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Argonauts of the Extremes: the Process of Conquest as Viewed Through the Maritime Landscape of Bom Abrigo (Good Haven)/Argonautas do extremo: o processo da conquista atraves das paisagens maritimas de um Bom Abrigo/Argonautas del extremo: el proceso de la conquista a traves de los paisajes maritimos de un Buen Abrigo/ Les Argonautes de l'Extreme: le processus de la conquete a travers le paysage maritime de Bom Abrigo (Bon Abri).

Introducao

O movimento de expansao global das esferas de atuacao das sociedades europeias, levado a cabo principalmente pelas potencias ibericas durante os seculos XV e XVI, esteve pautado na construcao de um novo referencial de mundo que transformou hierarquias e formas de percepcao do espaco e, consequentemente, do homem e seu interior, levando a formacao de uma nova geografia humana (Godinho 1984, Baub 2005). O principal vetor de operacao dessas alteracoes foi o processo historico tradicionalmente conhecido como as "Grandes Navegacoes". Diferentemente das praticas nauticas desenvolvidas nos mares regionalmente circunscritos e familiares do Mediterraneo, esse momento da historia maritima exigiu um intenso esforco de "domesticacao" material e ideologica de um espaco que se mostrava ainda aberto, desconhecido e misterioso: O "Mar-Oceano".

Entao, o surgimento, crescimento e fortalecimento de mercados transnacionais, que envolviam obrigatoriamente a participacao de rotas maritimas, se impunha como uma necessidade indubitavel e fatica, dominando os processos economicos (Braudel 1996, Cipolla 1984, Mauro 1989, Silva 2001) e fazendo com que a antiga afirmacao "navegar e preciso, viver nao e preciso", de Cnaeus Pompeius Magno, se apresentasse aos ouvidos dos contemporaneos de Camoes, mais verdadeira do que nunca. Na aproximacao de mundos tao distintos (como o europeu e o amerindio) o litoral brasileiro logo foi incorporado a esse processo de domesticacao, atraves de praticas de Conquista que se desenrolaram nao "apesar", mas "gracas" ao ambiente maritimo/oceanico (Mauro 1989).

Longe de ter representado um empecilho, o "Mar" foi o principal elemento viabilizador de todo esse movimento de expansao, garantindo os meios atraves do qual ele pode efetivamente se realizar. Mais do que qualquer outra caracteristica, o que definiu a conquista do continente americano e a empresa colonial foi o fato de serem, ambos, empreendimentos maritimos. Essa inversao de perspectiva e fundamental para nossas pretensoes, na medida em que garante a compreensao de como e porque uma ilha pode ser considerada um agente desse processo. Foi atraves desse ambiente (Mar), e pelos grupos sociais a ele associados (homens do mar), que toda uma estrutura funcional e simbolica foi montada e mantida, e sobre a qual foram construidas as acoes de Conquista e tecidas todas as tramas de sustentacao e as tensoes do proprio processo de exploracao colonial.

Nesse sentido, ventos e correntes que sempre haviam atuado sobre o Atlantico passaram a assumir uma outra condicao. Percebidos e apropriados pelos navegantes europeus, esses elementos naturais foram transformados em verdadeiros sistemas viarios e corredores de circulacao, fisicamente construidos atraves do uso e materialmente vivenciados, da mesma maneira que as estradas terrestres. Como bem argumentava o Almirante Gago Coutinho em sua obra A nautica dos descobrimentos: "Assim, foi a criacao de uma Nova Arte, apoiada no estudo da astrologia e no dos ventos gerais do Atlantico, o recurso que permitiu ao Infante D. Henrique impulsionar, CEM por cento, os Descobrimentos Maritimos", e, mais adiante,
   [...] os Descobrimentos Portugueses nao resultam de felizes golpes
   de genios de chefes autoritarios mas ignorantes [...] Nao. Os
   nossos dirigentes obedecem a norma racional de comecar pelo estudo
   de navios e mares, para, com tais principios basicos, reconhecerem
   as possibilidades que ventos e terras concediam para as suas rotas
   (1951-1952, vol. 1, p. 89, 95).


Da mesma maneira, rotas maritimas foram sendo formadas, tendo como base uma serie de elementos paisagisticos e acidentes geograficos que passaram a ser encarados como "marcadores", sinais de orientacao que indicavam aos navegantes se estavam no caminho certo, bem como a sua localizacao em relacao aos objetivos finais de suas respectivas empreitadas maritimas.

Assim, as descricoes das aparencias das terras que ladeiam os caminhos maritimos sao algo comum e tais documentos, nao por causa de atributos esteticos ou curiosos, mas como instrumentos de localizacao, como verdadeiras ferramentas de navegacao. Mais ainda, tais descricoes precisavam ser exaustivas, com diversos qualificativos e diferentes elementos na medida em que a informacao isolada de um unico marco podia gerar equivocos. A inclusao dos "nomes" associados a essas regioes era outro elemento importantissimo, garantindo a possibilidade de confirmacao, com outros nautas presentes na regiao ou com comunidades ai estabelecidas, a sua exata localizacao. Em alguns casos, como o do texto de Joao de Lisboa de 1515 (Lisboa 1903), incluiam-se, tambem, desenhos para auxiliar na compreensao das descricoes; essa pratica teve sua continuidade ate bem recentemente, como fica claro no Roteiro--Brasil, produzido e publicado pelo Departamento de Geofisica da Diretoria de Hidrografia e Navegacao da Marinha do Brasil em 1958 (Roteiro 1958).

Alem disso, as viagens transoceanicas do seculo XVI geravam uma serie de demandas logisticas relacionadas com a faina maritima, em vista da tecnologia disponivel na epoca: as embarcacoes de madeira movidas a propulsao eolica. As limitacoes intrinsecas de tais "instrumentos" nauticos, apesar de serem os mais avancados e os mais indicados para a tarefa, demandavam longas jornadas que, por sua vez, exigiam a realizacao de sucessivas paradas em busca de abrigo e abastecimento. Como bem observou o historiador Vitorino de Magalhaes Godinho,

Que e que define estas rotas? Uma rota e determinada pelas suas escalas principais, os polos definem tao-so uma corrente de trocas. Ora, tais escalas sao funcao dos meios de locomocao--das suas velocidades, das suas capacidades de transporte e de suas necessidades de renovacao de energia (1984, vol. 1, p. 81).

[FIGURA 1 OMITIR]

Apesar de essa atividade, em uma emergencia, poder ser tentada em qualquer ponto do litoral, era natural que os nautas do seculo XVI procurassem areas que garantissem, primeiramente, uma boa ancoragem. O tempo demandado pelos trabalhos de coleta e/ou troca de viveres para o abastecimento de uma frota, ou da realizacao de reparos nas embarcacoes, em uma terra estranha, e relativamente longo, sendo contado em dias, semanas ou, quando nao, meses. Durante esse periodo, o navio estaria sob a acao das intemperies e da propria acao dinamica do ambiente maritimo. Sendo assim, uma embarcacao ancorada em local pouco abrigado representava um naufragio em potencial e implicava em risco para os objetivos tracados para a viagem e tambem para a vida de todos os seus tripulantes. Em geral, em tais momentos os nautas buscavam a foz de um rio, uma baia ou uma ilha para garantir a protecao necessaria a embarcacao. A identificacao de locais especificos que preenchessem esses tres requisitos era rapidamente anotada e passada adiante, fazendo com que essas regioes se transformassem em pontos de apoio e suporte a navegacao a serem buscados nas proximas viagens. As expedicoes exploratorias eram, entao, as grandes responsaveis pela coleta de informacoes e pela organizacao desse mapeamento, que seria progressivamente aumentado, ao longo dos anos, com o desenvolvimento de novas observacoes e a inclusao de novas referencias e observacoes. O proprio Cabral, em 1500, ja partia de Lisboa com as instrucoes de Vasco da Gama indicando como pontos de "aguada" a paragem de Sao Bras (na costa sul-africana) e as ilhas Sao Tiago e Sao Nicolau (Arquipelago de Cabo Verde).

Assim, em suas viagens de exploracao e comercio, esses agentes europeus construiram uma serie de estruturas materiais e simbolicas que, operando sob a forma de um conjunto sistemico, viabilizaram as proprias acoes de conquista.

Neste artigo pretendemos apresentar um vislumbre desse processo nautico da Conquista do litoral brasileiro a partir da paisagem maritima da Ilha do Bom Abrigo. Do ponto de vista metodologico aplica-se aqui uma abordagem macroanalitica que encara esse espaco insular como um megaartefato. Para isso nos pautaremos na interpretacao de fontes historicas, nas percepcoes do autor formuladas a partir das experiencias de campo, e na analise do contexto ambiental local.

