisa, considerese que:

Ao lado da variedade linguistica existente numa comunidade, da manifestacao concreta de falares diferenciados, ha fenomenos de natureza social intrinsecos que afetam tanto linguistica como politicamente os comportamentos e as relacoes dos habitantes, interferindo muitas vezes na propria estrutura social. Nesta perspectiva, a atitude linguistica e a social complementam-se, ou melhor, fundem-se nas acoes e reacoes dos individuos. As avaliacoes manifestas e encobertas, subjetivas e objetivas, mais ou menos conscientes, relativas a linguagem dos homens numa sociedade plural, tem a propriedade de fundar e governar tanto as relacoes de poder quanto o prestigio ou o desprestigio das formas linguisticas, estabelecendo seletividades, evidenciando preconceitos (BISINOTO, 2000, p. 36).

As atitudes linguisticas podem dizer muito sobre as relacoes sociais que se estabelecem entre os grupos, alem de exercerem papel fundamental no processo de variacao e mudanca linguistica (AMANCIO, 2007). Se os 'holandeses' tem atitudes positivas em relacao ao portugues e atitudes negativas em relacao ao holandes, e possivel que futuramente o portugues seja a unica lingua falada pela comunidade. A esse respeito, Fernandez (1998, p. 179, traducao nossa) afirma que:
   Uma atitude favoravel ou positiva pode fazer com
   que uma mudanca linguistica se de mais
   rapidamente, que em certos contextos predomine o
   uso de uma lingua em detrimento de outra, que o
   ensino-aprendizagem de uma lingua estrangeira seja
   mais eficaz, que certas variantes linguisticas se
   restrinjam a estilos monitorados. Uma atitude
   desfavoravel ou negativa pode levar ao abandono e
   ao esquecimento de uma lingua ou impedir a difusao
   de uma variante ou uma mudanca linguistica (3).


Enfim, em interacoes sociais, a forma de fala e um indicio de informacoes sociais e, mesmo que, em si, nao seja nem boa e nem ruim, e objeto de avaliacao. Nesse sentido, analisar-se-ao, na sequencia, as atitudes linguisticas que os 'holandeses' de Carambei manifestam em relacao as linguas portuguesa e holandesa.

Atitudes dos 'holandeses' de Carambei em relacao as linguas portuguesa e holandesa

Os dados obtidos a respeito das atitudes linguisticas da comunidade de 'holandeses' de Carambei serao apresentados a seguir por grupo de informantes.

Grupo 1M

Quanto a lingua holandesa

O Grupo 1M manifesta uma atitude positiva em relacao a lingua holandesa como lingua que se fala em casa, com a familia, e na Igreja. Afirma que a lingua holandesa era falada por todos, inclusive por muitos 'brasileiros'.
   Aqui na colonia, a familia Ramos [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN
   ASCII.]], por exemplo, todo holandes [todos falavam holandes].
   Morava aqui na colonia e todos falavam holandes, entao eles
   aprenderam falar holandes tambem. Quando nos eramos criancas, sabe?
   Tinha duas, tres familias de brasileiros que moravam [aqui]. Ramiro
   [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]] fala ate hoje holandes (HS).


Para muitos, o holandes e considerada uma lingua mais 'facil' e 'adequada' do que a lingua portuguesa, principalmente quando se discutem assuntos domesticos ou religiosos.
   Eu nao tenho coragem de fazer oracoes em portugues.
   So em holandes. E a lingua de mamae (HS).


Este grupo e o unico que ainda faz um esforco minimo para que a lingua holandesa permaneca viva na comunidade, seja por meio da realizacao de eventos (como a 1* Festa do Imigrante), ou por meio da publicacao da revista Regenboog, em holandes. No entanto, a pedidos, essa revista esta, aos poucos, deixando de ser escrita somente em holandes.
   Nos temos uma revista [re'vista] em holandes. Chama Regenboog.
   Traduzindo, o 'arco-iris', ne? Eu escrevo, nos ultimos tempos,
   agora que eu to mais aposentado. Sempre escrevo uns artigos. Ate
   pra mim e bom, porque eu treino o meu holandes de novo. Dessa
   revista que sai, de vez em quando eu participo de umas reunioes
   [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]. [E] eles tao muito preocupados
   em como fazer. Nos comecamos no ano passado a colocar alguns
   artigos em portugues pra ver a reacao [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN
   ASCII.]], ne? E a reacao foi boa, ne? Ate os holandeses leram.
   Vamos ver [como] gradativamente [vai] passar, ne? Um pouquinho em
   portugues, mais em portugues. Chega no meio a meio. Talvez,
   futuramente, continuar com essa revista, so mudar de nome. Em vez
   de Regenboog, em holandes, jogar pra 'Arco-Iris', ne? E passar pro
   portugues. E uma revista que circula nas cinco, seis comunidades
   holandesas do Brasil, e e bem lida, ne? (DG)


Neste grupo, e comum que o casal fale somente holandes entre si e, por essa razao, muitos dizem nao entender por que os filhos, casados com 'holandeses', so falam portugues entre si.

Segundo o grupo, os filhos falam muito mal holandes, talvez 'por isso falem com tao pouca frequencia' ou mesmo falam mal 'porque falam com pouca frequencia'. 'Uma coisa puxa a outra', dizem.
   Eles tao traduzindo portugues pro holandes. Sai um
   holandes muito esquisito (HS).


Alguns membros do grupo atribuem a substituicao do holandes pelo portugues ao contato com a escola, onde so se fala portugues.
   E no inicio tinha programa portugues e de tarde tem
   holandes, na escola. Porque durante parte do dia, os
   alunos tambem tinham aula holandes. Eu so dei
   aulas de holandes pra eles, mas agora e longe disso.
   Ah, mudou, isso mudou completamente, do
   holandes para o portugues (HS).


Pois e muito frequente, segundo o grupo, que as criancas, enquanto estao apenas em casa, falem somente holandes, passando a falar portugues (e a 'abandonar' o holandes) quando comecam a frequentar a escola.
   Ele [o neto] so fala holandes em casa. Mas a partir do momento,
   daqui um ano, dois anos, quando ele vai pro jardim, ai em dois,
   tres meses, ele muda, ele ensina facil. Isso aqui e tao rapido
   [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]], ne? Em dois ou tres meses eles
   falam portugues e nao querem mais falar holandes. Isso que e
   interessante. Uma vez que eles aprendem o portugues, dai eles
   falam. Mas e interessante que, no que eles souberem, conseguirem
   falar em portugues, eles nem com os pais falam holandes. E uma
   regra [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]], praticamente (DG).


O grupo tambem considera que a Igreja Reformada tem sua parcela de 'responsabilidade' no desuso da lingua holandesa, uma vez que passou a oferecer cultos em portugues simultaneamente aos cultos em holandes.

