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Anatomia e cinetica de degradacao do feno de Manihot glaziovii.

Introducao

A vegetacao nativa do semiarido brasileiro possui grande biodiversidade em seu extrato herbaceo, arbustivo, arboreo, sendo muitas especies potencialmente forrageiras. A manicoba (Manihot glaziovii), por sua adaptabilidade as condicoes semiaridas, e por seu elevado valor nutritivo e pela alta palatabilidade, destaca-se como alternativa alimentar para a producao animal nesta regiao. Entretanto, para sua utilizacao como forrageira, a manicoba deve ser consumida na forma de feno ou silagem, pois possui compostos secundarios (glicosideos cianogenicos) que podem formar substancias toxicas aos herbivoros quando ingerida in natura (SALVIANO; NUNES, 1988; MATOS et al., 2005).

Os glicosideos cianogenicos, presentes nos vacuolos celulares, quando hidrolisados pelas enzimas presentes na parede celular formam acido cianidrico (HCN), que e toxico para os mamiferos. Alem daqueles, taninos tambem estao presentes na manicoba e conforme sua concentracao, estrutura e peso molecular, afetam a digestibilidade da proteina por formarem complexos com proteinas da dieta (VAN SOEST, 1994), podendo, ainda, reagir com polimeros de celulose, hemicelulose, pectina e minerais, indisponibilizando-os para os microrganismos (OLIVEIRA et. al., 2009). Estes compostos secundarios sao provavelmente sintetizados como estrategia de defesa do vegetal contra predadores (SWAIN, 1977) e interferem na nutricao animal, influenciando a ingestao e a digestibilidade das plantas forrageiras.

A manicoba deve ser cortada antes do inicio da frutificacao, pois a concentracao dos nutrientes e, consequentemente, a digestibilidade diminui com o avanco do desenvolvimento da planta. Este fato esta correlacionado com a anatomia dos orgaos vegetativos, com o grau de lignificacao e porcentagem dos tipos de tecidos que constituem os caules e folhas (AKIN, 1989). A partir da caracterizacao morfoanatomica do colmo de 10 genotipos de milho, verificou-se correlacao positiva entre os teores de lignina com as quantidades de celulas lignificadas no parenquima e cortex e correlacao negativa entra a digestibilidade da parede celular e a proporcao de celulas lignificadas no parenquima medular e celulas lignificadas no cortex (FERREIRA et al., 2007). Desta forma, os estudos sobre a anatomia vegetal associados a digestibilidade sao de fundamental importancia na determinacao do valor nutritivo de determinada forrageira (FERREIRA et al., 2007; MECHIN et al., 2005; PACIULLO et al., 2002).

O uso de tecnicas microscopicas na avaliacao da anatomia de forrageiras e uma importante ferramenta que auxilia na descricao de fatores que influenciam a sua degradacao pelos microrganismos do rumen (LEMPP, 2007). Em estudos de microscopia sao encontradas diferencas na anatomia da planta e dos gradientes de lignificacao celular que afetam a digestibilidade entre especies e partes da planta numa mesma especie (AKIN, 1989). Estes estudos auxiliam no direcionamento de futuras pesquisas quanto ao melhoramento de plantas mais digestiveis.

Objetivou-se com este estudo relacionar os aspectos da anatomia, composicao quimica e degradabilidade in situ do feno de manicoba com os aspectos relativos a degradabilidade de seus tecidos.

Material e metodos

O feno de manicoba foi confeccionado a partir de plantas em inicio de frutificacao, oriundas de vegetacao de caatinga em Ibimirim, Estado do Pernambuco. Foram coletadas as porcoes superiores das plantas com maiores quantidades de folhas e caules finos, lisos, e verdes, com espessura de aproximadamente 1,0 cm de diametro. Em seguida, este material foi picado por maquina forrageira em particulas de aproximadamente 2 cm e exposto ao sol sobre quadra de cimento para secagem; o ponto de feno foi obtido em dois dias e uma lona foi utilizada durante a noite para prevenir o acumulo de umidade. Por fim, o feno foi acondicionado em sacos de rafia e armazenado em galpao coberto.

