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Artefactos de ferro em contextos do Bronze Final do territorio portugues: novos contributos e reavaliacao dos dados.

Iron artefacts in contexts of the Late Bronze Age in the Portuguese territory

1. Introducao

Ainvestigacao arqueologica portuguesa marcou, na ultima decada, um papel pioneiro no que respeita a contextualizacao dos primeiros artefactos de ferro do Ocidente Peninsular. Para tal contribuiram diversos programas de escavacao em sitios de habitat do Bronze Final, em particular nas Beiras Alta e Baixa (1). Pela primeira vez, foi possivel definir e caracterizar pormenorizadamente os contextos de achado desses ferros, bem como data-los pelo metodo do Carbono 14. As situacoes que se analisam correspondem, inequivocamente, a fase anterior a da instalacao dos Fenicios em solo peninsular.

Em 1995, tivemos ja oportunidade de reflectir sobre a problematica da circulacao do ferro no Bronze Final, a pretexto dos primeiros ferros contextualizados da Beira Baixa, provenientes das estacoes da Moreirinha (Idanha-a-Nova) e do Monte do Frade (Penamacor) (Vilaca 1995: 349-352).

De entao para ca, a situacao alterou-se, ou melhor, consolidou-se profundamente, quer pelo numero crescente de novos achados, que se alargou a outras estacoes e registos, quer pela sua natureza, quer ainda por, no seu conjunto, boa parte deles oferecer uma cronologia segura, suportada por contextos estratigraficos e datas de Carbono 14. Quase que poderiamos dizer que, da excepcao, se passou a regra. A situacao e, portanto, bem diferente da existente na 1a. metade dos anos 90, justificando-se, assim, novas reflexoes, para as quais esta nossa prestacao pretende contribuir.

Por outro lado, consideramos, entao, estes primeiros ferros elementos de natureza sociosimbolica e de prestigio, quer por constituirem novidade, quer pela sua raridade. Sem afastar por completo esta leitura, supomos que a actual situacao legitima outras alternativas. E, por isso, conveniente reavaliar a natureza e significado destes primeiros ferros.

Este texto (2) tem, pois, como principal objectivo sintetizar essa informacao, em parte inedita, discuti-la e reavalia-la no quadro das relacoes intercomunitarias e da problematica das trocas trans-regionais durante o Bronze Final.

2. Artefactos de ferro do Bronze Final, e outros, no espaco peninsular

A inventariacao e discussao dos primeiros artefactos de ferro atribuiveis aos finais da Idade do Bronze existentes no espaco peninsular mereceram um estudo de Almagro Gorbea publicado nesta mesma revista (Almagro Gorbea 1993). Ai se chama a atencao para a existencia de objectos de ferro, embora em escasso numero, em contextos do Bronze Final peninsular, e com uma distribuicao mais ampla do que se supunha.

Porem, nem todos esses casos oferecem dados de absoluta confianca em termos cronologicos. Foram, entao, analisadas as seguintes ocorrencias: El Berrueco (Salamanca), Huelva, Campotejar (Granada), Villena (Alicante), Baioes (S. Pedro do Sul) e Chas de Tavares (Mangualde). Almagro regista ainda outras tres situacoes--uma cadeia de aneis duplos de ferro de El Castillico de Moratalla (Murcia) e escorias de ferro em Crevillente e em Castellon de Librilla (Murcia), ja contemporaneos dos primeiros estabelecimentos fenicios (Almagro Gorbea 1993: 87).

Recordemos, sucintamente, cada uma daquelas. Comecamos pelo ultimo caso, pois devera ser descartado da problematica em discussao. Almagro valoriza, certamente induzido em erro por Monteagudo, uma faca de ferro que pertenceria ao deposito de Chas de Tavares (Mangualde). Ignoramos o motivo que levou Monteagudo a associar a faca aos machados do deposito, ja que Jose Coelho nos relata as circunstancias de achado desse deposito, em Setembro de 1938 (Coelho 1941: 396). Terao sido encontrados dentro de um penedo, partido a tiro por um individuo que os mostrou a Jose Coelho e os cedeu, posteriormente, ao Museu de Grao Vasco (Viseu). Naquela mesma publicacao, Jose Coelho refere-se a outros achados que realizou, pessoalmente, no povoado de Chas de Tavares ou Sa. do Bom Sucesso, onde se contam materiais da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, entre os quais "um pedaco de lamina de espada de ferro", certamente a "faca" a que Monteagudo se refere (3). Portanto, a peca de ferro e um achado casual, de superficie, e de cronologia indeterminada, nao sendo possivel associa-la aos machados.

Quanto a Baioes (S. Pedro do Sul), a que voltaremos, trata-se de uma lamina de ferro embutida num suporte de alvado de bronze, aparecido juntamente com o excepcional lote de pecas que internacionalizou a estacao entre a comunidade cientifica (Silva et alii 1984; Almagro Gorbea 1993; Ruiz-Galvez Priego 1993).

No caso de El Berrueco (Salamanca) sabiamos, desde a decada de 50 do seculo passado, que existiam artefactos de ferro associados a um ambiente de Cogotas I, em pleno coracao da Meseta (Maluquer de Motes 1958 a). Trata-se de um conjunto de ferros --um puncao, dois escopros, uma argola e duas navalhas de barbear (ou uma navalha e uma faca)-- encontrado no nivel inferior da cabana Be2, em associacao com ceramica de "tipo Boquique" e com dois fragmentos de braceletes de bronze, um dos quais decorado com incisoes (Maluquer de Motes 1958 a: 48 e fig. 8). Apesar de Maluquer sublinhar a importancia do achado, comprovativo da contemporaneidade do ferro e da ceramica de "tipo Boquique", tal nao foi posteriormente valorizado, argumentando-se com o facto de serem escavacoes antigas, o que, supostamente (como se tal correlacao fosse linear!) lhes reduzia a fiabilidade! No fundo, o que incomodava era a aceitacao de um precoce uso de objectos de ferro em contextos anteriores aos das primeiras colonias fenicias, ou aos primeiros Campos de Urnas, e numa regiao tao interior. De facto, a ideia de que os artefactos de ferro foram introduzidos na Peninsula atraves das colonias fenicias ou dos grupos continentais ligados aos Campos de Urnas tem hoje uma base de sustentacao nula.

Entre os famosos bronzes do deposito de Huelva foi identificado um fragmento de ferro amorfo para o qual Almagro chama a atencao, quer pela sua associacao a elementos de origem oriental (fibulas de cotovelo), quer por nao ser incomum a presenca de ferro em depositos do Bronze Final, designadamente italianos, como os de Gabbro (Livorno), San Martino (Elba), Casalecchio (Rimini), etc. (Almagro Gorbea 1993: 87), a que poderiamos juntar alguns outros mais com cronologia dos secs. XI-X a.C. (Delpino 1991), bem como o de Venat (Charente), que conta com uma plaquita de ferro entre as suas cerca de 2820 pecas de bronze (Coffyn et alii 1981: 17). Contudo, como foi justamente sublinhado, em Huelva, o pedaco de ferro tanto podera ser contemporaneo dos restantes bronzes, como tratar-se de uma intrusao (Ruiz-Galvez Priego 1995: 138; 1998: 298).

O deposito de Campotejar (Granada), hoje desaparecido, teria sido formado por 30 ou 40 machados de apendices, de bronze e de ferro, em proporcao desconhecida (Almagro Gorbea 1993: 2). A excepcionalidade destas pecas, cujos prototipos serao orientais (Almagro Gorbea 1993: 84), nao corresponde, em nosso parecer, um contexto igualmente excepcional do ponto de vista cronologico, isto e, nada obsta que seja um deposito tardio e sobrepor-se ja aos inicios da presenca fenicia na Peninsula.

Entre o riquissimo e valioso espolio do tesouro de Villena (Alicante), contam-se um bracelete de ferro e uma peca de remate em ferro com incrustacoes de ouro (Soler Garcia 1965: 13, 63, 65 e lam. XXXVI e XLIII). Acronologia deste tesouro nao merece, todavia, a concordancia dos investigadores que sobre ele tem reflectido. Ruiz-Galvez Priego considera-o de cronologia prefenicia, mais antiga, entre os secs. XIII e X a.C., relacionada com a rota cipriota, mas Alicia Perea atribui-lhe um caracter mais tardio e possivelmente diacronico, em conexao com o circuito internacional de materias-primas desenvolvido ao longo do sec. VIII a.C. (Perea 1994: 9; Ruiz-Galvez Priego 1993: 49; 1998: 276-277). Portanto, o seu posicionamento cronologico parece ser discutivel.

