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Arqueologia e educacao--programa "Arquelogia e comunidades" para criancas e adolescentes no Vale do Jequitinhonha, Brasil.

Archaeology and education--"Archaeology and communities" project to children and teenagers at Jequitinhonha Valley, Minas Gerais State, Brazil

Arqueologia y educacion-programa "Arqueologia y Comunidades" para ninos y adolescentes en el Valle del Jequitinhonha, Brasil

--1. Introducao.--2. Legislacao Brasileira de Protecao ao Patrimonio Arqueologico--3. Patrimonio Arqueologico no Alto Jequitinhonha.--4. Programa de Educacao na Casa da Chica da Silva, Diamantina, MG.--5. As Oficinas Tematicas.--6. Consideracoes Finais.--7. Agradecimentos.--Referencias Citadas.

1. Introducao

Ensinar o respeito ao passado, mais do que sua simples valorizacao, e contribuir para a formacao de uma sociedade mais sensivel e apta a construir um futuro menos predatorio e descartavel, menos submetido a logica economica de um mercado cada vez mais voltado para os jovens, seus habitos e seus gostos (ou a falta e a volatidade destes). E construir uma sociedade que respeite seus velhos como portadores de saberes e tradicoes que precisam e devem ser reinventados ou transmitidos, em sua integridade, as geracoes futuras. Uma sociedade culta e uma sociedade cultivada, seja pelos meio formais da educacao --a escola--a, seja pelos meios informais a familia, os mestres, as praticas sociais, etc. e sera culta, no sentido mais amplo de portadora de uma cultura, na medida em que fora capaz de escolher, no passado e no presente, aqueles--objetos, signos, pessoas, tradicoes, etc. --com as quais quer construir sua linha do tempo no mundo. Ana Carmem Amorim J. Casco (Iphan, s/d)

O presente artigo traz parte das experiencias obtidas pela equipe do Laboratorio de Arqueologia e Estudo da Paisagem da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (Laep/ Nugeo/UFVJM), em programas de Educacao Patrimonial (doravante EP), para criancas e adolescentes cursando a Educacao Basica no municipio de Diamantina, estado de Minas Gerais, Brasil.

As atividades aqui apresentadas estao sendo desenvolvidas na chamada "Casa da Chica da Silva" (1) (importante personagem na historia colonial brasileira), atual escritorio do Instituto do Patrimonio Historico e Artistico Nacional do Ministerio da Cultura do Brasil (Iphan/ MinC), sendo que o quintal da residencia esta em processo escavacao arqueologica desde setembro de 2011.

O Programa intitulado "Arqueologia e Comunidades" tem como principal meta norteadora: dar significado social e cultural para as atividades em Arqueologia desenvolvidas pelo Laep/Nugeo/UFVJM em todo o Alto Jequitinhonha, buscando inserir a comunidade nos processos de valorizacao e protecao do patrimonio arqueologico. Obviamente, esse objetivo (geral), se desmembrou em outros nao menos importantes, a saber:

1. Suscitar o sentimento de pertencimento entre as comunidades afetadas, seja direta ou indiretamente, pela pesquisa arqueologica, sobretudo no que diz respeito aos bens culturais relacionados as ocupacoes indigenas antes do contato com os europeus.

2. Estimular o conhecimento e valorizacao dos testemunhos do uso e ocupacao do espaco no vale do Jequitinhonha.

3. Estimular o processo de valorizacao da cultura do "outro", inclusive trabalhando tematicas importantes a sociedade atual, tais como: diversidade, tolerancia, diferencas etnico-culturais, pluralidade cultural, etc.

Portanto, todas as metas tiveram (e tem) com o foco o processo de sensibilizacao e valorizacao dos bens arqueologicos brasileiros (atuais, do passado colonial ou aqueles provenientes das ocupacoes antes do contato com europeus), mas principalmente os prehistoricos, uma vez que, diferente de outros paises latino-americanos que apresentam vestigios culturais pre-colombianos monumentais, (sobretudo no que tange a arquitetura), no Brasil (2) nossa heranca cultural pre-historica (indigena) esta representada por fragmentos de material litico (ferramentas de pedra), remanescentes ceramicos (na maioria cacos), restos faunisticos, sepultamentos, bem como milhares de sitios de registros rupestres, dentre outros remanescentes.

Todos sao de essencial importancia para a producao de conhecimento arqueologico sulamericano, entretanto de dificil sensibilizacao entre as comunidades que sao detentoras desse patrimonio, sobretudo porque dizem respeito as herancas indigenas, grupos culturais que, durante toda a formacao nacional do Estado brasileiro, foram sobrepujados, perseguidos e renegados, em todos os aspectos de seus modos de vida e cultura (3).

E notorio que o Brasil e em um pais plural, onde sua Historia foi moldada sob o olhar de uma elite (religiosa, politica ou economica) e, consequentemente, causando "a alienacao das comunidades locais com sua heranca cultural" (Robrahn-Gonzalez, 2006, p. 171). Justamente por isso, os processos de EP devem, necessariamente, informar o que e patrimonio, em um processo de redefinicao de Bem Cultural enquanto heranca de uma nacao.

Para Funari e Carvalho (2011, p. 9):
   Como alternativa ao distanciamento entre a sociedade e seus
   diversos patrimonios e a consolidacao das politicas da diversidade
   como um patrimonio, a Educacao patrimonial apresenta-se como um
   excelente campo de acao. Nao se almeja atribuir a sociedade um
   conhecimento enciclopedico sobre quais sao seus patrimonios, datas
   de fundacao, autores, caracteristicas fisicas, entre outros dados.
   Ao contrario, a Educacao patrimonial deve agir no sentido de,
   democraticamente, construir dialogos entre a sociedade e seus
   patrimonios.


