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As vozes de uma politica de ensino de lingua estrangeira moderna na educacao basica no Estado do Parana.

Voices of teaching policy in modern foreign languages in the state of Parana, Brazil.

Introducao (1)

Muitas pesquisas tem sido produzidas no Brasil sobre o ensino-aprendizagem de linguas, contudo sao poucos os pesquisadores que tem tratado das politicas de ensino de lingua estrangeira (LE), como Bohn (1997, 2000), Almeida Filho (2001, 2006), Celani (1995, 1997, 2000a e b) e Gimenez (2005a e b).

Embora, no Brasil, haja poucos pesquisadores engajados em discutir as questoes a respeito de politicas de ensino de LE, nos ultimos anos tem crescido o interesse em se produzir trabalhos a respeito dessa tematica. Isso se confirma nas teses de doutoramento produzidas por Souza (2005), Santos (2002) e Oliveira (2003) em sua dissertacao de mestrado.

Partindo desta perspectiva e que nos encorajamos em construir um trabalho em torno das questoes politicas do ensino de LE, procurando perceber que o momento de decisao pelo ensino de determinada LE e resultante de processo intenso de acordos e/ou imposicoes politicas, ideologicas e culturais no que cerne a escolha pelo ensino de uma ou de outra LE.

Em contrapartida, para que haja a oferta de uma LE nas escolas de determinado pais, deve ser por meio de deliberacoes, portarias, leis e documentos oficiais regidos pelo governo federal e estadual em que se pautam as deliberacoes e objetivos que constituem o ensino dela em toda a rede de ensino publica e privada de um pais.

Diante disso, particularmente, o governo do Estado do Parana, por meio da Secretaria de Estado de Educacao do Parana -- SEED, propos um novo documento educacional para reger as praticas de ensino do ensino fundamental em todas as areas do saber, em nosso caso, as Diretrizes Curriculares da Educacao Basica -- Lingua Estrangeira Moderna (DCE-LEM).

Tomando como exemplo os Parametros Curriculares Nacionais -- PCN (BRASIL, 1997), os quais foram elaborados, apresentados, discutidos e postos em pratica por varios educadores do ensino fundamental e medio, e, ao mesmo tempo, questionados por tantos outros educadores do cenario academico, as DCE-LEM e um documento que tambem necessita de olhares curiosos, criticos e reflexivos na busca de entendimento de suas intencoes politico-pedagogicas.

Partindo dessa perspectiva, objetivamos elaborar um estudo que examine o modo como se configuram as politicas de ensino de LE no Estado do Parana, a partir das vozes de dois Professores da Rede Estadual (PRP) e tres Professoras Assessoras (PA), sujeitos entrevistados atraves de questionarios abertos e/ou fechados, com o proposito de estudarmos se a versao final do Documento expressa participacao coletiva e deliberativa do processo de construcao de uma proposta educacional que se orienta para uma acao coletiva na area da educacao de Lingua Estrangeira.

Quanto aos aspectos teoricos deste trabalho, nos apoiamos nas teorias de Mikhail Bakhtin (2003, 2005, 2006) para fundamentar nossas reflexoes a respeito dos conceitos de enunciado, dialogismo e polifonia. Quanto a metodologia utilizada no trabalho recorremos ao estudo de caso por se tratar de um trabalho que enfoca determinado evento pedagogico com aspectos descritivos e interpretativos que procuram examinar os dados extraindo temas ou questoes variadas, com nuances de uma analise qualitativa. Assim, e possivel buscarmos indicios de padroes para poder explicalos, assumindo a caracteristica dos pressupostos bakhtinianos que fundamenta o edificio teorico.

A Luz Bakhtiniana para as vozes de uma politica de ensino de linguas estrangeiras

Os professores entrevistados que compoem a analise dos dados neste trabalho sao sujeitos cujo discurso se encontra com o discurso de outras pessoas, ou seja, seus discursos vao se mover por meio das posicoes sociais que estes individuos caracterizam ao remeter suas respostas ao questionario. Por sua vez, neste ato de resposta as perguntas, os entrevistados dialogam com muitos outros enunciados inerentes a sua formacao, a sua vida escolar e academica, a sua pratica professoral e ate a propria DCE-LEM.

E a partir desses enunciados que precederemos outros. Ao ser instaurada essa cadeia infinita de enunciados entre um "eu e um "tu", tendo entao o dialogismo que se caracteriza como a interacao entre o "eu e o "outro(s)", ha a presenca da manifestacao de diversas vozes que podem ser apresentadas em uma unidade tematica: o texto ou o discurso. Conforme alguns recursos linguisticos que sao empregados para a sua construcao do texto e/ou do discurso, e apresentado o efeito de polifonia ou monofonico. Desta forma, um texto ou discurso e considerado polifonico quando pode ser percebida, em sua estrutura, a presenca de algumas vozes, cada uma expressando o seu ponto de vista acerca do mundo; e monofonico, quando essas vozes sao ocultas e aparecem apenas sob a forma de uma unica voz.

O caminho que Mikhail Mikhailovich Bakhtin perpassara neste trabalho sao os pontos de sustentacao da nossa fundamentacao teorica, necessaria a compreensao das questoes acerca da "ideologia" e do "signo" nas ideias deste autor. E por isso que chamamos ao centro da discussao teorica as vozes (sujeitos entrevistados) das DCE-LEM. Compreendemos, como Bakhtin, que essas vozes sao tecidas por palavras a partir de suas posicoes sociais que se condicionam para um "outro"; logo, e o outro que formula novos enunciados propiciando a interacao verbal enquanto fenomeno social. E nesse sentido que surge a necessidade da linguagem, para buscar a interacao verbal de nossos sujeitos entrevistados em suas relacoes sociais, permitindo-nos entao, pelas suas posicoes sociais, a analise dos dados.

Conforme Bakhtin (2003) sao as palavras tecidas a partir de uma multidao de fios ideologicos, que servirao de trama para todas as relacoes sociais em todos os dominios. As bases de todos os estudos na perspectiva bakhtiniana, referem-se ao carater interativo da linguagem. Assim sendo, somente sera possivel a compreensao da linguagem a partir de sua natureza socio-historica.