Enfim, ha quem acredite que nao se aprende mais holandes na comunidade por 'pura falta de interesse', uma vez que muitos jovens falam ingles fluentemente. Ou seja, nao ha uma 'dificuldade em aprender linguas estrangeiras em si' e sim um desinteresse generalizado pela lingua holandesa.
   Mas elas [as netas] nao se interessam de falar holandes.
   Entendem bem, porque elas realmente [sao] muito
   dedicadas e tentaram aprender. Mas so que o ingles, por
   exemplo, todas as tres falam, ne? (DG)


Quanto a lingua portuguesa

O grupo considera importante aprender a lingua portuguesa, porque esta e a lingua 'do mundo fora da Colonia'. Por essa razao, orgulha-se de que seus filhos 'falem bem' portugues, o que, segundo ele, e a garantia de sucesso dentro e fora da comunidade. Aprender a lingua portuguesa significa nao ser discriminado, pois o portugues e a lingua das pessoas 'estudadas'.

Portanto, o grupo manifesta uma atitude positiva em relacao a lingua portuguesa. Na perspectiva deste grupo, a lingua portuguesa e sinonimo de promocao social e respeitabilidade.

Como traco geral do comportamento linguistico do grupo, e possivel apontar que, em seu comportamento bilingue, os dominios do holandes e do portugues sao bem definidos. Em outras palavras, a lingua holandesa e a lingua do dominio privado e da Igreja e o portugues e a lingua do dominio publico onde se estabelecem as relacoes fora da comunidade.

Em termos gerais, muitos consideram a lingua portuguesa 'dificil', mas 'bonita', 'que soa bem', 'suave'.
   O brasileiro e muito bonito. Gosto de escutar
   portugues (JG).

   Portugues tem palavras como 'liquidificador' e
   'Jaguariaiva', que dobra lingua. 'Excelentissimo
   senhor'. Sao 'quebra-linguas', mas aprendi. Repete
   varias vezes, ne? (HS)


Essa geracao ensinou holandes como lingua materna aos filhos sem se preocupar com questoes como sotaque ('o sotaque holandes no portugues'). Muitos, inclusive, deixaram a cargo da escola a tarefa de ensinar portugues aos filhos.

Grupo 1F

Quanto a lingua holandesa

Segundo o Grupo 1F, seria muito bom que se continuasse falando holandes na comunidade, porque a manutencao da lingua ajudaria a conservacao dos valores da tradicao da familia 'holandesa'. No entanto, assim como os idosos, as idosas tambem se mostraram conformadas com o fato de os jovens nao se interessaram mais em aprender holandes.

Mesmo os mais velhos, que, segundo o grupo, sao os que tem mais interesse em falar holandes, parecem 'nao ter mais tempo para isso'.
   Uma vez no mes [ha] um reuniao, [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]
   dos velhinhos, mas dos holandeses. Desses pra la de 60 anos ou 65
   ou alguem que esta sozinho [viuvo]. Dai eu vou tambem. A gente toma
   uma cha, um cafe, o que quiser. Dai alguem le um trecho, bonitinho,
   assim curtinho, um trecho santo, ne? Dai pergunta se querem mais
   cafe, dai fazemos joguinhos. De tres ate quatro [horas] e cafe e
   comer. De quatro pra cinco horas e joguinho. Cinco horas termina e
   todo mundo vai embora. E na ultima quinta-feira do mes. Do lado da
   igreja reformada [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]. Tambem pode
   entrar qualquer, nem que fosse catolica. E a tarde que falam
   holandes. E pouco, mas tambem cada um tem seus compromissos (JLG).


Para o grupo, a lingua holandesa e 'delicada', 'maternal'. E a lingua da relacao entre mae e filho.
   Falo holandes com os filhos, mas principalmente
   com minha filha. Ela mora em Sao Paulo. Eu sempre
   falo quase holandes com ela. Com meu filho mais
   velho tambem. Tem mais costume (WGG).


Todas se comunicam com os filhos (e principalmente com as filhas!) em holandes e muitas ate exigem que filhos e filhas respondam em holandes, nao admitindo sequer que os filhos possam ter dificuldades em falar o idioma.
   Por isso que eu brigava sempre com as filhas. Puxa
   vida, eu consegui [aprender] tres [linguas], porque
   voces nao conseguem duas? (HLV).


Por essa razao ha quem defenda a importancia da aprendizagem 'funcional' da lingua holandesa, uma vez que nao e raro que seus filhos e netos vao estudar ou mesmo morar definitivamente na Holanda.
   Por que nao aprender holandes? A gente nunca sabe
   o dia de amanha. Por isso que eu achei Anne
   esquisita. Annike, quando foi pra Holanda, filhos
   nenhuma sabia nenhuma palavra em holandes.
   Cabou foi pra Holanda (WGG).


O grupo afirma sentir-se a vontade quando fala holandes, e a lingua que prefere falar, mas afirma ter dificuldades em escreve-la, acha 'muito dificil'.
   Escrevo [em holandes], mas nao sem falhas. Eu
   tenho parente na Holanda. Entao, sempre comunica
   (JLG).


Quanto a lingua portuguesa

O grupo manifesta uma atitude extremamente positiva em relacao ao portugues. Para ele, o dominio da lingua portuguesa e sinonimo de que a pessoa teve mais estudos e de que, portanto, tera melhores oportunidades na vida fora da colonia.

Muitas informantes, de certa forma, afirmam se arrepender de nao ter aprendido a falar portugues 'melhor' e entao se esforcam em falar portugues em todos os momentos, inclusive na igreja, o lugar em que e mais dificil falar portugues, segundo o grupo.
   Eu to numa outra igreja, [onde] eu so escuto
   portugues entao [estou] satisfeita. So que eu lia
   muito a biblia holandes e orava em holandes, ne?
   Porque a gente pensa em holandes. Ai eu fiz o
   costume de parar com isso e vou agora ler biblia em
   portugues. Mas de noite la no travesseiro eu pego
   holandes ainda, interessante, ne? A gente ta tao
   acostumado ... Oracao faco em portugues, mas nao e
   tao bem. Falar com Deus tambem nao faz mal em
   portugues, ne? Porque ele entende tudo, ne? Eu
   sempre fiz em holandes e eu falo agora em
   portugues pra Ele. Ontem nos fizemo oracao la.
   [Eu] nao tava assim pensando muito em portugues,
   mas ai fez, eu acho (WGG).


Assim como os idosos, as 'holandesas' tambem consideram que a lingua portuguesa e 'muito bonita', que 'soa bem aos ouvidos'.

Portugues tem umas palavras bem bonitos (WGG).

Grupo 2M

Quanto a lingua holandesa

O grupo afirma ter aprendido primeiro a falar holandes, em casa, com os pais.
   Meu pai e holandes. Eles falavam em holandes
   comigo, so holandes. Depois que fomos pra escola,
   mais portugues (WD).


E ha quem ainda fale holandes com parentes da mesma faixa etaria.
   [Com] um concunhado que e da minha idade, acontece da gente falar
   holandes, mas e muito dificil, normalmente. Aqui em casa o que leva
   a gente tenta falar holandes e tentar deixar os filhos aprender.
   Agora, na rua [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]], ou em algum lugar
   assim, dificilmente a gente fala holandes. So portugues (BD 2M).


