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Anthropophagy, intimate feeling and synchronicity: a possible introduction to analysis of humor in Brazilian literature/Antropofagia, sentimento intimo e sincronicidade: uma possivel introducao para a analise do humor na literatura brasileira.

Introducao

Quando se pensa em literatura brasileira, deve-se ter em mente muito mais do que um titulo supostamente inconteste e neutro sob o qual podemos agrupar de forma mais ou menos cronologica os textos escritos por autores considerados nacionais. A literatura brasileira e antes de tudo um conceito, uma expressao carregada de possiveis significados e propositos estabelecidos, facilmente contextualizada e historicamente mapeada. Como qualquer outra organizacao literaria ou cultural, deve ser compreendida como um processo artificial; nao apenas influenciado, mas conduzido por perspectivas criticas, teoricas, literarias, historicas, sociologicas e institucionais.

Entretanto, nao sao apenas os autores que projetam intencoes e significados ao escreverem suas obras. Uma tradicao critica e igualmente responsavel por lancar sentidos e arquitetar organizacoes que costuram silenciosamente toda essa teia de obras e autores, dando-lhe uma aparencia de irrefutavel naturalidade e incontestavel teleologia. Por isso, mapear os propositos implicitos e explicitos, assim como as principais etapas e atores envolvidos no processo de solidificacao ou cristalizacao desse conceito significa ao mesmo tempo desnaturaliza-lo, mas tambem amplia-lo. Pensar novos modos de articular obras e autores que constituem a literatura brasileira implica, consequentemente, investigar os meandros da construcao e legitimacao de uma ideia fundada no seculo XIX que para seguir o rumo pretendido ora rejeitou ora privilegiou missoes, autores, obras, temas, formas, teorias e metodologias.

A fundacao da literatura brasileira e o compromisso nacional

Ao longo do processo de fundacao da literatura brasileira, no sec. XIX, a condicao literaria se equivaleu a um projeto nacional. Partiu-se do principio de que, se por um lado, para que fosse possivel a existencia de uma literatura nacional, seria preciso antes que houvesse uma nacao a qual ela fizesse referencia, dela fosse fruto ou de alguma forma com ela se relacionasse; por outro lado, a existencia de uma literatura nacional passou a ser parte fundante de um projeto que pretende elevar um pais a uma condicao de nacao (Zilberman, 2014), com territorio e organizacao politica definida, uso expressivo da lingua e cultura representativa. A partir do Romantismo, e possivel reconhecer por parte da critica literaria um movimento que nos leva a crer que cabe tambem a literatura, juntamente com a historia e a sociologia, a missao de representar e pensar o pais. Muito porque se o Romantismo iniciou um projeto determinante de modernidade literaria, este, em terras brasileiras, concretizou-se principalmente num gesto nacional. No caso da literatura brasileira, sua fundacao se confunde com a emergencia de um ideal nacional e autonomo, que por sua vez se alicerca em um projeto romantico e moderno. Se, do ponto de vista romantico, tomarmos a relacao consciente entre nacao e literatura como ponto fundamental para a existencia de uma literatura nacional, somente a partir do proprio Romantismo faz sentido falar de uma literatura brasileira, nacional, consciente de si, moderna e autonoma.

Na historia da literatura brasileira ha coincidencia entre sua fundacao e origem. Essa equacao pode parecer obvia, mas em alguns paises europeus, como em Portugal, a sistematizacao fundante da sua literatura nacional se da a partir do seculo XIX. No entanto, esse mesmo processo de fundacao e sistematizacao remonta a periodos anteriores, que, no caso de Portugal, implica reconhecer como parte de sua literatura nacional as obras de Camoes, do seculo XVI, e mesmo as trovadorescas, que encontram seu apice a partir do seculo XII. Ja no Brasil, o ato de fundacao que problematiza e teoriza a literatura nacional brasileira no seculo XIX, e que pode simbolicamente ser resumido no discurso de Goncalves de Magalhaes publicado em 1836 na Revista Niteroi, simultaneamente estabelece o seu ponto de origem. Isto quer dizer que os criterios e propositos instituidos pelo projeto romantico nao reconhecem nas obras anteriores a essa fundacao o mesmo estatuto de nacionalidade proposto pelos romanticos-nacionalistas-e-modernos. Segundo os romanticos, o que se observa antes do seculo XIX sao, no maximo, predecessores, como Basilio da Gama e Santa Rita Durao, ou, como diz Antonio Candido (1975, p. 72, v. 1) "[...] manifestacao isoladas de nativismo". Tudo isso porque o conceito de literatura brasileira, tanto por parte dos autores quanto pela critica, nasce da admissao de um desejo consciente de ser antes de tudo nacional, de ter uma literatura que priorize a representacao da nacao. Caberia ao autor falar sobre seu pais e ao critico justificar a relacao intrinseca entre a obra ou um conjunto literario e o povo que a gerou.

As dimensoes estetica, social, filosofica e psicologica propostas pelos romanticos europeus se harmonizaram na realidade brasileira com um objetivo especifico e determinante: uma ruptura com o passado literario lusitano e a fundacao de uma nova tradicao literaria, simultaneamente nacional, moderna e romantica. Para que se instituisse uma fundacao literaria nacional brasileira, seria preciso que se constituisse um momento de ruptura radical diante de tudo que antecede o ato fundador. De outra forma, permanecendo ligados a um projeto de continuidade que havia antes do seculo XIX, continuariamos dependentes da literatura e cultura portuguesa. Por isso, e preciso ao mesmo tempo ver a constituicao da literatura nacional brasileira como um projeto historico e particular, mas tambem como resultado das possibilidades de ruptura que somente a modernidade romantica poderia oferecer.

Nao se trata somente de uma especie de sentido patriotico dado ao Romantismo, como supoe Antonio Candido na Formacao da literatura brasileira, mas de um real condicionamento das premissas romanticas ao projeto nao apenas literario, mas precisamente da construcao de uma nacao. Nao custa lembrar que nesse momento, em solo brasileiro, literatura e nacao nao se ultrapassam, mas se equivalem e se constituem como realidade e ficcao, criadora uma da outra. Ser romantico era ser nacional, que por sua vez era ser moderno; a independencia nacional nos levaria a independencia literaria e esta reafirmaria nossa autonomia como povo, nacao e produtor de uma cultura autonoma.

A partir do inicio do seculo XIX, no afa de fundar uma literatura nacional, o Brasil se colocou em uma encruzilhada. Antes de tudo, era preciso se desvincular, cortar os lacos e superar aquele que o precedia literariamente: Portugal. Esse era o problema fundamental a ser resolvido: como construir uma literatura a partir de uma intencional lacuna cultural? Falamos intencional porque culturalmente o Romantismo brasileiro nao apenas institui sua nacionalidade como instaura no mesmo momento sua fortuna critica. Em outras palavras, como fundar uma literatura nacional, a partir de uma ruptura, sem precedentes formais ou tematicos, sem tradicao cultural ou, como diz Antonio Candido, sem "producoes do espirito" (1975, p. 18, v. 1) que caracterizem o registro particular de uma nacao e de um povo? Mais, como fazer nascer uma literatura nacional e brasileira sem que ainda tivessemos a consciencia das possibilidades de ser brasileiro, sem investigar ou sentir o que poderia nos proporcionar o sentimento de pertencimento a uma cultura particular?

Se a literatura brasileira nao existia como tradicao ou 'producao espiritual' a partir da qual fosse possivel definir sua identidade por meio de formas, temas e de um olhar original e proprio sobre si mesma, surge como via imediata de originalidade e autonomia a tentativa de construir uma literatura que antes de qualquer coisa parecesse diferente das demais. Na busca pela originalidade, antes de se saber quem era, antes de pertencer e parecer consigo mesma, a literatura brasileira desejava se mostrar diferente das outras e particularmente daquela que a precedia, a portuguesa.

A propria literatura portuguesa tambem vivia naquele momento um dilema na sua definicao. Se Garrett, com o Bosquejo da historia da poesia e da lingua portuguesa, fundou a historia da literatura portuguesa (Zilberman, 1997, p. 63), para isso, retrospectivamente, precisou dissocia-la da literatura espanhola e, prospectivamente, ainda que nao fosse seu projeto consciente, da brasileira. Para que a literatura brasileira se admitisse diferente da portuguesa, seria preciso que esta se definisse e delimitasse seus parametros formais, historicos e tematicos. Nesse exercicio de constante diferenciacao entre as duas literaturas, a instrucao dada pelos portugueses Garrett, Herculano, Pinheiro Chagas e pelo frances Ferdinand Denis era sempre na mesma direcao, a valorizacao da cor local e do autoctone.

