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Aristotle and history once more/Aristoteles e a historia, mais uma vez.

O linguistic turn is over. (1) Desde quando? Ainda se discute. Certos historiadores dirao, inclusive, que ele jamais comecou! Como havia constatado Peguy em Clio: obstinamo-nos com uma questao durante quinze ou vinte anos e, "de repente, damos as costas". "Nao sabemos mais do que falavamos". Ha pouco tempo, foi-me relatado que, atualmente, nas universidades americanas, os jovens estudantes de historia nao sabem mais do que se trata, enquanto que seus professores lhes falam somente de arquivos. Seja como for, recentemente, duas historiadoras, interrogando-se sobre o estado de suas disciplinas, constatam seu refluxo, como uma onda que acaba de se retirar antes que a proxima quebre. Em seu discurso sobre o estado da historia, Gabriele Spiegel, presidente da American Historical Association no ano de 2009, comeca lembrando que o termo (linguistic turn) aparece em 1965, com o filosofo Richard Rorty, antes de avaliar qual foi seu impacto e de se interrogar sobre o que resta dele nos questionarios e nas maneiras de trabalhar dos historiadores hoje (SPIEGEL 2009). Do mesmo modo, Caroline Baynum, professora de historia medieval do Instituto de Estudos Avancados de Princeton, dedica-se a um rapido inventario de todos os turns e returns propostos ou proclamados desde o primeiro da serie, aquele da linguistica dos anos 1960 (BYNUM 2000).

Como nao faz parte do meu proposito reconstituir os percursos dessas viradas, nem delimitar seus contornos, limitar-me-ei a observar este ponto de oscilacao ou este contra-ataque brusco marcados pela publicacao, em 1992, do livro Probing the Limits of Representation, editado por Saul Friedlander (FRIEDLANDER 1992). O objetivo era o de interrogar as consequencias do relativismo pos-moderno e de indagar os equivocos que ele mantem sobre a questao do real e da verdade historica, a respeito "deste acontecimento limite" que foi o Holocausto. E nessa ocasiao que Carlo Ginzburg conduz o ataque final contra as posicoes de Hayden White, contra quem Arnaldo Momigliano havia, pela primeira vez, iniciado as hostilidades em 1981 (MOMIGLIANO 1984). Apesar de seus esforcos, Hayden White nao podera sair das aporias de sua posicao tropologica, de seu pantropologismo e, em pouco tempo, Paul Ricceur, pouco suspeito de desconfianca em relacao as abordagens narrativistas, concluira por um "impasse" e pela "suspeita legitima quanto a capacidade dessa teoria retorica de tracar uma linha limite entre narrativa historica e narrativa de ficcao" (RICCEUR 2000, p. 328).

Para falar a verdade, essa questao dita, frequentemente, da historia e da ficcao e apenas uma expressao local e relativamente tardia de um movimento muito mais amplo, nem simples, nem univoco, mais dramatico tambem, e iniciado bem mais cedo, de interrrogacoes sobre esta que e "a mais nobre e mais misteriosa faculdade do homem", a linguagem (BENVENISTE 1966, p. 45). Iniciado, pelo menos na Franca, com Mallarme e Rimbaud, continuado por Maurice Blanchot (leitor de Kafka e amigo de Levinas), em cuja obra tantos fios se entrelacam, ele se estendeu sobre um seculo aproximadamente e tomou formas diversas ate o estruturalismo dos anos 1960 e os pos--que se seguiram. Ainda que os principais protagonistas distanciem-se rapidamente dessas apelacoes, subsiste que a linguagem, essa linguagem que sempre escapa, permanece no centro.

