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Antonio Jose Viale: a voz dos textos da Antiguidade Classica no Curso Superior de Letras, em Lisboa.

As celebracoes dedicadas ao sesquicentenario do Curso Superior de Letras de Lisboa, em 2009, tiveram um proposito prosopografico, com a generosa intencao de reavivar a memoria daqueles que lancaram as bases para o estudo universitario das Letras, em estrutura que haveria de ser acolhida em reforma do proprio sistema universitario surgido posteriormente a implantacao da Republica, em 1911. Bem foi que assim fosse, pois importava trazer ao nosso convivio, na sua identidade, aqueles que, secundando a vontade de D. Pedro V, ousaram comprometer-se em povoar o deserto que era o Ensino Superior em Portugal em meados do sec. XIX, particularmente no sector das Letras. Com o seu contributo, generoso e critico (nao acomodado, ainda que bastas vezes por outros incomodados, e acompanhando o que ia surgindo noutros paises para o proporem superiormente e o aplicarem no seu interior), esses homens de Letras, que o eram, asseguraram entre nos novos saberes (mesmo que nao tenham sido pessoalmente inovadores neles), imprimiram-lhes dinamica institucional (transformando-os pela critica que geravam no seu seio), estruturaram disciplinas especializadas (acolhendo a tradicao das literaturas e prestando atencao aos movimentos renovadores que se iam abrindo para o seu estudo), atenderam ao nivel cientifico do ensino superior (medindo-se a si mesmos pelo nivel de outras partes com que iam estabelecendo contactos), motivaram escolhas estruturantes, abriram clareiras numa sociedade marcada pela escassez de leituras, fizeram ouvir a sua voz perante os poderes constituidos, despertaram para relacoes com entidades similares no estrangeiro, resistiram a criticas e aguentaram as tensoes que se desenvolveram no seio da instituicao, disfarcaram insuficiencias e fingiram desconhecer vaidades (que se empertigavam nas suas fileiras, parecendo obrigar a que o tempo parasse na sua frente), tiveram coragem de tracar rumos quanto a preparacao de diplomados e seu aproveitamento na sociedade portuguesa, porfiaram em suprir deficiencias sem contar com grandes meios, enfim, honraram as funcoes que o rei fundador lhes confiara.

Nesta enumeracao, nao vai a cronica dos momentos vividos em tensao numa continuidade a todos os titulos louvavel; vai o reconhecimento, intelectual e afectivo, do seu esforco por fazer com que a instituicao nao se quedasse pelo imobilismo de quem tinha ganho um lugar, mas se inquietasse pela transformacao do ensino superior medindo as escolhas e arriscando na novidade.

Como Mestres deverao eles ser evocados esses pioneiros do ensino superior das Letras entre nos: assim os consideramos pelas atitudes que tomaram e pelos saberes que procuraram construir. Em sua homenagem e em nosso favor, valera a pena invocar o apreco que a cultura, na sua longa duracao, tem tido por quantos vieram antes e nos permitem ver mais longe do que sozinhos poderiamos adregar; longe no tempo, mas perto na atitude, nos fica a figura emblematica de Bernardo de Chartres, que, segundo testemunho de Joao de Salisburia (no Metalogion) (1), nos alvores da experiencia universitaria europeia, lancou aos ventos da memoria a condicao de todos quantos postulam a entrada no mundo dos saberes: nao passamos de mini gigantum humeris insidentes, mas, por diminutos que nos consideremos, assiste-nos o direito (e o dever) de subir aos ombros de gigantes que nos precederam para podermos ver mais e melhor. Reconhecer o mundo de mais alto, apoiados em outros que subiram as escarpas da vida e da sabedoria em regime universitario, e assumir as responsabilidades que eles tomaram sobre si e olhar em frente de modo a transmitir as suas atitudes tanto como as suas licoes. Remontando no tempo, percebemos os ecos de Quintiliano a lembrar que vale a pena nao perder a memoria de quantos nos precederam, esperancados em que muitos dos que virao depois consigam ver ainda mais longe, porque quanto iuniores tanto perspicaciores--desimpedido o terreno, os mais novos aproveitarao e os saberes ganharao horizontes se nao lhes faltar o testemunho da dinamica de antes e se forem solicitados a manter um olhar limpido e percuciente - tanto mais limpido quanto nao forem induzidos a cultivar fantasmas e tanto mais percuciente quanto na ingenuidade de quem busca nao faltar o juizo critico para integrar o que foi legado por outros (2). O contributo de todos nao e demais para a obra de cultura que e necessariamente situada em cada tempo e em univers(al)idade deve ter a dinamica da pluralidade no uno e no diverso; por isso postularemos nao so organicidade de conhecimento continuo, mas tambem a continuidade da interferencia escolar entre mestres e discipulos, construindo memoria e validando responsabilidades (que, se sao cientificas, sao tambem civicas).

Bom e evocar os pioneiros, pois a eles se devem experiencias e dedicacoes com as quais havemos de nos confrontar na ousadia da outridade que, sendo alternativa, sustenta a diferenca na integracao de novos tempos e de novos modos.