Na concepcao bakhtiniana, a lingua e heterogenea (2), suscetivel a mudancas historicas, sociais e culturais. Isso ocorre porque o que se e valorizado e a fala, a enunciacao (3) que afirma a natureza social e nao-individual da lingua. Conforme nos permite salientar, Bakhtin (2006) nos leva a compreender que a lingua e a ideologia nao podem ser concebidas separadamente, ou seja, estao sempre imbricadas. O significado da palavra ideologia ou ideologico adquire, nos textos produzidos pelo Circulo de Bakhtin, uma significacao diferente da que estamos acostumados a conceituar.

A ideologia, na nomenclatura bakhtiniana, comporta varias esferas ideologicas, que identificam areas da producao intelectual humana: a arte, a ciencia, a moral, a etica, a filosofia, a religiao, etc. Cada campo da criatividade ideologica ou esfera ideologica tem signos especificos com que Bakhtin (2006) se refere a exterioridade e, portanto, um modo peculiar de representa-la, ou seja, vemos que Bakhtin conceitua ideologia enquanto produto ideologico que "reflete e refrata" outra realidade que lhe e exterior. A questao da ideologia faz-se necessaria a este trabalho, tendo em vista o encaminhamento para compreendermos o modo com que se configurou o processo de elaboracao das DCE-LEM a partir das vozes dos sujeitos entrevistados e do arcabouco teorico utilizado neste trabalho.

A ideologia em Bakhtin nao deve ser compreendida como valores e intencoes negativas, mas como uma area da expansao da criatividade intelectual/cultural humana. As bases para os estudos do conhecimento cientifico, da literatura, da religiao, da moral e outros, nao podem ser estudadas separadamente da realidade concreta que as abriga. Por isso os signos sao intrinsecamente ideologicos, ou seja, jamais os signos poderao ser estudados separadamente de suas realidades. A citacao a seguir apresenta uma possibilidade de compreensao em torno da questao do signo.

A significacao so pode pertencer ao signo -- sem o que, ela se torna uma ficcao. A significacao constitui a expressao da relacao do signo, com uma outra realidade, por ela substituivel, representavel, simbolizavel. A significacao e a funcao do signo, [...] o signo e uma unidade material discreta, mas a significacao nao e uma coisa e nao pode ser isolada do signo como se fosse uma realidade independente, tendo uma existencia a parte do signo (BAKHTIN, 2006, p. 52).

Os signos sao parte concreta e totalmente objetiva da realidade pratica dos seres humanos e sao criados e interpretados no interior dos complexos e variados processos que caracterizam o intercambio social. Os signos emergem e significam no interior de relacoes sociais, estao "entre" seres socialmente organizados. O signo e ideologico em funcao das estruturas sociais; a palavra existe e articula-se nas relacoes sociais travadas pelos individuos, ou seja, neste estudo, as palavras que caracterizam as respostas de nossos professores entrevistados so ganharao sentido porque a palavra e ativa e esta sempre mudando. Ela nao esta limitada a uma unica so consciencia, a uma so voz. Ela tem vida quando passa de boca em boca. Logo, compreendemos, como Bakhtin, que a palavra e dialogica e deve estar inserida num contexto social e no universo da tensao humana em que ela atua. Se a ideologia se modifica, acontece uma alteracao na lingua que pode sugerir mudanca nas ideias, nas representacoes, na consciencia. Os signos sao dialeticos, dinamicos, vivos; nao se apresentam como algo estatico.

Nesta perspectiva, todo e qualquer signo, todo e qualquer enunciado encontram-se localizados profundamente em uma dimensao ideologica (literatura, politica, arte etc.) e, ao serem interpretados pelo ser humano, tomam sentido de carater valorativo com que o sujeito concebe a significacao.

De acordo com as assercoes de Bakhtin (2006), a ideologia se expande para a busca de uma compreensao da nocao de valor, de forma intrinseca, no proprio ser humano. Por essa razao, a nogao de "dialogismo" esta relacionada a dinamica do processo de interacao das vozes sociais e, neste caso, estas vozes se caracterizam por serem as vozes dos professores entrevistados que se entrecruzam e que, neste processo de se relacionarem entre si, se subsistem em torno do "todo social" a partir das diversas multiplicidades dialogicas.

Os signos emergem e significam no interior de relacoes sociais, estao entre seres socialmente organizados; nao podem, assim, ser concebidos como resultantes de processos apenas fisiologicos e psicologicos de um individuo isolado, ou determinados apenas por um sistema forma abstrato. Para estuda-los, e indispensavel situa-los nos processos sociais globais que lhes dao significacao.

Esta chave e a filosofia do signo, a filosofia da palavra, enquanto signo ideologico por excelencia. O signo ideologico e o territorio comum, tanto do psiquismo quanto da ideologia; e um territorio concreto, sociologico e significante. E sobre este territorio que se deve operar a delimitacao das fronteiras entre a psicologia e a ideologia. O psiquismo nao deve ser uma replica do universo, e este nao deve servir como simples indicacao cenica acompanhando o monologo psiquico (BAKHTIN, 2006, p. 58).

Por isso e que os estudos bakhtinianos trazem contribuicao maior aos estudos da linguagem, contemplando a dinamicidade da lingua, pois, conforme os estudos de Bakhtin, e a palavra que vai sendo remetida a um novo dizer, em um processo de ir e vir de um enunciado remetendo a outro, sem haver, desse modo, limites para o contexto dialogico, que faz com que cada palavra venha com um novo aspecto de resposta e uma tomada de posicao em relacao ao ja dito, movendo o universo de sentidos.

Ressaltamos neste momento, que as concepcoes bakhtinianas foram escolhidas como aporte teorico neste trabalho pelo fato de este intelectual poder nos auxiliar na compreensao das vozes e dos discursos que geram os enunciados a respeito do processo de elaboracao de um documento oficial do Estado do Parana. Por isso, passamos agora a conceituar os principios da enunciacao, dialogismo e polifonia.

A Enunciacao enquanto fator social

O eixo que constitui a centralidade de todo o pensamento de Bakhtin caracteriza-se pela interacao verbal, e, de certo modo, tambem pelo carater dialogico e polifonico. Essa caracterizacao da interacao verbal resulta na abordagem historica e vida da lingua e o tratamento sociologico das enunciacoes. A lingua pode ser vista, em Bakhtin, como um fenomeno social, historico e ideologico, consequentemente, "a comunicacao verbal nao podera jamais ser compreendida e explicada fora desse vinculo com a situacao concreta" (BAKHTIN, 2006, p. 181). Por conseguinte, e neste autor que percebemos que a lingua esta vinculada a um conteudo ideologico, a um uso pratico e que, de certa forma, seus signos sao variaveis e flexiveis e possuem carater mutavel, historico e polissemico.