O que fez com que, na Europa, a linguagem tenha sido metodica e apaixonadamente escrutada? O que fez com que, apos a publicacao do Curso de Saussure, em 1916 (em plena guerra), a linguistica, com a distincao entre lingua e fala, tenha se tornado, progressivamente, a ciencia piloto das ciencias humanas? Celebrando Saussure, em 1963, por ocasiao do cinquentenario de sua morte, Emile Benveniste sublinhava "o alcance desse principio do signo instaurado como unidade da lingua [...]. Ora, vemos agora se propagar esse principio para fora das disciplinas linguisticas e penetrar nas ciencias do homem, que tomam consciencia da sua propria semiotica. Nao e a lingua que se dilui na sociedade, e a sociedade que comeca a reconhecer-se como 'lingua'" (BENVENISTE 1966, p. 43). O que fez ainda com que, apos 1945, a linguagem, sempre ela, tenha sido tida por quase tudo, sem deixar de ser associada a falta, a ausencia, ao silencio e a morte? "Aquilo que nao se pode dizer, e preciso calar", dizia Wittgenstein, "(nao) e preciso calar", corrige Jacques Derrida (PEETERS 2010, p. 204). A essas colocacoes fazem eco as ultimas palavras de Blanchot, em Apres coup, "mesmo sobre a morte sem frases, ainda e preciso meditar, talvez sem fim, ate o fim" (BLANCHOT 1983, p. 100). Responder a tais questoes, arriscar-se apenas, excederia nao apenas o espaco de um artigo, mas tambem minhas capacidades. Entretanto, creio que ao negligenciar esse movimento profundo, complexo, corre-se o risco de, como dizia Peguy, nao mais compreender do que se falava, quando Roland Barthes, por exemplo, escrevia que "o fato tem tao somente uma existencia linguistica". Caso contrario, o proposito, retirado de seu contexto, oscila entre trivialidade e absurdidade (BARTHES 1984).

Narrativa, retorica, historia

Para retornar a historia e as suas formas de negociar a virada linguistica, pode ser esclarecedor tracar um paralelo entre duas abordagens, certamente bem diferentes, mas que possuem em comum o fato de interrogar, no curso dos anos 1980, os poderes da narrativa. Paul Ricceur publica Tempo e Narrativa entre 1983 e 1985. A partir de 1984, Carlo Ginzburg engaja-se em um combate, jamais abandonado, contra aqueles que ele chama, desde entao, de ceticos. (2) Nada de equivoco: o unico objetivo dessa projecao e o de convidar a considerar suas demarches como duas maneiras de apreender uma conjuntura e de replica-la, de modo algum de associa-las, e menos ainda de opo-las: o defensor do realismo face ao advogado da narrativa!

Com relacao a historia, um deles e um outsider. Ele traca seu caminho filosofico, e aprofunda a enquete sobre as capacidades da narrativa, nao por complacencia com uma moda, mas por preocupacao em aproximar ao maximo possivel as aporias do tempo e experimentar, simultaneamente, os limites da narrativa. Ele mobiliza, torna util esse saber renovado e recente, em plena elaboracao, com vistas a explorar as potencialidades da narrativa. Ele e tambem o outsider que mais se aproximou da historia. Ele leu os historiadores, nao para anexa-los ou para fazer filosofia da historia pelas suas costas, mas com vistas a, gracas a eles, aprofundar seu questionario filosofico. Se e verdadeiro que o tempo pensado somente existe quando narrado, e imperativo demostrar que mesmo a historia, que pretende ter rompido com a narrativa, aquela dos Annales (para resumir), conservou, se observarmos de perto, um elo, ainda que tenue, com ela. Tal e o caso deste "manifesto" que e o Mediterraneo de Braudel. Bastava ousar dize-lo para que isso se tornasse evidente.