Terra a vista: diarios, portulanos e derrotas

A nossa primeira evidencia de sustentacao da interpretacao que ve no Bom Abrigo um espaco de conquista esta baseada em uma serie de documentos historicos relacionados com as praticas de navegacao e as primeiras viagens realizadas a inicialmente chamada Terra de Vera Cruz. A proposta, aqui, e que facamos uma analise de como uma paisagem maritima foi construida e materializada por meio de uma serie de instrumentos nauticos responsaveis por organizar de forma inteligivel, procedimentos e referencias que permitiam agencia dentro de um novo mundo. Dessa forma, os diarios de viagens e as derrotas ou roteiros constantes dos chamados Livros de Marinharia, assumem aqui a condicao de legitimos instrumentos de navegacao, tao palpaveis como os astrolabios e as balestilhas. Da mesma maneira, portulanos, cartas de marear e planisferios sao por nos considerados como grandes plantas de um espaco ideologico e materialmente construidos atraves dos agentes europeus da Conquista.

Essa mesma visao "materialista" de tais elementos parece ser corroborada pelos proprios homens do Periodo Moderno, haja vista a politica de sigilo imposta pelo coroa portuguesa a tais documentos. O processo de centralizacao que entao forjava a articulacao dos proprios estados modernos atuava tambem na formacao de um cinturao de seguranca ao redor das informacoes relacionadas com as viagens de exploracao desencadeadas desde o final do seculo XV. A partir de 1504 o cerco se fechava ainda mais, com a promulgacao de leis que proibiam o registro em "cartas de marear" de instrucoes relativas a territorios localizados alem das ilhas de Sao Thome e Principe, na costa africana. Alem disso, estabelecia-se a pena de morte para qualquer pessoa que enviasse ao estrangeiro, documentos cartograficos importantes (Dias 1921, p. cxiii, cxxvi-cxxvii).

A relativa escassez de documentos sobre a primeira fase da conquista do territorio brasilico gerou, em um primeiro momento, a ideia de que o Brasil havia suscitado pouco ou nenhum interesse na coroa lusitana, muito em funcao das possibilidades que, nessa mesma epoca, apresentavam as Indias Orientais. Essa afirmativa, porem, nao se sustenta. Conhecimento e pratica eram os verdadeiros diferenciais nas disputas entre os varios Estados europeus e qualquer novidade era avidamente buscada pelos inumeros espioes infiltrados nas cortes e tripulacoes, a comecar pelos proprios embaixadores, responsaveis pela organizacao dessa coleta de informacoes (Leite 1921a, p. 227). Tal importancia advinha do fato de esses documentos conterem em si a chave material da conquista ao traduzir em termos materiais, seus principais elementos de sustentacao.

Foi por conta dessa politica de sigilo que muitos dos informes fragmentados que possuimos sobre esses primeiros dias sao oriundos de fontes nao portuguesas, mas de Estados "concorrentes", como a Espanha, a Italia e a Franca. Para termos uma ideia, enquanto em Portugal somente na segunda metade do seculo XVI e que se publicaria um texto oficial sobre a descoberta do Brasil, uma copia da carta diplomatica entre os reis de Portugal e de Castela onde tal fato era mencionado ja havia visto o lume em Roma, em 1505. Tambem a Relacao do Piloto Anonimo, que comenta o episodio e descreve a viagem de Cabral as Indias Orientais, era impressa em Vicenza no ano de 1507 (Pereira 2001, p. 33). As viagens de Vespucio sao outro exemplo claro dessa situacao. Apesar de navegar em frotas portuguesas e com destino as terras desse imperio, as narrativas de suas experiencias de viagens foram relatadas, tambem, ao seu "Magnifico Patrao", o banqueiro Lorenzo de Pierfrancesco dei Medici, de Florenca, ou, no caso da publicacao As Quatro Navegacoes (1507), a Piero Soderini, supremo magistrado de Florenca, com quem mantinha contatos de "amizade" e, pode-se dizer, de vassalagem (Vespucio 2003, p. 18, 64). E dessa mesma forma que devemos considerar os registros cartograficos do planisferio encomendado pelo agente comercial Alberto Cantino (data provavel de 1502), confeccionado para o duque de Ferrara, Hercules I; o mapa do genoves Canerio (inicialmente apontado como de 1502, e mais provavel que seja de 1505-1506), que se baseia em Cantino mas agrega os novos conhecimentos adquiridos ate aquele momento; e no planisferio do conego Waldseemuller (1507), para Renato II, duque de Lorena e de Bar, no norte frances, que acabou por batizar essa quarta parte do mundo com o nome de America, em homenagem a Vespucio; todos resumos de informacoes sigilosas contrabandeadas.

Curiosamente, esses documentos cartograficos "nao oficialmente autorizados" sao as maiores evidencias de que o territorio brasileiro e suas aguas receberam uma atencao muito maior do que se costuma imaginar, suplantando, inclusive, o afa exploratorio da costa da Africa. Uma rapida conta nos elucida a questao: entre a tomada de Ceuta, em 1415 e a passagem do Cabo Borjador, em 1434, foram 14 anos; dai, a conquista do cabo das Tormentas, posteriormente renomeado para Cabo da Boa Esperanca, em 1498, foram mais 64 anos. A costa brasileira, no entanto, descoberta em 1500, ja possuia seu contorno mapeado (ainda que com erros) em sua porcao oriental, em 1519 (Guedes 2001, p. 400). Apenas dois anos depois da "descoberta" oficial, a casa real lusitana ja considerava possuir dados suficientes para tomar uma decisao relativa ao arrendamento dos novos territorios a um consorcio de comerciantes que teve em Fernao de Noronha a sua figura mais conhecida (Dias 1921, p. 219). O proprio contrato obrigava o envio de pelo menos seis navios e a descoberta de trezentas novas leguas de litoral todos os anos, durante a vigencia de tres anos do acordo (Leite 1921a, p. 255). Isso nos da uma ideia da rapidez com que se estruturou o conhecimento acerca do recorte costeiro do Brasil. Essa pressa era mais do que justificada, haja vista que as conquistas maritimas dos espanhois se acumulavam rapidamente e ameacavam as possibilidades de um vasto imperio portugues.

Toda essa exploracao inicial se destinou aquela porcao atlantica localizada do cabo de Santo Agostinho para o sul. Esse direcionamento provavelmente se deu em funcao do fato de que a porcao central da America ja havia sido definida como area do imperio espanhol e, portanto, deveria ser evitada. Essa presenca espanhola nao estava muito distante uma vez que sucessivas expedicoes ja haviam descido o litoral em direcao ao sul (para a regiao das atuais; Colombia, Venezuela, Guianas e Suriname), chegando mesmo, no caso da viagem de Vicente Yanez Pinzon (1499-1500), ate Mucuripe, no atual estado do Ceara (Stella 2001, p. 176). Nesse sentido, foi para o austro que os navegadores portugueses apontaram as proas de seus navios nesses primeiros anos da sua presenca no Brasil, e foi nesse mesmo momento que aquela regiao compreendida entre a Ilha do Bom Abrigo, Cananeia e Iguape, tambem passaram a figurar na historia da formacao da "America portuguesa".

As principais fontes materiais de que dispomos para analisar os primeiros momentos dessa conquista maritima sao os proprios portulanos, cartas de marear e planisferios. O primeiro instrumento cartografico a fazer mencao a nossa regiao de estudo e o mapa do genoves Canerio, produzido, ao que tudo indica, entre 1505 e 1506. Ele se caracteriza claramente como um documento onde se mesclam a copia do mapa de Cantino (1502) com novas informacoes produzidas pelas armadas enviadas a Terra de Vera Cruz apos a sua descoberta por Pedro Alvarez Cabral. O que nos interessa em especifico e que este mapa inclui em sua representacao, a mencao a regiao de Cananeia, inicialmente identificada sob a alcunha de "Rio Cananor". A este, seguiram-se os mapas identificados como de Kunstmann II e III, ambos datados de 1506, onde a referencia assumia a grafia mais proxima da atual, de "Rio de Cananea"; o mapa de Waldseemuller, publicado um ano depois (1507), onde encontramos uma terceira nomenclatura com a mencao ao "Rio Cananoru"; e o mapa-mundi de Ruyche, de 1508, com o retorno da designacao "Rio de Cananor". O que transparece claramente dessas evidencias e que a regiao de Cananeia ja havia sido explorada e identificada por pelo menos mais de uma expedicao, por volta de 1505, e que tais embarcacoes transportaram em seus poroes uma grande quantidade de informacoes que garantiram a "elevacao" dessa regiao a condicao de referencia nautica para as embarcacoes em demanda das regioes austrais da Terra de Vera Cruz e da America do Sul.

[FIGURA 2 OMITIR]

Com todo esse conhecimento acumulado, nao e de se estranhar, portanto, que possamos observar nas expedicoes seguintes a esse periodo e para as quais dispomos de alguns relatos de viagens, a presenca do que poderiamos classificar como uma certa "familiaridade" na forma de tratamento dado a regiao.

