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Assistencia tecnica e extensao rural cooperativa: o perfil e o trabalho dos agentes de campo em uma cooperativa agropecuaria em Minas Gerais, Brasil.

Technical assistance and rural cooperative extension: the profile and work of field agents in a cooperative agricultural mining

1. Ater cooperativa

A partir dos diversos estudos relacionados a extensao rural, fazemos alguns questionamentos referentes a ATER cooperativa. Se as cooperativas se inserem no sistema agroalimentar da mesma forma que outras empresas altamente competitivas, deveriam elas exigir apenas o aumento produtivo dos seus cooperados? Ou, como sao empreendimentos coletivos, deveria permitir-se que cada cooperado produzisse da forma e com a qualidade que lhe convier? Os custos realizados para a comunicacao e a participacao dos cooperados podem ser reduzidos sem reflexos negativos no faturamento das cooperativas agropecuarias? O departamento tecnico e apenas um setor de assistencia ao cooperado, sem grande importancia para a cooperativa, que possibilitaria apenas o aumento das vendas do setor de agroveterinaria, ou tem alguma importancia maior no faturamento final da organizacao? Ela so atende questoes produtivas dos associados ou tambem potencializa e articula a gestao social e a empresarial?

Se as organizacoes cooperativas sao entidades que possibilitam a insercao de produtores rurais de forma diferente nas cadeias de valor do sistema agroalimentar, e esperado que essas organizacoes atuem de maneira diferente das outras empresas (como as sociedades anonimas, por exemplo) orientando-se segundo a doutrina cooperativista. Para isso, e necessario que o funcionamento interno dessas cooperativas procure, no decorrer de suas atividades, articular a gestao empresarial com a gestao social, de modo a alcancar sua proposta de desenvolvimento. Isso significa dizer, que as acoes executadas pautando o rendimento economico e financeiro da organizacao, so alcancarao o sucesso esperado, caso esse sucesso seja tambem o alicerce do sucesso dos seus cooperados. Para que isso ocorra, e preciso que a organizacao mantenha um dialogo ativo e articulado com os seus cooperados a fim de compreender, a todo o momento, os seus reais anseios e necessidades.

As acoes de assistencia tecnica e extensao rural, por sua vez, precisam ter uma atencao especial neste contexto, ja que constituem o canal mais proximo entre a cooperativa e a propriedade do cooperado. Como os agentes de ATER geralmente estao em contato direto com as propriedades rurais visitando-as periodicamente, o processo de dialogo estabelecido pode ser significativamente maior que com os outros setores da cooperativa, caracterizandoos, muitas vezes, como os operacionalizadores das acoes de educacao cooperativista dessas cooperativas. Alem disso, durante suas intervencoes, embora possam nao ser conscientes disso, esses profissionais carregam consigo o poder instituido pela organizacao a qual representam. O profissional transforma-se assim no representante da cooperativa, ficando, portanto, responsavel de propagar a filosofia e cultura especifica da organizacao e de promover os objetivos por ela estabelecidos. O agente de ATER passa a ser porta voz de um poder institucional que deve ser executado da maneira que a instituicao espera que ela seja (1).

Ao mesmo tempo, tambem e necessario que a comunidade reconheca nesse representante o poder instituido pela organizacao. "A eficacia simbolica das palavras se exerce apenas na medida em que a pessoa-alvo reconhece quem a exerce como podendo exerce-la de direito" (Bourdieu, 1996, p. 95). Na medida em que esse profissional e reconhecido como funcionario da cooperativa, esse mecanismo e acionado.

Como reflexo de uma instituicao sendo representada, os produtores e as comunidades rurais percebem no agente de ATER a presenca de alguem que pode contribuir para a mudanca social que o local almeja. No caso das cooperativas, a proximidade estabelecida entre o departamento tecnico e os produtores faz com que eles busquem resolver problemas que nao fazem (ou nao fariam) parte de sua alcada, como por exemplo, reivindicar melhoria de estradas nas prefeituras municipais. Algumas vezes, similar ao refletido por Clifford Geertz em Nova Luz sobre a Antropologia (2001), o profissional deve manter um determinado afastamento e deixar explicito seus interesses e sua forma de agir para nao gerar expectativas frustradas do grupo com o qual trabalha. Nas cooperativas agropecuarias isso parece mais recorrente ja que os produtores rurais, ao mesmo tempo em que sao clientes dos servicos oferecidos, tambem sao donos da organizacao que oferece esse servico. Ou seja, os cooperados seriam simultaneamente clientes e patroes dos tecnicos.

Outra caracteristica especifica da ATER Cooperativa e a relacao de proximidade e confianca estabelecida entre os tecnicos e os produtores rurais. A principal diferenca entre as outras organizacoes e que como nas organizacoes cooperativas, os cooperados alem de proprietarios tambem sao os clientes e fornecedores dos servicos da cooperativa, o trabalho desenvolvido pelos agentes de ATER, alem de garantir resultados tecnicos produtivos favoraveis, pode tambem contribuir no processo de fidelizacao dos cooperados a cooperativa, fortalecendo assim a face de empresa economica presente nas organizacoes cooperativas.

Os cooperados, dessa forma, participariam mais da organizacao ao notar que suas opinioes e contribuicoes sao valorizadas pela gestao da cooperativa. Para que isso ocorra, alem das assembleias gerais, as cooperativas possuem estruturas como a OQS e as pre-assembleias nas comunidades rurais. A efetividade da participacao dos cooperados deve se dar nao apenas nessas instancias de participacao social, mas por meio de relacoes de confianca que garantam que esses cooperados direcionem toda a sua producao para a organizacao da qual sao donos, ou seja, fomentem confianca e participacao economica. Isso so acontece quando ha relacao de confianca e de reciprocidade entre individuo e organizacao, estabelecida previamente ou simultaneamente ao processo economico.