O outro e um insider: no coracao da disciplina, historiador da epoca moderna, ele, rapidamente, encontrou-se em posicao de falar por ela. Com esta particularidade: ele esta longe de ser o inimigo da narrativa. Realista, sim, mas em nada positivista. Tivesse sido ele um historiador preocupado sobretudo em enumerar, teria tido, e verdade, menos razoes para inquietar-se com as formas de ler. Em seus livros e artigos, ele, de fato, nao cessou de confrontar-se com a questao da narrativa, quer se trate da questao da forma de interrogar suas fontes (os arquivos dos processos de feiticaria), de delimitar aquilo que ele chama, em Historia noturna: decifrando o saba, de "nucleo narrativo elementar que acompanhou a humanidade durante milenios" (GINZBURG 1992, p. 284). Persistentemente, ele se pretende atento as "possibilidades cognitivas de qualquer narrativa, incluindo-se todas as formas de historiografia". A respeito de A educacao sentimental, ele se dedica a valorizar a "riqueza cognitiva da obra de Flaubert" (GINZBURG 2003, p. 97); ou, estudando uma Histoire des iles Mariannes, publicada, em 1700, por um jesuita, ele observa que os textos tem "fendas" das quais se pode ver "sair o real" e que "falar de realidades situadas fora do texto seria uma ingenuidade positivista" (GINZBURG 2003, p. 82). Mais ainda, e, desta vez, colocando-se antes do texto acabado, ele estima que um lugar deve ser dado as "interacoes entre dados empiricos e restricoes narrativas no interior do processo de pesquisa" (GINZBURG 2003, p. 95). Se considerarmos a forma de conceber seu papel de historiador, o proprio titulo de seu ultimo livro o exprime: O fio e os rastros. Por fio e preciso compreender, claramente, precisa o autor, o "fio" da narrativa. "Procuro contar, servindo-me dos rastros, historias verdadeiras (que as vezes tem como objeto o falso)" (GINZBURG 2010, p. 7).

Ricoeur leu Ginzburg. Este ultimo esta presente em dois momentos de A memoria, a historia, o esquecimento: na parte consagrada a epistemologia historica e naquela dedicada a condicao historica. O "paradigma indiciario", o prefacio a Lorenzo Valla (sobre retorica e filologia), O Juiz e o historiador (com a questao da prova) e, finalmente, o "impasse" tropologico de Hayden White, sao todos elementos que possuem lugar na reflexao do filosofo. A reciproca se verifica? No meu entender, nao. O historiador nao menciona e nao discute os trabalhos de Ricceur. (3) O que e um direito seu. Em todo caso, trata-se de um indicio de que ele nao precisou desse filosofo que, durante aproximadamente vinte anos, interrogou-se sobre "a inquietante estranheza da historia" (HARTOG 2011, p. 65).

Tanto um quanto outro se deparam com a questao da representacao, aquela da lancinante interrogacao sobre a relacao entre o passado real e o conhecimento historico, aquela sobre a qual a formula de Ranke, mil vezes repetida, do wie es eigentlich gewesen terminou por dispensar a reflexao. Ricoeur detem-se longamente sobre ela em Tempo e Narrativa; Ginzburg consagra-lhe um artigo: "Representacao, a palavra, a ideia, a coisa", primeiramente publicado nos Annales, em 1991. Questionar o uso da palavra e todos os "jogos de espelho" que ela permite entre ausencia e presenca, em um momento em que se exige uma historia das representacoes, particularmente nos Annales e a volta, e, evidentemente, apropriado. Segue um percurso virtuoso que, em poucas paginas, conduz o leitor ignorante da primeira aparicao da palavra no Dictionnaire de Furetiere, no qual "representacao" e empregado no contexto dos funerais reais (para designar seja um manequim do rei defunto, seja um leito funerario vazio e simplesmente recoberto por uma mortalha), ate as interrogacoes sobre os efeitos da presenca real na eucaristia, passando pelo Colosso grego (GINZBURG 1998, p. 73-88). Insatisfeito, por sua vez, com o conceito de representacao, Ricceur forja um outro, o de "representancia", que ele reconhece ser "dificil". Para abordar essa relacao, que ele qualifica de "enigma", ele recorre, sucessivamente, as categorias do Mesmo, do Outro e do Analogo, que sao tres maneiras de decompor e, depois, de sintetizar a visada do discurso historico em relacao a seu "vis-a-vis" terminado, qualificado de "alusivo" e "imperioso" simultaneamente (RICOEUR 1985, p. 269). Pois se o historiador e um "mestre de intrigas", ele e, ao mesmo tempo, "um servidor da divida para com os mortos".