Nao obstante a importancia do artigo de Almagro, que nos chamou a atencao para determinadas problematicas, a verdade e que nem todas as situacoes contempladas se oferecem seguras em termos contextuais e cronologicos.

No quadro das relacoes Ocidente/Oriente anteriores ao estabelecimento dos Fenicios na Peninsula, a questao dos ferros mereceu tambem judiciosas observacoes da parte de Ruiz-Galvez Priego, que enriqueceu a discussao com outras reflexoes e argumentacao igualmente pertinentes (Ruiz-Galvez Priego 1993, 1995, 1998).

E revisto o caso da estacao de Pena Negra (Alicante), de onde provem um fragmento de ferro, indeterminado, talvez uma faca, encontrado numa escombreira com cinzas, escorias, moldes de argila, etc. Marisa Ruiz-Galvez considera que se trata de um fragmento recolhido como sucata, possivelmente em portos do Mediterraneo Central, deixando em aberto as hipoteses de se enquadrar nas trocas entre a Peninsula e a Sardenha ou de ter sido trazido pelos Fenicios, questao tambem nao resolvida (Ruiz-Galvez Priego 1995: 138; 1998: 296).

Como foi oportunamente sublinhado, estas situacoes parecem revelar entendimentos distintos do uso do ferro. Em Baioes, a lamina de ferro parece ter sido valorizada pelo seu uso pratico, ocorrendo o mesmo em El Berrueco e Campotejar; em Villena, quer a natureza do contexto, quer os tipos de pecas, significam que o ferro tera sido apreciado como metal nobre e pelo seu exotismo (Almagro Gorbea 1993: 88; Ruiz-Galvez Priego 1993: 50; 1998: 276, 296).

Talvez seja util relembrar ainda outros contextos onde o ferro esta presente, mas em situacoes nem sempre seguras do ponto de vista cronologico, eventualmente ja da transicao Bronze-Ferro. Entre outros, assinalem-se os povoados de Muela de Alarilla (Guadalajara), que conta com um escopro de ferro proveniente de um contexto (nivel I) com ceramicas de Cogotas I e ceramicas do Ferro I (Mendez Madariaga e Velasco Steigrad 1986: 28) e os Castillejos de Sanchorreja (Salamanca), cujo "nivel antigo" forneceu artefactos de ferro associados a ceramicas excisas, de "tipo Boquique" e com pintura policroma (Maluquer de Motes 1958 b: 56, 91). Mais segura e a cronologia da necropole de Palomar de Pintado (Toledo) de onde e proveniente uma faca de ferro e um bracelete de bronze, da 1a. fase de utilizacao, datada dos secs. X-IX a.C. (Beta-178469: 2820[+ o -]40 BP) (Pereira Sieso et alii 2003: 163). Ao sec. IX a.C. corresponderia igualmente o tumulo 32 de Arroyo Culebro (Madrid), com uma peca de ferro (Pereira Sieso et alii 2003: 163).

Em conclusao, importa sublinhar que a evidencia arqueologica tem vindo a demonstrar, para o Centro-Ocidental da Peninsula Iberica, a existencia de um numero crescente de casos que assimilam, desde muito cedo e bem antes da adopcao da sua producao, artefactos de ferro.

3. Os ferros do Bronze Final do territorio portugues: distribuicao e contextos arqueologicos

Como referimos de inicio, este assunto foi ja por nos discutido em 1995 com base no achado de cinco laminas de ferro nas estacoes do Monte do Frade (Penamacor) e da Moreirinha (Idanha-a-Nova), que escavamos, ambas com ocupacao do Bronze Final. Nao valorizamos entao, nem ha razoes para o fazer agora, um fragmento de prego de ferro de cabeca circular achatada do povoado do Castelejo (Sabugal), tambem do Bronze Final, visto que foi recolhido na camada 1, de terra aravel, onde se encontravam, em associacao com os materiais arqueologicos, outros elementos inequivocamente modernos; o seu contexto estratigrafico nao oferece seguranca em termos cronologicos (Vilaca 1995: 105 e 111).

A realizacao de novas sondagens na Moreirinha e a escavacao de um outro povoado, o Monte do Trigo (Idanha-a-Nova), tambem da nossa responsabilidade, revelaram novos elementos informativos.

Entretanto, foram divulgadas outras situacoes similares no Planalto Beirao, Estuario do Tejo e Alentejo, que passaremos a analisar. No conjunto, definem um quadro diferente daquele que tinhamos na primeira metade dos anos 90: a excepcao dos casos sucedeu a sua repeticao (Fig. 1).

3.1. Monte do Frade (Penamacor)

Esta estacao (Vilaca 1995: 125-163; 1997) situa-se no topo de uma elevacao de configuracao alongada, bem destacada e individualizada na paisagem, delimitada por multiplos afloramentos graniticos, alguns gravados com "fossettes". A planicie adjacente e bem drenada e possui extensas manchas de solos de boa capacidade agricola e verdejantes pastos. Pinheiros, oliveiras, castanheiros e eucaliptos ocupam vastas areas da serra onde o granito nao aflora. A ocupacao arqueologica corresponde a uma pequena area com apenas cerca de 126 [m.sup.2], a qual tera dado abrigo a uma ou duas familias, talvez entre 6 a 10 pessoas.

Resumidamente, a estratigrafia revelou uma primeira ocupacao limitada em termos espaciais e temporais (camada 4). Seguiu-se-lhe uma segunda fase (camadas 3 e 2 base) que, pelo contrario, foi intensa e extensa, com uma ocupacao maxima da area disponivel. Estas duas fases, nao tendo sido sincronicas, foram globalmente contemporaneas e atribuiveis ao Bronze Final.

Escavaram-se diversas estruturas de habitat --lareiras, buracos de poste e "empedrados"-- definidoras de, talvez, duas unidades de habitacao, denunciando uma divisao embrionaria do espaco domestico. Destaca-se uma cabana com uma area de cerca de 30 [m.sup.2], a qual se acede por uma especie de "atrio" e por uma estreita passagem empedrada e delimitada por dois afloramentos, que marcavam a entrada pelo lado sul. Anascente deste complexo, e dele separado por afloramentos graniticos bastante baixos, desenvolvia-se uma outra unidade habitacional tambem polarizada por estruturas de combustao (Vilaca 1995: Est. LXXII e LXXIX).

As analises antracologicas revelaram elementos conectados com uma paisagem degradada do mundo submediterranico com a presenca, entre outras, de Esteva (Cistus ladaniferus), muito abundante na periferia da lareira 3, indicando o seu provavel uso como combustivel.

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Por sua vez, o estudo da fauna revelou total ausencia de caca; estao presentes o boi, a cabra e o porco, correspondendo a animais jovens, o que denuncia uma exploracao destinada particularmente a obtencao de carne.

Adiversidade tipologica e estilistica da ceramica--impressas, incisas, com ornatos brunidos de "tipo Lapa do Fumo", e puncionadas de "tipo Cogotas", expressa um caracter aberto e disponivel da comunidade do Monte do Frade para incorporar na sua linguagem estilistico-simbolica elementos culturalmente exogenos.

A producao metalurgica do bronze seria igualmente praticada, como parecem apontar os dois fragmentos de molde em pedra para o fabrico de hastes ou varetas. Os metais comprovam o envolvimento dessa populacao nos circuitos "internacionais" da epoca. Aos artefactos de bronze proprios do mundo Atlantico, como os braceletes, os punhais, as sovelas, as pontas de seta, as argolas, ha que juntar outros, muito mais raros, e que sao eco, neste mundo interior, do Mediterrraneo. E o caso de duas pincas, de um "tranchet" e de uma lamina de ferro, talvez pertencente a uma pequena faca (Vilaca 1995: Est. CIV; 1997: Est. IV).