No entanto, a relacao de confianca dentro dessa organizacao nao se cria apenas a partir de troca de informacoes, ela e proveniente de varias fontes diferentes e e necessario que ela seja criada e reforcada pelas densas redes horizontais ligadas a essa sociedade. Essas redes horizontais sao estabelecidas quando os funcionarios da cooperativa, os agentes de ATER por exemplo, se colocam numa posicao de parceria e de construcao conjunta das acoes a serem desenvolvidas, como o que se pretende nas reunioes de OQS ou nas pre-assembleias. Assim, ao inves de estabelecer uma relacao com base numa extensao rural difusionista, baseada numa abordagem diretiva, ela se direciona pela abordagem interativa, na qual ambos, e nao apenas o tecnico, sao vistos como nos dessa rede de construcao de parcerias e de projetos a serem desenvolvidos conjuntamente.

Esse exercicio constante de construcao de confianca pode possibilitar ganhos constantes dentro da organizacao, visto que a participacao politica e economica dos cooperados tenderiam a aumentar a partir da ideia de um circulo virtuoso de confianca. Ao mesmo tempo, o efeito negativo de uma relacao pode levar a perda da confianca estabelecida, criando um circulo vicioso que prejudicaria o trabalho.

Com o dialogo estabelecido entre os agentes de ATER da cooperativa e os cooperados, as orientacoes na producao podem ser feitas a partir das demandas reais dos produtores e as receitas agronomicas/veterinarias elaboradas sem a mencao das marcas dos produtos a serem adquiridos, mas com os seus compostos. Assim, os cooperados teriam a oportunidade de comprar o produto onde consigam melhor preco ou condicoes para pagamento. Essas compras muitas vezes sao realizadas nas lojas agroveterinarias da cooperativa que--seria de esperar--oferecam melhores condicoes de pagamento aos cooperados. No entanto, para garantir esse beneficio, as vezes, e necessario o aumento do preco do produto, o que torna inviavel para alguns cooperados fazerem pequenas aquisicoes com pagamento a vista, o que obriga a contar com outras opcoes de pagamento. Para cria-las os conhecimentos dos tecnicos e o relacionamento da cooperativa com seus associados e fundamental para obter solucoes adequadas para todas as partes.

Outra diferenca no trabalho do departamento tecnico das cooperativas deveria estar no direcionamento do olhar do tecnico, que nao deveria estar voltado apenas para as lavouras ou para o gado (ou a cultura especifica daquela propriedade). O trabalho de campo deveria ser realizado observando a propriedade de maneira sistemica, integrando a diversificacao da producao, gestao da propriedade, qualidade de vida e saude da familia, adequacao as legislacoes vigentes, etc.

Outra importante atuacao dos agentes de ATER nas cooperativas e que eles se transformam em responsaveis por organizar a oferta da producao dos cooperados a ser entregue para a cooperativa, assessoram a gerencia da cooperativa sobre a comercializacao de produtos nas lojas agroveterinarias, baseados nos seus calculos sobre a demanda de insumos a serem adquiridos pelos cooperados, por exemplo. Para isso, e preciso que haja um canal direto de comunicacao entre o departamento tecnico e o departamento comercial da cooperativa. A partir da situacao produtiva e da sazonalidade da producao, os agentes de ATER podem mensurar os insumos que os cooperados precisarao num futuro proximo, para que o departamento comercial possa adquiri-los de maneira planejada e garantir melhores condicoes de compra para os cooperados. Os agentes de ATER estao em condicoes de contribuir tambem na articulacao entre o que e produzido pelos cooperados e a demanda dos mercados, podendo assim, melhorar a competitividade da organizacao perante seus concorrentes.

A definicao do foco de direcionamento do trabalho de ATER deveria ser construida a partir da concepcao de desenvolvimento que a organizacao prestadora desse servico tem para si. E essa concepcao que deveria direcionar as acoes (e inclusive a postura) dos tecnicos no campo. As proprias tecnologias tem implicita uma determinada compreensao do mundo a qual tentar responder.

E importante ressaltar que nao e possivel estabelecer um padrao de acoes que devem ou nao ser desenvolvidas por todas as cooperativas, porque cada uma tem suas especificidades. Por mais semelhancas que haja entre as organizacoes devido a doutrina cooperativista que as orienta, como sao organizacoes formadas por conjuntos especificos de pessoas, precisam respeitar as singularidades do coletivo que as constituem. Como nas cooperativas todas as acoes realizadas nao devem focar so no seu desenvolvimento, mas tambem no desenvolvimento individual dos seus cooperados, essa dupla natureza cooperativa configura-se como "duas faces de uma mesma moeda" (2). Caso contrario, e possivel que essas acoes nao tenham sucesso.

Isso direciona, inclusive, o modelo de ATER a ser implantado pela cooperativa e o carater da atuacao desses agentes. O que se espera da atuacao desses agentes das cooperativas agropecuarias e a complementacao das acoes de assistencia tecnica com as de extensao rural. Como as cooperativas precisam agir em mercados cada vez mais competitivos e exigentes, o padrao de qualidade dos produtos por ela ofertados necessita ser adequado a essa realidade. No entanto, como a cooperativa nao deve ser um fim em si mesmo, tambem os mercados em que atua devem ser adequados a realidade dos seus cooperados. Ao inves de transformar os produtores em escravos da producao agropecuaria, espera-se que o trabalho dos agentes de ATER facilite essa relacao, contribuindo para otimizar a relacao entre a producao dos cooperados e os mercados da cooperativa.

Por tudo o que foi visto ate agora, consideramos que as atividades de ATER podem ser consideradas um tipo especifico de educacao cooperativista, ja que fazem parte dos processos que articulam a cooperativa e seus cooperados, incluindo-se nas atividades de capacitacao produtiva as questoes vinculadas a producao da forma anteriormente descrita. Esse talvez seja a razao que motiva a 58 % das cooperativas agropecuarias mineiras a financiar as atividades de assistencia tecnica (agronomica ou veterinaria) com os recursos do Fundo de Assistencia Tecnica Educacional e Social--FATES (FERREIRA, 2009, p. 62).

