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As vogais medias do PB--UMA discussao sobre as coronais em sequencias vocalicas.

* RESUMO: Este estudo trata das vogais coronais medias em silaba tonica, em nomes da lingua, como parte de duas sequencias:/vogai coronal/ ... /o/ e /vogai coronai/.. /a/, fazendo referencia ao status fonermco das vogais medias baixas no sistema do portugues brasileiro A analise do fenomeno como processo metafonico da lingua tem base em abordagem fundamentada em restricoes, seguindo a proposta de Clements (2001).

* PALAVRAS-CHAVE: Sistema vocalico do portugues. Vogais medias coronais. Metafonia nominal. Sequencias vocalicas.

* ABSTRACT: This study focuses on the coronal mid vowels in a stressed syllable in nominal forms as part of two sequences: /coronal vowel/ ... /o/ and /coronal vowel/ ... /a/, referring to the phonemic status of low mid vowels in the Brazilian Portuguese system The analysis of the phenomenon, considered as a metaphonic process of the language, is based on an approach which uses constraints, following Clements (2001).

* KEYWORDS: Brazilian Portuguese vocalic system. Coronal mid vowels. Nominal metaphony Vocalic sequences.

Mid vowels in BP--A discussion on the coronal segments in vocalic sequences.

Introducao

Na fonologia do portugues brasileiro (PB), e reconhecido um sistema vocalico constituido por sete segmentos, com a presenca de duas alturas de vogais medias--medias baixas e medias altas (medias de 1[grados]grau e medias de 2[grados]grau, respectivamente, no dizer de CAMARA JUNIOR, 1970)--, conforme se observa em (1).
(1)

i            u
e            o         medias altas
[e]          c         medias baixas
      a


Tambem tem sido admitido que o funcionamento m totum de tal sistema, na fonologia da lingua, e dependente de um condicionamento, ja que a distincao entre as vogais medias exige informacao de natureza metrica: as vogais medias baixas somente se manifestam com valor distintivo em silaba que detem o acento primario da palavra prosodica.

Os exemplos que, na literatura da area, buscam evidenciar a distincao fonologica entre as vogais medias altas e baixas sao do tipo mostrado em (2)
(2)

  (2a)                (2b)

s/e/co        s/[e]/co
s/e/lo        s/[e]lo
p/e/so        p/[e]/so
f/o/rca       f/c/rca
s/o/co        s/c/co
p/o/to        p/c/sso


A observacao dos dados em (2) deixa entrever a tendencia a presenca da vogal media alta em nomes da lingua, como em (2a), sendo que a vogal media baixa tende a manifestar-se em formas verbais, como em (2b), podendo levar a uma hipotese preliminar no sentido de que a distincao fonologica entre as vogais medias do PB esta tambem condicionada pela morfologia da lingua.

Tal hipotese poderia encontrar suporte no fato de que o lexico da lingua contem um numero extremamente restrito de itens, listados em (3), que, pertencendo a mesma categoria morfologica--classe dos nomes--, se opoem pelo tipo de vogal media.
(3)

/e/le           /[e]/le
trav/e/ssa      trav/[e]/ssa
c/e/sta         s/[epsilon]/sta
f/o/rma         f/c/rma
av/o/           av/c/


Considerando, portanto, em um primeiro momento, os dois condicionamentos preliminarmente expostos para a presenca, no PB, das vogais medias, o presente estudo (3) vem aliar-se a Cagliari (1997, p.96), no sentido de questionar o status de fonema atribuido a esses segmentos vocalicos da lingua. Nessa linha de investigacao, tem o objetivo de apresentar consideracoes preliminares particularmente sobre a vogal media coronal em silaba tonica, em nomes da lingua, como parte de duas sequencias:/vogal coronal/.../o/ (ex.:/trevo/)e/vogal coronal/.../a/(ex.:/violeta/) (4). A analise do fenomeno tem base em abordagem fundamentada em restricoes, seguindo a proposta de Clements (2001).

Discussao preliminar

A investigacao da qualidade da vogal coronal em sequencias vocalicas--e, como parte do estudo, o questionamento do status de vogais medias--tem uma de suas bases na verificacao da previsibilidade da vogal labial media tonica do portugues na sequencia [o] ... [o] (exs.:novo, osso), como resultante do processo identificado como Metafonia Nominal, estudado por autores como Cavacas (1920), Silva Neto (1970), Camara Junior (1970), Mateus (1975), D'Andrade (1994) e Cafezeiro (1981), entre outros. Miranda (2000) caracteriza o fenomeno da Metafonia Nominal como sendo decorrente da aplicacao de uma regra lexical do nivel da palavra que altera a vogal media labial da raiz, quando o gatilho--a vogal tematica labial--, esta na borda da palavra.

A qualidade da vogal media alta labial na silaba tonica na sequencia [o] ... [o], segundo Miranda (2000), decorre de uma restricao fonotatica, representada em (5), pela qual, em um pe troqueu, as vogais medias labiais devem concordar quanto a altura, ou abertura, conforme a caracterizacao a esse parametro atribuida por Clements (1989) e Clements e Hume (1995). Cabe referir que, de acordo com a proposta dos autores para a abertura das vogais, o sistema vocalico do PB apresenta quatro niveis de altura, representado por tres tiers de abertura, cujo valor e binario, como aparece em (4).
(4)
           i/u   e/o   [??]/c   a

Aberto 1    -     -      -      +
Aberto 2    -     +      +      +
Aberto 3    -     -      +      +


Em (5), entao, e apresentada a restricao fonotatica recem descrita conforme proposta por Miranda (2000, p.160).