Na verdade, a lingua nao se transmite; ela dura e perdura sob a forma de um processo evolutivo continuo. Os individuos nao recebem a lingua pronta para ser usada; eles penetram na corrente da comunicacao verbal, ou melhor, somente quando mergulham nessa corrente e que sua consciencia desperta e comeca a operar. E apenas no processo de aquisicao de uma lingua estrangeira que a consciencia ja constituida -- gracas a lingua materna -- se confronta com uma lingua toda pronta, que so lhe resta assimilar. Os sujeitos nao "adquirem" sua lingua materna, e nela e por meio dela que ocorre o primeiro despertar da consciencia (BAKHTIN, 2006, p. 108).

E preciso que a palavra resulte nao so de processos fisicos, mas tambem fisiologicos e psicologicos e, sobretudo, deve ser inserida na interacao social. Por essa razao, entendemos que os professores entrevistados constituem seus discursos em uma situacao historica, e, por ser historica, ela e concreta, caracterizando o sentido de seus discursos por meio da interacao verbal, produzindo, entao, sentido as suas respostas no modo como se deu o processo de elaboracao das DCE-LEM.

Assim, junto ao dispositivo teorico de Bakhtin (2006, p. 116), somos capazes de dizer que "a enunciacao e o produto da interacao de dois individuos socialmente organizados e, mesmo que nao haja um interlocutor real, este pode ser substituido pelo representante medio do grupo social ao qual pertence o interlocutor." Desta forma, a enunciacao resulta da interacao dos individuos que estao inseridos na sociedade. Por sua vez, neste estudo, vemos que os individuos podem ser caracterizados como o pesquisador e os professores entrevistados. Quando o pesquisador articula as perguntas aos professores entrevistados para uma busca de enunciado concreto, na relacao entre o "locutor e o "outro", ele assume o carater de "locutor" e os professores entrevistados, o carater de "interlocutor(es)", sempre mediados em uma posicao intercambiavel. Deste modo, ja que as posicoes que os individuos integram em uma interacao verbal sao posicoes intercambiaveis, os professores entrevistados passam a ser "locutores" quando respondem ao questionario do pesquisador, e o pesquisador torna-se o seu "interlocutor", ja que suas posicoes nao sao fixamente determinadas na formacao do enunciado. A respeito dessa tematica, buscamos em Bakhtin (2003, p. 296-297) os dispositivos que sustenta nossa discussao.
   Os proprios limites do enunciado sao determinados
   pela alternancia dos sujeitos do discurso. Os
   enunciados nao sao indiferentes entre si e nem se
   bastam cada um a si mesmos; uns conhecem os
   outros e se refletem mutuamente uns aos outros.
   Esses reflexos mutuos lhe determinam o carater.
   Cada enunciado e pleno de ecos e ressonancias de
   outros enunciados com os quais esta ligado pela
   identidade da esfera da comunicacao discursiva.


E nessa relacao entre dois individuos no contato entre a lingua e a realidade concreta, pelo enunciado, que a palavra pode expressar um juizo de valor, uma significacao, uma expressividade. A palavra tem duas faces: e determinada por quem fala e para quem se fala, assim, e o territorio comum do locutor e do interlocutor, pois esta sempre carregada de um conteudo e/ou de um sentido ideologico ou vivencial, e, desta forma, ao convergirmos com Bakhtin (2006, p. 99), compreendemos "as palavras e somente reagimos aquelas que despertam em nos ressonancias ideologicas ou concernentes a vida".

A enunciacao e, portanto, dependente de dois individuos, em nosso caso particular, do pesquisador e dos professores entrevistados que tambem dependem da sua propria situacao, pois Bakhtin (2006, p. 116) prova que "nao e a atividade mental que organiza a expressao, mas, ao contrario, e a expressao que organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientacao". O enunciado e sempre uma resposta a um enunciado anterior.

A Constituicao dialogica do sujeito Bakhtiniano

Sem duvida, o tema dominante em Bakhtin e o dialogismo. Todo discurso se constitui de uma fronteira do que e seu e daquilo que e do outro. Esse principio e denominado dialogismo. A partir da concepcao da linguagem enquanto interacao e que nasce o dialogismo e as implicacoes bakhtinianas mostram que o dialogo e o principio constitutivo da linguagem, isto e, a linguagem esta impregnada de relacoes dialogicas.

O conceito de dialogo e a nocao de que a lingua, tanto na modalidade oral ou escrita, e sempre um dialogo, passa a ser, portanto, uma relacao dialogica que pressupoe uma linguagem, mas que nao existe no sistema da lingua, como afirma Bakhtin (2003). O dialogismo e a caracteristica do funcionamento discursivo em que se encontram presentes varias instancias enunciadoras. Assim, tres elementos compoem o dialogo: o falante, o interlocutor e a relacao entre os dois. Neste caso, em uma relacao de respostas aos questionamentos apresentados aos sujeitos entrevistados, o "falante" sao os professores entrevistados, o "interlocutor", o pesquisador, e, entendida a relacao entre esses dois individuos, ocorre o dialogo.

A nocao de dialogo, conforme postula Bakhtin (2003), e contrastada com a ideia de monologo, pela quais os enunciados podem ser proferidos por uma unica pessoa ou entidade. O filosofo russo distingue o monologo do dialogo a partir do conceito de vozes (polifonia). O dialogo e constituido por duas ou mais vozes, enquanto que o monologo e constituido por somente uma voz e nao reconhece a palavra do outro, considerando a si mesmo e ao seu objeto como discurso. Por outro lado, o dialogo leva em conta a palavra do interlocutor, como tambem, as condicoes concretas da comunicacao verbal. E sob este prisma que os dados foram analisados e que mostraremos seus resultados mais adiante. E a partir das vozes dos professores entrevistados que vamos interpretar, explorar e examinar as condicoes pelas quais as vozes das DCE-LEM foram colocadas no processo de elaboracao de tal documento.