No topo dos pioneiros do Curso Superior de Letras, desde a primeira hora, esta Antonio Jose Viale. Fora preceptor e formador do rei que urgiu a fundacao do Curso Superior de Letras; benquisto por ele, foi, a sua maneira, homem de saber e de bonomia, merecedor de confianca para lhe ser entregue a direccao do Curso, depois de o proprio rei ter criado a cadeira que financiava com verbas tomadas da sua mesa (3)--a cadeira de Literaturas Antigas, ou seja de Literaturas Grega e Latina.

A. J. Viale era de ascendencia genovesa, mas nascera em Lisboa; admitido como oficial do Ministerio dos Negocios Estrangeiros, foi demitido, em 1833, por ser de conviccoes absolutistas; emigrou para Franca, onde ensinou no Colegio de Fontenoy-aux-Roses, fundado e dirigido por Frei Jose da Sacra Familia (4), tambem ele emigrado, por ser miguelista (serviu, alias, de secretario a D. Miguel). Regressado a Portugal em 1843, Antonio Jose Viale, exerceu funcoes de Conservador na Biblioteca Regia Nacional, mas a seu tempo e convidado pela rainha Dona Maria II para ensinar grego aos principes: D. Pedro seguiu com atencao as suas licoes (5) e honrou-o com a sua estima; D. Luis (menos atento, mas nao menos respeitoso), em traco breve, permitiu-se delinear-lhe o retrato.

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Por merito proprio entrou A. J. Viale na Academia das Ciencias de Lisboa. Escolheu-o D. Pedro V para lhe entregar o ensino das Letras Classicas no Curso Superior de Letras. O que isso pudesse representar para o monarca tera de ser entendido a partir da importancia que ele conferia ao estudo da Antiguidade Classica (6).

Aquando da sua aposentacao do Curso Superior de Letras, em Outubro de 1879, foi-lhe prestada informacao formal de que "exerceu durante vinte anos ja terminados o seu cargo de professor nesta escola com zelo verdadeiramente inexcedivel, procurando todos os legitimos meios de restaurar o estudo tao profundamente decaido no nosso pais das letras grega e latina; ao curso de duas licoes por semana a que o obrigava o regulamento do Curso Superior de Letras juntou aquele professor, durante sete anos, um curso facultativo e gratuito das linguas grega e latina frequentado por numerosos alunos". Nesta informacao se compendia uma vida de dedicacao de Antonio Jose Viale ao Curso Superior de Letras; nessa dedicacao ha que contar uma generosidade inexcedivel para se ocupar longamente da Direccao do Curso com o desprendimento que outros nao conheciam e com a bonomia necessaria para aguentar tensoes entre mestres de formacao diversa e de interesses inconfessados, mas facilmente identificaveis, e supera-las, cultivar o sentido do bom convivio, acolher e dar seguimento a propostas do Conselho Escolar, muito embora condicionado pela falta de meios.

Prestou ele juramento de Professor do Curso em 22 de Outubro de 1859. O seu "Discurso proemial" ou licao inaugural do Curso Superior de Letras foi por ele publicada na Miscelanea helenico-literaria, que editou a seu tempo (7); na modestia invocada, que e simplicidade e autenticidade frente as situacoes que se lhe deparavam, rasga caminhos e deixa propositos.

Ganhara Antonio Jose Viale o apreco e o afecto de D. Pedro V, pois o iniciara no Grego. De sua propria mao, anotara o principe a seu respeito no seu caderno escolar (caderno simples, como o de qualquer crianca): "Comecei a Grammatica Grega em 2 d'Outubro MDCCCXLIX, debaixo da direccao do professor de grego Antonio Jose Viale"; um trimestre mais tarde, assentava nesse mesmo caderno: "Comecei a traduzir em 10 de Janeiro de 1850 debaixo da direccao do Professor de grego Antonio Jose Viale".

Para tal estudo, o preceptor aconselhava ao principe os manuais que ele proprio conhecia da sua actividade docente em Franca, durante o exilio a que se vira forcado (8). Cfonstant] Villemeureux, autor do livro de exercicios de grego, dirigindo-se, na introducao, a Sua Alteza Real Louis-Charles-Philippe-Raphael d'Orleans, Due de Nemours, sublinhava quanto era sua intencao seguir a tradicao humanista, dignificada pelo rei Henrique IV, e ajudar o novo principe "[a] vaincre les difficultes que vous offre l'etude d'une langue qui a ete celle des plus grands hommes de l'antiquite, que vous vous ferez gloire de prendre un jour pour modeles." Buscavam-se modelos de caracter na memoria dos homens do passado, na humildade de quem se reve nos que foram grandes ...

Conhecia o principe D. Pedro o frances, pois era para ele lingua instrumental dos seus exercicios e por isso nao lhe tera passado despercebido o elogio da lingua grega combinado com o sentido da tradicao que a tinha recuperado e que vinha expresso no prefacio do seu livro de versoes: "jadis negligee en France, y est cultivee maintenant avec autant de succes que les autres branches de la litterature, et e'est a ses dignes chefs que l'Universite est redevable d'une amelioration aussi importante". Quaisquer que tivessem sido as vicissitudes a que a lingua grega estivera sujeita no passado, o regresso ao seu estudo justificava-se porque "necessaire a quiconque veut puiser a leur veritable source les preceptes de l'eloquence et de la poesie."

