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Assertividade e autocontrole: interpretacao analitico-comportamental.

Assertiveness and Self-Control: A Behavior-Analytic Interpretation

A questao da expressao adequada de sentimentos, contemporaneamente abordada na terapia comportamental com o conceito de assertividade, vem sendo estudada pela Psicologia ha quase cinquenta anos. Buscando promover comportamentos assertivos, muitas definicoes ja foram propostas, diversos inventarios foram criados e treinamentos foram desenvolvidos para individuos com dificuldades para expressar seus sentimentos em situacoes interpessoais (e.g. Alberti & Emmons, 1970/1978; Lazarus, 1971/1980; Wolpe, 1973/1980). Dentre as diversas definicoes propostas para o comportamento assertivo, interessa-nos especialmente a de Rich e Schroeder (1976), de acordo com a qual a assertividade consiste de repertorios autodescritivos eficazes em contextos sociais especificos. Como se vera adiante, tal definicao oferece uma visao mais funcional no sentido de indicar variaveis controladoras do comportamento assertivo, portanto mais coerente com a Analise do Comportamento, abordagem na qual se apoia o presente trabalho.

O comportamento assertivo pode envolver a producao de consequencias reforcadoras diversas tanto para o individuo que age assertivamente, quanto para o grupo com o qual interage. O comportamento assertivo pode tambem produzir consequencias aversivas, sendo que ambas--as reforcadoras e as aversivas--podem constituir um produto imediato ou atrasado desse comportamento.

O presente artigo analisa o tema da assertividade, ou os padroes que se tornaram socialmente eficazes de expressao de sentimentos na cultura ocidental moderna por meio do exame de processos comportamentais descritos como "autocontrole". Assim, espera-se contribuir para uma especificacao das relacoes comportamentais que possivelmente definem assertividade. O aspecto central da analise a ser desenvolvida consiste das possiveis relacoes entre assertividade e autocontrole, uma relacao pouco referida na literatura sobre assertividade. Ao explorar essas relacoes, o que se busca e promover a articulacao de duas areas de pesquisa bastante relevantes na psicologia e, com isso, aumentar o alcance de uma apreciacao dos fenomenos relativos a assertividade, por exemplo, no contexto clinico onde o tema e recorrente.

Assertividade

A maior concentracao de publicacoes sobre comportamento assertivo pode ser situada nas decadas de 1970 e 80, periodo no qual se encontram muitos trabalhos sobre definicoes do comportamento assertivo (e.g., Alberti & Emmons, 1970/1978; Lazarus, 1971/1980; Wolpe, 1973/1980), o treinamento assertivo e os provaveis determinantes de sua eficacia (e.g., Eisler, Hersen & Miller, 1973; Kazdin, 1974; McFall & Lillesand, 1971; Pitcher & Meickle, 1980; Zollo, Heimberg & Becker, 1985).

As definicoes propostas nessa epoca tornaram-se classicas e orientam ainda hoje tanto pesquisas quanto a pratica da Terapia Comportamental. No entanto, dentre tantas publicacoes e dificil encontrar trabalhos que examinem criticamente o proprio conceito de assertividade, principalmente se o pesquisador busca trabalhos realizados sob o enfoque da Analise do Comportamento. Tambem nao sao tao numerosos os trabalhos que examinam a relacao entre a demanda por comportamentos assertivos e as contingencias socioculturais as quais os individuos estao expostos.

Segundo as definicoes classicas, o comportamento assertivo seria a expressao de sentimentos de maneira socialmente adequada, preservando tanto os direitos/interesses do individuo que responde assertivamente quanto os de seu interlocutor. Sob o ponto de vista da Analise do Comportamento, as definicoes classicas sao insatisfatorias para uma compreensao do comportamento assertivo por serem vagas, pouco operacionais (cf. Heimberg, Montgomery, Madsen Jr. & Heimberg, 1977; Martinez, 1997; Rich & Schroeder, 1976) e muito baseadas na topografia da resposta. Contudo, Rich e Schroeder definem assertividade de acordo com criterios funcionais, propondo que se trata de uma "habilidade para procurar, manter ou aumentar o reforcamento em uma situacao interpessoal por meio da expressao de sentimentos ou desejos quando tal expressao envolve riscos de perda de reforcamento ou ate de punicao" (p. 1082). Ou seja, diante de uma situacao interpessoal na qual respostas passivas ou agressivas produziriam punicao ou perda de reforcamento, uma resposta assertiva e aquela que garante a producao, manutencao ou aumento de reforcadores. Com essa definicao, Rich e Schroeder identificam o ambiente no qual o comportamento ocorre (social), o tipo de resposta emitida (verbalizacao de sentimentos), as consequencias provaveis (punicao ou perda de reforcamento) e as consequencias produzidas pelo comportamento, necessarias para sua caracterizacao como assertivo (producao, manutencao ou aumento de reforco positivo). Uma definicao que identifique as variaveis controladoras do comportamento assertivo e relevante na medida em que traz para o ambiente da Analise do Comportamento a investigacao acerca desse comportamento, propiciando aos terapeutas analitico-comportamentais uma pratica mais coerente. Pesquisas experimentais tem possibilitado a identificacao de dimensoes do comportamento assertivo e de variacoes destas em diferentes contextos de interacao social (e.g., Alberti, 1977; Arrindell, Sanderman, Van Der Molen, Van Der Ende & Mersch, 1988; Lorr & More, 1980), contribuindo para uma compreensao mais completa acerca do comportamento assertivo.

