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Assessment of disability and quality of life among ceramic industry workers/Avaliacao da incapacidade e qualidade de vida de trabalhadores da producao de industrias ceramicas.

INTRODUCAO

No Brasil, a producao de materiais ceramicos e concentrada em algumas regioes. A regiao do sul de Santa Catarina, reconhecida como polo internacional, reune as maiores empresas ceramicas do pais (1).

Na vida cotidiana dos trabalhadores ha aumento progressivo da busca pelo conforto e por melhores condicoes de vida, no entanto o risco a saude pelo excesso de trabalho, entre outros fatores, parece impedir a satisfacao de necessidades e de desejos, cada vez mais exigentes, na vida em sociedade (2).

Dessa maneira, a ergonomia tem buscado melhorar os cuidados com o conforto, a qualidade, o ambiente de trabalho, a eficiencia e o desempenho do trabalhador nas atividades industriais. No que diz respeito a saude desse trabalhador, sabe-se que as doencas relacionadas as atividades laborais implicam grandes custos musculoesqueleticos, causadores principalmente de absenteismo, acidentes e queixas nas empresas (3).

As dores na coluna vertebral constituem a maior causa de transtornos a saude e de absenteismo ligados ao trabalho. Estima-se que de 70 a 80% da populacao pode ter pelo menos um episodio de dor forte na coluna ao longo da vida, o que possivelmente leva a incapacidade permanente de exercer suas atividades (4-6). Os disturbios musculoesqueleticos sao responsaveis por um grande numero de afastamentos do trabalho, tendo influencia direta na qualidade de vida e no bem-estar do trabalhador (7).

As industrias ceramicas estao sujeitas a uma gama de temperaturas elevadas (8,9). Segundo Iida (10), alguns fatores de desconforto no trabalho envolvem condicoes ambientais desfavoraveis, como a temperatura, aumentando o risco de acidentes e podendo provocar danos consideraveis a saude (11). Quando a temperatura do corpo humano atinge ou ultrapassa 38[degrees]C, dao-se efeitos fisiologicos que comprometem sistemas e orgaos, impossibilitando trabalhar de forma produtiva (12). Fora isso, a atividade fisica acelera o metabolismo, que produz mais calor. Conforme a intensidade do esforco fisico e as condicoes ambientais, a temperatura corporal central pode se elevar a niveis prejudiciais (13). Vasodilatacao cutanea e, ainda, lesoes termicas, como a exaustao e o estresse termico, sao algumas das possiveis consequencias, alem de fadiga, sonolencia e mais riscos de acidentes (14,15). Vestimenta inadequada, ventilacao insuficiente e alta umidade tambem podem dificultar o desempenho do individuo no trabalho (15). Couto lista as principais implicacoes do trabalho em ambientes com altas temperaturas: caimbras, tendinites, distensoes musculoligamentares e tonturas com possibilidade de desmaios por conta da desidratacao, que altera a funcionalidade do trabalhador (5).

A exposicao a materiais particulados presentes no ar (poeira respiravel), gerados por material solido cuj a formacao de poeira e elevada, pode gerar comprometimento funcional progressivo nos trabalhadores. Essa poeira e liberada no momento da fabricacao de materiais ceramicos, especialmente quando ha a presenca da silica nas formas cristalinas em sua composicao, substancia prejudicial a saude do trabalhador, que causa doencas no sistema respiratorio. Entre essas doencas, a mais importante e a silicose (16). Trata-se de uma doenca progressiva cronica (17) provocada pela inalacao e pelo acumulo de po de silica nos pulmoes (18). A dispneia de esforco e o sintoma mais comum da silicose, que evolui de forma lenta e progressiva. Sua evolucao pode incapacitar totalmente os pacientes para o trabalho (19).

Em muitas atividades, o trabalhador e obrigado a adaptar-se em posturas diversas e frequentemente permanece na mesma posicao durante longos periodos, forcando o uso continuo dos mesmos grupos musculares, o que pode levar a fadiga fisica. Posturas curvadas mantidas por muito tempo ou repetitivas podem causar problemas na coluna vertebral. Os gestos repetidos podem desencadear dores nas articulacoes, alem de acarretar perturbacoes musculoesqueleticas (20). O desconforto extremo acaba diminuindo muito o rendimento e aumentando a fadiga, o que leva, muitas vezes, o trabalhador ao estresse (11).