(5) Restricao fonotatica

[ILUSTRACION OMITIR]

A autora, considerando ser fonologica a sequencia /c/ ... /o/, explica que a restricao mostrada em (5) motiva a regra de metafonia. Formaliza essa regra conforme (6), explicando sua dupla funcao: desliga e espraia traco, em consonancia com os pressupostos da Fonologia Autossegmental: a assimilacao de altura/ abertura e, ao mesmo tempo, uma operacao que muda e que preenche traco (veja-se KENSTOWICZ, 1994, p.526).

(6) Regra da Metafonia

[ILUSTRACION OMITIR]

A regra em (6) estabelece que:

a) em uma sequencia de duas silabas, cujos nucleos sao vogais que compartilham o traco [labial], sendo a da direita uma vogal tematica (VT) com o traco [-ab3], atona por natureza, e a da esquerda [+ab3], tonica pela regra geral da lingua, o traco [+ab3] e desligado da vogal da esquerda, de acordo com a restricao em (4).

b) ocorre espraiamento de [-ab 3].

A partir dessa perspectiva, a Metafonia Nominal e um fato do portugues que envolve neutralizacao, considerada como desligamento, seguindo proposta de Clements e Hume (1995), e espraiamento de um tier do no de Abertura do segmento vocalico.

Da interpretacao do fenomeno da Metafonia Nominal no portugues com vogais labiais apresentada por Miranda (2000), utilizando o aparato teorico da Fonologia Lexical, merecem destaque dois aspectos: (a) a restricao fonotatica, vinculada ao pe troqueu, e (b) a indispensabilidade de as duas vogais da sequencia compartilharem o traco de ponto [labial].

Com base em tais resultados, em se tomando as sequencias objeto de estudo no presente artigo--sequencias/vogal coronal/ ... /o/ e /vogal coronal/ ... /a/ -, ve-se que em nenhum dos casos ha o compartilhamento do traco de ponto de vogal. Diante dessa constatacao, duas questoes passam a ter pertinencia: (a) A vogal coronal das sequencias referidas pode ser previsivel a partir da VT na borda direita da palavra, ou seja, a Metafonia Nominal atinge as vogais coronais do portugues? (b) Como nao ha o compartilhamento dos tracos de ponto das vogais da sequencia, a consoante interveniente pode contribuir para a definicao da qualidade da vogal coronal?

A relevancia e adequacao dessas questoes tambem advem do fato de que ha o entendimento, em Williams (1973), bem como em outros autores que estudaram a Metafonia Nominal, de que esse processo nao se restringiu a vogal media labial, tendo tambem atingido, na diacronia do portugues, as vogais medias coronais.

E ainda importante referir que pesquisa realizada, a partir de estudo experimental, confirmou a produtividade da regra de Metafonia Nominal com vogais medias labiais para evitar a sequencia [[... c [C.sub.0] o].sub.N], evidenciando a tendencia, ainda hoje, a rejeicao da citada sequencia por falantes de PB (MIRANDA, 2003); tal realidade poderia estar-se estendendo as vogais coronais.

Discussao dos dados do PB nas sequencias vocalicas foco do estudo

Os dados discutidos no presente estudo relativamente as vogais coronais em sequencias em que sao seguidas, na silaba seguinte, pelas vogais/o/e/a/sao retirados do Dicionario Eletronico Aurelio (versao 3.0) (5), sendo que tambem sao apresentados resultados de estudo experimental com falantes nativos de PB com referencia ao comportamento da sequencia/vogal coronal/ ... /a/.

Sobre a sequencia /vogal coronal/ ... /o/

Em se considerando a sequencia/vogal coronal/ ... /o/, o lexico da lingua mostra, pelo Dicionario Aurelio, um pouco mais de duas mil palavras, sendo a grande maioria constituida por vogais medias coronais altas na silaba tonica, formando a sequencia [e] ... [o]. Exemplos sao mostrados em (7) (6).
(7)

m[e]do
tr[e]vo
z[e]lo


Considerando-se tal predominancia, seria possivel defender-se a tendencia da lingua a aplicacao do processo de Metafonia nao somente nos nomes cuja sequencia apresenta as vogais medias labiais [o] .... [o], conforme descrito na secao 2, mas tambem em nomes com VT [o] cuja vogal precedente seja media coronal, constituindo, consequentemente, a sequencia [e] ... [o].

Ha, no entanto, itens lexicais, em um indice nao superior a 10% do total dos itens analisados, que apresentam a sucessao vocalica [[e]] ... [o]. A presenca da vogal coronal media baixa em tal sequencia, contudo, parece apontar para contextos determinados, estabelecidos pela consoante interveniente aos segmentos vocalicos: a vogal coronal media baixa predominantemente precede as plosivas [t] e [k] e as consoantes liquidas [l] e [r] em palavras do PB.

