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As a grain of sand. About one work by Regina de Paula/Como um grao de areia. Sobre uma obra de Regina de Paula.

Segundo Walter Benjamin (1987: 239), "quem pretende se aproximar do proprio passado soterrado deve agir como um homem que escava." Ao faze-lo, "nao deve temer voltar sempre ao mesmo fato, espalha-lo como se espalha a terra, revolve-lo como se revolve o solo. Pois 'fatos' nada sao alem de camadas que apenas a exploracao mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escavacao" (Benjamin, 1987: 239). A latente vontade de discernir entre o objeto do saber e o objeto da verdade, a partir de uma estetica em devir, tomaremos aqui, como exemplo, na obra Como um grao de areia, de 2014, da artista visual Regina de Paula. Trata-se de uma fotografia com nove imagens alternadas pela presenca/ausencia de uma biblia sobre uma superficie de areia. O objeto-biblia possui um corte central quadrangular que, na sequencia fotografica, ora esta preenchido pela areia, ora revela-se pela sua ausencia. O objeto-biblia utilizado pela artista e parte da sua performance Sobre a areia, de 2014, quando e banhada nas aguas do mar.

Mais do que associar o objeto cristao, nascido da crenca em Deus, ao ato do batismo, esta obra reflete sobre uma temporalidade que transcende qualquer religiosidade. A biblia, aqui, alinha-se ao conceito de mitologia, uma especie de historia das verdades humanas que repete a dinamica mistica e, principalmente, cultural, de tantas outras religioes e fatos, de qualquer tempo, lugar ou Deus. O objeto-livro eleito, a biblia, constitui-se, aqui, como afirmativa do humano e de sua historia. A sua eleicao indica vontade de revelacao da sua verdade imanente, a vontade de restauracao, em todas as suas instancias, do seu conteudo temporal.

O objeto-biblia da fotografia Como um grao de areia (Figura 1; Figura 2), e potencialmente temporal: guarda, em si, alem do proprio tempo da historia, o tempo recente da intervencao performatica da artista. Tal compendio, apos sua imersao no mar, tornou-se, quase, massa disforme incapaz de representar com exatidao a historia. Contem varios 'agoras'. Com a subtracao de parte da biblia, visivel pelo cubo vazio, e, quando lancada ao mar, ora retendo agua, ora areia, cria uma especie de anamnesia material, em que uma nova forma surge conciliando temporalidades e lugares diversos. Para Georges Didi-Huberman (2009: 57), ao referir-se a escultura, "a forma que se erige do material sera concebida como o resultado de uma escavacao [...] e este, por sua vez, sera concebido como uma dialetica do substrato, do vazio e da carne que cava...". De acordo com o autor (Didi-Huberman, 2009: 58), fazer uma escavacao "e fazer a anamnesia do material que foi submerso pela mao: o que a mao extrai do material nao e outra coisa que uma forma presente onde se aglutinam, se inscrevem, todos os tempos do lugar concreto, de onde extrai seu 'estado nascente'". Ainda para o autor (Didi-Huberman, 2009: 59), o escultor se apodera de todos os sentidos do tempo: "escavar nao e somente cavar a terra para tirar dela coisas mortas ha muito tempo. E tambem preparar, na terra aberta [...], um passo para formas que tenham em si mesmas a memoria do seu devir, do seu nascimento ou crescimento futuros." Huberman (2009: 61) finaliza afirmando que a arqueologia do material nao e concebida, senao, pelo confronto com uma arqueologia do sujeito, indagando: "consistiria, entao, a arte do escultor em cavar galerias, em escavar na memoria da sua propria carne e de seu proprio pensamento?" Cumpre-se a sentenca de Benjamin (1987: 239), "quem pretende se aproximar do proprio passado soterrado deve agir como um homem que escava."

O 'estado nascente' referido por Didi-Huberman podemos comparar ao conceito de 'origem' tratado por Walter Benjamin. Para o autor, existe um desacordo entre o objeto do saber e o objeto da verdade. Atraves da origem e possivel a reflexao sobre a totalidade e, dessa forma, representacao da verdade dos objetos. De acordo com Jeanne Marie Gagnebin (1989: 285), existem tres aspectos que definem o conceito de origem em Benjamin: como oposicao ao conceito de genese; como restauracao inacabada e aberta; e, ligada ao conceito de destruicao. No primeiro, localizamos a ruptura com o tempo linear, cronologico, favorecendo o dialogo das estruturas do presente com o passado; no segundo, a remissao ao passado, pela intermediacao da lembranca, produz efeito de reproducao, isto e, a consciencia da perda; no terceiro caso, a recuperacao da origem ocorre pela dispersao e reuniao, pela destruicao e construcao.