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Estes materiais integravam-se em distintos niveis, mas todos pertencentes a camada 3 para a qual possuimos quatro datas de Carbono 14 (GrN-19660: 2805[+ o -]15 BP; ICEN-971: 2850[+ o -]45 BP; ICEN-969: 2920[+ o -]50 BP; ICEN-970: 2780[+ o -]100 BP). A sua calibracao (4), para um intervalo de confianca de 2 sigma (95% - metodo A), indica, respectivamente, os seguintes parametros: 1001-902 cal. AC, 1207-900 cal. AC, 1291-939 cal. AC e 1257-793 cal. AC. Os resultados das duas primeiras sao estatisticamente semelhantes; a sua media ponderada corresponde a 2813[+ o -]19 BP e a sua calibracao, para uma probabilidade de 2 sigma (95%) e de 1004-902 cal. AC, portanto, o sec. X AC. Datam ambas um nucleo de troncos carbonizados (c. 3-nivel 4b) que selava, parcialmente, a camada 3, constituindo um terminus ante quem do nivel onde se encontrava a peca de ferro (Vilaca 1995: 141, 162, 374).

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Alamina de ferro (I D1 03; x= 81; y= 35; z= 148 cm) foi encontrada ja fragmentada; possui contorno subtriangular, bastante irregular, ponta romba e corpo ligeiramente arqueado; mede 4,4 x 6 x 0,2 cm (Vilaca 1993: CIV-9 e Fig. 2).

3.2. Moreirinha (Idanha-a-Nova)

Este povoado (Vilaca 1995: 211-238) situa-se no cume de uma linha de relevos a altitude de 679 m. Trata-se de uma formacao orografica destacada na paisagem, do tipo "inselberg", com vertentes abruptas sobre a planicie envolvente. Esta e drenada por diversos ribeiros subsidiarios do Ponsul, rio que corre a sul, em direccao ao Tejo. O substrato geologico e de constituicao granitica e os solos, muito erosionados, sao de capacidade agricola praticamente nula. As encostas registam manchas esparsas de eucaliptal, olival e sobreiral (Fig. 3).

A intensa erosao a que esta estacao tem estado sujeita sera, em parte, responsavel pela estratigrafia, muito simples, que encontramos. A fase principal de ocupacao esta representada pela camada 2, onde se encontravam as principais estruturas, materiais (inclusive, todos os artefactos de ferro) e as amostras que forneceram duas datas de Carbono 14.

Na area arqueologica, com cerca de 2850 [m.sup.2], foram escavadas diversas estruturas: muro de pedra colocada a seco, cabanas de planta subcircular, buracos de poste, pisos definidos por seixos integrados em lajes naturais de granito, estruturas de combustao, etc.

Recolheram-se numerosos materiais ceramicos, liticos e metalicos (bronze e ferro). As ceramicas sao de fabricos grosseiros, medianos e finos, com tacas carenadas de "tipo Lapa do Fumo" e de "tipo Carambolo", outras de ambito Cogotas e ainda grandes potes de armazenagem com decoracao incisa e impressa nos labios. Entre os materiais metalicos de bronze destacam-se punhais, argolas, braceletes, cinzeis, etc. Outros restos metalicos disformes, bem como cadinhos e moldes de pedra, comprovam o fabrico local da metalurgia do bronze. Os artefactos de ferro e as contas de colar de ambar baltico indicam a existencia de trocas inter-regionais longinquas e divergentes (Vilaca et alli 2002).

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A fauna esta representada por especies domesticas, como o boi, a cabra e o porco; ignorase se o coelho, tambem presente, era selvagem ou domesticado. Aflora e identica a do Monte do Frade, com excepcao do pinheiro bravo (Pinus pinaster), presente na Moreirinha, e do pilriteiro (Crataegus monogyna), apenas identificado naquele.

As datas de Carbono 14 relativas a camada 2 (ICEN-835: 2910[+ o -]45 BP e OxA-4085: 2780[+ o -]70 BP), de onde provem os ferros, indicam, uma vez calibradas para um grau de confianca de 2 sigma (95% - metodo A), os seguintes valores: 1260-939 cal. AC e 1186-803 cal. AC. Assim, esta camada testemunha uma ocupacao que tera correspondido a um momento entre cerca de 1260 e 803 cal. AC. As outras duas datas (ICEN-834: 2940[+ o -]45 BP e GrN-19659: 2785[+ o -]15 BP) reportam-se a camada 3, do inicio da ocupacao do povoado, mas culturalmente identica a ocupacao representada na camada 2. Uma vez calibradas, fornecem valores compreendidos entre 1366-1001 cal. AC e 996-863 cal. AC. Alias, as datas ICEN-834 e ICEN-835 recobrem-se mutuamente, sendo a sua media ponderada de 2925[+ o -]34 BP. (Vilaca 1995: 236, 373-374).

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A Moreirinha forneceu um total de oito pecas de ferro, quatro das quais se encontravam, ate a este momento, ineditas.

Entre as publicadas, temos um fragmento de lamina (I C3 02; x= 0; y=61; z= 288 cm) de dorso arqueado, ponta quebrada e gume ligeiramente denteado; mede 9,5 x 1,7 x 0,3 cm (Vilaca 1995: Est. CCXLVII-7 e Fig. 4-1).

A peca de maiores dimensoes corresponde a dois fragmentos de lamina de uma faca (I B3 02; x= 167; y= 48; z= 282 cm), ambos fracturados nas extremidades, faltando-lhe ainda um pequeno troco a meio. Apresenta forma arqueada e gume irregular; mede 15,3 x 2 x 0,2 cm (Vilaca 1995: CCXLVII-5 e Fig. 4-2 a e 4-2 b).

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Um outro fragmento (A'6 02; x= 192; y= 48; z= 114 cm) parece corresponder a uma lamina de serra, pois o gume apresenta-se serrilhado; mede 4,2 x 1,2 x 0,2 cm ( Vilaca: CCXLVII- 9 e Fig. 4-3).

Uma outra lamina (A4 02; x= 56; y= 161; z= 277 cm), de contorno irregular, possui dois orificios dorsais para rebites; mede 6,1 x 1,4 x 0,2 cm ( Vilaca: CCXLVII-3 e Fig. 4-4).

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As sondagens realizadas em 1995 e 1996 proporcionaram novos elementos. O fragmento no. 5 (I B15' 02; x= 46; y= 15; z= 289 cm) apresenta forma subtriangular e corresponde a extremidade de uma possivel lamina; mede 2,8 x 1,5 x 0,1 cm (Fig. 4-5).

Um outro fragmento (I C15' 02), pelo contrario, pertence a parte mesial, possivelmente de uma faquita; mede 2,9 x 1,6 x 0,1 cm (Fig. 4-6).

A peca no. 7 (I A15' 02; x=8; y=60; z= 597 cm) e um fragmento de lamina de dorso e gume ligeiramente arqueados; mede 5,4 x 1,2 x 0,7 cm (Fig. 4-7).

Finalmente, existe um pedaco disforme (I A'11' 02), com uma das extremidades arredondada; mede 2,6 x 1,6 x 0,2 cm (Fig. 4-8).

3.3. Monte do Trigo (Idanha-a-Nova)

O Monte do Trigo (5) corresponde a uma inconfundivel elevacao de forma conica que se evidencia, de forma isolada e destacada, na paisagem, a altitude de 362 m (Fig. 5).

A area de interesse arqueologico circunscrevese ao topo do monte, o qual e definido por uma pequena plataforma, de configuracao grosseiramente oval, com uma area amesetada de cerca de 630 [m.sup.2]. Os terrenos adjacentes sao bem drenados por linhas de agua, sendo de sublinhar a proximidade do principal rio da regiao --o Ponsul--, que corre a cerca de 1600 metros para poente.

A superficie identificam-se diversos afloramentos de quartzo e quartzitos, sendo particularmente numerosos nos rebordos norte e poente do monte, onde a vertente e praticamente ingreme. Anascente e a sudeste, onde o acesso e mais suave e inexistentes os afloramentos, encontra-se um troco de muralha, reduzido aos seus derrubes, construido com blocos angulosos de quartzo e de quartzito.