Um levantamento dos dados parece mostrar que essas consoantes podem propiciar a manifestacao da vogal coronal [[e]], fato indicativo de distribuicao complementar entre as vogais coronais na referida sequencia. Em (8) ha a expressao desse fenomeno.
(8)

(8a)

[[e] t o]             [e t o]
dir[[e]]to      tendencia geral
af[[e]]to
obj[[e]]to
arquit[[e]]to


A observacao dos dados em (8) mostra a tendencia geral (ver (8b)) a atuacao da Metafonia Nominal. Os casos em (8a) podem evidenciar a influencia da consoante interveniente as vogais em sequencia, provavelmente em razao de os segmentos vocalicos nao compartilharem o'ponto de articulacao, tal qual o fazem nos casos analisados como Metafonia do [o]. Pode ver-se, em (8a), a clara tendencia ao emprego da vogal media coronal baixa nas palavras em cuja forma latina o segmento vocalico e nucleo de silaba fechada pela consoante [k] (Exs.: directus, affectus, objectus, architectus) (7). Observa-se ainda, nos dados coletados, a presenca da vogal coronal media baixa em palavras que, em latim, em silaba aberta, portavam a vogal coronal breve e apresentaram contexto para uma mudanca metafonica que nao se verificou (Ex.: alfabeto, feto, neto, concreto) (8).
(8b)

[[e] k o]         [e k o]
tendencia geral   b[e]co
                  s[elco


Diferentemente dos dados registrados em (8a), em (8b), com a consoante interveniente [k], sao dois os unicos itens lexicais com a vogal media alta na sequencia aqui analisada. Poder-se-ia dizer que ha a tendencia ao emprego da vogal media baixa diante da plosiva [k] em decorrencia da forma sufixai diminutiva -eco, que pode ser considerada frequente na lingua (mais de 100 palavras sao registradas com a presenca desse sufixo).

Pode considerar-se ainda, em relacao a tendencia observada, que o emprego da vogal coronal media baixa precedendo a plosiva dorsal desvozeada [k] tem base de natureza fonologica, pois, segundo Ladefoged (1993), nas consoantes dorsais, ha uma pressao atras da obstrucao velar e, entao, um ligeiro abaixamento da lingua, o que pode ganhar mais intensidade nos segmentos desvozeados, motivando, assim, o abaixamento da vogal coronal precedente a esse tipo de obstruinte.

Em relacao as sequencias [[e] g o] versus [e g o], os dados apontam o predominio total da sequencia [e g o] na lingua, com a atuacao da Metafonia, registrando-se apenas tres ocorrencias da sequencia [[e] g o] nas palavras ego, cego, prego, as duas primeiras eruditas e, a ultima, um deverbal, em que o processo em [oco nao atua.
(Sc)

[[e] l o]         [e l o]
tendencia geral   cam[e]lo
                  z[e]lo
                  cab[e]lo
                  mod[e]lo


Os dados em (8c) evidenciam a predominancia da presenca da vogal coronal media baixa antecedendo a liquida lateral [l], havendo, na lingua, dez itens com a sequencia [e l o], oito casos de palavras eruditas e dois casos de emprestimos (modelo (it.) e sinuelo (esp.)).
(8d)

[e] r o]          [e r o]
tendencia geral   desespero
                  destempero
                  esmero
                  entrevero
                  pero


Em (8d), ha manifestacao da prevalencia do emprego da vogal coronal media baixa antecedendo a liquida nao-lateral [r], sendo que o uso da media alta na sequencia [e r o] e registrada em numero reduzido, em casos de palavras eruditas (Ex.: pero), em emprestimos (ex.: entrevero (esp)) e em deverbais.

Tomando-se, de forma conjunta, os dados em (8c) e em (8d), tem-se a evidencia de que as liquidas [l] e [r], intervenientes na sequencia/vogal coronal/ .../o/, acarretam o abaixamento da vogal coronal, o que poderia ser entendido a partir da caracteristica por elas compartilhada de poderem manifestar-se como aproximantes centrais alveolares (LADEFOGED, 1993), com a parte frontal da lingua elevada em direcao a area superior da boca--essa elevacao da lingua em uma consoante coronal soante e/ou aproximante pode, por dissimilacao, acarretar o abaixamento da vogal coronal precedente. Na verdade, Silva Neto (1970) ja havia observado a influencia das liquidas na qualidade das vogais, como condicionantes do abaixamento.

Os dados em (8), portanto, dao margem a possibilidade de defender-se a propensao, na lingua, a aplicacao do processo de Metafonia Nominal na sequencia /vogal coronal/ ... /o/, com a predominancia da forma [e] ... [o], com a tendencia de determinacao de contextos de emprego da vogal coronal media baixa [[e]] nessa sucessao de segmentos vocalicos, integrantes de silabas constitutivas de um pe troqueu na borda direita da palavra. Destaca-se, mais uma vez, a influencia das consoantes intervenientes nessas sequencias vocalicas em que nao ha compartilhamento de traco de ponto, diferentemente do que ocorre na Metafonia com as vogais labiais [o] ... [o].

Sobre a sequencia/vogal coronal/ ... /a/

Quanto a sequencia/vogal coronal/ ... /a/, o lexico da lingua mostra, pelo Dicionario Aurelio, tambem numero superior a duas mil palavras, sendo a maioria constituida por vogais medias coronais baixas na silaba tonica, formando a sequencia [[e]] ... [a], contrariamente aos dados apresentados na secao anterior. Apresentam-se exemplos em (9).
(9)

amar[[e]]la
f[[e]]ra
bon[[e]]ca
ad[[e]]ga


Esse resultado permitiria novamente defender-se a tendencia da lingua a aplicacao do processo de Metafonia nao apenas nos nomes cuja sequencia apresenta as vogais medias labiais [o] .... [o], de acordo com a descricao na secao 2, e nas sequencias [e] ... [o], conforme secao 3.1, como tambem em nomes com VF [a] cuja vogal precedente seja media coronal, constituindo, assim, a sequencia [[e]] ... [a]. Nesse caso, a altura da VT [a] estaria, entao, condicionando o emprego, na silaba tonica, da vogal coronal media baixa [[e]].

