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Arnold A. Lelis, William A. Percy & Beert C. Verstraete, The Age of Marriage in Ancient Rome.

Arnold A. Lelis, William A. Percy & Beert C. Verstraete, The Age of Marriage in Ancient Rome. Lewiston- Queenston-Lampeter, The Edwin Mellen Press (Studies in Classics, vol. 26), 2003. X + 148 pp. ISBN 0-7734-6665-7 (hc). ISBN 0-7734-6625-8 (Vol. 26). ISBN 0-88946-684-X (CS Series)

Os interessados por historia social romana encontram nesta monografia, dedicada a idade do primeiro casamento em Roma, material para reflexao sobre populacao, casamento e fertilidade. A partir de testemunhos literarios e de material epigrafico do seculo II a.C. ate ao seculo V da nossa Era, os AA. constituem uma nova base de dados que lhes permite demonstrar que os Romanos realizavam tradicionalmente-e ao longo de todo o periodo em analise-os primeiros casamentos em idade precoce, sobretudo as raparigas. Com pouca oscilacao, a idade nubil e a da puberdade para as raparigas (12-14 anos) e entre os 17 e os 20 para os rapazes, cuja idade minima aceite eram os 14 (conforme o atestara o Codigo de Justiniano).

Embora varios estudiosos, como Tim Parkin, Richard Saller, Walter Scheidel e Brent Shaw, se tenham interesssado por estudos de ambito demografico, esta monografia segue a orientacao dos trabalhos realizados por Ludwig Friedlander, o pioneiro, em Darstellungen aus der Sittengeschichte Roms in der Zeit von Augustus bis zum Ausgang der Antonine (1922), e, mais directamente, por Keith Hopkins ("The Age of Roman Girls at marriage" Population Studies, 18, 1965, 309-327), que tivera por ponto de partida a recolha de Friedlander, cuja base de dados retomaram e aumentaram (fizeram uma para os homens e triplicaram a das raparigas). Rejeitando um modelo de analise estatistica, que dificilmente poderia ser conclusivo, posto que os dados disponiveis eram escassos, optaram por realizar uma abordagem descritiva e analitica apoiada na teoria demografica, cientes de que os resultados constituem parametros de plausibilidade. Assim, grande parte da monografia e formalmente um levantamento historico, perspectivado diacronicamente, de modo a permitir observar as idades do primeiro casamento na sociedade romana na continuidade, identificando as alteracoes. Ao modo de abordar a tematica nao tera sido alheio o facto de tanto os veteranos Percy e Lelis como Verstraete terem ja publicacoes sobre a sexualidade no mundo antigo.

Tendo por projecto inicial um artigo, a monografia apresentada compreende seis capitulos e dois apendices documentais, fruto da base de dados, um com uma tabela sobre a idade do primeiro casamento para os homens (com 83 entradas) e outro com uma tabela para as mulheres (com 31 entradas), com breves notas biograficas para cada entrada e, por fim, um indice. Embora estas tabelas se afigurem bastante uteis quer para documentar o leitor, em particular no capitulo 5 "A Reconsideration of the Epigraphic Evidence", quer como futuras ferramentas de investigacao, tornar-se-iam ainda mais legiveis se estivessem divididas por epocas.

