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Are we still the same? Media representations of youth in social movements, yesterday and today/Ainda somos os mesmos?: representacoes midiaticas da juventude em movimentos sociais, ontem e hoje.

Introducao

Eu vejo o futuro repetir o passado/ Eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo nao para. (Letra da musica "O tempo nao para", Cazuza, 1989).

Este artigo tem por objetivo analisar as representacoes midiaticas das juventudes que se manifestaram pelas ruas do Brasil em tres importantes momentos politicos, datados em 1968, 1988-1992 e 2013. Atraves de uma pesquisa documental, foram reunidas, para o corpus do presente trabalho, materias de revista e jornal, Veja e O Globo, respectivamente. Uma revisao de literatura contempla, entre outros, autores que discutem as relacoes entre a condicao juvenil, os movimentos sociais e a sociedade, como Schmuel Eisenstadt (1968), que se debrucou sobre a forma como os jovens se organizam e dialogam com as demandas do mundo adulto, ou Eric Hobsbawn (1995) e Edgar Morin (2006), que desenham a trajetoria da juventude na eclosao das mudancas sociais de meados do seculo XX, e ainda Pierre Bourdieu (1983) e Stuart Hall e Kathryn Woodward(2000), os quais, cada um a seu termo, contribuem para a compreensao das possibilidades de construcao dos seus espacos de pertencimento e identidade.

E, sobretudo, nas sociedades ocidentais que se reservam espacos de centralidade aos jovens, processo que se intensificou, principalmente, em meados dos anos 1950, com a consolidacao da cultura de massa. A internacionalizacao da musica e do cinema norte-americanos, invocando a transgressao e a rebeldia como marcas definitivas da juventude, incrementou um mercado consumidor que rapidamente se expandiu pela America do Sul e Europa, num primeiro momento, e depois para os paises asiaticos (Morin, 2006). Pelas vias do consumo, a juventude estabeleceu seu lugar na sociedade, tanto como consumidor, quanto como influenciados Mais ainda, o consumo fez do jovem seu mais explicito objeto. A juvenilizacao da vida cotidiana expande a ideia de juventude para todas as faixas etarias, e consomem-se, simbolicamente, seus valores, suas praticas e, concretamente, os bens materiais a ele relacionados. Trata-se, antes, de uma maneira de controlar o que foge do controle, o que excede os limites socialmente concedidos para o exercicio de sua liberdade uma especie de licenca para errar, experimentar, arriscar e transgredir, mas em que os riscos--assumidos pelos adultos--sao bem calculados.

Breve nota teorico-metodologica

Alguns estudos do campo da Comunicacao que, com maior ou menor densidade, se voltam para a analise das representacoes sociais, tendem a uma abordagem interpretativa. Nada de errado, ate aqui, considerando que, por principio, o cientista social e, antes de tudo, o sujeito que observa, descreve e interpreta as sociedades. Clifford Geertz (1989), com sua "interpretacao das culturas", nos apresentou a uma nova abordagem antropologica de um outro ponto de vista, qual seja, o do nativo. Isso, porem, sem desprezar o carater subjetivo do observador. Pierre Bourdieu (1999) levantou importantes questoes sobre o oficio do etnografo e discutiu a necessidade de se exercitar sempre a "reflexividade cientifica". A interpretacao e, portanto, caracteristica inerente as ciencias sociais de um modo geral.

O problema que se apresenta aqui e outro. Novamente, a "reflexividade cientifica" de Bourdieu (1999)--exercicio permanente do distanciamento do objeto de estudo e afirmacao do lugar neutro do observador--sublinha os riscos aos quais, como autores, nos submetemos, diante da enorme tentacao que se coloca: a do abandono da teoria e a da posse ilegitima de uma leviana liberdade interpretativa. Em nome da cientificidade, sobretudo, e pertinente que se aponte a que se refere o fenomeno das representacoes sociais; mais ainda, e de enorme contribuicao para as ciencias sociais propor metodologias que aproximem as teorias das representacoes sociais da pratica da pesquisa em si, seja ela de campo ou documental.

Quando aqui se faz referencia ao "fenomeno das representacoes sociais", esta-se invocando, por definicao, a teoria que baliza este estudo, entre outras possiveis a serem acessadas, que procuram construir um conhecimento sobre o tema em questao. Trata-se da teoria segundo Serge Moscovici (2011), para quem, com efeito, as representacoes sociais--imagens, construcoes coletivas, classe geral de ideias e crencas--sao um "fenomeno" e nao um "conceito". O que tal definicao delineia e uma das divergencias deste autor, referencia no campo da Psicologia Social, para com aquele que o inspira, Emile Durkheim, que oferece sua contribuicao seminal a Sociologia quando cria os conceitos de "representacao individual" e "representacao coletiva" (Durkheim, 1970). Sendo fenomeno--produto e efeito da interacao social--pressupoe uma dinamica que carece na ideia de conceito--imposicao estatica e coercitiva. Moscovici (2011) assume que:

Pessoas e grupos criam representacoes no decurso da comunicacao e da cooperacao. Representacoes, obviamente, nao sao criadas por um individuo isoladamente. Uma vez criadas, contudo, elas adquirem vida propria, circulam, se encontram, se atraem e se repelem e dao oportunidade ao nascimento de novas representacoes, enquanto velhas representacoes morrem. Como consequencia disso, para se compreender e explicar uma representacao, e necessario comecar com aquela, ou aquelas, das quais ela nasceu (Moscovici, 2011, p. 41).