Sendo, entao, majoritario o emprego da vogal coronal media baixa com a VT /a/, toma-se necessario verificar se ha condicionamento para o emprego da media alta na sequencia [e] ... [a], a qual apresenta menor frequencia. Os dados parecem evidenciar a tendencia a um contexto definido, estabelecido pela consoante interveniente aos segmentos que constituem essa sequencia vocalica: a vogal coronal media alta tende a preceder uma consoante obstruinte coronal--[t], [d], [s], [z], [[??]] ou [[??]]. Antecedendo a liquida [r], a vogal [e], na referida sequencia em palavras do PB, apenas se manifesta em vocabulos de origem tupi. Vejam-se os exemplos em (10).
(10)

  (10a)

[e t a]             [e d a]
com[e]ta            alam[e]da
car[e]ta            s[e]da
viol[e]ta           labar[e]da

  (10b)

[e s a]             [e z a]
cabe[e]ca           fortal[e]za
cond[e]ssa          natur[e]za
trav[e]ssa          empr[e]sa

  (10c)

[e [??] a]          [e [??] a]
boch[e]cha          igr[e]ja
end[e]cha           band[e]ja
ventr[e]cha         cere[e]ja

  (10d)

[e r a]
macax[e]ra          (~ macaxeira)
cur[e]ra
gar[e]ra


A tendencia ao emprego da vogal coronal media alta em posicao precedente a uma plosiva coronal poderia ser atribuida a pressao no trato vocal antes da soltura repentina do ar, ou a essa mesma pressao no estreitamento do canal articulatorio para a producao de fricativas, com a presenca da elevacao da lamina da lingua, que e caracteristica dos segmentos coronais (LADEFOGED, 1993; CHOMSKY; HALLE, 1968). Embora a obstruinte coronal interveniente na sequencia/vogal coronal/ .../a/ tenha tendencia a tomar alta a vogal media, nao implica o total bloqueio a ocorrencia da Metafonia, ja que ha casos da presenca da coronal media baixa, em silaba precedente a VT/a/, nesses contextos--e o que se verifica, por exemplo, em itens lexicais como peca, atleta, bicicleta, teta, meda, inveja, exemplos de um numero restrito de casos no PB.

Consolidando o levantamento de dados obtido junto ao Dicionario Aurelio, ha os resultados de investigacao realizada por Matzenauer e Miranda (2005b), com o objetivo de verificar o comportamento de falantes nativos de PB relativamente ao tipo de vogal coronal media que tenderia a ocorrer na sequencia/vogal coronal/ .../a/. A pesquisa contou com estudo experimental, por meio da aplicacao de instrumento composto por 48 pequenos textos, os quais continham 69 palavras com a referida sequencia, ou seja, com um troqueu silabico em que a vogal coronal media aparecia a esquerda e a VT/a/ estava na borda direita da palavra prosodica. Tais textos, exemplificados no quadro 1, continham palavras inventadas e tambem algumas raramente usadas, supostamente desconhecidas dos falantes--essas palavras aparecem sublinhadas no referido quadro. A escolha dos itens lexicais foi determinada pelo controle das seguintes variaveis: tamanho da palavra, tipo de silaba e contexto segmental precedente e seguinte a vogal coronal.

O teste consistiu na leitura oral dos textos por 30 falantes nativos de PB, divididos em dois grupos por idade e por nivel de escolaridade: GRUPO A, formado por estudantes de 1[grados]grau, com idade entre 11 e 13 anos, e GRUPO B, formado por universitarios com idade superior a 24 anos. A leitura dos textos foi feita sem qualquer contato previo, pelos sujeitos, com o material escrito. A tarefa foi gravada e, apos, o entrevistador pedia aos sujeitos que comentassem sobre seu conhecimento ou nao relativamente as palavras lidas, como tambem sobre duvidas ou dificuldades que pudessem ter tido durante a leitura.

Os dados foram transcritos e organizados em tabelas, tendo sido excluidas as producoes em que houve alteracao, pelo sujeito, do segmento precedente ou seguinte a vogal coronal, bem como os casos em que houve mudanca do acento primario da palavra.
Quadro 1--Exemplos de textos do estudo experimental sobre o
comportamento da vogal coronal na sequencia/vogal coronal/ ... /a/

Encontramos no dicionario muitas variacoes para a palavra nadegas :
malgas, quadril, assento, traseira, lapeja, bozo, caneco, holofote,
landrias, lorto, boperra, padaria, popa, popo, poupanca, rabiosco,
rabioto.

O vaso de barro cozido, em forma de aro, e que, cheio de agua, se
poe a volta de uma planta, para impedir a passagem de formigas e
conhecido como arandela nos dialetos do norte e babocho no
centro-oeste.

A lingua semitica Amoreta atualmente extinta, era falada na regiao
que corresponde ao atual norte as Siria entre 2000 e 1500 a.C. Apos
esse periodo, a lingua adotada passou a ser a Pibera.

Aqua de barrela e onde se ferve a cinza que e usada para branquear
reupa. Essa agua e tambem conhecida como cenrada, coada, decoada,
lixivia.

A antela e uma variedade de tirso comum nas juncaceas.

Os penteeiros amaciam os pentes de alisar com a guera, instrumento
fundamental, assim como a egueta, para que possam executar seu
trabalho.


