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Art in schools: the aesthetic experience as an educational path/ Arte na escola: a experiencia estetica como caminho educativo.

Introducao

A partir da organizacao das insatisfacoes percebidas ao longo de meu percurso docente, busquei fundamentacao teorica para encontrar um caminho em direcao a possiveis respostas para as questoes: Como produzir experiencias esteticas na aula de arte? A experiencia estetica oportunizada pelas aulas de arte pode semear entusiasmo pela descoberta do conhecimento? O objetivo, portanto, foi buscar caminhos para a promocao da vocacao pedagogica de nossos estudantes, dentro da rica area do conhecimento que e a arte.

1. A experiencia estetica e a vocacao humana para o ser mais

Para a fenomenologia, a experiencia estetica e uma experiencia de profunda percepcao que nos subtrai por alguns instantes de nossas rotinas e nos devolve a consciencia de que somos seres humanos, expressando beleza. Mas belo, nao e necessariamente aquilo que e "bonito". De acordo com o fenomenologo Merleau-Ponty (2006), a beleza nao e atributo do objeto de contemplacao, coisa observada. Tambem nao reside no sujeito que contempla. A beleza nasce da relacao unica entre determinado sujeito que se entrega a contemplacao e determinado objeto, oportunizando a experiencia estetica.

Estetica define o ramo da filosofia que estuda a experiencia artistica, a beleza e o sentimento que esta suscita nos seres humanos. A palavra vem do grego aesthesis que pode ser traduzida por "faculdade do sentir", termo que comporta uma serie de fenomenos ligados a dimensao da percepcao. Nessa perspectiva, a experiencia estetica se configura a partir da percepcao sensivel envolvida na criacao ou na contemplacao de um objeto estetico, e no caso do presente estudo, da arte.

A percepcao sensivel ocorre quando somos estimulados em todos os nossos ambitos humanos: nossas faculdades sensoriais, intelectuais e emocionais. Isso e exercitar uma sensibilidade que so os seres humanos tem: a "sensibilidade estetica". E por isso a arte nos devolve a consciencia de sermos humanos.

Longe de ser uma experiencia passiva, para ocorrer a experiencia estetica e necessaria a participacao direta do sujeito contemplador, seja ele criador ou observador da obra apenas, pois a percepcao estetica e uma percepcao criativa, porque e mediada pela imaginacao do observador, que o liga ao objeto percebido, produzindo entendimentos imaginativos.

Para Freire (1996), os seres humanos sao incompletos, porque precisam uns dos outros; inconclusos, porque estao em evolucao, e inacabados, porque sao imperfeitos, assim como todos os outros seres. O que nos diferencia dos outros animais e a consciencia de sermos incompletos, inacabados e inconclusos. Esta consciencia nos coloca em um permanente movimento de procura que e proprio de nossa experiencia vital. A consciencia de sermos inacabados tornou-nos ensinaveis, gerou nossa educabilidade, no percurso de nosso movimento de busca, de nossa vocacao para ser mais. Esta consciencia tornou-nos os unicos "seres pedagogicos" do Universo.

Partindo do pressuposto de que o ser humano possui uma "vocacao ontologica para o ser mais", expressao de sua natureza, pode-se inferir que e tomando partido dessa vocacao ontologica que a escolarizacao pode trabalhar para ir contra a apatia e a passividade dos educandos, investindo em situacoes que estimulem a alegria que faz parte do processo de busca, estimulando a vontade de ser mais e ir alem.

Freire (1996) acrescenta que no decorrer de sua formacao, se conduzida adequadamente de forma a impulsionar o movimento de busca, o educando assume-se como sujeito promotor do proprio saber convencido de que ensinar e aprender nao se relaciona com a transferencia de informacoes, mas com a criacao de possibilidades para a producao e construcao de seu conhecimento.