No entanto, atualmente, segundo os homens adultos da comunidade, a lingua holandesa e uma lingua 'inutil', 'que nao serve para nada', a nao ser para ser usada em interacoes com os idosos da familia.
   Pra esse mundo, holandes, aqui, nao serve pra nada.
   Infelizmente, infelizmente. Pra ser bem profissional,
   pra que que serve holandes, hoje, nessa regiao?
   Porque fora de Carambei, ta em Ponta Grossa ja nao
   serve. Noventa por cento da comunidade aqui nao
   fala holandes. Serve pra que? So pros avos. Satisfazer
   tua mae (AF).


Mas alguns membros do grupo consideram que tem verdadeira obrigacao de falar bem holandes, que devem isso aos pais, que, por sua vez, nao tem culpa de nao saber portugues.
   Eu converso bastante holandes com minha mae.
   Agora, falar portugues ... Ela ate tentou, aos 80 anos,
   fazer um curso. E, de aula de portugues, pra
   aprender a ler. Mas nao e nem justo. Minha mae
   entende um pouco de portugues, mas ela veio em
   quarenta e oito pra ca, entao ... (BD 2M)


A maioria considera que a lingua holandesa ja teve o seu auge e preve que em pouco tempo o holandes nao sera mais falado na comunidade.
   Entao no inicio era so holandes. Dai ja comecou misturar um pouco.
   Entao com o tempo aqui vai virar tudo brasileiro. Tudo a lingua
   portuguesa. Uma pena. Eu acho uma pena, mas nao tem curso de
   holandes. Na escola tem, mas nao adianta muito. As criancas nao
   aprendem aquilo ali. Dai saem dessa escola, [na] rua [[TEXTO
   IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]] vira portugues. Nao adianta, ne? Se
   tivesse um tipo de intercambio entre as colonias holandesas e a
   Holanda ... (BD 2M)


Prova de que essa mudanca esta operando-se e o fato de que muitos membros do grupo, no inicio de sua vida de casado, so falavam em holandes a esposa e aos filhos, situacao que mudou com o passar do tempo.
   No inicio de casado nos so falavamos holandes
   dentro de casa e dai com o tempo foi se perdendo,
   ne? (BD 2M)


Segundo alguns, e bom que essa mudanca se de rapidamente, pois essa 'experiencia de colonia fechada ja durou tempo demais'.
   O holandes foi bom enquanto durou, ja serviu.
   Inclusive a gente tem muita experiencia [com] um
   pessoal do Canada. Eu sempre comparo com
   Canada. No Canada, eles nao tiveram essa
   experiencia de colonia e tudo. La eles se integraram
   direto, e os mais idosos e todo mundo, ingles, ingles,
   ingles. Igreja, ingles. Escola, ingles. Tudo ingles
   (AF).


Parte do grupo ainda mantem uma fala publica de que 'tentou' ensinar holandes aos filhos, mas que nao obteve sucesso, 'porque na rua se falava portugues e na escola se falava portugues'.
   Era uma meta nossa deixar ele aprender holandes. A
   ideia era fazer isso com os tres filhos (BD 2M).


Mas a maioria insiste na ideia de que 'saber holandes nao serve para nada', mesmo que seus filhos saibam. Nesses casos, e comum afirmarem que 'os filhos falam holandes nao por minha culpa, mas por causa dos avos'. Nao e merito dos avos, mas culpa. E culpa dos pais tambem, porque permitiram que os avos ensinassem holandes aos netos.
   Meus tres filhos falam holandes nao por causa de
   mim, nem por causa da minha esposa. Falam por
   causa dos meus pais. Meus filhos saiam de casa
   falando portugues, dentro do carro ['karo]. Pisavam
   dentro da casa da mae, elas comecavam falando
   holandes porque sabiam que o vo e a vo nao falaram
   portugues. Entao eles comecavam a falar em
   holandes. E hoje o mais velho ate o dialeto dos meus
   pais, que e Groningen, ele fala e ele entende. Mas
   tambem isso foi culpa nossa, porque ser primeiro
   neto, ficava na casa dos avos, ne? A vo adorava.
   Chegava em casa, falava portugues e na casa dos
   meus pais, em holandes. E incrivel! Eles tem 24 e 22
   anos e hoje ainda eles entram na casa e falam
   holandes. Parece que a porta e que inventou essa
   mudada (AF).


Se pudessem escolher (ou mudar o que houve?), esses pais 'tinham ensinado aos filhos ingles' e nao holandes.
   Eu aconselho todo mundo que tem os filhos [fazer
   com que eles aprendam ingles]. Que vai vim que
   nem o tsunami veio. Vai nos atropelar aqui nesse pais,
   porque ta cada vez pior, ne? Eu vejo na Internet com
   meus filhos. As vezes um site la, que voce precisa
   entrar, e so em ingles. Ja nao tem mais em
   portugues. E emprego, ingles fluente. Primeira coisa
   que eles poem ali: 'ingles fluente'. Meu filho ja
   deixou de ter um emprego melhor por falta daquele
   ingles fluente. Se fosse holandes fluente, ele tava
   contratado, entao. Nao, eu acho que o, o holandes
   foi bom enquanto durou, mas agora ja serviu (AF).


Apesar de ser considerada uma lingua 'dificil' e 'menos bonita', 'menos sonora' do que o portugues, para o grupo o holandes e uma lingua 'interessante', que oferece 'mais recursos' do que a lingua portuguesa.
   O portugues e uma lingua mais bonita que o holandes, ne? Mas a
   lingua holandesa , ela e mais, sei la, ela te da mais recursos
   [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]] (WD).


Quanto a lingua portuguesa

Para os informantes do grupo, em comparacao ao holandes, a lingua portuguesa e uma lingua 'mais bonita', 'melhor de ouvir', alem de 'mais facil'.
   E muito dificil falar em holandes, dificil! Portugues e
   muito mais facil. Portugues se fala com muito mais
   frequencia. Entao vai conversar com alguem, fala em
   portugues (RW).


Alem disso, o portugues e a lingua que nao 'tem limites' porque pode ser usada com quase todas as pessoas e em quase todos os lugares, diferentemente da lingua holandesa, que e mais 'restrita' em termos de falantes e dominios.

Outra qualidade atribuida ao portugues e a de ser uma lingua que aproxima 'holandeses' e 'brasileiros', como se estes pertencessem a um unico grupo. Principalmente se a variante de portugues utilizada for a mesma falada pelos 'nao-holandeses' da regiao.
   Eu falo com meus peao portugues de peao. 'Farta',
   'sor', 'carca'... So assim eles me entendem e me
   respeitam [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]] (AF).


Enfim, o grupo manifesta atitudes extremamente positivas em relacao a lingua portuguesa.

Grupo 2Fa

Quanto a lingua holandesa

O grupo 2Fa apresenta atitudes positivas em relacao a lingua holandesa. Parece nao ter problemas em 'ser holandes(a)' e falar holandes no Brasil--ou pelo menos nao manifesta isso abertamente.
   No comeco, o pai antigamente falava: 'fale holandes
   ou cale a boca', ne? Eu me sentia assim, eu me
   lembro que eu nao queria falar holandes. Voce nao
   valorizava aquilo, mas agora, mas agora voce valoriza
   bem mais (WSGG).