Ainda parafraseando os autores acima, e preciso construir com as diferentes comunidades o que e patrimonio e bem publico, enquanto conceitos que devem adquirir significados para esses grupos, ou seja, "o individuo precisa compreender que esse patrimonio e importante para alguem" (Funari & Carvalho, 2011, p. 11).

Baseando-se nesses pressupostos que a equipe do Laep/Nugeo/UFVJM estabeleceu metas para o programa de EP para criancas e adolescentes, a saber:

1. Construir com as comunidades significados culturais por meio dos vestigios arqueologicos, possibilitando a compreensao da importancia da protecao, valorizacao e respeito (sobre) do patrimonio historico/ arqueologico e cultural em Diamantina e regiao.

2. Utilizar os metodos cientificos da Arqueologia como meio de valorizacao da historia e da memoria, possibilitando e incentivando processos de insercao social, alteridade e cidadania.

3. Permitir que o publico-alvo nao veja as atividades em Arqueologia como resgate do velho (de fragmentos, de lixo, etc.) que precisa ser preservado, mas como um processo de renovacao da cultura, da memoria e da alteridade das comunidades que compoem todo o Alto Vale do Jequitinhonha.

4. Desenvolver uma "Arqueologia de Baixo para Cima" (Faulkner, 2000), nao sendo: hierarquica, exclusivista ou elitista; mas que busque o desenvolvimento de processos de interacao na garantia pela legitimidade social de todas as etapas do trabalho (campo, laboratorio, gabinete e socializacao).

5. Fortalecer nas diferentes comunidades que constituem o Alto Jequitinhonha o tripe: identificacao, protecao e valorizacao, mas indo alem, isso equivale dizer, na busca pelo caminho da cidadania (pessoal, comunitaria, e nacional, conforme Horta, 2003).

6. Permitir a todos os cidadaos o acesso a sua historia e cultura, nao apenas aquela imposta pela elite dominante, mas do povo comum, de nossa heranca indigena e africana, pois so por meio da suscitacao do pertencimento e que iremos atingir a valorizacao, respeito e, principalmente, preservacao dos nossos bens culturais (Funari e Carvalho, 2011; Cerqueira, 2008).

Buscou-se (por meio do desenvolvimento de estrategias, praticas e acoes pedagogicas) a divulgacao do patrimonio do Alto Jequitinhonha para alunos nos diferentes niveis escolares, dente outros membros das comunidades.

De acordo com Cerqueira (2008), essa prerrogativa vai de encontro do que se espera do desenvolvimento de praticas de EP em sala de aula, uma vez que se busca "(...) por meio de abordagem inclusiva, o fomento a autoestima das comunidades locais, estimulando o conhecimento e valorizacao de seu patrimonio, memoria e identidade cultural. Paralelamente, busca sensibilizar as comunidades para a preservacao de suas variadas formas de patrimonio material e imaterial, que constituem suportes de sua memoria e identidade cultural" (Cerqueira, 2008, p. 13).

Ainda, de acordo com Horta (2003), "a metodologia da Educacao Patrimonial pode ser um instrumento valioso para o trabalho pedagogico dentro e fora da escola".

O Programa de EP pretendeu, dessa forma, empreender acao educativa interdisciplinar com interfaces entre a Arqueologia e Ambiente, buscando informar diferentes grupos, em diferentes espacos sociais, o que e e qual a importancia da Arqueologia regional, suscitando processos de valoracao e preservacao desse patrimonio enquanto praticas de educacao e cidadania (Horta, 2003).

Ao resgatar a memoria socio-historica dos diferentes grupos formadores de uma dada sociedade, garante-se as diferentes comunidades o direito a informacao, bem como a possibilidade de producao e de aproveitamento dos bens culturais, condicao que, certamente, ira promover a melhoria da qualidade de vida dessas pessoas (Cehc, 2001). Nesse caminho, o trabalho de EP tem como foco a interacao entre os atores sociais e seus patrimonios, buscando um processo ativo de troca de conhecimentos, apropriacao e valorizacao de sua heranca cultural, alinhandose, inclusive, com os paradigmas atuais relacionados a educacao, tecnologia e modo de vida (Martins & Castro, 2010). Trata-se de um processo ativo pelo qual diferentes agentes que compoem uma dada sociedade interagem acerca do que e patrimonio (Bastos, 2006, p. 158, Fagundes & Piuzana, 2010).

Partiu-se do pressuposto que os alunos participantes do Programa de EP nao eram "tabulas rasas" que necessitam exclusivamente do conhecimento da Universidade para delimitar e reconhecer seu patrimonio. Pelo contrario, desde o inicio acreditou-se na hipotese de que todos tem percepcoes sobre o que e o patrimonio e, assim, mantem relacoes intrinsecas como o mesmo.

O papel da Universidade e, portanto, o de sensibilizacao da necessidade de conservacao do que denominamos bens patrimoniais e, em nosso caso em especifico, vestigios de populacoes pre-coloniais que se espalham por um imenso territorio no interior da America do Sul. A intencao sempre foi a possibilidade de dialogo, de compreender as relacoes e percepcoes que as comunidades tem em relacao ao patrimonio e, nesse sentido, capacitandoos para melhor usufruto destes bens, fato que iria a priori propiciar, a geracao e producao de novos conhecimentos.

Ha nessa interlocucao um processo continuo de percepcao, criacao e recriacao num processo cultural. Busca-se a sensibilizacao das comunidades da importancia do patrimonio arqueologico, esclarecendo as principais medidas de conservacao (protecao e gestao) que podem ser assumidas.