A partir de uma amostra composta da planta in natura, retirou-se uma subamostra, e tres amostras da manicoba na forma de feno foram coletadas aleatoriamente; ambas foram levadas para o Laboratorio de Nutricao Animal do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) para a determinacao dos teores de materia seca (MS), materia organica (MO), materia mineral (MM), proteina bruta (PB), extrato etereo (EE), fibra em detergente neutro (FDN), fibra em detergente acido (FDA) e lignina, segundo as marchas analiticas descritas por Silva e Queiroz (2002). A determinacao da porcentagem de carboidratos totais (CHOT (%) = 100 - (%PB + %EE + %MM)) e carboidratos nao-fibrosos (CNF (%) = 100 - (%FDN + %PB + %EE + %MM)) seguiram as recomendacoes de Van Soest et al. (1991).

Os compostos secundarios foram determinados no Laboratorio de Bioquimica Vegetal do Departamento de Quimica/Quimica Agricola da UFRPE, segundo metodologias da AOAC (1980), sendo os taninos determinados, de acordo com o metodo de Folin-Denis. De cada amostra foram retirados dois extratos para determinacao de fenois totais e com o uso de Polivinilpirrolidona (PVP), para a precipitacao de taninos, foram determinados fenois nao-tanicos, obtendo-se, por diferenca, o teor de taninos.

A avaliacao da degradabilidade in situ foi realizada utilizando-se tres caprinos adultos, com fistula permanente no rumen e media de peso vivo de 50 kg, alojados em baia individual, recebendo duas refeicoes diarias, pela manha e a tarde, composta por aproximadamente 0,3 kg de feno de manicoba, 0,7 kg de feno de tifton, agua e mistura mineral, a vontade, alem de 0,15 kg de concentrado formulado para atender exigencias de mantenca de acordo com NRC (2007).

O periodo experimental foi de 11 dias, sendo sete para adaptacao alimentar e quatro para incubacao das amostras no rumen. Para isso, as amostras foram previamente moidas passando por peneira com crivo de 2 mm, pesadas (1,7 g) e acondicionadas em sacos de nailon medindo 5 x 8 cm, com porosidade de 36 micras, obedecendo a relacao de 20 a 25 mg de amostra por [cm.sup.2]. Os tempos de incubacao foram de 0, 6, 12, 24, 48, 72 e 96h, com duas repeticoes por tempo e animal.

Apos a remocao do rumen, os sacos foram imediatamente imersos em baldes contendo agua e gelo visando a paralisacao da atividade microbiana. Posteriormente, foram lavados em agua corrente para a retirada do excesso de material do rumen, sendo, entao, congelados. Para as avaliacoes, os sacos foram descongelados e lavados em maquina com baixa rotacao, durante 1 min. Esse processo foi repetido ate que a agua de lavagem se mostrasse limpa. Em seguida, os sacos foram colocados em estufa com ventilacao forcada a 55[grados]C por 72h e as amostras foram moidas passando por peneira com crivo de 1 mm, sendo entao armazenados em frascos de polietileno devidamente identificados para as futuras determinacoes de MS e FDN.

O desaparecimento da MS e FDN foram calculados pela diferenca de pesagens dos sacos antes e apos a incubacao, com base na materia seca. Os dados do desaparecimento foram ajustados pelo modelo proposto por Orskov e McDonald (1979) para expressar a degradabilidade dos alimentos: p = a + b (1 - e-ct), em que "p" e a degradabilidade potencial, "a" e a fracao soluvel, "b" e a fracao potencialmente degradada e, "c" a taxa constante de degradacao da fracao "b".