Outro aspecto importante e preocupante quanto as industrias ceramicas sao os disturbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT), lesoes que acometem tanto musculos e tendoes como nervos dos membros superiores e tambem afetam regioes como a cervical e o tronco. Os DORTs sao caracterizados pela sobrecarga do sistema osteomuscular, e sua principal caracteristica e a dor, que se torna o principal fator limitante para a execucao das atividades laborais (21). A postura e um importante elemento, que pode estar relacionado a diversos fatores lesivos do sistema musculoesqueletico da coluna vertebral. A manutencao da postura em pe durante o trabalho pode se tornar cansativa, pois exige contracao continua dos grupos musculares para atuar contra a acao da gravidade ao sustentar essa posicao. Assim, pode levar a maior desconforto e dor, acrescentando precocemente o mecanismo de fadiga muscular (22,23). Portanto, a ma postura e os trabalhos manuais sao os que mais comprometem as articulacoes e a saude desses trabalhadores (24).

O objetivo do presente estudo foi avaliar os sintomas osteomusculares, a funcionalidade da coluna vertebral e dos membros superiores e a qualidade de vida de trabalhadores da producao ceramica.

METODOS

Esta pesquisa e uma abordagem transversal e quantitativa. Foi realizada em duas industrias ceramicas da regiao carbonifera de Criciuma (SC) entre os meses de setembro e outubro de 2015. Foram selecionados para a pesquisa trabalhadores de duas empresas ceramicas da regiao. Este estudo foi aprovado pelo comite de etica da Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) sob o parecer no 1.158.482/15.

O calculo da aproximacao inicial do tamanho da amostra foi feito pela formula proposta por Medronho (2009) (25). Com base em dados do Centro de Referencia em Saude do Trabalhador (Cerest) da regiao de Criciuma, o numero de trabalhadores dos setores de producao das duas industrias ceramicas foi de 370, representando a populacao da pesquisa. O resultado-alvo foram 189 trabalhadores do setor de producao das duas empresas ceramicas, sendo ele o quantitativo da amostragem probabilistica aleatoria simples deste estudo. O recrutamento dos trabalhadores deu-se considerando o tempo minimo de trabalho na atividade, de seis meses ininterruptos no setor de producao, com auxilio das coletas dos setores de saude e seguranca do trabalho das empresas no direcionamento dos grupos de ceramistas e mediante a apresentacao do termo de consentimento livre e esclarecido no convite a adesao aos propositos da pesquisa. Todos os envolvidos no estudo sao do sexo masculino.

O Questionario de Qualidade de Vida WHOQOL-Bref, composto de quatro dominios da qualidade de vida, foi usado de forma autoaplicavel, conforme preve seu manual de utilizacao, para avaliar a qualidade de vida. Por sua vez, empregou-se o Questionario Nordico de Sintomas Osteomusculares (QNSO) para pesquisar os dados sobre sintomas de DORT com todos os trabalhadores (26), por intermedio de questoes simples e diretas indicadas pelos voluntarios na figura da silhueta corporal humana do instrumento (27-29).

Para quantificar a intensidade da dor do participante, recorreu-se a escala visual analogica (EVA). Para tal, foi apresentada uma escala referencial com cores e caretas alusivas a ausencia de dor ate a dor maxima.

Foram realizadas avaliacoes de forca muscular por meio da dinamometria lombar, escapular e de preensao palmar. O dinamometro lombar utilizado e da marca Takei (Takei Scientific Instruments Co., Toquio, Japao), com escala de medida de 0 a 200 kgf. Para mensurar a forca lombar, o avaliado era orientado a posicionar-se em pe sobre a plataforma do dinamometro, com ambos os joelhos semifletidos a 30[degrees], segurando o puxador, sendo estimulado a puxa-lo fazendo esforco maximo, com as palavras de comando: "Segure firme, puxe, puxe, puxe". Ao final, fazia-se a leitura da forca alcancada.