A primeira referencia nesse sentido diz respeito a viagem de Juan Dias de Solis, em 1516. Incentivado pelas informacoes da viagem de D. Nuno Manoel, que claramente havia excedido os limites do Tratado de Tordesilhas, o rei espanhol armou a expedicao de Solis com o intuito de reivindicar para si os territorios mais austrais do continente sul-americano. Os portugueses, gracas as viagens mencionadas, ja haviam demonstrado a existencia de terras mais ao sul, em direcao ao austro, pertencentes a casa real espanhola. Da mesma forma, as viagens de Colombo, realizadas entre 1492 e 1498, a expedicao de Hojeda, em 1499 e a ja mencionada expedicao de Pinzon, em 1499-1500, ja haviam demonstrado que a regiao central da America constituia uma porcao nao circundavel de terra. Sabia-se tambem, gracas a Vasco Nunez de Balboa, em 1513, que existia um segundo oceano a ser conquistado, o Mar del Sur, localizado "apos" as terras do Novo Mundo. Estava iniciada, assim, a corrida pela posse das terras austrais e pela busca de uma passagem sul, e os portugueses tinham a dianteira. Urgia, portanto, que se tomassem medidas mais incisivas e eficazes por parte da coroa de Castela e Aragao. A resposta a esse movimento foi rapida e veio na forma de armadas de alto bordo, a mando do rei espanhol, mas sob o comando de nautas portugueses, que, por essa mesma epoca, passaram a cursar pelos mares da regiao de Cananeia.

A expedicao de Solis, como sabemos, indubitavelmente alcancou a regiao do Rio da Prata e ficou conhecida por te-lo oficialmente descoberto. Dizemos "oficialmente", porque, a expedicao de Joao de Lisboa teria chegado, dois anos antes, a essa mesma porcao do litoral sul-americano (Lisboa 1903). O problema estava no fato de que a localizacao do rio caia dentro do territorio espanhol definido no Tratado de Tordesilhas. As disputas pelos direitos de descoberta, ponto importante para as reivindicacoes de posse naquele periodo, geraram inclusive a forja da existencia de uma primeira viagem de Solis em 1512-1513, anteriormente, portanto, aquela empreendida por D. Nuno Manoel o que revela o grau de envolvimento dos historiadores oficiais dos respectivos reinos na disputa pratica pela posse das terras, uma vez que as cronicas historicas eram usadas como argumentos nas reunioes diplomaticas entre os reinos.

Da navegacao de Solis em 1516, sabemos que ela incluiu escalas em alguns portos da costa do Brasil, comecando pelo Cabo de Sao Roque e Santo Agostinho, passando por Cabo Frio e Rio de Janeiro, quando, segundo Herrera y Tordesillas, Cronista Mayor de Indias, em 1596, "[...] fueron luego en demanda del Cabo de la Cananea, que esta en 25 grados escasos" (Herrera y Tordesillas 1601, p. 307). O curto texto revela, no entanto, que Cananeia ja havia se tornado uma importante referencia mesmo para as armadas espanholas, certamente por influencia de pilotos portugueses contratados.

Essa informacao e corroborada pelo Derrotero del viaje y navegacion de la armada de Louisa desde su salida de la Coruna hasta 1[grados] de Junio de 1526. O referido documento encontra-se transcrito na famosa Colecao Navarrete que reune informacoes sobre as viagens e descobrimentos maritimos dos espanhois desde o seculo XV ate principios do XVI. O codice aqui mencionado relata a trajetoria feita pelos navios de Jofre Garcia de Loyasa em demanda do Rio da Prata, durante os anos de 1525-26. Segundo o documento, "Viernes a 8 dias del dicho mes [dezembro] tome o sol em 25 grados: hezimos camino al sur cuarta del sudoeste, y era leste oeste com el rio de la Cananea" (apud Navarrete 1825-1837, p. 251). O que podemos apreender dessas informacoes e que os navegantes desse periodo ja nao apenas "passaram" por ali, mas buscaram especificamente aquele ponto do litoral, utilizando-o inclusive como marco definidor dos progressos das viagens.

Esse processo de "elevacao" da regiao de Cananeia a condicao de referencia maritima se completou com a sua inclusao no famoso Livro de Marinharia de Joao de Lisboa, codice datado de meados do seculo XVI. Piloto experimentado, Joao de Lisboa teria vindo pela primeira vez a Terra de Santa Cruz, segundo se acredita, na esquadra de Goncalo Coelho, de 1503, e participado, portanto, das exploracoes da regiao sul do Brasil (Lisboa 1903, p. XLIII). Em 1514, ele foi o piloto da armada de D. Nuno Manoel que, ao que tudo indica, teria descoberto o Cabo de Santa Maria e o estuario do Rio da Prata (Dias 1921, vol. 2, p. 213, 379). Apesar de nao incluir roteiros referentes a costa brasilica, o Livro de Marinharia de Joao de Lisboa apresenta uma lista de Alturas da Costa do Brasil, anexo ao texto do Tratado da Agulha. Nessa listagem aparece citada a regiao de Cananeia, grafada como "Rio Carrane", a 24[grados] de latitude. Muito provavelmente essa inclusao esteja ligada a sua viagem de 1514, quica uma prova de sua passagem por Cananeia.

Mas, se os documentos ate aqui apresentados evidenciam o fato de que a regiao de Cananeia, de uma maneira geral, esteve atrelada as primeiras navegacoes dos europeus em territorio brasilico, os relatos das expedicoes seguintes e alguns exemplos cartograficos a elas associados sao mais especificos e demonstram que a Ilha do Bom Abrigo, em especial, precisa ser entendida como a principal estrutura maritima sobre a qual toda essa fama foi construida.

Martim Afonso, Cabeza de Vaca e Gabriel Soares de Sousa

As exploracoes espanholas que se dirigiram para a regiao sul do Brasil e para o Rio da Prata tiveram uma profunda repercussao em Portugal em virtude dos ja referidos problemas de "fronteira" entre as possessoes ultramarinas dos dois reinos ibericos. Nesse sentido, assim como Solis e Loyasa haviam seguido para a regiao para asseverar as pretensoes espanholas, Portugal tambem montou sua esquadra, dessa vez comandada por Martim Afonso de Sousa. Esse experimentado comandante partia com ordens expressas de organizar, naquelas paragens do sul, um foco de ocupacao permanente que garantisse os direitos lusitanos. Essa viagem e tida pela historiografia como o grande marco que definiu uma nova politica de estado para o Brasil, com o inicio da organizacao de um complexo sistema de exploracao comercial, nao mais dependente apenas do simples intercambio extrativista de "feitorias", mas fundamentado em uma solida base produtiva vinculada a uma demanda internacional.

Preocupado com os limites meridionais das possessoes portuguesas, nao e de estranhar que Martim Afonso, logo apos deixar o porto de Sao Vicente, tenha se dirigido especificamente a Cananeia. Segundo a entrada do dia 12 de agosto de 1531, no Diario de Pero Lopes de Sousa, irmao de Martim Afonso e integrante da expedicao:
   Indo assim no bordo do mar mandou o Capitam I. arribar, pra
   fazermos nossa viagem para o Rio Santa Maria; e fazendo o caminho
   do sudoeste demos com huma ilha. Quis a nossa senhora e a
   bemaventurada Santa Crara cujo dia era, que alimpou a neboa, e
   reconhecemos era a ilha da Cananea [Bom Abrigo]: e fomos surgir
   entre ella e a terra, em fundo de sete bracas [...] Desta ilha ao
   norte duas leguas se faz um rio mui grande na terra firme [...] Por
   este rio arriba mandou o Capitam I. hum bargatim; e a Padre [Pedro]
   Annes Piloto (p. 40), que era lingua da terra [...] e com elle veo
   Francisco Chaves, e o bacharel, e 5 ou 6 castelhanos. Este bacharel
   havia 30 annos [desde a expedicao de 1501, portanto] que estava
   degradado nesta terra [...] (1964, p. 39-40).


O primeiro ponto que transparece de forma clara no texto do diario e o fato de que Martim Afonso vinha ja bem informado sobre o respectivo porto da Cananeia que, como afirma Pero Lopes, foi "reconhecido". Mais ainda, esse local parece ter sido intencionalmente buscado pela armada, provavelmente para travar contato com uma pequena comunidade de europeus que viviam nessas paragens. Dentre os integrantes dessa pequena comunidade, uma mencao que se sobressai e a do "bacharel". Nao se sabe ao certo em que ano chegou ao Brasil, alguns argumentando em favor do ano de 1501, na esquadra em que viera Vespucio (Varnhagen 1975, vol. 1, p. 83), ja que os informes do ano de 1531 dao conta de que ele estaria nesta terra ha cerca de 30 anos, mais ou menos. Nem temos certeza que o exato local de seu degredo tenha sido realmente em Cananeia, uma vez que Diego Garcia o havia encontrado no porto de Sao Vicente em 1527. Nos parece mais correto assumir uma posicao similar a de Rodolfo Garcia em suas notas a obra de Varnhagen onde afirma que: "Este bacharel percorria, com seus indios, toda a costa vizinha para o norte e para o sul" (apud Varnhagen, vol. 1, 1975, p. 99). A sua identificacao sempre foi muito controversa, mas a historiografia, em geral, aceita a tese de que seu nome era Cosme Fernandes. De qualquer maneira, ele foi o fundador do primeiro nucleo de ocupacao historica de que temos noticia na regiao de nosso interesse.