Em muitos depoimentos, percebe-se que as informantes se arrependem de nao ter ensinado holandes aos filhos, mesmo que esta tenha sido uma decisao consciente, para 'evitar que os filhos fossem tao discriminados e sofressem tanto' quanto elas sofreram. E para amenizar esse sentimento de culpa, percebe-se que existe uma pequena esperanca de que as coisas, um dia, sejam diferentes. E bastante frequente a mencao a crenca de que a lingua holandesa 'esta no sangue' (e no subconsciente!) dos carambeienses, adormecida, podendo, portanto, 'vir a tona' num passe de magica a qualquer momento.
   Eles entendem, eles entendem alguma coisa. Mas falar, formar
   frases, assim, dai nao. Eles dizem: pra que que eu tenho que
   aprender? Mas isso ai retorna [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]
   depois, ne? Depois que, que, que eles vao ficando mais de idade,
   eles cai na real [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]. 'Por que que
   eu nao fiz isso'? 'Por que eu nao aprendi mais', ne? Dai que eles
   se cai, na, na, na real (AJWB).


Outra atribuicao interessante conferida a lingua holandesa pelas mulheres e a de lingua de privacidade, intimidade.
   Quando eu saio pra comprar roupa [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]
   com a minha irma, nos sempre falamos holandes, pra falar mais
   sossegado (WSGG).


Por essa razao, o holandes e a lingua preferida pelo grupo para 'xingar', principalmente na frente dos filhos, que nao podem entender o que ouvem.
   Eu gosto de xingar em holandes, ne? Porque nao,
   nao da certo em portugues, ne? Tem aquelas
   palavras que e mais pesado. Eu xingo eles em
   holandes (WSGG).

   Eu as vezes falo, pra dizer a verdade. E sem querer
   mesmo. Eles sabem que eu to falando palavrao. Mas
   eles nao sabem o que significa, ne? Pra gente e
   melhor (AJWB).


Enfim, para o grupo, o holandes tambem e a lingua preferida para as oracoes, mesmo as improvisadas.
   Rezar [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]], so em holandes. Isso e
   uma verdade. Porque quando eu vou dormir, eu faco a minha oracao,
   ne? Eu faco em holandes. Pode uma coisa dessa? E nao e decorada,
   nao, viu? (WSGG).


Quanto a lingua portuguesa

O grupo 2Fa demonstra atitudes positivas em relacao a lingua portuguesa. Assim como o grupo anterior, este considera que, em comparacao ao holandes, a lingua portuguesa e uma lingua 'mais bonita' e 'mais facil'.

Mas a qualidade mais importante do portugues, segundo as informantes, e a de ser uma lingua 'agregadora', pois aproxima 'holandeses' e 'brasileiros', num (quase) grupo homogeneo.
   O portugues e bom porque todo mundo fala. Todo
   mundo. Nao e so a gente, dai (WSGG).

   Primeiro era o holandes que era 'a' lingua, na epoca
   da minha mae e quando eu era pequena. Agora e o
   portugues (AJWB).


Grupo 2Fb

Quanto a lingua holandesa

O grupo 2Fb manifesta atitudes negativas em relacao a lingua holandesa. Mostra-se profundamente incomodado em ser identificado como 'holandes' especialmente por meio do 'sotaque feio' (que se caracteriza pelo r-forte vibrante e simples) que o holandes como primeira lingua 'deixou' no portugues.
   Acho que eu tambem passei por isso, na epoca. Mudar de escola, ne?
   Mudei de Carambei pra Ponta Grossa. Nos falamos o 'r' [r], ne? Rato
   [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]. A gente aprendeu assim. Mas a
   minha filha, a minha filha tem sete anos, ja fala 'rato [[TEXTO
   IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]]'. Nao e mais aquele 'r' [r]. O pessoal
   falava assim: 'Ah, voces sao la da roca [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN
   ASCII.]]', sabe?? Nos tinha que escutar, viu?? Eu sempre fui quieta
   por causa disso (IS).

   Assim, todo mundo pede por que, ne? Voce tem o sotaque. Todo mundo
   tem e o meu e bem acentuado. E dai fica aquela coisa de [que] eu
   nao sou brasileira (IS).


No que diz respeito a 'serventia' (ou falta de) da lingua holandesa, as mulheres deste grupo nao sao tao 'praticas' quanto os homens do grupo 2M, que classificam o holandes como 'lingua inutil', mas tambem se manifestam quanto a falta de 'funcionalidade' e de valorizacao da lingua holandesa.
   O holandes nao e tao valorizado mundialmente.
   Nao e uma lingua universal, ne? (IS)


Tambem, diferentemente do grupo anterior, este nao manifestou sentir-se 'obrigado' a falar holandes com os pais, apesar de faze-lo.

Quanto a lingua portuguesa

O grupo 2Fb demonstra atitudes positivas em relacao a lingua portuguesa. Assim como o grupo anterior, este considera que a lingua portuguesa e uma lingua 'mais bonita' e 'mais facil' que a holandesa.

Grupo 3M

Quanto a lingua holandesa

Diferentemente dos grupos anteriores, o grupo 3M nao e uniforme no que diz respeito a fluencia em holandes. Uma parte considera-se bilingue em portugues/holandes, apesar de acreditar que a sua lingua 'verdadeira' seja o portugues, e outra afirma que fala holandes 'muito mal', e bilingue incipiente, portanto. No entanto, o grupo como um todo considera a lingua holandesa 'muito dificil', independentemente de fala-la 'bem' ou nao.
   Eu nao sei falar bem holandes. Nao sabia falar bem
   holandes. Eu me atrapalho (PM).


A maioria dos jovens do sexo masculino revela ser somente bilingue incipiente.
   Nao, porque entender eu entendo, ne? Entender a
   gente entende, mas na hora que ele falar uma coisa
   que tu nao entendeu ... Emergencia a gente tenta
   falar (CD).


O grupo que se diz fluente manifesta atitudes positivas em relacao a lingua holandesa --ao mesmo tempo em que a considera uma lingua 'distante', nao sua-- e coleciona historias sobre pessoas que tiveram otimas oportunidades de trabalho ou estudo pelo fato de falar holandes, o que sustenta a crenca --bastante frequente entre os 'holandeses' de Carambei-- de que 'falar holandes pode fazer diferenca na vida de uma pessoa'.
   Meu primo ja foi pra Holanda e voltou superbem. Eu
   vou tambem, quando terminar a faculdade. Tudo fica
   mais facil depois. Principalmente emprego (CD).


O grupo que se diz nao fluente tambem concorda que o holandes pode ser 'util para alguma coisa', no futuro, uma especie de 'plano B', no caso de os projetos de trabalho e de estudo no Brasil nao darem certo. No entanto, a falta de fluencia (real ou autodeclarada) em holandes, que poderia impedir ou dificultar uma viagem de estudos ou trabalho a Holanda, nao parece preocupar os entrevistados, uma vez que 'podem aprender holandes em uma ou duas semanas', se assim o quiserem.
   E agora vai um [rapaz] que estudou biologia na
   universidade e nao encontrou servico ate agora.
   Entao dia 12 de abril ele vai para a Holanda para um
   ano ou dois anos. Ele precisa estudar holandes,
   logico, mas ele pode trabalhar la, nao tem problema.
   Ele sabe pouco, mas ele aprende logo o holandes la,
   quando ele conviver la. Tem que aprender (DF).


