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As videocriaturas de Otavio Donasci: faces humanas no mundo digital.

The Videocriatures of Otavio Donasci: human faces in the digital world

Introducao

Otavio Donasci (Figura 1) nasceu em Sao Paulo, em 1952. Graduado em Comunicacao Visual e Mestre em Artes Plasticas, atua como artista multimidia, diretor de criacao e de espetaculos teatrais.

Como performer multimidia, diretor e cenografo, se projeta na cena artistica brasileira e internacional com seus trabalhos e experimentacoes na area de criacao artistica e seus entrelacamentos com a tecnologia e seus meios.

Na decada de 1980, inicia suas videoperformances quando cria suas videocriaturas, apresentadas em festivais de teatro e de video no Brasil e no exterior, conduzindo Donasci a receber varios premios por seus trabalhos.

As videocriaturas concebidas pelo artista (Figura 2), sao seres hibridos, uma especie de cyborg, (meio gente e meio maquina) com um monitor de TV colocado, por armacoes de plastico moldado a quente, sobre um ator escondido sob mantos pretos. Cada tela de monitor, ligada por cabos a um gravador de video, nos apresenta a imagem de um rosto recitando monologos ou dialogando ao vivo com o publico ou com outras videocriaturas.

1. Os experimentos de Donasci

As videocriaturas nascem da intencao do artista de fundir ideias e trabalhos anteriores, ja realizados por ele. Nascem de 3 vertentes, do desenho, pois Donasci ja foi cartunista na decada de 1970, das possibilidades do teatro e do contato com as tecnoimagens, incialmente a fotografia. Essa fusao faz surgir a videocriatura, dando origem a linguagem do videoteatro, conceito tambem criado por Donasci.

No processo de construcao da videocriatura, o artista vai realizando intervencoes de forma, tamanho e luminosidade, com o pretexto da adaptar a obra a cada situacao de apresentacao, dando origem a diversas definicoes de videocriaturas que desenvolveu. Utilizando-se do aparato tecnologico que a compoe, a videocriatura entra em cena com luz propria, nao necessitando de um holofote ou foco de luz externo, fato comum em apresentacoes teatrais.

Suas videocriaturas ganham repercucao na cena artistica brasileira quando passam a integrar performances de outos artistas, como em 1989, na apresentacao de A Revolucao francesa, com direcao de Jose Roberto Aguillar (1941) e em 1982, na leitura dramatica do texto O Homem e o Cavalo, de Oswald de Andrade (1890-1954), realizada pelo Teatro Oficina em 1986, nas apresentacoes do compositor estadunidense John Cage (1912-1992) no Brasil.

2. As referencias das videocriaturas

Otavio Donasci busca referencia artistica no sul-coreano Nam June Paik (1932-2006). Paik trabalha com agrupamentos de aparelhos de televisao, e nos faz pensar sobre possibilidades incomuns no uso desses aparelhos.

Em 1964, Paik se mudou para Nova Iorque e comecou a trabalhar com a violoncelista classica Charlotte Moorman, combinando video, musica e performance. Na obra TV Cello, apresentada em 1971, na Galeria Bonino, em Nova Iorque, o artista empilhou televisores, adquirindo a forma de um violoncelo. Quando a violoncelista puxa seu arco sobre as cordas do violoncelo, imagens dela e de outros violoncelistas aparecem nas telas dos televisores.

O sul-coreano tracava uma nova narrativa para o aparelho de televisao, criando uma performance com os televisores, um jogo simbolico entre a imagem e o real.

Outro artista contemporaneo a trabalhar com expressoes humanas e suas replicacoes nos meios tecnologicos, e o norte americano Tony Oursler (1957). Oursler trabalha com projetores em sua Instalacao The Whatching (1991), onde articula faces humanas expressivas animadas em projecoes de video ou ainda na obra Composite Still Life (1999), onde cabecas falantes entram em cena no espaco expositivo. Se Oursler substitui ao longo de sua carreira os televisores por projetores contemporaneos, as videocriaturas de Donasci tambem iniciam um processo de modernizacao de dispositivos, e suas projecoes alcancam um espectro mais elastico, de possibilidades de projecao, de tamanhos e situacoes performaticas que o artista passa a experimentar no sentido de uma digitalizacao de suas videocriaturas.

Sao dispositivos, que ora possuem uma funcao, ora outra. Um aparelho de televisao passa a ser manipulado na sua capacidade de projetacao de imagens e sons, a partir da arte da performance e do teatro, (ou da expressao humana), subvertidos a um dispositivo tecnologico, passando a funcionar como rampa de acesso ao mundo digital ao qual estamos imersos no seculo XXI.

Giorgio Agamben dialoga sobre as possibilidades dos mecanismos que a tecnologia nos oferece, nos dispositivos que potencializam ou absorvem as linguagens artisticas "O modo em que estao dispostas as partes de uma maquina ou de um mecanismo e, por extensao, o proprio mecanismo." (Agamben, 2007:34).

