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Analise da atencao a saude bucal na Estrategia de Saude da Familia do Distrito Sanitario VI, Recife (PE).

Analysis of oral health attention in the Family Health Strategy of the Sanitary District VI, Recife, Pernambuco State

Introducao

O Programa de Saude da Familia (PSF) e uma estrategia para a reorganizacao da atencao basica, que busca a vigilancia a saude por meio de um conjunto de acoes individuais e coletivas, situadas no primeiro nivel de atencao, voltadas para a promocao, prevencao e tratamento dos agravos a saude. Atraves dele, o Ministerio da Saude (MS) pretende reorientar o modelo assistencial a partir da atencao basica, imprimindo uma nova dinamica para a consolidacao do SUS (1). A partir dai, o programa passa a enfocar a familia como unidade de acao programatica de saude e nao mais o individuo.

Esse programa teve sua origem em 1991 com o Programa dos Agentes Comunitarios (PACS). Sua consolidacao veio em 1994, quando foi normatizado e adotado como politica de intervencao assistencial pelo Ministerio da Saude, que se propunha superar o modelo de assistencia a saude, marcado pelos servicos hospitalares baseados em acoes curativas (2). A regulamentacao da Equipe de Saude Bucal (ESB) na Estrategia de Saude da Familia somente ocorreu por meio da Portaria no 1.444, de 28 de dezembro de 2000 (3), que estabeleceu incentivo financeiro para a reorganizacao da atencao a saude bucal prestada nos municipios.

Uma caracteristica das equipes de Saude da Familia deve-se ao fato de constituirem a principal "porta de entrada" do sistema de atencao, com devida integracao a uma rede de servicos, estabelecendo-se um sistema de referencia e contrarreferencia que garanta resolutividade e possibilite o acompanhamento dos pacientes (4).

Entretanto, para a organizacao da demanda acumulada nos servicos, recomenda-se a realizacao de levantamentos epidemiologicos, levantamento de necessidades imediatas e a avaliacao de risco para subsidiar o planejamento com dados da realidade populacional. Esse processo, no entanto, precisa ser acompanhado, utilizando-se um sistema de informacao que disponibilize os dados, produzindo informacoes consistentes, capazes de gerar novas acoes. A rotina de trabalho das equipes de Saude da Familia inclui processos de conhecimento do territorio e da populacao, bem como da dinamica familiar e social, que se constituem em subsidios valiosos ao planejamento, ao acompanhamento de acoes e a avaliacao (5).

Para concretizar a insercao da odontologia no Programa de Saude da Familia, e preciso entende-lo como uma estrategia para consolidacao do Sistema Unico de Saude, respeitando seus principios "sagrados" de participacao popular, integralidade, equidade, universalidade, hierarquizacao e regionalizacao (6).

Para o avanco das acoes realizadas na ESF (Estrategia Saude da Familia), ressalta-se a importancia do trabalho em equipe, principalmente pelo aspecto de integralidade nos cuidados de saude. Considerado um dos principios doutrinarios do Sistema Unico de Saude (SUS), a integralidade reveste-se, no decorrer dos anos noventa e, principalmente, neste inicio de seculo, de uma importancia estrategica impar para a consolidacao de um novo modelo de atencao a saude no Brasil (7).

Entretanto, observa-se que o historico das praticas do cirurgiao-dentista (CD) se caracteriza pela intervencao individual e meramente clinica para uma clientela reduzida, ocorrendo, por demanda espontanea, o que ainda e muito visto nos servicos publicos, incluindo o PSF. Esse tipo de assistencia reproduz o modelo ineficaz e de baixo impacto da pratica privada, com enfase em atividades restauradoras (8).

Apesar de se observarem alguns avancos quanto ao modelo de atencao no SUS, desde a implantacao do Programa de Saude da Familia, Paim9 afirma: O modelo assistencial curativista ainda e o hegemonico, pois a maioria dos individuos so procura os servicos de saude quando pensa que esta doente. Logo, os servicos ficam restritos a manter uma dada oferta de atendimento.

As equipes de saude bucal ainda encontram dificuldades para realizar atividades como visitas domiciliares pelo dentista, acoes de prevencao e promocao a saude, bem como reunioes com a comunidade de abrangencia (10).