A licao sobre a Antiguidade Classica foi bem aprendida por D. Pedro e acompanhou-o pela vida fora. Numa composicao feita para o exame de 23 de Dezembro de 1853 (tinha dezasseis anos, mas acabava de perder a mae e vivia em plena consciencia de que, em futuro proximo, as responsabilidades de rei iriam pesar inteiramente sobre os seus ombros) escrevia o principe: "Pais mais historico, pais a que nos liguem mais recordacoes grandiosas, nenhum ha mais do que a Grecia" (9).

Ao tomar a decisao de instaurar o Curso Superior de Letras e de nele assegurar o ensino das Literaturas Antigas, o monarca relanca o que aprendera nos livros e certamente tambem o que conhecia do seu preceptor. Era corajoso e determinado D. Pedro V: corajoso, para enfrentar a apatia e inercia dos bem-pensantes que apenas enunciavam objeccoes; determinado, para saber que uma decisao precisa de ser fundamentada, mas nao pode enredar-se nas demoras dos que tudo pretendem ver preparado e nada fazem porque se desculpam com a falta de condicoes ideais--que nunca chegam:

"Dirao alguns que o curso de Literatura antiga se nao concebe sem uma regeneracao radical do ensino das linguas mortas, pois que sem elas se nao percebe o sabor particular dos diversos escritos em cujo comercio tem de ir-se apurando o gosto da juventude. Da cadeira de Literatura moderna, a que se nega a regalia de poder dai- preceitos, estou vendo enojar-se a austera e pedantesca dignidade das nossas velhas aulas de retorica. E a cadeira de Historia a alguns parecera lancada no ar, mal definida na sua natureza, insuficiente para a vastidao da materia e pequena para o berco de um estudo quasi novo entre nos. Talvez mesmo haja quem as considere todas tres superfluas, como se, nas escolas secundarias, tantas e tantas disciplinas nao servissem mais para entreter utilmente o tempo, mais para desbastar o espirito que para deixar nele nocoes exactas e distintas das coisas. Nao contrariarei nenhuma destas consideracoes, que a mim mesmo fiz, menos a ultima, que e absurda. Quis ter fundamento com que pudesse dizer a quem eu os apresentasse--faca melhor. Eu poderia ter olhado mais compassivamente para o grego e para o latim, e poderia ter pensado em preparar nas escolas secundarias uma base mais segura, em que assentasse o ensino das novas doutrinas, que vao invadir e repartir os dominios do classicismo, mas pensei que me era impossivel obrar assim, sem desacomodar um pessoal que, desde esse momento, deixaria de ser tido na conta de tao competente quanto ate ali o fora. Pensei que, obrando assim, tarde veria a Faculdade de Letras, e que, criando-a eu, alcancava as duas coisas--a Faculdade desde ja, e mais tarde a reforma dos liceus."

O rei antecipava objeccoes e respondia-lhes com lucidez:

"Virao talvez as pretensoes universitarias, e aqui confesso que talvez com algum fundamento, censurar a escolha de Lisboa para sede das cadeiras de Literatura e de Historia. As Escolas colocam-se aonde melhor recrutem o seu magisterio e melhor possam servir o desenvolvimento intelectual dos povos. Nelas nao vejo somente as relacoes estreitas que as prendem com uma lei de habilitacoes para as funcoes publicas, os cursos que para uns hao-de vir a ser obrigatorios, quero-os livres para outros--que nenhuns outros estudos estao nem tao facil nem tao utilmente ao alcance dos entendimentos menos cultivados."

As reflexoes do rei tinham origem certamente no ensino que lhe fora ministrado pelos preceptores: quanto a Antonio Jose Viale, ele recebia o principe em sua propria casa, na Travessa do Convento de Jesus, no 24. Entre os dois deve ter havido inteira sintonia, pois, atras de um sentimos a voz do outro. Havia em A. J. Viale ciencia a nivel superior? Assim o queremos admitir, muito embora, para formularmos um juizo, pouco mais tenhamos dele que uma Antologia de Textos de Autores Gregos e Latinos, combinados com Autores Modernos, em traducao--seria util examinar esses textos para perceber os processos literarios que estavam subjacentes ao tradutor e quais as influencias que sofrera no exilio de Franca, onde ensinara. A decisao regia baseara-se, sobretudo, no caracter do preceptor. Nao foi sem motivo que ele permaneceu largos anos a frente da Direccao do Curso Superior de Letras, em dedicacao a causa do ensino e em atitude paciente, ultrapassando as limitacoes que se lhe apresentavam ate lhes encontrar solucao.

Ao abrir a sua leccionacao, Antonio Jose Viale pronunciou um discurso formal sobre os meritos do estudo das Literaturas Classicas Grega e Latina (10). Estava-se em 15 de Janeiro de 1861. Em favor do estudo dos textos classicos o orador invocava argumentos varios: exemplaridade desses textos ao longo da historia da cultura ocidental; interesse permanente de estudo por parte dos eruditos, nomeadamente dos contemporaneos; modelos de estilo, padroes nas formas de pensar e de expor; estruturacao mental dos que a esses estudos se dedicam.