Alem disso, para os jovens 'holandeses' do sexo masculino a lingua holandesa e considerada a lingua 'dos avos', ou seja, e uma lingua 'estrangeira' que se 'estuda na escola porque os pais querem'.
   O holandes e tipo assim uma lingua estrangeira, que a
   gente aprende so na escola, ne? Que nem ingles. E todo
   mundo estuda holandes porque o pai manda (FF).


Quanto a lingua portuguesa

Para o jovem do sexo masculino, a lingua portuguesa e considerada uma lingua 'mais facil', alem de ser a lingua que o deixa a vontade e que o identifica como brasileiro que e.
   Portugues e mais facil, ne? E melhor de falar, porque
   e a nossa lingua (CD).


E uma lingua 'normal', que faz com que ele se sinta parte do grupo e nao um estrangeiro no seu pais.
   E uma lingua normal. Nao e diferente, que nem o
   holandes. E todo mundo fala. Todo mundo entende.
   E a lingua do pais, ne? (GF)


Os jovens do grupo acreditam que o monolinguismo em portugues acontecera dentro de pouco tempo inevitavelmente, o que nao e lamentado, nem comemorado. E so um fato inevitavel.
   E ja ta acontecendo isso ai: daqui um pouco
   ninguem mais vai ta falando holandes. E sempre
   assim que acontece, ne? (MG)


Grup o 3F

Quanto a lingua holandesa

O grupo das mocas tambem e heterogeneo em termos de como se manifesta em relacao a fluencia em lingua holandesa. Metade do grupo julga que 'fala bem' holandes e a outra metade acredita que fala 'muito mal'. Da mesma forma, tal como o grupo anterior, as jovens 'holandesas' consideram a lingua holandesa 'muito dificil', independentemente de fala-la 'bem' ou nao.
   Nossa, e muito dificil! Tem que estudar muito
   (SSM).


O grupo tambem manifesta atitudes positivas em relacao a lingua holandesa por causa das historias sobre pessoas que foram a Holanda e 'se deram bem'.
   Eu escrevo pro meu tio na Holanda. E-mail. Quando ele veio aqui, ha
   uns 4, 5 anos atras, ele me falou: 'pra voce manter o holandes,
   escreva bastante pra mim. Nem que ce escreva errado, eu corrijo
   [[TEXTO IRREPRODUCIBLE EN ASCII.]] teu e-mail e mando outro e-mail
   pra voce'. E assim a gente se corresponde [koxes'pode] e eu nao
   esqueco o holandes, porque logo, logo eu vou pra la estudar. Isso
   vai ser muito bom. Todo mundo que fez isso se deu bem (GF).


Alem disso, as jovens "holandesas" parecem ter um carinho muito grande por aquela que e a lingua "dos nossos pais" e dos "nossos avos".
   Eu acho lindo a minha mae falando com a minha vo.
   As vezes eu entendo uma coisa ou outra (MD).


Quanto a lingua portuguesa

Como o grupo anterior, as jovens 'holandesas' tambem consideram que a lingua portuguesa e uma lingua 'mais facil'.
   Eu acho mais facil falar portugues, ne? E bem mais
   facil (FD).


Ao contrario do grupo anterior, as 'holandesas' lamentam o fato de a comunidade caminhar para uma situacao de monolinguismo em portugues, apesar de tambem acreditarem que isso acontecera 'inevitavelmente dentro de pouco tempo'.
   Essa nova geracao ja nao se interessa [por aprender a
   lingua holandesa]. Os filhos, pode ate colocar na
   aula de holandes, mas nao vai adiantar. Eu acho que
   tem que ter o incentivo em casa. Logo, logo
   ninguem mais vai falar holandes. Eu acho uma pena
   (SSM).


O portugues falado pelos 'holandeses' de Carambei

Neste artigo, retomam-se as conclusoes de Verburg (1980) sobre o portugues falado por descendentes de holandeses em Castrolanda, Estado do Parana, outra colonia holandesa do Parana, estabelecida entre 1951 e 1954. Naquele estudo, Verburg (1980) buscou verificar o papel das variaveis sociais na aquisicao de uma segunda lingua, no caso o portugues, uma vez que a lingua materna dos imigrantes holandeses e de seus descendentes a epoca era o holandes. Mais explicitamente, procurava investigar a natureza da correlacao existente entre as variaveis sociais observadas --sexo, idade, instrucao, ocupacao e indice de contato com o portugues-- e o desempenho linguistico, em portugues, dos falantes de Castrolanda.

Desse modo, o trabalho buscava responder a seguinte pergunta: 'quando falam portugues, os 'holandeses' de Castrolanda realizam o r-forte como tepe, em funcao da influencia do holandes'? Em relacao a essa questao, encontraram-se os seguintes resultados: na variedade de portugues falada pelas mulheres, comparadas a dos homens, ha uma grande ocorrencia de tepe como r-forte; tambem na variedade de portugues falada pelas pessoas mais velhas, em comparacao a das mais jovens, ha uma predominancia de tepe como realizacao de r-forte; os menos instruidos falam igualmente uma variedade de portugues em que o tepe como r-forte predomina; enfim, no portugues falado pelos que tem um contato menor com a lingua portuguesa tambem prevalece o tepe como realizacao do r-forte.

Enfim, a autora confirmou a hipotese inicial de que a presenca de tepe como r-forte no portugues falado pelos 'holandeses' e influencia da lingua holandesa sobre a portuguesa, uma vez que, segundo resultados da pesquisa, o tepe como r-forte se da menos frequentemente na variedade de portugues falada pelos que tem mais contato com o portugues.

As especificidades foneticas e alofonicas proprias de cada lingua sao, sem duvida, um dos principais fatores responsaveis pelo surgimento de interferencias comumente detectadas na fala de estrangeiros, denominadas de sotaque. Por essa razao, passemos, na sequencia, a uma breve descricao dos sistemas consonantais da lingua holandesa e da lingua portuguesa.

Descricao fonetico-fonologica dos roticos e das fricativas do holandes padrao

Segundo descricao de Gillis e De Houwer (1998), a lingua holandesa padrao tem como um fonema rotico e uma fricativa: tepe e fricativa velar. Ao primeiro fonema, tepe, corresponde a letra 'r'; ao ultimo, 'g' e 'ch'. O tepe possui um alofone, a vibrante, e a fricativa velar possui o alofone fricativa uvular.

Segundo falantes nativos, em lingua holandesa, tepe se mantem tepe em quaisquer contextos fonologicos, em segunda posicao de ataque silabico e em posicao de ataque silabico no meio de palavra, numa fala dita 'normal', 'corrente'. Por outro lado, tepe passa a vibrante quando se quer dar 'enfase a palavra'.

Descricao fonetico-fonologica do r-forte no portugues brasileiro

Como ja foi dito, dentre as varias interferencias fonicas detectadas na producao oral em portugues dos bilingues em holandes/portugues, selecionamos o fonema vibrante porque tanto Verburg (1980) quanto os proprios informantes entrevistados neste trabalho sugerem que a realizacao do r-forte como tepe e uma das principais caracteristicas do sotaque 'holandes' na lingua portuguesa.