Ao propor que a necessidade de se buscar a representacao original, se assim podemos nos referir, aquela que deu origem a todas as outras, o autor baseia-se na afirmacao de que as representacoes sociais procuram "tornar familiar algo nao familiar, ou a propria familiaridade" (Moscovici, 2011, p. 54). Para ele, ha "universos consensuais" que conferem uma especie de seguranca e harmonia no plano das ideias e do conhecimento, que se consolidam com a repeticao de situacoes, gestos e ideias.

Em seu todo, a dinamica das relacoes e uma dinamica de familiarizacao, onde os objetos, pessoas e acontecimentos sao percebidos e compreendidos em relacao a previos encontros e paradigmas. Como resultado disso, a memoria prevalece sobre a deducao, o passado sobre o presente, a resposta sobre o estimulo, e as imagens sobre a "realidade" (Moscovici, 2011, p. 55).

A teoria de Moscovici inspira o presente trabalho no momento em que motiva a busca por esta especie de "elo perdido", no "exato momento" em que surgiu, aquele que une o nao-familiar ao familiar--deste ambiente consensual onde habitam as representacoes sociais, inclusive aquelas que conformam o que entendemos por "juventude"

Assume-se, evidentemente, que nao ha "um" contexto em que se cria a familiaridade. Trata-se de um processo, longo e complexo, e e ingenuo acreditar que a pesquisa documental podera revelar o "momento exato em que ela emerge na esfera social". Particularmente com relacao ao objeto desta pesquisa, a nocao de juventude em seu sentido mais amplo, e problematico acreditar que ja houve contextos sociais, um que fosse, que prescindisse de sua existencia. No entanto, e possivel afirmar que esta datada a criacao da cultura de massa. E e para esta juventude, ou melhor, para a cultura juvenil que nasce com a cultura de massa, que se voltam as observacoes e reflexoes aqui propostas. A contribuicao de Moscovici, enfim, esta, principalmente, na perspectiva de uma representacao social que se constroi coletivamente, a partir de diferentes espacos do mundo cotidiano, inclusive o midiatico, cimentando o social, reafirmando a forca da memoria, buscando a familiaridade e estimulada pelo momento mesmo em que a nao familiaridade insurge-se, ainda que momentaneamente, contra o que esta posto--para, em seguida, ser modificada, aproximada, identificada e, finalmente, vencida por forca da necessidade de um universo consensual.

Assim e que, portanto, este trabalho seleciona diferentes contextos historicos reproduzidos pela midia para serem analisados como parte das representacoes sociais que servem a esta dinamica, em que,

[...] ao ocorrer uma brecha ou uma rachadura no que e geralmente percebido como normal, nossas mentes curem a ferida e consertem por dentro o que se deu por fora. Tal processo nos confirma e nos conforta; restabelece um sentido de continuidade no grupo ou no individuo ameacado com descontinuidade e falta de sentido (Moscovici, 2011, p. 59).

Pela midia, sobretudo, emergem esses processos de "cura" ou, de outro modo, de "rachadura". Pelas lentes que aqui se aplicam, o que ameaca e a forca transgressora dos jovens: antes, deve-se perguntar, desde quando ela e transgressora? Por que cabe aos jovens a licenca para fazerem irromper as rupturas e rachaduras? Qual e, enfim, a relacao de forcas que se estabelece entre a cultura midiatica e a cultura juvenil, a partir da abordagem moscoviciana das representacoes sociais?

Rebeldia e alteridade

A escolha das revoltas estudantis de 1968, no Brasil, como ponto de partida da analise comparativa que aqui se propoe e, a partir de Moscovici, uma escolha metodologica no sentido de buscar, no tempo historico, os fatos que, por sua nao familiaridade, suscitaram as representacoes sociais da nocao de juventude, tais quais as entendemos hoje.

Naquele momento, na Franca e em outros paises do mundo, novos acontecimentos levavam as ruas atores que, antes, nao se faziam notar na esfera politica e social mundial. No Brasil, nao foi diferente. Atraves da interacao entre pessoas e grupos, do cotidiano das trocas, e tambem dos discursos da midia, entre outros agentes, todos, enfim, colaboraram para que aqueles estudantes que espantaram e incomodaram a ordem estabelecida, e que, por um momento, nao eram identificados como parte da juventude que ate entao se fazia conhecer, passassem a habitar o tao necessario "universo consensual" (Moscovici, 2011) das sociedades.

Era preciso, entao, que, rapidamente, se enquadrasse aqueles jovens dentro de um repertorio dado, historicamente repetido. O modo mais imediatista era encontrar, em suas acoes, manifestacoes relacionadas ao momento, digamos, hormonal e psicologico, decorrentes da fase biologica da vida pela qual passavam. Pois que ja se reconhecia, nos adolescentes e jovens, uma forte tendencia a atitudes impensadas e arriscadas, reacoes "naturais" as mudancas que aconteciam em seus corpos. Com o tempo, os estudantes rebeldes de 1968 passaram a figurar entre possiveis tipos de juventude e a fazer parte, portanto, do "ambiente consensual" (Moscovici, 2011) das sociedades modernas ocidentais daquele contexto.