Os professores pesquisadores, ao responderem as perguntas do pesquisador, ao mesmo tempo se constituem de uma postura de enunciador, como tambem, de coenunciador, pois nao seria possivel aos entrevistados enunciarem respostas sem se colocarem no lugar do outro (pesquisador), antecipando suas posicoes para poder refuta-las, negociando ou nao com o outro na direcao de transformar suas opinioes, seus valores. O sujeito emerge do outro, ou seja, a voz dos professores entrevistados se compoe a partir da interacao com o outro (o pesquisador) sendo mediada pelo questionario e, por essa razao, e dialogica a voz porque o seu conhecimento e fundamentado no discurso que eles produzem.

Um aspecto importante a mencionar sao as duas nocoes basicas de dialogismo presentes nos pressupostos de Bakhtin. A primeira denomina-se de dialogo entre interlocutores e a segunda, de dialogo entre discursos. Em nossas palavras, a interacao ou dialogo entre interlocutores e o principio fundador da linguagem: e na relacao entre sujeitos que se constroem a significacao das palavras, o sentido do texto e os proprios sujeitos. Como o dialogo se constroi socialmente, pressupondo pelo menos dois interlocutores cujos discursos sao impregnados de influencias do contexto em que vivem e se relacionam, o dialogo entre esses discursos acaba sendo inevitavel.

A partir desta perspectiva, o dialogismo e um principio constitutivo da linguagem e uma condicao de sentido do discurso, pois, conforme as contribuicoes teoricas de Bakhtin (2006, p. 123), "o discurso nao e individual tanto pelo fato de que ele se constroi entre, pelo menos, dois interlocutores que, por sua vez, sao seres sociais; como pelo fato de que ele se constroi como um dialogo entre discursos, isto e, mantem relacoes com outros discursos".

E por isso que, quando os professores entrevistados, ao responderem o questionario aplicado a eles pelo pesquisador, demonstram que suas posicoes sociais vao se movendo no interior de seus discursos, mostrando que suas respostas nao se materializam como professores entrevistados, mas, a partir de tais posicoes sociais, como: professor universitario, professor estadual, professor pesquisador, dentre outros.

O dialogismo, na perspectiva bakhtiniana, reconhece a necessidade de darmos conta da presenca do outro com que uma pessoa esta falando, pois, corrobora Barros (2003, p. 2-3), "so se pode entender o dialogismo interacional pelo deslocamento do conceito de sujeito. O sujeito perde o papel de centro e e substituido por diferentes (ainda que duas) vozes sociais, que fazem dele um sujeito historico e ideologico". Por essa razao e que ja esclarecemos, que e a partir do papel do individuo na interacao verbal que se constitui a sua posicao como "locutor" ou "interlocutor" ja que sao posicoes sempre intercambiaveis. Por conseguinte, a compreensao do sentido e da significacao do enunciado perpassa pela questao do dialogismo.

A Polifonia entre as vozes do "Eu"

Outra importante nocao bakhtiniana estreitamente ligada ao dialogismo denomina-se de polifonia, que nos leva a perceber a impossibilidade de contarmos com as palavras como se fossem signos neutros, transparentes, ja que elas sao afetadas pelos conflitos historicos e sociais que sofrem os falantes de uma lingua.

Na obra Problemas da Poetica de Dostoievski, de 1929, foi que Bakhtin usou a palavra polifonia -- uma metafora musical para poder se referir a pluralidade de vozes que podem manifestar-se em uma mesma obra. Bakhtin entende que na obra do escritor russo Dostoievski ha a presenca de varias vozes e, com isso, parece haver uma impressao de se tratar nao de um autor e artista que escrevia novelas e romances, mas sim, de uma serie de discursos filosoficos de varios autores e pensadores. Explica Bakhtin (2005, p. 4):

A multiplicidade de vozes e consciencias independentes e imisciveis e a autentica polifonia de vozes plenivalentes constituem, de fato, a peculiaridade fundamental dos romances de Dostoievski. Nao e a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uno, a luz da consciencia uma do autor, se desenvolve nos seus romances; e precisamente a multiplicidade de consciencias equipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade.

O dialogo e extremamente importante na construcao estrutural do romance de Dostoievski, onde nao so encontramos sujeitos falantes, mas, acima de tudo, sujeitos que tem uma ideologia propria e independencia do autor, podendo, assim, manifestar livremente suas diferentes visoes de mundo.

Pelas caracteristicas de pluralidade (multiplicidade de vozes) e de alteridade (aceitacao e percepcao dos valores do outro) que circundam as trocas discursivas, Bakhtin insiste na intertextualidade dos discursos, pela qual todos os enunciados estao marcados por diferentes vozes provenientes de diversos falantes e contextos. O termo "voz" foi escolhido por Bakhtin para se dirigir a consciencia falante presente nos enunciados. Uma importante caracteristica da consciencia falante configura-se na carga de um juizo de valor, de uma visao de mundo carregada por ela, ou seja, "a emocao, o juizo de valor, a expressao sao coisas alheias a palavra dentro da lingua, e so nascem gracas ao processo de sua utilizacao ativa no enunciado concreto" (BAKHTIN, 2003, p. 321).

O termo voz nas concepcoes bakhtinianas e definido como a personalidade do falante, isto e, a consciencia do falante. Portanto, a construcao de um enunciado e constituida a partir de determinado ponto de vista por meio de diversas consciencias falantes ou vozes. E importante ressaltarmos que Bakhtin contrapoe-se ao discurso monologico por se tratar de um discurso que se constitui apenas por uma unica voz. No entanto, ao se referir ao discurso heteroglossico e/ou polifonico constituido por diversas vozes, o filosofo russo nos leva a compreender que estas vozes coexistem neste discurso advindo de outros tipos de discursos, de outros contextos comunicativos.

Vemos que, para Bakhtin (2006), todo enunciado de um sujeito falante e o local onde as forcas se encontram. Diante disso, os discursos sao moldados a fim de que se tornem, em parte, a palavra do sujeito, em parte, a palavra do outro. E pelos discursos utilizados pelos sujeitos falantes que temos o discurso monofonico e o discurso heteroglossico ou polifonico.