Pelos caminhos que levam do Mesmo ao Outro, ao Analogo, Ricceur encontra, inevitavelmente, Hayden White, o mestre es tropos, cujo livro, rapidamente famoso, Metahistory, e qualificado por ele de "poetica da historiografia". Para White, leitor de Vico, a retorica e, com efeito, o nucleo da criatividade da linguagem e o troping e, diz ele, "a alma do discurso". Sua Metahistory poderia intitular-se igualmente Pre-History, na medida em que o recurso a um ou outro tropo prefigura uma narrativa possivel, de modo que da dispersao daquilo que ainda nao foi narrado emerge uma forma e um sentido: uma narracao e uma explicacao. O unico ponto que gostaria de evidenciar aqui e que, fazendo isso, White engloba a poetica na retorica ou faz da poetica "a alma" da retorica. O que, do ponto de vista da narrativa historica, tem por primeira consequencia ignorar a velha interdicao colocada por Aristoteles, para quem a historia, nao sendo uma arte mimetica, nao pertence a poiesis.

Para Ginzburg, o encontro se faz por meio do artigo de Momigliano "The History of Rhetoric and Rhetoric of History: on Hayden White's Tropes" que, em 1981, abriu seus olhos para as consequencias das posicoes do autor de Metahistory. Pouco me importa, diz, basicamente, Momigliano, se tais historiadores usam a metonimia ou a sinedoque, pois a unica coisa que conta e que "suas historias devem ser verdadeiras" (MOMIGLIANO 1984, p. 51). Quanto as relacoes entre retorica e historia, se elas iniciaram com Isocrates, seria necessario, pelo menos, considerar o fato de que elas foram ambivalentes ao longo da Antiguidade e que, em um certo momento, na epoca moderna, elas foram cortadas. Em resumo, sem o apoio de uma historia seria da retorica, as consideracoes sobre retorica e historia permanecem muito etereas. Em todo caso, a associacao entre Hayden White e a retorica sai ainda fortalecida por sua inscricao em uma linhagem que inicia com Isocrates. Mais do que de uma virada linguistica, dever-se-ia falar de "virada retorica", propoe entao Ginzburg.

Aristoteles, mais uma vez

Sem que seja necessario estender-me mais sobre as posicoes de Hayden White, sobre a leitura rigorosa feita por Ricoeur ou sobre as criticas reiteradas de Ginzburg, o leitor tera compreendido que o White de Ricoeur esta mais do lado da poetica, enquanto que aquele de Ginzburg esta, primeiramente, do lado da retorica. Nesse ponto, o leitor tambem tera compreendido que aquele que, desde o inicio, encontra-se no plano de fundo e que, de fato, torna possivel (e espero pertinente) o paralelo esbocado nao e outro senao Aristoteles, como autor da Poetica, naturalmente, mas tambem da Retorica.

Ambos, de fato, cedem-lhe lugar, mas eles nao se dirigem ao mesmo Aristoteles. Ricoeur reconhece, imediatamente, que "o impulso inicial" de Tempo e Narrativa veio da Poetica. O que, de maneira alguma, e evidente, visto que na Poetica nao se tratava diretamente da questao do tempo! Por outro lado, retem toda a sua atencao "a composicao da intriga promovida por Aristoteles a posicao de categoria dominante na arte de compor obras que imitam uma acao". E o que lhe permite "extrair da Poetica o modelo de composicao da intriga" que ele se propora "a estender a toda composicao que chamamos narrativa" (RICOEUR 1983, p. 61, 317). Incluindo, portanto, a historia. Quanto a Ginzburg, se ele conhece, evidentemente, as anotacoes da Poetica sobre a historia, ele esta mais interessado na Retorica. Por que? Por duas razoes ao menos. Primeiramente, porque White, apos Roland Barthes, reabre, de forma ruidosa, a questao dos lacos entre retorica e historia. Depois, porque ao lado da retorica de Isocrates, existe aquela de Aristoteles, para quem a questao da prova e central. Em outras palavras, a) contrariamente ao que imaginam os ceticos e outros pos-modernos, a retorica nao se reduz a arte de persuadir, (4) b) retorica e provas podem estar e estiveram estreitamente ligadas. Porque se demonstra com o auxilio do entimema, que e o silogismo da retorica, e o entimema e, para Aristoteles, "o corpo da prova" (Aristoteles, Rhetorique 1354a, 15).