No final dos anos 1980, e depois nos anos 2000, por consequencia, os movimentos sociais protagonizados pelos jovens tambem precisavam ser "familiarizados"; e o modelo reconhecido de juventude rebelde anterior aqueles era o de 1968, o que levou as representacoes sociais que dele os aproximavam ou distanciavam, comparativamente. Pelas materias jornalisticas mais adiante apresentadas, selecionadas destes tres periodos historicos, sera possivel discutir este processo de construcao das representacoes sociais de dois aspectos da nocao de juventude pela midia, a rebeldia e a alteridade.

Eric Hobsbawn (1995), ao tratar da "revolucao social" do periodo entre 1945 a 1990, em seu "breve seculo XX", aponta o esvaziamento do campo no pos-guerra e, consequentemente, o surgimento de um "novo fator na cultura e na politica" das grandes cidades industrializadas, subitamente povoadas pela migracao dos camponeses, dentre eles, "massas de rapazes e mocas e seus professores, contadas aos milhoes ou pelo menos centenas de milhares em todos os Estados, a nao ser nos muito pequenos atrasados, e concentradas em campi ou 'cidades universitarias' grandes e muitas vezes isolados" (Hobsbawn, 1995, p. 292). Bourdieu e Passeron (1968 [1964]), baseados em pesquisa de campo realizada nas universidades, refletem sobre o lugar destes jovens na sociedade francesa daquele contexto. Segundo os autores, a vida no campus e ocotidiano das aulas levam a uma maneira muito particular de lidar com o tempo e com o espaco. Para esses autores, lazer e trabalho se misturam, levando os jovens universitarios a desenharem seus dias a partir de suas vontades e desejos. Consequentemente, ainda segundo Bourdieu e Passeron, os estudantes observados naquele inicio dos anos 1960 nao constituiam um grupo: "Tudo conduz entao a duvidar que os estudantes constituem de fato um grupo social homogeneo, independente e integrado [...]" (Bourdieu; Passeron, 1968 [1964], p. 68).

Havia, no entanto, ainda segundo os autores, uma "vontade de realizar, tanto no mito da unidade como no jogo da diversificacao, a identificacao individual a alguma coisa que, sem ser um modelo, e menos que um ideal e mais que um estereotipo, e que define uma essencia historica do estudante" (Bourdieu; Passeron, 1968 [1964], p. 70-71). Nas entrevistas realizadas pelos dois pesquisadores, os entrevistados de vinte e poucos anos afirmavam que nao se percebiam como um estudante nos moldes do que se espera, no senso comum. Havia, com efeito, uma representacao social do estudante que seguia uma corrente intelectual, ou que frequentava solitariamente cafes, ou do "estudante sorboniano", com "semblante carregado", que le Le Monde e que critica sua propria universidade.

No entanto, os universitarios entrevistados por Bourdieu e Passeron nao se identificavam com este modelo tipico ideal, mas todos buscavam "transfigurar", usando a expressao dos proprios autores, "a necessidade em liberdade". De se libertar de qualquer tipo de autoridade e, antes, da autoridade familiar. Romper com os valores da burguesia, de onde vinha, segundo os autores, a maioria dos universitarios franceses pesquisados. Ao mesmo tempo, sentiam outra necessidade, a de diferenciacao. A diferenciacao pela diferenciacao. Por consequencia, formavam-se varios grupos que se constituiam a partir de afinidades filosoficas, esteticas ou politicas, e que se opunham entre si; estudantes de esquerda que recusavam filiacoes partidarias e que manifestavam suas conviccoes por novos rotulos, como "trotskismo renovado", "anarquismo construtivo", "neocomunismo revolucionario" (Bourdieu; Passeron, 1968 [1964], p. 78-79), entre outros. Expressava-se, ali, a necessidade de se diferenciar, mas, sobretudo, a necessidade de romper com todo e qualquer tipo de limite.

No momento em que Bourdieu e Passeron realizaram suas pesquisas na Franca, conclui-se, parecia impossivel o que se sucederia quatro anos depois, nas ruas de Paris, dada a fragmentacao deste ambiente universitario, em sua diversidade e diferenciacao. O que, entao, levaria a integracao que lhes faltava, para que se reconhecessem, enfim, como um grupo?

Eram, segundo Hobsbawn, milhoes de jovens que, de repente, foram "despejados nas universidades e instituicoes que nao estavam fisica, organizacional e intelectualmente preparadas para tal influxo"(Hobsbawn, 1995, p. 295), surgindo, consequentemente, uma "inevitavel tensao entre essa massa de estudantes", muitos deles sem dinheiro, que se viam diante das limitacoes impostas pelas universidades, deixando-os ressentidos: "O ressentimento contra um tipo de autoridade, a universidade, ampliava-se facilmente para o ressentimento contra qualquer tipo de autoridade e, portanto (no Ocidente), inclinava os estudantes para a esquerda" (Hobsbawn, 1995, p. 295).