Na denominacao de ambos os discursos, percebemos que o primeiro (monofonico) abafa as outras vozes, ja o segundo (polifonico) propicia um entrelacar de diferentes vozes que o constituem. Ha uma pluralidade de vozes no discurso polifonico e estas coexistem pelo carater dialogico das praticas discursivas, isto e, as relacoes dialogicas entre discursos sao visivelmente perceptiveis. Por outro lado, no discurso monofonico, percebe-se que sao ocultadas as relacoes dialogicas por de tras de um unico discurso, ou seja, de uma unica voz.

A diferenca entre o discurso monofonico e polifonico e visivelmente caracterizada em algumas obras literarias de escritores classicos como Cervantes, Shakespeare e outros. Em consonancia com os escritos bakhtinianos, podemos identificar alguns indicios do discurso polifonico desses autores classicos, contudo, e somente em Dostoievski que ha afirmacao plena da polifonia, ja que, nas obras de tais escritores, nao ha uma polifonia totalmente constituida. A respeito dessa tematica em questao, o filosofo russo diz que:

[...] e possivel observar alguns elementos ou embrioes de polifonia nos dramas shakespeareanos. Ao lado de Rabelais, Cervantes, Grimmelshausen e outros, Shakespeare pertence equela linha de desenvolvimento da literatura europeia na qual amadurecem os embrioes da polifonia e que, neste sentido, foi coroada por Dostoievski (BAKHTIN, 2005, p. 34).

Junto a Bakhtin, quando se discute a "polifonia", que e um termo que caracteriza determinado tipo de discurso em que se percebe a multiplicidade de vozes e posicoes ideologicas que estao presentes neste termo, encontramos em sua obra, "Problemas da Poetica de Dostoievski" (2005), o verdadeiro criador do romance polifonico, ou seja, o criador de um genero novo, pois a sua obra compoe-se por vozes que mantem um dialogo com outras de carater igual. Em outras palavras, os personagens tem a liberdade de se expressarem acerca do mundo a partir do ponto de vista de cada um, podendo ou nao harmonizar-se com o autor da obra.

Vale ressaltarmos um ponto que julgamos importante quando discutimos polifonia. Indubitavelmente, esse grande filosofo russo jamais pretendeu expressar, em seus estudos, que o conceito de polifonia nao ocorreria em outros generos discursivos. Ao contrario do que muitas pessoas imaginam, quando se discute "polifonia" a partir do romance de Dostoievski, percebemos que Bakhtin tinha a plena consciencia da importancia desse conceito a fim de nao ficar restrito somente a um unico genero. Assim, compreendemos que a polifonia vai alem do genero romanesco e pode ser encontrada em outros generos discursivos. A partir das palavras de Bakhtin (2005, p. 173) e que respaldamos nossas assercoes:
   A criacao do romance polifonico e um imenso
   avanco nao so na evolucao da prosa ficcional do
   romance, ou seja, de todos os generos que se
   desenvolvem na orbita do romance, mas
   generalizando, tambem na evolucao do pensamento
   artistico polifonico de tipo especial, que ultrapassa os
   limites do genero romanesco.


E por esse motivo que ha a polifonia em outros generos discursivos, e, se ha a presenca polifonica em outros generos discursivos, entendemos tambem que ha presenca polifonica entre dialogos, visto que todo dialogo e uma construcao de enunciados. Como ja ressaltamos ao longo de nossa discussao teorica, a palavra nao e exclusividade do falante, ate porque ha outras vozes que antecedem a atividade comunicativa presente na palavra do locutor.

O pensamento bakhtiniano decorre do pressuposto de que nos constituimos a medida que nos relacionamos com o outro. A questao central de todo o trabalho de Bakhtin reside no fato de que a linguagem e fruto da interacao entre sujeitos falantes. O locutor e um sujeito historico e ideologico, cuja formacao nao ocorre sem a presenca do outro. Por isso e que entendemos que os professores entrevistados, ao respondem as perguntas solicitadas a eles, projetam seu discurso em detrimento de outro, no caso particular deste estudo, o "pesquisador". E em decorrencia da interacao dos locutores com o outro que o mundo simbolico vai sendo construido, e, a partir dessa construcao, novos enunciados irao se remeter aos enunciados ja precedidos anteriormente.

Face ao exposto, e que se utilizou a teoria bakhtiniana para compor o quadro teorico do trabalho, como tambem, o alicerce de analise para os dados, que se corresponde aos sujeitos entrevistados que apresentamos a seguir.

Contexto da pesquisa

Para a elaboracao deste trabalho, realizaram-se duas entrevistas como coleta de dados. A primeira entrevista foi direcionado para 2 (dois) professores da rede estadual publica de ensino, professores estes, que participaram de todo o processo de elaboracao das DCE-LEM. A segunda entrevista direcionou-se a 3 (tres) professoras assessoras que participaram de algumas etapas do assessoramento teorico e metodologico das DCE-LEM.

Antes da entrega do instrumento da coleta de dados foi explicado que o objetivo era levantar dados para um estudo que estava sendo desenvolvido no Programa de Pos-Graduacao em Educacao: (Mestrado) da Universidade Estadual de Maringa, sob a orientacao do Prof. Dr. Mario Luiz Neves de Azevedo.

O trabalho tem como objetivo analisar as vozes dos sujeitos entrevistados, a fim de configurar a forma como se correlacionaram as politicas de ensino de lingua estrangeira moderna na educacao basica da rede publica de ensino do Estado do Parana. Assim, foi pedida a colaboracao dos 5 (cinco) entrevistados.

Com relacao aos sujeitos desta pesquisa, cumprenos retrata-los como individuos de faixa etaria diferenciada, situando-se entre 27 a 52 anos de idade. O nivel e socioeconomico medio. Os pseudonimos escolhidos para identificacao dos professores foram: Professor da Rede Publica 1 (PRP1) e Professor da Rede Publica 2 (PRP2), para professores da rede estadual de ensino, lotados em duas escolas estaduais, pertencentes ao Nucleo Regional de Educacao de Loanda. Esses professores nos foram indicados pela coordenadora de ensino da area de Lingua Estrangeira Moderna do NRE/Loanda, devido ao fato dos mesmos terem participado de todas as fases do processo de elaboracao das DCE-LEM.

Em relacao as Professoras Assessoras das Diretrizes Curriculares da Educacao Basica -- Lingua Estrangeira Moderna, os pseudonimos escolhidos foram: Professora Assessora 1 (PA1), Professora Assessora 2 (PA2) e Professora Assessora 3 (PA3). Tais professoras configuram papeis importantes na elaboracao das DCE-LE, pois, as entrevistadas participaram em diferentes etapas no processo de construcao do documento. E por isso que escolhemos as PA para compor o quadro de entrevistados do trabalho.