Antecede o estudo o prefacio assinado por Vern L. Bullough. Ele proprio autor de artigos sobre fertilidade na Idade Media e no Renascimento, onde tem adoptado uma perspectiva de ordem biologica, apresenta argumentos em favor da tese dos AA. apoiado na fisiologia, explicando os casamentos em idade precoce como uma necessidade para a sobrevivencia de uma sociedade exposta a uma alta taxa de mortalidade infantil (50% das criancas ate aos 6 anos). No caso da mulher, a diminuicao de ferro no organismo com o avanco da idade torna as raparigas muito jovens as procriadoras ideais e faz dos casamentos em idades precoces um garante da linhagem. Bullough enfatiza, porem, a incapacidade de os historiadores ultrapassarem os preconceitos do seu tempo para identificarem a idade do consentimento nas sociedades antigas. Muitos deles, com efeito,--assim o temos constatado--tendem a extrapolar para Roma as idades mais tardias do primeiro casamento entre os Gregos, que constituem uma excepcao no Mediterraneo antigo. Tomando esta realidade, no primeiro capitulo, introdutorio, e estabelecida uma comparacao entre as sensibilidades das duas sociedades face a natalidade e as suas consequencias demograficas. Analisando a Grecia, do periodo arcaico ao helenistico, concluem que factores como o infanticidio feminino, embora reduzido (5%), a falta de politicas pro natalidade, como em Roma, e mesmo a pederastia institucionalizada (na sociedade arcaica e classica), associada a segregacao dos sexos e ao casamento tardio dos homens, conduziram a um progressivo decrescimo da populacao. Em Roma, pelo contrario, assistiu-se, desde sempre, a uma politica a favor da natalidade, quer a implicita a defesa dos interesses tradicionais assentes na patria potestas, quer a explicita na legislacao (Lex Iulia de maritandis ordinibus e Lex Papia Poppaea sob Augusto ou o regime dos alimenta sob Trajano). Na pratica esta necessidade resolvia-se incentivando os casamentos em idade baixa quer para as raparigas, quer para os rapazes.

O problema reside na aparente divergencia entre as fontes literarias e as fontes epigraficas, que apontam para idades posteriores as da literatura. Saller e Shaw ("Tombstones and Roman Family Relationships in the Principate: Civilians, Soldiers, and Slaves", 1984) consideram que, enquanto as fontes literarias retratam as classes mais abastadas, as fontes epigraficas, onde consta uma grande percentagem de libertos, retratam a maioria da populacao, pelo que, como varios outros autores, defendem idades de casamento superiores as apresentadas neste estudo. E certo que os rapazes de classes elevadas com estatuto sui iuris, ou ainda sob tutela ate atingirem a aetas perfecta, os 25 anos, mas com direito a receber peculium, nao precisam de esperar por ter uma situacao de equilibrio financeiro para constituir familia, mas a restante populacao, ainda que se tenha de adequar as necessidades -dai haver mais variaveis-, e compelida pela mesma urgencia a casar cedo. Os restantes capitulos vem, com diferentes contributos, explicar a que se deve a divergencia entre fontes literarias e epigraficas, pelo que uma das originalidades da monografia reside, em nosso entender, na forma como as fontes epigraficas existentes sao reavaliadas, pois a idade do primeiro casamento e, como os proprios AA. assumem, mais dificil de calcular nos epitafios do que nos testemunhos literarios.

O segundo capitulo, "The Evidence and Other preliminary Considerations", analisa e contextualiza, num conspecto demografico, os dados que permitem identificar um padrao de primeiro casamento em idade precoce desde a Republica ate ao advento do Cristianismo como religiao oficial do Imperio. O terceiro capitulo, "Early Rome up to the Second Century B.C.", traca uma panoramica historica dos testemunhos literarios de um periodo que, embora nao seja o mais documentado para o efeito, e considerado fundamental para a sociedade e cultura romanas, por ser aquele em que se estabelecem as estruturas familiares e os padroes de casamento que, apesar das modificacoes sociais e politicas, hao-de perdurar ate ao fim do Imperio. O quarto capitulo, "The Period of Late Republic and the Empire", estende a panoramica a uma epoca posterior.

O quinto capitulo, "A Reconsideration of the Epigraphic Evidence", que analisa os testemunhos epigraficos em funcao da teoria dos AA., assevera-se bastante inovador pela argumentacao que sustem as coordenadas conducentes a identificacao de um padrao de primeiros casamentos em idade precoce. Ao contrario de Saller e Shaw, incluem epitafios onde a indicacao da idade a hora da morte, combinada com referencias a duracao do casamento, permitem aumentar a base em mais 25% e chegar a conclusao de que o padrao se mantem. O sexto capitulo, "Some observations on the Late Empire and the Christian", alem de terminar com breves conclusoes, vem confirmar a tendencia de primeiros casamentos em idade precoce para os dois sexos, mas vem igualmente demonstrar a interaccao de novas praticas advogadas pela nova etica crista, que fazem subir ligeiramente a idade nubil das raparigas para os 14/15 anos.

A argumentacao, bem fundamentada e pertinente, torna esta monografia o melhor ponto da situacao sobre a materia feiti ate a data.
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Author:de Ornellas, Ines Castro
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2009
Words:1260
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