Tem o professor consciencia da vastidao da materia e deixa a claro que dara prioridade a explanacao de texto sobre o escrutinio biografico dos autores, pelo que considera que sera de privilegiar o factor estetico sobre o erudito. Todavia, na sua exposicao nao faltam consideracoes em torno de categorias que opoem originalidade e imitacao, espontaneidade e formalizacao literaria. Acentuando os meritos do estudo das linguas, e particularmente das linguas classicas, propoe-se o orador com o seu ensino contribuir para que as letras se possam apresentar em pe de igualdade com as ciencias--proporcionando frutos e nao apenas flores.

Ao ser descerrado o retrato do rei D. Pedro V, no primeiro aniversario da sua morte, Antonio Jose Viale nao pode conter a comocao, ao lembrar quem com ele iniciara os seus conhecimentos das Humanidades; exprimindo-se em latim elegantissimo, recordava o apreco do principe pelas "litterae humaniores" que, a juizo de Cicero, adolescentiam aliint (...) secundas res alunt, adnersis perfugium et solatium praebent (expressoes que recolhe do Pro Archia). Interpretando as intencoes do rei na fundacao do Curso Superior de Letras, acentuava A. J. Viale: hic litterarius Indus [extat] nobilissimus, ubi lectissimae juventutis amoeniori ac sublimiori doctrina animi imbuuntur, sive potius, ubi litterarum amatoribus iter monstratur, quo emenso, ad Musantm sacraria, tanquam earum sacerdotes, ac forsitan etiam antistites, aliquando admitti mereant (11). E rotunda a forma, mas a mensagem fica ao alcance de todos: a missao do Curso era tanto franquear conhecimentos como sobretudo abrir caminho para o terreno das Musas, que o mesmo e dizer, do acesso as Letras (12).

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A licao de A. J. Viale permaneceu e vingou numa solidariedade institucional que permitiu manter o ensino da Cadeira que no inicio do Curso Superior de Letras lhe havia sido confiada. Efectivamente, apesar das oscilacoes e divergencias de orientacao, eram unanimes e solidarios os professores do Curso em defender a cadeira de Literaturas Grega e Latina. Tendo constado que a Camara de Deputados se preparava para criar um cadeira de Filologia Portuguesa e suprimir a de Literatura Grega e Latina, o Conselho Escolar em sessao de 11 de Fevereiro de 1898 aprova um protesto (assinado por todos os professores e enviado depois ao rei), lembrando que se tratava de um atentado cientifico a missao do Curso Superior de Letras e de uma ofensa a memoria do seu fundador, pois ela "e uma das tres cuja criacao, por um acto individual de El-Rei o Senhor D. Pedro V, em 30 de Outubro de 1858, vieram a constituir o Curso Superior de Letras no seu nucleo primitivo, cadeiras que eram, muito fundadamente, consideradas como as mais indispensaveis para nos fazer sair dum tristissimo atrazo e comecar a encher uma vergonhoza lacuna em o nosso ensino publico" (13). Acentuava-se, uma vez mais, o caracter do ensino a incrementar: mais que gramatical, ele devia ser literario--em sintonia com a doutrina de A. J. Viale se pode reconhecer o autor do texto do protesto. Reagia-se, por outra parte ao sofisma de que nao seria necessario o estudo especifico da Antiguidade, a pretexto de que a Filologia Portuguesa saberia ir buscar as raizes na antiguidade: a autonomia de cada ciencia (insistia-se) obriga a que nao se confunda o que e distinto.

Em torno da cadeira de Literaturas Grega e Latina, se polarizou varias vezes a defesa do Curso Superior de Letras e sua orientacao humanista. Em defesa deste e daquela se manifestaram, em argumentos convergentes, mesmo que com alguma discrepancia, os professores do Curso.

Aprofundou-se o sentido do proprio ensino superior e a sua estrutura. Com toda a propriedade se pode e deve sublinhar, como ja se salientou, que "foi no Curso que pela primeira vez em Portugal se realizou o ensino superior de historia, literatura, filologia, sanscrito, geografia, pedagogia, e linguas vivas" (14). Renovou-se tambem nele o ensino da filosofia; fica ligado a David Lopes o inicio do ensino das linguas modernas; a Jose Maria Rodrigues, que viria a ensinar nele Literaturas Classicas, pertence ter iniciado em Portugal os Estudos Camonianos; os estudos ulissiponenses comecaram nele com Julio de Castilho; a Geografia, a Arqueologia e varias outras disciplinas tiveram ai o seu inicio ou a consolidacao do ensino. Para o estudo de linguas modernas, a 4 de Junho de 1910, o Conselho Escolar autorizou que se aceitasse o emprestimo do gramofone que Alfredo Apell, um russo georgiano, a quem fora confiado o ensino de Linguas e Literatura Alema e Inglesa, colocava a disposicao do Curso, adquirindo a direccao deste os discos didacticos para os alunos se aperfeicoarem na pronuncia (15). Silva Teles inaugurou em 1910 a Geografia de campo, com excursoes aos monumentos historicos do pais e a locais geograficos, como a deslocacao a serra de Monchique, no Algarve. Nele se iniciaram tambem relacoes com entidades universitarias distantes: efectivamente, em 1906, o Curso Superior de Letras congratulava-se com a fundacao da cadeira de Lingua e literatura portuguesa na Universidade de Barcelona, em 1906, devido aos esforcos de Ribera e Rovira (16).

