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Ancient Egyptian physical activities: games, military training and the royal force/Atividades fisicas egipcias antigas: jogos, treinamento militar e a forca real.

Introducao

Este artigo e oriundo de uma apresentacao no ciclo de debates sobre os jogos na antiguidade, ocorrida em 2016. A conferencia chamava-se "As Praticas Esportivas no Egito Antigo" e seu objetivo era discutir a existencia (ou nao) do conceito de esporte e de jogos no Egito Antigo e tratar das praticas "esportivas" e seus possiveis significados para essa civilizacao.

Primeiramente, temos que notar que nossa sociedade possui definicoes claras no que se refere ao termo esporte, como sendo, de acordo com o dicionario Houaiss (2009), uma "pratica metodica, individual ou coletiva, de jogo ou qualquer atividade que demande exercicio fisico e destreza, com fins de recreacao e/ou de manutencao do condicionamento corporal e da saude" ou ainda "cada uma ou o conjunto dessas atividades", que requerem destreza fisica, com observancia de regras especificas (corrida, futebol, hipismo, natacao, tenis etc.) e tambem "atividade ludica ou amadora; hobby, passatempo".

Nossa sociedade tambem define o termo jogo, que por sinal possui uma conceituacao muito mais vasta do que a palavra esporte. Mais uma vez, de acordo com o dicionario Houaiss (2009), temos como primeira definicao de jogo uma "atividade cuja natureza ou finalidade e a diversao, o entretenimento". Se nossa sociedade possui mais de vinte e sete definicoes para o termo jogo e seis para a palavra esporte, os egipcios antigos, nao possuem nenhuma palavra referindose aos dois vocabulos mencionados; esses conceitos parecem ser inexistentes para esse povo (Tyldesley 2007: 8). Entretanto, mesmo se a palavra nao existisse, nao podemos afirmar que esse povo nao possuia praticas esportivas e jogos, pois no registro arqueologico encontramse cenas de atividades fisicas e objetos relacionados com essas atividades (Kanawati & Woods 2010).

Pelo que se conhece das fontes textuais egipcias antigas, nao ha relatos de competicoes esportivas ou, ainda, de grandes vencedores heroicos tratados como atletas individuais, com excecao do rei; se ha registros de uma vitoria e de uma pessoa louvada pela sua forca fisica ou pela atividade fisica executada, isso se refere unica e exclusivamente ao farao, o que veremos mais adiante, ja que uma das prerrogativas do poder real e a representacao de sua forca e invencibilidade. Arqueologicamente falando, nao foi encontrada nenhuma estrutura esportiva do periodo faraonico, as unicas estruturas datam da ocupacao grega (Tyldesley 2007: 8-9).

Vale lembrar que o estudo das atividades fisicas, esportes e jogos--com excecao dos jogos de tabuleiro que sao bastante conhecidos, tais como o senet, o mehen, o men, o dos chacais e cachorros e o das vinte e uma casas (Tyldesley 2007: 10-19)--nao foi muito desenvolvido pela egiptologia e o campo continua em aberto para estudo.

As principais fontes usadas para estudarmos o que pode ser considerado como atividades fisicas egipcias antigas sao datadas de tres periodos da historia desse povo e sao, em sua maioria, provenientes de decoracoes parietais: Antigo Imperio (2649-2152 a.C.), com as representacoes nas Mastabas de Ptahhotep e Mereruka, em Saqqarah; Medio Imperio (2040-1640 a.C.), com as representacoes parietais nas tumbas de Beni Hassan (Kanawati & Woods 2010); e Novo Imperio (1550-1070 a.C.), com a decoracao parietal das tumbas dos particulares.

Ainda devemos salientar que precisamos sempre ter em mente em que medida as representacoes funerarias seriam coerentes com a acao pratica da sociedade dos vivos, ja que as representacoes estudadas estao em contexto funerario ou mesmo templario, como e o caso de Esna e Edfu. Temos tambem que questionar, enquanto pesquisadores, se essas representacoes--que sao muito mais abundantes nas mastabas do Medio Imperio, com algumas fontes sobre o dominio da realeza do Novo Imperio e as representacoes reais e religiosas nos templos do periodo ptolomaico podem ser usadas para se tentar compreender as praticas esportivas de toda a historia egipcia, ja que ha um grande vacuo nas fontes conhecidas.