E preciso considerar que o fonema /r/ e um dos sons consonantais do portugues brasileiro que mais recebeu atencao por parte de foneticistas e fonologos variacionistas (como CALLOU et al., 1997), pela grande variabilidade apresentada em seu uso.

Justamente por apresentar grande variabilidade, os principais estudos sobre a vibrante foram efetivados a partir da perspectiva da sociolinguistica laboviana. Tais estudos apontaram, entre outras coisas, que a vibrante tem ocorrencias e frequencias diferenciadas por variedades de lingua, isto e, ou ela pode servir como identificador da regiao de origem do locutor, ou como marca de sua identificacao sociocultural. Nesse sentido, observe-se que as pesquisas de Monaretto (1992, grifo nosso), por exemplo, sugerem que "os 'bilingues de colonizacao europeia substituem a vibrante multipla pela simples, em qualquer posicao da palavra'".

Enfim, na situacao estudada, constatou-se que a variante tepe disputava terreno com a forma vibrante na parcela da comunidade que estabelece contato moderado com outras variedades dialetais do portugues e concorria com a fricativa na parcela da comunidade que mantinha contato intenso com tais variedades. Tal situacao faz da vibrante uma forma intermediaria, conciliatoria, coerente com seu proprio valor fonologico enquanto variante de transicao entre a forma tepe, extremamente 'interiorana', e a fricativa, extremamente 'urbana'.

Como ja se disse, no portugues do Brasil, o r-forte e condicionado pela faixa etaria, por fatores sociais, estilisticos e geograficos (CRISTOFARO SILVA, 1999). No portugues brasileiro, o r-forte pode ser pronunciado como fricativa velar, fricativa glotal, tepe ou aproximante. Ja no estado do Parana, na regiao dos Campos Gerais (a qual pertence a cidade de Carambei), segundo o Atlas linguisticoetnografico da Regiao Sul do Brasil (KOCH et al., 2002), a pronuncia do r-forte se da como vibrante.

Por outro lado, segundo Callou e Leite (2000, p. 76), no portugues brasileiro atual verifica-se uma forte tendencia em substituir a vibrante pelo r fricativo. Segundo as autoras, alem de a pronuncia fricativa do 'r' em substituicao a vibrante nao ser recente (ja era documentada ainda no final do seculo XIX) no cenario fonetico do portugues falado no Brasil, a pronuncia do r fricativo e mais privilegiada dentre os falantes no territorio nacional.

Por meio de suas pesquisas, efetuadas no Rio de Janeiro, as autoras puderam constatar que, mesmo nas classes que empregam a fala culta, esse fenomeno e bastante generalizado. Segundo Abaurre e Sandalo (2003), essa consoante ja esta tao difundida no territorio nacional, que o uso da vibrante, na pronuncia de r inicial e dobrado, encontra-se, atualmente, restrito a apenas alguns dialetos, como os gauchos, por exemplo.

No portugues do Brasil, quando a vibrante estiver no inicio de uma silaba e nao for precedida por uma vogal, ela pode permanecer vibrante, como ainda ocorre em algumas regioes do Rio Grande do Sul, ou ser realizada como uma fricativa glotal na maioria dos dialetos (ABAURRE; SANDALO, 2003, p. 161-162).

Dessa forma, comparando-se os sistemas consonantais do holandes e do portugues, destacamse determinadas lacunas que revelam que alguns fonemas do portugues nao tem correspondentes no holandes e vice-versa (VERBURG, 1980).

As Tabelas 2 e 3 resumem essa comparacao:

Portanto, considerando-se a analise de Verburg (1980), o que se deve levar em conta e o fato de que, em holandes, vibrante e tepe sao alofones de /r/, para quaisquer contextos, ao passo que em portugues o tepe restringe-se aos ambientes V_V, C_V e CV_ (4) em algumas variedades. Dai a interferencia que faz com que os 'holandeses' de Carambei tenham a tendencia de usar o tepe tambem como r-forte ao falar portugues.

Resultados

Analise das ocorrencias de r-forte no portugues de Carambei

No total, foram encontradas e analisadas 1689 ocorrencias de r-forte. A seguir pode-se observar a ocorrencia de r-forte por grupo de informantes.

Grupo 1M

No que diz respeito a pronuncia do r-forte, o grupo 1M teve um total de 287 ocorrencias de r-forte, das quais 37,3% (107 ocorrencias) foram de vibrante e 62,7% (180 ocorrencias), de tepe. O Atlas Linguistico-Etnografico da Regiao Sul do Brasil (KOCH et al., 2002, p. 148-153, cartas 44, 45 e 46) atesta a ocorrencia de tepe como realizacao de r-forte em localidades em que existem colonias de imigrantes europeus. Ainda segundo o Alers, na regiao de Ponta Grossa, a que a cidade de Carambei pertence, o r-forte no portugues falado pelos naoimigrantes e a vibrante, o que leva a pensar que a ocorrencia de tepe nos dados se deva a influencia do holandes. A ocorrencia desse som em termos de porcentagem, no caso do Grupo 1, foi importante. E como o r-forte do portugues falado pelos 'nao holandeses' da regiao e a vibrante, pressupoe-se que o grupo tambem mantenha um contato razoavel com os 'brasileiros' e a lingua portuguesa.

Grupo 1F

Ja o Grupo 1F teve um total de 312 ocorrencias de r-forte. O som foi pronunciado quase sempre (94%, ou seja, 293 ocorrencias) como tepe contra 6% (ou 19 ocorrencias) de vibrante. No entanto, diferentemente do Grupo 1M, a variante preferida das informantes parece ser o tepe (ao passo que o Grupo 1M oscila entre vibrante e tepe). Essa diferenca pode ser explicada se considerarmos que as mulheres sempre falaram mais holandes do que portugues, frequentaram a escola por menos tempo e tiveram menos contato com a comunidade 'naoholandesa' do que os informantes do Grupo 1M.

Grupo 2M

Da mesma forma que o Grupo 1M, o Grupo 2M tambem utiliza tanto a vibrante quanto o tepe como r-forte. Num total de 329 ocorrencias, 90% (296 ocorrencias) foram realizadas como vibrante e 10% (33% ocorrencias), como tepe. Portanto, pode-se dizer que, em geral, no que diz respeito a pronuncia do r-forte, o portugues falado pelos 'holandeses' do Grupo 2M assemelha-se bastante ao portugues falado pelos 'nao-holandeses' da regiao. Na verdade, esses 10% referentes ao tepe provem da fala de apenas um informante do grupo, justamente o que tem um nivel de escolaridade menor (Ensino Medio) e trabalha ali mesmo, na colonia, como guia do museu, funcao que o obriga, com muita frequencia, a falar holandes.

Grupo 2Fa

No Grupo 2Fa, em 134 ocorrencias, apareceram somente vibrante (53 ocorrencias, ou seja, 40%) e tepe (81 ocorrencias, ou seja, 60%).