Os parametros nao-lineares "a", "b" e "c" foram estimados por meio do software Naway Program, desenvolvido pelo Rowett Research Institute. As degradabilidades efetivas da MS (DEMS) e da FDN (DEFDN) no rumen foram calculadas usando a seguinte equacao: DEMS ou DEFDN= a + (b x c/c + k) (ORSKOV; McDONALD, 1979), em que "k" e a taxa estimada de passagem dos solidos no rumen. Os demais parametros ja foram descritos anteriormente.

A degradabilidade efetiva da MS e da FDN foi estimada assumindo-se taxas de passagem no rumen de 2, 5 e 8% [h.sup.-1], atribuida ao nivel baixo, medio e alto de ingestao (ARC, 1984).

Para a avaliacao da degradabilidade dos tecidos de feno de manicoba pela biota ruminal, cinco segmentos de aproximadamente 2 cm de comprimento de ambos, lamina foliar e caule, foram submetidos a digestao ruminal (caprino adulto fistulado) por um periodo de 48h. Cada segmento de folha juntamente com um segmento de caule foram acondicionados em um tubo de silicone de 3,5 x 1,0 cm envolto por tecido de nailon. Os cinco conjuntos foram acondicionados em uma sacola de nailon apropriada para ensaios de degradabilidade in situ. Utilizou-se esta forma de protecao a fim de evitar que a pressao exercida pelos movimentos do rumen fragmentasse as amostras de acordo com Lima et al. (2001). Ao final do tempo de incubacao, o material foi removido, fixado em F.A.A. 70% (Formol:Acido acetico:Etanol 70%, 5:5:90). No Laboratorio de Fitomorfologia Funcional do Departamento de Biologia/Botanica da UFRPE cada segmento (colmo e folha) foi seccionado a mao livre, foram montadas laminas semipermanentes coradas com solucao Safrablau, recebendo uma gota de glicerina aquosa a 35% para conservacao dos cortes e melhor aderencia da laminula. O estudo das amostras degradadas, bem como a anatomia descritiva do caule e folha da manicoba (amostras aleatorias), foi realizado utilizando imagens digitais de seccoes transversais e paradermicas, obtidas com camera digital, microscopio optico e programa de analise de imagens, Image Tool (WILCOX et al., 2002). Foram feitas determinacoes da espessura da parede celular das celulas de esclerenquima (|im), espessura da cuticula (|im) e numero e area transversal ocupada por fibras esclerenquimaticas (|im2). As terminologias e classificacoes utilizadas neste estudo seguiram as recomendacoes de Metcalfe e Chalk (1988). As imagens digitais foram processadas usando Photoshop versao 7.0 (Adobe Systems) para melhorar o contraste, quando necessario, e inserir escalas e legendas nas figuras.

Resultados e discussao

As medias relativas a composicao quimica e compostos secundarios do feno de manicoba (Tabela 1) indicam a capacidade da tecnica de conservacao de forragem empregada para manter os nutrientes e reduzir o teor de HCN. No feno, os componentes quimicos da parede celular, FDN, correspondem a menos de 50% da MS (Tabela 1), pela expressiva quantidade de folhas em sua composicao e maior ou menor quantidade de tecidos constituidos de celulas com paredes espessadas. A FDN e maior no caule do que nas folhas, visto que o caule contem mais tecidos de conducao e fibras que se caracterizam por apresentar parede secundaria mais lignificada (Tabela 1 e Figura 1). Segundo Akin (1989), tecidos como o xilema e esclerenquima contribuem para a baixa qualidade da forragem por apresentarem parede celular bastante espessa.