As linhas que poderiam construir o Brasil como uma nacao produtora de uma cultura e literatura autonoma estavam intrinsecamente relacionadas aquelas que definiriam a substancia da nacao portuguesa. Seria impossivel que uma se implicasse nessa questao sem que a outra viesse a reboque. "O problema da modernidade da literatura portuguesa", diz Abel Barros Baptista, "[...] e inseparavel do problema da delimitacao nacional da literatura brasileira". O processo de nacionalizacao da literatura brasileira ocorreu porque ela se separou da portuguesa, mas tambem porque a portuguesa dela se separou, "[...] ambos os movimentos foram ativos, e ambos afetaram o destino das duas literaturas" (Baptista, 2003, p. 25-26).

Pensando no autoctone e na natureza exuberante como suposta solucao e delimitador tematico e formal para a nacionalizacao da literatura brasileira, vejamos o que diz Antonio Candido sobre as literaturas latinoamericanas e suas relacoes com a realidade historica:

A literatura do Brasil, como a dos outros paises latino-americanos, e marcada por este compromisso com a vida nacional no seu conjunto, circunstancia que inexiste nas literaturas dos paises de velha cultura. Nela os vinculos nesse sentido sao os que prendem necessariamente as producoes do espirito ao conjunto das producoes culturais; mas nao a consciencia, ou a intencao, de estar fazendo um pouco da nacao ao fazer literatura (Candido, 1975, p. 18, v. 1).

Na falta de um lastro cultural nacional de uma producao de espirito original, ja que a nossa ate o momento era antes de tudo uma heranca portuguesa, a literatura brasileira admite todas as instrucoes dadas pelo Romantismo europeu/portugues, que nos chega principalmente atraves de Denis e Garrett. Esse compromisso com a solucao exotica, com o pictorico superficial, com a imagem do indio e da cor local, resultaria naquilo que Luiz Costa Lima chama de controle do imaginario e de veto ao ficcional. Aos olhos da critica lusitana, restaria, portanto, aos escritores brasileiros, a fim de se modernizar e construir uma literatura nacional, adotar como conteudo tematico e diferenciador as belezas da patria, o autoctone, a cor local e o exotico como traco original definidor, marco da ruptura e instituidor da modernidade.

A persistencia desse modelo romantico-historicista-nacionalista que nasce no Romantismo e parece persistente ate os dias atuais tambem foi percebida por Regina Zilberman, que, apontando Ferdinand Denis como responsavel pelas ideias que coordenaram nosso Romantismo, ressalta que o historiador frances transplantou para a literatura um modelo historiografico no qual sao "[...] as tintas [pitorescas da cor local] que garantem a nacionalidade da literatura. Ao faze-lo, [Denis] estabelece um paradigma para a historia da literatura que se mantem vivo contemporaneamente" (Zilberman, 2014, p. 20). Passado o seculo XIX e admitindo que os autores nacionais, abandonando ou nao o Brasil, alargaram seu leque tematico e formal, ainda assim a tentativa de reconhecer sistematicamente entre as obras brasileiras uma representacao/expressao da nacao e ate hoje uma das mais persistentes marcas da critica nacional.

A partir do Romantismo, de forma geral, entre autores e criticos, fazer literatura brasileira passou a significar, de diferentes modos, retratar a nacao. A literatura brasileira foi sendo lida por importantes criticos como missionaria de uma representacao nacional. Mais do que isso, e longa a lista de estudiosos que tentaram encontrar na literatura brasileira algum traco que a relacionasse a nacao.

Vejamos, por exemplo, quatro autores basilares que retratam bem essa ideia e sua persistencia: Sylvio Romero, Araripe Junior, Afranio Coutinho e Antonio Candido. E muito importante notar que no final das contas a questao fundamental para esses criticos era encontrar um elo supostamente indissociavel entre a nacao, seu povo e a literatura por ele produzida. Para Sylvio Romero, assim como para Araripe Junior, pois ambos partem do naturalismo de Hippolyte Taine, a producao nacional seria melhor explicada se admitido seu condicionamento por tres elementos: o meio, a raca e o momento. No caso de Romero, o elemento privilegiado era a raca. Para Araripe Junior, o meio seria o fator determinante. Afranio Coutinho, apesar de aparentemente livre das amarras romanticas ou positivistas, mesmo que discretamente, lanca mao da mesma tese de Araripe Junior, a de que o meio seria determinante; a 'obnubilacao' causada pelo nosso clima nos portugueses que aqui aportaram criaria nos tropicos um novo homem e uma nova historia, o que inevitavelmente levaria a uma nova literatura. Por isso, para Coutinho, a literatura brasileira nasceria ja no Barroco, coincidindo com a descoberta do Brasil, quando o portugues em terras tropicais deixasse de ser o mesmo portugues, por influencia de elementos historicos e climaticos, e assumisse uma nova condicao historica e existencial. Como resume Anco M. T. Vieira, para Coutinho, "[...] o assinalado 'torneio de frase' so poderia advir da experiencia socio historica do autor, e nao da propria tradicao literaria" (Vieira, 2016, p. 390, grifo do autor).

Antonio Candido, ainda que bem mais sofisticado, apelando para uma chave sociologica nao mais positivista e com importantes e pertinentes ponderacoes esteticas, permanece, do mesmo modo, na tentativa de tracar um elo irredutivel entre a literatura brasileira e o Brasil, no caso a realidade nacional trata-se de sua tese de transformar aspecto social externo em dispositivo literario. Para Candido, a literatura brasileira de fato toma para si um sentimento de pertencimento a partir da transicao do Arcadismo para o Romantismo, momento no qual ha uma tomada de consciencia nacional--isto e, os autores brasileiros deliberadamente adotam o projeto de construir uma literatura nacional assimilando as suas formas e temas, que seriam os aspectos 'internos' da literatura, os tracos de uma realidade nacional, ou seja, os aspectos 'externos', mais especificamente a cor local e determinados aspectos da dinamica social brasileira.

Antes de concluirmos este topico, deixemos claro um ponto. Nao se trata de negar que em determinados autores o Brasil e sua formacao ocupam lugar central, como em Jose de Alencar, Goncalves Dias, Lima Barreto, Euclides da Cunha e tantos outros; mas de reconhecer que a historiografia critica, para forjar o conceito de literatura brasileira, empenhou-se na direcao de instituir a relacao entre nacao e literatura como elemento fundador e definidor do conceito de literatura brasileira--nao devemos perder de vista que ha aqui a persistencia do argumento romantico. Em outras e poucas palavras, nao estamos criticando os autores que privilegiaram o Brasil como possivel elemento literario, mas o pensamento critico que insiste em classificar, valorar e organizar o que seria a literatura brasileira a partir da possibilidade de reconhecer em determinados autores esse traco de representacao nacional. Como alega Sergio Paulo Rouanet (Rouanet, 1993), no Brasil se priorizou um pensamento historiografico marcado por um modelo de identidade nacional tipicamente romantico, 'historista' e empenhado na diferenciacao em relacao ao outro.

A principal consequencia da naturalizacao dessa interdependencia estabelecida entre o processo de formacao do Brasil, como nacao, e da construcao de uma identidade literaria nacional e brasileira--ou, em outras palavras, da subordinacao do eixo literario ao historico--foi o empenho em delimitar e eleger os temas e formas supostamente mais apropriados para a concretizacao do projeto de nacionalidade literaria, o que, por consequencia, nao deixou espaco para a exploracao da diversidade tematica e formal. Tal como conclui Luiz Costa Lima (1989), o veto a ficcao e ao imaginario no seculo XIX brasileiro e decorrente de um compromisso nacionalista, um empenho em construir uma nacao. A literatura brasileira nasce do desejo de ser nacional, romantica e moderna, o que implica na legitimacao de sua autonomia a partir de um processo radical de ruptura, tal como se prega a cartilha da modernidade romantica.

Foi com essa vontade de fazer mais literatura brasileira do que literatura, adotando para si a missao de decidir quais temas seriam essencialmente nacionais e promotores de uma independencia literaria, que nossa literatura se tornou antes de tudo nacional e brasileira. A questao que se coloca e: como a critica pode superar o modelo romantico nacionalista e admitir outras formas de problematizar a pluralidade daquilo que chamamos de literatura brasileira?

Entre a psicologia e a historia, o universal e o particular, o individuo e a cultura: Machado de Assis e o relativismo do sentimento intimo

O conceito de literatura nacional que nasce com o Romantismo deve ser compreendido antes como consequencia de uma nova concepcao de historia, individuo e filosofia do que como um ponto de partida ou um desejo natural de cada nacao e povo de ter uma literatura para chamar de sua. A demanda por uma nacionalidade literaria e fruto de uma nova consciencia historica, da necessidade do homem de ver a si mesmo e aos seus atos nao mais como entidades abstratas e imutaveis, mas como partes de momentos historicos e culturais delimitados e contextualizados.