O dinamometro escapular usado e da marca Crown (Sao Paulo, SP, Brasil), com escala de medida de 0 a 50 kgf. Para a mensuracao, o voluntario foi orientado a permanecer estatico, em pe, com os pes separados na altura aproximada da largura dos ombros, com leve flexao dos joelhos para acomodacao da postura para a atividade, realizando esforco maximo no sentido do afastamento dos pegadores do dinamometro na altura do peito. As palavras de comando eram as mesmas do dinamometro lombar.

Foi utilizado o dinamometro de preensao manual da marca Saehan (Coreia do Sul), com escala de medida entre 0 e 100 kgf. Para medir a forca de preensao, o voluntario era colocado sentado, com o antebraco apoiado e a mao livre, com leve desvio ulnar de 20[degrees], sendo estimulado a executar o esforco de preensao maximo apos ouvir as seguintes palavras de comando: "Segure firme. Pronto! Aperte, aperte, aperte'! Ao final do esforco, ocorria a leitura da forca alcancada pelo voluntario.

Todos os dinamometros contam com certificados de calibracao. Para os tres tipos de dinamometria aplicados, foi adotada a estrategia de executar tres mensuracoes em cada avaliacao, elegendo o maior valor como valor final do teste.

Para avaliar a incapacidade funcional da coluna lombar na performance de atividades de vida diaria causada pelo quadro algico, foi utilizado o Oswestry Low Back Pain Disability Questionnaire (ODQ2.0), um questionario de 10 itens que avalia a dor lombar em diversas atividades funcionais. Cada item pode receber valor de 0 a 5; quanto mais elevados forem os numeros, maior sera a deficiencia. O resultado final representa a soma de todos os itens e e expresso em porcentagem (30).

O questionario Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand (DASH) contem 30 questoes utilizadas para medir a funcionalidade e os sintomas fisicos. Dessas questoes, dois itens sao relacionados a funcao fisica, seis aos sintomas e tres avaliam as funcoes sociais. A pontuacao do questionario e calculada mediante a aplicacao de duas formulas, uma delas empregada para analisar as primeiras 30 perguntas e a outra separadamente para os modulos opcionais.

Os dados foram analisados com o auxilio do software IBM Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versao 22.0. As variaveis quantitativas foram expressas por meio de media, desvio padrao e erro padrao.

RESULTADOS

A media de idade dos 189 trabalhadores, todos homens, foi de 40,72 ([+ or -] 8,31) anos. Com a EVA, 62 (32,8%) referiram-se a dor e 127 (67,2%) negaram existir qualquer tipo de quadro algico. Quanto a classificacao da dor por meio da EVA, dos trabalhadores que mencionaram alguma algia, 13 (6,9%) apresentaram dor leve, 44 (23,3%) dor moderada e cinco (2,6%) dor intensa (Tabela 1).

Para avaliar os sintomas osteomusculares em segmentos corporais, foi utilizado o QNSO. O segmento mais citado pelos trabalhadores no tocante a dor foi a coluna lombar: 68 (36,0%) expuseram dor nos ultimos 12 meses, 38 (20,1%) nos ultimos sete dias e 27 (14,3%) precisaram evitar atividades por causa da dor. Em seguida, vieram os joelhos, sobre os quais 46 (24,3%) manifestaram dor nos ultimos 12 meses, 26 (13,8%) nos ultimos sete dias e 23 (12,2%) evitaram algum tipo de atividade. O terceiro segmento corporal a que os trabalhadores referiram os sintomas de dor foi nos membros superiores (ombros): 36 (19,4%) apresentaram dor nos ultimos 12 meses, 23 (12,2%) nos ultimos sete dias e cinco (2,6%) evitaram atividades (Tabela 2). Em relacao as mensuracoes da forca muscular, executadas com os dinamometros e em quatro segmentos, 82 (43,4%) exibiram fraqueza muscular na coluna lombar e 107 (56,6%) forca muscular normal. Quanto a forca muscular escapular, 56 (29,6%) demonstraram fraqueza muscular e 133 (70,4%) forca muscular normal. No que tange a forca muscular manual direita, 117 (61,9%) indicaram fraqueza muscular e 72 (38,1%) obtiveram forca muscular normal. E na forca muscular manual esquerda, 107 (56,6%) apresentaram fraqueza muscular e 82 (43,4%) alcancaram forca muscular normal (Tabela 3).