Assim, este artigo pretende ser uma breve sintese sobre a questao e apresentar o que conhecemos atualmente sobre esse tema tao vasto.

Jogos com bola, acrobacias e danca

Uma das atividades mais recorrentes no registro arqueologico sao aquelas com bolas. A tumba de Baqet III, em Beni Hassan, datada do Medio Imperio, mais precisamente da XI dinastia, apresenta, em sua parede norte no terceiro registro, uma serie de representacoes de mulheres com bolas (Kanawati & Woods 2010: 42-43, fig. 54-55). Essas atividades sao assistidas por Baqet III e sua filha, que aparecem na secao esquerda dessa parede, muito provavelmente essas atividades com bolas seriam ligadas ao que hoje chamariamos de malabarismo. A sepultura de Khety, filho de Baqet III, tambem do Medio Imperio, apresenta representacoes semelhantes as do seu pai, com mulheres malabaristas na parede norte (Kanawati & Woods 2010: 49-50, fig. 60-62).

Se as cenas parietais mostram mulheres fazendo malabarismo com bolas ou jogando bolas umas para as outras, diversas bolas conservadas foram encontradas mostrando que a pratica era efetiva. As bolas egipcias eram solidas, feitas de esferas de madeira ou lama, recobertas com couro ou linho costurado, podendo tambem ter recheio de cevada, trapos, grama seca cortada e restos de papiro, bem como serem recobertas com folhas de palmeira trancadas ou papiro trancado; tendo, em geral, um diametro de 3 a 9 cm, sendo bastante pesadas em comparacao as atuais (Tyldesley 2007: 20). As bolas mais bem conservadas sao: a bola de fibra de papiro trancada do Museu do Cairo (JE 68150) e a bola costurada do Manchester Museum (n. 96).

A atividade mais comum executada com bolas parece ter sido o ato de lanca-las para que outra pessoa as pegasse, alem disso, essa atividade parece ter sido exclusivamente feminina (Tyldesley 2007: 21). Ainda que o ato de lancar e pegar bolas pareca algo simples, as egipcias possuiam diversas possibilidades para esse lancamento, mesmo as mais acrobaticas, tais como a representada na tumba de

Baqet III, em que uma mulher esta sobre outra reclinada (Fig. 1). A atividade masculina com bolas parece ter sido um jogo que incluia lancamento e rebatida usando tacos, jogo cujas regras infelizmente nao conhecemos, mas podemos encontrar os tacos no registro arqueologico, tal como o encontrado por Flinders Petrie em Kahun--Manchester Museum (n. 86).

Se homens possuem um jogo de bola e bastao, num contexto menos profano tanto a literatura quanto a arqueologia nos mostram a existencia de um ritual executado pelo farao conhecido como o ritual de bater na bola. Mesmo que as evidencias de execucao dessa atividade aparecam apenas no Novo Imperio, no reinado de Thutmes III, textualmente ela ja era citada nos Textos das piramides, spell 254, o que denota que sua origem deveria ser do Antigo Imperio. Nesse ritual, descrito e registrado nas paredes dos templos, o rei deve bater numa bola lancada com um bastao, diante de Hathor, Mut, Tefnut ou Sekhmet, com o objetivo de destruir o olho mau da serpente Apofis.

Alem do uso de bolas, ha atividades bastante desconcertantes, que para nossa sociedade mais pareceriam jogos infantis, mas que nas representacoes parietais egipcias sao praticadas por adultos, tais como o jogo do rodopio (Fig. 2), jogo do bastao e do aro (Fig. 3), jogo do bastao (Fig. 4) e um jogo nao determinado em que pessoas batem nas costas de outras pessoas (Fig. 5).

Outra pratica fisica bastante presente nas representacoes egipcias de atividades corporais e a danca ou algo como uma danca acrobatica (Fig. 6) que parece ter sido executada tanto por homens quanto por mulheres, sendo composta por piruetas, saltos e exercicios de grande dificuldade, que poderiam ser exibidos como um espetaculo.

Atletismo

As representacoes e textos referentes a atividades que hoje classificariamos como atletismo, tais como corrida e salto, no que concerne ao Egito antigo, parecem ser uma das facetas da formacao militar, assim como uma forma de demonstracao do poder real.