Especificacoes do comportamento assertivo

O comportamento assertivo e frequentemente contrastado com os comportamentos agressivo e passivo. Na literatura da terapia comportamental e muito comum encontrar definicoes desses comportamentos baseadas em suas caracteristicas topograficas. Assim, comportamentos assertivos tendem a se caracterizar por maior contato visual entre o individuo assertivo e seu interlocutor, maior uso de afirmacoes dotadas de afeto, tom de voz audivel, verbalizacoes de maior duracao, uso adequado de caracteristicas paralinguisticas da fala (como fluencia, variabilidade de expressoes, vivacidade) (cf. revisao de literatura realizada por Rich & Schroeder, 1976). A postura corporal, os gestos utilizados, a distancia do interlocutor e as expressoes faciais do individuo tambem sao diferentes entre o comportamento assertivo e os comportamentos agressivos e passivos. Segundo Hull e Schroeder (1979), sao caracteristicas tipicas do comportamento passivo: nao olhar o interlocutor diretamente nos olhos; usar um tom de voz suave, hesitante, com uma pequena entonacao que transmite vacilacao; falar de maneira pouco clara e se posicionar curvadamente, sem encarar o interlocutor. Ja no comportamento agressivo, de acordo com os autores, o individuo 'tem um olhar fulminante'; usa um tom de voz que transmite raiva e ressentimento; fala muito alto e sem hesitacao, encara o interlocutor e fala imediatamente, quase interrompendo o interlocutor (cf. Hull & Schroeder).

Apesar de caracterizacoes topograficas ajudarem na identificacao daqueles tipos de comportamentos, suas dimensoes funcionais sao reconhecidamente relevantes. De um ponto de vista funcional, um aspecto importante a ser considerado e que respostas assertivas/agressivas/passivas produzem consequencias variadas. Por exemplo, quando um individuo informa que esta cansado demais para aceitar um convite para um passeio, essa resposta pode produzir tanto a evitacao de um programa que seria aversivo naquele contexto, como criticas de seus amigos e ameacas de nao mais convida-lo para nada. Alguem que, no mesmo contexto, aceita o convite, pode produzir a aprovacao dos amigos, mas, tambem, a condicao aversiva de passear quando preferiria estar descansando.

Uma tentativa de classificar os tipos de consequencias produzidas por comportamentos assertivos/agressivos/passivos consiste em diferencia-las quanto a questao da aprovacao social. Assim, em termos funcionais, pelo menos dois conjuntos de consequencias da assertividade/agressividade/passividade sao referidos na literatura: (a) as consequencias de aprovacao/desaprovacao; e (b) outras consequencias (adiante referidas como consequencias reforcadoras ou aversivas diversas). As consequencias diversas "poderao ser entendidas como satisfacao de outras necessidades, consequencias mediadas socialmente ou nao, mas em sentido diverso aquele especifico de aprovacao/desaprovacao" (Marchezini-Cunha, 2004, p. 3). Os dois conjuntos de consequencias se combinam na manutencao de cada comportamento (assertivo, agressivo ou passivo). As combinacoes entre as consequencias serao discutidas adiante.

Antes de avancar na analise das consequencias da assertividade/agressividade/passividade para o individuo, sera necessario considerar outra diferenciacao importante. Por serem comportamentos que ocorrem em situacoes interpessoais, os comportamentos assertivo, agressivo e passivo envolvem necessariamente um interlocutor, sendo assim, produzem consequencias tambem para o ambiente social com o qual o individuo interage. A referencia anterior a aprovacao/ desaprovacao social do comportamento pode, desse modo, ser interpretada tambem como uma indicacao do impacto do comportamento do individuo sobre o grupo.

A producao de aprovacao/desaprovacao social pelos comportamentos assertivo, agressivo e passivo foi investigada em diversos estudos (e.g. Epstein, 1980; Hull & Schroeder, 1979; Kelly, Kern, Kirkley, Paterson & Keane, 1980; Schroeder, Rakos & Moe, 1983) por meio da analise de avaliacoes feitas por pessoas que assistiram a ou vivenciaram situacoes que envolviam individuos emitindo essas respostas. Nesses estudos, os comportamentos assertivo, agressivo e passivo poderiam ser avaliados como agradaveis/desagradaveis, simpaticos/antipaticos, passiveis ou nao de seguimento, justos/injustos, amigaveis/nao amigaveis, entre outros. Comportamentos passivos receberam avaliacoes mais positivas (tais como agradavel, amigavel, simpatico) que os demais comportamentos (cf. Epstein, 1980; Hull & Schroeder, 1979). Comportamentos assertivos tambem receberam avaliacoes positivas (justo, passivel de seguimento), embora tenham tambem recebido avaliacoes negativas (como desagradavel e antipatico) (cf. Hull & Schroeder, 1979; Kelly & cols., 1980; Schroeder & cols., 1983). Comportamentos agressivos receberam avaliacoes predominantemente negativas (cf. Epstein, 1980; Hull & Schroeder, 1979).

Transpondo os resultados dos estudos de impacto social de comportamentos assertivo/passivo/agressivo para a vida cotidiana, pode-se supor que o comportamento passivo produz aprovacao social em maior escala que os demais comportamentos, muito embora nao seja eficiente na producao de consequencias reforcadoras diversas. Ja o comportamento agressivo produz mais consistentemente desaprovacao social, apesar de produzir tambem consequencias reforcadoras diversas de maior valor (ou mais prontamente) do que aquelas produzidas pelos comportamentos assertivo e passivo. O comportamento assertivo, por sua vez, e eficiente tanto na producao de consequencias reforcadoras diversas (embora menos que o agressivo) quanto na producao de aprovacao social (ou evitacao da desaprovacao social); em certos contextos, porem (por exemplo, quando o individuo deixou de ser passivo e tornou-se assertivo), esse comportamento produz tambem a desaprovacao social.