Centenas de alunos se inscreveram no Curso Superior de Letras e ai fizeram o seu percurso universitario, mesmo que apenas uma reduzida percentagem se apresentasse a exames. Nem todos alcancaram a notoriedade que viria a ter Ramalho Ortigao (1869), Cesario Verde (1873), Manuel Teixeira Gomes (1878), Eugenio de Castro (1885); Fernando Pessoa nele fez a sua inscricao (1906-07), mas nao se demorou mais do que o tempo de um ano (17). A primeira aluna inscrita no Curso Superior de Letras foi Maria Adelaide Cunha do Amaral, que se matriculou como aluna voluntaria a 10 de Outubro de 1895 e cujo percurso e desconhecido.

O primeiro graduado em Letras foi Jose Pedro Moutinho Segurado, que, para o efeito, apresentou uma tese com o titulo de Estudos acerca de Homero, Lisboa, 1863 (18). Era o primeiro de algumas dezenas que, ao longo dos anos, se foram graduando nessa area; se olharmos para o livro de termos de exames de Lingua Grega, a partir de 1898, verificaremos que os candidatos sao apenas de algumas unidades, mas havemos de admitir que se tratava de uma disciplina complementar (19).

Confrontado com a situacao concreta, Antonio Jose Viale, para obviar a falta de preparacao de alunos que iriam frequentar a cadeira de Literatura Antiga, e para suprir a falta de instrumentos disponiveis e estabelecer metodo de trabalho, deu a estampa, em 1868, uma miscelanea de textos (20).

Expressamente declara que traduz do original; nao se esquiva a fazer algumas analises minuciosas ou a entrar na discussao de problemas filologicos, revela os materiais alheios de que se serve--quando estabelece os sumarios dos cantos da Odisseia nao esconde que se serve dos que acompanham a traducao de [Ippolito] Pindemonte (21); a sua intencao e suprir no ensino superior o que o ensino secundario deveria ter proporcionado, fazendo-o generosamente em "aula subsidiaria na Biblioteca Nacional", "forcejando por suprir, quanto esta ao seu alcance, em proveito dos seus estudantes, a deficiencia que se nota em quase todos eles pelo que diz respeito ao conhecimento das linguas grega e latina" (22). As suas traducoes sao exercicio poetico de rara elegancia e fidelidade que baste; quanto aos poemas homericos, vem acompanhadas de anotacoes que discutem os valores dos termos originais a luz da tradicao ou fazem exegese do passo, por recurso a comentadores mais antigos ou mais modernos, alargando o quadro cultural por comparacoes com trechos de diversos autores (23).

Variada e a antologia que apresenta em traducao portuguesa, nao hesitando mesmo em propor, eventualmente, mais que um ensaio de traducao (como na Ode a Venus/Afrodite, de Safo).

Quanto ao opusculo constituido por Manual historico de Literatura Grega, nao tem rebucos em apresenta-lo como inspirado em outros congeneres do estrangeiro (F. Ficker, por exemplo), "nos quais nao se costuma procurar originalidade, mas simplesmente metodo, criterio e gosto", de tal modo que nao hesita em considerar que, com isso, esta a formar para estudos mais alargados.

Por limitado que fosse o horizonte em que se movia, procurava o possivel e tentava nao prescindir do essencial. Julio de Castilho, que foi aluno de A. J. Viale, dava dele grato testemunho: salientando a sua dedicacao, presta homenagem ao seu saber, que compensava a falta de qualidades oratorias que arrebatassem os ouvintes que vinham atraidos pela facundia de outros professores (24); o proprio Adolfo Coelho, que pertencia a uma geracao mais nova, embora criticasse os metodos de Viale (que ele considerava ultrapassados, pois pertencia ja aos partidarios da Filologia em desabono da Gramatica) nao poupa elogios ao seu conhecimento dos textos antigos (associado a leitura de textos modernos), ao seu zelo, a sua dedicacao, a sua assiduidade (25). Ao longo da sua carreira traz a publico varias traducoes de textos gregos: de 1855 e a traducao do canto VI da litada, a que se seguiu o canto I da Odisseia; vem depois dois excertos da tragedia Ifigenia em Alais de Euripides, uma ode de Safo, a do hino as Musas de Proclo e varias poesias liricas, a XI Olimpica de Pindaro, o monologo de Ajax de Sofocles, "antes de se dar a morte"; nao se ficaria por aqui o seu labor, pois, alem da Selecta camoniana (edicao e comentarios ao poema de Camoes) e do Bosquejo metrico da Historia de Portugal, dedicou-se A. J. Viale a traduzir para latim varios episodios de Os Lusiadas (26).

Facto e que, por aposentacao de Antonio Jose Viale, em 1879, a leccionacao de Literatura Antiga, Grega e Latina, passava para a responsabilidade do mesmo Adolfo Coelho, em disputa da cadeira com Teofilo Braga, em que cada um esgrimia argumentos de competencia cientifica a seu favor, sem que houvesse arbitro superior, mas em que o mobil parecia ser nao a ciencia, mas o beneficio de acumulacao. Foi em regime de interinidade que o conflito foi superado; porem, isso nao era solucao definitiva, pois por regulamento dever-se-ia promover o concurso para recrutamento de professor.