Sendo assim, foi realizada uma entrevista com dois professores da rede estadual de ensino (PRP) e tres professoras assessoras (PA) do Estado do Parana. Para coletarmos os dados para nossa pesquisa, realizamos uma entrevista aberta e outra fechada, pelas quais foram direcionadas 13 questoes para os professores estaduais e 11 questoes para as professoras assessoras.

Ressalvamos que o pesquisador nao participou deste estudo como sujeito de pesquisa, por tratar-se de um estudo inicial com foco exclusivo nas respostas dos PRP e das PA que ao serem analisadas, constituem um norte inicial das vozes que articularam o processo de elaboracao das DCELEM. Ainda esclarecemos que nao houve mencoes tragando paralelos envolvendo pesquisador e sujeitos de pesquisa (PRP e PA).

Por conseguinte, em nossa primeira entrevista aberta e fechada com os PRP as perguntas ficaram centradas nas seguintes questoes: (1) Qual a sua idade? (2) Qual o seu nivel de formacao? (3) Em que series esta atuando com o ensino de LEM em sua escola? (4) Qual (is) serie(s) da educacao basica gosta de atuar com o ensino de LEM? (5) Qual a importancia da LEM no curriculo da educacao basica? (6) Descreva os procedimentos que voce utiliza ao trabalhar com LEM. (7) Em sua opiniao, hoje, qual deve ser a finalidade do ensino de LEM na rede publica? (8) Que estrategias voce usa pra levar o seu aluno a compreender a LEM em suas aulas? (9) Como voce qualifica seus alunos quanto a compreensao da LEM que voce ensina? (10) Como foi o processo de criacao das Diretrizes Curriculares da Educacao Basica? (11) O encaminhamento metodologico das DCE-LE esta claro para voce. Justifique? (12) As politicas publicas para a formacao continuada dos professores da rede publica, como simposios, grupo de estudo, DEB Itinerante, NRE Itinerante e capacitacao dentro dos NRE tem lhe auxiliado a utilizar os principios adotados pelas Diretrizes Curriculares da Educacao Basica Linguas Estrangeiras Modernas em sala de aula? (13) Em sua opiniao, o que seria o ideal para o ensino de LEM na rede publica do estado do Parana?

Para a segunda entrevista com as PA as perguntas configuram-se no mesmo plano dos PRP, porem, com algumas questoes diferencias. Assim, as perguntas centram-se nos seguintes questionamentos: (1) Em que ano nasceu? (2) Qual o seu nivel de formacao? ( ) Graduado, ( ) Especialista, ( ) Mestre, ( ) Doutor. (3) Por qual instituicao de ensino superior voce obteve titulo supracitado na questao 2? (4) Qual a importancia da LEM no curriculo da educacao basica? (5) Em sua opiniao, hoje, qual deve ser a finalidade do ensino de LEM na rede publica? (6) Como foi o processo de criacao das Diretrizes Curriculares da Educacao Basica - Lingua Estrangeira Moderna? (7) voce participou de todo o processo de assessoria nas DCE-LE? Justifique. (8) O encaminhamento metodologico das DCE-LE e claro para os professores da rede estadual de ensino? Justifique. (9) As politicas publicas para a formacao continuada dos professores da rede publica, como simposios, grupo de estudo, DEB Itinerante, NRE Itinerante e capacitacao dentro dos NRE auxilia os professores da rede publica com os principios adotados pelas Diretrizes Curriculares da Educacao Basica Linguas Estrangeiras Modernas em sala de aula? (10) O governo do Estado do Parana, ao propor um novo documento que rege a pratica do professor em sala de aula e apropriacao do conhecimento ao aluno, ofereceu caminhos que possibilite a aquisicao/aprendizagem em sala de aula ao professor de LE? (11) Em sua opiniao, o que seria o ideal para o ensino de LEM na rede publica do estado do Parana?

O que se esperou com essa pesquisa?

Achamos por bem, nao divulgarmos toda a analise do questionario aplicado aos sujeitos entrevistados, ate porque, isso demandaria um espaco razoavel de producao discursiva e, considerando o elevado conceito que este periodico goza no ambito academico, nao queremos nos arriscar em ultrapassar as normas cientificas estabelecidas por aqueles que coordenam este espaco de divulgacao a pesquisas cientificas, e, consequentemente ter este trabalho recusado por nao atender as normas exigidas pelos editores. Aqueles que quiserem tomar conhecimento de toda a analise dos dois questionarios aplicados aos professores entrevistados, sugerimos aos interessados que o trabalho encontra-se referenciado em Chaguri (2010). O que pretendemos de fato, em termos gerais, e apresentar os resultados finais que atingimos com a confeccao deste trabalho, e nao de se estender de forma exaustiva a analise dos dados.

A partir da delimitacao teorico-metodologica e das discussoes realizadas dos principios bakhtinianos, contundentemente temos alguns nortes iniciais que nos possibilitam indicar o modo como se configuraram as politicas de ensino de LE no Estado do Parana. As vozes que permeiam o discurso das DCE-LEM se constituem a partir de outras vozes (polifonia), e essas outras vozes se correlacionam em parte como vozes de pesquisador, de professor-pesquisador, de professor universitario, de professor da rede estadual, de professor PDE, de professor de espanhol, de professor de ingles, de professor de pratica e metodologia de ensino e de entrevistado. Isso tudo fica evidente quando recorremos as respostas do PRP1 e PRP2 em diversas questoes, e das PAs na questao seis, onde foi perguntado a eles como se deu o processo de criacao das DCE-LEM.

PRP1: [...] "Foi uma construcao coletiva onde [sic] os professores da Rede Estadual participaram efetivamente", colocando suas angustias e necessidades como professores de escola publica que lecionam para turmas heterogeneas com necessidades, desejos e intencoes diferenciadas (Resposta da questao seis, citado em CHAGURI, 2010, p. 173).

PRP1: "O ingles nao e visto mais como sendo a lingua somente dos paises que a tem como lingua oficial", dos quais conhecemos mais a Inglaterra e principalmente os Estados Unidos, mas esses paises ja perderam o controle desse idioma porque ele se tornou o idioma internacional, importante para o mundo inteiro (Resposta da questao cinco, citado em CHAGURI, 2010, p. 169).