Quanto a qualidade de vida, avaliada pelo WHO QOL-Bref, na media geral, 115 (60,8%) trabalhadores responderam que sua qualidade de vida e regular, 73 (38,6) boa e um (0,5%) ruim. Nenhum dos funcionarios se referiu a qualidade de vida como muito boa. Entre os dominios, o meio ambiente foi o mais desfavoravel. Dos participantes da investigacao, 135 (72,4%) disseram que o meio ambiente e regular, 10 (5,3%) ruim e apenas 44 (23,3%) bom. O dominio que apareceu como o mais favoravel foi o de relacoes sociais: 137 (72,5%) responderam como bom, 27 (14,3%) regular e tres (1,6%) como ruim (Tabela 4).

A Tabela 5 trata dos questionarios ODQ (incapacidade da coluna lombar) e DASH. Com relacao ao primeiro, 188 (99,5%) responderam ter grau minimo de incapacidade funcional para realizacao de atividades de vida diaria e um (0,5%) incapacidade moderada. No DASH, que avalia a incapacidade de membros superiores, quanto maior e a pontuacao, ou seja, mais perto estiver de 100 pontos, pior e o grau de incapacidade dos funcionarios. Obteve-se media de 5,12 [+ or -] 0,53, o que significa que nenhum funcionario possui incapacidade em membros superiores.

DISCUSSAO

Com a analise dos dados, verificou-se que todos os trabalhadores da producao das industrias ceramicas que participaram do presente estudo contam com uma percepcao de qualidade de vida entre regular e boa, ficando o dominio relacoes sociais com a maior media e sendo a dimensao meio ambiente a mais negativa. A maioria dos escores ficou entre regular e ruim, representando 77,7% dos voluntarios.

A qualidade de vida implica criar, manter e melhorar o ambiente de trabalho, tanto no que se refere a boas condicoes fisicas de higiene e seguranca como a melhores condicoes psicologicas e sociais. Isso resulta em um ambiente de trabalho agradavel e amigavel, que melhora substancialmente a qualidade de vida das pessoas nas organizacoes (31).

Os trabalhadores das industrias ceramicas sao expostos a diversos riscos ocupacionais, parte deles inerente ao proprio ambiente fisico de trabalho e que, em funcao de sua natureza, concentracao e tempo de exposicao, pode ser prejudicial a saude e, consequentemente, a qualidade de vida (32).

Um estudo realizado com trabalhadores de ceramica no estado do Parana, ao avaliar a qualidade de vida, apontou os aspectos associados ao ambiente de trabalho como os mais negativos pelos trabalhadores (33). Outro estudo desenvolvido com trabalhadores de ceramica do sertao da Bahia, no qual foi utilizado, a exemplo deste estudo, o WHOQOL, encontrou resultados similares, com impacto negativo sobre a percepcao da qualidade de vida dos trabalhadores, envolvendo, da mesma forma, a dimensao ambiente (34).

Em relacao a sintomatologia, o segmento corporal com maior frequencia de registros foi a coluna lombar, com 36% dos trabalhadores registrando ocorrencia nos ultimos 12 meses. Chama a atencao tambem o fato de que 14% do total da amostra de voluntarios relata evitar algumas atividades e movimentos em funcao de lombalgia, assim como no historico mais recente da amostra de quadros agudos, referentes aos ultimos sete dias do momento das coletas da pesquisa, 20,1% dos participantes da pesquisa se referiram a lombalgia.

Num estudo no municipio de Pedreiras, no estado de Sao Paulo, com 235 trabalhadores da industria ceramica (35), chegou-se ao valor percentual de 38% de queixas dolorosas gerais nos ultimos 12 meses, valor muito proximo ao achado neste estudo (33%). Outra convergencia entre ambas as investigacoes foi a maior frequencia de queixas que mencionam a regiao lombar e os joelhos.

Sao apontados como causas dos transtornos musculoesqueleticos envolvendo os trabalhadores da industria ceramica: movimentos repetitivos, uso de ferramentas inadequadas, falta de controle sobre as decisoes das equipes, preocupacoes sobre a demanda de trabalho, insatisfacao no trabalho, problemas interpessoais, desejo de mudar de funcao em detrimento da dor, entre outros (35).