Um dos aspectos que define a modernidade romantica e sua pretensao de estabelecer uma relacao de coerencia e harmonia entre a realidade historica, as formas e os temas, o que contrasta com o retorno as formas classicas empreendido pelo Neoclassicismo na busca de um universalismo abstrato e anti-historico. De forma mais ampla do que parece ter sido compreendido e explorado pelos romanticos brasileiros, o que chamamos de cor local, tal como trabalhado pelos romanticos franceses e alemaes, resume a ideia de que a literatura deve refletir (criticamente, originalmente, ficcionalmente etc) a condicao humana, mas imersa na realidade historica na qual se inscreve. O Romantismo nao nega as paixoes universais, mas entende que estas devem ser reconhecidas atraves das manifestacoes particulares da historia.

A literatura nova, moderna e romantica mergulha na realidade historica, reflete as ideias e dilemas do seu tempo e cultura, descrevendo e apropriando-se do que passamos a chamar de cor local. Vejamos o que diz Victor Hugo no prefacio que escreveu ao seu Cromwell:

A cor local nao deve estar na superficie do drama, mas no fundo, no proprio coracao da obra, de onde se espalha para fora dela propria, naturalmente, igualmente, e, por assim dizer, em todos os cantos do drama, como a seiva que sobe da raiz a ultima folha da arvore. O drama deve estar radicalmente impregnado da cor dos tempos; ela deve, de alguma forma, estar no ar, de maneira que nao se note senao ao entrar e ao sair que se mudou de seculo e de atmosfera (Hugo, 2014, p. 70).

Se a literatura brasileira, na sua sede de identidade nacional, privilegiou uma imagem de cor local predominantemente pictorica, pitoresca e exotica, a concepcao apresentada por Victor Hugo e muito menos descritivista e mais psicologica, filosofica e historica. Victor Hugo explica o conceito de cor local como a apreensao e expressao de um modo de ser contextualizado no tempo e espaco, uma condicao subjetiva particular, fosse ela condicionada pelo local ou pela epoca. A cor local, compreendida mais amplamente, seria aquilo que se relaciona com o que e caracteristico do seu tempo, com um modo especifico de ser na historia e na cultura, mas nao necessariamente com o simplesmente visual, pictorico, exotico e folclorico. De outra forma, tal como dito por Madame de Stael, ao fomentar a consciencia historica e, por consequencia, de modo mais profundo, refletir a cor local, o Romantismo fundamenta uma harmonia entre arte, cultura, natureza e as instituicoes cultivadas pelo homem; valorizando, por conseguinte, os elementos nacionais, suas historias, temas, lendas e mitos; o que, inevitavelmente, opunha-se ao processo artificial de assimilacao da mitologia e das formas classicas em plenos tempos modernos (Stael, 2011).

O Romantismo articula autor e nacao, individualidade e cultura. Admitindo a propria ambiguidade da afirmacao como parte de um modo de pensar romantico, o genio criativo deve ser concebido como uma figura idiossincratica e inconfundivel, simbolo maximo da individualidade moderna, herdeiro de Dom Quixote, de Hamlet e pintado como um viajante sobre um mar de nevoa por Caspar David Friedrich, mas tambem como retrato de condicoes historicas particulares de cultura e existencia. A personalidade psicologica tambem e cultural, o individuo inevitavelmente e nacional; ou como diria Novalis "O que esta fora de mim esta justamente em mim, e meu--e inversamente" (apud Nunes, 2008, p. 59).

Antes de seguirmos, lembremos que do solo romantico nasceu a Psicanalise (Roudnesco, 2016), que por sua vez tambem traz em seu bojo teorico e terapeutico o mesmo impeto de articular as dimensoes individuais e culturais do sujeito. Renato Mezan, ao falar sobre o entrelacamento entre essas duas instancias, homem e cultura, individuo e sociedade, interno e externo, psicologia e historia, considera que a ideia de humanizacao de um recem-nascido, por exemplo, nao e outra coisa senao um processo de culturalizacao. A mente, a consciencia ou o inconsciente nao se restringem apenas a engendrar fantasmas, afetos e imagens produzidas no circulo minimo e intimo criado pelos bracos dados entre mae, pai e filho. Mais do que isso, muitos dos objetos, entidades, representacoes, estilos de existencia e de relacionamento com a realidade sao recebidos pela crianca, o individuo psicologico, do mundo exterior, da cultura; "Como esses meios sao fruto do processo cultural, a transformacao da psique em psique humana equivale a sua transformacao numa psique marcada pela cultura" (Mezan, 1998, p. 62).

Tendo em mente que Herder caracteriza o genio como representante da historia, vejamos como a Psicanalise compreende a relacao entre sujeito e cultura:

A Cultura nao se opoe a psique individual como o fora ao dentro, mas ela lhe e simultaneamente interior e exterior: interior porque e aquilo mediante o qual o individuo se constitui como individuo, e exterior porque nao depende apenas dele e continua a subsistir apos a sua morte fisica. Em virtude disso, a teoria sobre o psiquismo individual e necessariamente e ao mesmo tempo uma teoria sobre a cultura e sobre as modalidades pelas quais a psique se culturaliza, isto e, torna-se humana (Mezan, 1998, p. 62).

Se os principios modernizantes propostos por Victor Hugo, Madame de Stael e Herder parecem em terras tupiniquins resumidos a representacao do exotico, do tipicamente local--ou seja, a reducao da cor local em cor nacional--, Machado de Assis, com seu Instinto de nacionalidade, mostrou que a relacao entre uma literatura nacional e a nacao que lhe originou nasce menos de uma tentativa deliberada e institucionalizada de autonomia diante de um outro que nos precede e mais de um longo processo no qual ambas as partes, nacao e literatura, mediada pelo individuo e a sociedade, dependem do amadurecimento mutuo dos dois lados.

A cor local, tal como posta em pratica pelos indianistas brasileiros, simplesmente nao era uma questao fundamental para o autor de Bras Cubas. Fosse a representacao da natureza exuberante ou a assimilacao do elemento indianista, Machado estava menos interessado em percorrer o atalho da representacao nacional, que supostamente diferenciaria a literatura brasileira da portuguesa de maneira rapida e proclamada, como que um grito de independencia, e mais preocupado em fazer uma literatura capaz de falar do Brasil, nao atraves de uma imagem cristalizada e exotica, mas a partir do brasileiro, das suas ambiguidades e contradicoes historicas, da forca de seus desejos psicologicos, do seu aprimoramento social, de seus meandros culturais, retratando uma condicao ao mesmo tempo nacional e humana.

Se seguirmos a linha de pensamento exposta no Instinto de nacionalidade (Assis, 1997, v. 3), concluiremos que um autor sera sempre um genio nacional, pois, ainda que sua existencia seja marcada pela individualidade, inevitavelmente traz em si as marcas indeleveis da cultura na qual se formou. Ou, como diz Herder (2007, p. 55), que, tal como Machado, parece conciliar dois polos aparentemente opostos como a psicologia e a historia ou o individuo e o nacional: "En cierto sentido toda perfeccion humana es nacional, secular y, estrictamente considerada, individual".

Admitir um condicionamento nacional a representacao da cor local simplificada ou ao indianismo, termos e ideias que no contexto nacional em ultima instancia se confundem, nao apenas limita o leque de possibilidades da fundacao de uma literatura nacional, mas tambem da representacao e problematizacao do que e ser brasileiro, do seu genio, seu modo de ser, suas expressoes culturais, sociais, psicologicas e principalmente daquilo que lhe transcende a nacionalidade.

Sobre o projeto de tratar a literatura a partir do duplo prisma do nacional e universal, Machado de Assis (1997, p. 914, v. 3), em 1878, em carta a Francisco de Castro, escreve:
   Que a evolucao natural das coisas modifique as feicoes, a parte
   externa, ninguem jamais o negara; mas ha alguma coisa que liga,
   atraves dos seculos, Homero e Lord Byron, alguma coisa inalteravel,
   universal e comum, que fala a todos os homens e a todos os tempos.
   Ninguem o desconhece, decerto, entre as novas vocacoes; e o esforco
   empregado em achar e aperfeicoar a forma nao prejudica, nem poderia
   alterar a parte substancial da poesia,--ou esta nao seria o que e e
   deve ser.


Machado nao nega a especificidade e nem mesmo uma certa 'funcao' da cor local diante do cenario romantico e de independencia literaria e politica. No entanto, e fundamental, principalmente para nossa proposta, lembrar que com a ideia de sentimento intimo ele afirma a necessidade de pluralizacao e relativizacao das possibilidades de capturar e expressar um pais e seu povo. Cabe ao escritor falar nao apenas do seu conterraneo, mas do ser humano. Pensando como Machado, a literatura deve encontrar o ponto de contato entre a humanidade no seu sentido mais largo e sua representacao nacional. Um ponto deve levar ao outro sem que haja com isso prejuizo formal ou psicologico; um critico criativo e capaz de sair da repeticao metodologica e reconhecer nas mais variadas representacoes e formas a densidade humana e artistica.