PRP2: "Bastante confuso... para os professores. Foi iniciado o processo com os professores em 2004. A SEED, na ocasiao, ja tinha tragado o perfil teorico-metodologico sobre o qual seria elaborada a nova Diretriz. [... ] Na ocasiao, lembro que alguns professores apresentaram criticas, dizendo que a SEED estava pedindo a opiniao dos professores, mas ja tinha sua linha teorico-metodologica definida, e apenas queria que os professores a assimilassem e acabassem reproduzindo suas falas de forma a concordar com o que ja estava previamente definido, ou seja, os professores estariam apenas ratificando o desejo da SEED". [...] Apos todo este processo de discussoes, onde [sic] os professores defendiam a necessidade da colocacao de conteudos basicos para cada serie e/ou nivel e sobre a necessidade de um livro didatico de apoio, "surge a 1a versao da DCE escrito [sic] pela SEED, no [sic] qual ja nao mais reconheciamos nossas palavras, estavam totalmente diferentes, ja havia [sic] adquirido moldes de documento oficial" (Excerto da resposta da questao seis, citado em CHAGURI, 2010, p. 173, grifo nosso).

PRP2: Atualmente, para mim esta bem mais claro. No entanto, "ainda tinha inumeras duvidas antes da realizacao do PDE", momento em que tive a oportunidade de ler mais, refletir e discutir com colegas de area sobre as DCE. "Quanto aos demais professores da rede acredito que a grande maioria dos professores de LEM se encontram perdidos", sem conseguir compreender realmente as DCE e isto [sic] pode se verificar pela sua pratica. "Pelo que tenho conservado com professores de LEM de diferentes NRE" (por meio do GTR e de cursos), "percebo que muitos sentem dificuldade de implementar a teoria na sua pratica" (Resposta da questao onze, citado em CHAGURI, 2010, p. 174, grifo nosso).

PA1: [...] O documento passou a ser redigido por especialistas e tecnicos da SEED.

PA2: Nao saberia avaliar, pois tive contato apenas com o texto ja na sua fase de finalizacao e com alguns professores do Departamento de Ensino Medio, para os quais dei uma consultoria ao inicio do processo.

PA3: "Primeira fase, quando ainda havia o DEB e o DEM, foi bastante colaborativa", envolvendo reunioes e seminarios com os professores e consultores. Tivemos bastante liberdade para escolher a linha teorica de nossa preferencia, mas nenhum contato com as equipes das outras disciplinas, portanto nao faziamos ideia do que estava sendo feito nas outras disciplinas. Apenas ao final do processo pudemos ler os textos produzidos pelas outras disciplinas, que "para nossa surpresa nao pareciam destoar muito da nossa perspectiva no ingles. E verdade que a SEED mandava orientacoes novas a cada etapa do processo, exigindo que refizessemos a estrutura final do texto muitas vezes, inserindo informacoes ou excluindo, 'vetando' o uso de certos termos ou referencias diretas a textos especificos que nao pareciam ser do agrado do pessoal que conduzia o processo" (Resposta da questao seis, citado em CHAGURI, 2010, p. 177, grifo nosso).

Quando essas vozes sao condicionadas, pela Secretaria de Estado de Educacao -- SEED, a participar do processo de elaboracao das DCE-LEM, para a construcao de uma politica educacional que se oriente para um plano coletivo ao ensino de LE, elas em parte carregam em si seus desejos, seus valores e, posteriormente, o Documento inicialmente e configurado por diversos "eus" que fazem do discurso das DCE-LEM um texto tecido por multiplas outras vozes. No trecho a seguir das DCELEM e clara a tematica em questao.

Durante os anos de 2004, 2005 e 2006 a Secsretaria de Estado da Educacao promoveu varios encontros, simposios e semanas de estudos pedagogicos para a elaboracao dos textos das Diretrizes Curriculares, tanto dos niveis e modalidades de ensino quanto das disciplinas da Educacao Basica. "Sua participacao nesses eventos e suas contribuicoes por escrito foram fundamentais para essa construcao coletiva" (PARANA/SEED, 2008, p. 8).

As vozes dos professores que participaram da elaboracao das DCE-LEM, sao vozes que se constituem por outras diversas vozes, sendo estas, talvez, condicionantes do mesmo enunciado que precede as vozes que tecem o "eu" dos sujeitos entrevistados, que tambem constituem o seu "eu" com sentidos proprios discursivos, fazendo-nos perceber que o texto final das DCE-LEM compoe uma visao sancionada pela Instituicao (SEED) em relacao a uma politica de ensino de LEM. Essa caracteristica se traduz nas respostas dos questionarios aplicados aos entrevistados da pesquisa sendo perceptivel na voz da PA1 ao se referir ao processo de elaboracao das DCE-LEM.

Primeiramente e preciso marcar as diferentes etapas que caracterizaram as DCE. Por um lado havia o desejo de incluir o professor no processo, mas posteriormente o documento "passou a ser redigido por especialistas e tecnicos da SEED" (CHAGURI, 2010, p. 177, grifo nosso).

A resposta da PA3 nos mostra que apos ter sancionadas as vozes dos professores da rede publica estadual na elaboracao do Documento, o texto das diretrizes curriculares passou a ser redigido por especialistas e tecnicos da SEED, tendo entao a Secretaria o total controle dos encaminhamentos metodologicos do Documento sem haver a participacao coletiva dos professores de LEM da rede estadual de ensino. Contudo, conforme alega o Documento, o cenario configurado pelo seu texto final e de uma elaboracao participativa pelos diversos professores de LEM que integra a rede estadual de ensino do Parana.

Voce esta recebendo, neste caderno, um texto sobre concepcao de curriculo para a Educacao Basica e as Diretrizes Curriculares Estaduais (DCE) de sua disciplina. "Esses textos sao frutos de um longo processo de discussao coletiva, ocorrido entre 2004 e 2008, que envolveu os professores da Rede Estadual de Ensino" e, agora, se apresentam como fundamento para o trabalho pedagogico na escola (PARANA/SEED, 2008, p. 8).