Assim, o presente trabalho tem como objetivo analisar o processo de trabalho desenvolvido pela Estrategia de Saude da Familia do Distrito Sanitario VI do municipio do Recife (PE) no ano de 2006.

Metodologia

Para estudar a saude bucal dentro da Estrategia de Saude da Familia, foi realizado um estudo descritivo, utilizando uma abordagem qualitativa, em que foram verificadas algumas praticas realizadas pelas equipes de saude bucal, como diagnostico e levantamento epidemiologico, acoes de promocao e prevencao, integracao com a equipe de Saude da Familia, referencia e contrarreferencia e monitoramento e avaliacao das acoes.

Para a descricao das praticas realizadas pelas equipes, foram utilizados dados secundarios obtidos da pesquisa "Analisando a politica de atencao basica no Recife-PE: um olhar sobre a estrategia saude da familia e o programa de saude ambiental", desenvolvida pelo Centro de Pesquisas Aggeu Magalhaes/Fiocruz, que teve o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq), a qual realizou entrevistas semiestruturadas com seis coordenadores distritais de saude bucal, doze cirurgioes-dentistas e seis enfermeiros, totalizando 24 entrevistas que representavam os seis distritos sanitarios do Recife, sobre questoes que abordavam suas acoes e praticas assistenciais desenvolvidas no ano de 2006 no ambito da Estrategia de Saude da Familia. Esses profissionais foram selecionados de equipes de Saude da Familia consideradas padrao-ouro pela direcao distrital, baseada nos seguintes criterios: Equipe de Saude da Familia com Saude Bucal e o Programa de Saude Ambiental (PSA); possuir profissionais com experiencia na estrategia e estar inserido na USF ha um bom tempo, alem de apresentar qualidade nas praticas oferecidas a comunidade. Para o presente estudo, utilizaram-se as quatro entrevistas referentes ao Distrito Sanitario VI -- coordenador de saude bucal (1), cirurgioes-dentistas (2) e enfermeira (1).

Para a analise das entrevistas, foi tomado como base o metodo de analise de conteudo11, realizando-se os seguintes passos: (1) ordenacao dos dados: todo o material coletado nas entrevistas, ja transcrito, foi utilizado para a obtencao de fragmentos das falas que permitam a elaboracao de uma sintese das entrevistas; (2) classificacao dos dados: a partir dos fragmentos das falas selecionados, foi elaborada uma categorizacao de eixos tematicos para analise dos dados, identificando convergencias, divergencias e complementaridades; (3) analise final dos resultados, confrontando as falas dos entrevistados com a literatura atual, baseada em artigos cientificos, livros, portarias ministeriais, dentre outros.

Com a finalidade de preservar a identidade dos entrevistados, as entrevistas receberam a seguinte codificacao ao serem inseridas no presente trabalho: E1, E2, E3, E4.

Este trabalho se orientou conforme os parametros bioeticos da Resolucao no 196/96 CNS/ MS, sendo aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa do Aggeu Magalhaes/Fiocruz.

Resultados e discussao

Em 2006, a atencao basica a saude bucal do DS VI apresentava-se com 29 Unidades de Saude da Familia, nas quais se distribuiam 64 ESF e 23 ESB, alem de sete unidades tradicionais, sendo seis com saude bucal. A media complexidade era composta por duas policlinicas, a do Ibura e a do Pina. Na policlinica do Ibura, funciona a parte de ambulatorio das especialidades, no caso, odontopediatria e endodontia (apenas para dentes anteriores, de pre-molar a pre-molar) e o servico de urgencia 24 horas. Na policlinica do Pina, existem dois endodontistas, um odontopediatra e um periodontista. Ja a referencia para alta complexidade corresponde ao Hospital Geral de Areias, com referencia para cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial.

Diagnostico e levantamento epidemiologico

Os levantamentos epidemiologicos constituem um importante instrumento para o planejamento das acoes. Quando questionados sobre a realizacao de diagnostico com a finalidade de obter o perfil epidemiologico para o planejamento e a programacao das acoes em saude bucal, os entrevistados responderam que A maioria das unidades nao. So as primeiras equipes, mas essas que entraram recentemente nao fizeram. (E1).