[FIGURA 5 OMITIR]

O local revelou um primeiro nivel de ocupacao, calcolitico, com pratos e tacas de bordo espessado e almendrado, ceramica campaniforme de "estilo internacional", pesos de tear paralelepipedicos e em "crescente" (Vilaca e Cristovao 1995). A ocupacao que nos interessa, contemporanea da muralha, enquadra-se nos finais do II-inicios do I milenio a.C. A ela correspondem diversos materiais ceramicos, liticos, metalicos (bronze e ferro) e de pasta vitrea. As ceramicas revelam, ao nivel da forma e estilo, grandes afinidades com as da Moreirinha e Monte do Frade. Entre os materiais metalicos, destacam-se punhais, argolas, botoes, "tranchets", uma pinca e pequenos pesos interpretaveis como ponderais (Vilaca 2003).

No Monte do Trigo foram encontradas diversas pecas de ferro distribuidas por cinco conjuntos, isto e, constituiam verdadeiras deposicoes, no sentido de terem resultado de um acto deliberado de ocultacao; em tres casos, essas deposicoes eram bimetalicas, reunindo pecas de ferro e de bronze. Com excepcao de um, todos provem da camada 2, a camada de ocupacao do Bronze Final. Por outro lado, os ferros desta estacao encontraram-se numa area circunscrita, o quadrado B8, alias com uma particular concentracao de metais (dois botoes, ponderais, "tranchet", fuzilhao, calotes, outros bronzes disformes, etc.).

Estao disponiveis sete datas de Carbono 14 obtidas a partir de amostras de carvao de distintos niveis inseridos na camada 2. Essas datas (CSIC-1288: 2880[+ o -]33 BP; CSIC-1289: 2913[+ o -]41 BP; Sac-1458: 3020[+ o -]60 BP; Sac-1506: 2880[+ o -]45 BP; Sac-1507: 2960[+ o -]45 BP; Sac-1457: 2960[+ o -]45 BP, Sac-1456: 2990[+ o -]50 BP) reportam-se a mesma realidade cultural e traduzem valores muito semelhantes. Apos calibracao, e para um intervalo de confianca de 2 sigma (95% - metodo A), obtem-se, respectivamente, os seguintes valores: 1208-935 cal. AC, 1259-944 cal. AC, 1413-1049 cal. AC, 1255-919 cal. AC, 1370-1011 cal. AC, 1370-1011 cal. AC e 1390-1046 cal. AC. A sua media ponderada e de 2930[+ o -]18 BP que, calibrada, indica um periodo compreendido entre cerca de 1250 e 1050 cal. AC.

[FIGURA 6.1 OMITIR]

O conjunto A (I C8 01) e constituido por tres pecas: metade de uma argola de bronze, de seccao circular, e dois fragmentos de laminas de ferro. Uma das laminas possui o gume muito irregular; mede 3 x 1,7 x 0,2 cm. A outra, pelo contrario, apresenta o gume muito bem definido, denteado, mas nao serrilhado, o que levanta problemas de ordem funcional; mede 5,1 x 1,6 x 0, 1 cm (Fig. 6-1).

O conjunto B (I C7 02-banqueta; z= 115; z'= 3 cm) reune cinco fragmentos de laminas, encontrados juntos. Nao o conseguimos confirmar, mas e admissivel que alguns facam parte da mesma peca. Um dos fragmentos possui gume arqueado e algo serrilhado; mede 6,3 x 1,5 x 0,2 cm. Adeterminacao funcional dos restantes e dificil de definir pelo seu grau de destruicao. Apresentam as seguintes medidas: 7 x 2,1 x 0,3 cm; 4,3 x 1,1 x 0,2 cm; 2,9 x 1,6 x 0,4 cm; 3,5 x 1,3 x 0,2 cm (Fig. 6-2).

Numa outra deposicao --conjunto C (I sond. 4 B8 02; x= 141; y= 125; z= 156)-- encontraram-se duas argolas de bronze, dois fragmentos de laminas de bronze e quatro fragmentos de lamina de ferro. Aparentemente, esta deposicao sofreu a accao do fogo, o que podera explicar a deformacao de algumas pecas, designadamente das duas argolas. Uma das argolas esta completa e e fechada; tem contorno eliptico e seccao subovoide, muito irregular; mede 4,2 x 2,9 x 0,5 cm. A outra seria identica mas encontra-se fragmentada; mede 3,6 x 2,5 x 0,3/0,4 cm. Os dois fragmentos de lamina de bronze pertencem a mesma peca, um pequeno punhal, medindo, no conjunto, 6,1 x 1,2 cm. Dos quatro fragmentos de ferro, tres formariam uma lamina com 6,2 (conjunto) x 1,4 x 0,1 cm. O outro fragmento mede 2,4 x 1,9 cm (Fig. 6-3).

[FIGURA 6.2 OMITIR]

O conjunto D (I B8 02; x= 134; y= 107; z'= 33 cm) e constituido por treze pequenos apliques de bronze, em forma de calote (elementos decorativos de um possivel cinturao de couro), e um fragmento de lamina em ferro. Aqueles possuem cabeca esferica lisa com cerca de 1,2 cm de diametro; da cabeca desenvolvem-se dois pequenos apendices, um mais curto, o outro dobrado em angulo recto. A lamina correspondera a uma serra, visto que possui o gume serrilhado; mede 4 x 1,1 x 0,2 cm (Fig. 6-4).

[FIGURA 6.3 OMITIR]

[FIGURA 6.4 OMITIR]

Encontraram-se ainda dois fragmentos de lamina --conjunto E (B8 02-sob pedras; x= 138; y= 89; z= 149 cm)-- pertencentes a mesma peca. Apresentam um contorno irregular, mas vislumbra-se um gume serrilhado; medem 3,5 x 1,9 x 0,2 e 2,7 x 1,3 x 0,2 cm (Fig. 6-5).

3.4. Sa. da Guia (Baioes, S. Pedro do Sul)

O castro de Baioes e um entre muitos outros da Beira Alta com ocupacao do Bronze Final, mas unico por aquilo que nele foi encontrado. Sem ser este o local para nos debrucarmos sobre a sua funcao, natureza e significado, recorde-se o achado, na decada de 40 do sec. XX, das tres joias de ouro macicas e, nos inicios dos anos 80, o magnifico deposito de bronzes, que nos interessa em particular. Alem disso, muitos outros dados, casuais ou decorrentes de escavacoes realizadas na decada de 70, so parcialmente publicadas, aguardam, com o material que permanece inedito, um estudo global e integrado.

[FIGURA 6.5 OMITIR]

[FIGURA 7.1 OMITIR]

E daquele deposito que provem uma peca bimetalica, de bronze e ferro. Trata-se de um cinzel de alvado, de seccao oval, com pequena argola de fixacao, no qual foi introduzida uma lamina em ferro, de seccao rectangular, talvez pela tecnica da fundicao adicional (Silva et alii 1984: 170; Almagro 1993: 84; Armbruster 2002-2003: 146).

Originalmente, o seu comprimento maximo era de 0,83 cm, correspondendo c. 0,44 cm ao corpo do cinzel e c. 0,38 cm a lamina; hoje, conforme se pode observar, falta a maior parte da lamina (Fig. 7-1 a e 7-1 b).

Embora a cronologia da ocupacao da Sa. da Guia necessite de revisao, tendo em conta alguns elementos ja da Idade do Ferro, como sao as ceramicas estampilhadas, as panelas de asa interior ou talvez ate o fragmento de uma plaquita de bronze com decoracao vazada, o contexto da peca bimetalica e inequivocamente anterior ao sec. VIII a.C. A unica data de C 14 existente (GrN-7484: 2650[+ o -]130 BP) e de pouca utilidade tendo em conta o seu alto desvio-padrao; de qualquer forma, nao se relaciona directamente com a peca de bronze e ferro.

3.5. Outeiro dos Castelos de Beijos (Carregal do Sal)

Materiais de superficie e escavacoes desenvolvidas no topo do cabeco dos Castelos de Beijos permitiram o reconhecimento de mais um importante povoado do Bronze Final da Beira Alta (Senna-Martinez 2000).

Os trabalhos desenvolveram-se em dois sectores com distintas fases de ocupacao adscritas aquele periodo. Interessa-nos particularmente o designado sector B, onde se identificaram tres ocupacoes --superior, intermedia e inferior-- numa area de 6 x 5 m delimitada por afloramentos graniticos. Na ocupacao superior existia um piso de cabana, um fundo de lareira, um cinzeiro e diversos buracos de poste associados a materiais ceramicos e liticos. Na fase intermedia foi identificada uma area de fundicao delimitada por buracos de poste; entre os materiais contam-se ceramica de "tipo Baioes/Santa Luzia", um fragmento de espeto em bronze e cinco fragmentos de ferro, dos quais tres correspondem a uma pequena faca afalcatada (Fig. 8), sendo os outros inclassificaveis. Aocupacao inferior continha uma segunda fornalha de fundicao, ceramicas identicas as das outras ocupacoes e tres argolas de bronze.