O que as avaliacoes sociais (positivas ou negativas) de cada um dos comportamentos analisados indicam e o tipo de consequencias que os comportamentos do individuo produzem para o grupo. Comportamentos agressivos consistentemente produzem estimulos aversivos ou perda de reforcadores para o grupo, recebendo assim avaliacoes negativas. Por exemplo, que avaliacao o grupo faria de um individuo que, ao receber um pedido de emprestimo, diz (gritando, gesticulando muito) algo como "Qual e, seu idiota? Esta me achando com cara de banco? Va procurar outro trouxa!"? Esse comportamento produz para o individuo consequencias reforcadoras diversas (ou evita a retirada de reforcadores), sendo, portanto, eficaz desse ponto de vista. No entanto, a avaliacao que o grupo faz de seu comportamento e certamente negativa e as pessoas passam a evitar o contato com esse individuo, assim nao se expoem as consequencias aversivas produzidas por seu comportamento.

Ja comportamentos passivos produzem consequencias reforcadoras para o grupo, ou no minimo nao produzem consequencias aversivas e, assim, esses comportamentos tendem a ser avaliados positivamente pelo grupo. Em situacao semelhante a descrita no exemplo anterior, um individuo que tambem passa por dificuldades financeiras recebe um pedido de emprestimo, respondendo, em voz baixa, olhando para o chao, algo como "E ... humm ... esta bem, eu te empresto ...". Apesar da consequencia aversiva produzida por esse comportamento--o individuo ficara sem dinheiro para pagar as proprias contas--ele se mantem, muito provavelmente controlado pelas consequencias de aprovacao social. O grupo avalia positivamente um comportamento como o do individuo do exemplo--"Ele sempre esta disponivel, mesmo quando passa por dificuldades! E um otimo amigo ...". Por seu lado, o grupo mantem contato com o individuo passivo, uma vez que esse contato e reforcado positivamente.

Comportamentos assertivos podem produzir tanto consequencias aversivas para o grupo, como reforcadoras. Uma maneira de o individuo prever as consequencias de seu comportamento assertivo (e tentar, a partir disso, emitir uma resposta mais provavel de ser reforcada) e discriminar e avaliar o contexto no qual esta inserido (cf. Falcone, 2001; Lewis & Gallois, 1984; McFall & Lillesand, 1971). Para isso, o autoconhecimento e a empatia sao importantes, na medida em que a discriminacao dos proprios sentimentos, dos sentimentos do interlocutor e das variaveis das quais esses sentimentos sao funcao facilita a emissao de respostas que respeitem cada uma das partes, maximizando a producao de consequencias reforcadoras (diversas e de aprovacao social) para ambas e protegendo assim a relacao interpessoal.

E possivel afirmar, portanto, que comportamentos agressivos sao controlados predominantemente por consequencias reforcadoras diversas, de maior valor reforcador (e assim pode-se apontar tanto a obtencao ou manutencao de bens materiais como a esquiva de contatos sociais aversivos), enquanto comportamentos passivos sao predominantemente controlados por consequencias de aprovacao social, de maior valor reforcador (muito embora consequencias de outra natureza tambem possam ser produzidas, mas com um menor valor reforcador). Como observam Hull e Schroeder (1979), a avaliacao positiva dos comportamentos passivos "sugere que pessoas passivas que desejam aprender a se comportar assertivamente sao provavelmente mais motivadas por suas proprias insatisfacoes com seu comportamento [provavelmente ocasionadas pela baixa producao de reforcadores diversos] do que por avaliacoes adversas de outras pessoas" (p. 27).

Comportamentos assertivos poderiam, talvez, ser considerados como em desvantagem, com menor probabilidade de serem selecionados, porque podem resultar em consequencias reforcadoras diversas de menor magnitude, ou mais atrasadas (comparativamente com comportamento agressivos), ou em menor probabilidade de aprovacao social (comparativamente com o comportamento passivo). No entanto, e possivel que o comportamento assertivo seja mantido tambem pela esquiva de consequencias aversivas de maior valor (tanto consequencias de desaprovacao, que seriam produzidas por respostas agressivas, quanto consequencias aversivas diversas, que seriam produzidas por respostas passivas).

Pode-se ainda supor que individuos assertivos respondam dessa maneira sob controle de contingencias sociais adicionais aquelas referidas ate aqui (de aprovacao/desaprovacao). Nesse sentido, cabe uma analise de aspectos culturais na determinacao de comportamentos assertivos.

A funcao de aspectos culturais na demanda por comportamentos assertivos

A producao de consequencias de aprovacao/desaprovacao social por comportamentos assertivos, agressivos e passivos envolve aspectos mais complexos do que a questao de agradar ou nao ao interlocutor, por exemplo. Um comportamento sera reforcado ou nao socialmente dependendo de seus efeitos para a sobrevivencia da cultura, se sao positivos ou negativos. Os parametros para a avaliacao desses efeitos como positivos ou negativos sao encontrados nas normas e valores de cada cultura, os quais podem variar. No que diz respeito a assertividade, nem todas as culturas compartilham com as culturas europeia e norte-americana a crenca na necessidade de defender os proprios direitos e de proteger os proprios sentimentos. Alguns comportamentos que nessas culturas sao considerados assertivos, em outras culturas sao vistos como agressivos, desrespeitosos ou ate desnecessarios; alem disso, comportamentos que as culturas europeia e norteamericana caracterizam como desprovidos de habilidades sociais podem ser adequados em outras culturas (cf. Chan, 1993; Furnham, 1979).