A quantidade de taninos encontrada no feno de manicoba foi de 1,87% (Tabela 1). De acordo com Cruz et al. (2007), os taninos tem importante acao antinutricional quando ultrapassam o teor de 5% na MS da dieta. Estes autores, estudando o teor de taninos em manicoba, constataram nao haver influencia do teor de taninos condensados na manicoba (1,64%) com sua digestibilidade. Barry (1985) e Barry e Duncan (1984), trabalhando com ovinos alimentados com uma dieta a base de Lotus pendiculatus, registraram reducao do consumo, digestibilidade e producao de la quando a porcentagem de taninos condensados variou de 8 a 10%, respectivamente. A fenacao, realizada nesta pesquisa, promoveu reducao de 83,2% no teor de HCN, semelhante a variacao ocorrida com o processo de ensilagem da manicoba (MATOS et al., 2005). Desta forma, os teores de HCN encontrados na manicoba conservada, em ambas as pesquisas, sao irrelevantes para causar toxidez aos ruminantes em geral, uma vez que Soares (2000) constatou efeito toxico em caprinos, apenas quando estes consumiam teores superiores a 2,4 mg HCN kg-1 PV.

As Figuras 1 e 2 (A, B, CeD) mostram a estruturacao anatomica da folha e do caule de manicoba (Manihot glaziovii) conservada na forma de feno, respectivamente.

Diversos aspectos apresentados neste trabalho sao ineditos para a especie vegetal estudada, incluindo sua classificacao anatomica semelhante a uma planta com via fotossintetica C3 (Figura 1A). Fato que evidencia a necessidade de estudos acerca dos ciclos de fixacao do carbono a fim de determinar o tipo de metabolismo fotossintetico desta especie. De acordo com Salisbury e Ross (1992), muitas especies CAM (Metabolismo Acido das Crassulaceas) podem ser encontradas na familia das Euphorbiaceaes. No entanto, El-Sharkawy et al. (1989) sugeriram que a mandioca pode ser uma especie de metabolismo intermediario C3/C4. A anatomia das C3 favorece sua ingestao e, consequentemente, sua digestibilidade, pelo arranjo do mesofilo com mais espacos intercelulares do que em plantas C4, alem de mais espacos entre os feixes vasculares.

[FIGURE 1 OMITTED]

[FIGURE 2 OMITTED]

Nas folhas da manicoba, o tecido esponjoso e formado por quatro-cinco camadas de celulas braciformes e muitos espacos intercelulares (Figura 1B). A presenca da estrutura girder na lamina foliar (Figura 1C) e um significante caractere taxonomico (WILSON, 1993). Esta estrutura auxilia na sustentacao de feixes vasculares no interior do mesofilo, por meio da extensao de celulas da bainha (que podem ser lignificadas) em direcao as epidermes; quanto maior o grau de lignificacao destas celulas, maior sera a dificuldade na sua degradabilidade. Alem disto, a quantidade destas estruturas na planta pode limitar a desagregacao dos tecidos durante a mastigacao (WILSON, 1993).

Foram encontrados muitos idioblastos contendo em seu interior cristais de oxalato de calcio, de diferentes tamanhos, principalmente na regiao da nervura principal das folhas no feno de manicoba (Figura 1D). A ingestao dos oxalatos, presentes nas plantas, pode levar o animal a disturbios metabolicos, a lesoes nervosas e renais e, ainda, interferir na absorcao de nutrientes essenciais no intestino, reduzindo sua biodisponibilidade. No feno de manicoba, entretanto, pelo fato dos idioblastos estarem associados a fracao de mais baixa digestibilidade da planta, o calcio apresenta-se indisponivel para o animal e os cristais de oxalato tendem a passar intactos pelo trato digestivo dos animais (NICODEMO; LAURA, 2001). Contudo, tendo em vista o percentual de materia mineral (Tabela 1) do feno de manicoba e importante que se determine o teor de acido oxalico, a fim de ser averiguada a biodisponibilidade potencial de seus minerais.

As folhas, por serem constituidas por um grande percentual de tecidos com celulas que apresentam apenas parede primaria sem lignificacao (especialmente parenquima palicadico e esponjoso), mostram maiores sinais de degradacao. Portanto, praticamente apenas as celulas de conducao do xilema se mantiveram integras, apos acao dos microrganismos ruminais por 48h. Alguns poucos fragmentos de parede das demais celulas que constituem as folhas puderam ser identificados, mas nao resistiram ao seccionamento no momento de confeccao das laminas histologicas.