De fato, a dor lombar e uma sintomatologia que afeta principalmente trabalhadores em funcoes de carater mecanico e de fatores como sobrecarga no desenvolvimento de atividades laborais, permanencia por tempo prolongado em posicao ortostatica e repeticao de movimentos (36). Altas demandas fisicas decorrentes do trabalho e mas condicoes ergonomicas podem resultar em consideravel estresse e fadiga psicofisiologica, contribuindo para o desenvolvimento da lombalgia (36,37).

A Classificacao Internacional de Comprometimentos, Incapacidades e Desvantagens (ICIDH) da Organizacao Mundial de Saude (OMS) reconhece a lombalgia como um comprometimento que revela perda ou anormalidade da estrutura da coluna lombar de etiologia psicologica, fisiologica ou anatomica, ou, ainda, como uma deficiencia que traduz uma desvantagem que limita ou impede o desempenho pleno de atividades fisicas. Sob a perspectiva dessa classificacao, a lombalgia pode evidenciar sindromes de uso excessivo, compressivas ou posturais, associadas a desequilibrios musculares, fraqueza muscular, diminuicao na amplitude ou na coordenacao de movimentos, aumento de fadiga e instabilidade do tronco (38).

E importante salientar que no presente estudo, apesar do consideravel indice de lombalgia, a maioria dos trabalhadores teve minimo grau de incapacidade relacionada a coluna lombar para realizacao das atividades. Esses achados sao convergentes com uma logica relativamente recente de que a presenca de dor nao e um determinante direto de incapacidade. A determinacao da incapacidade e um fenomeno mais complexo do que a presenca de dor no segmento lombar da coluna (39-42).

Tracando um paralelo com outra categoria profissional, no estudo da relacao entre dor lombar e incapacidade com 40 mineiros de carvao em Treviso (SC), a funcionalidade avaliada por meio do ODQfoi boa de maneira geral. Da amostra, 97,5% demonstrou contar com incapacidade minima, havendo apenas um caso de incapacidade moderada, representando 2,5%, apesar de o percentual de 25% desses trabalhadores ter apresentado lombalgia cronica (39).

A diminuicao da forca e da resistencia muscular do tronco e um fator que contribui para o desencadeamento e a cronificacao das sindromes dolorosas lombares (43). Neste estudo, 43,4% dos trabalhadores avaliados apresentaram fraqueza muscular lombar. Algumas pesquisas sugerem que a fraqueza da musculatura lombar e varios outros fatores tanto fisicos quanto biopsicossociais indicam relacao com a lombalgia (44-46).

As dimensoes do posto de trabalho podem forcar o trabalhador a adotar posturas, a suportar certas cargas e a se comportar de modo a causar ou agravar afeccoes musculoesqueleticas, contribuindo para a geracao de fraqueza muscular secundaria (38). No presente estudo, a avaliacao dinamometrica de membros superiores mostrou que mais da metade dos trabalhadores tem fraqueza muscular em membros superiores. Outro fator importante e que os membros superiores figuraram em terceira posicao entre os segmentos que os trabalhadores citaram mais dor. A dor pode limitar o trabalhador na execucao de movimentos e, consequentemente, levar a perda de forca muscular, apesar de esses trabalhadores nao terem relatado incapacidade para desempenhar suas atividades com o segmento.

A boa saude e absolutamente critica para o trabalhador, sendo importante considerar todos os aspectos que podem impacta-la (47). Para a empresa, o seu coletivo de trabalhadores deveria ser visto como seu bem mais importante e patrimonio. Para o trabalhador, sua principal riqueza e sua capacidade funcional. A capacidade funcional para o trabalho e os fatores associados merecem maior atencao no Brasil, conforme apontou recente estudo de revisao sistematica sobre o assunto (48).

Este estudo apresenta dados como forca e funcionalidade de trabalhadores da producao de industrias ceramicas que podem contribuir para comparativos de outros levantamentos acerca da saude funcional, bem como dados sobre a qualidade de vida dessas populacoes trabalhadoras. Como limitacao, aponta-se o espectro de trabalhadores de duas grandes industrias ceramicas, que, embora tenha alcancado um numero representativo, nao envolve todas as unidades do ramo da regiao sul do estado de Santa Catarina.