Na verdade, fortalecer nas diferentes comunidades o tripe: identificacao, protecao e valorizacao, mas indo alem, isso equivale dizer, na busca pelo caminho da cidadania (pessoal, comunitaria, e nacional. Horta, 2003), permitindo a todos os cidadaos acesso a sua historia e cultura, nao apenas aquela imposta pela elite dominante, mas do povo comum, de nossa heranca indigena e africana, pois so por meio da suscitacao do pertencimento e que iremos atingir a valorizacao, respeito e, principalmente, preservacao dos bens culturais (Ferreira, 2011). Valorizar e preservar sao atos de cidadania (Horta, 1999).

O Programa de EP aqui apresentado tem consciencia da importancia mais que fundamental do engajamento das comunidades nao apenas em sua execucao, mas em seu planejamento e gestao, em uma "Arqueologia de Baixo para Cima" (Faulkner, 2000). Nesse caso, a pesquisa busca, antes de tudo: nao ser exclusivista; nao ser hierarquica; valorizar a interacao.

Isso equivale a dizer que se buscou o que Marshall (2002) denominou de Arqueologia Comunitaria, formando entre membros das comunidades os gestores desse patrimonio, ao mesmo tempo em que permitindo que haja realmente a identificacao do patrimonio arqueologico como heranca, e nao como algo tao distante da realidade social e cultural dessas comunidades. Buscaram-se, por meio dessa abordagem metodologica, pesquisas localmente orientadas (Faulkner, 2000), pelo qual se faz necessario o encorajamento da populacao; incita-la a pesquisa, demonstrando que seus conhecimentos sao necessarios para o sucesso do programa. Assim, a comunidade deve estar integrada em todas as etapas: do planejamento a gestao patrimonial.

2. LEGISLACAO BRASILEIRA DE PROTECAO AO PATRIMONIO ARQUEOLOGICO

O patrimonio arqueologico brasileiro apresenta um excelente corpo legislativo para sua protecao e valorizacao (Miranda, 2006), sendo o orgao federal responsavel por sua fiscalizacao, protecao e valorizacao o Instituto do Patrimonio Historico e Artistico Nacional (Iphan/MinC).

A protecao do patrimonio cultural, em especial o arqueologico, constitui-se de uma condicao essencial para a conservacao de dados fundamentais sobre os processos historicos e culturais de uma nacao garantindo, inclusive, a consolidacao de sua memoria socio-historica, identidade e alteridade, bem como suscitando processos de valoracao e preservacao desse patrimonio enquanto praticas de educacao e cidadania (Fagundes et al., 2011, Miranda, 2006, Magno et al., 2011).

O patrimonio arqueologico compreende a porcao do patrimonio material para o qual os metodos da arqueologia fornecem os conhecimentos primarios. Engloba todos os vestigios da existencia humana e interessa todos os lugares onde ha indicios de atividades humanas nao importando quais sejam elas, estruturais e vestigios abandonados de todo tipo, na superficie, no subsolo ou sob as aguas, assim como o material a eles associados (Icomos, 1990).

Para Miranda (2006, p.73), no Brasil:
   (...) a protecao especifica para
   os bens de valor arqueologico
   surgiu com a edicao da Lei n.
   3924, de 26 de julho de 1961,
   que dispoe sobre monumentos
   arqueologicos e pre-historicos. Ate
   entao, a protecao de tais bens ficava
   na dependencia do tombamento
   (regido pelo Decreto Lei 25/37),
   instituto pouco adequado a tutela
   do patrimonio arqueologico tendo
   em vista que em muitos casos
   a pesquisa cientifica necessaria
   para o estudo dos sitios acaba por
   desmonta-lo integralmente, o que a
   rigor contraria a norma de protecao
   integral inserta no art.17 da Lei de
   Tombamento.


A Lei Federal no. 3924 de 26 de julho de 1961 e o texto mais importante, por assim dizer, dessa protecao do patrimonio arqueologico. Inovadora para a epoca e, quica, ate os nossos dias; a Lei institui a protecao dos bens arqueologicos brasileiros, sendo estes, a partir de entao, considerados bens da Uniao e, como tais, qualquer destruicao ou mutilacao sao consideradas crimes federais.

3. Patrimonio arqueologico no Alto Jequitinhonha

O Alto Jequitinhonha esta localizado no nordeste do estado de Minas Gerais, interior do Brasil. A ocupacao europeia iniciou-se em meados do seculo XVIII com a descoberta das minas auriferas e do diamante, atividade que perdurou ate meados do XIX com o esgotamento das minas. As ocupacoes antes do contato, por sua vez, datam de 10 mil anos A.P., sendo que os sitios arqueologicos remanescentes destas ocupacoes somam algumas centenas, sobretudo aqueles com presenca de arte rupestre.

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A regiao apresenta um patrimonio historico-cultural de suma importancia, representado por algumas centenas de sitios arqueologicos pre-historicos, (Linke, 2008; Isnardis & Linke, 2010; Fagundes, 2012; Fagundes et al., 2012a, 2012b); o conjunto arquitetonico significativo datado dos seculos xViII, XIX e XX; arquitetura vernacular; sitios arqueologicos provenientes dos processos de mineracao; isso sem contar com toda a expressao imaterial da cultura regional, uma das mais ricas do Brasil.

Alem do patrimonio historico-cultural, devemos ainda citar a relevancia da regiao em termos ambientais: geologicos, de cobertura vegetal e fauna; ou seja, um riquissimo ecossistema com vasta possibilidade de trabalhos de ensino, pesquisa e aproveitamento turistico.

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4. Programa de educacao na casa da Chica da Silva, Diamantina, MG

Faz algum tempo que a equipe do Laep/ Nugeo/UFVJM tem desenvolvendo o programa "Arqueologia e Comunidades" (Fagundes e Piuzana, 2010a, 2010b; Fagundes et al, 2011).