Machado escreveu o Instinto de nacionalidade tendo em vista a situacao vivida pela literatura brasileira no seculo XIX. No entanto, por ora, pensemos as ideias postas por Machado nesse texto menos como uma proposta sobre a literatura brasileira e mais como um modo de ver ou teorizar a possivel construcao de uma literatura nacional. Em outras palavras, vejamos o Instinto de nacionalidade como uma visao psicologicaliteraria sobre as implicacoes de se conceber uma literatura que simultaneamente se pretende nacional e universal.

Pensando dessa forma, escapando da obrigatoriedade de tematicas cristalizadas, da apreensao de uma cor local definida e principalmente se livrando da missao nacionalizante da literatura brasileira que condiciona a literatura a nacao, Machado relativizou o que deveria ser compreendido como literatura nacional brasileira e como representar o brasileiro. Se admitirmos a perspectiva machadiana como intima e psicologica, tanto a literatura nacional escapa do verde-e-amarelo quanto o brasileiro dos habitos supostamente mais locais e regionais. Ao contrario do que se pode pensar, nao se trata de negar a condicao nacional aos romances, poemas e personagens. Pelo contrario, a proposta machadiana e libertadora e muito mais ampla.

Machado lancou sobre a ideia de fundacao de uma literatura nacional, enquanto elemento cultural representativo de um povo, um olhar francamente psicologico. A literatura brasileira deveria admitir o individuo nacional, e nao a nacao unitaria, como fonte inesgotavel de possibilidades de ser nacional. De forma concisa e talvez um pouco extrema, poderiamos pensar que Machado propoe uma literatura nacional que nasca nao do Brasil, unico e historico e imagetico, mas do brasileiro, admitindo sua pluralidade psicologica, intima e individual. Mais lhe interessava reconhecer um certo sentimento intimo de nacionalidade na diversidade das formas humanas e literarias do que na pretensao exportadora e exotica da cor local. Se pensarmos no que escreveu Afranio Coutinho, diremos que o Instinto de nacionalidade se situa na passagem de um segundo para um terceiro e mais amadurecido tipo de nacionalismo literario, que nas suas palavras seria um "[...] brasileirismo [ou sentimento nacional] interior" (Coutinho, 1981, p. 26).

A complexidade do Instinto esta no duplo no que ele pretende nao desatar, mas aprimorar e esclarecer. Sua proposta se situa numa encruzilhada entre a leitura psicologica e historica da literatura. Ao mesmo tempo em que admite a ideia de uma literatura nacional e representativa de um povo, sublinha o risco de so "[...] reconhece[r] o espirito nacional nas obras que tratam de assunto local, doutrina que, a ser exata, limitaria muito os cabedais da nossa literatura" (Assis, 1997, p. 803, v. 3). Ao que parece, Machado desejava compreender a literatura brasileira antes como literatura, da mesma forma que lhe interessava o brasileiro antes como ser humano. Esse jogo de ambiguidade parece resolvido na afirmacao de que: "O que se deve exigir do escritor antes de tudo, e certo sentimento intimo, que o torne homem do seu tempo e do seu pais, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaco" (Assis, 1997, p. 804, v. 3).

A chave que importa e aquela que nos permite ver na ideia de sentimento intimo o reconhecimento do homem e do brasileiro nao apenas nos simbolos nacionais ou nas tematicas pretensamente universais, mas em todos os atos e formas de representacao literaria. Lembremos do conto O emprestimo, de Machado, e vejamos o uso que Custodio, personagem do conto, faz do pensamento de Seneca (1): "Cada dia, ao parecer daquele moralista, e, em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Nao digo que nao; mas por que nao acrescentou ele que muitas vezes uma so hora e a representacao de uma vida inteira?" (Assis, 1997, p. 334, v. 2).

Publicada entre Papeis avulsos, livro de contos no qual Machado mergulha definitivamente na investigacao psicologica, a passagem acima nos faz pensar que, se a imagem de uma vida pode se concentrar num dia ou quem sabe apenas numa hora, podemos supor que a condicao nacional, secular ou cultural, antes de ser representada atraves de signos e simbolos instituidos, tambem pode ser expressa e por isso reconhecida em qualquer ato, por mais intimo, psicologico e silencioso que ele seja. Certa vez, com precisao, Antonio Callado disse que Machado, "[...] ocupando um espaco cada vez menor, e capaz de fazer tudo numa mesma casa. Machado, se ele continuasse um pouco mais, nao deixaria ninguem mais sair de casa" (Bosi et al., 1982, p. 319). A leitura de Callado, assim como a associacao estabelecida pelo proprio Machado com a emenda de Seneca, leva-nos a pensar que essa densidade psicologica reconhecida numa hora apenas da vida tambem nos remete ao total relativismo da expressao nacional, que poderia, inclusive, ser apreendido dentro de casa. Um personagem e um sujeito do seu seculo, da sua nacao e de uma cultura, nao apenas quando retratado como um indio, entre arvores, vivenciando guerras historicas ou imerso em cenarios caracteristicos e bem definidos. O personagem se expressa e revela aquilo que o constitui de forma mais definitiva, suas raizes, possibilidades, ocidentalidade ou nacionalidade, em uma cena, em um minuto, tomando cafe, conversando, amando, chorando, sorrindo e fazendo rir.

Machado de Assis, que nas palavras de Haroldo de Campos, "[...] e nacional por nao ser nacional" (Campos, 1992, p. 236), com sua concepcao intima de literatura nacional descortinou as diferentes maneiras de reconhecermos tracos literarios de sentimento nacional e abrangencia humana nas mais diversas elaboracoes formais, nas construcoes psicologicas de personagens, em digressoes filosoficas, analise social de um determinado contexto, descricoes de cenario, desdobramento de enredo ou qualquer outro aspecto relacionado a estrutura ou detalhe de uma ficcao.

Partir da premissa de que as obras que obviamente retratam alguma realidade empirica brasileira estao mais relacionadas ao Brasil do que os romances de Machado de Assis, Raul Pompeia ou Clarice Lispector nao apenas limita o leque de possibilidades da fundacao e desenvolvimento de uma literatura nacional, mas tambem da representacao e problematizacao do que e ser brasileiro, do seu genio, seu modo de ser, de suas expressoes culturais, sociais e psicologicas.

O humor como sentimento intimo, a antropofagia e a sincronicidade. Uma proposta de analise entre planos: critico, teorico e cultural

Observando os projetos criticos ou historiograficos que ate hoje sao produzidos, circulam e dominam os debates sobre a literatura brasileira, temos a impressao de que pouco ou nada mudou desde o Romantismo. Encontramos na maioria das principais tentativas de periodizacao da literatura brasileira o predominio de uma relacao naturalizada entre literatura brasileira e representacao daquilo que se supoe nacional. De modo geral, o que a critica literaria nacional pretendeu, segundo Haroldo de Campos, foi "[...] detectar o momento de encarnacao do espirito (do Logos) nacional, obscurecendo-se a diferenca (...) para melhor definicao de uma estrada real: o tracado retilineo dessa logofania atraves da historia". O apice desse percurso historico seria a descricao do "[...] que seja essa substancia entificada--o carater nacional", caindo, deste modo, "num retrato medio, aguado e convencional" (Campos, 1992, p. 236).

Antes de seguirmos adiante, vale salientar que ao longo do seculo XIX, com algumas excecoes, entre elas, Machado de Assis e Alvares de Azevedo, o projeto literario romantico de fato se assentou sobre a ideia de construir uma literatura autonoma, nacional e brasileira, a partir da representacao e da construcao da imagem de uma nacao cultural, literaria e politicamente independente. Nossa principal questao nao se da sobre esse primeiro passo dado pelos autores romanticos, mas em relacao a persistencia da critica em submeter a organizacao da literatura brasileira a esse mesmo criterio nacional e nacionalista. Como escreveu Machado, e digno de aplauso essa iniciativa romantica em pleno seculo XIX. Contudo, se tal postura nacional literaria poderia ser questionada como limitadora ja naquele momento, quem dira em tempos posteriores.

O que se ve na maioria das tentativas de organizacao, analise ou especificamente de historicizar a literatura brasileira sao abordagens diacronicas, pouco criativas e que se interessam em colecionar os fatos e seus desdobramentos na historia. Como diz Haroldo de Campos, esse modelo de pesquisador literario, mantendo-se na media da reproducao pouco reflexiva, apresenta sempre uma postura "[...] esteticamente neutra" (Campos, 1972, p. 205). No caso da literatura brasileira, esse processo tem mostrado mais preocupacao em acumular ao longo de um eixo temporal as diversas manifestacoes da nacionalidade literaria, sem que esta necessariamente seja tomada como um elemento literario ou formal, mas principalmente como evento sociologico.