Os resultados desse estudo revelaram que ha uma tendencia, no PB, a preferencia pela sequencia [e] ... [a], e, portanto, pelo uso da vogal coronal media baixa em silaba tonica, quando a VT e/a/na borda direita de formas nominais, especialmente no contexto em que o segmento seguinte a vogal coronal e uma consoante liquida. Em tal contexto, os resultados chegaram a atingir o indice de 100% do emprego da vogal [e]. Exemplos sao mostrados em (11).

Alfa, Sao Paulo, 52 (2) 289-309, 2008-299
(11)

barr[e]la           pib[e]ra
bac[e]la            gu[e]ra
ant[e]la            gar[e]ra


Quanto ao emprego da vogal coronal media alta [e], constituindo a sequencia [e] ... [a], os dados evidenciaram que os sujeitos tenderam a emprega-la por motivacao morfologica, identificando-a como sequencia similar a sufixos da lingua, como [-eta] e [-eza]--nesses casos, o uso da media coronal alta [e] alcancou o indice de 100% em muitas palavras testadas no instrumento

Um fato que pode ser visto como comprobatorio da influencia morfologica no tipo de escolha da vogal coronal media alta no radical de nomes com /a/ como VT e que a identificacao da vogal coronal como integrante do sufixo ocorreu quando a palavra apresentava tres ou mais silabas. Exemplos aparecem em (12).
(12)

(a) sufixo [-eta]           (b) sufixo [-eza]

suf[eta]                    pav[eza]
mof[eta]                    ref[eza]
zur[eta]                    dav[eza]


Considerando os exemplos mostrados em (12b), e interessante registrar que um sujeito desse estudo apresentou metatese na palavra "verdizela" e, em lugar de produzir a forma "verdiz[e]la", como o fizeram os outros sujeitos, realizou a forma "verdil[eza]", em razao do sufixo [-eza] existente e operante na lingua

Os resultados do estudo, portanto, mostraram que a morfologia da lingua e a consequente interpretacao de sufixos como unidade morfologicas sao responsaveis por bloqueio a Metafonia Nominal na sequencia formada por/vogal coronal/ ... /a/. Alem disso, os dados tambem evidenciaram a tendencia a aplicacao do processo de Metafonia na sucessao vocalica analisada, com a manifestacao predominante da sequencia [e] ... [a].

E importante ressaltar que contextos favorecedores da vogal coronal media baixa na sequencia/vogal coronal/ ... /o/--as consoantes intervenientes [t] e [k] e as consoantes liquidas [l] e [r]--continuam sendo condicionadoras do uso da mesma vogal media baixa na sequencia/vogal coronal/ ... /a/, com a diferenca de que [t] deixa de ser fator condicionante quando e interpretado corno integrante do sufixo [-eta], o que ocorre no maior numero de itens lexicais. Assim sendo, nesta sequencia aparece a vogal media alta diante [k] somente na palavra enxaqueca (de origem arabe), diante de [g] nao ha qualquer caso da media alta nessa sequencia, diante da liquida [l] ha somente a palavra estrela (forma erudita) e diante de [r] ha duas palavras: pera e cera (tambem formas eruditas)--com essas consoantes intervenientes, portanto, sao prefendas tanto a sequencia [e] ... [o], como a sequencia [e] ... [a].

Diante de tais fatos--tanto os relativos ao levantamento de dados no Dicionario Aurelio, como os referentes ao estudo experimental aqui relatado--, tem se que, conforme se verificou anteriormente em relacao a sequencia/vogal coronal/ ... /o/, tambem em se tratando da sequencia/vogal coronal/ ... /a/, ha a tendencia, no PB, a manifestacao da Metafonia Nominal. Em comum as duas sequencias aqui referidas, ha tambem o fato de que, por nao compartilharem traco de ponto de articulacao, as vogais delas constitutivas--diferentemente do que ocorre com a sequencia de vogais labiais [o] ... [o]--podem sofrer influencia da consoante a elas interveniente, bem como do funcionamento de unidades morfologicas, como o caso de formas sufixais da lingua.

Abordagem do fenomeno com base em restricoes

Sobre o Modelo de Economia Representacional com Base em Restricoes

O presente estudo segue a abordagem teorica com base em restricoes proposta por Clements (2001), seguindo a analise de fenomenos assimilatorios, inspirada no mesmo autor, proposta por Matzenauer e Miranda (2003, 2005a, 2005b).

Assumindo um Modelo de Economia Representacional com Base em Restricoes, Clements (2001) considera que os tracos estao minimamente especificados, nas linguas, nos niveis lexical e fonologico. No nivel lexical, somente estao presentes os tracos ou valores de tracos que sao distintivos no sistema; o nivel fonologico contem as especificacoes de tracos necessarias para a expressao dos padroes fonologicos da lingua. Por essa abordagem minimalista, a representacao de tracos, em cada nivel, depende de cada sistema, uma vez que, dentre o conjunto universal de tracos, integrarao as representacoes dos falantes de uma lingua aqueles tracos que puderem ser descobertos como resultado de sua experiencia lingulstica, pelo fato de esses tracos cumprirem o papel ou de distinguir significados, ou de definir padroes fonotaticos ou de expressar alternancias.

A proposta teorica apresenta as seguintes pressuposicoes (CLEMENTS, 2001):

a) os processos fonologicos sao regulados por restricoes,

b) as restricoes sao universais,

c) as restricoes podem estar ordenadas hierarquicamente,

d) as restricoes podem ser violadas em representacoes de superficie,

e) as representacoes sao alteradas somente para eliminar violacoes a restricoes.