Com o advento da escavacao do quintal da Casa da Chica (4) e a iminente necessidade de esclarecer as acoes desenvolvidas para a comunidade (bem como socializar o conhecimento produzido), a equipe utilizou a oportunidade para cumprir as metas da pesquisa arqueologica em todo vale do Jequitinhonha, ou seja, (01) a pesquisa academica, que evidencia os remanescentes culturais e produz conhecimento por meio dele; (02) socializacao do conhecimento produzido entre as comunidades afetadas pela pesquisa, esta obtida por meio dos programas de EP; (03) gestao do patrimonio cultural.

A escavacao do quintal da Casa da Chica tem sido uma acao que suscita interesse e ao mesmo tempo desconfianca. Em Diamantina sao comuns as historias de tesouros enterrados (potes de ouro e diamantes) e, na residencia mais famosa da cidade, esse tipo de "ocorrencia" seria uma certeza entre a populacao. Alem disso, ha outras questoes em jogo, a saber: (01) Sentimentos de pertencimento: o que esta sendo desenterrado e da comunidade, detentora do patrimonio, portanto as pessoas devem ser convidadas a participarem do processo (Faulkner, 2000; Ferreira, 2011). (02) Indagacoes: Por que escavar o quintal? O que vai ser feito os remanescentes arqueologicos? Para onde ele vai? Essas questoes sao esperadas na pesquisa arqueologica, como bem citado por Ferreira (2011, p. 23):
   Dificilmente, portanto, nos
   esquivaremos dos conflitos ao fazermos
   pesquisas arqueologicas. Se nada esta
   quieto, e preciso efetivamente confrontar
   o passado e interferir criticamente, junto
   com as comunidades, nos processos de
   constituicao de identidades culturais
   que a Arqueologia inevitavelmente
   promove. Para tanto, e necessario
   que defrontemos, inicialmente,
   as ambivalencias das politicas de
   representacao do patrimonio cultural.


O planejamento da escavacao do quintal da Casa da Chica foi desde o inicio um processo reflexivo de como levar a cabo a pesquisa com responsabilidade que se espera da Arqueologia, o respeito para a comunidade e, principalmente, efetuar acoes que incorporassem conhecimentos, anseios e opinioes, enquanto direitos dos detentores do patrimonio legitimamente bens culturais da Uniao (Brasil, 1988; Miranda, 2006).

Fato importante e demostrar para a sociedade que patrimonio vai alem dos tesouros coloniais e esta representado por esses bens, mas tambem: pela arquitetura dos grandes casaroes do XVIII; pelos muros historicos; pelos pavimentos em pedras das ruas; por cachimbos em barros associados aos escravos; fragmentos de faiancas inglesas ou de panelas de barros; por ferramentas de pedra associadas as ocupacoes pre-historicas (comuns em Diamantina e regiao); pelos restos de alimentos, comuns na escavacao do quintal da Casa da Chica.

Neste artigo, em especial, trata-se das acoes realizadas com criancas e adolescentes que cursam a Educacao Basica em escolas publicas e privadas do municipio de Diamantina, entretanto, cabe frisar, que outras acoes estao direcionadas para diferentes publicos, de forma a abranger um numero cada vez maior de pessoas, seja da comunidade ou mesmo turistas que frequentam a cidade.

O planejamento das acoes foi pautado nas questoes acima abordadas (indagacoes, sensibilizacao, pertencimento e cidadania), onde se buscou uma compreensao pelo publico-alvo das atividades de escavacao arqueologica que estavam ocorrendo e a importancia do resgate e salvaguarda dos remanescentes culturais.

Neste sentido, os temas da primeira etapa de EP foram: (01) o que e Arqueologia e o trabalho do arqueologo; (02) identificacao dos remanescentes culturais, seus diferentes tipos e suas importancias.

Assim, elaboraram-se diferentes oficinas tematicas, em uma programacao de aproximadamente duas horas de duracao, alem de visitas a exposicao de bens arqueologicos regionais, intitulada "Paisagens Arqueologicas em Minas Gerais: um olhar sobre a pre-historia brasileira"; e da area que esta em escavacao.

As criancas e adolescentes sao divididas em grupos (entre 05 e 06 alunos), e acompanhadas pelos estagiarios nas diferentes atividades de maneira rotativa, de modo que todos possam participar ativamente de todas as oficinas propostas.

5. As oficinas tematicas

Primeira atividade-visita monitorada a area de escavacao

A escavacao do quintal da Casa da Chica tem gerado muita expectativa entre os cidadaos da regiao, inclusive entre as criancas e adolescentes. Motivados pela "caca ao tesouro", muitos tem certeza que a equipe de Arqueologia esta em busca de potes repletos de ouro ou diamantes.

Tem-se tratado a situacao como uma oportunidade positiva, ou seja, realmente e realizada esta "caca ao tesouro", porem o tesouro pretendido esta representado por fragmentos da vida em Diamantina ao longo do tempo (a partir do seculo XVIII), uma vez que se tem compreendido que todo e qualquer remanescente cultural e reflexo direto do comportamento humano, trazendo informacoes valiosas acerca do modo de vida e cultura do grupo que o produziu e o utilizou. Portanto, estes fragmentos sao vestigios materiais d a Historia de Vida das pessoas que viveram na residencia durante quase tres seculos.

As oficinas programadas tem como objetivo levar a sensibilizacao de que cultura e a historia sao tesouros regionais, fundamentais para a constituicao de uma sociedade realmente justa e democratica. As expectativas do publico-alvo sao fundamentais para que haja real interacao com as atividades propostas de modo que os objetivos aqui apresentados sejam alcancados.