Grupo 2Fb

No outro grupo, Grupo 2Fb, num total de 117 ocorrencias, pode-se observar a presenca de fricativa (92 ocorrencias, ou seja, 78,6%), ainda que em alternancia com a vibrante (25 ocorrencias, ou seja, 21,4%).

Grupo 3M

O Grupo 3M e um grupo altamente uniforme, apesar de ser composto tanto por bilingues efetivos, quanto por bilingues incipientes em holandes/portugues. Em 293 ocorrencias de r-forte, houve 100% de fricativa, incluindo a fala dos bilingues efetivos em portugues/holandes. Na fala do grupo nao ocorreu vibrante ou tepe como r-forte.

Grupo 3F

O Grupo 3F tambem e um grupo uniforme. Em 217 ocorrencias de r-forte, houve 100% de fricativa, ai incluida a fala das jovens bilingues efetivas em portugues/holandes. Nao se verificou a presenca de vibrante ou tepe como r-forte no portugues falado pelas jovens 'holandesas' de Carambei.

Enfim, a Figura 1 resume os resultados dessa pesquisa no que diz respeito as variantes de r-forte presentes no portugues falado em Carambei pelos "holandeses".

Discussao

A relacao entre atitudes linguisticas e o r-forte no portugues falado pelos 'holandeses' de Carambei

Grupo 1M

De acordo com o que foi discutido anteriormente, os 'holandeses' do Grupo 1M manifestam atitudes extremamente positivas em relacao a lingua holandesa (a 'sua lingua'), como lingua que se fala em casa, com a familia, e na Igreja.

Os idosos do sexo masculino tambem manifestam atitudes positivas em relacao a lingua portuguesa, que, no entanto, nao e a 'sua lingua'. Como na lingua portuguesa falada pelo grupo as variantes de r-forte sao vibrante e tepe, pressupoe-se que o portugues 'carregado', com sotaque 'forte' esteja associado as atitudes extremamente positivas que o grupo manifesta em relacao a lingua holandesa, aquela que e considerada a 'verdadeira' lingua do grupo.

Grupo 1F

O grupo manifesta atitudes extremamente positivas em relacao a lingua holandesa, pois acredita que falar holandes ajuda na conservacao dos valores da tradicao da familia 'holandesa'. No entanto, as idosas mostraram-se conformadas com o fato de os jovens nao se interessarem mais em aprender holandes.

O portugues falado pelo grupo, no que diz respeito ao aspecto analisado, caracteriza-se pelo uso quase exclusivo de tepe, o que torna o seu sotaque extremamente 'forte', identificador do grupo etnico a que pertence o informante, o que estabelece uma relacao com as atitudes extremamente positivas que o grupo manifesta em relacao a lingua holandesa, aquela que e considerada a 'verdadeira' lingua do grupo.

Grupo 2M

Segundo o Grupo 2M, a lingua holandesa atualmente e uma lingua 'inutil', 'que nao serve para nada', a nao ser para ser usada em interacoes com os idosos da familia. Ja a lingua portuguesa e considerada uma lingua 'mais bonita', 'melhor de ouvir', 'mais facil', alem de ser uma lingua que aproxima 'holandeses' e 'brasileiros'.

O grupo usa quase exclusivamente a variante vibrante como r-forte, a mesma variante presente no portugues falado na regiao pelos 'nao holandeses', o que esta de acordo com as atitudes negativas que o grupo manifesta em relacao a lingua holandesa e positivas, em relacao a lingua portuguesa.

Grupo 2Fa

Este grupo foi divido em funcao do uso de fricativa (em concorrencia ou nao com a vibrante) e tambem se divide quanto as atitudes manifestadas em relacao as linguas holandesa e portuguesa. O subgrupo que usa vibrante e tepe (4a) manifesta atitudes positivas em relacao ao holandes.

Em relacao a lingua portuguesa, o subgrupo 2Fa tambem mantem atitudes positivas em relacao ao portugues, mas, diferentemente do proximo grupo, considera que tanto o holandes quanto o portugues sao 'suas linguas'.

Grupo 2Fb

Ja o subgrupo que usa a fricativa (4b) manifesta atitudes extremamente negativas em relacao a lingua holandesa, considerando-a 'feia', da 'roca', que so serve para deixar um 'sotaque forte no portugues'.

Em relacao a lingua portuguesa, o subgrupo 2Fb manifesta atitudes extremamente positivas em relacao ao idioma, assumindo, inclusive, que decidiu conscientemente ensinar somente portugues aos filhos, para que estes nao tivessem um 'sotaque forte em portugues'.

Grupo 3M

O grupo mantem atitudes positivas em relacao ao holandes, mas nao considera que esta seja 'sua lingua'. Por outro lado, a lingua portuguesa e considerada uma lingua 'mais facil', alem de ser a lingua que o deixa a vontade e que o identifica como brasileiro que e. E uma lingua 'normal', que faz com que ele se sinta parte do grupo e nao um estrangeiro no seu pais. O grupo acredita que o monolinguismo em portugues acontecera dentro de pouco tempo, inevitavelmente, o que nao e lamentado, nem comemorado. E so um fato inevitavel. Dai a ocorrencia de fricativa.

Grupo 3F

O Grupo 3F mantem atitudes positivas em relacao ao holandes, mas, assim como os informantes do grupo anterior, nao considera que esta seja a 'sua lingua'.

No que diz respeito a lingua portuguesa, o grupo manifesta atitudes extremamente positivas em relacao ao portugues, que e o seu 'verdadeiro' idioma. Como o grupo anterior, as jovens 'holandesas' tambem consideram que a lingua portuguesa e uma lingua 'mais facil'. Dai o uso da fricativa.

Na Tabela 4, pode-se observar a relacao que se estabelece entre crencas e atitudes linguisticas e o uso de r-forte no portugues falado em Carambei.

Consideracoes finais

Neste trabalho, propusemos analisar mais detidamente o individuo 'holandes', no sentido de estabelecer: a) as atitudes linguisticas que manifesta em relacao as linguas holandesa e portuguesa; b) a variedade de portugues que ele fala no que diz respeito ao r-forte; c) que tipo de relacao se da entre atitudes linguisticas e uso de determinada variante de r-forte no portugues.

No que diz respeito as atitudes dos 'holandeses' em relacao as linguas holandesa e portuguesa, estas nao sao uniformes. Os grupos distinguem-se quanto ao uso das linguas e quanto a avaliacao destas.

Em relacao a lingua holandesa, os Grupos 1M e 1F manifestam atitudes positivas. Por outro lado, os Grupos 2M e 2F parecem viver um conflito bastante grande em relacao a lingua holandesa. Enfim, para os Grupos 3M e 3F, o holandes e uma lingua 'muito dificil', porque e 'muito diferente do portugues', alem de ser a 'lingua dos antepassados'.

Ja em relacao a lingua portuguesa, a comunidade como um todo manifesta atitudes positivas. E considerada uma lingua 'facil', 'bonita', 'sonora', 'de gente estudada', alem de ser 'ilimitada', que possibilita a aproximacao entre 'holandeses' e 'brasileiros' e de ser a lingua que, em breve, sera a unica falada em Carambei.