Nas sociedades ocidentais modernas, fatores como a grande valorizacao da individualidade, da privacidade, da capacidade pessoal de alcancar bens materiais e bons relacionamentos interpessoais independentemente da classe social de origem envolvem--e ate requerem--a expressao de sentimentos de maneira adequada. Comportamentos assertivos teriam, entao, a funcao de preservar as nocoes de individualidade e privacidade na medida em que ressaltam a diferenciacao do individuo dos demais. Ao defender seus direitos e expressar seus sentimentos de maneira contida, o individuo age como se estivesse demarcando seu espaco e estabelecendo ate onde o grupo pode controlar seu comportamento. A partir desse limite, para o individuo, a fonte de controle estaria em contingencias nao sociais--erroneamente o individuo ocidental acredita que o que ocorre em seu ambiente privado nao tem relacao com contingencias sociais, e sim com construtos como a mente, o self ou a personalidade (para uma discussao mais ampla acerca das nocoes de privacidade e interdependencia na sociedade ocidental moderna, ver Tourinho, 2009).

O controle social do comportamento assertivo fica ainda mais claro quando se observa que respostas de expressao de sentimentos so sao reforcadas socialmente se produzirem pouca ou nenhuma estimulacao aversiva para o grupo. Ao apelar para a questao do respeito aos direitos interpessoais, o grupo promove comportamentos assertivos e assim evita a estimulacao aversiva produzida por comportamentos agressivos. Heimberg e cols. (1977) salientam que:
   claramente, o conceito de direitos interpessoais coloca o
   comportamento assertivo dentro de um arcabouco orientado por
   valores moralistas. Comportamento assertivo e visto como 'bom
   'porque os direitos de cada interessado sao protegidos.
   Comportamentos passivos e agressivos sao vistos como 'maus' porque
   os direitos de uma das partes envolvidas sao ignorados ou violados.
   (p. 954)


Considerando os efeitos de respostas passivas e agressivas para o grupo, e aparentemente muito mais interessante para o grupo suprimir ou evitar comportamentos agressivos, pela magnitude ou extensao das consequencias desses comportamentos. Quando um individuo se comporta passivamente, deixa de produzir consequencias reforcadoras diversas para si, no entanto produz reforcadores diversos para o grupo. As consequencias aversivas dos comportamentos passivos geram para o individuo sentimentos de fracasso, baixa autoestima, ansiedade, formulacao de autorregras depreciativas etc (cf. Schwartz & Gottman, 1976; Zollo & cols., 1985). O que muitas vezes nao se leva em conta e que comportamentos passivos produzem, sim, consequencias aversivas para o grupo, especialmente no longo prazo. Membros passivos nao ajudam o grupo a enfrentar seus problemas e produzir solucoes. Por exemplo, quando nao consegue dizer "nao" as agressoes de outro membro do grupo, ou ate de uma agencia de controle, o individuo passivo esta permitindo que comportamentos agressivos continuem sendo emitidos, e que contingencias coercitivas continuem controlando nao so o seu comportamento, mas o comportamento do grupo. A emissao de respostas assertivas seria, entao, uma maneira de o grupo nao so evitar as consequencias aversivas imediatas do comportamento agressivo, como, tambem, promover o bem estar do individuo e do grupo em longo prazo.

Ate este ponto da analise, foram consideradas algumas variaveis relevantes para a emissao do comportamento assertivo: a producao de consequencias reforcadoras diversas de magnitude media, quando comparado ao comportamento agressivo; a producao de aprovacao social, tambem de magnitude media, quando comparado ao comportamento passivo; a producao de consequencias reforcadoras para o grupo, preservando as nocoes de individualidade e privacidade presentes na sociedade ocidental moderna.

A questao da producao de consequencias para o individuo versus para o grupo aproxima a nocao de assertividade da nocao de autocontrole. Alem dessa questao, tambem a da imediaticidade versus atraso do reforco (mencionada brevemente nesta secao) constitui um aspecto comum aos dois temas. Nas secoes seguintes, discutem-se a abordagem analitico-comportamental para o autocontrole e a possibilidade de interpretar assertividade/agressividade/passividade como relacoes comportamentais pertinentes ao tema do autocontrole.

Autocontrole

A interpretacao analitico-comportamental para o autocontrole focaliza basicamente circunstancias em que ha dois tipos de conflitos de consequencias produzidas pelo responder do individuo: consequencias imediatas versus consequencias atrasadas e consequencias para o individuo versus consequencias para o grupo (cf. Hanna & Todorov, 2002; Nico, 2001; Rachlin, 1991; Skinner, 1953/2000, 1968/2003). Os paragrafos seguintes explicam essa abordagem.

Nico (2001) sistematiza as consideracoes que Skinner fez, ao longo de sua obra, a respeito das contingencias que produzem o comportamento de autocontrole. Segundo Nico, "para Skinner, o conflito entre as consequencias do comportamento esta na raiz de toda e qualquer forma de autocontrole" (p. 64).