A visita a area em escavacao e um momento que, de certo modo, causa ansiedade entre os alunos, que sao motivados pela curiosidade quase que exclusivamente. Deve-se lembrar de que a Arqueologia e retratada no cinema, em livros, na midia em geral, como uma atividade exotica. Justamente por isso, a visitacao, em si, pode ser frustrante caso nao haja monitoramento apropriado, levando em conta alguns itens, tais como: faixa etaria, expectativas dos alunos, explicacoes apropriadas, etc.

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Para alunos dos ensinos Fundamental II e Medio (no Brasil, adolescentes entre 11 e 17 anos), a visita e precedida de uma pequena palestra (com duracao maxima de 15 minutos), momento em que sao feitos esclarecimentos basicos sobre qual o papel social da Arqueologia e o que e uma escavacao arqueologica.

Para as criancas menores e realizado um "teatro de fantoches" com explicacoes mais ludicas. Busca-se uma interacao maior com as criancas, de forma que possam compreender as atividades que sao desenvolvidas na Casa da Chica. Deste modo, ja na area de escavacao, as criancas podem realizar questionamentos de acordo com suas ideias sobre a Arqueologia, ou seja, nao ha um roteiro, visto que se pretende corresponder as expectativas dos alunos. Tal iniciativa incita muito mais a participacao.

Assim sendo, nessa atividade os estudantes sao acompanhados ate a area de escavacao, onde e explicado todo o processo de evidenciacao e coleta dos remanescentes arqueologicos. Como explicitado, o mais importante e a interacao entre equipe e estudantes. O objetivo e fazer que nao sejam apenas expectadores, mas que possam opinar, ter esclarecimentos, oferecer ideias, etc.

Como detentores deste patrimonio e com base no objetivo do Programa "Arqueologia e Comunidade' de construir significados culturais por meio dos vestigios arqueologicos, bem como possibilitar que as criancas e adolescentes compreendam a importancia da protecao, valorizacao e respeito (sobre) do patrimonio historico/arqueologico e cultural em Diamantina; o mais importante, tendo como aporte os conceitos aqui colocados, e que haja a manifestacao dos participantes de modo que possam colocar suas impressoes, opinar sobre e interpretar as atividades desenvolvidas pela equipe de Arqueologia e, mais importante, que possam perceber efetivamente a importancia da historia regional.

Como aqui fora exposto, e necessario 'construir com' as diferentes comunidades o que e patrimonio e bem publico. Estes conceitos devem ter significados emicos e precisam ter importancia para quem os detem (Funari & Carvalho, 2011).

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Escavacao simulada

Obviamente a atividade mais querida de todos os alunos e a possibilidade participacao na escavacao. Por varios motivos, principalmente seguranca, nao se permite a participacao (ha muito cacos de vidro e materiais cortantes que sao evidenciados durante o processo de escavacao).

Pensando em possibilitar a experiencia como parte dos objetivos da EP, foi elaborada a escavacao simulada, que tem como objetivo principal discutir o trabalho do arqueologo e as tecnicas de controle de dados, demostrando que o trabalho e sistematico, que ha metodologia cientifica envolvida, ao mesmo tempo em que permite o reconhecimento e valorizacao do patrimonio arqueologico.

A equipe, para tanto, utilizou materiais simples para construcao das quadriculas de escavacao, a saber: caixas plasticas (organizadoras--com tampa); areia esterilizada; luvas e mascaras cirurgicas; pazinhas e pinceis em plastico; pincas em metal; peneiras pequenas; baldes; cacos de ceramica e louca; replicas de ferramentas liticas (preparadas em laboratorio); ossos; carvao, etc.

[FIGURA 5 OMITIR]

Algumas providencias devem ser tomadas para evitar qualquer tipo de constrangimento: (01) Todo o material e previamente esterilizado e higienizado em todos os momentos de uso. (02) A areia e esterilizada e, no final das atividades, a caixa e lacrada evitando contato com animais que possam transmitir doencas. (03) No inicio e termino das atividades os alunos deverao lavar as maos e utilizar alcool em gel. (04) Todas as etapas da atividade sao acompanhadas por estagiarios do Laep/Nugeo/UFVJM.

Assim, os alunos sao colocados em dupla em cada "quadricula", recebendo materiais que simulam os utilizados em uma escavacao real. Previamente os materiais sao enterrados para que os alunos possam evidenciar durante a atividade. A cada vestigio evidenciado, eles tomam nota da profundidade, caracteristicas desse vestigio, se ha associacoes, etc.

A atividade e um estimulo para os objetivos propostos para EP, uma vez que coopera sensivelmente para a motivacao dos participantes, estimula os questionamentos e introduz ludicamente os principios basicos da atividade arqueologica. Os alunos acabam por compreender que o trabalho e sistematico, com um planejamento que se inicia na escavacao (que nao e um fim em si mesmo), mas que a continuidade diz respeito ao papel social da Arqueologia enquanto ciencia.

Oficina de arte rupestre

Um dos vestigios pre-coloniais mais comuns em Diamantina e regiao sao os sitios de arte rupestre. Sao paineis geralmente pintados em vermelho localizados em abrigos sob rocha, representados por grafismos de animais, principalmente, os denominados zoomorfos, sendo as mais comuns as representacoes de cervideos e peixes. Geralmente, sao paineis monocromaticos (pintados em vermelho), mas ha figuras em amarelo, preto e branco. Alem dos cervideos e peixes, outros animais sao representados, sobretudo aves, repteis e outros mamiferos. Os antropomorfos (representacoes humanas) ocorrem em numero muito limitado.

As comunidades regionais conhecem esse tipo de sitio e dificil aqueles que nao tenham visto as "pinturas de bugre" (como sao conhecidas). Pensando na conservacao desse rico patrimonio regional, a atividade elaborada objetivou a compreensao do que sao esses sitios e a importancia para as geracoes futuras.