Eisner (2004) afirma que uma valiosa licao que as artes podem ensinar a educacao e que as satisfacoes intrinsecas sao muito importantes. No ensino atual se observa cada vez mais a tendencia a instrumentalizar as atividades educativas e destacar a importancia das recompensas extrinsecas. A medida que o rendimento nos estudos se define por pontuacoes obtidas nas provas, a medida que se empregam mais e mais objetivos artificiais para motivar os alunos, a necessidade de atividades e situacoes que gerem motivacoes intrinsecas para o real envolvimento do estudante e cada vez maior. O cultivo de condicoes que fomentem a satisfacao intrinseca por meio da experiencia estetica e uma maneira de semear o entusiasmo, isto e, semear no aluno a vontade de continuar por aquele caminho aprendido, de "ser mais" e ir alem, mesmo quando nos professores, nos ausentamos.

2. Percurso Metodologico

Pesquisa qualitativa com recolha de dados por meio de Grupo Focal e Questionario semiestruturado. Por meio da analise interpretativa e reflexiva das praticas curriculares da disciplina de arte no ensino basico, o presente estudo adentrou uma escola particular de ensino fundamental e medio criando uma parceria com seus atores, alunos do curso fundamental II, ensino medio e ex-alunos, na construcao de significados e conhecimentos em beneficio do trabalho pedagogico em arte dentro da escola.

3. Apresentacao e analise dos resultados

Os depoimentos colhidos durante a reuniao de grupo focal e nos relatos escritos por ex-alunos foram analisados a luz de densa trama teorica, que nos mostra alguns caminhos rumo as respostas procuradas. A aula de arte pode semear o entusiasmo pela descoberta do conhecimento impulsionando a vocacao humana para o "ser mais" quando:

3.1 Oportuniza experiencias esteticas

Como ja mencionado, a experiencia estetica acontece quando somos estimulados em todos os nossos ambitos humanos--sensorial, intelectual e emocionalmente. A criacao artistica e uma maneira certeira de se alcancar uma experiencia estetica pela complexidade de seus procedimentos intelectuais, emocionais e sensoriais. Intrator (2003) corrobora este pensamento ao afirmar que, de modo geral, "nossas escolas nao desenvolvem nossas capacidades perceptivas. Nos damos mais atencao a aprender e processar o que os outros disseram em vez de desenvolver a capacidade de prestar atencao aquilo que observamos e experimentamos" (Intrator, 2003:35). O autor ressalta a importancia de criarmos, em sala de aula, "encontros com as propriedades esteticas de um objeto [que] podem influenciar nossa compreensao e experiencia de mundo".

A aula de arte que favorece experiencias esteticas instiga a imaginacao, favorecendo o pensamento divergente. Quando algum estimulo faz nossos pensamentos divergirem para inumeras respostas possiveis, estamos estimulando opensamento divergente, imaginativo. Ja quando este estimulo faz nossos pensamentos convergirem para uma unica resposta, estamos recorrendo a memoria e nao a imaginacao: e o pensamento convergente. (Aranha, 1986) A arte instiga a imaginacao pois permite que deixemos nossa mente perambular em busca de modos de compreensao e solucoes diversas para as criacoes, pois ha diversos caminhos a seguir, diferente da forma como as ciencias exatas, por exemplo, sao vistas pelos olhos dos estudantes. Nao ha uma so forma de se resolver a criacao. Na maioria das areas de conhecimento academico/escolar, a realidade se impoe como primeiro valor. O factual, a exatidao, a linearidade, a previsibilidade e o pensamento convergente sao mais valorizados. Dedica-se pouco tempo e atencao a imaginacao, apesar de a inventividade nos outros campos depender da imaginacao, do pensamento divergente. Desenvolver a imaginacao e uma forma de auxiliar os estudantes a especular sobre como agir na ausencia de regras, na ausencia de um "gabarito" que os confirme se a resposta a que chegaram ou a que devem chegar esta correta. Nao ha uma resposta a que devem chegar. E, por isso, uma forma se exercitar a autoconfianca. Alem disso, a aula de arte que prioriza experiencias esteticas prepara o aparato sensorial, intelectual e emocional de nossos estudantes para que consigam perceber o mundo a partir de uma perspectiva estetica, isto e, alem de suas funcoes pragmaticas, para que possam percebe-lo com a fecundidade da imaginacao.