Dado esse marco de atuacao, e motivo de reflexao a formacao academica que esses agentes recebem nas universidades para atuarem no campo da assistencia tecnica e da extensao rural. Esses profissionais sao preparados para atuarem nesse ambiente cooperativo? Schmitz (2010) se utiliza do exposto por Riascos (2007) para demonstrar que o extensionista rural "e visto como educador e o trabalho de extensao e baseado principalmente no poder persuasivo da demonstracao, compreendendo aspectos de extensao, psicologia educacional, sociologia rural, antropologia rural aplicada" (SCHIMITZ, 2010, p. 120). Assim o autor postula que se deve abordar o trabalho extensionista numa perspectiva multidisciplinar, pautada numa atuacao transdisciplinar. Essa dificuldade e enunciada pelo relatorio final do Seminario Nacional de ATER realizado pelo MDA em 2008, onde as principais dificuldades apontadas pelos participantes do Estado de MG, em relacao ao eixo tematico "Acao Extensionista--Perfil" foram: "Pouco investimento das instituicoes e dos profissionais no desenvolvimento de habilidades compativeis com os conhecimentos demandados para os agentes de extensao" e "A formacao academica e inadequada para a atuacao dos profissionais na pratica extensionista".

Seriam esses profissionais formados para esse tipo de atuacao ou apenas para "resolver" problemas tecnicos produtivos? A necessidade dessa complementacao da formacao academica e clara quando analisamos todas as influencias e interesses externos (legislacoes, diretoria da cooperativa e cooperados, dentre outros) que os agentes de ATER devem articular para alcancar os objetivos do seu trabalho. Ainda, e importante lembrar que o proprio agente de ATER e um ser social que possui seus proprios interesses e que veio de um processo de construcao historica e social que lhe confere padroes de atuacao determinados por uma etica propria.

Ao enfrentar-se a essa gama de interesses diversos, o profissional deve saber equilibrar esse jogo entre razao e emocao, entre exterioridade e interioridade e ter maturidade suficiente para nao se prender a uma unica compreensao de mundo. Geertz (2001) contribui ainda para as reflexoes dos trabalhos de campo, lembrando que o profissional deve "reconhecer a tensao moral e a ambiguidade etica implicitas no encontro [entre tecnico/produtor], e assim ser capaz de dissipa-la atraves das proprias acoes e atitudes" (p. 43). Assim, as intervencoes tambem devem ser consideradas como um processo educativo, nao so para o produtor, mas tambem para o agente de ATER.

2. Procedimentos metodologicos

Este artigo faz parte de uma dissertacao de mestrado realizado entre 2011 e 2013, e trata-se de uma pesquisa descritiva que busca identificar, compreender e descrever determinada realidade. De acordo com Best (1972) a pesquisa descritiva faz o delineamento do que acontece em determinada realidade. Descreve, analisa e interpreta um fenomeno atual (MARCONI e LAKATOS, 2011, p. 6).

Utilizou-se a formula estatistica apresentada por Martins (1994) para determinar o tamanho da amostra de entrevistados em cada categoria: Formula: 1,96*1,96*0,5*0,5*N/0,05*(N-1)+1,96*0,5*0,5. No entanto, para este artigo o publico entrevistado foi restringido a totalidade (12) dos agentes de ATER da cooperativa.

Assim, foram realizadas entrevistas estruturadas que, segundo Marconi e Lakatos (2011), sao aquelas em que o entrevistador segue um formulario previamente determinado e segue um plano estruturado a fim de alcancar os objetivos da pesquisa que realiza e entrevistas semiestruturadas (com perguntas abertas e fechadas), onde e possibilitado aos entrevistados discorrerem sobre o assunto de maneira livre sem, contudo, perder o foco do tema da entrevista (Minayo, 2004).

A documentacao da cooperativa tambem foi objeto de analise, com o intuito de elucidar-se a dinamica das atividades da cooperativa e da sua estruturacao enquanto organizacao. Assim, optou-se pelos seguintes documentos: Planejamento Estrategico, Estatuto Social, Atas de reunioes, Regimento Interno, Relatorio de Atividades e Jornais da Cooperativa.

3. Analises e discussoes

3.1. Perfil dos respondentes e dos agentes de ATER

Os agentes de ATER que participaram da pesquisa fazem parte do departamento tecnico da cooperativa (10), da fabrica de racoes e sais minerais (1) e do departamento de comunicacao e marketing (1). Do total, apenas 2 agentes sao do sexo feminino e 10 sao do sexo masculino. Esses agentes sao formados em agronomia (7), tecnico em agropecuaria (3), Zootecnia (1) e em gestao de cooperativas (1). Desses, apenas 3 possuem mais de 10 anos de atuacao como tecnicos de campo, os outros 9 agentes tem menor tempo de atuacao. Segundo o tempo de trabalho na cooperativa, vimos que 7 agentes tem menos de 3 anos e 5 agentes com mais de 4 anos de contratados pela cooperativa. O alto numero de contratacoes nos ultimos anos faz com que a maior parte dos tecnicos tenha pouco tempo de casa.

Nota-se que o departamento tecnico da COOPA e constituido por funcionarios consideravelmente novos, com pouco tempo de atuacao e formados ha poucos anos. Basicamente, a formacao academica desses profissionais ocorreu num periodo no qual a PNATER ja estava sendo elaborada e implantada (a partir de 2003). Seria de esperar que isto direcionasse a sua atuacao segundo uma logica mais participativa, dialogica e de diversificacao da producao, condizente com os direcionamentos do programa, de acordo tambem com a perspectiva dos principios cooperativistas.

Conforme o que foi percebido das atividades do departamento tecnico da COOPA, temos uma determinada divisao de acoes que podem ser classificadas de tres maneiras distintas. Existem os agentes responsaveis apenas pelas questoes tecnicas e produtivas dos cooperados, dando orientacoes individuais nos balcoes de atendimento, orientando sobre qual o melhor insumo a ser utilizado para otimizar a producao ou qual a quantidade de semente adquirir para a proxima safra. Esses agentes podem ser classificados como prestadores de assistencia tecnica, vinculados apenas a eficiencia empresarial da cooperativa, visto que se direciona apenas aos ganhos em qualidade e em escala da producao.