Pelos encontros organizados e ofertados pela SEED, tais como: seminarios, simposios, grupo de estudo, DBE-Intinerante, NRE-Intinerante e grupo de estudos, a Secretaria silencia as vozes dos sujeitos participantes do processo de elaboracao das DCELEM, ao inves de utiliza-las para promover uma proposta educacional que se oriente para uma acao coletiva voltada para a educacao do ensino de LEM. Essa constatacao se fez perceptivel a nos, quando realizamos a analise da voz da PA3 da questao nove, a qual se referia se as politicas publicas adotadas pelo governo do Estado do Parana auxiliam os professores da rede publica com os principios adotados pelas DCE-LEM em sala de aula.

Acredito que nao. Ao inves de promover estudos e discussoes sobre as diretrizes, "esses grupos" parecem ter o objetivo de convencer os professores sobre "os preceitos" ditados nas diretrizes e, assim, nao questiona [sic] a proposta educacional e metodologica apresentada, mas sim tenta [sic] impor aos professores "novas praticas" (CHAGURI, 2010, p. 179, grifo nosso).

E importante ressaltar que, antes de adentrarmos a analise dos dados, junto as assercoes teoricas de alguns autores como: Basso (2005), Bohn (1997, 2000), Celani (1997, 2000b), Gimenez (2005b), ja tinhamos alguns nortes iniciais que nos davam uma orientacao de que o processo de elaboracao das DCE-LEM nao viabilizava um educar que se pautasse em um carater emancipador politico pelo idioma que seria a LEM, ja que as acoes educacionais, no cerne do Documento, encontravam-se ja sublinhadas de forma autoritaria no processo de elaboracao dele, dando-nos indicios claros por meio de duas, das vozes entrevistadas.

PA1: Em relacao a ultima versao: encaminhamento metodologico padrao nao fazia parte do escopo do texto.

PA3: De maneira alguma. O texto inicial, que acompanha todas as disciplinas, e inconsistente com a abordagem proposta para LE -- o referido texto advoga um retrocesso no trabalho significativo com a LE, colocando-se abertamente contra o cruzamento das fronteiras disciplinares (o texto afirma que cada disciplina tem um objeto de estudo, e que este objeto de estudo deve ser tratado DENTRO desta disciplina), em prol de um ensino conteudista e uma educacao transmissiva (CHAGURI, 2010, p. 178).

Para que as DCE-LEM assumam carater de um documento que se preocupe com as questoes politicas no ensino de uma LEM, o documento supracitado teria que ser constituido por discursos, isto e, composto por outras vozes participantes de um contexto enunciativo concreto que nao abafassem os sentidos dos "eus" discursivos dos entrevistados durante a elaboracao do Documento. Ao contrario disso, as vozes, ao se instaurarem em uma relacao dialogica e polifonica, fossem alem das vozes remanescentes de outros discursos atravessados por valores, que, conforme as assercoes bakhtinianas, se materializam na infinita cadeia de enunciado.

Conclusao

Em face de tudo que foi discutido neste artigo, a guisa de fechamento deste estudo, procuramos examinar o processo de elaboracao das Diretrizes Curriculares da Educacao Basica - Lingua Estrangeira Moderna, a partir das vozes que articularam todo o processo de confeccao de tal Documento, sempre guiados por uma literatura homogenea e um dispositivo teorico que nos possibilitaram reconhecer que a visao oficial das diretrizes curriculares, na verdade, e multifacetada, ou seja, a criacao do Documento nao expressa uma construcao coletiva e deliberada pelos professores da rede estadual de ensino e pelas professoras assessores que tiveram suas vozes sancionadas pela Instituicao, neste caso, o governo do Estado do Parana, por meio da Secretaria de Estado da Educacao do Parana.

Assim, concluimos que, durante todo o momento de construcao das DCE-LEM, a SEED manteve sua voz no cerne da elaboracao do Documento, e esta voz tambem se fez presente nos cursos de capacitacao continuada para os professores da rede estadual, na medida em que houve a autorizacao dessa Instituicao para o oferecimento dos cursos.

Nesta perspectiva, nao so no Documento, mas nos cursos de atualizacao para professores, a voz do sujeito que mantem os efeitos de sentido do discurso so se fez perceptivel ao se conceber o dialogismo como o espaco interacional entre o eu e o tu a partir dos questionarios aplicados aos sujeitos entrevistados, e da configuracao polifonica desses "eus" que passam a constituir as outras vozes na relacao dialogica oriundas das experiencias socio-historicas desses sujeitos (PRP e PA).

Infelizmente, ainda nao se estabeleceu uma articulacao politica do ensino de LE entre populacao em geral, legisladores e comunidade academica com o proposito de se produzir discursos e praticas significativas, para criacao e/ou efetivacao de uma politica educacional consistente que centre seus objetivos e compactue de uma mesma linguagem entre os sujeitos que compoem esse cenario. So sera possivel estabelecer uma formacao e capacitacao de professores tornando viavel um programa de politica de ensino de LE, que seja capaz de construir uma orientacao nacional coletiva na area da educacao de lingua estrangeira moderna.

DOI: 10.4025/actascieduc.v32i2.11219

Received on September 20, 2010.

Accepted on November 22, 2010.

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Jonathas de Paula Chaguri

Universidade Estadual do Parana, Colegiado do Curso de Letras, Av. Gabriel Esperidiao, s/n, 87703-000, Paranavai, Parana, Brasil. E-mail: jochaguri@fafipa.pr.gov.br

(1) Estudo originario de dissertacao de mestrado apresentado em 2010 ao Programa de Pos-Graduacao em Educacao da Universidade Estadual de Maringa, orientado pelo Prof. Dr. Mario Luiz Neves de Azevedo.

(2) E quando o enunciado nao e unico, ou seja, formado por uma unica voz, mas atravessado por posicoes discursivas diferentes que o constituem. Um mosaico de vozes que ecoam no dizer do sujeito.

(3) E o processo que da origem ao enunciado. Envolve a lingua, os sujeitos e as condicoes socio-historicas e ideologicas que os envolvem no momento em que um enunciado emerge, no ato em que a intencao enunciativa do falante se concretiza, assume a sua materialidade linguistica.
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Title Annotation:Texto en Portuguese
Author:Chaguri, Jonathas de Paula
Publication:Acta Scientiarum. Education (UEM)
Date:Jul 1, 2010
Words:9337
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