3.2 Oportuniza a criacao com liberdade de formas de representacao

Contribuindo para a "multialfabetizacao" do estudante: a arte e um produto da liberdade da mente criativa. Ter a liberdade de escolher quais as formas mais adequadas para expressar aquilo que se tem em mente e um dos diferenciais da aula de arte promotora da autonomia. Para Eisner (2004), tao importante quanto desenvolver as capacidades imaginativas e desenvolver as habilidades de encontrar formas de representacao eficientes para comunicar o que pensamos. "Transformar o privado em algo publico e um processo fundamental tanto na arte como na ciencia. Ajudar os jovens a aprender a efetuar esta transformacao e um dos objetivos mais importantes da educacao" (Eisner, 2004:20). Quanto mais formas de representacao o estudante dominar, mais facilidade ele tera em se comunicar e maior entendimento ele tera sobre o mundo que se comunica com ele.

3.3 Permite a flexibilidade de proposito

A criacao artistica, diferente de outras atividades que demandam processos de pensamento convergentes, valoriza a surpresa, a ousadia, a assuncao de riscos, a tomada de decisoes na ausencia de regras rigidas e a consideracao de consequencias, pois o proposito inicial e flexivel e o artista tem a oportunidade de mudar o curso de sua criacao.

3.4 Oportuniza a expressao da individualidade

Pois diferente da maioria dos conteudos escolares, a arte aceita conteudos pessoais como materia-prima da criacao, favorecendo o autoconhecimento. Em uma epoca em que a sociedade tem eficientes e persuasivos mecanismos de padronizacao do pensamento para que o sistema de producao capitalista se mantenha aquecido, e especialmente importante valorizar os talentos individuais e as formas de pensamento distintas. Nenhum outro componente curricular oferece tantas oportunidades de expressao do ponto de vista particular de cada um dos estudantes como a arte. Permitir que este ponto de vista surja e seja valorizado e uma questao central quando se aspira que o aluno tenha autoconfianca suficiente para sentir-se autonomo. Pelos mesmos motivos, estudar e criar arte favorece a aceitacao das diferencas pessoais, o sentimento de pertencimento e comunidade, estimula a socializacao pelo intercambio de ideias, favorecendo o pensamento interdisciplinar.

3.5 Forma para a compreensao e participacao no panorama sociocultural contemporaneo

Para Efland, Freedman e Stuhr (2003), a finalidade da educacao em arte e a construcao da realidade. Para eles, "os artistas constroem representacoes do mundo real ou de mundos imaginarios que incitam os seres humanos a criar uma realidade distinta para si mesmos" (Efland, Freedman, Stuhr, 2003:124). As artes, portanto, estao cheias de representacoes da realidade social dos artistas. Elas constituem uma parte importante do discurso de nossa sociedade e conhecer esta linguagem e essencial para participar deste discurso. Uma boa educacao em arte, alem de desenvolver a percepcao das dinamicas internas dos estudantes, sua imaginacao, capacidade de representacao, contemplacao de seus conteudos etc, deve promover a percepcao das dinamicas da sociedade em que os estudantes estao inseridos, ampliando suas visoes de mundo. Dar-se conta de certas dinamicas culturais, ampliar os horizontes, levantar os olhos para enxergar aquilo e aqueles que vivem e pensam de maneira diversa foi mencionado por diversos participantes da pesquisa como uma das contribuicoes mais significativas da aula de arte. Alem disso, um bom curso de arte forma fruidores de arte. Participar do cenario cultural com o respaldo de educadores especializados torna esta participacao muito mais significativa porque nao se aprende apenas sobre o conteudo apresentado, mas sobre como fazer uma visita de qualidade a um museu, sobre como ser parte da plateia em um teatro, sobre aproveitar o melhor de cada um destes programas para sair deles enriquecido. Eisner (2004) lembra-nos do valor de tomar gosto pelas coisas que aprendemos. "O tipo de aprendizagem mais importante, em qualquer area do conhecimento, e aquele que gera o desejo de continuar aprendendo nesse campo sem nenhuma obrigacao de faze-lo." (Eisner, 2004)