Tratava-se de um grupo que nao havia passado pela guerra e que, portanto, nao tinha a experiencia de seus pais e avos, dos "tempos de aperto e desemprego". A falta de experiencia, ou ao menos daquela experiencia que marcou toda uma geracao, criou um hiato entre pais e filhos. Uma distancia que, segundo Hobsbawn, foi um dos tracos mais marcantes da "revolucao cultural" que modificaria o sentido de instituicoes como a familia, a estrutura mesma das relacoes entre os sexos e as geracoes. Os jovens da segunda metade dos anos 1960 estavam do lado oposto dos adultos, uma alteridade que passou a existir tambem por motivacoes sociais, e nao mais "hormonais". Para o historiador, esta luta nao era apenas pela "liberacao social", mas principalmente pela "liberacao pessoal" (Hobsbawn, 1995, p. 326). Desejo e politica se misturavam e se expressavam em slogans como "Quando penso em revolucao quero fazer amor", "O pessoal e politico", "E proibido proibir", "Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade dos meus desejos" (Hobsbawn, 1995, p. 325-326).

Considerando a contribuicao de Hobsbawn ate aqui, pode-se assumir que a juventude de 1968 traz novas (nao familiares, remetendo mais uma vez a Moscovici) nuances para antigas representacoes sociais ja sedimentadas. A ideia de que os jovens carregam a rebeldia e a tendencia a contestacao dos valores adultos nao era nova naquele momento. Ao contrario, como demonstra Hobsbawn,"os gruposjovens, ainda nao assentados na idade adulta estabelecida, sao o locus tradicional da alegria, motim e desordem, como sabiam ate mesmo os reitores de universidades medievais, e as paixoes revolucionarias sao mais comuns aos dezoito anos que aos 35" (Hobsbawn, 1995, p. 294).

Os estudantes de 1968 modificaram esta nocao, contudo, no momento em que passaram a ser vistos como uma massa e, pela primeira vez, como um grupo que tem um espaco fisico e simbolico importante, naquele momento: a universidade--ainda que, como afirmamos antes, a partir de Bourdieu e Passeron, tal espaco nao fosse, automaticamente, indicativo de integridade. Mais ainda, suas revoltas foram organizadas, ganharam concretude e, por sua efetividade, contagiaram outros setores da sociedade. Era um novo agente social que ameacava a ordem, pela primeira vez, com forca--fisica e moral. Jovens que nao somente contestavam os valores vigentes, mas propunham novos. Havia ali um projeto global que, por circunstancias, viu-se alinhado as ideologias de esquerda, ainda que, muito rapidamente, viesse a romper com as instituicoes partidarias "adultas". Era um movimento de jovens que, pela primeira vez, nao estavam movidos apenas pela paixao: havia uma organizacao.

Shmuel Eisenstadt (1968 [1956]) debruca-se sobre as organizacoes juvenis nas sociedades modernas e apresenta dois principais: "grupos informais" e "movimentos juvenis voluntarios". Por "grupos informais", Eisenstadt entende grupos pre-adolescentes e adolescentes que se formam gracas a uma dada proximidade, que pode ser geografica (moradores do mesmo bairro) ou formal (filiados a alguma organizacao, como escola, partido politico, religiao ou time esportivo, entre outros). O que caracteriza a informalidade, porem, e a rejeicao a uma lideranca central, de cima para baixo, e determinados "valores", que variam de acordo com o contexto sociocultural: entre os adolescentes de classes medias, sao eles, os esportes, "a participacao social, a lealdade do grupo e a realizacao e responsabilidade individual" (Eisenstadt, 1968 [1956], p. 15). Ha, segundo ele, uma forte relacao entre os valores destes jovens e os de seus estratos sociais, porem, evidencia-se uma ambivalencia e antagonismo em relacao ao mundo adulto, o que os torna "irresponsaveis", hedonistas etc. De modo diferente, os grupos juvenis de camadas sociais mais pobres acabam reproduzindo os valores adultos, embora sejam mais autonomos de "organizacoes patrocinadas por adultos (escotismo, clubes etc.)" do que os anteriores. Eisenstadt menciona, ainda, as gangs, grupos de delinquentes juvenis, que violam a ordem, os costumes e as normas da sociedade, aproximando-se, pela transgressao, dos grupos de classe media.

Por "movimentos juvenis voluntarios", o autor define aqueles em que a adesao e voluntaria, em que ha filiacao a organizacoes "adultas" (ideologicas, politicas, profissionais etc.), e uma formacao estruturada, hierarquizada e ritualizada. A ambivalencia que os distancia do mundo adulto se da de uma maneira diferente daquela dos "grupos informais", ja que buscam alcancar e disseminar valores os quais nao sao mais encontrados no mundo adulto "contaminado". Ainda que tais movimentos sejam, como foi dito, filiados a organizacoes adultas, sendo leais as suas causas, eles nao aceitam sua lideranca, assumindo este lugar aqueles jovens um pouco mais velhos.