3. Os desdobramentos

A partir desses mecanismos, Otavio Donasci cria formas alternativas de expressao artistica, tomando como base a propria tecnologia que impacta nossas vidas, transformando assim, nao apenas as imagens refletidas no aparelho televisivo, mas incorporando o proprio aparelho de televisao como arte, sua forma e estrutura, baseado em performances, Otavio produz narrativas caracterizadas por aparicoes. E o caso da estreia da videocriatura, em aparicao realizada nos anos 1980, na galeria Sao Paulo/SP: em cena, um corpo, cuja cabeca e substituida por um monitor de televisao (que na epoca possuia formato abaulado e em preto e branco, murmurando sons em alguma lingua estranha).

O artista cria tambem os videomanequins (Figura 3). Esculturas com rosto representado por uma projecao de video, um manequim que adquire feicoes proprias, ganhando vida e possibilidade de dialogo. A representacao facial expressa no suporte de video incorpora a linguagem teatral, trocada pela representacao facial do ator pelo video-rosto, usando como base um manequim tradicional. Ao ampliar os dispositivos de suas projecoes, Donasci atinge um numero maior de expectadores, e suas performances e experiencias passam a adquirir um aspecto de espetaculo, frequentemente associado as linguagens artisticas imersas na sociedade contemporanea, "O espetaculo nao e um conjunto de imagens, mas uma relacao social entre pessoas, mediada por imagens." (Debord, 1997:14).

A proposta do artista busca a ampliacao dos recursos expressivos do ator com a incorporacao da linguagem dos meios audiovisuais. O video ganha a dimensao cenica do teatro, libera-se da fatalidade do bidimensional e pode relacionar-se fisicamente com o publico (Figura 4). Assim, o videoteatro cria uma linguagem hibrida, que une as formas mais antigas de expressao da humanidade juntamente com as linguagens proporcionadas pela tecnologia.

As imagens e os atores dialogam com o publico, num jogo de cena que mistura o ser humano e a maquina, a expressao facial do ator encapsulada no monitor. Esse dialogo acontece de forma humana, mas mediado pelos codigos propostos pelo artista em suas experimentacoes cenicas.

O carater cenico dos codigos bidimensionais tem como consequencia um modo de vida especifico das sociedades por elas programadas. Eles podem ser denominados de "forma magica da existencia". Uma imagem e uma superficie cujo significado pode ser abarcado num lance de olhar: ela sincroniza a circunstancia que indica como cena. (Flusser, 2007:127).

O artista concebe e produz varios prototipos de videocriaturas. O videofantoche, por exemplo, utiliza um monitor de apenas 5 polegadas, imitando um boneco de apresentacoes de teatro infantil, que se manipula com os dedos, levando ao extremo as possibilidades fisionomicas dessa videocriatura ou fantoche.

No festival Videobrasil de 1984, Otavio Donasci utiliza uma grande videocriatura fazendo uso de um monitor de 24 polegadas, em cima de dois atores. Nesse mesmo festival, apresenta tambem uma importante inovacao de seus experimentos, a tomada da imagem simultanea com a intervencao dos personagens, condicao que possibilita as suas videocriaturas a improvisacao e o dialogo direto com o publico.

A arte contemporanea e a sua imagem--Este espelho estendido aos artistas e onde podem ver o conjunto--o sistema da arte contemporanea reflete a construcao de uma realidade um pouco diferente da que prevalecia ha algumas decadas. (Cauquelin, 2005:56).

Como ator e diretor recebe varios premios, entre eles em 1988, o Premio Lei Sarney de Arte Multimidia, celebrando uma decada das videocriaturas, expandindo esses trabalhos para programas de televisao, teatros e espacos publicos.

Outro exemplo de videocriatura, agora de grandes proporcoes, e Hydra (Figura 5), com 4 metros de altura e 2 metros de largura. O rosto inflavel da Hydra e montado no alto de um guindaste de 20 metros de altura e composto por duas faces femininas projetadas no inflavel, uma branca e outra negra, representando sentimentos como a docura e a agressividade da mulher.

Na relacao entre a videocriatura e o publico encontramos um ambiente de possibilidades, de multiplas trocas onde "cada um e potencialmente emissor e receptor num espaco qualitativamente diferenciado, nao fixo, disposto pelos participantes, exploravel." (Levy, 1996:113).