A gente nao tem tempo e nem estrutura para fazer um levantamento epidemiologico. Mas, na medida do possivel, a gente faz um diagnostico da area juntamente com as medicas e enfermeiras. Agora, nao e aquele perfil epidemiologico que a gente ve nos livros, por que aquilo ali tem que ter calibracao. Aquilo ali, que e o ideal, a gente nao faz, nao. Em nenhum momento. Nao tivemos orientacao tambem. Ate por que eu acho que tem que vir de cima. Uma organizacao para estruturar aquela forma. O que a gente faz da um perfil epidemiologico mais ou menos. (E2).

Pereira, Pereira e Assis (12) tambem observaram em seus estudos que os cirurgioes-dentistas demonstraram nao se preocupar com um planejamento de acoes que possam criar condicoes de mudanca social, levando-se a concluir que nao existe um planejamento sistematico das atividades odontologicas na rede.

A programacao e o planejamento de acoes devem ser baseadas nas condicoes de saude da populacao adscrita, a fim de estabelecer prioridades e alocar recursos de forma direcionada, permitindo o desenvolvimento de praticas mais efetivas (13).

A rotina de trabalho das equipes Saude da Familia deve incluir processos de conhecimento do territorio e da populacao, como a realizacao e atualizacao de mapeamento da area de abrangencia com identificacao das areas de risco e vulnerabilidade, o cadastro das familias e a atualizacao constante das informacoes, a identificacao de pessoas e familias em situacao de risco e vulnerabilidade, a analise situacional da area de abrangencia, o acompanhamento mensal das familias, a partir de visitas domiciliares realizadas pelos agentes comunitarios de saude e equipe (quando necessario), bem como a analise de informacoes e indicadores de saude da area de abrangencia, a interlocucao com conselho local ou municipal de saude e o desenvolvimento de mecanismos de escuta da comunidade (5).

Apesar do diagnostico de area e o levantamento epidemiologico nao serem realizados por algumas equipes e realizados de forma parcial por outras, observou-se nas entrevistas que as equipes do Distrito Sanitario VI delimitam sua area de abrangencia para a organizacao da clientela. Emmi e Barroso (14) afirmam que, a partir dessa delimitacao, e possivel identificar, com mais facilidade, os principais problemas de saude que afetam a comunidade, permitindo ser elaborado diagnostico e avaliacao permanente para desenvolver acoes de saude coerentes com a realidade vivida.

Acoes de promocao e prevencao

Historicamente, as praticas da saude bucal no setor saude indicam que ela foi desenvolvida a distancia, sendo feita praticamente entre quatro paredes, restrita a pratica do cirurgiao-dentista com seu equipamento odontologico (5). Ha um grande esforco para a superacao desse modelo de atencao voltado para praticas curativistas, tanto por parte de muitos gestores que tem uma visao mais ampla do conceito de saude, quanto por parte de muitos profissionais comprometidos e dispostos a reverter essa forma ultrapassada de cuidar da saude da populacao. Entretanto, muitos profissionais ainda insistem em ver o cirurgiao-dentista voltado apenas ao atendimento clinico: A gente tenta criar a logica da promocao. Tem alguns gerentes das USF que nao tem esse entendimento. Eles acham que se o dentista esta na unidade e nao esta atendendo, ele nao ta fazendo nada. Na visao deles, o dentista e pra estar dentro do consultorio so fazendo restauracao, ambulatorio e que ele nao tem que estar fazendo visita domiciliar, que nao precisa estar indo numa escola fazer uma palestra. (E1)

Devido a isso, muitos cirurgioes-dentistas inseridos na Estrategia de Saude da Familia dao continuidade a esse tipo de pratica curativista, privando a populacao dos cuidados de promocao e prevencao. "A atencao a saude bucal no Brasil tem-se caracterizado pela insuficiencia da oferta de procedimentos coletivos e preventivos individuais" (15). Barros e Chaves (16) reforcam esse fato, afirmando que, apesar de se ter uma proposta de reorganizacao, a pratica profissional continua amarrada ao atendimento cirurgicorestaurador, sem alcancar melhorias nas condicoes de saude da comunidade.