Existem tres datas de Carbono 14 para os Castelos de Beijos. Uma delas corresponde a ocupacao superior (Sac-1524: 2610[+ o -]60 BP) e as outras duas a ocupacao inferior (Sac-1539: 2960[+ o -]45 BP e Sac-1566: 2930[+ o -]60 BP) (Senna-Martinez 2000: 47-48; Melo e Senna-Martinez 2000: 99). Asua calibracao, para um intervalo de confianca de 2 sigma (95% - metodo A) fornece os seguintes valores: 895-546 cal. AC, 1370-1011 cal. AC e 1370-933 cal. AC. As duas ultimas sao estatisticamente semelhantes, sendo a sua media ponderada de 2949[+ o -]38 BP que, calibrada, se traduz num periodo de tempo compreendido entre cerca de 1360 e 840 cal. AC. Sao todas do sector A e nenhuma corresponde a fase intermedia, portanto, nao se correlacionam directamente nem com o sector nem com a fase de ocupacao onde foi recolhida a faquinha em ferro. De qualquer modo, em termos culturais trata-se de um mesmo ambiente, apesar de uma ser mais tardia; por conseguinte, aquelas poderao ser valorizadas juntamente com as demais existentes.

[FIGURA 8 OMITIR]

3.6. Quinta do Marcelo (Almada)

Localizada junto a foz do Tejo, esta estacao arqueologica foi interpretada como sendo um acampamento utilizado para as primeiras trocas de praia realizadas com os Fenicios (Barros 1998: 31).

Esta afirmacao, por si so, afastaria a Quinta do Marcelo do conjunto de estacoes com artefactos de ferro anteriores a presenca fenicia. No entanto, os parcos dados publicados permitem sustentar a ideia de que o sitio ja era ocupado antes de os Fenicios terem chegado. A informacao disponivel alude a existencia de um contexto --"fossa de detritos" ou "bolsa 2"-- com materiais caracteristicos do Bronze Final e de muito boa qualidade, alias pouco compreensiveis numa "fossa de detritos": ceramica de ornatos brunidos, no interior e no exterior, uma conta de ambar, uma fibula de dupla mola e uma outra de cotovelo. Este contexto forneceu ainda tres faquinhas de ferro (Cardoso 1999-2000: 389, 393, 397; Melo e Senna-Martinez 2000: 101).

Foram publicadas quatro datas de Carbono 14 (ICEN-920: 2830[+ o -]50 BP; ICEN-923: 2560[+ o -]100 BP; ICEN-922: 2790[+ o -]60 BP e ICEN-924: 2700[+ o -] 70 BP) relativas aquela fossa, embora se tenha valorizado apenas a ultima, sem justificacao aparente (Melo e Senna-Martinez 2000: 98 e 103). A data ICEN-923 afasta-se das restantes, recaindo ja na Idade do Ferro. A calibracao das outras tres, para um grau de probabilidade de 2 sigma (95% - metodo A), aponta para um intervalo de tempo com os seguintes valores: 1187-836 cal. AC, 1126-815 cal. AC e 1000-788 cal. AC.

A morfologia das pecas e-nos praticamente desconhecida, visto que apenas se encontra publicado um esboco esquematico, sem escala, de uma delas (Barros 1998: 33) (Fig. 9) (6).

3.7. Rocha do Vigio 2 (Requengos de Monsaraz)

No ambito do processo de Minimizacao de Impactes Arqueologicos do Regolfo do Alqueva foi identificado, e posteriormente escavado, o povoado da Rocha do Vigio (Calado 2002). Tratase de um local privilegiado, em esporao, junto a foz da ribeira do Alamo. Como e justamente sublinhado pelo responsavel dos trabalhos, e particularmente interessante a coexistencia de construcoes com muros ortogonais com outros de planta ovalada numa fase de cronologia tardia dentro da Idade do Bronze regional.

[FIGURA 9 OMITIR]

E de uma cabana de planta ovalada e de um contexto com ceramicas do Bronze Final --onde tambem se encontrava um molde de fundicao de grauvaque para escopros--, que provem um escopro/formao de ferro (Calado 2002: 124; Calado et alii, 2002: 3) (7). Seria importante datar este contexto com maior precisao (Quadro 1).

4. Discussao e avaliacao dos dados

Da exposicao apresentada sintetizada no quadro 1 e da informacao reunida no ponto 2 torna-se evidente que a presenca de artefactos de ferro em contextos indigenas do Bronze Final, com ocupacao centrada nos secs. XII-X/IX AC, deixou de ser excepcao. A sua anterioridade relativamente ao estabelecimento dos Fenicios parece ser inequivoca.

O total de 28 registos (8), distribuidos por sete estacoes distintas, so em terras portuguesas, revela a importancia do fenomeno (Grafico 1).

Confrontando contextos arqueologicos e datas de Carbono 14 e, sem prejuizo de futuras correccoes, e possivel estabelecer duas situacoes perfeitamente distintas. Numa, mais antiga, podemos englobar a Moreirinha, o Monte do Frade, o Monte do Trigo, os Castelos de Beijos, que forneceram datas anteriores ao sec. IX AC. Em conjunto, oferecem um quadro coeso para o mundo interior beirao, o qual manipulava ja artefactos de ferro num momento, ou momentos, compreendidos entre cerca de 1400 e 800 cal. AC, mas com maior verosimilhanca entre 1300 e 900 cal. AC.

O caso da Quinta do Marcelo parece ser ligeiramente mais tardio. Aparentemente, enquadrase entre aquelas situacoes e outras posteriores, definidas, por exemplo, por S. Juliao (Vila Verde) fase I-b (sec. IX AC), que tambem forneceu uma lamina de foice, ou de falcata, de ferro (Bettencourt 2000: 123). Nos inicios da Idade do Ferro, posteriores ao sec. IX AC, cabem diversas situacoes com outros tipos de problemas, que nao cabem na discussao deste texto.

Essa importancia sai reforcada quando verificamos que, com a excepcao de uma (Quinta do Marcelo), todas as situacoes correspondem a sitios indigenas do interior. E de sublinhar que o mundo mediterraneo --os artefactos de ferro sao um dos seus testemunhos-- fizeram-se sentir em terras do interior, com uma area nuclear de capital importancia no mundo beirao (Viseu/Castelo Branco). Podemos afirmar, hoje, que a manipulacao de artefactos de ferro nao foi estranha as comunidades indigenas do Bronze Final do centrointerior do territorio portugues, isto e, a sua presenca tende a deixar de ser um epifenomeno.

Quer a Estremadura, quer o designado "corredor estremenho" deverao ter assumido, juntamente com outras rotas interiores que ligavam ao sul da Peninsula, um papel preponderante na configuracao das "paisagens culturais" do Bronze Final das Beiras (Vilaca 1995: 420; Vilaca e Arruda 1994). A escala do Mediterraneo, parecem-nos crediveis os modelos que focalizam na Sardenha e no Centro-Oeste Peninsular os centros nevralgicos das trocas entre o Atlantico e o Mediterraneo Central e Oriental e nas quais se devem inserir os primeiros ferros peninsulares (Lo Schiavo 1991; Ruiz-Galvez Priego 1993; 1998: 274). Recorde-se que os primeiros objectos de ferro da Sardenha, de tipologia cipriota, surgem integrados em contextos nuragicos do Bronze Final, do sec. XII a.C., bem antes de os Fenicios o terem levado para a ilha (Lo Schiavo 1988: 102; 1991: 214).

[GRAFICO 2 OMITIR]

Conforme foi defendido, essas trocas estariam nas maos de pequenos "empresarios privados", responsaveis por uma mais facil relacao com as populacoes indigenas (Knapp 1993: 334, 338; Sherratt 1994: 341; Ruiz-Galvez Priego 1998: 274). Porem, o exito dessas relacoes nao teria sido possivel sem a "disponibilidade" das comunidades peninsulares que funcionaram como contra-ponto activo aos estimulos orientais, o que relativisa, e muito, o modelo linear de centro, periferia e margem.