As relacoes de autocontrole podem ser didaticamente categorizadas da seguinte maneira: (1) situacoes nas quais o autocontrole e originado somente do conflito entre as consequencias diretas do comportamento do individuo e (2) situacoes nas quais o conflito entre as consequencias do comportamento e acentuado por sancoes eticas impostas pelo grupo. As situacoes da categoria (2) podem ser ainda subdivididas em: (a) conjunto de condicoes sob as quais o grupo impoe sancoes eticas como forma de facilitar o autocontrole e assim "proteger" o individuo das consequencias aversivas de seu comportamento impulsivo e favorecer um comportamento vantajoso para o individuo (neste caso, as consequencias afetam diretamente apenas o proprio individuo; o grupo intervem apenas para proteger o individuo); e (b) conjunto de condicoes sob as quais as sancoes eticas visam a promocao do autocontrole, evitando assim consequencias que seriam reforcadoras para o individuo, mas aversivas para o grupo (situacao em que ha o conflito entre consequencias para o individuo e consequencias para o grupo). E este ultimo conjunto de condicoes que nos interessa particularmente no presente estudo, uma vez que aborda diretamente a questao da producao de reforcadores para o individuo e para o grupo, questao envolvida no conceito de assertividade. Tal conjunto de condicoes constitui autocontrole como autogerenciamento etico (cf. Skinner, 1968/2003).

No exemplo que nos interessa, as sancoes eticas sao estabelecidas nao so com o objetivo de "proteger" o individuo das consequencias aversivas de seu proprio comportamento, mas tambem de proteger os interesses do proprio grupo, que e de algum modo estimulado aversivamente pelo comportamento impulsivo do individuo. Sancoes eticas podem ser compreendidas como estimulos aversivos dispostos pelo grupo, contingentes a uma resposta impulsiva, com a funcao de reduzir a frequencia dessa resposta. Podem tambem ser interpretadas como regras, alterando a funcao de certos estimulos, colocando assim o comportamento do individuo sob controle de estimulos que nao o controlariam sem a regra.

Assim, o conjunto de condicoes correspondente a categoria 2b "e composto por condicoes nas quais o mesmo comportamento que constitui 'vantagem para o individuo' implica 'desvantagem para o grupo'" (Nico, 2001, p. 74). Nessas condicoes, o comportamento vantajoso para o individuo pode ser consequenciado por reforcadores primarios imediatos como comida, sexo, autoprotecao (por meio de comportamentos agressivos, por exemplo), que, se no passado eram essenciais para o homem, hoje em dia implicam consequencias aversivas para o grupo, como obesidade, superpopulacao e contatos sociais agressivos. Muitas dessas consequencias aversivas para o grupo sao produzidas pelo comportamento de mais de um individuo e no longo prazo, as vezes com um atraso tao grande que os proprios individuos que as produzem nao chegam a entrar em contato com elas, o que diminui ainda mais a probabilidade de emissao de respostas autocontroladas. Segundo Nico, "neste segundo caso e ainda menos provavel que o individuo se autocontrole, sendo o planejamento de consequencias especiais, na forma de sancoes eticas, o unico modo possivel de estabelecer tal comportamento" (p. 77).

As sancoes eticas exercem entao a funcao de trazer, para o presente, estimulacoes aversivas (contingentes a impulsividade) que aumentem a probabilidade de autocontrole. Diante disso, Nico (2001) destaca que o comportamento de autocontrole "pode ser definido como um comportamento de esquiva socialmente instalado e que aparece sob condicoes muito particulares: as de conflito entre consequencias" (p. 85). Mais especificamente, o autogerenciamento etico diz respeito ao conflito entre consequencias para o individuo e para o grupo. Situacoes regulamentadas por leis sao exemplos claros de autogerenciamento etico. Nessas situacoes, o individuo comporta-se de maneira autocontrolada sob controle das consequencias aversivas impostas ou descritas pelo grupo, embora imediatamente as consequencias produzidas pelo comportamento impulsivo sejam mais vantajosas.

Para Rachlin (1991), o conflito entre consequencias tambem e algo fundamental para a emissao de comportamento de autocontrole. A questao temporal envolvida nesse conflito e enfatizada pelo autor. De acordo com Rachlin, autocontrole e o ato de emitir uma dada resposta sob controle de consequencias ambientais temporalmente atrasadas quando esta concorre com outra resposta sob controle de consequencias temporalmente restritas ou imediatas. Aliada a questao temporal esta a magnitude da consequencia: a resposta controlada seria aquela que produz consequencias de maior magnitude e no longo prazo. Ja a resposta impulsiva produz consequencias de menor magnitude e imediatas

Rachlin (1991) lanca mao do conceito de "desconto" a fim de calcular o valor reforcador de uma consequencia e assim prever o grau de controle que ela exercera sobre o comportamento. Segundo o autor, o valor reforcador de uma consequencia e dado pela relacao entre magnitude e atraso, sendo diretamente proporcional a magnitude e inversamente proporcional ao atraso. Assim, o individuo compararia o valor de uma consequencia atrasada, descontado o custo da espera, com o valor de uma consequencia imediata. Se, ainda assim, o valor reforcador da consequencia atrasada for superior, a resposta emitida sera a autocontrolada; por outro lado, se seu valor for inferior, nao compensando o custo da resposta de esperar, a resposta emitida sera a impulsiva.