A sucessao de Antonio Jose Vale a frente da cadeira de Literaturas Antigas Grega e Latina haveria de caber a Manuel Pinheiro Chagas (que se apresentara a concurso publico e fora examinado por Adolfo Coelho e Teofilo Braga, em 1882), mas, por vicissitudes da vida politica desse mesmo sucessor, o ensino da disciplina arrastar-se-ia pelas maos de outros ate chegar a repartir-se por personalidades da craveira de A. Epifanio Dias da Silva e Jose Maria Rodrigues, para ter depois, ja na abertura da Faculdade de Letras, de 1911, a colaboracao de outro Mestre, na pessoa de Jose Leite de Vasconcelos.

Os cinquenta anos de ensino das Literaturas Antigas no Curso Superior de Letras sao paginas que nao devem ser esquecidas, tanto pelo que ensinaram como pelo que ajudaram a incrementar na consciencia de uma cultura de seculos que se prolonga na memoria e na maturacao de solucoes ou de contributos para varios sectores da vida cientifica e universitaria. Antonio Jose Viale e nome que merece ser recordado como simbolo de integracao numa cultura cujo valor se mede pela sua longa duracao e pela possibilidade que nos da de entendermos o que temos de comum com os outros sem nos esquecermos do que temos de nosso, pois, dessa maneira, podemos deixar entender melhor o que somos e como somos. O nome do primeiro responsavel pelo ensino universitario das Literaturas Antigas em Portugal nao pode ficar remetido para qualquer enciclopedia, onde lhe sejam reservadas algumas linhas de curriculo. Sera bom nao julgar que o ensino dessas Literaturas comeca com a licao inaugural de Jose Leite de Vasconcelos, como alguem poderia supor ao fixar-se nas barreiras historicas de 1911 (27). Antes dele, houve outros que souberam fazer do estudo das Literaturas Antigas meio instrumental para melhor fazer a leitura dos textos da cultura ocidental, melhor entender as linguagens literarias e melhor explicar a propria historia da lingua portuguesa. Por tudo isso lembramos a figura de Antonio Jose Viale. Os metodos de analise alteraram-se ao longo dos tempos; nao e, no entanto, por mera curiosidade ou por anacronismo que nos voltamos para tal personalidade. Tambem ele faz parte da metade de nos mesmos que deixamos no passado e nos obriga a olhar o futuro, medindo-nos com a responsabilidade de lermos os textos antigos para o nosso tempo.

Aires A. Nascimento

Academia das Ciencias de Lisboa, CEC-FLUL

aires.nasc@gmail.com

(1) Joao de Salisburia nao seguiu as licoes de Bernardo de Chartres; possivelmente recebeu o testemunho de Guilherme de Conches, que foi seu professor e tinha sido discipulo de Bernardo; cf. Edouard Jeauneau, "<<Nani gigantum humeris insidentes>>: Essai d'interpretation de Bernard de Chartres", Vivarium 5, 1967, 79-99.

(2) Hubert Silvestre, "<<Quanto iuniores, tanto perspicaciores>>. Antecedents a la querelle des anciens et des modernes", in Recueil commemoratif du Xe Anniversaire de la Faculte de Philosophie et Lettres, Louvain-Paris, Publications de lUniversite de Lovanium de Kinshasa, 1965, pp. 231-255.

(3) Cf. Manuel Busquets de Aguilar, O Curso Superior de Letras (1858-1911), Lisboa, Cadeia Penitenciaria, 1939, pp. 8-9, texto que se serve do Livro de Registo de Decretos, Portarias e Regulamentos do Curso Superior de Letras, fl. 2: Lisboa, Faculdade Letras, Arquivo Historico, Cxl, cap. 4, do Livro do Registo dos Decretos, Portarias, Regulamento do Curso Superior de Letras, No. 1. 1858/ Outubro/30 (Secretaria de Estado), Vedoria da Casa Real. A escassez de verbas era pecha habitual em questoes de ensino; ja em tempos anteriores, o rei D. Joao VI, ao criar a Escola Medico-Cirurgica de Lisboa, em 1836, manda pagai' os ordenados dos professores pelas ofertas dos "Contratadores Gerais do Tabaco, sem outra despesa da Minha Real Fazenda, antes revertera por ora a favor desta a quantia de um conto duzentos e sessenta mil reis que pela Folha do Conselho da Fazenda se pagava as actuais Cadeiras existentes no Flospital Real de S. Jose". Cf. [Rocha Martins], "A fundacao da Escola Medico-Cirurgica de Lisboa". Arquivo Nacional, II. no. 93. 20 de Outubro de 1933, pp. 650-651.