A critica historiografica de vertente diacronica e nacionalista enxergou a nacionalidade literaria configurada no Romantismo menos como dispositivo literario e mais como elemento sociologico nacional fundamental, uma especie de crivo a partir do qual, por um lado, os autores que lhe antecedem parecem mais ou menos pre-romanticos, na medida em que anunciam essa nacionalizacao literaria atraves de algum vislumbre nativista, como Basilio da Gama, Santa Rita Durao ou Alvarenga Peixoto, e, por outro, aqueles que sucedem o Romantismo e sugerem perpetuar essa 'missao', como diz Nicolau Sevcenko (2003), sao classificados como adeptos e colaboradores desse projeto literario nacional, como Aluisio Azevedo e Euclides da Cunha, ambos analisando o pais via positivismo, Lima Barreto com seu tom de denuncia social, ou os modernistas que inegavelmente dedicaram parte de suas forcas para a criacao de uma suposta nacionalidade de vanguarda ou de uma vanguarda nacionalista.

Seja na obra de Basilio da Gama ou na de Mario de Andrade, interessa ao observador diacronico-nacional constatar a evolucao, no sentido progressivo, da indissociabilidade entre a obra e a realidade ou a forma de ser nacional. Essa postura nacionalista fez com que nas antologias e manuais de literatura brasileira se instituisse uma valorizacao de autores esteticamente pouco criativos, como Goncalves de Magalhaes, Santa Rita Durao ou Bernardo Guimaraes, e a marginalizacao de outros menos representativos do nosso verdeamarelismo, no entanto mais instigantes e inventivos, como Sousandrade ou Cruz e Sousa.

Outros dois casos nos servem de exemplo para que compreendamos os prejuizos implicados nessa media geral cristalizante imposta pela diacronia literaria e nacionalizante: Gregorio de Matos e Oswald de Andrade. O primeiro, o Boca do Inferno, ainda que tenha sido excluido por Antonio Candido da Formacao da literatura brasileira, costuma ter a obra valorizada principalmente pelo enfoque critico dado a realidade brasileira. Da mesma forma, a leitura nacionalista, herdada pelo Romantismo nacional e reatualizada pelo proprio Modernismo, tende a privilegiar a dimensao da obra oswaldiana que ironiza, constroi e reconstroi a paisagem da Sao Paulo e do Brasil moderno, industrial, tecnologico e marcado pela chegada dos imigrantes. O mesmo poderiamos dizer sobre a leitura da obra de Mario de Andrade.

Essa abordagem deixa de lado, ou ao menos nao prioriza como o deveria, aspectos antes de tudo literarios e criativos desses autores; a assimilacao antropofagica marioandradiana, o processo de 'traducao', como diz Haroldo de Campos, realizado por Gregorio em relacao a Camoes ou Gongora, ou a reinvencao narrativa empreendida por Oswald na construcao dos seus 'antirromances'--Serafim Ponte Grande ou Memorias sentimentais de Joao Miramar--, nos quais prevalece uma representacao fragmentada, tanto no plano formal quanto discursivo, da dissolucao subjetiva dos personagens, das ideias e da trama.

Nao e o caso, como ja falamos, de negar que muitos autores tomaram como ponto central de suas obras algum aspecto evidentemente relacionado a realidade ou a formacao brasileira. O que estamos problematizando e a persistencia em manter o criterio obra-nacao para valorar e organizar a literatura brasileira. Em outras palavras, ainda que considerando autores como Euclides da Cunha, parte da obra de Monteiro Lobato ou Jose de Alencar, nao seria possivel pensarmos novas formas de organizar a producao nacional, alem da nacionalista, diacronica e teleologica? Mais do que isso, mesmo reconhecendo a legitimacao e importancia dessa leitura que articula literatura e nacao, nao poderiamos ampliar o leque e admitirmos novos eixos de pesquisa, novos pontos em torno dos quais autores e obras possam ser articulados e investigados?

Muitos outros temas e formas poderiam ser pensados como dispositivos organizadores, nao apenas de antologias, mas de modos de articulacao entre diferentes autores e obras diversas. Para utilizar e ao mesmo tempo ir alem do que propoe Antonio Candido, podemos pensar na insercao de determinados autores da literatura brasileira nao apenas no sistema nacional e nacionalista, mas em outros de espectro ocidental que possibilitem uma significacao e articulacao criativa e vertical dessas obras, permitindo a construcao de um possivel cenario critico mais amplo e que aponte para a pluralidade formal e tematica da literatura brasileira. Ainda, em outras palavras, e possivel pensarmos na construcao--nao necessariamente nacionalnacionalista--de outras paideumas, como diz Pound, ou familias espirituais, como quer Haroldo de Campos, a partir das quais autores nacionais seriam reunidos e organizados, postos em contato com autores nao necessariamente nacionais e dialogando em torno de diversas formas, temas e concepcoes literarias.

Pensando na possibilidade de desviarmos da medida nacionalista teleologica e ao mesmo tempo admitindo a viabilidade de tantas outras possibilidades organizadoras, propomos uma investigacao da presenca do humor entre autores e obras nacionais. Nesse sentido, nossa analise se daria em tres planos: critico, teorico e cultural.

Para chegarmos a esses tres planos investigativos, partimos de tres premissas. A primeira e admitir o humor enquanto estrutura literaria, reflexao sobre o mundo e fenomeno mimetizado. A segunda, privilegiando recortes sincronicos, e que nao nos interessa reconhecer no humor apenas alguma essencia nacional ou parte de um desdobramento historico e evolutivo da literatura brasileira. De outra forma, tal como Machado, pretendemos concebe-lo como um sentimento intimo, denso e relativo. Por ultimo, ao inves de reconhecer o humor como manifestacao literaria que incorpora uma unidade aclimatada e nacional, preferimos analisa-lo como um fenomeno antropofagico que tende a valorizar a persistencia da heterogeneidade. Em outras e resumidas palavras: (1) o humor como fundo e forma, (2) o humor como sentimento intimo, e (3) o humor como elemento capaz de refletir uma heterogeneidade antropofagica de elementos que ultrapassem a condicao nacional e temporal. Dentre os autores nacionais que privilegiaram o humor e imediatamente aparecem como parte dessa 'familia espiritual' (Campos, 1992) fundamentada no riso, podemos pensar em Gregorio de Matos, Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis, Lima Barreto, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Drummond e Millor Fernandes, por exemplo.

No primeiro plano, que denominamos de critico, investigariamos como as tradicoes, generos literarios, modos, autores e procedimentos formais e retoricos que privilegiam o humor sao assimilados por cada um desses autores--falamos aqui, por exemplo, da comedia, satira, auto medieval, burlesco, grotesco, parodia, chiste e autores como Cervantes, Sterne, Voltaire, Aristofanes, Luciano de Samosata, Swift, entre outros. Livrando os autores nacionais do condicionamento historico que a principio nos faz entende-los como documentos sociologicos ou parte de um arco temporal teleologico nacional, poderemos, adotando um olhar sincronico, entre outras coisas, investigar como cada um assimilou, para nao dizer que devorou, num dialetico oswaldiano, outros grandes autores e tradicoes humoristicas ocidentais que os antecedem. Sobre essa liberdade temporal, o recorte sincronico, Haroldo de Campos (1972, p. 207) diz que ele nos permite investigar "[...] aquela parte da tradicao literaria que, para o periodo [ou autor] em questao, permaneceu viva ou foi revivida".

O segundo plano, o teorico, consistiria em verificarmos ate que ponto e possivel estabelecer um dialogo entre a obra desses escritores e as mais diversas teorias sobre a origem, a pratica e o efeito do humor, desenvolvidas e especuladas por autores que como Platao, passando por Aristoteles, Cicero, Quintiliano, Hobbes, Kant, Shopenhauer, Spencer, Freud, Bergson, Nietzsche, Pirandello, Bataille, Jean Jacque Rousseau, George Bernard Shaw e Georges Minois, por exemplo, entre outros. Nesse momento, salientamos que as obras dos autores nacionais envolvidos com o humor podem servir como materializacao literaria ou representacoes que exemplifiquem as ideias desses teoricos, mas tambem, senao principalmente, como construcoes ficcionais capazes de contestar, reafirmar ou ampliar o que ja foi escrito e teorizado sobre o tema.

A terceira via, a cultural, investiria na possibilidade de reconhecermos nas manifestacoes de humor desses autores uma relacao determinante com uma cultura ou realidade particular. Nesse sentido, expressoes e representacoes literarias da nacionalidade, se pensarmos como Machado, devem ser compreendidas de forma mais ampla, intima, relativa e densa. Desta forma, o leque se amplia e se tornam incontaveis os modos de reconhecermos nas obras escritas por autores brasileiros, atraves da problematizacao da forma ou do objeto mimetizado--que pode ser um ato, um sentimento ou um cenario--, o cruzamento entre o nacional e o universal.