No caule, foram encontrados 24 grandes elementos de conducao e 112 fibras esclerenquimaticas com paredes espessadas e lignificadas ocupando uma area transversal de 475,91 |am2 (Figuras 2A e B). Destaca-se uma camada de fibras gelatinosas constituida por tres estratos de celulas com parede secundaria lignificada, 2,33 [micron] m (Figuras 2C e D) e espessa camada lamelar 2,47 [micron] m, em direcao ao lumen. Numa area de 8.194,28 [micron] [m.sup.2] foram encontradas 21 fibras gelatinosas, indicando a ocupacao media de uma destas celulas numa area de 0,22 [micron] [m.sup.2]. Estas celulas apresentam caracteristicas que permitem sua classificacao como fibras gelatinosas, semelhantes aquelas definidas por Tomlinson (2003). Podem ser consideradas armazenadoras de agua, como caracteristica xeromorfica das plantas da caatinga, pela marcante presenca da celulose, que e hidrofila (MARCATI et al., 2001).

Os segmentos caulinares indicaram maior fragmentacao nas extremidades (Figuras 3A e B), em que o liquido ruminal penetrou mais facilmente no interior dos tecidos que o compoem. Alem disso, a degradacao e maior quando o acesso dos microrganismos aos tecidos e facilitado, evidenciando que as caracteristicas fisicas da parede celular sao as principais limitantes a degradabilidade de tecidos vegetais pelos microrganismos ruminais.

Considerando as fibras gelatinosas presentes no caule, a maior resistencia a degradabilidade e consequencia da espessura das camadas que compoem a parede secundaria e nao do grau de lignificacao de uma delas, visto que a taxa de degradabilidade foi igual (0,02 [micron] m [h.sup.-1]) em ambas as camadas, as quais reduziram sua espessura em quase 50%, 1,44 e 1,27 [micron] m, respectivamente, apos 48h de incubacao ruminal (Figuras 3C, D, E e F). Wilson e Mertens (1995) encontraram que paredes de espessura moderada, como em fibras de esclerenquima (2,4 [micron]m), reduziram apenas 37,5% (0,9 [micron]m), apos 48h de incubacao, aproximadamente a mesma taxa (0,01875 [micron]m h-1) encontrada aqui. As fibras gelatinosas apresentaram sinais de degradacao diferenciada nas regioes mais externas (Figuras 3C e E) e internas (Figuras 3D e F) do fragmento caulinar.

As paredes celulares dos elementos de conducao do xilema do caule apresentaram a espessura da parede secundaria lignificada oscilando entre 2,38 e 2,66 [micron] m, sem variacoes em decorrencia da degradacao apos 48h em contato com o liquido ruminal. Segundo Akin (1989), os tecidos como o xilema e esclerenquima sao formados por celulas de parede secundaria espessa, contribuindo desta forma, para a baixa qualidade da forragem.

As celulas do parenquima medular do caule (Figura 2A) apresentaram leve grau de lignificacao, identificadas pela coloracao vermelha especifica com floroglucinol (seta), ocupando uma area de 2.159,64 [micron]a[m.sup.2], apesar da parede delgada (= 0,48 [micron]am) das suas celulas, nao foi observada nenhuma alteracao de degradacao apos 48h em contato com o liquido ruminal. De acordo com Wilson (1993), o parenquima pode contribuir, significativamente, para a indigestibilidade dos vegetais, em consequencia do volume que ocupa e por serem capazes de desenvolver uma parede secundaria espessa e lignificada. Adicionalmente, a proporcao de lamela media entre as paredes primarias das celulas parenquimaticas da regiao medular, com algum grau de lignificacao, age como um cimento que envolve cada celula individualmente, fazendo com que a estrutura do tecido permaneca integra (WILSON, 1993).