Alguns historiadores acreditam ver nesse mesmo trecho do diario, uma reacao de surpresa pelo encontro do "bacharel" em Cananeia. Nos entendemos que o texto indica justamente o oposto. A mencao de Pero Lopes "[...] e com elle veo Francisco Chaves, e o bacharel, e 5 ou 6 castelhanos" parece indicar que "o bacharel" ja era esperado, dado o tratamento informal e de proximidade, diferente do que seria a mencao a "um bacharel" (Grifos nossos). Essa opiniao se reforca quando lembramos que, poucos anos antes, em 1527, a expedicao de Diego Garcia ja havia travado contato com esse personagem na regiao de Sao Vicente, tendo incluido tal fato nas informacoes oficiais dessa viagem (Garcia 1852). Por isso, e muito provavel que a armada de Martim Afonso, informada acerca dos acontecimentos relacionados pelo menos a expedicao de Garcia, viesse em busca do mesmo suporte logistico que havia sido obtido pelos nautas a servico do rei da Espanha. Nesse sentido, a propria presenca desse personagem precisa ser encarada como uma comprovacao material da importancia preterita da regiao de Cananeia como um ponto de referencia nautica para as esquadras europeias.

Mas o aspecto mais importante do relato de Pero Lopes, para nos, encontra-se na detalhada descricao que esse homem do mar faz a respeito dos procedimentos nauticos que envolviam a passagem pela "Cananeia". Diferentemente dos relatos anteriores, que simplesmente mencionam essa regiao de uma forma generica, Pero Lopes destrincha as etapas operacionais envolvidas na demanda desse "porto", elucidando-nos os principais elementos naturais envolvidos e suas respectivas funcionalidades, e e aqui que podemos perceber a importancia do Bom Abrigo. Relembrando as palavras do diario:

Indo assim no bordo do mar mandou o Capitam I. arribar, pra fazermos nossa viagem para o Rio Santa Maria; e fazendo o caminho do sudoeste demos com huma ilha. Quis a nossa senhora e a bemaventurada Santa Crara cujo dia era, que alimpou a neboa, e reconhecemos era a ilha da Cananea [Bom Abrigo]: e fomos surgir entre ella e a terra, em fundo de sete bracas [...] Desta ilha ao norte duas leguas se faz um rio mui grande na terra firme [...] Por este rio arriba mandou o Capitam I. hum bargantim; e a Padre [Pedro] Annes Piloto (p. 40), que era lingua da terra [...] (Sousa 1964, p. 39-40).

A compreensao dessa situacao perpassa por uma leitura das condicoes naturais da regiao e do ja discutido carater das referencias nauticas. Como dito, as referencia maritimas do seculo xvi dependiam muito das descricoes pessoais dos diferentes locais, enfocando a especificidade de certos marcos paisagisticos. Pois bem, a atual ilha de Cananeia e impossivel de ser percebida do mar pois encontra-se encoberta pela Ilha Comprida. A propria Ilha Comprida parece, para quem olha do mar, nao uma ilha, mas parte integrante da porcao continental, o mesmo ocorrendo para a Ilha do Cardoso (Almeida 1962, p. 206-207). Nesse sentido, o relato de que "[...] e fazendo o caminho do sudoeste demos com huma ilha [...]", nao se sustenta para a atual localidade de Cananeia, nem ontem, nem hoje. Assim, o unico ponto de referencia em destaque e a Ilha do Bom Abrigo, que esta localizada praticamente em frente a barra do que se convencionou chamar na cartografia historica de "Rio da Cananeia". O rio a que se refere o texto e, portanto, a propria barra de Cananeia. Nesse sentido, a "a ilha da Cananea" a que faz mencao o diario nao e outra que nao a Ilha do Bom Abrigo, como atestam inumeros historiadores, dentre eles o nosso ja conhecido Paulino de Almeida (Almeida 1938, p. 39-108).

Foi no Bom Abrigo que as embarcacoes da armada de Martim Afonso ancoraram, como se percebe do trecho: "[...] e fomos surgir entre ella [ilha] e a terra, em fundo de sete bracas [...]", sendo a "terra", as porcoes emersas da Ilha do Cardoso que, como dito, nao pode ser identificada enquanto ilha para quem vem do mar. Como fica claro, somente uma pequena embarcacao (bargantim) foi enviada para explorar e adentrar a barra, tendo acesso a area lagamar e ao Mar Pequeno. E foi la, no Bom Abrigo, que seus barcos e tripulacao passaram os 44 dias registrados para a sua estada em Cananeia: "Aqui nesta ilha estivemos quarenta e quatro dias [...]" (Sousa 1964, p. 40).

A importancia do Bom Abrigo como principal ponto de sustentacao do interesse nautico da regiao de Cananeia como apresentada por Pero Lopes, e comprovada por outras viagens e documentos. Em 1540, em meio as sucessoes de viagens portuguesas e espanholas, e apos a importante expedicao de Martim Afonso, que demonstrou as intencoes lusitanas de controlar aquela parte do litoral brasileiro, chegava a Cananeia Alvarez Nunez Cabeza de Vaca. Vinha com o cargo de Adelantado para reivindicar e organizar uma ocupacao efetiva e proveitosa da regiao do Rio do Prata em nome da coroa espanhola. Em seu caminho para o sul, e antevendo a posicao estrategica de Cananeia nas navegacoes para aquela regiao, Cabeza de Vaca tomou posse do incipiente povoado que ali se formara, em nome de Castela e Aragao. Segundo o texto da "Informacion hecha ante el Alcalde Mayor Pero Diaz del Valle, a peticion de los oficiales Reales, contra Cabeza de Vaca, por todos los desacatos que habia cometido desde que llego a las provincias del Rio de la Plata", feita em Assuncao do Paraguai em 4 de agosto de 1544: "[...] al tomar posesion Alvar Nunez de la dicha Cananea que es em la costa del brasil faziendo los autos e diligencias... en uma piedra grande questaba em la playa de la marina, hizo e mando esculpir uma cabeza de vaca [...]" (apud Gandia 1932, p. 98).

E certo que a atitude do Adelantado foi o coroamento do que vinhamos apresentando, ou seja, da importancia nautica da regiao para as estrategias europeias ibericas. Entretanto, o que mais nos interessa e onde tais autos e diligencias foram realizados. Assim, atraves do depoimento de um outro integrante dessa expedicao, chamado Juan de Camargo, presente nesse mesmo documento juridico, descobrimos que o auto de possessao ocorrera "em uma ysleta questa em el paraje della" (apud em Gandia, 1932, p. 98). Fica claro, portanto, que foi na Ilha do Bom Abrigo que esse evento aconteceu. Essa ilha e a unica que apresenta todos os pre-requisitos necessarios. Primeiro, porque se ajusta perfeitamente a descricao de "ysleta" (pequena ilha); nem a Ilha Comprida, nem a Ilha do Cardoso poderiam ser assim consideradas. Segundo, porque o auto precisaria ter se realizado nas proximidades da terra designada e conhecida como "Cananea", e a Ilha do Bom Abrigo fica, como ja vimos, localizada bem em frente a entrada da barra. Terceiro, as ilhas do Castilho e da Figueira, possiveis concorrentes, encontram-se muito longe para servirem de referencial, alem de nao apresentarem nenhum trecho de praia (local onde o auto foi realizado, como percebemos do texto), sendo suas linhas de costa dominadas completamente por costoes rochosos; o Bom Abrigo, por sua vez, apresenta uma bela praia em sua porcao mais abrigada. Tudo isso confirma ser o Bom Abrigo o local escolhido para sediar o auto de possessao perpetrado por Cabeza de Vaca. Assim, do ponto de vista nautico, fica patente que a principal estrutura maritima relacionada com a regiao de Cananeia era mesmo a Ilha do Bom Abrigo.

Outra significativa fonte primaria que fez referencia a essa unidade insular e sua importancia nautica, foi Gabriel Soares de Sousa. Em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, esse cronista comentava:
   Este rio da Cananeia esta vinte e cinco graus [...] no qual rio
   entram navios da costa, e se navega por ele acima algumas leguas
   [...] Tem o rio da Cananeia na boca uma abra grande, no meio da
   qual, bem defronte do rio, tem uma ilha, e nesta abra esta grande
   porto e abrigada para os navios, onde podem estar seguras naus de
   todo porte, porque tem fundo para isso (1971, p. 116).


Por esse texto poderiamos imaginar que as embarcacoes oceanicas entrassem pelo rio adentro, indo abrigar-se na Baia de Trapande ou mesmo no proprio canal do Mar Pequeno. Entretanto, os "navios" a que se refere esse cronista nada mais sao do que os barcos de menor porte, que serviam de apoio as embarcacoes oceanicas, os mesmos utilizados por Pedro Eanes e por Gonzalo de Acosta em suas "descidas" em busca de "refresco" e informacoes. A diferenciacao estabelecida entre "navios" e "naus" e, aqui, muito importante por querer significar dois tipos distintos de embarcacoes. Como vemos, e na Ilha da entrada da barra, ou seja, no Bom Abrigo, que fica o porto oceanico que abriga as "naus de todo porte"; os "navios", de menor dimensao e tonelagem, tambem encontram ai uma parada segura, podendo, no entanto, optar por adentrar as aguas interiores.