E igualmente evidente que os contextos analisados correspondem sempre a povoados ou sitios de habitat, independentemente das suas caracteristicas especificas. Mesmo no caso de Baioes, e nao obstante a peca de ferro pertencer a uma peculiar deposicao de bronzes, trata-se de um caso onde as pessoas viviam. Esta situacao distancia-se da conhecida em territorio espanhol onde artefactos de ferro tambem se encontram, para alem de sitios de habitat, em depositos, tesouros e talvez sepulturas, como vimos de inicio.

Importa ainda sublinhar, particularmente para os casos da Beira Interior, que o ferro ocorre em contextos caracterizados nao so por uma pujante metalurgia do bronze, mas igualmente em contextos onde essa metalurgia e produzida (Vilaca 1998).

As pecas estudadas apresentam-se num estado de conservacao em geral mediocre, sendo raras as que se encontram completas. Sublinhamos ja a importancia do numero de artefactos de ferro. Mas a questao nao e so de quantos, mas de quais e em que circunstancias foram usados. Temos laminas de faca, de serra e escopros, isto e, instrumentos de trabalho. Os microcontextos, como veremos, sao variaveis.

Em termos tipologicos regista-se uma fraca variabilidade, com um evidente predominio de laminas, nomeadamente de facas. Um gume arqueado e um corpo afalcatado sao outras das suas caracteristicas. Esta morfologia constitui novidade absoluta.

As facas nao tem grande tradicao no Ocidente Peninsular em contextos anteriores ao Bronze Final e, mesmo nestes, a sua raridade foi ja reconhecida (Coffyn 1985: 178). Com a presenca de facas de ferro confrontamo-nos com uma situacao muito similar a que caracterizou no Mediterraneo Oriental, designadamente Chipre e Grecia, no periodo de transicao Bronze/Ferro, por volta do sec. XII a.C., assim como na Italia, onde as facas sao, de entre os artefactos de ferro, os mais frequentes (Snodgrass 1980: 341-345; Waldbaum 1980: 85; Delpino 1988: 51).

As laminas de gume serrilhado, presentes na Moreirinha e, em particular, no Monte do Trigo, colocam algumas questoes de funcionalidade. Se nuns casos as caracteristicas do gume sao compativeis com as de uma serra, noutros (Fig. 6-1) temos um gume denteado que nao podia servir para serrar madeira ou metal. Admitimos, sem seguranca absoluta, que pecas como essa pudessem ter servido como uma especie de raspadores. As serras metalicas sao conhecidas na Peninsula desde o Calcolitico e a sua evolucao morfologica nao parece ter sofrido grande alteracao ao longo dos tempos, nomeadamente quando deixam de ser de cobre e de bronze e passam a ser feitas de ferro. Mas, tal como as facas, sao pouco frequentes em contextos do Bronze Final.

Pelo contrario, os escopros copiam prototipos de bronze, sendo estes dos tipos mais frequentes do Bronze Final.

Parece poder concluir-se que instrumentos funcionalmente identicos mas em distintas materiasprimas tiveram um uso contemporaneo. Este fenomeno repete-se noutras situacoes --navalha de espigao de El Berrueco, machados de apendices de Campotejar, bracelete de Villena-- e permanece na fase seguinte, dos inicios da Idade do Ferro--foices da Quinta do Almaraz (Cacilhas) (Valerio et alii 2003: 332) e de Torroso (Galiza) (Pena Santos 1992: 38-40).

Esta questao da copia de prototipos indigenas e muito interessante.

Nao existindo provas do conhecimento da reducao do ferro, seria de afastar a hipotese de um fabrico local e aceitar estes primeiros ferros como sendo pecas importadas. No caso das laminas de faca, nao custa admitir a sua condicao de artefactos importados, dada a sua inexpressiva tradicao entre nos e, pelo contrario, franca generalizacao do mundo mediterraneo da epoca. Mas nas pecas de tipologia indigena, a explicacao devera ser diferente. De facto, aquela limitacao tecnica nao seria impeditiva de um fabrico indigena se tivermos presente que nestes momentos iniciais circulariam lingotes de ferro a partir dos quais se faziam objectos de tipologia local, copiando os de bronze, ainda sem uma verdadeira metalurgia do ferro (Pleiner 1980: 379-380, 388, entre outros).

De resto, este foi o argumento para explicar a similitude dos primeiros ferros franceses relativamente aos prototipos locais de bronze (Gomez e Mohen 1981: 54-55) e tambem utilizado entre nos, ao se defender a possibilidade de que o ferro teria sido importado como materia-prima e os objectos fabricados in situ (Almagro Gorbea 1993: 88). Neste quadro, talvez seja de dar mais atencao aos pedacos amorfos de ferro presentes, por exemplo, em Huelva, Moreirinha e Castelos de Beijos.

Assim, poderao ter chegado tambem pedacos informes de ferro, que foram trabalhados, forjados a frio, martelados e transformados localmente, sem que tenham ficado vestigios de tal actividade; esse trabalho poderia ter sido feito pelos bronzistas, visto que a dureza desses primeiros ferros nao e elevada nem superior as dos bronzes. A novidade reduzirse-ia neste caso a materia-prima propriamente dita. Esta poderia ter sido apreciada pelas suas vantagens praticas, manifestadas no caracter utilitario dos artefactos, ou seja, o ferro teria sido inicialmente utilizado como se se tratasse de bronze (Ruiz-Galvez Priego 1998: 299). Nesta linha de raciocinio, o que importaria era o metal (bronze ou ferro) tendo sido indiferente, ou secundario, produzir o mesmo tipo de instrumentos em bronze ou em ferro.

Mas tambem e necessario perguntar se, mesmo tratando-se de utensilios, tal implicaria o conhecimento das vantagens tecnologicas do ferro, pois o uso de um "novo" metal em "velhos" artefactos poderia traduzir-se, simplesmente, num ganho de prestigio daqueles em termos sociais e nao funcionais. Ou seja, o facto de se tratar de utensilios nao e condicao suficiente e definitiva para funcoes exclusivamente praticas.

Por outro lado, as analises efectuadas a pecas da Moreirirnha, Monte do Trigo e Cachouca (neste caso, eventualmente ja do Ferro Inicial) revelaram que se trata de producoes rudimentares de ferros brandos, portanto, com pouco carbono e microdurezas com valores relativamente baixos (9). Significa isto que os primeiros ferros oferecem uma dureza inferior, ou muito proxima, da de uma peca de bronze de boa qualidade ([+ o -] 12/15% Sn), sendo aconselhavel relativizarmos a sua superioridade nesta epoca. Quer isto dizer que, tal como ha bronzes e bronzes, tambem ha ferros e ferros.

Um outro aspecto inerente a estes primeiros artefactos de ferro e que alguns sao caracterizados pelo bimetalismo. Contudo, o bimetalismo expressase de duas formas: nuns casos temos pecas bimetalicas; noutros casos e bimetalico o contexto de deposicao.

Para alem do remate de Villena (ouro e ferro) contam-se, na primeira situacao, o escopro de Baioes, com o corpo de bronze e a ponta de ferro, e duas das facas da Quinta do Marcelo, com rebites de bronze (Melo e Senna-Martinez 2000: 101). Esta caracteristica esta igualmente presente numa das laminas de faca da Cachouca (Idanha-a-Nova), com quatro orificios para rebites, de que se conserva ainda um, em bronze, mas cuja cronologia podera ser ja dos inicios da Idade do Ferro. Conforme foi sublinhado por diversos investigadores, o bimetalismo dos artefactos e uma caracteristica do inicio da introducao funcional do ferro (Waldbaum 1980: 85; Snodgrass 1980: 345).

Do ponto de vista tecnologico e particularmente dificil a conservacao de artefactos bimetalicos, pois a combinacao de ferro e de ligas de cobre implementa a corrosao do primeiro. Esta pratica podera ser interpretada como um deficiente conhecimento das propriedades e caracteristicas do ferro por parte do artifice (Giardino 2000: 104), o que remeteria para segundo plano a hipotese da adopcao do ferro com base em criterios exclusivos de superioridade tecnica.