Ao mesmo tempo, a cooperativa tambem possui um "extensionista" (3) responsavel pela organizacao do quadro social e pelo trabalho de educacao cooperativista da COOPA. E ele quem discute com os cooperados as questoes relacionadas ao dia a dia da cooperativa, sendo a ponte entre os orgaos diretivos e gerenciais e os cooperados. Ele e quem coordena as reunioes das comunidades cooperativistas e do comite educativo; sua tarefa e promover a participacao efetiva dos cooperados na avaliacao e levantamento de demandas existentes na organizacao para que a cooperativa se planeje a fim de solucionar os problemas levantados. Ao inves de definir o que deve ser feito, dando respostas prontas, o profissional, nesse caso, e apenas um facilitador das discussoes e interlocutor do dialogo entre diretoria e cooperado. Oferecendo cursos, oficinas, palestras e tirando as duvidas dos cooperados, e possivel que eles participem mais conscientemente das discussoes relacionadas a cooperativa, promovendo efetivamente a gestao social da organizacao.

Este profissional, mesmo nao sendo formado em cursos relacionados a producao agropecuaria (como agronomia, zootecnica ou veterinaria), tambem e um extensionista, a partir das caracteristicas presentes no conceito de extensao rural apresentadas nas qualidades do assessoramento em processos de solucao de problemas (Trusen, 2004). Esse reconhecimento dado pela cooperativa nao so e adequado teoricamente como desafia o uso comum do termo geralmente vinculado a uma visao produtivista da ATER. Entre suas funcoes esta a identificacao dos entraves que os produtores enxergam na cooperativa e a tentativa de facilitar a sua superacao.

A terceira forma de atuacao das acoes de ATER na COOPA diz respeito ao grupo de entrevistados que fazem parte do departamento tecnico e que sao denominados pela cooperativa como extensionistas de campo, os quais tem o desafio de simultaneamente promover a eficiencia produtiva e garantir a fidelizacao do produtor cooperado a cooperativa. Como eles sao os unicos profissionais que vao diretamente as propriedades, realizando visitas e outras atividades fora da sede durante todo o tempo em que estao em servico, eles representam a cooperativa na casa do produtor rural. Alem dessas atividades, eles tambem participam de todas as reunioes das comunidades cooperativistas realizadas em suas regioes de atuacao, oferecendo palestras tecnicas para os grupos de produtores da regiao (cooperados ou nao cooperados) e seus familiares. Juntamente com o agente responsavel pela OQS, articulam com outras organizacoes para que sejam oferecidos cursos, dias de campo e palestras relacionados com os temas demandados pelos participantes. Dessa forma, esses agentes executam tanto acoes de assistencia tecnica convencional, quanto as acoes de extensao rural, e atuam no desenvolvimento tanto social quanto empresarial da cooperativa.

E importante lembrar que esses agentes, em sua maioria, nao possuem formacao ou capacitacao especifica para trabalhar em cooperativas. Essa dificuldade e apresentada por eles quando ressaltam que e preciso se adaptar a essa nova forma de trabalho no decorrer do proprio trabalho. Esse problema poderia ser reduzido se a cooperativa oferecesse periodicamente cursos de capacitacao em cooperativismo para seus novos colaboradores.

3.2. Como o trabalho de ATER e percebido pelas diversas instancias organizacionais

Para se discutir como o trabalho de ATER e operacionalizado na cooperativa, e importante compreender em primeiro lugar como os individuos envolvidos com essa atividade a percebem. Tal qual afirma Bourdieu (1996), os papeis sao assumidos e as acoes sao executadas a partir das expectativas que se depositam no individuo executor da acao. A partir dai e possivel tentar compreender como as divergencias de opinioes podem gerar certos tipos de problemas enfrentados pela cooperativa ou podem trazer beneficios resultantes da atuacao dos agentes. Foi questionado aos entrevistados a sua opiniao sobre o porque da cooperativa possuir um departamento tecnico. As respostas foram agrupadas da seguinte forma.

Nota-se certa diferenca de visoes entre os cooperados (aqui divididos entre conselheiros e representantes do comite educativo) e os funcionarios (agentes de ATER). As categorias referentes a conceder suporte aos cooperados ("dar orientacoes/assistencia", "ajudar") sao provenientes dos cooperados que enxergam o trabalho do departamento tecnico como crucial para o desenvolvimento da cooperativa. A resposta dada pelo representante 11do comite educativo e um exemplo dessa visao: "acho que e pra dar orientacao pro cooperado. Se ele nao produz direito, nao produz bem, nao tem como a cooperativa ganhar com isso. Os tecnicos sao a cooperativa ajudando a gente na fazenda". Para eles, e o trabalho dos agentes de ATER que faz com que suas atividades produtivas sejam rentaveis e alcancem resultados satisfatorios. Esse resultado faz com que haja melhoria da qualidade e na quantidade dos produtos comercializados que eleva, consequentemente, o seu poder de negociacao com o mercado. Assim, manifesta-se a compreensao de que a cooperativa so cresce, quando os cooperados tambem crescem.

No entanto, ao se analisar as respostas dos cooperados representantes do comite educativo, percebe-se uma visao dos produtores como receptores passivos de informacoes e de novas tecnologias, para os quais e preciso dar assistencia, em forma de ajuda, por parte dos agentes de ATER para que possam produzir com qualidade e em quantidade adequada. Por mais que a cooperativa e o departamento tecnico priorizem a sua ATER numa abordagem interativa, por meio dessa visao dos representantes, se caracteriza por uma abordagem diretiva e de transferencia de tecnologia.

Ao mesmo tempo, como as opinioes refletem as condicoes do lugar de onde se fala, as respostas provenientes dos agentes de ATER condizem com a representacao de seu papel como uma ponte, no que diz respeito a comunicacao entre cooperado-cooperativa e vice e versa. Esse ponto pode ser representado pela resposta dada pelo tecnico 4: "pra levar assistencia pro produtor. Pra acompanhar a producao dele e ajudar ele no que ele precisar. Pra ficar mais perto do cooperado e poder ter essa troca de informacao entre a cooperativa e o produtor." Nota-se que alem de aumentar a produtividade das atividades produtivas dos cooperados, eles compreendem que o papel do departamento tecnico vai muito alem de resolver questoes tecnicas e produtivas. Eles assumem o papel de representantes da cooperativa na casa do cooperado desempenhando a funcao de comunicadores tanto de novas tecnologias e novidades da cooperativa, quando trazem para dentro da cooperativa os problemas enfrentados pelos cooperados, suas duvidas e sugestoes. Essa ideia coloca o agente de ATER e os proprios cooperados no marco de uma abordagem interativa do processo de intervencao.