[FIGURE 3 OMITTED]

No feno de manicoba, a degradabilidade potencial da MS foi de quase 60% (Tabela 2), justificada por boa participacao de folhas em sua composicao, as quais, apesar do seu estado de maturidade (inicio da frutificacao), apresentam tecidos com paredes menos espessadas e pouca lignificacao, na maioria deles (Figura 2A). Este dado pode ser relacionado aos 58% de reducao da camada lamelar das fibras gelatinosas, estendendo-se ou ampliando-se esta taxa para tecidos com igual ou menor espessura de parede, exceto xilema, o qual nao apresentou reducao.

A baixa degradabilidade de FDN (Tabela 2) pode ser atribuida, principalmente, a quantidade dos elementos de conducao do xilema que, embora apresentem paredes de espessura moderada (WILSON; MERTENS, 1995) nao apresentaram reducao, tanto no caule como nas folhas, pelo elevado grau de lignificacao de suas paredes. Nas extremidades do fragmento caulinar com pronto acesso aos microrganismos (Figura 3A), observou-se a degradacao das fibras esclerenquimaticas constituintes do feixe vascular, ficando intactos apenas os elementos de conducao do xilema, talvez pelo mesmo motivo da ausencia de degradabilidade encontrada no parenquima medular.

Segundo o ajuste dos dados relativos ao desaparecimento da MS e da FDN, pelo modelo proposto por Orskov e McDonald (1979), para expressar a degradabilidade potencial do feno de manicoba, observa-se a baixa degradabilidade da FDN do material estudado, concordando com a degradacao dos tecidos do caule observada histologicamente (Figura 3), que contem a maior proporcao de vasos vasculares, mais lignificados e de paredes celulares mais espessas.

A fracao soluvel (a) da fibra em detergente neutro do feno de manicoba foi inexistente; ja a taxa de degradacao da fracao lentamente degradavel (c) foi muito baixa em relacao a manicoba conservada na forma de silagem (SOUZA et al., 2006), esse comportamento resultou em elevada fracao nao-degradada de FDN, e em consequencia, registraram-se baixas degradabilidades da FDN, tanto potencial e, principalmente, efetiva, em todas as taxas de passagem avaliadas. No feno em estudo, o valor da fracao b para o FDN foi muito proximo a registrada para a MS. Com relacao a MS, a fracao rapidamente degradada obteve valores proximos aos obtidos para silagem de manicoba emurchecida de Souza et al. (2006) e a degradabilidade potencial foi superior aos 46,05% encontrada para o feno produzido por Vasconcelos (1999) citado por Souza et al. (2006).

A porcentagem de desaparecimento da FDN e da MS foi mais acentuado ate, aproximadamente, 24 e 48h de incubacao, respectivamente, com um discreto acrescimo nos tempos subsequentes (Tabela 3), sustentando a escolha do tempo de 48h para a incubacao dos tecidos in situ, a fim de estudar sua degradacao anatomica, o mesmo tempo foi utilizado nos estudos realizados in situ por Lima et al. (2001) e in vitro por Paciullo et al. (2002).

Conclusao

O feno de manicoba possui adequada composicao quimica e baixos teores de HCN e taninos.

Os principais limitantes a degradabilidade sao o espessamento e lignificacao das paredes celulares, especialmente nos tecidos do caule.

Atribui-se a degradabilidade da MS a maior proporcao de folhas que compunham o feno, visto que a anatomia de seus tecidos revela paredes celulares delgadas de mais facil degradacao em relacao ao caule.

A presenca de fibras gelatinosas e um aspecto anatomico diferenciado e sua degradabilidade e influenciada pela espessura de suas paredes.

DOI: 10.4025/actascianimsci.v32i2.8800

Received on November 19, 2009. Accepted on March 24, 2010.