A corrida parece ter sido um importante aspecto da formacao militar. Os corredores percorriam o deserto para entregar mensagens e as cenas parietais de Amarna mostram corredores, como guarda-costas, ao lado dos carros reais. Se o registro dessa atividade como militar e frequente, como esporte nao deixou nenhum traco arqueologico: o primeiro vestigio data da Baixa Epoca, no reinado de Taharqa, na estela de Daschour (685 a.C.), que narra uma corrida do exercito de Menfis ate o Fayum, de ida e volta pelo deserto, o equivalente a 105 km (Tyldesley 2007: 31-32). Essa corrida teria sido observada pelo rei e apresenta a primeira informacao de entrega de premios pelo soberano aos vencedores, o vencedor teria feito a primeira parte da corrida em incriveis quatro horas, sendo que Decker (1993b: 62-66) calculou que a corrida inteira teria sido feita em onze horas.

A pratica do salto tambem parece ter existido, mas nao como competicao. No conto do "Principe predestinado", datado da XIX dinastia, entre os reinos de Sethy I e Ramses II, aquele que desse o salto mais alto ate a torre onde estaria a princesa ganharia a mao dela e o trono de Naharin. O salto aparentemente estava associado as dancas acrobaticas mencionadas anteriormente, bem como a um jogo infantil, conhecido nos paises arabes atualmente como khazza iawizza, em que duas pessoas ficavam uma de frente para a outra com bracos e pernas estendidas, e uma terceira deveria pular sobre os bracos das primeira (Fig. 7).

A tumba de Baqet III, de Beni Hassan, mostra tambem em suas representacoes a pratica do levantamento de peso, isto e, um grupo de homens segurando sacos que parecem pesados e fazendo o movimento para cima e para baixo. Entretanto o significado exato dessas cenas nos escapa.

Esportes aquaticos

Ha poucos relatos acerca de esportes praticados no Nilo, mas a autobiografia de Kheti II, em Assiut, do I Periodo Intermediario, mostra que fazia parte da boa educacao das criancas da elite aprenderem a nadar, e no proprio mito da "Grande Contenda" ha uma competicao de nado entre Horus e Seth (Tyldesley 2007: 50). A natacao, embora nunca tenham sido encontrados locais especificos para sua pratica, parece ser algo bastante conhecido, pois a lingua egipcia possui um determinativo para esse esporte (Fig. 8).

Ainda no dominio aquatico, ha diversas representacoes de pesca, bem como passeios de barcos, remo e combates nauticos. Essas disputas parecem ter sido bastante tradicionais e tipicas dos pescadores, sendo compostas por duas equipes que se enfrentavam, cada uma com um barco de papiro com quatro ou seis integrantes; o grande objetivo era derrubar os adversarios na agua, e a equipe vencedora seria aquela que derrubasse todos os integrantes da equipe adversaria na agua (Decker 1993b: 99-103).

A pesca assim como o remo teriam sido atividades familiares. Relatos e imagens mostram essas praticas como momentos de diversao e distracao nos canais do Nilo. A pesca como hobby era praticada com vara (Fig. 9) ou ainda com arpao, atividade que aparece associada a caca. Ja a pesca como atividade profissional era praticada com redes de arrasto.

Artes marciais

As representacoes de luta sao correntes no registro arqueologico egipcio, tanto como representacoes parietais encontradas nas mastabas do Medio Imperio de Beni Hassan quanto em modelos tridimensionais, tais como estatuetas de lutadores. Apenas em quatro sepulturas da necropole de Beni Hassan ha mais de duzentas representacoes de lutas.

A luta parece ter sido uma atividade ludica que envolvia musica e espectadores, contudo, as regras nao nos parecem tao simples. Pelas imagens deixadas pelos egipcios antigos, podemos identificar diferentes tipos de combate: uma especie de luta livre, com uso dos membros superiores e inferiores (Fig. 10-13); o boxe, com uso apenas dos membros superiores (Fig. 14); combate com espadas; e combate com bastoes.

As representacoes de combate mostram sempre dois oponentes, e o mais comum e que poderiam ser usados tanto os membros superiores quanto inferiores e que o ataque pode ser a qualquer parte do corpo do inimigo, inclusive nas partes intimas. Percebe-se que pela acao das pernas, tem-se um objetivo de derrubar o seu oponente (Fig. 11), mas nao sabemos se essas lutas tinham um tempo determinado, ou como elas acabavam. Nao se tem certeza se a luta deveria ir ate a morte de algum dos combatentes ou se terminaria com uma especie de knockout. Entretanto algumas representacoes (Fig. 13) mostram que os combatentes poderiam sair carregados.