Por ultimo, e eliminando qualquer duvida sobre a funcao central da Ilha do Bom Abrigo na referencia nautica identificada genericamente por "Cananeia", o governador de Buenos Aires, Hernandarias de Saavedra, em carta ao rei da Espanha, de 12 de maio de 1609, descrevia assim a regiao: "Del Rio de san francisco a la cananea, que es um rio y uma Isla y esta um pueblo pequeno em la tierra firme de Portugueses, abra 27 leguas" (Anais 1922, p. 301. Grifo nosso).

Fica evidente, entao, que o termo "Cananea" compreendia dois elementos constitutivos principais: o rio, que precisa ser entendido como a barra de Itacoatiara, e a ilha, que nao poderia ser outra que nao o Bom Abrigo. A povoacao, como bem se percebe, ocupa um terceiro espaco, a terra firme. E claro que o que esta definindo a percepcao aqui e o vies nautico da regiao; e assim que podemos compreender a supremacia do rio e da ilha sobre o proprio povoado de Cananeia. Como bem argumenta Paulino de Almeida, o uso da expressao "ilha da Cananea" geralmente utilizado, representa um vinculo de posse, ou seja, a ilha que pertence a Cananeia (Almeida 1938, p. 44).

Essa relacao se confirma em uma serie de mapas do seculo XVII, a saber: o Brasilia de Petrus Montanus (1605); o Brasilia, de Johannes Blaeu (1640); o Paskaart van Brasil van Rio de las Amazones tot Rio de la Plata, de Peter Goos (1666); o Paskaert van Brasiliae van Pernambuco tot C de Santo Antonio, de Hendrick Donkner (1660-1680); e o Pascaert van Brasil, de Frederick Wit (1680). Diferentemente dos mapas e portulanos em geral, em todas as representacoes cartograficas mencionadas acima podemos perceber a preocupacao em distinguir claramente as tres unidades insulares que formam a barra de Cananeia, ou seja: a Ilha Comprida, a Ilha do Cardoso e a Ilha do Bom Abrigo. Em todas elas tambem fica evidente a aplicacao do toponimo "Ilha de Cananeia" especificamente a unidade insular do Bom Abrigo.

De qualquer forma, independentemente do conteudo nominal atribuido pelos diferentes cartografos e navegantes, como podemos perceber a partir de todas as evidencias aqui apresentadas, o rio (barra de Itacuatiara) e a ilha do Bom Abrigo constituem-se como os dois principais elementos que definem a referencia nautica de "Cananeia".

[FIGURA 3 OMITIR]

A Ilha do Bom Abrigo como mega-artefato

Existem outras evidencias, que precisamos agregar a nossa interpretacao do Bom Abrigo como instrumento material da colonizacao que se manifesta tanto na paisagem construida pelas evidencias "arqueograficas", quanto na paisagem "percebida".

[FIGURA 4 OMITIR]

[FIGURA 5 OMITIR]

Contexto ambiental local

Localizada a 25[grados]07',20 de latitude sul por 047[grados]51',60 de longitude oeste, no litoral sul do atual estado de Sao Paulo, naquela porcao mais proxima a divisa com o estado do Parana, Brasil. A Ilha do Bom Abrigo tem como principais referencias territoriais a Ilha do Cardoso, localizada imediatamente a sua frente, a cerca de duas milhas de distancia; e a Ilha Comprida, cujo limite sul encontra-se ao norte de sua posicao, a pouco mais de tres milhas nauticas (Almeida 1938, p. 42-43). Essas duas porcoes territoriais formam a famosa "barra de Cananeia" que da acesso ao "Mar Pequeno", area lagamar onde se encontra a Ilha de Cananeia, local onde foi erguida a cidade de mesmo nome (principal referencia urbana associada a area da pesquisa), e que, por sua vez, dista do Bom Abrigo, por mar, aproximadamente 8 milhas nauticas.

Essa unidade insular e constituida essencialmente por embasamentos rochosos graniticos que marcam de forma muito evidente praticamente quase toda a extensao de sua linha de costa, e que afloram em grande numero mesmo nas areas mais elevadas de sua porcao emersa, a ilha apresenta uma nitida orientacao longitudinal sudoeste-nordeste com 1700 metros de extensao e cerca de 770 metros em seu ponto mais largo, no sentido norte-sul, compreendendo uma area total de 1.180.00[m.sup.2]. Sua face norte-sudoeste encontra-se voltada para o continente, estando o resto voltado para mar aberto. Essa configuracao faz com que o Bom Abrigo apresente duas zonas maritimas bem distintas: 1) A porcao norte-sudoeste, caracteriza-se por sua condicao abrigada dos ventos e das correntes maritimas oceanicas, apresentando uma condicao de mares mais calmos; 2) A porcao sul-nordeste da ilha, por outro lado, em virtude de encontrar-se voltada para o mar aberto, recebe todo o impacto dos ventos e das aguas oceanicas e por isso apresenta uma condicao de mar muito mais bravio, com a presenca de ondas e fortes correntes submarinas.

Outra informacao de carater maritimo importante diz respeito as variacoes de profundidade do seu entorno. Assim, a ilha encontra-se localizada exatamente na divisa entre dois contextos submersos distintos, uma porcao mais rasa, com profundidades entre 4,8 e 8 metros, que domina toda a porcao norte, e outra mais profunda, que varia entre 10,4 e 14 metros, que ocupa os limites leste, sul e oeste. Tambem podemos identificar a existencia de quatro pequenas enseadas que se destacam do padrao retilineo que domina quase toda a sua linha de costa, duas na porcao norte, e duas na porcao sul. Em todos os documentos relacionados a navegacao e bem evidente a existencia de uma associacao entre a principal enseada, localizada na porcao norte e incrustada bem no meio do corpo da ilha, e a localizacao da entrada da barra de Cananeia, estando, a primeira, voltada diretamente para a segunda. E justamente nesse local que encontramos o unico trecho de praia existente em toda ilha, com aproximadamente 80 metros de extensao.

No que se refere a sua conformacao topografica, a primeira observacao e sobre a natureza acidentada de seu relevo, caracterizado pela presenca de dois grandes morros unidos por uma faixa central de menor elevacao. Essa caracteristica ja garantia, em 1536, a observacao de Pero Lopes de Sousa de que: "faz no meo hua sellada" (1964, p. 39). O morro que domina a porcao ocidental e o que apresenta a maior elevacao, com cerca de 130 metros, enquanto a parte oriental da ilha apresenta uma altura de 120 metros em relacao ao nivel do mar, como fica claro atraves do levantamento aerofotogrametrico feito em 1937 pela Diretoria de Navegacao da Marinha do Brasil (1) (apud, Almeida 1938, p. 41). Essa conformacao morfologica faz com que a ilha apresente, em quase toda a sua superficie emersa, um alto grau de declividade, existindo pouquissimas areas mais planas. Em nossas navegacoes e caminhamentos pudemos identificar quatro areas prioritarias, a saber: duas delas localizadas na base da ilha, junto ao mar, uma na ponta norte e outra na parte central da ilha, imediatamente associada a linha de praia; e duas outras localizadas nos patamares superiores dos referidos morros. Essa condicao se justifica por ser o Bom Abrigo a ultima expressao, em direcao ao mar, dos contrafortes serrosos do complexo do Itatins, que formam a Ilha do Cardoso e que ladeiam, ao sul, a planicie costeira de Cananeia-Iguape.

Das elevacoes da ilha, como indicado no Mappa da Ilha do Bom Abrigo, descem quatro diminutos corregos que garantem uma boa oferta de agua doce durante todo o ano, a saber: um na ponta norte, um na porcao sudoeste, outro que corre em direcao ao lado sul, desaguando na enseada chamada de "Pesqueiro Grande", e outro que desce para a regiao da praia, sendo este a principal fonte de agua doce da ilha.

Sobre a flora insular, as informacoes historicas fazem referencia a existencia anterior de uma imponente vegetacao, hoje em grande parte desaparecida. Nas palavras do historiador e cronista de Cananeia, Paulino de Almeida: "[...] bem conhecida era a Ilha do Bom Abrigo, por sua vegetacao luxuriante, possuindo madeiras de lei e de qualidade, ostentando soberbas arvores [...]" (1938, p. 46). Ao que tudo indica a vegetacao entao ai presente nao deveria se distanciar muito da Mata Atlantica que encontramos ainda hoje na Ilha do Cardoso, principalmente pelo fato de ela ter se transformado em uma unidade de conservacao estadual. Atualmente, pouco resta dessa flora "luxuriante" do Bom Abrigo, sendo a boa parte do seu territorio coberto por vegetacao rasteira pouco diversificada e capoeiroes. A devastacao da flora insular, associada as caracteristicas topograficas mencionadas acima, gerarama formacao de grandes processos erosivos nas encostas dos dois grandes morros que definem a silhueta da ilha. Existem, no entanto, algumas porcoes isoladas de mata que se encontram em estagio de recuperacao e que se concentram na extremidade sul, no cume da porcao oriental e na ponta norte da ilha.