No que diz respeito ao uso de r-forte, no grupo 1M houve um total de 37,3% de vibrante multipla e 62,7% de tepe. O Grupo 1F teve 94% de tepe contra 6% de vibrante multipla. O Grupo 2M teve 90% de ocorrencia de vibrante multipla e 10% de tepe. No Grupo 2Fa, houve 40% de vibrante e 60% de tepe. Ja no outro grupo, Grupo 2Fb, houve 78,6% de fricativa e 21,4% de vibrante. Os Grupos 3M e 3F sao altamente homogeneos, uma vez que teve 100% de fricativa.

No que diz respeito a relacao entre atitudes linguisticas e o r-forte no portugues falado pelos 'holandeses' de Carambei, pode-se dizer que determinadas atitudes parecem contribuir mais para o uso (exclusivo) de tepe: atitudes positivas em relacao a lingua holandesa. Ja para o uso de vibrante, parecem contribuir mais as atitudes negativas em relacao ao holandes. O uso de vibrante e fricativa parece estar relacionado a atitudes extremamente positivas em relacao ao portugues e extremamente negativas em relacao ao holandes. Finalmente, o uso exclusivo de fricativa parece estar ligado a total indiferenca quanto a lingua holandesa.

Received on March 2, 2009. Accepted on May 20, 2009.

Referencias

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(1) Neste trabalho, as designacoes 'holandes(es)'/'holandesa(s)' (entre aspas) serao usadas para fazer referencia ao individuo descendente de holandeses que nasceu no Brasil, em oposicao as designacoes 'brasileiro(s)'/'brasileira(s)' (tambem entre aspas), que se referem ao individuo que nasceu no Brasil e nao e descendente de holandeses. A opcao por estas designacoes deu-se por duas razoes: os proprios 'holandeses' de Carambei fazem esta distincao (referem-se a si mesmos como 'holandeses' e distinguem-se dos nao holandeses, a quem chamam 'brasileiros') e Rickli (2003) propoe em seu trabalho sobre a colonia de Castrolanda a utilizacao do termo 'brasileiro' como referencia ao individuo que nasceu no Brasil e que nao tem ascendencia holandesa.

(2) Neste artigo, usamos o termo tepe para nos referirmos a vibrante simples alveolar. Em portugues, este fonema e representado ortograficamente pela letra r e aparece sempre no interior da palavra, como em "cara" (CRYSTAL, 1988, p. 251).

(3) Una actitud favorable o positiva puede hacer que un cambio linguistico se cumpla mas rapidamente, que en ciertos contextos predomine el uso de una lengua en detrimento de otra, que la ensenanza-aprendizaje de una lengua extranjera sea mas eficaz, que ciertas variantes linguisticas se confinen a los estilos cuidados. Una actitud desfavorable o negativa puede llevar al abandono y el olvido de una lengua o impedir la difusion de una variante o un cambio linguistico.

(4) A abreviacao V equivale a vogal e C, a consoante. Portanto, a sequencia V_V equivale a, por exemplo, vogal + tepe + vogal, como na palavra 'ira'. Ja a sequencia C_V equivale a consoante + tepe + vogal, como na silaba bra da palavra 'brava'. Enfim, a sequencia CV_ equivale a consoante + vogal + tepe, como na palavra 'mar'.

DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i2.6429

Leticia Fraga

Universidade Estadual de Ponta Grossa, Rua Pedro Mascarenhas Ribas, 131, 84015-760, Jardim Carvalho, Ponta Grossa, Parana, Brasil. E-mail: leticiafraga@gmail.com
Tabela 1. Perfil sociocultural dos informantes.

Informante   Sexo   Idade   Ascendencia                Profissao

DG           M      70      pais holandeses            aposentado
HS           M      73      pais holandeses            agricultor
JG           M      71      pais holandeses            pecuarista
BD           M      71      pais holandeses            agricultor
JLG          F      75      pais holandeses            dona de casa
WGG          F      75      pais holandeses            dona de casa
THS          F      72      pais holandeses            dona de casa
WCGE         F      74      pais holandeses            dona de casa
AF           M      50      pais holandeses            contador
BD           M      50      pais holandeses            guia de museu
WD           M      47      pais holandeses            agricultor
RW           M      46      pais holandeses            pecuarista
RHB          F      44      pais holandeses            secretaria
IS           F      43      pais holandeses            dona de casa
WSGG         F      41      mae indonesia e            dona de casa
                              pai holandes
AJWB         F      42      pais holandeses            professora
CD           M      23      avos maternos e paternos   estudante
                              holandeses
FF           M      22      avos paternos holandeses   estudante
DF           M      24      avos paternos holandeses   estudante
MG           M      21      avos maternos e paternos   estudante
                            holandeses
GF           F      22      avos paternos holandeses   estudante
SSM          F      21      mae holandesa e pai        estudante
                              'brasileiro' (filho de
                              pais holandeses)
MD           F      20      avos maternos e paternos   estudante
                              holandeses
FD           F      21      avos maternos e paternos   estudante
                              holandeses

Tabela 2. Consoantes do portugues que nao fazem parte do
sistema fonologico do holandes sociocultural dos informantes.

Oclusiva   Fricativa     Vibrante    Nasal    Aproximante lateral
velar      posalveolar   alveolar   palatal         palatal

g            [??] 3          r        [??]           [??]

Tabela 3. Consoantes do holandes que nao fazem parte do
sistema fonologico do portugues sociocultural dos informantes.

Fricativa velar   Nasal velar

[??]                 [??]

Tabela 4. Relacao entre crencas e atitudes linguisticas e o uso
de determinada variante de r-forte no portugues falado pelos
'holandeses'.

            Atitudes em relacao   Atitudes em relacao    r-forte no
Grupos         ao portugues           ao holandes        portugues

Grupo 1M      Relativamente           Extremamente       Vibrante,
            positivas (pois nao        positivas            tepe
            considera que esta
             seja sua lingua)

Grupo 1F      Relativamente           Extremamente       Vibrante,
             positivas (pois           positivas            tepe
            nao considera que
              esta seja sua
                  lingua)

Grupo 2M         Positivas             Negativas         Vibrante,
                                                            tepe

Grupo 2Fa        Positivas             Positivas         Vibrante,

Grupo 2Fb      Extremamente           Extremamente          tepe
                 positivas             negativas         Vibrante,
                                                         fricativa

Grupo 3M       Extremamente       Positiva (mas nao a    Fricativa
                 positivas           considera sua
                                  'verdadeira' lingua)

Grupo 3F       Extremamente       Positiva (mas nao a    Fricativa
                 positivas           considera sua
                                  Verdadeira' lingua)

Fonte: a autora.

Figura 1. Variantes de r-forte no portugues falado pelos
'holandeses' de Carambei.

Fonte: elaborado pela autora, a partir dos dados da pesquisa.

               Tepe    Vibrante Multipla   Fricativa

Grupo 1M      62,70%         37%
Grupo 1F      94,00%          5%
Grupo 2M         10%         90%
Grupo 2Fa        60%         40%
Grupo 2Fb                 21,40%            78,60%
Grupo 3M                                      100%
Grupo 3F                                      100%

Nota: Tabla derivada de grafico de barra.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Fraga, Leticia
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Date:Apr 1, 2009
Words:11086
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