Tal ponto atingido, que se aparenta um pouco a um puxao do tapete sob os pes do adversario (ainda que Hayden White nao recorra a retorica de Aristoteles), Ginzburg vai, nitidamente, mais longe. Em "Aristoteles e a historia, mais uma vez", ele procura mostrar que a arqueologia (no sentido dos primeiros capitulos de Tucidides) e a retorica (no sentido de Aristoteles) partilham a mesma preocupacao com a prova e recorrem ao entimema, de modo que "retorica, historia e prova estao estreitamente ligadas na Grecia do seculo IV" (GINZBURG 2003, p. 51). Quando, como continuador de Hippias (o sofista zombado por Platao), ao estabelecer uma primeira lista de vencedores olimpicos, Aristoteles faz-se epigrafista e compila uma lista de vencedores nos jogos piticos, ele pratica a arqueologia (essa historia posteriormente sera nomeada antiquaria). Em sua arqueologia, Tucidides serviu-se, "varias vezes", desse modo de conhecimento que recorre a entimemas. "Se [portanto] supormos que a dimensao arqueologica da obra de Tucidides pode ter suscitado o interesse de Aristoteles, a atitude desse ultimo com relacao a historia poderia ser reexaminada a luz das alusoes a um conhecimento inferencial do passado presentes na Retorica" (GINZBURG 2003, p. 51). A Retorica poderia, assim, permitir revisar o julgamento (aparentemente definitivo) da Poetica sobre a historia. Pode, entao, surgir a conclusao (que nao deixaria de surpreender o leitor que teria perdido o que precede): "a obra em cuja qual Aristoteles fala mais detidamente da historiografia (ou, ao menos, de seu nucleo fundamental), no sentido em que a entendemos, nao e sua Poetica, mas sua Retorica" (GINZBURG 2003, p. 43).

Detenhamo-nos, entao, um instante sobre os primeiros capitulos de Tucidides, que ocupam um lugar importante no raciocinio. De fato, eles lembram uma proeza, na medida em que eles sao, ao mesmo tempo, a tentativa mais refletida e acabada de reconstruir os tempos antigos da Grecia e a demonstracao definitiva que uma historia cientifica (para empregar um termo moderno) do passado e, de fato, impossivel. Baseando-se em indicios (semeia), reunindo e confrontando elementos de prova (tekmeria), o historiador pode suprimir o falso, circunscrever o mitico (muthodes), "encontrar" fatos e, o melhor, chegar a uma conviccao (pistis), mas nao a um conhecimento claro e distinto. "Ora, as coisas anteriores e mesmo as que eram ainda mais antigas era impossivel descobrir com clareza, em vista da grande distancia temporal, mas, a partir do que sou levado a crer, examinando os indicios de um longuissimo periodo, nao considero que foram grandes nem com relacao a guerras, nem com relacao a mais nada" (HARTOG 1999, p. 59).

O objetivo perseguido por essa reconstrucao e, portanto, duplo: provar que em comparacao a guerra presente--que Tucidides, imediatamente, estimou como devendo ser a maior--, todos os conflitos do passado sao inferiores (estamos no registro da amplificacao, cuja Retorica de Aristoteles tornara o traco caracteristico do discurso epididico); convencer por meio do exemplo que somente a historia contemporanea importa realmente, porque ela e a verdadeira ciencia politica. (5) Acrescentemos ainda que o modelo, que serve de padrao para a reconstrucao dos tempos distantes, e o da potencia (dunamis) ateniense atual, com seus tres componentes (o dinheiro, a frota e as muralhas). De Agamemnon ate Policrates, o tirano de Samos, passando pelo rei Minos, trata-se de uma mesma historia de dinheiro, frota e muralhas, compreendendo-se que o imperio ateniense representa a sua versao mais acabada. Atenas e o telos: vai-se do presente ao passado (inferior), revelando um modelo de inteligibilidade que depende mais de uma teoria do poder do que de uma historia antiquaria.