Numa analise sobre o autocontrole como um comportamento vantajoso para o grupo, Rachlin (1991) afirma que o conflito entre consequencias imediatas e atrasadas que afetam o mesmo individuo e analogo ao conflito entre consequencias para o individuo e para o grupo. Segundo a analogia de Rachlin, em situacoes envolvendo o individuo e o grupo, a resposta impulsiva e aquela que produz consequencias imediatas, de menor valor reforcador para o proprio individuo, enquanto a resposta de autocontrole e aquela que produz consequencias no longo prazo, de maior valor reforcador para o grupo como um todo (incluindo o proprio individuo). Rachlin cita o exemplo de um individuo que joga lixo na rua, livrando-se de uma estimulacao aversiva imediata, tendo, portanto, seu comportamento impulsivo reforcado. Em contrapartida, comportamentos de autocontrole nao so de um unico individuo, mas de muitos deles (jogar o lixo no local apropriado), produzem reforcadores no longo prazo para todo o grupo, melhorando, por exemplo, os indices de saude publica. Para facilitar o autocontrole dos individuos e, consequentemente, garantir reforcadores para si, o grupo estabelece regras que tornem mais vivida a relacao de contingencia entre a resposta controlada e as consequencias no longo prazo (podendo ressaltar as consequencias reforcadoras atrasadas para o grupo--e para o individuo), alem de dispor consequencias aversivas imediatas contingentes a respostas impulsivas.

As consequencias aversivas para o comportamento impulsivo podem tambem ser descritas por regras estabelecidas pelo grupo. "Calado, ou eu atiro", "se nao parar o carro sera multado" e ate "estude se nao quiser ser um fracassado" sao exemplos dessas regras (ou ameacas). Impor e/ou descrever sancoes eticas pode ser muito eficaz na promocao de respostas de autocontrole, que podem ser emitidas como esquiva tanto das consequencias descritas como dos sentimentos gerados pela emissao de respostas impulsivas, como ansiedade, culpa ou vergonha (cf. Skinner, 1953/2000).

O autocontrole, que e um comportamento importante para o grupo pelos reforcadores que produz, envolve muitas contingencias aversivas para o individuo. Nao ha duvida acerca da necessidade de comportamentos e praticas que possam garantir a sobrevivencia dos grupos. No entanto ha que se questionar a validade da utilizacao de contingencias aversivas levando-se em conta os efeitos delas sobre o individuo e, de volta, sobre o proprio grupo. O ideal seria que o grupo promovesse o autocontrole por meio de contingencias reforcadoras, fazendo com que esse comportamento ficasse sob controle de reforcamento positivo, e nao de reforcamento negativo.

O grupo pode garantir a manutencao de respostas de autocontrole e, assim, a producao de reforcadores atrasados para si sem grandes danos ao individuo quando promove a variacao do repertorio do individuo. Ou seja, amplia-se o repertorio do individuo, fazendo-o entrar em contato com os reforcadores das novas respostas ao mesmo tempo em que se reduz a probabilidade de ocorrerem os efeitos colaterais da retirada dos antigos reforcadores (efeitos que manteriam a resposta impulsiva por reforcamento negativo). Por exemplo, no lugar de punir com multas o morador de um condominio que coloca o lixo na area comum fora do horario de coleta, poderia ser mais eficaz distribuir sacos de lixo aos moradores que entregarem o lixo ao coletor no horario definido pelo condominio. A promocao do autocontrole, da maneira como e feita usualmente, tolhe o individuo, inibe respostas impulsivas, mas tambem respostas que poderiam produzir reforcadores tanto para o individuo quanto para o grupo, alem de gerar efeitos colaterais aversivos, como sentimentos de vergonha, culpa, ansiedade, medo e comportamentos agressivos direcionados ao agente de controle. Esses mesmos efeitos sao observados quando se utilizam contingencias aversivas na regulacao da expressao de sentimentos e emocoes.

Relacoes entre Assertividade e Autocontrole

A revisao de algumas caracterizacoes da assertividade na Terapia Comportamental (e.g. Furnham, 1979; Rich & Schroeder, 1976) e a revisao de alguns usos do conceito de autocontrole na Analise do Comportamento (e.g., Rachlin, 1991; Skinner, 1953/2000) possibilitam o estabelecimento de relacoes entre os dois conceitos em termos de processos comportamentais. Essas relacoes serao descritas a seguir.

Ambos os conceitos remetem a producao de consequencias que podem ser classificadas de acordo com a populacao afetada por elas (o proprio individuo que emite as respostas ou o grupo no qual o individuo esta inserido) e de acordo com a distancia temporal (consequencias imediatas ou atrasadas).

Assertividade e um comportamento alternativo (concorrente) aos comportamentos de agressividade e de passividade, os quais se assemelham funcionalmente ao comportamento impulsivo, sendo este ultimo alternativo ao comportamento de autocontrole.

Uma relacao comportamental de autocontrole pode ser descrita da seguinte maneira: num contexto interpessoal, uma resposta controladora ([R.sub.ctr]) manipula variaveis de maneira a alterar a probabilidade de uma outra resposta do proprio individuo (cf. Skinner, 1953/2000). A resposta que tem sua probabilidade alterada e chamada de resposta controlada ([R.sub.ctd)] e produz consequencias de dois tipos: uma consequencia aversiva imediata ([S.sup.R-.sup.imed].) e um reforcador positivo atrasado ([S.sup.R+.sub.atras]).