Conclusao

Esta pesquisa tem a pretensao de ser mais uma voz no coro daqueles que tem consciencia da importancia do ensino das artes para uma formacao mais humana, mais rica, mais significativa, mais completa e nao apenas a "perfumaria" da educacao ou um passatempo recreativo, como considerada por muitas escolas. Eisner (2004) diz que o objetivo das artes no curriculo nao pode ser "que os alunos facam coisas para grudar na porta da geladeira", porque se cumprirem apenas esta funcao, "ocuparao um lugar marginal em nossas escolas", mas enquanto os professores aspirarem liderar uma disciplina que sirva apenas "para fazer coisas para grudar na porta da geladeira, merecem ocupar esse lugar marginal." (Eisner, 2004:236). Esta pesquisa, portanto, contribui com aqueles que recusam este lugar marginal para esta area do conhecimento, por conhecerem a dimensao de sua importancia.

A pesquisa oferece subsidios para que os professores possam fazer da escola um espaco onde acontecem experiencias ricas em significado para a vida presente e futura dos estudantes, experiencias prazerosas pelo poder de transformacao que tem, pelo saboroso processo de aprendizagem e pelo belo resultado que trazem: a conquista do conhecimento. Subsidios para auxiliar a pensar em uma escola como um espaco da descoberta socialmente construida de si, dos outros e do mundo, onde se vivem experiencias inspiradoras e esteticas, e por isso se perde a nocao do tempo porque e onde aprendemos que a vida pode ser cheia de possibilidades, de vitalidade e entusiasmo e sobre a qual podemos atuar ativamente.

Propoe-se aqui uma valorizacao da sensibilidade humana e uma proposta de fomento desta sensibilidade que nos e inerente e, ao mesmo tempo, uma negacao a reducao da educacao como mera adaptacao ao mercado capitalista, como treinamento de habilidades para que quando adultos, os estudantes possam produzir mais, consumir mais e alimentar um ciclo que nos apequena. Enfim, concluimos que se passar pela experiencia estetica e uma forma de experimentar alegria (Eisner, 2004) e lutar pela alegria da escola e lutar por um mundo melhor (Freire, 1996), o que se propoe aqui e a criacao de oportunidade para que a arte nos faca melhores.

Referencias

Aranha, M. L. de A. e Martins, M.H.P. (1986) Filosofando: introducao a filosofia. Sao Paulo: Moderna.

Barbosa, Ana Mae. (1998) Arte e experiencia segundo John Dewey in Topicos Utopicos, Ed. C/Arte.

Coli, J. (1995) O que e Arte? Sao Paulo: Ed. Brasiliense.

Dewey, John. (2001) Cultura e industria na educacao. In: Barbosa, Ana Mae. (2001) John Dewey. e o Ensino da Arte no Brasil. Trad. Angela Fontes. Sao Paulo: Cortez p. 23-32

Dewey, John. (2012) Arte como Experiencia. Sao Paulo: Martins Fontes

Efland, A.D., Freedman, K., Stuhr, P. (2003) La Educacion em el arte pos-moderno. 1aed. Paidos, Barcelona.

Eisner, Elliot W. (1998) El Ojo Ilustrado: indagacion qualitativa e mejora da pratica educativa. 1a ed, Paidos, Barcelona.

Eisner, Elliot W. (2004) El arte e la criacion de la mente. El papel das artes visuales em la transformacion de la consciencia. Paidos, Barcelona.

Freire, P. e Shor, I (1987) Medo e Ousadia: O cotidiano do professor. 2a Edicao. Sao Paulo:

Freire, P (1993) no prefacio de Snyders, G. Alunos Felizes. Sao Paulo: Paz e Terra

Intrator, S.M. (2003) Tuned in and Fired up: how teaching can inspire real learning in the classroom. Yale University Press.

Merleau-Ponty, M. (2006) Fenomenologia da percepcao. Sao Paulo: Martins Fontes.

LISIE DE LUCCA *

Artigo completo submetido a 4 de abril de 2019 e aprovado a 15 de maio de 2019

* Brasil, Professora de Artes Visuais, Coordenadora Pedagogica, Artista Visual.

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Title Annotation:Original articles/Artigos originais
Author:de Lucca, Lisie
Publication:Materia-Prima
Date:May 1, 2019
Words:2484
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