O entimema, definido como o cerne da prova, e suficiente para ligar a historia e a retorica a ponto de sustentar que e na Retorica que Aristoteles fala mais prolongadamente de historia? A primeira vista, entretanto, ele nao lhe atribui nenhum lugar especifico. Os discursos se repartem, com efeito, em tres generos, o deliberativo, o judiciario e o epididico. Cada um visa um ouvinte, que se encontra em posicao de juiz. O deliberativo esta voltado para o futuro, o judiciario, para o passado e o epididico inscreve-se no presente. Mais tarde, a historia tendera a ser inspirada pelo epididico (veremos Polibio batalhar contra e Luciano sustentar que uma "muralha" separa a historia do elogio, enquanto outros proporao um quarto genero para a historia).

A enquete de tipo historica aparece, todavia, na Retorica, por ocasiao do exame dos temas sobre os quais se delibera e para os quais e util munir-se de argumentos. Assim, em materia de receitas da cidade, e necessario estender sua experiencia conduzindo uma enquete historica sobre o que se praticou em outro lugar (Aristoteles, Rhetorique 1359b, 32). Do mesmo modo, naquilo que concerne a guerra e a paz, e necessario ter examinado (theorein) as guerras conduzidas pela cidade mas tambem pelas outras (Aristoteles, Rhetorique 1360a, 4). No que diz respeito, finalmente, a constituicao e as leis, nao somente e util ter um conhecimento "teorico" desses assuntos, mas tambem ter conduzido enquetes de campo no estrangeiro. "As relacoes de viagem sao, assim, evidentemente uteis para a legislacao [...] como as enquetes (historiai) daqueles que escrevem sobre as acoes humanas o sao para as delibercoes politicas" (Aristoteles, Rhetorique 1360a, 33-37). Eis a parte reconhecida a essas enquetes, concebidas como coletas de dados e destinadas a fornecer premissas, permitindo argumentar corretamente no ambito das deliberacoes da assembleia. E, a Aritoteles, concluir com esta precisao, que nao e desprovida de importancia. "Mas tudo isso (essas enquetes), e assunto da politica, nao da retorica" (Aristoteles, Rhetorique 1360a, 37). Elas visam fornecer premissas instruidas com o objetivo de formular conselhos, que sao a propria finalidade do genero deliberativo. Estamos, portanto, longe de Herodoto, mas tambem longe de Tucidides, nao francamente na arqueologia, mas muito proximo, por outro lado, da colecao das cento e cinquenta e oito constituicoes coletadas por Aristoteles e por seus alunos.

Para Ricoeur, o texto central de sua meditacao sobre a narrativa e, portanto, sobre a historia, e, certamente, a Poetica, na qual ele ve o modelo de composicao da intriga que ele se propoe a estender a toda composicao narrativa, como vimos, quer se trate de historia ou de ficcao. Essa extensao e seu direito mais estrito. Mas ele infringe, ao mesmo tempo (assim como Hayden White), a interdicao aristotelica. Pois Aristoteles (e limitar-me-ei aqui unicamente a esses pontos) indica, da maneira mais clara possivel, que a historia, a dos historiadores (historikoi), nao ascende nem a poiesis nem a mimesis, reservadas ao poeta. Nao esquecamos que a historia nao esta aqui por ela mesma, mas apenas como vis-a-vis, para exaltar a tragedia. E poeta nao tanto aquele que se expressa em versos, mas aquele que compoe narrativas (muthoi), intrigas (traduz Ricoeur): "E claro, a partir do que foi dito, que nao e obra do poeta dizer o que aconteceu, mas o que poderia acontecer--, e o possivel e conforme o verossimel ou o necessario" (HARTOG 1999, p. 109). Seguramente, nao se deve esperar nada assim do historiador: ele diz e somente pode dizer aquilo que se passou. Ele diz os fatos (legei ta genomena) da melhor maneira, em sua sucessao. Como ele poderia "faze-los" (poiein ta genomena)? Naturalmente, nao no sentido de forja-los totalmente, mas no sentido de compor uma narrativa representando uma acao unica e que forma um todo, do qual nao se pode mover nem retirar nenhum elemento?