No Dicionario Houaiss, rebelde e aquele que "nao se submete, nao acata ordem ou disciplina; insubordinado"; outros sinonimos para a palavra rebeldia podem ser "oposicao" ou "teimosia" A ordem e a disciplina, de um determinado ponto de vista (hegemonico adulto), sao resultado da tentativa, do erro e do acerto. A insubordinacao ao que esta estabelecido e a teimosia, portanto, sao a negacao da experiencia; ao mesmo tempo, e por causa da inexperiencia que os jovens se aventuram por caminhos arriscados, buscam novas possibilidades, propoem revolucoes. E contribuem, desta forma, para as mudancas, sempre necessarias. A submissao e a oposicao estao dadas, evidentemente, e referemse as geracoes anteriores, aqueles que constroem, para esses jovens, um mundo que poderia, afinal de contas, ser bem melhor. E so pode ser desta forma porque ha uma oposicao, um Outro--aquele que acumula experiencia e poder, impondo disciplina e, ao mesmo tempo, fazendo uso da insubordinacao alheia para avancar.

Rebeldia e alteridade, como se ve, sao ideias que se complementam, no contexto da presente discussao. E encontram-se, esses dois eixos, na nocao de juventude.

Demarcando fronteiras: rebeldia

"A rebeldia e um traco saudavel da juventude; quando um pai e um filho nunca brigam, e porque um dos dois nao esta levando uma vida normal", afirmou Roger, vocalista da banda Ultraje a Rigor (O Globo, 22/09/1985, p. 7), um dos icones da cultura juvenil brasileira nos anos 1980. A rebeldia, para alem de ser uma marca da juventude, e um demarcador de fronteiras, e uma especie de chave para compreender o outro tema que, relacionado aos jovens, sustenta as reflexoes deste artigo: a alteridade, a qual e determinante para estabelecer as diferencas e oposicoes e, por consequencia, a identidade e o sentimento de grupo.

Como discutido anteriormente, a geracao de 1968 e, na midia, a referencia mais recorrente para descrever outras que a sucederam, como forma de tornar o nao conhecido em conhecido, como afirma Moscovici (2011), por forca de um "ambiente consensual", de harmonia de significados e de representacoes sociais "familiares". Ela e, portanto, aquela que confere familiaridade a este jovem que sai as ruas entre 1988 e 1992, e em 2013. Estabelece-se, assim, uma comparacao direta. E, para serem reconhecidos como grupo, recorre-se a simbolos culturais, como o vestuario ou a musica:

Eles ja nao usam mais calcas boca-de-sino nem blusas cacharrel e nao tem como musica-tema "Pra nao dizer que nao falei de flores", de Geraldo Vandre. Eles tambem nao falam da esquerda como bandeira e a grande maioria chega a fazer questao de esclarecer que nao esta ligada a qualquer partido politico. [...]Eles tem entre 12 e 17 anos, sao irreverentes e descontraidos, usam lencinhos amarrados na cabeca e bermudas--propositalmente--rasgadas. Vencidos alguns quilometros, nao se sentem culpados por parar num bar e matar a sede com uma cervejinha gelada (O Globo, 25/08/1989, p. 12).

A rebeldia, porem, tem nuances e niveis. Ha uma clara referencia a uma dada autenticidade dos rebeldes de 1968, que, afinal, empreenderam uma "incrivel batalha", com bandeira em punho e musica de protesto; aos anjos rebeldes de 1989, "irreverentes e descontraidos", que parecem se preocupar mais com a roupa que usam do que com a motivacao que os leva a protestar; e os que, simplesmente, nao tem uma causa:

[...] nos ultimos dias, contudo, boa parte dos manifestantes nao e usuaria de onibus. Por que direitos eles vociferam, entao? A historia recente mostra que, mesmo quando nem eles sabem exatamente por que se rebelam, os jovens, quando vao as ruas protestar, precisam ser ouvidos [...] (Veja, 19/06/2013, p. 92).

Enquanto aqueles do final dos anos 1980 participam da manifestacao de bermudas "propositalmente"rasgadas, e tambem param para se divertir e"matar a sede com uma cervejinha gelada", esses de 2013 protestam contra o aumento da passagem de onibus que, na verdade, eles nem usam: "A tentacao maior e rotula-los de rebeldes sem causa, bem ao estilo do personagem da musica dos anos 80 do grupo Ultraje a Rigor, aquele garoto que os pais 'tratam muito bem' e que recebe deles 'apoio moral' e 'dinheiro pra gastar com a mulherada"' (Veja, 19/06/2013, p. 88). Ha, neste discurso, um esforco de deslegitimacao dos referidos movimentos sociais, e isso acontece gracas a comparacao com o que seria legitimo por direito, ou seja, as primeiras revoltas estudantis, 45 anos antes.

Os jovens de 1968 estao na capa da quinta edicao da revista Veja, de 9 de outubro de 1968 (Figura 1). Nela, aparecem correndo em meio ao fogo ateado na rua. Eles sao tratados como "estudantes" e seus protestos sao pautados por "batalhas". Por outro lado, os do final dos anos 1980, ao contrario, sao considerados pacificos e nem chegam a ser reprimidos, pois parecem nao oferecer qualquer ameaca a policia, a nao ser pelo transito que provocam: "Uma das provas do pacifismo dos manifestantes e a atitude da Policia, que se limita a organizar o transito e garantir a integridade fisica dos estudantes, sem reprimilos, porque nao e provocada por atitudes radicais" (O Globo, 10/04/1988, p. 18). Com efeito, eles sao chamados, na capa da revista Veja, de "anjos rebeldes".