Uma investigacao sobre o humor, nesse sentido, enquanto produto cultural, visao de mundo e dispositivo literario, aparece como uma oportunidade de nele reconhecermos um exemplo do que seria esse sentimento intimo complexo e relativo dito por Machado, mas tambem como um aglutinador de reflexoes teoricas, formais e de tradicoes literarias. Estudado livre do condicionamento historico-teleologico e nacionalista, o humor pode ser admitido como mais um possivel ponto de partida para novas formas de reorganizarmos desprovincianamente a literatura brasileira.

O objetivo fundamental deste trabalho e propor uma metodologia para o estudo do humor na literatura brasileira. Contudo, para que nossa proposta fique ainda mais clara, tomemos brevemente alguns aspectos da obra machadiana apenas como indice do tipo de exercicio critico que pode ser desenvolvido a partir da abordagem dos tres planos propostos: critico, teorico e cultural.

Sobre a abordagem critica, que investiga a possibilidade de filiarmos um autor a determinada tradicao literaria relacionada ao humor, pensemos em Machado de Assis como exemplo bem-sucedido de antropofagia avan letter, pre-oswaldiana. A tarefa de tentar reconhecer um dialogo entre Machado e alguma determinada tradicao literaria humoristica ligada ao riso e facilitada pelo proprio autor que, no prologo da terceira edicao das suas Memorias postumas de Bras Cubas, explicita nao apenas e necessariamente os autores que poderiamos considerar como suas grandes influencias, mas principalmente a qual familia ou tradicao literaria pretendia se filiar:

Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Bras Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, nao sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre a roda do quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Bras Cubas se pode dizer que viajou a roda da vida. O que faz do meu Bras Cubas um autor particular e o que ele chama "rabugens de pessimismo". Ha na alma deste livro, por mais risonho que pareca, um sentimento amargo e aspero, que esta longe de vir de seus modelos. E taca que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho. Nao digo mais para nao entrar na critica de um defunto, que se pintou a si e a outros, conforme lhe pareceu melhor e mais certo (Assis, 1997, p. 513, v. 1).

Roberto Schwarz e um otimo exemplo de como o pensamento nacionalista pode persistir, mas disfarcado de critica literaria sociologica, moderna e estetica. No seu longo ensaio Um mestre na periferia do capitalismo, o autor defende a tese de que Machado teria escrito seu romance, forma e tema, mas principalmente forma, como alegoria da dinamica social brasileira, oscilante entre a modernidade iluminista e o conservadorismo de uma sociedade persistentemente escravista. No entanto, a partir de estudos como Riso e Melancolia, de Sergio Paulo Rouanet, O calundu e a panaceia, de Enylton de Sa Rego, e do pioneiro Genero e estilo nas Memorias postumas de Bras Cubas, de Jose Guilherme Merquior, ficamos cada vez mais convencidos de que nao apenas a forma machadiana, mas o humor acido, cetico, meio barroco, que balanca entre o riso e a melancolia e de vertente psicologica, e fruto nao de uma observacao da realidade nacional, mas, como quer Sa Rego e Merquior, de uma adesao deliberada de Machado a Satira Menipeia, uma tradicao classica e latina, marcada pelo humor e caracterizada pela (1) ausencia de distanciamento com relacao aos personagens e a acao; (2) a mistura do serio e do comico; (3) liberdade do texto com relacao aos ditames da verossimilhanca; (4) a frequente representacao de estados psiquicos aberrantes; e (5) o uso constante de generos intercalados (Rego, 1989).

Sergio Paulo Rouanet, partindo da tese da Satira Menipeia, mas especificando-a, defende que a forma e o humor machadiano so podem ser compreendidos se levada em conta nao apenas a adesao que Machado faz a forma e visao de mundo da Satira Menipeia, mas tambem um refinamento desta, de vertente inglesa, que por sua vez caracterizaria uma nova tradicao, que Rouanet chama de Tradicao Shandiana, marcada pela forma livre, da qual Machado, a partir da reiteracao e sofisticacao de determinados aspectos da prosa de Sterne, seria o fundador e principal comunicante. As caracteristicas fundamentais dessa tradicao seriam: (1) o misto de riso e melancolia, (2) a subjetivacao espaco-temporal, (3) a hipertrofia subjetiva do narrador e, por fim, (4) a digressao e fragmentacao (Rouanet, 2007).

O tipo de humor que marca os romances maduros de Machado se alinha ao que encontramos em Sterne, nos autores ja mencionados no prologo de Bras Cubas, mas tambem em Rabelais, Robert Burton, Cervantes e Diderot; um riso meio melancolico, que surge sempre que a morte e a seriedade da defesa de qualquer causa parecem querer tomar protagonismo. Para Machado, herdeiro de Sterne, nada deve ser levado tao a serio e nenhuma promessa de felicidade lhe parece realmente convincente.

Se o riso machadiano pode ser concebido como parte de uma tradicao shandiana ou lucianica, sabendo que a primeira e parte da segunda, ele tambem e ampliacao e reflexao, nunca apenas copia e insercao. Em Sterne, por exemplo, o riso aparece como solucao de salvacao diante do tedio e da melancolia. Em Machado, o humor melancolico assume postura ainda mais radical e debocha da propria possibilidade de se salvar do tedio. Essa visao se apresenta, por exemplo, no episodio do Emplasto Bras Cubas, quando seu inventor ridiculamente morre, apenas por conta de um vento encanado, justamente quando tentava salvar o mundo da hipocondria--e o humor melancolico rindo e debochando de qualquer tentativa humana de escapar do tedio e da melancolia.

Em outras palavras, podemos dizer que o humor machadiano e filiacao e reatualizacao antropofagica da tradicao shandiana ou lucianica. A persistencia de um humor melancolico e marca que permite reconhecer na obra de Machado sua insercao na familia literaria humoristica que conta com Sterne, Cervantes, Diderot, Xavier de Maistre, Almeida Garrett, Luciano de Samosata, entre outros.

Como exemplo do que pode ser explorado no segundo plano, o teorico, pensemos em O alienista (Assis, 1997, v. 2). Simao Bacamarte e encarnacao ridicula da pretensao e prepotencia cientifica, que nos faz rir da tentativa humana de definir e ordenar a forma correta de ser e agir, de segmentar limpidamente o que e a sanidade e a loucura. Nessa novela machadiana, o humor ataca uma imagem especifica de realidade, aquela na qual se supoe poder definir o que e normal e patologico. Rimos porque e presuncosa e desastrosa a seriedade e conviccao com a qual Bacamarte decide diagnosticar sucessivamente seus pacientes e posteriormente a si mesmo. Atraves do distanciamento imposto pelo humor, Machado nos faz rir e mostra que a possivel imagem de mundo criada por um tipo de ciencia e apenas uma das possibilidades entre tantas outras de organizar a realidade e classificar o comportamento humano.

Se o humor e uma disposicao de espirito que nos permite rir de tudo, e porque esta implicado nessa sentenca um distanciamento cronico e cetico por parte de quem faz rir. Rir das coisas, das ideias, de si, dos outros, das atitudes, e denunciar a prepotencia ridicula do homem, um sujeito finito, com tempo limitado de sobrevivencia, de tentar e supor conseguir abarcar o todo, explicar o mundo e ditar verdades e normas. Sobre o distanciamento cetico propiciado pelo humor e sua capacidade de desvelar outras possibilidades alem das naturalizadas, Georges Minois considera que aqueles que nao trazem consigo essa especie de 'sexto sentido' que e o humor:

[...] imergem totalmente nesse mundo, material ou espiritual, real ou imaginario, mas sao incapazes de assumir uma distancia critica, de se desprender, de ser livres; agarra-se a sua representacao do mundo sem perceber que se trata apenas de uma representacao; desempenham seu papel com tal conviccao que nao veem que e so um papel (Minois, 2003, p. 79).

Um dos aspectos tratados com humor n'O alienista e a desconstrucao da fantasia que a ciencia nos oferece de claramente distinguir entre o normal e o patologico. Lembremos do exemplo dado por Pirandello, no seu O humorismo, sobre a ra que inchada de tanto ar finge ser um boi. Segundo Pirandello, o humor, neste ponto proximo a ironia, "[..] consistiria na punctura de alfinete que esvazia a ra inchada" (Pirandello, 2009, p. 49). Machado, podemos dizer, alfineta e murcha a ciencia inchada e disfarcada de verdade inconteste. O pensamento de que a ciencia ou qualquer discurso conforta o sujeito ao garantir que louco sao sempre os outros e justamente o que O alienista poe em xeque. Pensamos e rimos diante da inesperada inversao de julgamentos, do questionamento atrevido em relacao as regras cientificas e, por fim, da surpresa de vermos admitindo-se como louco aquele que justamente supunha ser capaz de reconhecer a loucura. O que diferencia Simao Bacamarte do leitor machadiano, que dele ri, e que enquanto o primeiro tem fe, supoe fatos, como a loucura, a sanidade, a ciencia e a estatistica; o segundo, mais distante e cetico, ri da crenca e e como se dissesse: nao se trata das coisas serem fatos e existirem, mas sim de acredita-los.