Mesmo que as representacoes mais comuns mostrem uma luta livre, parece que um estilo com posicoes de guarda e uso apenas dos membros superiores, ainda que mais raro, tenha existido, algo como o que hoje chamamos de boxe (Fig. 14). As representacoes desse tipo de combate sao mais comuns no Novo Imperio, sendo que a luta com regras mais livres ja aparece desde o Medio Imperio.

A caca

A atividade de caca parece ter sido algo bastante praticado no Egito Antigo. Os animais de pequeno porte eram cacados para a alimentacao, tais como os peixes cacados com arpao ou as aves; por sinal esse tipo de atividade, de acordo com as representacoes encontradas nas mastabas, parece ter sido uma atividade familiar, em que homens, mulheres e criancas passeiam de barco pelos pantanos juntos. Entretanto, a caca de animais de grande porte, como hipopotamo, touro selvagem e leao, era uma atividade de prestigio praticada pelos homens, em particular pelo farao (Tyldesley 2007: 35).

Aquele que conseguia matar um grande animal poderia absorver seus poderes. Alem disso, aniquilar um ser selvagem seria uma acao analoga a destruicao de isefet e, consecutivamente, a manutencao da maat, uma prerrogativa real. Assim, diversos reis utilizaram cacadas reais ou mesmo ficticias para confirmar suas capacidades fisicas e espirituais enquanto governantes (Wit 1951).

Tento em vista que a caca e associada ao poder real, e que as representacoes de atividades reais possuem valores externos a simples representacoes de um ato verdadeiro, devemos questionar se as cenas de caca representadas pelos reis realmente aconteceram ou se nao eram apenas uma representacao do poder do farao. Para tanto, devemos lembrar que os governantes ptolomaicos se autorrepresentam cacando tartarugas, atividade que em si nao representa perigo e que nao parece ser algo que demostre a forca fisica do rei; mas nao devemos esquecer que a tartaruga e uma das representacoes do deus Seth, o que faz com que esse animal e a representacao de sua caca sejam a imagem da derrota do caos pela ordem. A tartaruga assim como a serpente e o orix representam o estranho, o caos e, portanto, associados ao deus Seth (Tyldesley 2007: 35). Os animais tem significados multiplos na cultura egipcia antiga, e sua caca nao pode ser tomada num unico nivel interpretativo (Vernus 2014), mas diversos significados estao associados a essa atividade, que muitas vezes ultrapassam nossa compreensao.

Acredita-se que o ato de caca seria inicialmente apenas um atributo real, ja que a primeira imagem nao real de cacadores e da V dinastia, na tumba de Niankhkhnum e Khnumhotep, em Saqqarah, sendo uma cena de pesca e caca de aves. A primeira cena conhecida de caca de uma pessoa nao pertencente a realeza, com arco e flecha, data do I Periodo Intermediario, da tumba de Ankhtifi, em Moalla.

Os cacadores egipcios do Novo Imperio puderam se beneficiar de duas invocacoes trazidas pelos Hicsos: os cavalos e os carros puxados por eles. Assim, inicia-se uma nova tecnica de caca, muito mais rapida e ao mesmo tempo perigosa: a caca ao avestruz entra em voga. Esse tipo de caca sobre rodas com arco e flecha parece ter agradado os reis, que descrevem e representam essas acoes em diversos templos, tal como e descrito na estela de Thutmes III em Armant (Touny & Wenig 1969: 35-36) e na estela da esfinge de Amenhotep II (Lichteim 1976: 41-42).