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Andrezza Araujo de Franca (1)*, Adriana Guim (2), Angela Maria Vieira Batista (2), Rejane Magalhaes de Mendonca Pimentel (3), Geane Dias Goncalves Ferreira (4) e Isis Darlene Saboia Leal Martins (5)

(1) Programa de Pos-graduacao em Zootecnia, Universidade Federal da Paraiba, Campus II, 583997-000, Areia, Paraiba, Brasil. (2) Departamento de Zootecnia, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, Pernambuco, Brasil. (3) Departamento de Biologia/Botanica, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, Pernambuco, Brasil. (4) Unidade Academica de Garanhuns, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Garanhuns, Pernambuco, Brasil. (5) Departamento de Agronomia, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, Pernambuco, Brasil *Autorpara correspondencia. E-mail: andrezza.franca@gmail.com
Tabela 1. Composicao quimica e compostos secundarios do feno
de manicoba (Manihot glaziovii).

                  Manicoba (% materia seca)
Variaveis (%)         Natural   Feno

MS (1)                 20,30    87,79
MM (2)                  6,69     9,95
EE (3)                  5,62     5,23
PB (4)                 13,66    16,06
FDN (5)                43,00    42,82
FDA (6)                30,92    30,80
Lignina                11,00    11,02
MO (7)                 93,31    90,05
CHOT (8)               74,03    68,76
CNF (9)                30,41    25,94
Taninos                 1,58     1,87
[HCN.sup.10] mg       512,83    86,34
[kg.sup.-1] MS

(1) Materia seca; (2) Materia mineral; (3) Extrato etereo; (4) Proteina
bruta; (5) Fibra em detergente neutro; (6) Fibra em detergente acido;
(7) Materia organica; (8) Carboidratos totais; (9) Carboidratos
nao-fibrosos; (10) Acido cianidrico.

Tabela 2. Medias dos parametros da degradacao da materia
seca (MS) e fibra em detergente neutro (FDN) do feno de
manicoba (Manihot glaziovii) incubado no rumen de caprinos.

                              Feno de manicoba

Parametros
da degradacao               MS            FDN

a (%)              27,47 [+ or -] 0,79   -0,85 [+ or -] 2,53
b (%)              30,52 [+ or -] 2,15   29,74 [+ or -] 4,25
c (% (h.sup.-1])    5,35 [+ or -] 2,05    4,42 [+ or -] 3,04
FND                42,01 [+ or -] 1,50   71,12 [+ or -] 5,39
DP                 57,99 [+ or -] 1,50   28,88 [+ or -] 5,39
                              DE
2                  49,35 [+ or -] 2,45   19,92 [+ or -] 2,49
5                  42,96 [+ or -] 2,71   11,83 [+ or -] 2,76
8                  39,50 [+ or -] 2,48    8,84 [+ or -] 2,27

(a) Fracao soluvel; (b) potencialmente degradada; (c) taxa de
degradacao; (FND) fracao nao-degradada (DP) degradabilidade
potencial;  (DE) degradabilidade efetiva a 2, 5 e 8% [h.sup.-1].

Tabela 3. Medias do desaparecimento da materia seca (MS) e fibra
em detergente neutro (FDN) do feno de manicoba (Manihot glaziovii)
em funcao do tempo de incubacao no rumen de caprinos.

                              Desaparecimento (%)

Horas de incubaca            MS                   FDN

0                   27,80 [+ or -] 2,36   -1,97 [+ or -] 0,00
6                   36,85 [+ or -] 1,60   09,72 [+ or -] 5,30
12                  39,82 [+ or -] 4,56   09,61 [+ or -] 0,43
24                  48,97 [+ or -] 1,99   23,47 [+ or -] 6,89
48                  52,37 [+ or -] 3,50   21,17 [+ or -] 1,58
72                  54,60 [+ or -] 2,89   23,94 [+ or -] 4,05
96                  55,29 [+ or -] 3,23   26,72 [+ or -] 3,61
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Author:Araujo de Franca, Andrezza; Guim, Adriana; Vieira Batista, Angela Maria; de Mendonca Pimentel, Rejan
Publication:Acta Scientiarum Animal Sciences (UEM)
Article Type:Report
Date:Apr 1, 2010
Words:5375
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