Veremos que todas as ficcoes da alma, todas as criacoes do sentimento, sao materia do humorismo; isto e, veremos a reflexao como que converter-se em um diabrete que desmonta o mecanismo de toda a imagem, de todo fantasma instigado pelo sentimento; desmonta-o para ver como e feito, deixa a mola soltar-se e todo o mecanismo chiar, convulso (Pirandello, 2009, p. 158).

Lembremos da diferenciacao proposta pelo proprio Pirandello (2009, p. 158) de que o humorismo, mais do que simplesmente o comico, pode emergir da disposicao do homem de:
   [...] refletir que a vida, nao tendo fatalmente para a razao humana
   um fim claro e determinado, precisa para nao tatear no vazio, ter
   um fim particular, ficticio, ilusorio, para cada homem, ou baixo ou
   alto; pouco importa, visto que nao e, nem pode ser o fim
   verdadeiro, que todos buscam afanosamente e ninguem encontra,
   talvez porque nao exista.


O humor antes de tudo nos faz rir porque denuncia a ridicula tentativa humana de dominar a vida e o mundo, ditando-lhe regras, decidindo significados e impondo modos e padroes. O riso, podemos dizer, "[...] faz parte das respostas fundamentais do homem confrontado com sua existencia" (Minois, 2003, p. 19); mais do que isso, do confronto e questionamento sobre tudo o que supomos fundamental e assertivo sobre sua existencia.

Atraves do humor, Machado demonstra quao fragil e a coluna que sustenta a ideia de normal e patologico, expondo com graca o ridiculo que conforta e nos da a sensacao de pertencermos ao padrao que deve ser seguido como norma. A postura humoristica, que nos leva a rir daquilo que e oferecido como natural, normal e inquestionavel, revela o que foi deixado de lado, o resto, a pluralidade jogada para debaixo do tapete em nome da admissao de uma verdade unica. Como sugere Freud em O chiste e sua relacao com o inconsciente (1974), o humor, o chiste, a piada, a tirada inesperada que emerge do inconsciente sem a censura previa da vida diurna faz rir porque traz a superficie o que nao deveria ser visto, verdades vergonhosas sobre nos mesmos, ideias menos nobres sobre a sociedade, a cultura e as coisas ou aspectos infantis que deveriam ter desaparecido em nome da maturidade esperada pela vida adulta e os codigos sociais e culturais.

Pensando como Freud, o humor d'O alienista traz a tona a verdade inesperada e indesejada que deflagra o questionamento inevitavel sobre qualquer suposta verdade acerca do mundo e do que e normal. Se Freud no seu ensaio insiste na ideia de que humor, atraves do chiste, revela a porcao inconsciente que vem a luz do dia inesperadamente, o humor em O alienista expoe aquilo que tentamos encobrir ou fingir que nao existe, a contingencialidade das verdades cientificas, as precariedades discursivas, teoricas e racionalistas. George Bataille (2016a; 2016b), que escreveu linhas interessantes sobre o humor, chega inclusive a associar toda e qualquer filosofia ao riso, ja que seria ele um canal privilegiado para acessar 'o fundo das coisas', tudo aquilo que ele considera ter sido estigmatizado pela ratio como um nao saber, um nao ser, um nao pensar. Para Bataille, estudar o que nos faz rir e entrar em contato com outras verdades sobre o mundo e nos mesmos, algo semelhante ao que a sexualidade e o inconsciente representam na teoria freudiana--aquilo que foi silenciado.

O ensaista Joseph Addison (1915) no ensaio intitulado True and false humor, afirma que a raiz do humor assenta na premissa de que a verdade e a conformidade entre as nocoes e as coisas. Pensando em O alienista, ele esta correto, afinal, o riso que emana da obra machadiana poe em questao justamente o casamento entre a realidade, com sua pluralidade, relativismos e contingencias, repleta de individuos singulares, e a nocao de normalidade e de padrao de comportamento. Enfim, duvidar desse suposto elo indissociavel entre as nocoes e as coisas tambem pode nos remeter as contradicoes referidas por Pirandello e a forca do inconsciente freudiano, que teima em nos levar a fazer e sentir coisas que desmentem e embaralham o que a vida racional espera de nos.

No caso de Machado, ao investigarmos se ha alguma vertente cultural no seu humor, a possibilidade do riso em suas obras trazerem consigo algum traco de nacionalidade ou de ligacao particular com o contexto especifico do Brasil oitocentista, nao podemos deixar de pensar que seu riso esta muito mais relacionado ao que apontamos no primeiro plano, uma proximidade com a literatura inglesa, principalmente com Sterne, do que com a tentativa de encarnar um humor brasileiro ou mesmo de abordar uma realidade historica especifica. Alias, sobre isso, nao podemos perder de vista que a concepcao de nacionalidade machadiana e extremamente intima e psicologica, basta lembrarmos do Instinto de nacionalidade.

Sobre a adesao de Machado ao modelo formal e humoristico ingles, em detrimento do frances, Helio de Seixas Guimaraes sugere que o autor "[...] parece plenamente consciente do deslocamento que opera em relacao aos modelos franceses" (Guimaraes, 2008, p. 97). Em 1880, o ano no qual As memorias postumas ainda eram publicadas em capitulos, Artur Barreiro escreve em artigo publicado na Revista Brasileira de 10 de junho de 1880:

E opiniao minha (e hoje creio que e da critica) que este extraordinario romance, inspirado diretamente nos humoristas ingleses, dissecando cruamente a alma humana com uma observacao maravilhosa, nao se limitando a julgar parcialmente este microcosmo chamado homem, mas abrangendo numa sintese poderosa todos os grandes impulsos que nos alevantam acima de nos mesmos e todas as pequeninas paixoes que nos conservam acorrentados a baixa animalidade; e opiniao minha, repito, que este extraordinario romance de Bras Cubas nao tem correspondente nas literaturas de ambos os paises de lingua portuguesa e traz impressa a garra potente e delicadissima do Mestre (apud Machado, 2003, p. 135).

Vale tambem destacarmos como Magalhaes de Azeredo, escrevendo sobre Quincas Borba, em 1892, no jornal O Estado de Sao Paulo, aponta o humor machadiano como elemento novo no ambiente literario brasileiro:

Nao terminarei sem me ocupar do seu humorismo, uma das qualidades principais que lhe assinalei. E predicado quase absolutamente novo e desconhecido nas nossas letras. Em geral, entendemos por humorismo o habito de encarar as coisas pelo seu lado comico, provocando com remoques joviais a gargalhada das turbas.

Nao se parece nada com esse impropriamente denominado humorismo o de Machado de Assis: e um humorismo mais fino, mais aristocratico, mais acerbo (apud Machado, 2003, p. 175).

Tambem nao podemos deixar passar desapercebido que a concepcao de humor machadiana e ao mesmo tempo sua filiacao literaria humoristica sao expostas pelo proprio autor no conto Teoria do Medalhao:

Somente nao deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de misterios, inventado por algum grego da decadencia, contraido por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feicao propria dos ceticos e desabusados. Nao. Usa antes a chalaca, a nossa boa chalaca amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem veus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensorios. Usa a chalaca (Assis, 1997, p. 294, v. 2).

Aqui, um pequeno parentese. Por mais universal ou ocidental que seja nossa postura, certamente admitimos que um autor pode deixar no seu trabalho marcas de uma cultura nacional assim como tambem reflexos do seu seculo, ainda que falando sobre qualquer tema remoto no tempo e no espaco. Portanto, e plausivel que reconhecamos esse traco inevitavel de uma cultura especifica (de tempo e espaco) nas formulacoes genericas, nos desdobramentos da tradicao ou na mimetizacao literaria das diversas manifestacoes humanas, culturais, psicologicas, historicas etc, relacionadas ao humor.

Pensando assim, podemos investigar a complexidade que envolve admitir que o humor, tanto em Oswald quanto em Machado, por exemplo, encerra uma atitude ocidental, humana, num sentido transhistorico, teorica (reflexiva) e critica (literaria), mas tambem encerram elementos que refletem ou dialogam com uma determinada realidade ou cultura. A soma dessas tres leituras, teorica, critica e cultural, em relacao a presenca do humor nas mais diversas obras nacionais, postas no mesmo plano e com total liberdade de articulacao, estimulada por uma postura sincronica e antropofagica, diferentemente do que ocorre normalmente no que diz respeito ao movimento centripeto decorrente do vies nacional, pretende empreender um sentido dispersivo e centrifugo, que ao mesmo tempo permite uma contextualizacao, mas que nao deixa de apontar para as mais diversas possibilidades de abordagens teoricas e criticas, sem qualquer amarra ou compromisso teleologico.