A paisagem percebida e construida

Como todo artefato, a Ilha do Bom Abrigo encontra-se inserida em um contexto maior que e representado pelo ambiente maritimo e costeiro do sul do estado de Sao Paulo. Como sabemos, essa porcao do litoral paulista apresenta, como uma de suas principais caracteristicas, a presenca de uma ampla planicie costeira que domina grande parte de sua linha de costa, com poucas reentrancias e, portanto, extremamente exposta a acao direta e intensa do ambiente oceanico. A isso, soma-se o fato de que as condicoes climaticas dessa regiao sao notadamente marcadas por zonas de instabilidade e altos indices pluviometricos associados a tempestades. A porcao oceanica compreendida entre o litoral do estado de Sao Paulo e a costa de Santa Catarina e frequentemente o palco para os "embates" entre duas zonas de alta pressao que atuam na regiao, o anticiclone do Atlantico Sul (quente) e o anticiclone polar (frio). Entre as duas, cria-se uma faixa de instabilidade caracterizada, inclusive, pela formacao de ciclones extratropicais. Quando recorremos novamente ao texto do diario de Pero Lopes de Sousa, o tempo ruim e uma marca evidente no contato que tiveram com a regiao. Ancorados na Ilha dos Alcatrazes, "No quarto da modorra nos deu hua trovoada seca do essudoeste, com mui grande vento que nam havia homem que lhe tivesse o rosto [...]" (1964, p. 38); e, durante a propria estada no Bom Abrigo,

[...] Aqui nesta ilha estivemos quarenta e quatro dias: nelles nunca vimos o Sol; de dia e de noite nos choveo sempre com muitas trovoadas e relampagos [...] Deram-nos tam grandes tormentas destes ventos e, tam rijos, como em outra nenhua parte os vi ventar [...] (Sousa 1964, p. 39, 40).

Experiencia praticamente identica passou Hans Staden em sua segunda viagem ao Brasil, em 1549. Segundo seu relato, quando estavam ancorados tambem na ilha de Alcatrazes,
   [...] assaltou-nos grande tempestade do sul que nos fez receiar
   largassem as ancoras e fosse a nau arremessada sobre os rochedos
   [...] Afastamo-nos entao de terra com grande perigo, pensando a
   cada instante que as vagas despedacassem o navio [...] Durante a
   noite tinhamos-nos afastado tanto, que de manha ja nao enxergamos
   mais a terra. Somente muito depois, appareceu ella a vista, as a
   tempestade era tamanha, que pensamos nao resistir [...] uma grande
   neblina, porem, nao nos deixou reconhecer a terra [...] (1930, p.
   51).


No Roteiro--Brasil de 1958, o alerta continuava: "A cerracao que reina ai durante a monsao do S impede, por vezes, de se ver a costa" (Brasil 1958, p. 100).

A nossa experiencia durante as diversas etapas de campo ai realizadas, tambem comprova essa situacao. Somando-se todos os periodos em que estivemos em Cananeia para a realizacao de trabalhos no Bom Abrigo, varios dias foram "perdidos" em terra, devido as mas condicoes climaticas que inviabilizavam a travessia da barra. Da mesma forma, salvo uma unica etapa de campo, a maior parte dos trabalhos foi realizada com o tempo fechado e/ou sob chuva.

Nesse contexto, o Bom Abrigo caracteriza-se por ser um excelente ponto de ancoragem e um guardiao contra os ventos, correntes e tempestades que assolam essa parte do Atlantico Sul. Mais do que isso, a ilha do Bom Abrigo se caracteriza como uma das poucas areas de protecao (se nao a unica), entre Santos e Paranagua, capaz de abrigar aquelas embarcacoes oceanicas do seculo XVI. Nao e a toa que Hans Staden, ao sair de Alcatrazes, comentava: "[...] e pensavamos ainda alcancar o porto chamado Canine [Cananeia]. Mas anoiteceu antes de chegarmos [...] " (1930, p. 51).

Os ventos que assolam aquela regiao sao predominantemente de orientacao sudoeste-sul-sudeste-este, principalmente quando estamos falando da chegada de massas de instabilidade climatica e de tempestades, ou seja, justamente naquelas condicoes em que um abrigo maritimo se faz adequado. Desse modo, quando consideramos a posicao da ilha em relacao a regiao, percebemos que ela se encontra protegida de norte a oeste pelos altos contrafortes da Serra do Mar que se estendem ate a ilha do Cardoso. A sudoeste, a Ponta do Cambriu e a Ilha do mesmo nome, diminuem o impacto sobre o Bom Abrigo que, a despeito disso, mantem uma importante zona de sombra contra os ventos vindos dessa direcao. Mas e justamente contra os temidos ventos do sul, sudeste e leste que a ilha apresenta sua maior condicao de abrigo.

Como podemos perceber atraves da representacao grafica, toda a porcao norte da ilha funciona como um verdadeiro ancoradouro natural, que aumenta sua eficacia, quanto mais proximo da principal enseada, chamada "da Prainha". A zona de sombra garantida pelo corpo da ilha e aumentada, ainda, pelas caracteristicas acidentadas do seu relevo; os dois grandes morros, que, como vimos em nossa descricao da area de pesquisa, dominam quase que completamente a area total emersa dessa unidade insular, atuam como obstaculos naturais, cirando uma ampla zona de sombra. Da mesma forma, a ilha atua no sentido de proteger as embarcacoes ai ancoradas contra a acao das correntes e dos vagalhoes maritimos oriundos do mar aberto. Tais caracteristicas fizeram com que Rangel Pestana, em 1883, assim a descrevesse: "Um composto de pedras tendo boas aguas, a ilha apresenta condicoes de otimo fundeadouro, abrigado de todos os ventos; e uma verdadeira doca natural" (apud, Almeida, 1961a, p. 212. Grifo nosso). Da mesma forma, nas primeiras decadas do seculo XX, Joao P. Cardoso, diretor da extinta Comissao Geografica, comentava:

Naturalmente denominaram-na Bom Abrigo, porque, quando navega-se para o sul com o mar agitado e se aproxima dela, nota-se uma grande diferenca, parece que se vai entrar em um porto bem abrigado, tal e a protecao que oferece contra os temporais e o ancoradouro explendido que ai existe (apud, Almeida 1961a, p. 211).

Essa opiniao era ainda corroborada por Manuel Higino dos Santos, em meados do mesmo seculo, para quem:
   Se as embarcacoes que ali chegam, oferece o porto de Cananeia, como
   vimos ancoradouro dos mais seguros e grande facilidade para os
   servicos de carga e descarga, em sua vizinhanca toda a protecao
   proporciona a navegacao em geral, qualquer que seja a direcao dos
   ventos ou o lado de que provenham os vagalhoes oceanicos, a ilha do
   Bom Abrigo [...] (1952, p. 84).


Ainda importante e a presenca dos dois aspectos do contexto submerso, abordados em nossa descricao da ilha. Assim, as profundidades maiores de 10 metros presentes no entorno submerso que vai de nordeste a sudoeste, garantem uma excelente condicao de aproximacao a partir do alto mar, sem nenhum tipo de empecilhos ou bloqueios. Por outro lado, o fundo marinho da regiao norte da ilha apresenta profundidades entre 4,8 e 8 metros, mais favoravel aos procedimentos de ancoragem de grandes embarcacoes uma vez que aumenta a eficacia do sistema de amarracao entra a ancora e a embarcacao, diminuindo a tensao permanente de todo o sistema.

Tambem e ali que se encontra a unica area de praia da ilha, ideal para a realizacao de desembarques e embarques, muito diferente dos demais trechos rochosos existentes. Como se nao bastasse, esse ponto fica diretamente voltado para a entrada da barra de Cananeia, garantindo assim uma otima condicao de controle tanto das condicoes da barra, quanto da chegada de embarcacoes. Isso tambem ajudava muito nas expedicoes de exploracao da regiao, que deveriam subir pela barra adentro (ou rio adentro, como se referiam os primeiros cronistas), em busca de informacoes e de viveres. A vasta rede hidrografica, composta nao somente pelo polo lagamar, mas tambem pelos rios a ela associados, possibilitava o rapido deslocamento em varias direcoes, algo interessante para expedicoes de reconhecimento em seu processo de estabelecer contatos com os nativos, principal fonte de suprimentos.

A propria insularidade do Bom Abrigo foi um fator positivo a ser considerado por esses navegantes. As ilhas apresentavam, quando nao habitadas, uma distancia salutar em relacao aos povos nativos que, quando desconhecidos, poderiam representar uma ameaca, aos olhos dos europeus.