Utilizando-se a qualificacao das consequencias de acordo com a populacao afetada por elas, diz-se que [R.sup.ctd] produz consequencias aversivas (imediatas) para o individuo ([S.sup.R-.sub.indiv]) e reforcadores positivos (relativamente mais atrasados) para o grupo ([S.sup.R+.sub.grupo]) (cf. Nico, 2001; Rachlin, 1991; Skinner, 1953/2000).

A resposta impulsiva ([R.sub.imp)] geralmente concorre com a de autocontrole, e pode ser descrita como uma resposta ([R.sub.imp)] emitida num contexto interpessoal, que produz reforcadores positivos imediatos ([S.sup.R+.sub.imed]) e consequencias aversivas atrasadas ([S.sup.R-.sub.atras]). Levando-se em consideracao a populacao afetada pelas consequencias da resposta impulsiva, diz-se que [R.sub.imp] produz reforcadores positivos para o individuo ([S.sup.R+.sub.indiv]) e consequencias aversivas para o grupo ([S.sup.R-.sub.grupo]) (cf. Nico, 2001; Rachlin, 1991; Skinner, 1953/2000). UniTsistematizacao das respostas de autocontrole e impulsiva, com relacao a populacao afetada, tipo e imediaticidade das consequencias produzidas e apresentada na Tabela 1.

O comportamento assertivo pode ser descrito como uma resposta ([R.sub.ass)] emitida necessariamente num contexto interpessoal ([S.sup.D.sub.social]). Tal contexto sinaliza alta probabilidade de producao de consequencias aversivas (tanto consequencias de desaprovacao social, quanto estimulos aversivos diversos), chamado por isso de situacao interpessoal de risco (cf. Rich & Schroeder, 1976). A despeito do risco de consequencias aversivas, uma [R.sub.ass] produz consequencias reforcadoras diversas, de magnitude moderada ou media ([S.sup.R+.sub.diversas]) e condiversas sequencias reforcadoras de aprovacao social, de magnitude moderada ou media ([S.sup.R+.sub.aprov]) (cf. Hull & Schroeder, 1979; Kelly & cols., 1980; Schroeder & cols., 1983). Note-se que as expressoes "magnitude moderada" e "magnitude media" estao sendo utilizadas aqui a fim de ressaltar que as consequencias de aprovacao social produzidas pelo comportamento assertivo podem situar-se em um ponto intermediario entre as consequencias de respostas passivas e as consequencias de respostas agressivas.

As consequencias da resposta assertiva tambem podem ser descritas de acordo com a populacao afetada por elas. Assim, diz-se que a [R.sub.ass] produz reforcadores positivos de magnitude moderada para o individuo ([S.sup.R+.sub.indiv]) e reforcadores positivos de magnitude moderada para o grupo ([S.sup.R+.sub.grupo]) (cf. Lorr & More, 1980).

O comportamento agressivo pode ser descrito como uma resposta ([R.sub.agr)] emitida necessariamente numa situacao interpessoal de risco ([S.sup.D.sub.social]), produzindo consequencias reforcadoras diversas ([S.sup.R++.sub.diversas],) e consequencias de desaprovacao social aversivas ([S.sup.R--.sub.desap]), ambas de grande magnitude. Diz-se que uma resposta agressiva produz reforcadores positivos para o individuo ([S.sup.R+.sub.indiv]) e consequencias aversivas para o grupo ([S.sup.R-.sub.grupo]) (cf. Epstein, 1980; Hull & Schroeder, 1979).

Ja o comportamento passivo pode ser descrito como resposta (Rpas) emitida necessariamente numa situacao interpessoal de risco (SDsocial), produzindo consequencias diversas aversivas ([S.sup.R--.sub.diversas]) e consequencias reforcadoras de aprovacao social ([S.sup.R++.sub.aprov]), ambas de alta magnitude. Especificando-se a populacao afetada, diz-se que a resposta passiva produz, do ponto de vista imediato, consequencias (diversas) aversivas para o individuo ([S.sup.R-.sub.indiv]) e reforcadores positivos para o grupo ([S.sup.R+.sub.grupo]) (cf. Epstein, 1980; Hull & Schroeder, 1979). Uma sistematizacao das respostas assertiva, agressiva e passiva, com relacao a populacao afetada, tipo e imediaticidade das consequencias produzidas e apresentada na Tabela 2.

As descricoes possibilitam uma nocao mais clara a respeito da relacao entre assertividade e autocontrole, pelos seguintes aspectos: (a) assertividade e autocontrole sao relacoes comportamentais produzidas em ambientes sociais, que (b) envolvem a producao de consequencias para o individuo e para o grupo e que (c) favorecem diferencialmente o grupo. Tambem os padroes de resposta concorrentes ou alternativos ao autocontrole e a assertividade (comportamento impulsivo, no caso do autocontrole e comportamentos agressivo e passivo, no caso da assertividade) compartilham aquelas caracteristicas, a excecao do favorecimento do grupo. As semelhancas entre o comportamento assertivo e o de autocontrole sugerem que a assertividade constitui uma instancia de resposta autocontrolada, bem como os comportamentos agressivo e passivo funcionariam como "instancias interpessoais" de comportamento impulsivo.