As videocriaturas funcionam como agentes articuladores que aproximam as faces humanas da arte, convergendo-as para o universo da tecnologia. Causam estranhamento a primeira vista, mas ao perceber a integracao entre homem e maquina, concluimos que o novo pode e deve consolidar-se na sociedade e contribuir para as extesoes do corpo humano em suas atividades contemporaneas (Figura 6). A proposta artistica de Donasci discute a expressao humana individual e sua relacao com o coletivo, abarcados pelos recursos tecnologicos que o seculo XX nos apresenta no campo das linguagens artisticas, criando uma nova e potente forma de expressao em arte, pelo corpo humano e suas limitacoes, seguindo um caminho inevitavel da incorporacao da tecnologia pela arte na contemporaneidade.

Nesse sentido, substitui a feicao do personagem pela persona, pela mascara, arrancando o teatro do edificio em que se realiza, o transportando para o ambiente tecnologico. A nova cena agora emerge como mistura de elementos de outras linguagens artisticas, como as artes visuais, a danca, o cinema e a musica, cristalizando o carater hibrido da obra de Donasci.

Conclusao

Otavio Donasci discute por meio de suas obras entituladas videocriaturas, experimentacoes artisticas que nos abarcam na sociedade atual. A imagem de uma face enquadrada pelo frame de um aparato audiovisual faz parte da rotina contemporanea dos individuos. Dessa forma, nos faz pensar que fazemos parte de uma grande imersao, seja pelas imagens resignificadas pelas maquinas e computadores, ou por objetos artisticos e suas tecnicas de montagem no campo tridimensional da arte.

Seus procedimentos maquinicos em busca da experiencia artistica funcionam como elo de conexao entre a arte fisica e a arte digital embrionando as possibilidades de criacao que o hardware e o software nos apresentam no final do seculo passado e no seculo que estamos vivendo.

Por meio da sensibilidade e do dialogo da tecnologia que o artista propoe pela imagem humana, pela expressao individual que alcanca a esfera publica nas suas experimentacoes entre videos e performances, percebemos o alcance mutiplo de sua criacao. Suas videocriaturas nao somente dialogam no sentido estetico com o publico, mas dialogam "verdadeiramente".

Dessa maneira, seus trabalhos e experimentacoes sao relevantes para a contemporaneidade e propoem a hibridizacao da expressao da face humana resgatada pelos recursos multimidias disponiveis nas ultimas decadas do seculo XIX, utilizando de maneira inovadora possibilidades virtuais com tecnologia analogica antecipando efeitos e contrastes do emergente territorio contemporaneo da arte digital.

As videocriaturas do artista Otavio Donasci caminham rumo a 4 decadas de existencia, e ficam cristalizadas no percurso da arte contemporanea brasileira como potentes experimentos artisticos no entrelacamento entre a arte e a tecnologia.

Referencias

Agamben, Giorgio (2007) O que e contemporaneo? E outros ensaios. Chapeco: Argos. ISBN: 978-85-7897005-5.

Cauquelin, Anne (2005) Arte contemporanea--uma introducao. Sao Paulo: Martins Fontes. ISBN: 978-85-9910-218-3.

Debord, Guy (1997) A sociedade do espetaculo. Rio de Janeiro: Contraponto. ISBN: 978-85-85910-17-4. Flusser, Vilem (2007) O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicacao. Sao Paulo: Ubu Editora. ISBN: 978-8592886-22-6. Levy, Pierre (1996) O que e virtual?. Sao Paulo. Editora 34. ISBN 85-7326-036-X.

HUGO DANIEL RIZOLLI MOREIRA, Brasil, artista visual.

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

AFILIACAO: Prefeitura Municipal de Sumare/ Sao Paulo, Secretaria da Educacao, Centro de Formacao de Professores. Rua Ipiranga, 316, Centro, Sumare, Sao Paulo, Brasil. E-mail: rizollihugo@gmail.com

Leyenda: Figura 1 * Otavio Donasci incorporado por uma videocriatura, 2010. Fonte: https://file.org.br/artist/otaviodonasci/?lang=pt

Leyenda: Figura 2 * Videocriaturas criadas por Otavio Donasci, 1988. Fonte: https://comunicacaoeartes20122.files.wordpress. com/2013/02/otavio-donasci-videocriaturas_slide.jpg

Leyenda: Figura 3 * Videomanequim de Otavio Donasci. Fonte: https://picssr.com/tags/videocriatura/interesting/page3

Leyenda: Figura 4 * Videocriaturas de Otavio Donasci em performance, 2011. Fonte: https://comunicacaoeartes20122. wordpress.com/2013/02/18/otavio-donasci/

Leyenda: Figura 5 * Otavio Donasci, Videocriatura Hydra, 2010. Fonte: https://www.flickr.com/photos/psmotta/4683033077/

Leyenda: Figura 6 * Videocriaturas de Otavio Donasci no FILE, Eletronic Language International Festival (FILE). Sao Paulo, 2014. Fonte: https://file.org.br/file_sp_2014/file-sp-2014-6/?lang=pt
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Rizolli Moreira, Hugo Daniel
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2325
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