CONCLUSAO

A existencia de sintomatologia dolorosa foi significativa quando comparada a outras categorias profissionais que envolvem producao na industria. A incapacidade nao se mostrou presente entre esses trabalhadores, apesar da fraqueza muscular principalmente dos membros superiores e da percepcao sobre a qualidade de vida, que prevaleceu como regular. Tais aspectos demonstram que ha comprometimento parcial da saude de parte desses trabalhadores, percebido como impactante nos seus contextos de vida e trabalho. Esses dados servem como uma sinalizacao de que medidas de promocao e prevencao a saude dessa populacao trabalhadora devem ser implementadas e monitoradas de forma continua.

DOI: 10.5327/Z1679443520180113

Recebido: 07/10/2017

Aceito: 19/02/2018

Fonte de financiamento: nenhuma

AGRADECIMENTOS

Os autores deste manuscrito agradecem ao CEREST de Criciuma, ao Nucleo de Promocao e Atencao Clinica a Saude do Trabalhador (NUPAC-ST), a UNESC e ao Ministerio Publico do Trabalho (MPT) de Criciuma e de Santa Catarina.

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Endereco para correspondencia: Willians Cassiano Longen--Rua Tenente Marcos Aurelio Filippi, 300--CEP: 88815-505--Criciuma (SC), Brasil E-mail: wcl@unesc.net

Willians Cassiano Longen [1], Liana Pereira Barcelos [1], Khaterin Kalane Karkle [1], Felipe da Silva Schutz [1], Samira da Silva Valvassori [1], Eduardo Ghisi Victor [1], Paula Rohr [1], Kristian Madeira [1]

[1] Nucleo de Promocao e Atencao Clinica a Saude do Trabalhador (NUPAC) da UNESC--Criciuma (SC), Brasil.
Tabela 1. Caracterizacao dos trabalhadores de industria ceramica
e classificacao da dor por meio da escala visual analogica
(EVA), Criciuma, 2015 (n=189).

Variavel                  Media [+ or -] Desvio
                              Padrao, n (%)

Idade (anos)               40,72 [+ or -] 8,31
Presenca de dor (n=189)
  Sim                          62 (32,80)
  Nao                          127 (67,20)
EVA (n=62)
  Leve                          13 (6,90)
  Moderada                     44 (23,30)
  Intensa                       5 (2,60)

Idade dos trabalhadores, dor e sua intensidade. Os resultados estao
representados como media quanto a idade e desvio padrao da media.
Os outros parametros estao em numero de trabalhadores e em
porcentagem.

Tabela 2. Distribuicao dos sintomas osteomusculares, conforme
questionario nordico, Criciuma, 2015 (n=189).

Variavel                            n (%)

                     Dor nos     Dor nos    Evitou atividades
                     ultimos     ultimos       nos ultimos
                    12 meses    sete dias   12 meses pela dor

Pescoco             31 (16,4)    8 (9,5)         5 (2,6)

Ombro               36 (19,4)   23 (12,2)       13 (6,9)
  Direito           14 (38,9)   11 (47,8)        7 (53,8)
  Esquerdo           8 (22,2)    5 (21,7)        1 (7,7)
  Ambos             14 (38,9)    7 (30,4)        5 (38,5)
Cotovelo             9 (4,8)     7 (3,7)         4 (2,1)
  Direito            4 (44,4)    3 (42,9)        2 (50,0)
  Esquerdo           1 (11,1)    1 (14,3)        0 (0,0)
  Ambos              4 (44,4)    3 (42,9)        2 (50,0)
Antebraco           10 (5,3)     5 (2,6)         5 (2,6)
  Direito            1 (10,0)    2 (40,0)        3 (60,0)
  Esquerdo           1 (10,0)    1 (20,0)        0 (0,0)
  Ambos              8 (80,0)    2 (40,0)        2 (40,0)
Punho, mao, dedos   32 (16,9)   24 (12,7)        9 (4,8)
  Direito           11 (34,4)    6 (25,0)        2 (22,2)
  Esquerdo           8 (25,0)    9 (37,5)        2 (22,2)
  Ambos             13 (40,6)    9 (37,5)        5 (55,6)
Dorsal              29 (15,3)   16 (8,5)        11 (5,8)
Lombar              68 (36,0)   38 (20,1)       27 (14,3)
Quadril e coxa      15 (7,9)    10 (5,3)        11 (5,8)
Joelhos             46 (24,3)   26 (13,8)       23 (12,2)
Tornozelo e pes     30 (15,0)   28 (14,8)       17 (9,0)