Para superar esse tipo de modelo assistencial, as equipes realizam acoes coletivas de promocao e prevencao, voltadas para escolares e outros grupos populacionais. Quando questionados sobre o tipo de atividades que promovem, encontraram-se as seguintes respostas: Escovacao, orientacao, palestra, fluor. Acoes assim, de prevencao, de palestras em colegio. Uma vez, a gente fez uma acao aqui no mercado publico, aqui na igreja. A gente faz palestra, a gente passa aquele video "Dr. dentuco"e depois conversa e depois faz a escovacao e a aplicacao de fluor. (E3)

Por exemplo, quando tem campanha de vacinacao, eles articulam com o medico e o enfermeiro e vao participar tambem. Tem umas unidades que trabalham com teatrinho, com marionetes, mas sao poucas. Atividades de promocao em algum evento... A dentista da USF Bernardo Van Leer ta montando, junto com a nutricionista da escola, um programa pra aliar merenda com a orientacao de escovacao, por que nao adianta a crianca so escovar. Voce tem que ver, que e uma atribuicao do dentista do Saude da Familia, que e avaliar a dieta, do que e que aquela crianca esta se alimentando. (E1)

Emmi e Barroso14 avaliaram as acoes de saude bucal no Programa Saude da Familia no distrito de Mosqueiro (PA) e, ao questionarem os usuarios sobre os fatores que melhoraram e que consideram de relevancia apos a inclusao das ESB, observaram que os mais citados foram as orientacoes sobre higiene bucal, seja atraves de palestras, nas visitas em casa ou na propria consulta.

Os procedimentos coletivos programados, incluidos na agenda de trabalho, podem ser executados em qualquer local ou espaco social do territorio. Ainda que coordenados e, inicialmente, realizados pela ESB, eles podem ser mantidos pelo agente comunitario de saude ou pessoal auxiliar de odontologia. Dentre tais procedimentos, destacam-se a discussao com a comunidade sobre as formas de intervencao nos determinantes sociais que constituem riscos comuns as doencas mais prevalentes, acoes de educacao em saude geral e de saude bucal nas familias e acoes preventivas, de acordo com a necessidade do grupo: higiene bucal supervisionada, controle de placa, aplicacao terapeutica de fluor e aplicacao de cariostatico (17).

As Diretrizes da Politica Nacional de Saude Bucal expoem que as acoes de promocao da saude incluem tambem trabalhar com abordagens sobre os fatores de risco ou de protecao simultaneos tanto para doencas da cavidade bucal quanto para outros agravos (diabetes, hipertensao, obesidade, trauma e cancer), tais como politicas de alimentacao saudavel para reduzir o consumo de acucares, abordagem comunitaria para aumentar o autocuidado com a higiene corporal e bucal, politica de eliminacao do tabagismo e de reducao de acidentes (18).

Araujo e Dimenstein19 perceberam que cirurgioes-dentistas do Rio Grande do Norte relataram dificuldades em praticar as atividades preventivas na comunidade. Alguns expressam a falta de material para realizar educacao em saude ou que nao sabem como realiza-la. Porem, esses fatores nao justificam a ausencia dessas acoes, pois ha facilidade no acesso aos manuais de orientacao do Ministerio da Saude, as faculdades de odontologia, alem de diversas maneiras de construir esses instrumentos educativos, inclusive com a participacao da comunidade.

Ao se estabelecer um comparativo entre as praticas tradicionais com as praticas exercidas pela Estrategia de Saude da Familia, percebe-se que, no Distrito Sanitario VI, houve um grande avanco em relacao aos servicos realizados pelos profissionais, com praticas menos mutiladoras e mais preventivas, beneficiando a populacao atendida:

Quando eu faco reuniao com os dentistas do saude da familia com os dentistas das unidades tradicionais, a gente ve a diferenca. Eles tem mais essa visao de ver o paciente como um todo. De nao ver so a questao do atendimento. A gente ve bem a diferenca de como o pessoal do saude da familia e diferente. (E1)

Antes nao tinha assim um tratamento. Era mais assim exodontia e tal. Agora nao, a gente faz uma avaliacao geral, analisa se precisa de uma cirurgia, a gente encaminha. (E3)