Segundo o principio de Economia Representacional, integra a representacao lexical somente um valor--a tendencia e que seja o valor marcado--de qualquer traco que seja distintivo em um dado sistema. Para evitar problema quanto a determinacao do valor do traco a ser especiflcado nesse nivel, Clements (2001) defende que ha uma escala universal de acessibilidade de tracos; no topo dessa escala estao os tracos altamente favorecidos na construcao de sistemas de fonemas, enquanto abaixo estao aqueles de menor acessibilidade, usados distintivamente em uma minoria de linguas.

Segundo a estrategia de simplificacao maxima de representacao de tracos, sao levados para o nivel seguinte ao lexical, ou seja, para o nivel fonologico, os mesmos tracos ja especificados lexicalmente, sendo que as representacoes fonologicas podem ter a adicao de tracos redundantes, desde que sejam necessarios para expressar padroes fonologicos daquele determinado sistema. Segundo Clements (2001), a construcao da representacao fonologica ocorre pela ativacao de tracos. Considera-se ativo para qualquer segmento ou classe de segmentos o valor de um traco que satisfaca um termo em uma restricao que mencione aquele traco. Uma restricao do tipo SPREAD ([nasal]), por exemplo, ativara o traco [nasal] em todo segmento que porte esse traco em sua descricao fonologica completa, estando presente ou nao em sua representacao lexical (CLEMENTS, 2001). Uma restricao que proiba plosivas surdas apos segmentos nasais (como *NT: *[+nasal] [-voz, -cont]) tambem ativa o traco [nasal]; e o que ocorre na lingua Zoque, por exemplo.

Seguindo a proposta de Clements (2001), no nivel fonologico, a representacao dos segmentos contera, portanto, os tracos ativos no sistema, mas, diferentemente da Fonologia Autossegmental classica, seguindo, agora, o principio da economia representacional, somente serao autossegmentalizados os tiers e os tracos considerados proemmentes. A proeminencia e atribuida ao tier ou traco que tiver comportamento genuinamente autonomo, ou seja, o valor de um traco ativo ou de um no X sera proeminente se X for o argumento de uma restricao (SPREAD (X), AGREE(X) OU OCP(X)) ou se X for um traco flutuante, por exemplo (CLEMENTS, 2001). Assim, os valores de tracos proeminentes sao um subconjunto dos tracos ativos no sistema.

Essa restricao a proeminencia e a projecao de tracos e de nos acarreta que, diferentemente do anterior modelo da Fonologia Autossegmental, a autossegmentalizacao de tracos e de nos dependera de cada lingua: os tracos serao autossegmentalizados somente nas linguas em que se mostrarem proeminentes. Esse fato, no entanto, nao contradiz a predicao da existencia de uma geometria universal de tracos. Para manter tal predicao, Clements (2001, p.88) propoe, como condicao de projecao, que "[...] todos os constituintes nas representacoes de tracos de uma dada lingua tenham de ser constituintes da hierarquia universal de tracos."

Uma retomada da Metafonia Nominal, nas sequencias/vogal coronal/ ... /o/ e/vogal coronal/ ... /a/, a luz de Clements (2001)

Com base na Economia Representacional de Tracos, proposta por Clements (2001), propoe-se a representacao fonologica para vogais medias mostrada em (13), reproduzida de Matzenauer e Miranda (2005a, p.350).

(13)

[ILUSTRACION OMITIR]

Em um sistema fonologico que integre vogais medias coronais e dorsais, com dois niveis de alturas--medias altas e medias baixas--, a representacao fonologica das vogais medias altas (exemplificada em (13a)), bem como a das vogais medias baixas (exemplificada em (13b)) apresentam tracos que, por serem distintivos, integram a representacao lexical da lingua e passam para o nivel fonologico. Considerando se que, no portugues, integrem a fonologia os dois graus de altura das vogais medias, em (13) estao representados tracos ativados especificamente no nivel fonologico, uma vez que sao termos de restricoes que regulam processos que integram a fonologia das vogais da lingua. O no de abertura e proeminente e projetado autossegmentalmente por constituir argumento de restricOes do tipo SPREAD (X) e AGREE (X), que operam na fonologia do portugues. Estao presentes nas representacoes apenas os tracos pertinentes para a discussao focalizada no presente artigo.

Dois tipos de restricoes sao relevantes para a discussao deste estudo: SPREAD e AGREE. Segundo a visao geral delineada por Clements (2001), SPREAD e restricao caracterizadora de processos assimilatorios que criam alternancias, nos quais os segmentos intervenientes sao compativeis com o espraiamento de tracos; diferentemente, AGREE deve ser usada particularmente como restricao de estrutura morfemica estatica, podendo ser relativa a concordancia entre segmentos a longa distancia (nao-local), em que nao haja qualquer alternancia (9). Portanto, AGREE e fato fonologico cuja natureza e de similitude e nao de assimilacao.

Com base na proposta de Clements (2001), a Metafonia Nominal, que ate o momento foi vista como processo decorrente de espraiamento de tracos, da mesma natureza da Harmonia Vocalica, pode ser entendida diferentemente. Com a mesma sequencia do input encontrada na Harmonia Vocalica, ou seja, V C[V.sub.2], a Metafonia Nominal apresenta especificidades, dentre as quais se destacam as seguintes: categorica quando as vogais compartilham o mesmo ponto de articulacao (10), produtiva com vogais medias labiais e coronais e, tambem, apresenta como vogal gatilho do processo uma vogal tematica (VT) de fronteira vocabular. A partir da proposta de Miranda (2000)--segundo a qual a lingua registra invariavelmente, para todo input que tenha vogal media baixa labial no radical, o output com a sequencia [o] ... [o] quando a VT labial fica na borda da palavra--, e possivel reconhecer-se esse fenomeno como um 'estabelecimento de sequencia', uma exigencia que a lingua estende inclusive a emprestimos (11), e nao como espraiamento.