Essa diversificacao nas respostas nos levou a questionar aos agentes de ATER qual era, na opiniao deles, o conceito de assistencia e de extensao rural. Importante ressaltar que a resposta era livre, portanto podiam responder utilizando varios conceitos e que a pergunta sobre o conceito de extensao rural so era feita apos a resposta sobre o conceito de assistencia tecnica. As respostas foram agrupadas a partir do criterio de semelhanca entre seus significados (Figuras 2 e 3).

E possivel perceber certa semelhanca entre as respostas, o que condiz com a opcao feita neste trabalho ao tratar estes conceitos de forma conjunta (e ao inves de separar assistencia tecnica de extensao rural, utilizar-se a expressao ATER) como apresentado oportunamente. A principal diferenca existente na conceituacao dos respondentes sobre as duas formas de atuacao e que a extensao rural tambem e vista como responsavel por trabalhar com toda a comunidade na qual o produtor esta inserido e a necessidade dos tecnicos em trabalhar com os cooperados sua participacao sociopolitica na cooperativa. A extensao rural para eles e a complementacao das acoes de troca de informacoes, de representacao da cooperativa na casa do cooperado e orientacao aos produtores em sua atividade produtiva por meio do dialogo e do estabelecimento de uma relacao de confianca entre as partes envolvidas no processo.

Uma critica surge, quase sempre por parte dos tecnicos, em relacao a sua propria atuacao. Ao dividir o numero total de cooperados pelo numero total de funcionarios do departamento tecnico (2.455/12) fica visivel que e inviavel a sua atuacao da maneira como eles proprios acreditam que seja ideal. Nao seria possivel fazer um acompanhamento tao direto e de toda a propriedade, inclusive de maneira preventiva, dado o alto numero de atendimentos que precisam ser feitos por cada tecnico. Assim, eles acabam muitas vezes realizando "visitas tecnicas" ao inves de oferecer servicos de ATER. Esse deficit e parcialmente sanado nas reunioes das comunidades cooperativistas. Como os agentes de ATER sempre estao presentes, e possivel que o dialogo ocorra em mais um momento alem da propria visita tecnica na propriedade do cooperado.

No entanto, nao pode ser deixado de lado o carater difusionista existente no discurso desses significados para os agentes de ATER. Nota-se que tanto no que diz respeito ao papel do departamento tecnico, quanto no significado que assistencia tecnica possui para eles, as acoes sao voltadas a transferencia de tecnologia, ajudar os produtores rurais no que eles precisam transmitindo o conhecimento de quem o possui para quem nao o possui. Por mais que suas acoes nao se limitem a isso, e seja reflexo das necessidades sentidas no campo, esse e um dado que nao pode ser deixado de lado ao se analisar a proposta de desenvolvimento que essa cooperativa tem para si. Essa caracteristica e minimizada devido ao trabalho educativo e de comunicacao proposto pela propria cooperativa, permitindo assim que se enquadrem numa abordagem interativa da ATER. Pela importancia existente no trabalho de OQS para a cooperativa, tambem optou-se por questiona-los (agentes de ATER, conselheiros de administracao e representantes do comite educativo) sobre o assunto.

3.3. Politicas de ATER e as estrategias de trabalho dos agentes de ATER

O departamento tecnico da cooperativa nao possui uma politica de ATER definida, porem se pauta em direcionamentos emitidos pela diretoria atual. Realizam-se reunioes semanais de todos os funcionarios com a diretoria para alinhamento das acoes, repasses de informacoes sobre a cooperativa e sobre o andamento das atividades no campo. Os agentes de ATER elaboram relatorios mensais que sao acompanhados pela gestora do setor, que tambem e responsavel por fazer a avaliacao dos resultados do departamento. Nessas reunioes tambem se definem o planejamento e as estrategias de atuacao que serao utilizadas para a prestacao dos servicos aos cooperados. No entanto, como as acoes sao pautadas nos direcionamentos da diretoria da epoca, que nas cooperativas sao cargos eletivos com duracao maxima de 4 anos (na COOPA se permite apenas uma reeleicao), as acoes podem acabar se tornando volateis com a mudanca dos diretores. Isso pode acarretar em uma descontinuidade no andamento dos trabalhos de ATER e de participacao dos cooperados.

Algumas parcerias sao realizadas com outras organizacoes para apoio a execucao de suas proprias atividades de ATER, para realizacao de eventos de trocas de experiencias, para elaborar e executar projetos, dentre outros.

O projeto Educampo, ja mencionado anteriormente, tem como objetivo prestar assessoria tecnica e gerencial na producao de leite e de cafe, com a proposta de tratar as propriedades rurais como empreendimentos a serem gerenciados, aumentando sua profissionalizacao. Ha um acompanhamento mensal dos tecnicos de campo contratados pelo proprio projeto aos grupos de cooperados da COOPA.

Pelo que foi explicitado aqui, e possivel perceber que, mesmo sem uma politica definida, as acoes de ATER desenvolvidas pela cooperativa sao diversas. A Tabela 1 mostra a frequencia com que essas acoes sao executadas pelos agentes de ATER da COOPA.