Entao, a visao que eu tenho hoje e que eu vejo aqui com os dentistas da unidade e que eles tem uma visao muito preventiva. (E4)

Integracao com a Equipe de Saude da Familia

Ao entrar no merito da integracao da equipe de saude bucal com os demais membros da Equipe de Saude da Familia, questionando-se sobre o acompanhamento e desenvolvimento de atividades em conjunto, com o objetivo de aproximar e integrar acoes de saude de forma multidisciplinar, observou-se que Eles [equipe] tentam. Algumas unidades conseguem fazer isso. Por exemplo, quando tem campanha de vacinacao, eles articulam com o medico e o enfermeiro e vao participar tambem. O diagnostico de area, alguns grupos, a referencia do paciente e atividades de promocao em algum evento. (E1)

Entretanto, percebe-se que outras unidades relatam apenas algumas atividades pontuais, demonstrando nao haver uma integracao de forma continua:

E, a gente faz a reuniao. (E3)

A gente faz grupo em conjunto. Tem grupo de hipertenso e diabeticos, de gestante. Entao, muitas vezes a gente aproveita a reuniao das enfermeiras e dos medicos e faz a parte da gente. (E2)

Tambem se observaram algumas dificuldades no desenvolvimento das acoes integradas, devido a falta de entrosamento da ESB com o restante da equipe e, muitas vezes, pela falta de experiencia da ESB em lidar com a forma de atuacao da Estrategia de Saude da Familia:

A equipe [Saude da Familia] participa. Eu nao estou muito entrosado, mas a gente estava pensando em fazer o grupo de idoso. (E3)

O que os dentistas reclamam muito e que eles se sentem a parte, e nao parte. (E1)

A saude bucal ainda nao atinou que nao e desagregado do saude da familia. E como se a equipe de saude bucal fosse uma coisa e a equipe de saude da familia fosse outra, a parte. Eu acho que e a falta de experiencia em lidar com o saude da familia. O dentista tambem tem que se adaptar ao saude da familia, mas para isso acontecer, e preciso que o nivel central tenha essa visao. (E4). Este profissional ainda acrescenta, quando perguntado se as atividades da USF sao programadas de maneira conjunta entre a ESB e a ESF: Nao, sao totalmente desvinculadas.

A Estrategia de Saude da Familia organiza-se a partir de uma equipe multiprofissional, cujo campo disciplinar de atuacao e o territorio-familia-comunidade, onde cada um dos profissionais de saude desenvolve acoes de saude, ora comuns (como as acoes de planejamento, busca ativa, etc.), ora devendo ser preservadas as suas especificidades. No trabalho em equipe, ninguem perde seu nucleo de atuacao profissional, devendo-se considerar as diferencas existentes entre as intervencoes de cada area (5).

A atuacao da equipe de saude bucal, conforme as Diretrizes da Politica Nacional de Saude Bucal (18), nao deve se limitar exclusivamente ao campo biologico ou ao trabalho tecnico-odontologico. A equipe deve interagir com profissionais de outras areas, de forma a ampliar seu conhecimento, permitindo a abordagem do individuo como um todo, atenta ao contexto socioeconomico-cultural no qual ele esta inserido.

Entretanto, pode-se dizer que nao e uma tarefa facil conciliar/integrar as acoes dos diferentes profissionais das unidades de saude da familia, pois esses profissionais nem sempre estao preparados e com disposicao para agir de forma integrada (18). O trabalho do CD raramente se insere em praticas partilhadas com profissionais de outras areas, uma vez que desenvolvem suas acoes de forma autonoma, independente e individualizada (20).

Dessa forma, o trabalho em equipe, para a ESB, representa uma maneira de romper com o modelo hegemonico e incorporar o conceito ampliado de saude, partilhando, com outros profissionais, o cuidado com a saude da sua populacao atraves dos pressupostos da Estrategia de Saude da Familia.