Mas o bimetalismo manifesta-se ainda de uma outra forma, bem peculiar, na Beira Interior. No Monte do Trigo, inseridos na muralha e tendo sido sujeitos a accao do fogo, encontraram-se tres deposicoes reunindo, cada uma delas, pecas de bronze e de ferro, conforme referimos atras: o conjunto A, com duas laminas de ferro, uma delas serrilhada e tres argolas de bronze, tambem fragmentadas; o conjunto C, com quatro fragmentos de laminas de ferro, dois fragmentos de laminas de bronze e duas argolas de bronze; o conjunto D, com uma lamina de ferro de bordo serrilhado e treze apliques em calote de bronze, talvez de cinturao.

Esta situacao deposicional conjuga dois aspectos aparentemente paradoxais --mas nao e paradoxal o mundo do Bronze Final?--, que nos alertam para o que todos sabemos bem: a funcionalidade pratica dos artefactos nao e incompativel nem contraditoria de uma funcao de prestigio e ritual, visto que o valor dos artefactos nao e intrinseco, mas culturalmente construido, portanto, mutavel. Logo, objectos utilitarios --facas e serras-- nao traduzem necessariamente um uso pratico, ou, possuindo-o, pela forma e materia-prima, nao o terao tido pelo contexto.

Por outro lado, estes casos em que artefactos de bronze e artefactos de ferro sao manipulados nas mesmas condicoes deposicionais, poderao traduzir um valor analogo de ambos os metais em termos rituais ou simbolicos.

O problema que subjaz a questao dos ferros diz respeito a natureza, valor e significados, isto e, interessa apreender os contextos sociais de circulacao do ferro. No fundo, o importante e saber como e que as sociedades conceptualizaram o ferro.

Para captarmos os sentidos do ferro no Bronze Final talvez fosse util conhecermos o que se passou nos periodos seguintes, visto que a adopcao de artefactos de ferro e a plena integracao da tecnologia do ferro corresponde a um processo, mais ou menos longo, consoante as regioes. Tratando-se de uma inovacao tecnica, e porque a tecnologia e muito mais do que um fenomeno tecnologico e economico (Pfaffenberger 1988: 249), expressando tambem fenomenos sociais carregados de mensagens, por vezes de elevado simbolismo, e absolutamente necessario indagar o problema na longa duracao, confrontando as realidades materiais com as dinamicas sociais.

Focalizando a analise na Beira Interior, um problema que se mantem em aberto diz respeito ao que se tera passado nos seculos subsequentes aos inicios do I milenio a.C., ou seja, a forma como as diferentes comunidades reagiram a adopcao e manipulacao do ferro. O suporte empirico e diminuto e de fragil qualidade, mas admitimos que o processo devera ter sido prolongado, arrastado, ate muito pouco revolucionario. Nao sabemos ainda se na Beira Interior o uso do ferro, uma vez conhecido no Bronze Final se manteve, ou se tal foi algo meramente conjuntural, perdendo-se temporariamente, para ser recuperado so ja avancado o I milenio. Se os primeiros ferros chegaram sem aqueles que os sabiam trabalhar --questao em aberto--, e possivel que se tenha criado uma rejeicao temporaria do uso do ferro.

O ferro foi certamente apreendido de forma muito distinta pelas comunidades que habitaram a Moreirinha ou o Monte do Trigo, com pequenas pecas utilitarias que, aparentemente, teriam sido dispensaveis face a qualidade do bronze, e aquelas que viveram, por exemplo, na Tapada das Argolas (Fundao), ja em finais do milenio, onde o ferro, e a sua producao, estariam implementados e seriam vitais para o fabrico de armas, como bem ilustra um dos raros exemplares de espadas de "tipo La Tene" do territorio portugues (Vilaca et alii 2002-2003).

Entre os inicios e os finais do I milenio a.C., conhecem-se, pelo meio, situacoes isoladas, que importara investigar melhor, como o castro do Sabugal Velho (Sabugal), que podera ter produzido ferro, e o "campo de fossas" do Picoto (Guarda). Neste caso, foi recolhida numa das fossas, de natureza detritica, uma pequena lamina de ferro ainda mal caracterizada, encontrando-se disponivel uma data de Carbono 14 (GrN-27129: 2375[+ o -]20 BP), que aponta para o sec. V a.C. (Perestrelo et alii 2003).

Seguramente importante para esta problematica sera, quando concluido, o estudo do sitio arqueologico da Cachouca (Idanha-a-Nova), onde contamos com varios artefactos de ferro (10). No entanto, esta estacao oferece alguns problemas interpretativos ao nivel da articulacao entre a estratigrafia, os materiais e as datas de Carbono 14, pois nem sempre e possivel definir (podem ocorrer nas mesmas camadas) o que correspondera ao Bronze Final (secs. X-IX a.C.) e aos inicios da Idade do Ferro (secs. VIII-VII a.C.), cuja distincao e muito nebulosa. Pela tipologia, os ferros da Cachouca poderao testemunhar fases distintas. Alem das laminas de serra e de faca, uma das quais bimetalica, temos tambem agora pecas mais encorpadas, de maior dimensao, com novos tipos (um prego, uma faca afalcatada, um punhal e uma possivel rocadoira). Perde-se, portanto, a acentuada homogeneidade tipo-funcional verificada no Bronze Final e, pela primeira vez, utiliza-se o ferro no fabrico de uma arma e num instrumento agricola. Sem duvida que estes dois ultimos tipos terao funcionado como elementos "perturbadores", testemunhando que o potencial tecnologico do ferro teria sido finalmente compreendido, e indicando, por outro lado, que estaria aberto o caminho para mudancas mais profundas. O uso, pela primeira vez, de recipientes ceramicos a torno, de inspiracao fenicia, articula-se bem com aquelas novidades artefactuais de ferro (Vilaca e Basilio 2000).

Dos dados da Cachouca, no seu conjunto, ha que tirar uma outra licao. Da incorporacao do ferro nao se pode deduzir, bem pelo contrario, uma rapida e generalizada substituicao do bronze pelo ferro. A importancia dos artefactos de bronze desta estacao (cerca de 72 registos reportaveis a diversos tipos de artefactos) demonstra que, na mais pura tradicao do Bronze Final, a circulacao do bronze podera ainda ter predominado nos primeiros seculos do novo milenio. Se for correcto tomar este exemplo como modelo para a regiao, teremos de aceitar que a transicao Bronze/Ferro foi mais um caso de continuidade, enriquecido com novas incorporacoes, do que de descontinuidade.

Mas, por outro lado, ha indicios, ainda sujeitos a confirmacao, de que na Cachouca se verificou a reducao do ferro. A confirmar-se tal hipotese, estaremos perante uma ruptura tecnologica que afastara, irremediavelmente, este caso dos restantes. Nestes, importaram-se objectos ou lingotes de ferro que foram transformados localmente; naquela terse-a importado a tecnologia, ainda que de qualidade muito rudimentar. O sitio indigena da Cachouca, interior e afastado dos centros peninsulares que a epoca sabiam produzir o ferro --as feitorias fenicias--, parece demonstrar que a nova tecnologia podera ter sido divulgada em muito pouco tempo, mas nao, necessariamente, generalizada.

Voltando aos primeiros artefactos de ferro, e depois de todas estas reflexoes, a determinacao do seu significado nao se nos afigura hoje tao facil, como ha alguns anos atras. Em 1995 consideramolos, sem grandes interrogacoes, como elementos de prestigio, quer pelo seu reduzido numero, que hoje ja nao se verifica, quer por se tratar de uma materia-prima desconhecida e, por conseguinte, supostamente exotica. Entendemo-los, entao, como mais um item de natureza socio-simbolica (a par do ouro, do ambar, de determinados bronzes, etc.), que trazia prestigio e status.

Sem nos afastarmos desta linha interpretativa, nao recusamos outras. Como vimos, e nao obstante termos so praticamente instrumentos, estes nem sempre testemunham usos utilitarios e o ferro nao e necessariamente superior ao bronze.

Leituras que, entretanto, tivemos oportunidade de fazer, alertaram-nos para o facto de as novidades ou o exotismo nem sempre serem, necessariamente, apreciados. O ferro podera ter sido encarado como um material pouco atractivo (Sorensen 1989: 187). Por vezes, a reaccao e exactamente a contraria, a de rejeicao ou de indiferenca. Por outro lado, as reaccoes poderao ter sido diversas de acordo com os distintos contextos culturais.