(4) Jose da Silva Tavares, de nome de baptismo, tem um curriculo relevante. Professou no Convento do Grilo, em Lisboa, a 25 de Junho de 1805, na Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, tambem conhecida por Ordem Reformada de Santo Agostinho ou dos Frades Grilos. Adoptou entao como nome de religiao o de Frei Jose da Sacra Familia, pelo qual se tomou posteriormente mais conhecido, mas voltou ao nome de baptismo apos o pedido de exclaustracao (que solicitou a Roma. em 1836), na sequencia das vicissitudes de exilio, embora tenha sempre permanecido fiel as suas conviccoes politicas e aos seus compromissos sacerdotais. Os seus meritos cientificos e pedagogicos foram reconhecidos particularmente em Franca, onde ensinou: primeiro em Menars, no Colegio do principe Joseph de Chimay; depois, no Colegio D. Pedro de Alcantara, por ele mesmo fundado em 1838, em Fontenay-aux-Roses. Em 1851 partiu para Hanau, junto a Frankfurt, para servir de secretario a D. Miguel, mas ja antes, em 1848, se fixara em Inglaterra onde exerceu actividades pastorais em Witham, no Essex; a Inglaterra voltou em 1853, tendo falecido em Brentwood. Essex, a 35 km de Londres. Ensinou sobretudo matematicas, mas. no ambito das linguas classicas, deixou a traducao portuguesa da obra De Viris illustribus. de Comelio Nepos, e uma coleccao de temas para as suas aulas. Cf. JoAo Francisco Marques, Jose da Silva Tavares e a actividade contra-revolucionaria no periodo do liberalismo. Povoa de Varzim (Sep. Boletim Cultural Povoa de Varzim, no. 12. 13 e 14). 1975.

(5) Existem ainda os cadernos do rei na biblioteca da Fundacao da Casa de Braganca, em Vila Vicosa, e ai os consultamos, por deferencia do seu Conservador, o Dr. Joao Ruas. a quem manifestamos publicamente o nosso reconhecimento.

(6) Cf. Aires A. Nascimento. "<<Nostra studia. sapientiae via>>: a voz fundadora do rei D. Pedro V no 150o. aniversario da fundacao do Curso Superior de Letras de Lisboa", Euphrosyne 38. 2010, 401-437.

(7) Antonio Jose Viale, Miscellanea Hellenico-Literaria--oferecida aos estudantes da 2a. cadeira do Curso Superior de Letras. Lisboa. 1868, pp. 353-363.

(8) Tais eram: J. L. Burnouf, Methode pour etudier la Langue Grecque, Paris. Imprimerie et Librairie Classique de Jules Delalain, 1849 (ed. 47.a); C[onstant] Villemeureux, Corns de Versions Grecques, Paris. Librairie Classique de Ve Marie-Nyon, 1843 (6.a ed.). Quanto a personalidade de Antonio Jose Viale. veja-se noticia mais desenvolvida mais abaixo neste mesmo ensaio.

(9) Ruben LeitAo (org.). Cartas de D. Pedro aos seas contemporaneos, Lisboa, Liv. Portugal, 1961, p. 330.

(10) Cf. Miscelanea, op.cit.. Apendice, pp. 353-363.

(11) Cf. Miscelanea, op.cit.. Apendice, p. 367.

(12) Outras duas instituicoes de ensino assinala A. J. Viale como interpretando as intencoes do rei D. Pedro: a Escola de Mafra (1855) e a Escola de Alcantara, de nivel secundario; lembra igualmente o Laboratorio Astronomico (na Tapada da Ajuda), cujo telescopio foi comprado pela soma de 30.000 reis. com verbas atribuidas pelo rei; cf. Carlos Manique da Silva, "Uma instituicao de ensino fundada por D. Pedro V: a Escola Real de Mafra". Revista de Historia da Faculdade de Letras (Porto). 4. 2003, 275-295.

(13) Cf. M. B. Aguilar, op. cit.. pp. 98-99, que transcreve o protesto do Livro da Correspondencia do Curso Superior de Letras, vol. 20.. fl. 9v.

(14) Remetemos para M. Busquets de Aguilar, op. cit.

(15) Tambem nos tivemos oportunidade de. nos inicios dos anos 1980, introduzir na Faculdade de Letras de Lisboa o primeiro computador; ao tempo, uma novidade absoluta nos nossos meios: quem o revelou a publico foi Ivo Castro. "Relacao entre a investigacao e o ensino universitario (no caso da FLUL)". in A Faculdade de Letras em debate--Assembleia Magna dos Docentes, Marco 1999, coord. Maria Helena Mira Mateus et al., Lisboa. Colibri. 199. pp. 91-93.

(16) Livro das Actas do CSL, tomo 2, fl. 75. Sobre Ignasi de Loyola Ribera e Rovira, cf. Eduardo Mayone Dias, "Um lusitanista catalao: Ribera i Rovira", Coloquio /Letras, 27, Set. 1975, 62-67. Ribera i Rovira tinham interlocutores em Consiglieri Pedroso e em Teofilo Braga.