Aristoteles apresenta uma prova suplementar dessa separacao ao imaginar o seguinte caso. Suponhamos que um poeta efabule "o que aconteceu, nem por isto e menos poeta, pois nada impede que algumas coisas que aconteceram sejam tais que tenham sido verossimeis e possiveis. E por isso que ele e poeta" (Aristoteles, Rhetorique 1451b, 29-33). (6) Aristoteles escreve exatamente um poeta "fazendo" genomema. O que importa nao e que os acontecimentos tenham ocorrido, mas que eles respondam as exigencias (inegociaveis) do verossimel e do possivel. Alguns comentadores servem-se dessa passagem para sugerir que a poiesis nao e completa nem definitivamente interditada para a historia. Eu nao creio nisso. Aristoteles esta preocupado com o poeta e nao com o historiador, e aquilo que vale para um nao vale, no sentido contrario, para o outro. Por certo, o poeta nao esta interessado no que aconteceu, mas apenas na medida em que se reconhece nisso uma organizacao de acordo com o verossimel e o possivel, enquanto que o historiador e requisitado, primeiramente, por aquilo que aconteceu (que isso seja da ordem do verossimel ou do possivel, ou mesmo necessario, nao e, literalmente, seu problema). Para Aristoteles, o historiador nao e um "mestre de intrigas" e, no seculo II de nossa era, Luciano de Samosata o repetira, a sua maneira: as unicas questoes as quais ele deve responder sao aquelas da escolha dos genomenas e da maneira de dize-los.

Evidentemente, outra e a direcao de Ricoeur. Pois, para validar sua grande hipotese, segundo a qual o tempo pensado somente existe quando narrado, ele deve provar "o carater, em ultima analise, narrativo da historia", comecando por examinar essa historia que pretendia, de forma um pouco precipitada, ter renunciado a narrativa. Ele nao pode, portanto, partir da separacao inicial de Aristoteles que, ao excluir a historia da mimesis e da poiesis, resolvia brutalmente a questao. Ele concedera, assim, a historia toda a poiesis que for possivel, sem, entretanto, comprometer o "primado" de sua intencao referencial. Aqui esta todo o desafio do conceito de representancia.

Partindo do linguistic turn, fomos conduzidos a sugerir um paralelo entre Ricceur e Ginzburg, que nos levou "mais uma vez" a Aristoteles. Talvez esse percurso entre retorica e poetica possa ter uma utilidade, ainda que, dos modernos aos antigos e dos antigos aos modernos, ainda faltem algumas etapas?

Recebido em: 27/11/2013

Referencias bibliograficas

ARISTOTE. Rhetorique. Paris: Gallimard, 1998.

BARTHES, Roland. Le discours de l'histoire:le bruissement de la langue. Essais Critiques IV. Paris: Ed. du Seuil, 1984.

BENVENISTE, Emile. Problemes de linguistique generale. Paris: Gallimard, 1966.

BLANCHOT, Maurice. Apres Coup. Paris: Ed. de Minuit, 1983.

BYNUM, Caroline W. Perspectives, Connections, Objects: What's Happening in History Now?, Daedalus, vol. 138, no. 1, hiver 2009, p. 71-86.

FRIEDLANDER, Saul. Probing the Limits of Representation: Nazism and the "Final Solution". Cambridge (Mass.): Havard University Press, 1992.

GINZBURG, Carlo. Le Sabbat des sorcieres. Tradution Monique Aymard. Paris: Gallimard, 1992.

--. Rapports de force. Paris: Gallimard, 2003.