Tal qual o comportamento de autocontrole, o comportamento assertivo configura-se mais vantajoso para o grupo do que uma resposta impulsiva (a resposta agressiva). O comportamento passivo requer uma analise mais detalhada. Em uma analise apressada poder-se-ia supor que a resposta passiva nao constitui um tipo de resposta impulsiva, representando vantagem maior para o grupo do que a resposta assertiva. No entanto, no caso da resposta passiva, torna-se importante observar como se articula ao conflito de consequencias a questao temporal assinalada por Rachlin (1991). Isto e, respostas passivas sao mais vantajosas para o grupo apenas do ponto de vista imediato. No longo prazo, a passividade representa uma dependencia onerosa do individuo em relacao ao grupo (considerem-se, a proposito, as consequencias atrasadas, para os pais e para a sociedade, do fortalecimento de um padrao passivo de comportamento de criancas na infancia). Considerando-se as consequencias atrasadas, portanto, sera mais vantajoso para o grupo, pelo menos em uma cultura "ocidentalizada", contar com individuos que se comportem assertivamente, produzindo consequencias positivas para si e para o grupo. Um aspecto dessa analise que requer exame adicional e o fato de que, por essa otica, agressividade e passividade constituiriam, ambas, instancias de comportamento impulsivo, diferindo com respeito as modalidades e ao atraso das consequencias. A questao e que esses padroes diferem, substancialmente, tambem, com respeito a topografia das respostas, com base na qual mais frequentemente o leigo categoriza um comportamento como agressivo ou passivo. Trata-se, enfim, de um problema que merece ser examinado com maior detalhamento em trabalho que de continuidade a este curso de analise.

Resumindo, entao, respostas assertivas produzem consequencias reforcadoras diversas e consequencias de aprovacao social que, imediatamente, podem nao ter a mesma magnitude daquelas que seriam produzidas por respostas agressivas ou passivas. Mesmo diante da possibilidade de produzir imediatamente consequencias reforcadoras de grande magnitude--de aprovacao social, se a resposta for passiva; e consequencias diversas, se a resposta for agressiva --o individuo pode emitir uma resposta assertiva, instalada sob controle de regras ou contingencias.

Conclusao

As referencias ao autocontrole foram orientadas, ao longo do presente artigo, pelo objetivo de contribuir para a interpretacao da assertividade. Embora esse percurso analitico tenha conduzido a digressoes por vezes distantes do tema da assertividade, buscamos sugerir certas relacoes comportamentais em que pode se basear uma interpretacao do responder assertivo, consistente conceitualmente com principios da Analise do Comportamento. Certamente, a literatura sobre assertividade remete a questoes mais diversas do que aquelas aqui mencionadas. Desse ponto de vista, a analise apresentada constitui apenas um ponto de partida para uma apropriacao mais ampla do tema da assertividade na literatura analitico-comportamental.

A analise desenvolvida baseou-se em pesquisas empiricas realizadas por terapeutas comportamentais (nao necessariamente analitico-comportamentais) e em trabalhos conceituais da Analise do Comportamento, de orientacao Behaviorista Radical. Por sua importancia para a pratica clinica, devido a grande demanda por intervencoes no sentido de promover o comportamento assertivo, faz-se necessaria agora uma investigacao empirica das variaveis que controlam esse comportamento (aqui compreendido como um tipo especial de autocontrole), orientada de maneira mais rigorosa pelos principios da Analise do Comportamento.

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Recebido em 12.09.2008

Primeira decisao editorial em 21.08.2009

Versao final em 25.08.2009

Aceito em 16.09.2009

Vivian Marchezini-Cunha (2)

Emmanuel Zagury Tourinho

Universidade Federal do Para

(1) Este artigo reproduz partes da Dissertacao de Mestrado apresentada pela primeira autora ao Programa de Pos-Graduacao em Teoria e Pesquisa do Comportamento, Universidade Federal do Para, e orientada pelo segundo autor. Trabalho parcialmente financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico, CNPq (Bolsa de Mestrado, Processos 305743/2004-0 e 470802/2004-9).

(2) Endereco para correspondencia: Rua Padre Willian Silva, 39. Bairro Planalto. Belo Horizonte, MG. CEP 31.720-060. Telefone: (31) 3495-2810. E-mail: vivianpsi@yahoo.com.br.
Tabela 1. Tipos de consequencias produzidas por respostas
impulsivas e autocontroladas.

                             CONSEQUENCIAS

RESPOSTAS
                Populacao      Tipo de       Tempo
                 afetada     consequencia

                Individuo      Positiva     Imediata
                               Negativa     Atrasada
Impulsiva
                  Grupo        Negativa     Atrasada
                Individuo      Negativa     Imediata
                               Positiva     Atrasada
Autocontrolada
                  Grupo        Positiva     Atrasada

Tabela 2. Tipos de consequencias produzidas por respostas passivas,
agressivas e assertivas.

RESPOSTAS                CONSEQUENCIAS

            Populacao      Tipo de       Magnitude    Tempo
             afetada     consequencia

Passiva     Individuo     Negativas        Alta      Imediata
                           diversas
                          Positivas        Alta      Imediata
                            sociais
              Grupo        Positiva         --       Imediata
                           Negativa         --       Atrasada
            Individuo     Positivas        Alta      Imediata
                           diversas
                           Negativas       Alta      Atrasada
Agressiva                   sociais
              Grupo        Negativa         --       Imediata
                           Negativa         --       Atrasada
Assertiva   Individuo      Positivas     Moderada    Imediata
                           diversas
                           Positivas     Moderada    Imediata
                            sociais
              Grupo        Negativa         --       Imediata
                           Positiva         --       Atrasada
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Author:Marchezini-Cunha, Vivian; Zagury Tourinho, Emmanuel
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Article Type:Report
Date:Apr 1, 2010
Words:7573
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