Ao final de sua pesquisa sobre a Metafonia Nominal no portugues do Brasil, Miranda (2000, p. 179) afirma que "[...] a analise dos dados mostrou que a tendencia da lingua e nao produzir formas nominais nas quais se superficializem duas vogais medias labiais--uma no limite do vocabulo e outra portadora de acento--que nao combinem em relacao ao valor do traco [aberto 3]." Com essa caracterizacao, a Metafonia Nominal esta evidenciando natureza de "harmonia estatica", que nao produz alternancias nesse contexto especifico, mostrando ser um caso de similitude necessaria. Para expressar tal fenomeno, parece mais apropriada uma restricao da familia AGREE (X), do que uma restricao da familia SPREAD (X). OS membros da familia AGREE (X) exigem que todos os nos que encontrem certas condicoes sejam identicos, mas nao ha exigencia de que compartilhem um no por espraiamento (CLEMENTS, 2001).

Caracteriza-se, pois, a Metafonia Nominal que envolve vogais medias labiais com a restricao proposta em (14), seguindo Matzenauer e Miranda (2005a, p.351).

(14) AGREE([AB])[].sub.N]--Dada uma sequencia V C[V.sub.2] no input, na qual [V.sub.1] e [-abl, +ab 2] e [V.sub.2] e [+ab 2, -ab3], tendo ambas o traco [labial] e sendo [V.sub.2] uma VT na borda da palavra, na forma de output o no de abertura de [V.sub.1] deve ser identico ao no de abertura de [V.sub.2] (12).

Considerando-se, neste estudo, a Metafonia Nominal como um processo que tambem se aplica as vogais medias coronais, tendo como VT tanto a vogal media labial/o/como a vogal baixa/a/, de acordo com os dados apresentados nas secoes 3.1 e 3.2, a restricao proposta em (14) pode ser reinterpretada com mostrado em (15).

(15) Agree([Ab])]N--Dada uma sequencia[V.sub.1]C[V.sub.2] no input, na qual [V.sub.1] e [-ab1, +ab 2], e [V.sub.2] e [+ab 2, [+ or -] ab3], sendo [V.sub.2] uma VT na borda da palavra, na forma de output o no de abertura de [V.sub.1] deve ser identico ao no de abertura de [V.sub.2] para os tiers [ab2] e [ab3].

Comparando-se as duas formulacoes para a restricao AGREE aqui apresentadas, aquela mostrada em (15) traz duas vantagens: (a) especifica [V.sub.1] apenas como vogal media, sem determinacao de ponto, permitindo abranger vogais coronais e labiais, e (b) nao especifica plenamente a altura de [V.sub.2], abrindo a possibilidade para que seja media ou baixa, permitindo, assim, abranger as vogais tematicas/o/e/a/.

Com esse encaminhamento, a restricao AGREE ([AB])[].sub.N] caracteriza-se pela evitacao de uma dada configuracao, ou melhor, por uma sequencia de tracos indesejada na lingua, representada em (16).

(16)

[??][??]

* [V.sub.1...] [V.sub.2VT][].sub.N]: *[ab2, Bab3] ... [ab2, Bab3]

A analise da Metafonia Nominal com o uso da restricao AGREE ([AB])[].sub.N] implica, portanto, uma copia de tracos. Alem disso, como resultado da operacao de uma restricao da familia AGREE, com base na proposta de Clements (2001), mostra-se como processo que evita uma configuracao indesejada na lingua. Tal descricao e capaz de conferir a Metafonia Nominal a particularidade de estabelecimento de sequencia que a identifica como processo da fonologia do PB.

Por outro lado, quando ha bloqueio ao processo de Metafonia Nominal --conforme foi observado nos exemplos em (8) e em (11), em se tratando das sequencias/vogal coronal/ ... /o/ e /vogal coronal/ ... /a/ --, havendo interferencia da consoante interveniente nessa sucessao de vogais, talvez tal processo possa ser visto como decorrente da restricao SPREAD nos termos de Clements (2001). Nesse caso, um traco da consoante estaria espraiando para a vogal coronal precedente, o que poderia ser representado por uma restricao como em (17).

(17)

[??] [??]

* [V.sub.1] C [V.sub.2VT][].sub.N]: * [V.sub.1] [atraco] ... C[Btraco]

Estudos mais aprofundados e com maior numero de dados, no entanto, precisam ser realizados para o desenvolvimento dessa proposta. Vale salientar, no momento, que tal posicao e consistente, uma vez que, conforme defende Clements (2001), SPREAD funcionaria como um reparo a uma restricao que seja contraria a determinada sequencia na lingua, configurando-se em uma restricao caracterizadora de processos assimilatorios que criam alternancias. Como exemplo, o autor refere que considera ser o espraiamento o unico processo usado para reparar violacoes a restricoes que proibem sequencias nao-palatalizadas (*TI) ou a restricoes contrarias a sequencias nasal-oral (*NV, onde V e oral). Nesses casos, segundo Clements, se for usada uma restricao como ALIGN, por exemplo, em lugar de SPREAD, as estrategias de reparo ficarao supergeneralizadas na tipologia fatorial, predizendo, por exemplo, que violacoes a restricao *NV poderiam ser reparadas pela oralizacao da nasal, ou por seu apagamento, ou, ainda, por outro tipo de operacao fonologica.