As imagens contidas na obra Como um grao de areia apresentam um objeto simbolico, a biblia, que, de algum modo, cre revelar a origem do homem e do mundo. Contudo, sua mera presenca nao e suficiente para ativar aquilo que potencialmente lhe e imanente. Foi necessario confronta-la com os residuos do real (o mar e a areia) que fazem parte, inclusive, do seu discurso simbolico. O proprio titulo da obra foi retirado de um trecho da biblia.

A origem, enquanto fenomeno, nao e encontrada em sua totalidade. Ela revela-se pela sua incompletude, visto que e inevitavel o seu confronto com a pre e a pos-historia. Coisa e verdade tornam-se indissociaveis indicando a necessidade de comprovacao dos fatos para constituir-se como origem e desenhar a historia. Segundo Benjamin (1984: 45), "cabe ao investigador examinar a estrutura, que no final da analise desemboca na origem, revelando o solo que nasceu a ideia." Para o autor (Benjamin, 1984: 45), "a investigacao filosofica consiste pois em representar a ideia (atualiza-la) atraves da descricao dos fenomenos, gracas a uma analise estrutural, que uma vez concluida revela a origem. "Podemos localizar na reflexao estetica de Regina de Paula uma pratica formalizada e metaforica da busca da origem. A incisao promovida pela artista no interior do objeto-biblia atraves do exercicio da escavacao, pagina apos pagina, repetidamente, reflete a fala anterior de Benjamin: "'fatos' nada sao alem de camadas que apenas a exploracao mais cuidadosa entregam aquilo que recompensa a escavacao". Aparentemente a escavacao do objeto-biblia chegou a um vazio, um oco quadrangular no interior do compendio.

Segundo Victor Burgin, antes daperspectiva de ponto de fuga surgir no Renascimento nao existia a 'ausencia', em que o "horror vacui" era manifesto na filosofia aristotelica, nas cosmologias classicas, onde o espaco era plenitude e na Idade Media, em que Deus manifestava-se como totalidade. Com o surgimento da perspectiva no quattrocento o sujeito depara-se, pela primeira vez, com a ausencia no campo de visao. O vazio transforma-se em objeto de abjecao (grau zero da espacializacao). [...] Para o autor, o conceito de abjeto poderia corresponder a separacao entre 'sujeito' e 'objeto, contudo esta na historia do primeiro sendo anterior a esta dicotomia. Tem inicio com a expulsao do sujeito pela sua mae pre-edipica, em que o corpo procriador da mulher biologica e o primeiro objeto de abjecao. O "corpo da mulher recorda aos homens a suapropria mortalidade" (BURGIN, 2004, p. 91). Para Lacan, a esfera das cosmologias classicas representa o espaco fisico onde o sujeito, repetidamente, renasce e o vazio central nela contida, o lugar do objeto perdido, assim como, da morte do sujeito (Cartaxo, 2012: 87).

O vazio presente no interior do objeto-biblia podemos comparar aquele proprio da disciplina arquitetura. O prefixo 'ar' de arquitetura que tem sua raiz no grego 'arche' tambem esta presente na palavra 'arro' (ocos), dai o significado do termo arquitetura: construcao de ocos. Por sua vez, a palavra Arca (que significa grande caixa) e proveniente do latim 'arcere' (cortar, delimitar) colaborando na compreensao que temos do espaco arquitetonico como aquele que define os espacos interno (finito) e externo (ilimitado). Tal conflito pensado a partir do objeto-biblia remete a categoria estetica do sublime, quando a finitude da materia e vencida pela infinitude da Alma como nos indica o compendio. A arquitetura Ocidental tem seu comeco alinhado ao surgimento da pratica projetual, atraves, especialmente, da descoberta da perspectiva de ponto de fuga, cuja base principal esta na afirmacao do sujeito. No ambito da cidade, a perspectiva revelou a consciencia do ser-no-mundo do homem, a medida que a caixa arquitetonica convergia para a linha do horizonte, o lugar simbolico da nossa existencia. A experiencia do sujeito no espaco perspectico, ou, de outro modo, no interior da caixa-cubo arquitetonica, foi pensada nas suas infinitas possibilidades por Alberti que a concluiu numa sintese de sete itinerarios: os movimentos para cima ou para baixo, para a esquerda ou para a direita, avancando ou retrocedendo e, finalmente, girando. De modo analogo, as axialidades do corpo humano definem uma orientacao septenaria no espaco tridimensional: o corpo em pe refere-se ao eixo vertical da gravidade; o rosto representa a frontalidade, que, com sua bilateralidade simetrica define a direita e a esquerda e seus respectivos hemisferios; a posteridade como regiao topologica do atras; e, por ultimo, o 'espaco interior' do homem, em que pela rotacao e circularidade de seus membros determina a esfera da acao. Tal concepcao espacial orientada para o homem reflete o espirito humanista-renascentista na valorizacao da consciencia e da individualidade do mesmo. Conciliar o vazio quadrangular, quase 'malevitchiano', ao universo biblico de uma historia supostamente reveladora da nossa origem significa afirmar uma temporalidade ambigua fundada numa estrutura em devir. Segundo Fernando Pessoa (1994: 211),