O humor encontrado nas obras nacionais--quando observado a partir de suas possiveis relacoes com a satira, latina ou grega, com a comedia, com a tradicao menipeia, com recursos retoricos e imageticos, como a ironia, o chiste ou o grotesco, com autores como Cervantes, Laurence Sterne, Voltaire, Luciano de Samosata, Petronio, ou com estudos sobre o tema feitos por Freud, Bergson, Nietzsche, Aristoteles, Schopenhauer, Platao, Kant, Pirandello e outros tantos--sem duvida nos oferecera muito mais uma visao sobre como compreender a literatura e o ser humano numa dimensao mais rica do que qualquer outra com visao teleologica, circunscrita e diacronica.

Nao nos interessa reconhecer um determinado tipo de humor e classifica-lo como essencialmente nacional--ainda que haja a possibilidade de alguma relacao especial entre o humor nas obras desses autores e a realidade brasileira. Pensando na abertura necessaria sobre a qual as problematizacoes literarias devem versar em relacao aos nossos autores, como diz Haroldo de Campos,

[...] a necessidade de se pensar a diferenca, o nacionalismo como movimento dialogico da diferenca (e nao como uncao platonica da origem e rasoura acomodatica do mesmo): o des-carater, ao inves do carater; a ruptura, em lugar de tracado linear; a historiografia como grafico sismico da fragmentacao eversiva, antes do que como homologacao tautologica do homogeneo (Campos, 1992, p. 237).

Por mais que projetemos analises do humor a partir de uma postura sincronica, vendo as obras como "[...] entidades fechadas, autossuficientes", no "[...] reino do eterno e atemporal" (Campos, 1972, p. 216), nao se deve perder de vista que todo texto e produto de sua epoca. Dai a tentativa de reconhecer nos mesmos autores tradicoes ocidentais literarias e teoricas sobre o humor, mas tambem, num terceiro plano, admitir a possibilidade de encontrar evidencias de marcas do tempo e de culturas particulares. Essa admitida ambiguidade entre a diacronia e a sincronia, entre o ocidental e o particular, mesmo que se priorize enfaticamente uma das duas, nao chega a caracterizar um problema metodologico. De outra forma, reforcamos a necessidade de trabalhar as duas "[...] consciencias [...]" da obra, "[...] a atual e a da obra analisada" (Campos, 1972, p. 216). Ao desvincularmos esses potenciais autores de pressupostos condicionantes temporais, passamos a admiti-los "[...] impreterivelmente vinculad[os] as necessidades do presente" (Campos, 1972, p. 222), o que, por sua vez, pode problematizar, reforcando ou rechacando, a atualidade de suas obras e suas posturas formais e mimeticas humoristicas.

Assim como partimos da ideia de sentimento intimo para entender a proposta de fundacao de uma literatura que se pretende na mesma medida nacional e ocidental, facamos algo parecido com a antropofagia de Oswald de Andrade. Tomando emprestada as palavras de Joao Cezar de Castro Rocha, pensemos a "[...] antropofagia oswaldiana como promessa de uma imaginacao teorica da alteridade, mediante a apropriacao criativa da contribuicao do outro" (Rocha, 2001, p. 648). A antropofagia nos servira como instrumento para analisarmos a complexidade atraves da qual se da por parte de nossos autores a assimilacao, intertextualidade ou qualquer outra forma de dialogo estabelecida com as tradicoes literarias e teoricas ligadas ao humor.

Se reconhecermos, por exemplo, nas obras de Machado de Assis e Oswald de Andrade um dialogo com teoricos, autores e tradicoes ocidentais relacionadas ao humor, enquanto dispositivo literario, elemento mimetizado ou postura diante da realidade, mas tambem uma relacao especifica com as demandas de seu tempo e cultura, poderiamos concluir que haveria nesses textos justamente o perseguido cruzamento entre o universal e o particular, um no entre o nosso e o do outro, o daqui e o de la, o de ontem, o de hoje e o de amanha, estando todos esses elementos em posicoes horizontais, sem subordinacao temporal ou espacial e cultivando a heterogeneidade interna da obra--como diz Oswald de Andrade (1983, p. 353), "[...] so me interessa o que nao e meu. Lei do homem. Lei do antropofago". Ao inves de concebermos esse processo de devoracao de todas as tradicoes e autores relacionados ao humor como um processo de "[...] angustia da influencia", como fala Rocha (2001, p. 656) sobre a antropofagia, pensariamos em uma especie de "[...] produtividade da influencia".

No lugar do pensamento sistematico de Antonio Candido, no qual cada obra e resultado de um processo unificador, temporal e nacional, propomos, num tom oswaldiano, que cada obra seja vista como cenario de uma verdadeira antropofagia de elementos diversos, teoricos, criticos e culturais, coadunados e revitalizados pelo humor, enquanto estrutura literaria, objeto mimetizado e modo de compreender e significar o mundo. Nesse sentido, nada mais apropriado do que lembrar o que disseram Oswald de Andrade e Haroldo de Campos: "[...] so a antropofagia nos une", pois propoe uma "[...] agudo[a] necessidade de pensar o nacional em relacionamento dialogico e dialetico com o universal" (Andrade, 1983, p. 353). Mais, a antropofagia e "[...] o pensamento da devoracao critica do legado cultural universal, elaborado nao a partir da perspectiva submissa e reconciliada do 'bom selvagem' (...), mas segundo o ponto de vista desabusado do 'mal selvagem', devorador de brancos, o antropofago" (Campos, 1992, p. 234, grifos do autor).

Interessa-nos na relacao entre essas tres perspectivas sobre o humor (critica, teorica e cultural) nao necessariamente a convergencia ou a 'aclimatacao' nacional, como supoe Antonio Candido, mas a heterogeneidade presente no processo: "[...] uma transculturalizacao; melhor ainda, uma 'transvalorizacao': uma visao critica da historia como funcao negativa (no sentido de Nietzsche), capaz tanto de apropriacao como de expropriacao, desierarquizacao, desconstrucao" (Campos, 1992, p. 234, grifos do autor).

Nao e nossa preocupacao ver o humor como ponto de chegada ou elemento harmonizador das diferencas teoricas, criticas e culturais, mas como espaco da heterogeneidade, do contraste, do rangido e da elaboracao de novas formas de organizacao literaria, formal e de mundo. Se a antropofagia incita "[...] um sentido agudo dessa necessidade de pensar o nacional em relacionamento dialogico e dialetico com o universal" (Campos, 1992, p. 234), o procedimento de devoracao da tradicao nos permite, entre outros possiveis olhares, pensar o humor como elemento semiotico, signo literario, estruturante e tematico, catalizador e radiador, atraves do qual o seu funcionamento potencialmente antropofagico aglutina potencialidades criticas, teoricas e culturais, tanto no plano ocidental quanto nacional. Pensar o humor dessa forma significa, sem desprezar o ato nacional, problematizar a literatura a partir de um traco antes de tudo humano e estetico.

Conclusao

A literatura feita no Brasil pode comportar varios sistemas sem que necessariamente estejam subordinados a um maior, mais importante que vise a "[...] um sentido unico e tautologico" (Candido, 1989, p. 148); no caso de Candido, a determinacao nacional. Propomos que uma das possibilidades de renovarmos a historiografia critica nacional e reconhecer que determinados autores, como Gregorio de Matos, Machado de Assis, Oswald de Andrade e Millor Fernandes, entre outros, sejam concebidos como membros de sistemas nao necessariamente nacionais. Tanto Machado quanto Oswald, por exemplo, podem ser lidos como partes de um possivel sistema que relaciona as marcas do passado e as demandas do presente, articulando em recortes sincronicos, antropofagicamente, autores e tradicoes ocidentais, de diversas linguas e momentos historicos, recebendo e transmitindo informacoes e renovacoes acerca das diferentes obras, formas, retoricas e teorias relacionadas ao humor como forma literaria, objeto mimetizado e visao de mundo.

Enfim, interessa-nos propor o humor como um possivel eixo sistematico, enquanto forma, visao de mundo e objetivo mimetizado, a partir do qual autores e obras, nao necessariamente nacionais, articulem-se e ressignifiquem-se. As analises criticas, teoricas e culturais que construirao esse sistema, baseadas em obras marcadas por formas e ideias relacionadas ao humor, privilegiarao a construcao de leituras e sistemas que valorizem, dessa vez, muito mais a heterogeneidade a homogeneidade, o ocidental ao nacional ou a reconstrucao a reafirmacao.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v41i1.41781

Received on February 20, 2018.

Accepted on July 10, 2018

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Eduardo Melo Franca

Departamento de Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Avenida Professor Moraes Rego, 1235, 50670-901, Recife, Pernambuco, Brasil. E-mail: eduardomelofranca@gmail.com

(1) A associacao entre o conto machadiano e Seneca foi explorada por Abel Barros Baptista no seu livro Tres emendas de Seneca, ver bibliografia.
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Title Annotation:LITERATURE/LITERATURA
Author:Franca, Eduardo Melo
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2019
Words:11790
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