Referencia e contrarreferencia

Quando questionados a respeito da referencia dos pacientes aos servicos de media e alta complexidade, ficam evidentes algumas dificuldades, tanto na falta de pactuacao para alguns servicos no municipio, quanto na clara demanda acumulada, principalmente para a especialidade de endodontia:

Aqui no distrito, nos ja estamos trabalhando assim: temos as unidades tradicionais e elas estao aqui porque muitas servem de referencia, algumas tem periodontia, odontopediatria, entao a gente colocou no meio, como referencia. E as policlinicas. A gente ta tentando tirar dessas unidades a demanda espontanea. Agora, como a gente ainda nao tem uma pactuacao com os hospitais, ate a media complexidade nos conseguimos encaminhar. Mas, para os hospitais, ainda e demanda espontanea. (E1)

A dificuldade e vaga. E ainda tem que ligar por que tem uma quantidade de vagas por mes e sao poucas para a quantidade de pacientes que precisam fazer o tratamento endodontico. (E3). A entrevistada 2 (E2) ainda acrescenta que a comunidade fica chiando por que a gente manda e demora um ano.

Andrade e Ferreira (21) reforcam esses achados ao afirmarem que, nao se resolvendo as necessidades no servico local, nao ha um esquema de referencia/contrarreferencia e os problemas ficam sem solucao, ja que nao ha como os usuarios pagarem um tratamento no servico privado. Dessa forma, a odontologia nao consegue solucionar os problemas bucais de sua populacao em funcao da grande demanda acumulada.

A forma como esse encaminhamento e feito tambem deve ser levada em consideracao, pois quanto mais rapido e confiavel for esse encaminhamento, maiores as chances do paciente seguir o fluxo correto da referencia. Segundo o Caderno da Atencao Basica -- Saude Bucal5, o encaminhamento devera ser feito por meio de formularios de referencia/contrarreferencia, acompanhados ou nao de exames complementares e radiografias. Observa-se, nas unidades do Distrito Sanitario VI, que as equipes procuram realizar o encaminhamento dos pacientes da maneira preconizada, atraves da marcacao e entrega da guia de encaminhamento:

Daqui a gente liga, marca e o ACS leva, na casa do paciente, a marcacao. (E2)

A gente liga e marca. E ai, a agente de saude leva ate o paciente. Leva uma guia de encaminhamento. (E3)

Outro ponto importante a se discutir trata do acompanhamento do paciente referenciado que, muitas vezes, nao retorna a unidade de origem para o seguimento e/ou conclusao do tratamento, fato bastante frequente na pratica das equipes de saude do Distrito Sanitario VI. O ideal seria que, apos o termino do tratamento, o paciente fosse encaminhado para a unidade de saude de origem para conclusao do tratamento e manutencao, com o formulario de contrarreferencia devidamente preenchido, o qual deve constar a identificacao do profissional, diagnostico e tratamento realizado (5):

Quando essa referencia e feita aqui dentro do distrito, ele consegue acompanhar. Agora, aquilo que nao depende da gente, da rede propria, a gente nao consegue acompanhar, nao. (E1)

Retornam concluido o tratamento, muito pouco. Muitos retornam e a gente tem que dar outra alternativa, por que nao deu para solucionar. A queixa e grande da comunidade em relacao a endodontia. (E2)

E, geralmente ele retorna. Por exemplo, quando e um canal, ele retorna para a gente restaurar.

O problema e que as vagas sao poucas e muitas vezes nao da tempo do paciente ir. Quando ve, ele ja extraiu, por que nao tem paciencia, ele vai num lugar ai e manda tirar. (E3)

Vilarinho, Mendes e Prado Junior (22) afirmam, em seus estudos, realizados em Teresina (PI), que os cirurgioes-dentistas nao tem um conhecimento minucioso sobre a resolucao dos problemas encaminhados para os servicos de referencia e tambem que o CEO (nesta data o municipio contava com apenas um) nao consegue atender totalmente a demanda, havendo uma descontinuidade da atencao odontologica nos niveis secundario e terciario.

Alem da grande demanda, a baixa capacidade de oferta dos servicos de atencao secundaria e terciaria compromete o estabelecimento de adequados sistemas de referencia e contrarreferencia em saude bucal. A expansao da rede assistencial de atencao secundaria e terciaria nao acompanhou, no setor odontologico, o crescimento da oferta de servicos de atencao basica (18,23).