[FIGURE 1 OMITTED]

Na revista Veja de 2013, a violencia ressurge na capa da edicao de junho, assemelhando-se muito com aquela de 1968: explosiva, incendiaria, perigosa. A batalha, a rebeldia e a revolta sao propriedade dos jovens, pertencem a este mundo, a um mundo de risco e transgressao; em oposicao ao mundo adulto, da ordem e do controle. A rebeldia e, portanto, a marca desta fronteira que separa o jovem do adulto: "Uma vitima? Para a policia, apenas uma agressora que perdeu sua guerra" (Veja, 11/09/1968, p. 22). Rivalizam-se os dois lados, vitimizam-se e acusam-se mutuamente, mas, acima de tudo, estabelecem-se como opostos estudante x policia; jovem x adulto: "Quem jogou a primeira pedra, os mocos ou a policia? Os dois lados admitem a violencia" (Veja, 11/09/1968, p. 22). Tambem nas manifestacoes mais recentes, a policia e os jovens colocam-se como duas faces da mesma moeda--a violencia de uma incita a necessidade de expressao pela rebeldia, dos outros: "Com a violencia policial, os manifestantes passam a marchar pelo direito de se manifestar" (O Globo, 18/06/2013, p. 13).

Evocando, mais uma vez, Bourdieu e Passeron (1968 [1964]) e Eisenstadt (1968 [1956]), os jovens recusam a autoridade adulta. A propria ideia de rebeldia, portanto, leva a oposicao: se rebeldia e sinonimo de insubordinacao, assumese que ha o sujeito que se impoe e subordina, e um outro que e subordinado. A oposicao entre jovens e adultos passa, portanto, pela ideia de rebeldia, tao enfatizada nas representacoes midiaticas da juventude.

Coracao e cerebro: alteridade

As categorias "jovem" e "adulto", embora sejam apenas duas das outras possiveis relacionadas as fases da vida biologica de um individuo--crianca, preadolescente, adolescente, velho sao outras possiveis--representam, por forca simbolica, nocoes binarias, opostas, referenciais para todos os outros estagios de idade. Como aponta o trecho da materia publicada no jornal, ao sublinharem a oposicao "nos" e "eles", de forma tao explicita:

"Eles" sao cerca de tres mil estudantes secundaristas que, ontem, uniram Zona Norte, Zona Sul e o Centro do Rio numa grande passeata. Enquanto 20 anos atras eles tomavam as ruas para protestar contra o regime militar, agora o inimigo e outro. O que "eles" nao querem e que seus pais continuem a sofrer com os aumentos das mensalidades escolares e pedem que o Governo garanta o ensino gratuito para todos (O Globo, 25/08/1989, p. 12).

Por alteridade, entende-se o reconhecimento de um Outro. Portanto, a ideia de alteridade passa, necessariamente, pela compreensao do que venha a ser "identidade". Para elaborar brevemente este conceito, que mereceria uma analise mais profunda dada a sua complexidade, recorremos Kathryn Woodward (2000) que, pautada nas ideias de Stuart Hall, realiza uma revisao de literatura bastante didatica sobre a relacao entre identidade e diferenca. Para a autora, as identidades ganham sentido na dinamica social da linguagem e dos sistemas simbolicos os quais as constituem. As representacoes sociais que dai decorrem ajudam a classificar o mundo, as coisas, os grupos, os individuos. A identidade, para Woodward (2000, p. 9) e "relacional", ou seja, so existe porque existe a identidade de um Outro. E, portanto, ela se distingue pelo que "nao e": "A identidade e, assim, marcada pela diferenca" (Woodward, 2000, p. 9).

A ideia de alteridade que pretendemos aqui sublinhar sustenta-se, portanto, na discussao de Woodward, quando a autora afirma que a ordem social e mantida por meio de oposicoes binarias, tais como insiders e outsiders. A producao de categorias sociais de acordo com o sistema social vigente garante, assim, um certo controle social. Mais ainda, os dualismos que expressam a diferenca sao caracterizados por um desequilibrio de forcas, ou seja, ha sempre um que e mais valorizado que o outro: "um e a norma e o outro e o 'outro'--visto como 'desviante ou de fora' " (Woodward, 2000, p. 51). "Um" e o adulto e "outro" e o jovem. O adulto e a "norma" e,12 o jovem, o "de fora", "desviante".

A alteridade da juventude universitaria dos anos 1960, portanto, se da gracas a oposicao com os adultos, e com tudo o que representa o seu lado mais controlador e autoritario. E tal alteridade, tao necessaria para a afirmacao da unidade entre os universitarios, precisa ver-se confrontada com aquilo a que se opoe. De um lado, o estudante; do outro, a policia (Figura 2). "Estudantes e policia sao como duas moleculas diferentes colocadas uma diante da outra. Elas se atraem, provocam o encontro de energias contrarias e geram o atrito. Se elas fossem iguais, o resultado seria a estabilidade" (Veja, 11/09/1968, p. 22).