Com uso de plastico transparente uma parede do quintal foi totalmente coberta, sendo o espaco selecionado, representando um abrigo --locais onde os grafismos foram executados. E pedido aos participantes que representem o seu dia-a-dia (cotidiano), sem utilizar signos conhecidos, como letras e numeros. A atividade busca esclarecer que ha outras formas de linguagem alem da escrita e que os grafismos rupestres sao formas de expressao do modo de vida e cultura de antigas populacoes que ocuparam a regiao, bem antes da chegada dos primeiros europeus.

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Os resultados obtidos ficaram alem das expectativas esperadas pela equipe. Ha uma participacao efetiva dos alunos das diferentes faixas etarias e, apos a confeccao do painel, diferentes interpretacoes sao dadas, suscitando discussoes atuais para nossa sociedade (respeito ao proximo, cidadania, drogas, diversidade, etc.--temas que sao abordados direta e indiretamente nos desenhos efetuados), bem como a curiosidade, seguida de compreensao, de como viviam os grupos indigenas, o que queriam representar nos paineis e, principalmente, a importancia de preservar esses sitios arqueologicos.

Oficina: Laboratorio arqueologico

Entre os questionamentos realizados entre as criancas e adolescentes que participam das atividades, esta o trabalho do arqueologo em si. Portanto, uma das perguntas recorrentes e: como se estuda a cultura material que os arqueologos encontram? A propria divulgacao da atividade do arqueologo na midia, principalmente no cinema, desperta a curiosidade, uma vez que a imagem aventureira do arqueologo e o que permanece. O contato com "cacos" e "pedras", ou seja, dos vestigios fragmentados da cultura material resgatada nas escavacoes pode, como ja dito, ser frustrante em muitos casos.

Pensando em estimular o interesse pelos vestigios materiais, uma das oficinas planejadas foi a participacao de um mini laboratorio. E permitido que os participantes manuseiem em alguns vestigios arqueologicos e, com auxilio dos estagiarios, realizem algumas analises (como e costumeiro em laboratorio), de modo que se possam inferir algumas hipoteses, como, por exemplo: (01) Como foi feito tal objeto? (02) Para que serviu determinada ferramenta? (03) Quais informacoes se podem obter acerca do modo de vida do grupo que produziu determinado artefato?

Percebeu-se que o manuseio do material arqueologico foi fundamental para o entendimento do que se trata e, principalmente, o porque da importancia dos remanescentes culturais. Educar para o patrimonio e, antes de tudo, possibilitar a compreensao da importancia do mesmo com bem publico, como parte da historia dos individuos que compoem uma sociedade (Funari & Carvalho, 2011; Horta, 2003).

[FIGURA 7 OMITIR]

Estratigrafia arqueologica--o tempo

Ha uma dificuldade muito grande para criancas e adolescentes compreenderem o conceito de tempo, principalmente quando falamos em ocupacoes humanas que seguem entre 10 mil anos A.P ate o presente. Outros conceitos utilizados rotineiramente em Arqueologia (relacionados ao tempo), tambem sao de dificil compreensao: passado x presente; recente x antigo; pre-historia x historia; etc.

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Para os alunos do Ensino Fundamental II e Medio (faixa etaria entre 11 e 17 anos), foi elaborado o jogo da estratigrafia arqueologica, onde imagens de vestigios materiais sao dadas aos alunos, sendo solicitado que relacionem em um painel, este com divisoes entre ocupacoes de grupos cacadores coletores; ocupacoes de grupos humanos horticultores ceramistas; ocupacoes historias, apos o contato com os europeus; e ocupacoes atuais.

O objetivo da atividade e trabalhar conceitos caros para Arqueologia e, ate certo modo, de dificil compreensao, a saber: tempo, diversidade cultural, modo de vida, producao artefatual, aquisicao e apropriacao dos recursos naturais, transformacao da natureza, entre outros.

Jogo da ceramica

Enquanto uma metodologia educativa para o patrimonio, a EP tambem busca desenvolver atos de cidadania, respeito ao outro e compreensao da pluralidade da cultura humana (Horta, 2003). A oficina ceramica envolve uma atividade rotineira do arqueologo que e a reconstituicao de vasilhames, na busca de informacoes sobre tecnicas de producao, uso social, etc., contudo incitando a necessidade do trabalho em equipe.

Assim, a atividade elaborada, alem de buscar a facilitacao da compreensao de como e o trabalho do arqueologo, tambem tem como objetivo o trabalho em equipe e a cidadania.

Como material, e utilizado um vasilhame ceramico recente que e quebrado pela equipe (obtendo-se cacos grandes), e elasticos. E solicitado para as criancas e adolescentes a remontagem do vasilhame, atividade que envolve de "varias maos", ou seja, sem o auxilio de outros colegas, a remontagem fica quase impossivel. Os alunos tem de se organizar de tal forma que so conseguem concluir a tarefa com o auxilio de todos.

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Jogos e atividades recreativas

Para as criancas menores, principalmente Educacao Infantil e Ensino Fundamental I (Faixa etaria entre 03 e 10 anos), foi elaborada uma serie de jogos e atividades recreativas com foco no patrimonio.

Com uso de tintas, canetas, lapis, papel reciclado e fragmentos de rocha, varias atividades foram desenvolvidas como: pintura (papel e rocha), quebra-cabecas, caca-palavras, cruzadinhas, jogo de dados, etc. O objetivo e o reconhecimento da diversidade do patrimonio regional (dos vestigios culturais), associando-o as diferentes ocupacoes humanas que ocorreram na regiao.