Fazer atendimentos emergenciais (9 sempre e 2 frequentemente) e tirar duvidas sobre a cooperativa (9 sempre e 3 frequentemente) sao as acoes mais frequentemente realizadas pelos agentes de ATER. Isso nos leva a refletir sobre o carater esporadico do contato dos agentes com os cooperados e a dificuldade no acompanhamento do andamento das propriedades rurais. Os profissionais alegam que mesmo estando divididos por regioes, o que facilita o contato mais direto com os produtores, ainda prejudica o alto numero de cooperados a serem atendidos por cada um. Como o numero de cooperados cresce a cada dia torna-se ainda mais dificil para os agentes de ATER acompanharem essa evolucao do quadro social e se programar com antecedencia para fazer um trabalho que nao seja esporadico e de "apaga fogo", como os proprios o definem. Essa caracteristica torna dificil o processo de construcao de confianca e promove o carater extremamente tecnicista e produtivista do trabalho de ATER. No entanto, gracas a outras atividades que tambem sao muito realizadas, como as periodicas reunioes de comunidade, as complementam e contribuem para uma atuacao extensionista de perfil mais dialogico. Como se sabe, atraves de apenas realizar-se reunioes com os cooperados nao se configura uma relacao dialogica. No entanto, como o levantamento dos dados tambem foi realizado por meio de observacao nao participante, e possivel afirmar que elas possuem o carater dialogico da educacao.

Nota-se que as acoes que mais tiveram resposta "sempre"--participar de reunioes de acompanhamento das atividades (10), elaborar relatorios periodicos (11), informar aos cooperados sobre ofertas ou oportunidades de negocios (10), informar aos cooperados sobre as atividades organizadas pela cooperativa (10), e elaboracao de laudos tecnicos sobre as propriedades dos cooperados (11)--sao, em sua maioria, atividades para as quais os profissionais das ciencias agrarias recebem pouca formacao academica para realizar (nao mais de uma ou duas disciplinas dedicadas a questoes que possam lhes dar subsidio para isso, pouco mais de cem horas, entre os milhares de horas/aula de sua formacao). Inclusive quando sao contratados, essas atividades nao sao descritas entre as que deverao ser realizadas pelos candidatos selecionados. Percebe-se que os agentes de ATER se tornam comunicadores no dia a dia da cooperativa agropecuaria, transformando-se em interlocutores privilegiados na troca de informacao entre cooperados e cooperativa sem, na maioria das vezes, estar realmente preparados para executar esse papel.

3.4. Estrategias e atividades de ATER vinculadas a eficiencia empresarial e a participacao social

Como foi possivel perceber na descricao do trabalho do departamento tecnico da COOPA, a cooperativa possui agentes de ATER que podem ser divididos em tres grupos distintos: os que executam atividades apenas tecnicas e produtivas, os que executam acoes de carater tecnico, produtivo, educativo e de assessoramento gerencial a cooperativa, e um agente que realiza as acoes de educacao cooperativa e de articulacao entre o conhecimento tecnico e produtivo com o conhecimento da gestao da cooperativa. Essa distincao e feita ao se analisar o trabalho de assistencia tecnica e extensao rural de cooperativas agropecuarias que valorizam a integracao dessas diferentes areas. Assim, essas acoes distintas podem ser representadas pelo esquema da Figura 4.

As areas de interseccao nos mostram mais precisamente como o trabalho do departamento tecnico se articula com a dupla natureza cooperativista (associacao e empresa). De acordo com os conceitos apresentados no referencial teorico, o circulo "ATER" pode ser definido como o trabalho de assistencia tecnica e extensao rural convencional, como o prestado por outras organizacoes nao cooperativas. Essas sao as acoes com o intuito de resolver os problemas relacionados ao manejo, profilaxia e prevencao de pragas e doencas, por exemplo. A metodologia utilizada pela COOPA para essa atuacao possibilita um ambiente de cooperacao e troca de experiencias, visto que parte das suas acoes sao articuladas com as acoes de educacao cooperativista representadas pelo outro circulo. Nessas acoes sao incorporados os cursos, palestras, pre-assembleias e as reunioes das comunidades cooperativistas, desenvolvidas na OQS. A articulacao entre as duas acoes se da devido a escolha metodologica ter sido incluir os agentes de ATER do departamento tecnico nessas atividades de OQS, aproximando-os ainda mais dos cooperados e aproveitando as reunioes para prestar os servicos de ATER de maneira coletiva e de troca de experiencias entre os participantes.

Ao mesmo tempo, o circulo "ATER" tem espacos de interseccao com as atividades de "assessoramento tecnico economico para a cooperativa" visto a importancia dada ao conhecimento adquirido pelos agentes de ATER sobre as demandas e necessidades dos cooperados em suas atividades produtivas. Isso possibilita que nas tomadas de decisao estrategicas ou operacionais esses agentes possam--e devam--assessorar a gerencia no planejamento de compras e vendas casadas, por exemplo. Colaboram ainda na elaboracao de laudos tecnicos das propriedades rurais dos produtores que se inscrevem na cooperativa para se tornarem cooperados. Isso possibilita que a gerencia e o conselho de administracao tenham informacoes concretas sobre as atividades e capacidades produtivas de futuros novos associados.

Os agentes de ATER nas cooperativas tem um leque de atividades bastante diferente da atuacao que eles teriam sob sua responsabilidade em outros tipos de organizacoes. Os assessoramentos tecnicos estao a servico, simultaneamente, da gestao empresarial e da gestao social da cooperativa. Se uma de suas atribuicoes e colaborar com a organizacao de compras do setor comercial da cooperativa, no momento da renovacao do estoque de produtos da loja agroveterinaria, isso e feito para que os cooperados possam adquirir esses produtos com menores custos. Os agentes de ATER sao os funcionarios mais adequados para assessorar nesse processo, pois sao os profissionais que estao mais proximos das atividades produtivas dos cooperados. O mesmo ocorre quando analises de solo (por exemplo) sao feitas na regiao e os agentes podem mensurar a quantidade e qualidade de fertilizante que os cooperados vao precisar futuramente e ajudar a cooperativa a se preparar para atender adequadamente essa demanda.

A "educacao cooperativista" tambem se intersecciona com as acoes de "assessoramento tecnico economico para a cooperativa", pois e nas reunioes da OQS onde os cooperados possuem a possibilidade de estarem mais proximos a cooperativa e aos seus dirigentes, sendo mais uma ferramenta comunicacional estabelecida entre cooperadoscooperativa. Assim, este se torna um espaco onde as duvidas sao tiradas, as reclamacoes sao feitas e as sugestoes sao oferecidas. Se bem aproveitados pela diretoria, o delineamento das acoes durante as tomadas de decisao gerencial da cooperativa e executado com maior clareza das necessidades dos seus cooperados e as repostas as sugestoes ou reclamacoes podem ser dadas com maior efetividade e agilidade.