[FIGURE 2 OMITTED]

Nesta alteridade em constante construcao, o confronto se da nao somente em nome do que esta em disputa--as causas, reivindicacoes, ideologias--mas tambem em nome dos papeis que sao ali exercidos. De um lado, quem disciplina e controla--a policia; do outro, quem desobedece, transgride, transborda e excede --o estudante. O que esta em jogo e a capacidade do autocontrole, portanto. A alteridade se estabelece entre um, que e natureza--o jovem, que nao controla suas emocoes--e o Outro, que e cultura--ciente das regras, no pleno dominio de seus atos. A "ira" e a "furia" (Figura 3), portanto, cabem aquele que e natureza; o que nao se controla e que, portanto, precisa ser disciplinado.

[FIGURE 3 OMITTED]

Alfred Jules Ayer, professor e filosofo positivista britanico, em seu artigo ao jornal O Globo (12/12/1968, p. 1), procura explicar "quem sao os jovens irados --e por que". Em seu texto, Ayer (1968) afirma que os fatos noticiados se devem a publicidade feita, nos meios de comunicacao, a moda disseminada pelos jovens, que confere a eles uma "unidade artificial". Uma moda que, segundo Ayer, nao representa pratica da maioria dos jovens que conhece, "que seguem tranquilos com seu trabalho, trilhando um caminho que nao sera, em essencia, diferente do percorrido pelos pais". Trata-se da consciencia de uma "cultura jovem", coisa que, para o filosofo, e uma novidade naquela geracao. Ha, portanto, os jovens que sao "vitimas da moda", que acabam por obedecer aqueles que estao a frente desta cultura. Os "velhos", ainda segundo Ayer (1968), sao os "bodes expiatorios", sao aqueles a quem o jovem deve se opor. Porem, se oporao apenas aqueles que nao seguem uma vida de trabalho e disciplina. Neste momento do texto, o articulista faz uma oposicao entre "ciencia" e "arte":

E digno de nota que, nos disturbios ocorridos nas varias universidades, dificilmente se encontraram cientistas entre os manifestantes. De modo geral, o jovem cientista executa um trabalho interessante que acredita de valor; e sabe que se tiver algum merito, a sociedade pagara bom preco pelos seus servicos. Por outro lado, o estudante de artes, cuja unica esperanca e conseguir um emprego de professor para o qual talvez nao tenha vocacao--ou passar seus dias na rotina de um escritorio, bem pode achar que o sistema e falho (O Globo, 12/12/1968, p. 1).

De um lado, a razao (cientistas) e, do outro, o pensamento criativo (artistas). Aqueles se aproximam mais de um modelo de juventude comportada e, portanto, que nao se deixa levar pelas modas, pela emocao; o Outro, portanto, e o jovem manifestante, que nao tem vocacao, nem futuro, apenas "ira". Ele e uma vitima e reclama do sistema porque nao ve nenhuma possibilidade de exito na vida profissional.

O mesmo desconforto expresso por Ayer com relacao aos "artistas" parece, 17 anos depois, inverter-se. Ha uma cobranca implicita no discurso da midia quanto a mobilizacao e rebeldia do jovem dos anos 1980.

O fato e que o tom pacifico da juventude dos anos 80 inquieta os nao-jovens. Pesquisas dariam conta de que os jovens de hoje nao sao rebeldes e tendem ao conservadorismo. Mas que conservadorismo se, para eles, o passado jamais servira de parametro? Prudente seria aos que se consideram adultos, abandonarem a pretensao de julgar enquadrar os jovens em pesquisas ou em conceitos mais vulneraveis que o proprio processo da adolescencia (O Globo, 22/09/1985, p. 7).

O jornal aponta, em defesa dessa juventude, alguns caminhos para compreende-la. Recorre, entao, a um sociologo, a um estilista, a um filologo e aos proprios jovens e adolescentes. O sociologo explica: "A nova geracao nao e conflitiva, e calma e serena. Sao independentes, mesmo do circulo familiar e sabem utilizar a precaria economia informal em que vivem. Sao limpos, alegres, coloridos, embora a caminho de um possivel desemprego (O Globo, 22/09/1985, p. 7).

Em contraste com o "artista" que se rebela contra o sistema por falta de perspectivas de trabalho, este dos anos 1980, ao contrario, demonstra uma placidez e tranquilidade que assustam os adultos na mesma medida. Sua irreverencia, segundo a materia, se da pelo consumo de moda. Eles nao se sentem impelidos a se rebelar contra nada porque acreditam num "mundo novo", que vira com o computador e com a tecnologia, os quais nao dependem deles para acontecer. Sao "pragmaticos" e parecem saber mais objetivamente o que buscam.

Nesse momento, temos um alvo para isso [transformar a sociedade]: PC Farias e o presidente, duas pessoas que simbolizam corrupcao e cuja punicao serviria de exemplo para o pais--diz ele [Lidberg Farias, entao presidente da UNE], mostrando a praticidade tipica da geracao que esta nas ruas (O Globo, 27/08/1992, Segundo Caderno, p. 4).

Essajuventude que foi as ruas, na virada dos anos 1980/1990, e disciplinada, mais racional e se permite se expressar atraves do consumo. Por esse motivo, nao e identificada com o classico modelo de rebeldia, incomodando e rompendo com o que os adultos esperam dos jovens. Embora inspirados por seus pais nao pelo que eles lhes ensinaram, mas pelo que passa na televisao--aproximamse ameacadoramente de um modelo conservador e "alienado": "'Anos Rebeldes' [a minisserie exibida pela Rede Globo no mesmo ano] incentivou a ida para as ruas, mas nao serviu de guia para as manifestacoes. E os alienados descobriram sua arma" (O Globo, 27/08/1992, Segundo Caderno, p. 4). Compromete-se, sobretudo, a alteridade necessaria para sua propria sobrevivencia como grupo, unidade, identidade cultural.