De facto, o remate de ferro com decoracao embutida em ouro e o bracelete de ferro de Villena mostram como o ferro foi apreciado enquanto metal nobre. Mas o caso deste tesouro nao tem paralelo nas muitas outras situacoes do Ocidente peninsular.

Como vimos, os contextos do ferro no Bronze Final correspondem a tesouros (Villena), depositos (Huelva, Venat, Campotejar) e povoados, que predominam. Nestes, e admissivel que os ferros do Monte do Trigo pudessem ter correspondido a deposicoes rituais. Pelo contrario, na Moreirinha e nos Castelos de Beijos encontravam-se em solos de habitat, ou, no caso da Quinta do Marcelo, numa fossa detritica. Portanto, temos o mesmo tipo de artefactos em situacoes deposicionais e contextuais muito distintas. Em todas o ferro foi utilizado em utensilios, como se se tratasse de bronze. Numas e mais facil vislumbrar razoes de prestigio ou status; noutras, nem tanto.

Alguns seculos depois, esta diversidade de contextos, que induz leituras opostas, prevalece. Como assinalam os autores, o contexto da peca do Picoto, uma fossa detritica, sugere vulgaridade e pouco valor atribuido ao ferro. Mas se nos lembrarmos da necropole do Casalao (Sesimbra), nao muito distante no tempo do Picoto (Guarda), o ferro parece ter sido ai valorizado e apreciado pela deposicao, em tres das sepulturas, de uma faquita de ferro e de dois pedacos de hematite (Serrao 1964: 28). No litoral, o ferro, mesmo apenas na sua condicao de materia-prima, acompanha os mortos; no interior e desprezado e deitado no lixo.

As diversas pecas de ferro de contextos do final da Idade do Bronze e do Ferro Inicial sao indicadores de uma aceitacao sem perturbacoes e uma muito provavel continuidade do uso e trabalho do bronze. As primeiras pecas de ferro ocorrem numa altura em que a producao do bronze se encontrava no seu auge. As relacoes sociais e rituais reproduziam-se atraves da manipulacao do bronze. Nao temos a certeza de que as vantagens do ferro tenham sido de imediato compreendidas pelas comunidades indigenas. De resto, o argumento de que o ferro era largamente vantajoso pela sua abundancia e qualidades tecnicas, baseia-se numa logica que fara sentido mais tarde, nao numa epoca de pujante metalurgia do bronze, sem crise, bem pelo contrario: o bronze encontra-se em abundancia, em circulacao ou em numerosos depositos (Budd e Taylor 1995: 140).

Seja como for, e inevitavel que se tenham verificado diferentes atitudes por parte das comunidades em relacao ao ferro, em funcao dos ritmos e trajectorias regionais pre-existentes. So assim se entendem as deposicoes rituais do Monte do Trigo e as deposicoes detriticas da Quinta do Marcelo, ambas com o mesmo tipo de artefactos. E necessario escavar bons contextos para sabermos mais. So assim sera possivel captar a natureza e o valor dos dois ferros, o do Bronze Final e o da Idade do Ferro.

E e tambem preciso ter presente que o Bronze Final e um tempo de irracionalidades, ou, se quisermos, somos nos, imbuidos de um pensamento ocidental hodierno, que nem sempre sabemos explicar o que aos olhos de outros seria entendivel.

Concluindo, a informacao empirica actualmente disponivel para o territorio portugues, permite-nos caracterizar os primeiros artefactos de ferro e respectivos contextos da seguinte maneira: o seu numero tem vindo a aumentar, dispersando-se por uma vasta area que compreende as Beiras, a Estremadura e o Alentejo, ou seja, aquelas regioes onde tambem encontramos outros items de origem mediterranea; os sitios a que se reportam sao, com excepcao de um caso, interiores, longe da costa; todos eles correspondem a habitats indigenas caracterizados nao so por manipularem uma pujante metalurgia do bronze, como por saberem produzila; contextos e datas de C14 definem, de forma muito coerente, ambientes anteriores ao sec. IX a.C., portanto, pre-fenicios; sao artefactos de ferro com uma fraca variabilidade tipologica, correspondendo maioritariamente a laminas de faca e de serra; verifica-se que em alguns casos copiamse prototipos de bronze; do ponto de vista tecnologico, sao producoes rudimentares de ferros brandos e microdurezas com valores relativamente baixos; o bimetalismo pode ser uma das suas caracteristicas, traduzido, quer em pecas bimetalicas, quer em deposicoes bimetalicas; a classificacao destes primeiros ferros como elementos de natureza socio-simbolica e de status nao e liquida; a diversidade dos microcontextos --solos de habitat, fossas detriticas, deposicoes rituais-- deixa em aberto a hipotese de possiveis entendimentos distintos do ferro por parte das comunidades.

AGRADECIMENTOS

Aautora agradece a Jose Luis Madeira (desenho dos materiais, elaboracao do mapa da fig. 1 e tratamento de imagens), Barbara Armbruster (fig. 7-1 b) e Joao Carlos Senna-Martinez (fig. 8).

Recibido: 11-05-2005

Aceptado: 21-10-2005

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NOTAS

(1.) Neste ultimo caso, no ambito dos projectos de investigacao "O povoamento da Beira Interior durante a Idade do Bronze" e "Dos finais do Bronze aos inicios do Ferro na Beira Interior", ambos da nossa responsabilidade.

(2.) Este texto corresponde a versao escrita e desenvolvida de algumas ideias que serviram de base a comunicacao "Reflexoes em torno da inovacao do ferro e das suas pautas comportamentais na Beira Interior", que apresentamos no 1. Congresso de Arqueologia de Tras-os-Montes, Alto Douro e Beira Interior (Meda, 2004).

(3.) Trata-se de uma peca de lamina subtrapezoidal e espigao para encabamento, com um comprimento total de 15,7 cm, largura maxima de 2,3 cm e espessura maxima de 0,4 cm.

(4.) Estas e as restantes datas foram calibradas pelo "Radiocarbon Calibration Program rev. 4.3" (Stuiver, M. e Reiner, P.J. (1993): Radiocarbon, 35: 215-230).

(5.) A elaboracao da monografia desta estacao arqueologica encontra-se em preparacao.

(6.) Ya apos a redaccao e entrega deste texto, foram publicados os desenhos, com escala de duas das facas com morfologia identica a da peca da fig. 4.7 (Cardoso 2004: 213).

(7.) Agradeco ao Dr. Rui Mataloto a amavel cedencia do relatorio policopiado e inedito, onde e dada informacao complementar sobre a peca em causa.

(8.) No caso dos fragmentos pertencentes, inequivocamente, a mesma peca, apenas os contabilizamos uma vez, portanto, o numero de fragmentos e superior ao supra referido.

(9.) Agradecemos a Ignacio Montero esta informacao baseada nos resultados das analises realizadas por Salvador Rovira e Marc Gener, no ambito do projecto BHA2001-0248 "Caracterizacion tecnologica de la metalurgia del Bronce Final en la Peninsula Iberica". Um trabalho conjunto e espeficamente dirigido para esta problematica sera, em breve, preparado.

(10.) A incluir na monografia da estacao que se encontra em preparacao.

Raquel VILACA

Instituto de Arqueologia. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Portugal rvilaca@ci.uc.pt
Quadro 1.- Distribuicao dos artefactos de ferro por estacoes.

                                           Tipos

                                Lamina/   Lamina/   Lamina
Estacoes             Natureza    Faca      Serra    Denteada

Monte do Frade       Habitat       1
Moreirinha           Habitat       6         1
Monte do Trigo       Habitat       7         3         1
Senhora da Guia      Habitat
Castelos de Beijos   Habitat       1
Quinta do Marcelo    Habitat       3
Rocha do Vigio 2     Habitat
7

                                 Tipos
                     Cinzel/
Estacoes             Escopro    Disforme  Totais

Monte do Frade                               1
Moreirinha                         1         8
Monte do Trigo                              11
Senhora da Guia         1                    1
Castelos de Beijos                 2         3
Quinta do Marcelo                            3
Rocha do Vigio 2        1                    1
7                                           28
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Author:Vilaca, Raquel
Publication:Complutum
Article Type:Report
Date:Jan 1, 2006
Words:12103
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