Esta faixa etaria exige a elaboracao de atividades que promovam de modo mais didatico possivel os principios basicos de EP apresentados na parte teorico deste artigo. A intencao e fomentar o interesse nao apenas pelo patrimonio arqueologico, mas para todos os bens culturais que, no caso de Diamantina, faz parte do cotidiano da comunidade. O complexo paisagistico, a cidade como um todo, e um grande sitio arqueologico que remonta a Historia de Vida de um povo.

Logo, a valorizacao dos bens culturais e uma necessidade para criancas que convivem em uma cidade patrimonio da humanidade, a compreensao de que a preservacao dos bens materiais (e imateriais) do passado faz parte do presente e do futuro dos cidadaos diamantinenses, constitui seus modos de vida e definem sua alteridade.

Todos os jogos elaborados focam os bens patrimoniais, mas, sobretudo, o patrimonio arquitetonico. Por exemplo, a atividade de quebra-cabecas foi elaborada focando as igrejas coloniais. Ao terminarem de monta-lo, os alunos identificam qual o nome da igreja, sua localizacao, o que tem mais de interessante em sua construcao e lugar que se encontra no municipio. Do mesmo modo, cruzadinhas e caca-lavras, por exemplo, trazem informacoes sobre ruas ou lugares de valor historico e cultural da cidade.

Busca-se, assim, que todos possam se apossar deste patrimonio, visto como parte da historia diamantinense.

[FIGURA 10 OMITIR]

Exposicao arqueologica

Apos a participacao das diferentes oficinas, os alunos sao levados em pequenos grupos para visitacao a Exposicao Arqueologica que ocorre em uma das salas da Casa da Chica (5). A exposicao apresenta vestigios culturais de diferentes grupos humanos que ocuparam a regiao, de cacadores coletores ate as ocupacoes historicas mais recentes.

O roteiro planejado, iniciando da pequena palestra e passando por diferentes atividades pedagogicas (e valido frisar que nem todas as atividades foram apresentadas nesse artigo), facilitou a compreensao da exposicao, havendo maior interacao entre o material arqueologico exposto nas vitrines e seus expectadores (alunos). Esses vestigios deixam de ser vistos como cacos de panelas ou pedacos de pedra, mas como integrantes de uma cultura, capazes de fornecer informacoes valiosas de como as pessoas viviam no passado.

Nesse sentido, foi possivel observar, ainda durantes as atividades, a concretizacao de uma de nossas metas, isto e, a sensibilizacao para a importancia do patrimonio e, consequentemente, a busca pela valorizacao dos bens culturais em sua totalidade (material e imaterial), enquanto componentes fundamentais da memoria, da identidade e alteridade de um povo.

6. Consideracoes finais

A EP e uma pratica educativa voltada para a necessidade de sensibilizar acerca do patrimonio (material e imaterial), com isso buscando processos de valorizacao da cultura e Historia regionais, bem como meio de valorar a memoria regional, reafirmando a autoestima e identidade de uma dada sociedade.

Como salientado, a EP permite praticas de educacao e cidadania (Horta, 2003), indo alem dos bens culturais, mas buscando a valorizacao do individuo, de sua sociedade, cultura e historia. Trata-se do falado "espirito de pertencimento", que diz respeito ao sentimento de fazer parte, estar integrado a sociedade como cidadao realmente consciente de seu valor e de suas obrigacoes como cidadao. Sentir-se parte da complexa rede de significacoes que constituem a sociedade e fundamental para que realmente se alcance uma sociedade justa e democratica, com insercao social, alteridade e cidadania.

Levando em conta que a EP e uma pratica que nao deve ser teorica, ou enciclopedista, como tratado nesse artigo, a equipe do Laep/ Nugeo/UFVJM durante o processo de escavacao do quintal da Casa da Chica, em Diamantina, estado de Minas Gerais, Brasil; buscou aliar as atividades cientificas as de natureza socioeducativa, informando e sensibilizando criancas e adolescentes entre 03 e 17 anos da importancia do patrimonio cultural regional, principalmente os referente as populacoes antes do contato com os europeus, que habitaram a regiao durante milenios a partir de 10 mil anos antes do presente.

A meta principal foi (e e) corroborar para a compreensao da importancia do patrimonio cultural e historico entre criancas e jovens, de forma que este publico reconheca a necessidade de sua conservacao para as sociedades futuras, vistos como meio de preservacao da memoria e valorizacao da cultura, sobretudo em uma sociedade onde a mudanca e os novos aparatos tecnologicos fazem parte do dia-a-dia destes jovens (Martins & Castro, 2011).

Para tanto, uma programacao--envolvendo varias oficinas praticas--, foi elaborada pela equipe, buscando por meio de atividades ludicas, suscitar a compreensao da importancia da pesquisa arqueologica regional e de seus resultados, nao apenas para o conhecimento do modo de vida e cultura do passado, mas tambem como meio de valoracao dos processos socio-historicos, da ocupacao e uso do espaco regional e das relacoes de diferentes grupos humanos com seu ambiente.

Deste modo, o planejamento das acoes foi pautado nos anseios de nosso publico-alvo, com vista a propiciar discussoes acerca de questoes voltadas ao trabalho do arqueologo, do patrimonio e mesmo questionamentos atuais como, por exemplo, cidadania, diversidade e pluralidade cultural.

A metodologia de dividir as criancas e adolescentes em pequenos grupos por atividade (entre 04 e 05 alunos), foi eficaz, uma vez que praticamente individualizou-se o atendimento aos alunos, com a presenca de dois estagiarios por atividade e dois professores por grupo de 40 alunos. Os pequenos grupos formavam foruns de discussoes, onde os alunos se sentiam mais aptos para realizar questionamentos, desenvolver suas ideias e propor modificacoes.