Sintomas osteomusculares nos trabalhadores de ceramica. Os
resultados estao representados com numero de trabalhadores e em
porcentagem. Coluna 2: se o trabalhador apresentou dor nos ultimos
12 meses; coluna 3: se o trabalhador apresentou dor nos ultimos
sete dias; coluna 4: se o trabalhador precisou evitar atividades
de vida diaria por causa da dor nos ultimos 12 meses.

Tabela 3. Distribuicao dos valores de forcas lombar, escapular
e manual (kgf), Criciuma, 2015 (n=189).

Variavel                   Media [+ or -] Desvio
                               Padrao, n (%)

Forca muscular lombar      139,02 [+ or -] 35,92
Normal                          107 (56,60)
Fraqueza                         82 (43,40)
Forca muscular escapular    33,37 [+ or -] 7,75
Normal                          133 (70,40)
Fraqueza                         56 (29,60)
Forca muscular manual       48,89 [+ or -] 9,58
  direita
Normal                           72 (38,10)
Fraqueza                        117 (61,90)
Forca muscular manual       46,67 [+ or -] 9,33
  esquerda
Normal                           82 (43,40)
Fraqueza                        107 (56,60)

Forca muscular nos trabalhadores de ceramica. Os resultados estao
representados como media e desvio padrao da media ou o numero de
trabalhadores em porcentagem. E considerada normal a forca igual
ou superior aos valores de referencia pa ra sexo e idade. E
considerada fraqueza a forca inferior aos valores de referencia
para sexo e idade. Valores de referencia da dinamometria lombar de
acordo com Elchinger et al. (49) considerando 114 kgf e acima como
forca normal e abaixo como fraqueza. Valores de referencia da
dinamometria escapular de acordo com Trotta (50) em 30 kgf. Valores
de referencia para dinamometria de preensao manual mao direita
41,39 kgf e mao esquerda 39,02 kgf para o dinamometro Saehan, de
acordo com o estudo de Reis e Arantes (51).

Tabela 4. Distribuicao dos achados envolvendo a qualidade de vida
(WHOQOL-Bref) dos trabalhadores de ceramica, Criciuma, 2015
(n=189).

Variavel      Fisico      Psicologico    Relacoes
                                          Sociais

Ruim         2 (1,1%)      1 (0,5%)      3 (1,6%)
Regular     67 (35,4%)    80 (42,3%)    27 (14,3%)
Boa         115 (60,8%)   106 (56,1%)   137 (72,5%)
Muito boa    5 (2,6%)      2 (1,1%)     22 (11,6%)

Variavel       Meio          Geral
             Ambiente

Ruim         10 (5,3%)     1 (0,5%)
Regular     135 (72,4%)   115 (60,8%)
Boa         44 (23,3%)    73 (38,6%)
Muito boa    0 (0,0%)      0 (0,0%)

Tabela 5. Distribuicao dos resultados do questionario Oswestry
Low Back Pain Disability Questionnaire (OQD--incapacidade
lombar) e Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand (DASH)
(incapacidade dos membros superiores) nos trabalhadores
de ceramica, Criciuma, 2015 (n=189).

Variavel (ODQ)            n (%)

Minima                 188 (99,50)
Moderada                1 (0,50)
Severa                  0 (0,00)

Variavel (DASH)   Media [+ or -] Desvio
                      Padrao, n (%)

Incapacidade do    5,12 [+ or -] 0,53
  membro
  superior
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:Longen, Willians Cassiano; Barcelos, Liana Pereira; Karkle, Khaterin Kalane; Schutz, Felipe da Silva
Publication:Revista Brasileira de Medicina do Trabalho
Date:Jan 1, 2018
Words:5881
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