Sao nessas reunioes em que tambem ocorrem as discussoes sobre organizacao da producao, as acoes comunicativas entre cooperado e cooperativa, a organizacao de eventos educativos (tecnico-produtivos ou de capacitacao profissional), e a organizacao de servicos a serem oferecidos pela cooperativa aos produtores, resultantes da interseccao das tres esferas, que encontramos o que denominamos de ATER cooperativa. Quando sao listadas as atividades que os agentes de ATER desempenham (Tabela 1), vemos que elas vao alem de atividades tecnico produtivas especificamente. Dentre elas se incluem a organizacao dos eventos, apoio a gerencia comercial e as acoes educativas. Assim, percebe-se que estes agentes unem tres formas de atuar como agentes de ATER, articulando tanto as acoes tecnicas e produtivas quanto na construcao do conhecimento, o que possibilita o protagonismo dos produtores/cooperados, assessorando a gerencia da cooperativa nas tomadas de decisao administrativas da cooperativa. Essa forma de atuacao tambem contribui com a dupla natureza cooperativa, articulando as acoes que promovem a eficiencia empresarial com outras relacionadas com a participacao social.

E importante notar que a articulacao entre essas tres esferas norteadoras do trabalho da cooperativa possibilita que as necessidades dos cooperados sejam conhecidas, e a definicao das estrategias seja realizada com a participacao de representantes que estejam atentos e conscientes dos anseios dos produtores ao quais representam. Isso possibilita maior fidelizacao dos cooperados a cooperativa, visto que se sentem mais proximos da organizacao ao qual sao donos, usuarios e clientes.

Mesmo identificando que na COOPA essa interlocucao entre as diferentes esferas seja realizada rotineiramente, tambem e possivel perceber que nao ha uma politica de ATER definida anteriormente que direcione um tipo de desenvolvimento escolhido pela cooperativa e os seus cooperados. Essa definicao de proposta de desenvolvimento da cooperativa e para a regiao na qual atua nao necessariamente esta explicita na organizacao.

Consideracoes finais

Diversas organizacoes possuem perspectivas de desenvolvimento que diferem entre si. As cooperativas podem ter objetivos proprios de desenvolvimento, diferentes dos objetivos de desenvolvimento propostos pelo Estado, por exemplo. No que diz respeito a assistencia tecnica e extensao rural, para o Estado ela e um direito publico que deve ser direcionado a partir de uma matriz produtiva e um padrao tecnologico previamente estabelecidos pela PNATER. Ja o servico de ATER prestado pelas cooperativas agropecuarias e de carater privado e busca alcancar objetivos estabelecidos por essas organizacoes, em especial, pelos cooperados que a compoem. Nesse sentido, ela busca articular a producao dos cooperados para acessar os mercados conseguindo maiores resultados para os mesmos, a fim de possibilitar a melhoria produtiva e na qualidade de vida (4).

Essa diferenciacao ainda persiste no que diz respeito a forma de atuacao dos agentes de ATER, que, alem de atender as exigencias e expectativas dos produtores e alcancar os indicadores definidos por seus contratantes (que ocorre tanto no servico publico, quanto nas organizacoes cooperativas), nas cooperativas agropecuarias esses profissionais precisam ainda fazer a intermediacao entre as prioridades diretivo-gerenciais e as dos cooperados. Como visto anteriormente, os cooperados das cooperativas agropecuarias sao donos, fornecedores e clientes dos servicos oferecidos pela cooperativa. E os agentes de ATER agem como a ponte que conecta a organizacao com os seus associados, com prioridades muitas vezes divergentes; fazer essa articulacao e garantir a fidelizacao desses cooperados e um desafio a mais vivenciado por esses profissionais. O papel de fidelizar os cooperados seria, assim, uma das maiores diferencas existentes entre a ATER cooperativa e outras organizacoes prestadoras desse servico, como a EMATER, por exemplo.

Quando analisamos as acoes prestadas pelos agentes de ATER da COOPA, notamos a semelhanca existente entre os ambitos de acao da ATER e os da organizacao do quadro social em cooperativas agropecuarias. As atividades das comunidades cooperativistas se direcionam tanto para promover as melhorias nas condicoes tecnicas e produtivas quanto para possibilitar a melhor compreensao das rotinas administrativas e politicas da cooperativa por parte dos cooperados, transformando-se em lugar privilegiado de comunicacao e intercambio entre a organizacao e seus associados. Assim, as atividades da assistencia tecnica e extensao rural do departamento tecnico nos padroes discutidos neste trabalho e a OQS fariam parte do que podemos denominar de ATER cooperativa, e como manifestado, ambas podem se considerar vinculadas a educacao cooperativista.

A pesquisa serviu para evidenciar tambem como os agentes de ATER das cooperativas sao responsaveis por uma gama muito maior de acoes do que o esperado de profissionais formados pelas ciencias agrarias. Geralmente eles sequer recebem alguma capacitacao sobre o que seja uma cooperativa, sua doutrina, principios ou qualquer outra informacao sobre o funcionamento destas organizacoes. No entanto, quando sao contratados pelas cooperativas, espera-se desses profissionais uma atuacao pautada nos principios norteadores do desenvolvimento cooperativo, que estao relacionados a eficiencia empresarial e a participacao social dos cooperados na rotina da cooperativa. O mesmo ocorre com os profissionais formados pelos cursos voltados ao cooperativismo, que possuem poucas disciplinas voltadas ao trabalho de ATER e especificas sobre o meio rural. Mas a principal pendencia existente nessas grades curriculares e a visao sistemica das disciplinas e a maneira com elas deveriam ser articuladas entre si. Isso facilitaria que os profissionais formados ao irem para o trabalho no campo pudessem atuar de maneira transdisciplinar.