Outra importante caracteristica do bom Abrigo e a oferta de aguado doce durante todo o ano. Como vimos, existem na ilha quatro pontos de abastecimento, sendo o principal aquele localizado na propria "Enseada da Prainha", pegado a principal area de ancoragem. Essa disposicao certamente facilitou muito as operacoes de reabastecimento das embarcacoes. A importancia desse item era tao grande para as navegacoes oceanicas que o termo utilizado para referir-se a parada de um navio para realizar o reabastecimento (tanto de viveres quanto de agua) era "aguada".

Juntamente com a agua doce, outra demanda dos homens do mar desse periodo era madeira, muita madeira. Ela era utilizada nao apenas como lenha para a preparacao da alimentacao, mas tambem como fonte de calor para os dias de frio. Em sua carta Mundus Novus, Vespucio afirmava: "Com efeito, nos faltavam lenha e agua, e podiamos suportar a vida no mar por poucos dias..." (2003, p. 38). E importante lembrarmos que o Bom Abrigo fica justamente no caminho para o Rio da Prata e para o Estreito de Magalhaes, ambas, regioes frias. Mas a funcao primordial da madeira na vida do homem do mar era aquela relacionada com o reparo ou mesmo a construcao de embarcacoes, o principal elemento na vida no mar, sendo considerado a propria "tabua de salvacao" (Diegues 2000, p. 162; Rambelli 2003, p. 97). Como vimos em nossa descricao da ilha, apesar de faltar nos dias de hoje, o Bom Abrigo apresentava, outrora, uma exuberante vegetacao, e de se imaginar, no mesmo padrao daquele presente hoje no atual Parque Estadual da Ilha do Cardoso. Area de Mata-atlantica, o Bom Abrigo sofreu o mesmo processo extrativista que provocou o desaparecimento desse ecossistema na maior parte do litoral brasileiro. Sem duvida alguma, muito do desmatamento ai praticado esteve relacionado com a geracao dos excedentes necessarios a faina maritima das diferentes embarcacoes que ai ancoraram nos ultimos quinhentos anos.

E importante lembrarmos que nem todo tipo de madeira se presta a intrincada e complexa arte naval, mas isso nunca foi um problema para as reservas naturais a disposicao dos navegantes na regiao de Cananeia, muito pelo contrario. Como ja observava Martim Francisco Ribeiro de Andrada em seu Jornais das viagens pela capitania de Sao Paulo (1803): "Esta vila bem merece o nome de patria dos carpinteiros" (Roteiros 1977, p. 119), tendo ai surgido uma importante industria naval (estaleiros), principalmente a partir de em 1711, que se dedicava tanto ao fabrico de naus de grande porte (Santos 1952, p. 55), quanto de inumeras embarcacoes de pequeno e medio porte. Em 1782, o livro de Memorias referia-se a existencia de 16 estaleiros em atividade (Almeida 1965, p. 467). Como afirmava, em 1825, o Capitao de Fragata Carlos Lourenco Danckvard, ai "[...] construe-se trez a quatro navios por anno no belissimo Rio da Ribeira [...]" (apud, Young 1905, p. 212). Essa atividade parece ter perdurado pelo menos ate a primeira metade do seculo XX quando Manuel Higino dos Santos ainda detecta a exportacao de centenas de canoas para o Rio de Janeiro (Santos 1952, p. 109). Essa industria so se desenvolveu com a forca que teve, justamente porque suas reservas naturais de madeiras possibilitavam esse crescimento.

A concentracao de um conjunto de condicoes naturais tao importantes para os navegantes oceanicos nao poderia mesmo ter passado despercebido ao olhar atento dos viajantes cuja sobrevivencia dependia de suas habilidades para interpretar os contextos ambientais e humanos ai presentes.

A segunda evidencia material do papel da ilha como vetor de colonizacao esta tambem marcada na paisagem construida, aqui representada pelo imponente marco de Itacurussa, assentado na Ilha do Cardoso. Esculpido em pedra lioz portuguesa, o marco apresenta as armas da coroa de Portugal encimadas pela Cruz de Malta. A data exata de sua implantacao e foco de discussao ha muito tempo, sendo apresentadas diferentes versoes por diferentes historiadores e cronistas. Para Frei Gaspar Madre de Deus, Azevedo Marques e Varnhagen, entre outros, o marco foi ali colocado por Martim Afonso de Sousa; (2) para Aires do Casal, teria sido obra da expedicao de Goncalo Coelho, em 1503; e para Gabriel Soares de Sousa e Milliet de Saint-Adolphe, teria sido erguido por Cristovao Jacques (Almeida 1961b, p. 423, 426; Marques 1980; Varnhagen 1975).

[FIGURA 6 OMITIR]

Independentemente do nome do navegante que o edificou, a simples presenca do marco na nossa regiao de pesquisa ja demonstra sua importancia como ponto de referencia nautica e como base selecionada para o processo de conquista levado a cabo no seculo XVI. Pelo menos desde Diogo Cao e de suas navegacoes africanas durante o seculo XV, os nautas portugueses haviam estabelecido a pratica de edificar marcos em pontos especificos relacionados com suas viagens de exploracao e de conquista de novas porcoes maritimas. De uma maneira geral, os locais escolhidos para a implantacao de tais instrumentos de conquista eram aqueles que, sob os olhos europeus, apresentavam as condicoes mais adequadas e interessantes para suas pretensoes comerciais ou que congregassem aquelas caracteristicas ideais de suporte a faina maritima que embasava o proprio movimento de expansao. Aqui, temos uma questao recorrentemente esquecida pela historiografia, porem extremamente importante para nos: o carater nautico desses elementos. Sempre localizados em bons portos e a beira mar, mais do que simples aparatos simbolicos, esses marcos tinham a funcao pratica de servir como instrumentos indicativos das novas rotas oceanicas; assim, atuavam da mesma forma que os elementos paisagisticos comentados no inicio deste capitulo, tendo ainda a seu favor o fato de serem inconfundiveis, ou seja, de nao dependerem tanto de impressoes relativas, como aquelas a que estavam sujeitos os marcos paisagisticos citados pelos diferentes roteiros.

Mais do que isso, nao podemos nos esquecer que tao importante quanto a posse das terras era o controle de mares, rotas e portos, que, como vimos, eram os verdadeiros vetores da conquista e da obtencao da prosperidade economica tao almejada. Sendo assim, os marcos de possessao aqui referidos precisam ser entendidos nao apenas como elementos de dominacao territorial, mas, tambem, como instrumentos de dominacao maritima, e e exatamente aqui que sua importancia para o Bom Abrigo se revela.

Assim, o marco de Itacurussa foi assentado naquela ponta de mesmo nome que se projeta a partir da Ilha do Cardoso em direcao ao Bom Abrigo. Mais ainda, e importante notarmos que esse local apresenta uma nitida relacao justamente com a Enseada da Prainha, nao por acaso, como visto, o principal ponto de ancoragem das embarcacoes que ai buscavam refugio. Durante os trabalhos de retirada do marco original, que foi substituido por uma replica em funcao de uma tentativa de roubo por parte de estrangeiros, encontramos varias referencias que atestam essa relacao direta. Em todos os documentos transcritos por Paulino de Almeida que dao conta dos procedimentos e informes legais sobre a operacao, a referencia de localizacao do marco sempre cita o fato de encontrar-se "em frente a ilha do Bom Abrigo".

Talvez a mencao mais significativa seja a do proprio Auto de remocao, onde consta a seguinte declaracao do Fiscal da Camara de Cananeia:

Encontramos o mesmo 'Marco' em posicao voltada ou fazendo frente para a ilha chamada do 'Bom Abrigo', que fica ao sul da barra de Cananea, e a Oeste desta ilha esta situado o promontorio denominado 'Itacurussa'. Desembaracado do lugar o 'marco', a sua frente para o lado do 'Bom Abrigo', na distancia de seis metros encontramos um dos dous 'tenentes', que estava cahido entre pedras naturaes proprias do lugar, sobre a terra firme da praia do Oceano (apud, Almeda 1961b, p. 432).

Durante a vistoria por nos realizada no local, procuramos entender essa relacao espacial entre esses dois compartimentos paisagisticos. A partir da enseada do Abrigo, a linha de costa da Ilha do Cardoso e a porcao territorial mais proxima a ser avistada; do topo do "morro do farol" tem-se uma clara percepcao da ponta de Itacurussa. Comumente identificada como terra firme, e nao como ilha, essa porcao litoranea era o primeiro local naturalmente buscado por aqueles navegantes em reconhecimento dessas novas paragens.

Seria mera coincidencia o fato de ter se escolhido a ponta de Itacurussa, localizada bem em frente a essa ilha, como ponto estrategico para a colocacao dos marcos de possessao portugueses? Parece-nos obvio que nao! Sua localizacao repousa no fato de ser esta ilha, o melhor e mais abrigado ponto de ancoragem para navios que buscavam abrigo, aguada ou demandavam a barra. Assim, a ponta de Itacurussa atuava como um grande cartao de "boas vindas" e avisava aos navegantes a quem pertencia aquelas terras e mares. Fica evidente, portanto, que sua localizacao estrategica esta diretamente relacionada ao importante papel nautico desempenhado pela Ilha do Bom Abrigo.