Os educadores que acompanham os alunos tem aprovado as acoes, deliberando a importancia dessas atividades como complemento para varios conteudos tratados em sala de aula. Trata-se de um fato importante, uma vez que como pratica educativa a EP deve ser contemporanea e percorrer todas as areas do conhecimento, seja a Historia, a Biologia, as Linguagens ou a Matematica.

O Programa "Arqueologia e Comunidade" continua em andamento, sendo que ate o momento foi apresentado para cerca de mil criancas. Nossa meta e chegar a duas mil. Novas atividades tem sido elaboradas de forma que todas as metas sejam positivamente alcancadas.

7. Agradecimentos

A Superintendencia do Iphan/MinC em Minas Gerais, em especial a equipe do Escritorio em Diamantina. As escolas de Diamantina e regiao, que tem acreditado em nosso trabalho. Aos alunos e estagiarios do Laep/Nugeo/ UFVJM.

DOI: 10.11600/1692715x.11113170712

Referencias citadas

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(1) Chica da Silva, ex-escrava, casou-se com o Contratador da Coroa portuguesa no distrito Diamantino (meados do seculo XVIII). Acabou por se tornar uma personagem, ate mesmo mitologica, da historia colonial brasileira.

(2) Sobretudo na regiao central do pais.

(3) Em nossas pesquisas e comum ouvirmos em varias comunidades que certos remanescentes culturais nao foram feitos por indios, mas por "gente". Quando reconhecem que sao indigenas, ha um total desprezo e estranhamento do porque da valorizacao desses bens culturais.

(4) Por meio de convenio assinado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e Instituto do Patrimonio Historico e Artistico Nacional (Iphan), que pretende evidenciar, proteger e socializar os remanescentes culturais existentes do quintal da casa, que passara em futuro proximo por reformas, estando de acordo com a Lei Federal 3924/1961.

(5) Trata-se de uma exposicao trilingue (portugues, espanhol e ingles), que, apesar de complementar as atividades de Educacao Patrimonial para criancas e adolescentes, tem servido como atrativo turistico.

MARCELO FAGUNDES **

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Brasil.

* Este artigo curto e resultado do Programa de Educacao Patrimonial em Arqueologia para criancas e adolescentes, desenvolvido pela equipe do Laboratorio de Arqueologia e Estudo da Paisagem da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (Laep/UFVJM), contando com apoio da Pro-Reitoria de Extensao (Proexc/UFVJM), iniciado em junho de 2010 e ainda em andamento. Area do conhecimento: Arqueologia, subarea: Educacao Patrimonial.

** Doutor em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo. Docente da Faculdade Interdisciplinar em Humanidades (FIH/UFVJM). Coordenador do Laboratorio de Arqueologia e Estudo da Paisagem (Laep/Nugeo/UFVJM) e vice- coordenador do Mestrado Interdisciplinar em Ciencias Humanas (Mpich/UFVJM). Correio eletronico: marcelofagundes.arqueologia@gmail.com ou marcelo. fagundes@ufvjm.edu.br Endereco: Rua da Gloria, no. 187, sala 28, predio da Biblioteca, Campus I. Centro, Diamantina, MG, Brasil. CEP: 39.100-000. Telefone: +55 (38) 3532-6047.

Articulo recibido en agosto 17 de 2012; articulo aceptado en octubre 31 de 2012 (Eds.)
Quadro 01--Legislacao Federal de Protecao ao Patrimonio:

LEGISLACAO              TEXTO

Lei Federal No. 3.924   Que proibe a destruicao ou mutilacao,
  de 26 de julho de       para qualquer fim, da totalidade ou
  1961                    parte das jazidas arqueologicas, o que
                          e considerado crime contra o
                          patrimonio nacional;
Constituicao Federal    Em especial seu artigo 225, paragrafo
  de 1988                 IV--que considera os sitios
                          arqueologicos como patrimonio cultural
                          brasileiro, garantindo sua guarda e
                          protecao, de acordo com o que
                          estabelece o artigo 216. Alem disso,
                          outros trechos de nossa Carta Magma
                          podem ser citados: Artigo 20--Sao bens
                          da Uniao: X--as cavidades naturais
                          subterraneas e os sitios arqueologicos
                          e pre-historicos; Artigo 23--E
                          competencia comum da Uniao, dos
                          Estados, do Distrito Federal e dos
                          Municipios: III--proteger os
                          documentos, as obras e outros bens de
                          valor historico, artistico e cultural,
                          os monumentos, as paisagens naturais
                          notaveis e os sitios arqueologicos;
                          IV--impedir a evasao, a destruicao e a
                          descaracterizacao de obras de arte e
                          de outros bens de valor historico,
                          artistico e cultural;
Portaria Sphan no.      "que estabelece os procedimentos
  07, de 01/12/1988       necessarios a comunicacao previa, as
                          permissoes e as autorizacoes para
                          pesquisas e escavacoes arqueologicas
                          ..." (Miranda, 2006, p.75).
Portaria Iphan/MinC     Que regulamenta a pesquisa
  no. 230, de             arqueologica em processos de
  17/12/2002              licenciamento ambiental em grandes
                          obras, nocivas ao ambiente.
Lei 9605/98 (art.       Que estabelece os crimes contra o
  62, 63)                 patrimonio.
Lei no. 5040 (de        Sobretudo art. 14 que regulamenta o
  07/03/2004)             patrimonio material nacional.
  --sobretudo art. 14
Lei 6513/77 (art.       Que considera os sitios arqueologicos
  1, I)                   e pre-historicos como bens de
                          interesse turistico.
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Fagundes, Marcelo
Publication:Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Ninez y Juventud
Date:Jan 1, 2013
Words:8050
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