Os egipcios antigos usavam diversas tecnicas e instrumentos de caca, tal como redes, armadilhas, arpao, arco e flecha, macas de guerra e mesmo bumerangues. Cada equipamento era usado para a caca de animais especificos, por exemplo, o bumerangue era empregado para a caca de aves. Mas dentre os metodos de caca, o mais intrigante e o descrito por Herodoto para a caca ao crocodilo:

Eles colocavam uma isca no anzol, um lombo de porco, e a deixavam flutuar ate o meio do rio. Ao mesmo tempo, nas margens, eles pegavam um porco vivo e batiam nele. O crocodilo, ouvindo os gritos, ia na direcao do porco vivo, encontrando a isca, a engole e e arrastado fora da agua. A primeira coisa feita pelo cacador era, assim que ele estava na terra, cobrir os olhos do crocodilo com lama. Isso feito, ele e despachado rapidamente, caso contrario, ele da muito trabalho. (Herodoto 2016: 70)

A caca parece ter tido, alem de uma funcao recreativa, um carater associado a uma representacao de certo grupo da sociedade egipcia, a elite.

A pratica de esportes pela realeza e a saude do Estado

Amenhotep II teria sido o rei mais atletico do Egito e aquele que mais louvava suas conquistas "esportivas", tendo erigido uma estela em Giza, conhecida como a estela da esfinge, que comemora suas habilidades, tais como o manejo do arco e da flecha, a corrida e ate a canoagem (Lichteim 1976: 41-42). Na verdade, e muito importante para o governante enaltecer suas habilidades fisicas, pois a saude do farao e um duplo representativo da saude do Estado.

Esse padrao de associacao das aptidoes fisicas do rei com seu vigor politico e do pais esta presente desde ao menos o Antigo Imperio, momento em que os reis deviam realizar performances atleticas, tais como a corrida, diante de um publico constituido pela elite egipcia, demonstrando assim suas habilidades para governar as duas terras. Esse tipo de acao e retratada na maca de guerra de Narmer, conservada no Ashmolean Museum (AN1890.1908.E.3631), datada do inicio do periodo dinastico. Outro documento que denota a importancia desse ritual e a pedra de Palermo, datada do Antigo Imperio, que aborda o tema do "circuito das paredes", que envolveria uma caminhada ou corrida em torno das paredes da capital, Menfis (Tyldesley 2007: 29-30).

Mas o mais conhecido e perene e o ritual real do heb sed, primeiramente registrado em Abidos na tumba do farao Den da primeira dinastia. Essa cerimonia era feita, geralmente, no trigesimo ano de reinado de cada farao e, depois, a cada tres anos. Nesse festival, que e mais bem documentado no complexo funerario de Djoser da III dinastia, o rei devia fazer uma corrida contra um inimigo invisivel, a idade avancada, e precisava mostrar suas habilidades para provar que ainda possuia vigor e forca para administrar o pais. Esse ritual servia como um meio de revigorar o rei e diversos governantes o realizavam em momentos que sentiam seu poder enfraquecido.

Como foi brevemente tratado no item sobre a caca, a forma fisica do rei estava associada com a manutencao da ordem da sociedade, pois era de sua responsabilidade garantir a seguranca de seu povo contra os inimigos externos. Por extensao, esses inimigos e o caos inerente a eles eram associados aos animais selvagens e fazia parte do imaginario, principalmente do Novo Imperio, mostrar os reis como combatentes e grandes cacadores de animais considerados perigosos. Assim, mostrarse como um governante que controlava as forcas naturais era mais uma demonstracao da vitoria da ordem egipcia diante do caos externo.

Nota-se, inclusive, um possivel exagero no elogio as vitorias dos faraos diante das feras. No Novo Imperio, diversos reis produzem escaravelhos comemorativos de grandes cacadas como propaganda real. Amenhotep III foi um dos reis a fazer uso desse tipo de artificio, exaltando em um escaravelho a caca a dezenove touros selvagens (Fig. 16) e em outro escaravelho, a caca de cento e dez leoes com seu arco, entre o primeiro e decimo ano de reinado (Fig. 15).

Era esperado que um rei fosse um eximio arqueiro, conseguisse correr, conhecesse a equitacao e o manejo do carro, a partir do Novo Imperio, bem como cacasse e ainda conseguisse remar. A unica atividade que nao parece ter feito parte do conjunto das aptidoes requeridas ao rei era a luta. Nao ha representacoes de artes marciais associadas aos reis, e isso parece ter sido algo externo as esferas reais.

Nao sabemos ao certo os significados das praticas que hoje conhecemos como esportivas, ja que o proprio conceito de esporte enquanto vocabulo inexiste para essa civilizacao. Todavia, as praticas fisicas existiram e eram frequentes, como os textos e a arqueologia podem mostrar.