Como decorrencia das discussoes ate aqui apresentadas, considerando se ativo, no PB, o processo de Metafonia Nominal que possa ter como alvo tanto vogais labiais como coronais, alem de poder ter, como gatilho, tanto vogais medias como baixas, e entendendo-se que os casos de bloqueio a Metafonia podem ser explicados como efeito assimilatorio a partir da consoante interveniente na sequencia de vogais que estariam sujeitas a Metafonia, pode-se interpretar corno previsivel o emprego de vogais medias baixas na lingua. A partir dessa inferencia, e possivel, entao, questionar-se o status de fonema atribuido a esses segmentos vocalicos e passar-se a interpretar como fonemas da lingua apenas uma altura de vogais medias. Mais estudos, sem duvida, precisam ser encaminhados nesse sentido.

Consideracoes finais

Com a discussao apresentada no presente estudo, foi possivel apresentaremse respostas as duas questoes propostas: os resultados apontam que a Metafonia Nominal atinge nao somente vogais medias labiais, como tambem vogais medias coronais, evidenciando ser essa uma tendencia do PB. Indo alem, os dados evidenciaram que, diferentemente do que ocorre em se tratando da sequencia de vogais medias labiais, diante das sequencias/vogal coronal/ ... /o/ e /vogal coronal/ ... /a/, em que os segmentos vocalicos nao compartilham o ponto de articulacao, o processo de Metafonia pode ser bloqueado pela consoante interveniente nessas sucessoes vocalicas, contribuindo para a definicao da qualidade da vogal coronal.

Em se verificando poderem ser determinados os contextos de emprego das vogais medias baixas, o estudo da ensejo a que se questione o status de fonema, conforme ja havia sido feito por Cagliari (1997), abrindo espaco para novas e necessarias investigacoes nesse sentido.

Alem disso, com fundamento nos pressupostos assumidos por Clements (2001), o estudo pode apresentar nova caracterizacao a Metafonia Nominal, como um processo determinado por uma restricao da familia Agree, diferenciando-se daqueles que, sendo processos assimilatorios que mostram alternancia e que implicam espraiamento de tracos, sao decorrentes de restricao da familia Spread Os resultados ora obtidos poderao ter sua consistencia corroborada, na medida em que um maior numero de dados e uma analise ainda mais detalhada venham a ser apresentados.

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Recebido em marco de 2008

Aprovado em junho de 2008

Carmen Lucia Barreto MATZENAUER (1)

Ana Ruth Moresco MIRANDA (2)

(1) UCPEL--Universidade Catohca de Pelotas Escola de Educacao Programa de Pos-Graduacao em Letras. Pelotas--RS--Brasil 96020-080--carmenluc@terra com br

(2) UFPEL--Universidade Federal de Pelotas. Faculdade de Educacao--Departamento de Ensino--Programa de Pos-Graduacao em Educacao Pelotas--RS--Brasil 96020-720--anaruthmiranda@hotmail.com

(3) O presente artigo esta integrado ao Projeto de Pesquisa "Descricao Socio Historica das Vogais do Portugues do Brasil", coordenado academicamente pelo Prof Dr Seung Hwa Lee (UFMG)

(4) O presente trabalho integra pesquisa apoiada pelo CNPq--Processo no. 304138/07-0

(5) Na lista de referencias consulte Ferreira (1999).

(6) A pesquisa no Dicionano Aureho foi realizada por meio de uma 'mascara', a qual extraiu palavras que continham as sequencias aqui estudadas, sendo que a observancia da abertura da vogal media na silaba tomca foi [alta palavra a palavra As 'mascaras' *e?a e *e?o geraram listas de palavras nas quais havia apenas uma consoante interveniente as sucessoes vocalicas pesquisadas A investigacao de estruturas que continham codas e onsets complexos foram feitas separadamente, com mascaras mais especificas. Ainda que esses ultimos dados nao tenham sido objeto de analise especifica neste estudo, nao chegam a alterar os resultados aqui alcancados.

(7) Talvez haja uma tendencia ao emprego dessa vogal em silaba fechada tambem por outras consoantes (Ex: certo, do latim certus) A continuidade das investigacoes podera apontar para a existencia ou nao dessa tendencia.

(8) De acordo com a evolucao do sistema vocahco do portugues, as vogais medias baixas sao derivadas de vogais latinas medias breves e as medias altas sao denvadas de medias longas e altas breves do latim

(9) Comunicacao pessoal com o autor.

(10) E o que ocorre com as vogais medias labiais: as unicas excecoes que envolvem o processo com as sequonclas de vogais medias labiais sao registradas em palavras que tem a particularidade de terem entrado na lingua via erudita (MIRANDA, 2000, p 146)

(11) Para exemplos, veja-se Miranda (2000, p 145)

(12) A restricao em (13) apresenta a formulacao de restricoes utilizada por Clements; para exemplo, veja se PL-ASSIM (CLEMENTS, 2001, p 104).
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Author:Matzenauer, Carmen Lucia Barreto; Miranda, Ana Ruth Moresco
Publication:Alfa: Revista de Linguistica
Article Type:Report
Date:Jul 1, 2008
Words:7696
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