(17) Jose Augusto Seabra, "Introducao" a Fernando Pessoa, Mensagem--Poemas esotericos, Paris, ALLCA XX, 1996, p. xxxi, considera que o poeta "abandonou o Curso Superior de Letras por ocasiao da greve dos estudantes em 1907, contra a ditadura de Joao Franco". As razoes nao sao apontadas, mas, se professores como Silva Cordeiro possam ter despertado nele interesses filosoficos, os seus horizontes eram ja pessoais e ganhavam consistencia alguns propositos que alimentar em momentos anteriores: pretende montar uma tipografia, a ibis, e investe nisso tempo e os parcos recursos que tem de heranca familiar (da avo Dionisia). Se a greve foi determinante nao o sabemos; retenha-se que ela comecou em Coimbra para protestar contra a forma como haviam decorrido as provas de doutoramento, em Direito, do candidato Jose Eugenio Dias Ferreira; a accao estudantil, a que Pessoa aderiu, alargou-se depois as Escolas de Lisboa e Porto, tendo sido reprimida pelo governo de Joao Franco, apesar das recomendacoes do rei D. Carlos para que houvesse moderacao.

(18) Jose Pedro Moutinho Segurado, Estudos acerca de Homero, Lisboa, Typ. Universal, 1863 (BNL: L. 81631 P). Em 1868 houve o segundo diplomado, Antonio Enes, A philosofia religiosa do Egypto; o terceiro foi o sacerdote goes Jose Paulo Dinis, Savitri e Alcestis, Damayanty e Penelope. Estudo comparativo de litter atura, 1869; Jose Relvas foi o quarto diplomado, em 1880.

(19) Para mais pormenores, cf. A. H. Oliveira Marques, loc. cit.

(20) Alem da Miscelanea de A. J. Viale temos tambem: Bosquejo Metrico dos Acontecimentos Mais Importantes da Historia de Portugal ate a Morte de D. Joao VI, Lisboa, Imprensa Nacional, 1858; O episodio de D. Inez de Castro, excerpto do Canto III dos Lusiadas/[Luis de Camoes], paraphraseado em versos latinos por A. J. Viale, Lisboa, Lallemant Freres, 1875; Episodio do Gigante Adamastor: excerpto do canto V dos Lusiadas/[de Luis de Camoes], trasladado em versos latinos por Antonio Jose Viale ... Lisboa, Lallemant Freres, 1876.

(21) Odissea di Omero, trad. Ippolito Pindemonte Veronese, Milao, 1827, que e a obra mais conhecida deste romantico veronense, amigo e correspondente de Vittorio Alfieri e Ugo Foscolo, entre tantos outros; trabalhou durante quinze anos nessa traducao e teve ela grande sucesso, sendo de reconhecer grande fidelidade ao original.

(22) Pensava o autor remediar a ausencia de qualquer ensino de grego no ensino secundario e bem assim obviar a 'escassez de livros subsidiarios de que os alunos possam prover-se para melhor aproveitarem a doutrinacao oral de seus mestres"; assim lemos em op. cit.. p. VIII.

(23) Para os comentarios ao Canto VI da Iliada nao hesita em aduzir textos de Ronsard, Tasso, Virgilio. Metastasio, Heine, Voss. Pope. Rochefort. Bignan, Cesarotti, Monti. D. J. G. Malo, Elpino Duriense; a partir deles suscita problemas relacionados com "systemas de versao poetica adoptados pelos trasladadores dos classicos antigos para linguas vulgares", para o que invoca varias autoridades, como E. Littre e Leconte de 1'Isle e deixa em ponto de mira a sua propria traducao que justifica aqui ou alem; op. cit.. p. 145 ss.

(24) JULIO DE Castilho, "Antonio Jose Viale : Apontamentos fugitivos", in Lisboa Antiga. Bairros Orientais, 2a. ed.. Lisboa. 1938, com anotacoes de Augusto Vieira da Silva. 11. pp. 7-53.

(25) Adolfo Coelho, Le Corns, op.cit., p. 33. A critica de Adolfo Coelho era habitual, como reconheciam os seus contemporaneos. Quem o conhecia das suas aulas, porem, haveria de criticar a sua continua dispersao, apesar de possuir grande inteligencia e extraordinaria cultura, fluencia manifesta no discurso; terror dos alunos, tinha um saber altamente actualizado: cf. Luis Prista, "Como eram as aulas dos primeiros professores universitarios de literatura". Incidencias. 1. 1999, 123-157 (especificamente. pp. 147 ss.).

(26) Pode colher-se no Catalogo da Biblioteca Nacional de Lisboa um elenco mais amplo das suas publicacoes. Veja-se R. M. Rosado Fernandes, "Achegas para a bibliografia de Antonio Jose Viale. Epifanio Dias. Jose Maria Rodrigues e Jose Joaquim Nunes". Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, 8. 1965 (separata. 32 pp.). Para apreciacao estilistica dos resultados das traducoes em forma comparativa. cf. Maria de Lurdes Flor de Oliveira, "Antonio Jose Viale e Latino Coelho", Euphrosvne 4. 1970, 205-262.

(27) Ao ser recebida em cerimonia de Doutoramento "Honoris causa" na Universidade de Lisboa. Maria Helena da Rocha Pereira muito justamente recordou a memoria de Jose Leite de Vasconcelos; as circunstancias nao eram para enunciar percursos historicos, mas o pioneirismo de Antonio Jose Viale, Adolfo Coelho. Epifanio Dias da Silva e Jose Maria Rodrigues, por tudo o que representam em firmar disciplinas e saberes, merecem, ao menos tanto como aquele, que o seu nome figure nos anais dos estudos classicos entre nos.
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Author:Nascimento, Aires A.
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2011
Words:6136
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