A atividade fisica para os egipcios antigos parece estar relacionada tanto aos espetaculos como a um treino militar, no que concerne a luta, por exemplo; da mesma maneira, aspectos religiosos e alimentares permeiam a caca, assim como o poder do farao e sua vitalidade em combater o caos inerente ao mundo selvagem. Assim, a atividade "esportiva" no Egito antigo teria ultrapassado os limites de uma acao fisica, permeando diversos niveis de compreensao, ate o religioso, sendo uma representacao do combate entre a ordem, maat, e o caos, isefet.

Notemos, por fim, que se a associacao com o poder real, bem como com a religiao, e evidente e tangivel por meio dos textos e representacoes parietais, nao podemos deixar de notar que as fontes mais abundantes sao provenientes desses contextos. Devemos, assim, nos manter vigilantes para que nao se perca nos estudos uma possivel conotacao profana e quotidiana que pode ter sido menos evidente, tanto nos registros textuais quanto no arqueologico.

Referencias bibliograficas

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Herodoto. 2016. Historias--Livro 2--Euterpe. Sao Paulo: Edipro.

Houaiss. 2009. Dicionario eletronico Houaiss da lingua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. Versao 3.0 [CD-ROM].

Kanawati, N.; Woods, A. 2010. Beni Hassan: art and daily life in an Egyptian province. Supreme Council of Antiquities, Cairo.

Lichtheim, M. 1976. Ancient Egyptian literature: the new kingdom. University of California, Berkeley.

Sahrhage, D. 1998. Fischfang und Fischkult im alten Agypten. Philipp von Zabern, Mainz.

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Tyldesley, J.A. 2007. Egyptian games and sports. Shire, Princes Risborough.

Vernus, P. 2014. Les animaux: un materiau symbolique faconne par la pensee religieuse. In: Guichard, H. (Dir.). Des animaux et despharaons: le regne animal dans l'Egypte ancienne. Somogy Editions d'Art, Paris, 224-229.

Wit, C. 1951. Le role et le sens du lion dans l'Egypte ancienne. E.J. Brill, Leiden.

Cintia Alfieri Gama-Rolland, Pesquisadora associada da Ecole Pratique des Hautes Etudes (EPHE), coordenadora e professora no Centro Universitario das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e posdoutoranda pelo Museu Nacional. <gamacintia@hotmail.com>

Caption: Fig. 1. Mulheres jogando bola.

Caption: Fig. 2. Jogo do Rodopio, tumba de Baqet III, parede norte.

Caption: Fig. 3. Jogo do bastao e do aro, tumba de Khety, parede sul.

Caption: Fig. 4. Jogo do bastao, tumba de Baqet III, parede sul.

Caption: Fig. 5. Jogo indeterminado, tumba de Khety, parede sul.

Caption: Fig. 6. Danca acrobatica, tumba de Baqet III, parede norte.

Caption: Fig. 7. Cena do jogo do pulo na tumba de Ptahhotep, Saqqarah.

Caption: Fig. 8. Determinativo para natacao

Caption: Fig. 9. Pesca com vara, tumba de Nebwenenef, XIX dinastia.

Caption: Fig. 10. Cena completa de luta, tumba 15 de Baqet III, Beni Hassan.

Caption: Fig. 11. Cena de luta, tumba de Amnemhat parede leste, Beni Hassan.

Caption: Fig. 12. Cena de luta, tumba de Khety parede leste, Beni Hassan. Fonte: Kanawati & Woods (2010: fig. 80).

Caption: Fig. 13. Cena de final luta, tumba de Khety parede sul, Beni Hassan. Fonte: Kanawati & Woods (2010: fig. 63).

Caption: Fig. 14. Cena de combate com membros superiores, tumba de Kheruef, Tebas TT192. Fonte: Decker (1993a: 459).

Caption: Fig. 15. Escaravelho comemorativo da caca de leoes por Amenhotep III, XVIII dinastia, comemorando a caca de 110 leoes com seu arco, entre o primeiro e o decimo ano de reinado. Fonte: Metropolitan Museum (26.7.264).

Caption: Fig. 16. Escaravelho de Amenhotep III, comemorando a caca de dezenove touros selvagens no segundo ano de reinado, XVIII dinastia.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Gama-Rolland, Cintia Alfieri
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2018
Words:3978
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