O que ficou ressaltado nesta pesquisa e que para se alcancar os objetivos gerais estabelecidos pelo cooperativismo agropecuario, muito mais se espera dos agentes do departamento tecnico dessas cooperativas, do que as orientacoes tecnicas produtivistas para o qual muitos deles sao formados. Como visto, para a atuacao desses agentes espera-se que valorizem os produtores independentemente de sua capitalizacao ou potencialidade produtiva, que participem da organizacao de eventos sociotecnicos, que sejam comunicadores, educadores e facilitadores do processo de trocas de experiencia e de construcao da gestao participativa destes empreendimentos coletivos.

Notou-se que nao e apenas o extensionista responsavel pela organizacao do quadro social que atua diretamente nas comunidades cooperativistas. A educacao cooperativista e as acoes tecnicas produtivistas sao articuladas para poderem alcancar o melhor resultado para cada um dos cooperados, adequando as tecnologias a realidade de cada um dos produtores. Ao assumirem o papel de ponte entre cooperativa e cooperado, esses agentes de ATER se transformam em portadores da realidade vivenciada no meio rural para que os diretores da organizacao possam pautar melhor suas acoes de dirigentes nos anseios de seus cooperados. O caminho inverso tambem e verdadeiro; informar e explicitar as politicas desenhadas pelos dirigentes no dia a dia do meio rural para que se entendam os esforcos e as dificuldades enfrentadas pela organizacao, para conjuntamente, solidificarem uma proposta de gestao coletiva dos seus interesses e recursos comuns.

O esquema apresentado na Figura 4 sistematiza a ideia proposta da construcao de um conceito da ATER cooperativa, que vai alem dos conceitos definidos como o de assistencia tecnica, de extensao rural ou assistencia tecnica e extensao rural. A ATER cooperativa e o trabalho voltado para oferecer orientacoes aos cooperados no que diz respeito a melhoria das suas condicoes de trabalho e de vida no meio rural. Ela possibilita a capacitacao tecnica e profissional do cooperado e de seus familiares para que possam atuar em suas atividades produtivas de maneira adequada a sua realidade e compreendendo a sua propriedade como um empreendimento a ser gerenciado. A ATER cooperativa oferece subsidios para que a educacao cooperativista seja efetiva e permita que a participacao social e economica dos cooperados ocorra de maneira consciente e ativa, fidelizando-os ainda mais na organizacao.

Assim, pode-se afirmar que eficiencia empresarial e participacao social em cooperativas tambem se tornam "duas faces da mesma moeda" quando o servico de ATER prestada por ela se baseia em acoes voltadas ao fortalecimento dos cooperados em quanto produtores rurais, proprietarios de uma organizacao coletiva e cidadaos.

https://doi.org/10.24215/15155994e059

Notas

(1) Nas cooperativas os sujeitos responsaveis por fazer o papel de seus representantes perante a organizacao e a sociedade sao os diretores eleitos para tal funcao. No entanto, nas cooperativas com elevado numero de cooperados, o contato direto entre cooperado-diretoria tende a ser dificultado. Por mais que nao seja o ideal, funcionarios da cooperativa acabam fazendo essa ponte e assumindo um papel que, de antemao, nao lhes caberia.

(2) Presno Amodeo (1999).

(3) Assim denominado por ela. Esse funcionario e vinculado ao departamento de comunicacao e marketing da cooperativa.

(4) Para a cooperativa, promover a qualidade de vida dos seus cooperados e garantir que eles possuam condicoes de elevar sua renda de maneira que possam acessar ao mercado consumindo o que necessitam ou acessando aparatos medicos e educacionais de qualidade.

Referencias

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Recibido: 29 de febrero de 2016 | Aceptado: 2 de junio de 2017 | Publicado: 21 de agosto de 2017

Renata Rauta Petarly *, Priscilla Silva Coelho **, Welison Portugal de Souza *

* Universidade Federal do Tocantins, Brasil, ** Universidade Federal de Vicosa, Brasil | renatapetarly@uft.edu.b r, pscufv@hotmail.com, wportugal@hotmail.com

Leyenda: Figura 1. Grafico-resposta da pergunta: Por que a cooperativa tem um departamento tecnico?

Leyenda: Figura 2. Grafico-resposta da pergunta: O que e Assistencia Tecnica?

Leyenda: Figura 3. Grafico-resposta da pergunta: O que e extensao rural?

Leyenda: Figura 4. ATER nas Cooperativas Agropecuarias
Tabela 1. Atividades desempenhadas pelos agentes de ATER

Atividades               Nunca   Raramente   Frequentemente   Sempre

Organizar atividades       1         3             4            4
de OQS

Participar das             1         0             4            7
reunioes de OQS

Entrega da folha           7         4             1            0
de leite

Organizar palestras        0         0             7            5
tecnicas

Organizar palestras        7         4             1            0
sobre Cooperativismo

Organizar visitas          0         0             6            6
tecnicas e dias
de campo

Organizar eventos          0         3             6            3

Faz atendimentos           1         0             2            9
emergenciais

Tirar duvidas sobre        0         0             3            9
a cooperativa

Participar de              0         0             2            10
reunioes de
acompanhamento
das atividades

Elaborar projetos          6         1             1            4
de financiamento
para os cooperados

Elaborar relatorios        0         0             1            11
periodicos

Elaborar jornal            0         1             6            5
da cooperativa e
participar de
programa de radio

Representa a               0         3             5            4
cooperativa em
eventos e/ou
reunioes

Fazem a certificacao       5         1             6            0
das propriedades
dos cooperados

Informa aos                0         0             2            10
cooperados sobre
ofertas ou
oportunidades
de negocios

Informa aos                0         2             0            10
cooperados sobre
as atividades
organizadas pela
cooperativa

Discute alternativas       0         1             7            4
economicas com
os cooperados

Assessora a gerencia       0         4             4            4
sobre organizacao
da oferta/demanda
de produtos/insumos

Assessora a gerencia       1         2             5            4
sobre organizacao ou
a oferta de servicos

Elaboracao de laudos       1         0             0            11
tecnicos sobre as
propriedades
dos cooperados

Fonte: Dados da pesquisa.
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Author:Rauta Petarly, Renata; Silva Coelho, Priscilla; Portugal de Souza, Welison
Publication:Mundo agrario: Revista de estudios rurales
Date:Aug 1, 2017
Words:8645
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