   ... as coisas sao como que cubicas; a nossa sensacao delas
   plano-quadrada. Cada sensacao pode dizer-se cubica porque envolve
   um triplo: a coisa-em-si (seja ela o que for), a nossa percepcao
   individual, e nossa percepcao extra-individual, [...]
   metafisicamente falando, este ultimo genero de percepcao e o comum
   a tudo o que existe, a quanto e universo de quanto e universo.


O espaco cubico no interior do objeto-biblia, regular, ortogonal e geometrico contradiz a 'situacao' em que o compendio e apresentado: especie de massa disforme, recorrente da sua imersao no mar, ora envolto e preenchido por areia, ora ausente (fisicamente) / presente (imanencia). A imersao do objeto-biblia na areia, assim como a insercao da areia 'dentro' dele, rompe com os limites entre obra e espaco, entre coisa e lugar. O informe (formless) teorizado pelos criticos Rosalind Krauss e Yve-Alain Bois a partir da formulacao de Bataille, de 1929, buscou superar a dicotomia forma/conteudo. Dos quatro conceitos que tratam do informe (formless), apresentados pelos autores--a horizontalidade, a pulsacao, o baixo materialismo e a entropia -, o que melhor representa o estado das coisas, e o ultimo. A entropia rompe com o purismo modernista que exigia limites especificos para a obra de arte. A partir da logica de Bataille, da experiencia como excesso fundada numa estrutura de deslimites, os autores refletem sobre as novas praticas contemporaneas. A dissolucao do objeto-biblia no seu entorno-areia, e vice-versa, a ruptura dos limites, aqui, historicos, geograficos, ideologicos, esteticos etc., repercutem as dinamicas temporais que, por sua vez, retomam o conceito de origem. Obra cumulativa de tempos e espacialidades, Como um grao de areia, constitui-se como objeto de potencia. Como nas palavras de Benjamin (1985: 229-30), "a historia e objeto de uma construcao cujo lugar nao e o tempo homogeneo e vazio, mas um tempo saturado de 'agoras'."

Artigo completo recebido a 4 de setembro e aprovado a 23 de setembro de 2014

Referencias

Benjamin, Walter (1984) Origem do Drama Barroco Alemao. Sao Paulo: Brasiliense.

Benjamin, Walter (1987) Rua de mao unica. Rio de Janeiro: Brasiliense.

Benjamin, Walter (1985) "Sobre o Conceito de Historia." In: Obras Escolhidas. Sao Paulo: Brasiliense.

Cartaxo, Zalinda (2012) Pintura e Realidade. Realismo arquitetonico na pintura contemporanea. Adriana Varejao e Jose Lourenco. Rio e Janeiro: Apicuri.

Gagnebin, J. M. (1989) Notas sobre as nocoes de origem e original em Walter Benjamin. 34 Letras, n. 5/6, set.

Pessoa, Fernando (1994) O Cubo das Sensacoes: textos filosoficos. Lisboa: Edicao Atica, vol. 2,

ZALINDA CARTAXO *

* Brasil, artista visual. Graduacao em Artes Plasticas, Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro (PuC-RJ). Mestrado em Historia e Critica de Arte, universidade Federal do Rio de Janeiro (uFRJ). Doutorado em Artes, universidade de Sao Paulo (uSP) e Doutorado em Artes Visuais, uFRJ. Professora universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (uNIRIO).

AFILIAcAO: Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Programa de Pos-graduacao em Artes Cenicas. Av. Pasteur, 436 (fundos)--Urca--Cep 22290-240 Rio de Janeiro, Brasil. E-mail: z.cartaxo@uol.com.br
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Title Annotation:Original Articles/Artigos originais; articulo en portugues
Author:Cartaxo, Zalinda
Publication:Estudio
Article Type:Ensayo critico
Date:Jul 1, 2014
Words:1994
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