A comprovacao do sucesso dessa funcao maritima do marco de Itacurussa e de sua localizacao estrategica, postado em frente ao Bom Abrigo, pode ser verificada atraves da sua inclusao na cartografia historica do proprio seculo XVI.

A mais antiga mencao que pudemos encontrar sobre esse exemplar de cultura material e a do Atlas de Lopo Homem--Reineis, de 1519, onde, logo abaixo da referencia de "Cananea" encontramos a mencao a "Ponta do Padrao". Um mapa anonimo portugues, datado de 1538, tambem identificava uma "Pont. do padram", nesse mesmo local. Alem deles, esse toponimo e novamente citado nos Atlas de Diogo-Homem de 1558 e de 1561, em um mapa anonimo datado de 1560, presente em um edicao do Livro de Marinharia de Joao de Lisboa, alem de constar de um mapa de Luiz Teixeira, de 1586, onde se encontram tambem demarcadas as Capitanias Hereditarias do Brasil.

De qualquer forma, ja no inicio do seculo XVI, esse marco da presenca europeia em terras brasilicas agregava novos significados e transformava a paisagem litoranea de Cananeia, afastando-a dos designios das sociedades indigenas e associando-a definitivamente as pretensoes de dominio europeu. O marco representa a materializacao das intencoes de posse e de subjugo das novas terras e mares a uma nova realidade. A propria materiaprima escolhida para servir de base a esse monumento ja nos revela muito sobre seu significado. A solidez de sua estrutura, erguida, nao em madeira ou outro material qualquer menos resistente, mas sim em pedra, apresenta uma mensagem clara no sentido de um vinculo permanente e resistente ao tempo. Ainda que inanimado e ausente de vida, foi erguido com a intencao de servir, simbolica e materialmente, como uma estrutura de ocupacao que garantia as pretensoes de posse, principalmente em relacao as demais potencias europeias, tao intensamente e legalmente associadas a pratica de um dominio efetivo da area reclamada. Isso so se deu justamente pelo fato de que essa porcao insular do litoral paulista desempenhava desde aquela epoca um importante papel como ponto de referencia, de abrigo e de abastecimento para todas aquelas naus que demandavam essas aguas. Nesse sentido, essas evidencias sao tambem uma comprovacao do uso da ilha enquanto um porto natural a servico das sociedades mercantis europeias em sua atividade de dominacao e exploracao economica do "Novo Continente". Nesse mesmo sentido, o marco era, tambem, a garantia de uma presenca constante e materialmente vivenciada, dos novos agentes europeus, junto as comunidades indigenas, efetivamente "marcando" suas intencoes de retorno, continuidade, permanencia e principalmente, transformacao.

Conclusao

A partir de tudo que foi exposto nas paginas anteriores, percebemos que a regiao de Cananeia foi um importante marco de referencia nautica do processo de conquista das "novas terras descobertas" por parte das sociedades europeias. Nao ha duvidas, tambem, de que a principal estrutura nautica que fundamentou toda essa importancia foi a Ilha do Bom Abrigo. Em suas acoes operacionais de conquista, os navegantes europeus se depararam com a necessidade de dar conta de uma nova "realidade" material e imaterial, que os levou a desenvolver novas posturas, novos conceitos e novos mecanismos de acao. O resultado dessa necessidade pratica foi a forja de um conhecimento sobre os "modos de fazer" que se manifestou atraves do "reconhecimento", do processo de transformacao do chamado "nao lugar" do espaco desconhecido em um universo de dominio, em um espaco de trabalho, vivencia e de poder. O "Mar" foi o primeiro elemento a conhecer essa progressiva apropriacao que o distanciou das antigas estruturas do "Mar Tenebroso" medieval e o transformou no "MarOceano" moderno, mapeado e nominalmente conhecido. Segundo Magalhaes Godinho,
   O homem vem assim a situar-se no espaco porque inventa os
   instrumentos para nele operar, gracas aos quais o reconstroi pela
   referenciacao de posicoes, medida de distancias, determinacao de
   formas, isto e, configuracoes, proporcao de dimensoes: e o espaco
   mitico, construido pela funcao simbolizadora, que se desagrega,
   para ceder lugar ao espaco da funcao do real (1984, vol.1, p. 24).


Diferentemente do que possamos pensar, esse "reconhecimento", esse processo de "nominacao" nao foi apenas um elemento de construcao ideologica, mas manteve profundas relacoes com as estrategias de sobrevivencia pratica dos nautas e, consequentemente, com a sobrevivencia material do proprio movimento da Conquista. Saber "onde" e "como" chegar, e "o que buscar" em momentos de necessidade, foram condicoes fundamentais para a sobrevivencia material dos agentes envolvidos nesse processo. Assim, os marcadores geograficos, os locais pre-estabelecidos, que balizavam o caminho eram os guias que impediam as diversas expedicoes de simplesmente se perderem e perecerem ao longo dos extenuantes e incognitos percursos transatlanticos. Sem eles, e a constante reorganizacao dos animos que cada ponto reconhecido e superado trazia aos espiritos dos nautas, o governo dessas viagens estaria invariavelmente comprometido, e se todas as viagens transoceanicas que formaram o movimento da Conquista dependessem da sorte ou de um clima de instabilidade tao grande, ela estaria indubitavelmente ameacada, quando nao, irremediavelmente condenada ao fracasso.

Nesse mesmo sentido, como bem argumenta o antropologo maritimo Antonio Carlos Diegues:
   A simbologia do barco, em muitas linguas e equivalente a esquife ou
   feretro, presente em quase todos os ex-votos maritimos, tem um
   significado especial, mesmo antes do cristianismo. Ela e a tabua ou
   o caixao que separa o marinheiro da propria morte, ou em ultimo
   caso, e o seu proprio feretro em caso de naufragio (2000, p. 162).


A Ilha do Bom Abrigo, com seu porto seguro em uma regiao de constante instabilidade climatica, com suas fontes de agua doce e sua proximidade com uma regiao farta em recursos alimentares, como era (e ainda e) a area lagamar de Cananeia, garantia a sobrevivencia de "maquinas" (as embarcacoes) e homens, incentivando e viabilizando a reproducao de um sistema de relacoes que levaria a organizacao de uma nova sociedade e de um novo espaco de vivencia.

Nao podemos nos esquecer, aqui, que os espacos maritimos, e nao os terrestres foram as primeiras arenas de tensao e de disputa, inicialmente entre o elemento autoctone e o invasor europeu e, posteriormente, entre as proprias potencias europeias. Nesse sentido, o Bom Abrigo, enquanto estrutura maritima foi rapidamente percebida como um novo espaco de poder e de dominacao. Embarcacoes, marinheiros e marcos possessorios, materialmente transformaram essa paisagem maritima, induzindo a formacao de novas configuracoes regionais, novas regras de circulacao, novas simbologias e uma nova forma de ocupacao do espaco. Ao fim e ao cabo, esse processo trouxe consigo, para o litoral paulista, uma onda de invasao perpetrada por elementos europeus, que provocaram uma profunda transformacao tanto em relacao aos aspectos de estruturacao e organizacao dos "modos de viver", quanto em relacao a alteracao das paisagens naturais e construidas (indigenas). A uniao desses dois fatores provocou a formacao de uma nova dinamica na ilha, agora definitivamente atrelada a logica mercantil-capitalista das sociedades europeias.

Agradecimentos

Agradeco o auxilio fundamental de minha orientadora Profa. Dra. Maria Cristina Mineiro Scatamacchia e dos colegas Drs. Gilson Rambelli, Paulo Bava de Camargo, Flavio Calippo e ao Ms. Ricardo Guimaraes--Capitao-deCorveta do DPHDM/Marinha do Brasil. A minha esposa Lorena Garcia e aos meus familiares Alvaro Duran e Juliana Duran pelo apoio na revisao deste texto; e a Fundacao de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo FAPESP financiadora do projeto onde estas reflexoes nasceram. As responsabilidades das ideias aqui expostas sao de inteira responsabilidade do autor.

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Leandro D. DURAN **

* O presente artigo e uma versao adaptada de um capitulo da tese de doutoramento do autor defendida em 2008 no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Sao Paulo.

** Universidade Federal de Sergipe, Brasil.

(1) A referencia de 142 metros expressa na carta refere-se ao acrescimo da torre do farol que na epoca, tinha cerca de 12 metros de altura em relacao ao cume da ilha.

(2) Entendemos que esta hipotese hoje se encontra descartada tendo em vista as informacoes contidas no atlas de Lopo-Homem/Reis, de 1519, apresentado em nosso anexo cartografico.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Duran, Leandro D.
Publication:Revista de Arqueologia Americana
Date:Jan 1, 2013
Words:11866
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