--. Le fil et les traces: vrai faux fictif. Tradution Martin Rueff. Lagrasse : Verdier, 2010.

HARTOG, Francois. L'histoire, d'Homere a Augustin. Prefaces des historiens et textes sur l'histoire, reunis et commentes par Francois Hartog. Tradution par M. Casevitz. Paris: Ed. Le Seuil, 1999.

MOMIGLIANO, Arnaldo. The History Rhetoric and Rhetoric of History: on Hayden White's Tropes. Settimo contributo alla storia degli studi classici e del mondo antico. Rome: Ed. di storia e letteratura, 1984, p. 49-59.

PEETERS, Benoit. Derrida. Paris: Flammarion, 2010.

RICCEUR, Paul. Temps et Recit. Tome I: l'intrigue et le recit historique. Paris: Ed. Seuil, 1983.

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--. La memoire, l'histoire, l'oubli. Paris, Editions du Seuil, 2000.

SPIEGEL, Gabrielle M. The task of the historian. American Historical Review, vol. 114, no. 1, fev. 2009, p. 1-15.

Francois Hartog

hartog@ehess.fr

Professor

Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales Bureau 544

190-198, avenue de France, 75244

Cedex 13--ParisFrance

Autor convidado

* Entre o Brasil, a Alemanha e a Franca, Manoel Salgado circulava. Ele soube, no espaco de alguns anos, tecer fortes lacos. Durante suas estadas em Paris, ele passava pelo meu seminario, e sua conversa simples e amigavel muito me ensinou sobre a historia do Brasil e no Brasil. Quando eu estive no Rio, na UFRJ, para um workshop com doutorandos, ele soube fazer deste encontro um belo momento de camaradagem intelectual. A ultima vez que o vi, foi em Sao Paulo. Ele estava cheio de entusiasmo, de sorrisos e de projetos. Depoimento de Francois Hartog. Paris, 22 de outubro de 2013.

Este artigo foi publicado originalmente em Critique, Paris, juin-juillet, 2011, p. 540-552. Agradecemos ao professor Hartog e aos editores da revista a autorizacao para a presente traducao, realizada por Eliane Misiak (FURG). Agradecemos tambem a Eliete Lucia Tiburski pela formatacao final e ajuste do texto as normas, e a Marina Araujo pela traducao do resumo. Agradecemos, finalmente, a Direcao do IFCH da UFRGS pelo financiamento que viabilizou a traducao. Revisao tecnica de Temistocles Cezar.

(1) "A virada linguistica acabou". Todas as expressoes em linguas estrangeira seguem de acordo com o original (Nota do revisor).

(2) Ver seu prefacio a Natalie Zemon Davis, Le retour de Martin Guerre, reeditado em anexo em Le fil et les Traces.

(3) Uma mencao a "ambiciosa obra de P. Ricoeur, Temps et recit" (GINZBURG 2010, p. 459). Trata-se do prefacio a obra Le retour de Martin Guerre, publicado em 1984.

(4) "Procurei mostrar que o sentido da palavra [retorica] em Aristoteles era muito diferente do que entendemos hoje pelo termo retorica" (GINZBURG 2003, p. 52).

(5) Tucidides nao emprega a palavra historia nem no sentido de Herodoto nem no sentido que sera aquele de Aristoteles.

(6) Diferentemente da citacao anterior da Poetica de Aristoteles, Hartog nao se serve aqui da traducao de M. Casevitz, mas da traducao de R. Dupont-Roc e J. Lallot, publicada pela Editora Seuil, em 1980. Para a citacao em portugues de a Poetica nos servimos tanto nessa passagem quanto na anterior, bem como da citacao de Tucidides, da traducao brasileira da obra de Hartog, A historia de Homero a Santo Agostinho, realizada por Jacyntho Lins Brandao, publicada em 2011 pela Editora da UFMG (Nota do revisor).
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Title Annotation:dossier/Dossie
Author:Hartog, Francois
Publication:Historia da Historiografia
Date:Dec 1, 2013
Words:4694
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