Em 2013, reverberando a Primavera Arabe que teve inicio em 2010, voltam as ruas os jovens revolucionarios, inflamados e incontrolaveis, levados por "pressoes hormonais" e por motivacoes "passageiras". Da-se, novamente, a oposicao entre um e outro.

Ha uma grande chance de que boa parte da rapaziada que, na semana passada, foi as ruas esteja apenas dando vazao as pressoes hormonais pelo exercicio passageiro do socialismo revolucionario. Afinal, como disse Winston Churchill, "se voce nao e um liberal aos 20, nao tem coracao e se nao se torna um conservador aos 40 nao tem cerebro", afirma a Veja (19/06/2013, p. 88).

Coracao e cerebro, orgaos que se opoem pela logica simbolica que suscitam, mas que precisam um do outro para manterem a vida em movimento.

Jovens estao sempre mais expostos aos hormonios em furia do que adultos. Uma minoria, porem, tal qual aqueles que Ayer observou em 1968: "Mas essa minoria interessa pouco. Ela sempre sera minoria, por definicao--ou alguem acha viavel um pais em que a maioria dos cidadaos quebra tudo a sua volta, dia sim, dia nao?" (Veja, 19/06/2013, p. 88).

Consideracoes Finais

Voltando ao inicio do texto, logo na epigrafe, anunciamos que o "museu de grandes novidades" da midia apresenta-nos tres juventudes, dentre tantas, que foram as ruas. O que nos propusemos aqui foi compreender o percurso destas velhas novidades, em que o futuro repete o passado, como um processo mesmo de construcao das representacoes sociais. A juventude foi a categoria escolhida para ser observada e guiar-nos nesta trajetoria, apontando aquela de 1968 como a que, recorrentemente, e evocada no sentido de familiarizar os fenomenos dos movimentos sociais que tomam de assalto a sociedade "adulta".

Materias jornalisticas de tres periodos diferentes--1968, 1988 -1992 e 2013--sao comparadas a luz da teoria das representacoes sociais, de Serge Moscovici, buscando-se, basicamente, observar o processo de tornar "familiar" o que e "nao-familiar". Considera-se, para tanto, "nao-familiar" as manifestacoes politicas das juventudes dos tres periodos que, ocupando as ruas de importantes cidades do pais, foram tomadas, nos tres casos, como uma especie de rebeldia, furia e transgressao tipicas dos mais jovens. O estranhamento por parte dos "adultos" e, porque nao dizer, seu temor diante da enorme forca de mobilizacao que estas juventudes demonstraram publicamente, buscavam, de alguma forma, doreconhecimentode algo "familiar" e, portanto, pouco ameacador. As reportagens analisadas demonstram que as representacoes sociais, nas decadas de I960, 1980/1990 e 2000, sao, invariavelmente, construidas nas mesmas bases, quais sejam: a tipica rebeldia juvenil, o inevitavel embate geracional e por fim, as explosoes hormonais comuns nesta fase da vida. Alem disso, seas primeiras revoltas estudantis foram narradas, com um nitido esforco de deslegitimacao, como acoes de rebeldia, nos outros dois momentos as manifestacoes de 1968 foram tomadas como exemplo original e genuino, por serem, segundo a midia, mais serias e politicamente embasadas do que as outras duas.

O que, contudo, os jovens conquistaram na sociedade ocidental moderno-contemporanea nestes ultimos 45 anos, alem de um lugar legitimo de oposicao aos adultos? Sera que ainda somos os mesmos, "apesar de termos feito tudo o que fizemos", como diz a musica de Belchior? Se somos "como nossos pais", certamente isso se reflete nas representacoes midiaticas da juventude, que insistem emdeslegitimar os jovens, ao mesmo tempo em que tornam suas ousadias rebeldes belas capas de revista.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2016.3.22285

REFERENCIAS

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--. Introducao a uma sociologia reflexiva. In:_. O Poder Simbolico. Sao Paulo: Ed. Bertrand Brasil, 1999.

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MORIN, Edgar. Cultura de massas no seculo XX: o espirito do tempo, v. 2, Necrose. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2006.

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WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferenca: uma introducao teorica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu (org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferenca: a perspectiva dos estudos culturais. Petropolis: Editora Vozes, 2000.

Recebido em: 29/10/2015

Aceito em: 23/12/2015

Endereco da autora: Claudia da Silva Pereira <caupereira@gmail.com> http://lattes.cnpq.br/6579798139952341 Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao da PUC-Rio. Rua Marques de Sao Vicente, 225--Predio Kennedy--6[degrees] andar 22453-900--Gavea--Rio de Janeiro--RJ--Brasil

Claudia da Silva Pereira

Professora e pesquisadora do Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao da PUC-Rio.

<caupereira@gmail.com>
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Article Details
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Title Annotation:Midia
Author:Pereira, Claudia da Silva
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Article Type:Report
Date:Sep 1, 2016
Words:6392
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