Monitoramento e avaliacao das acoes

A avaliacao em saude tem como proposito fundamental dar suporte a todo processo decisorio no ambito do Sistema de Saude e, por isso, deve subsidiar a identificacao de problemas e a reorientacao de acoes e servicos desenvolvidos, avaliar a incorporacao de novas praticas sanitarias na rotina de profissionais e mensurar o impacto das acoes implementadas pelos servicos e programas sobre o estado de saude da populacao (5):

A gente procura saber se aquela acao que esta sendo realizada no PSF, se ela esta transformando aquela realidade, atraves dos indicadores de gestao que sao pactuados. A gente tenta fazer isso. As vezes, a gente consegue. Os profissionais do PSF, eles tem muitas fichas, muitas coisas burocraticas para preencher. Entao, se voce pede o acompanhamento dos indicadores, e uma coisa a mais. (E1)

Percebe-se, atraves dessa fala, que ha o interesse em acompanhar e avaliar a producao das equipes. Entretanto, esse esforco acaba esbarrando no descompromisso de muitos cirurgioesdentistas e/ou no atraso do envio desses dados, devido a grande quantidade de fichas que esses profissionais tem que preencher. A depender da disponibilidade e interesse dos profissionais das ESB no envio dos dados, torna-se, dessa forma, dificil e desgastante a tarefa de acompanhar e avaliar a saude bucal em uma determinada localidade, principalmente no Distrito Sanitario VI.

Em muitos municipios brasileiros, a ausencia da rotina de monitoramento e avaliacao das acoes de saude ainda e um problema serio a ser enfrentado pelos gestores. Leal e Tomita24 observaram, em seus estudos realizados em dois municipios do Estado de Sao Paulo, a falta de mecanismos de acompanhamento, controle e avaliacao das acoes realizadas pelos servicos odontologicos municipais.

Na tentativa de avancar nessa questao, e interessante que os profissionais de saude, gerentes de unidades ou profissionais das equipes de Saude da Familia utilizem os sistemas de informacao disponiveis, dentre eles o Sistema de Informacao da Atencao Basica (SIAB) e o Sistema de Informacoes Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS), como uma maneira mais agil e pratica de conseguir as informacoes necessarias, pois os processos avaliativos devem ser incorporados as praticas dos servicos de saude, nao so para o planejamento, mas para a tomada de decisao.

Conclusoes

Constatou-se, atraves do presente estudo, que algumas praticas exercidas pelas equipes de saude bucal ainda apresentam dificuldades para se efetivarem conforme preconiza a Politica Nacional de Saude Bucal.

A falta de conhecimento das necessidades locais, refletida nos precarios diagnostico e levantamento epidemiologico, e a deficiencia no monitoramento e avaliacao das atividades tem dificultado a obtencao de uma adequada assistencia odontologica a populacao, pois essas praticas constituem ferramentas indispensaveis para o planejamento e a organizacao das acoes em saude bucal.

A existencia de grande demanda reprimida por atendimento cirurgico-restaurador, tanto na atencao basica, como na referencia para os servicos de media complexidade, impede que o modelo hegemonico curativista seja completamente substituido por aquele centrado nos principios doutrinarios e organizativos do SUS.

A prevencao e a promocao da saude se fazem presentes entre as acoes desenvolvidas, atuando como importantes fatores para a melhoria da assistencia a saude bucal e, consequentemente, da qualidade de vida da populacao.

Portanto, apesar das dificuldades encontradas no presente estudo, percebe-se uma mudanca do modelo de atencao em saude bucal no Distrito Sanitario VI, sendo necessarios ajustes e correcoes nas suas praticas, alem de uma maior participacao dos demais niveis de gestao para o exercicio pleno da saude bucal na Estrategia de Saude da Familia.

Colaboradores

PJL Martelli e JLAC Araujo Junior coordenaram todas as fases da pesquisa, desde a coleta de dados a aprovacao da versao para publicacao; CLSV Macedo e RML Acioli participaram da concepcao da pesquisa, metodologia, correcoes e aprovacao da versao a ser publicada; FC Pimentel participou da analise, discussao dos resultados e redacao do artigo.

Artigo apresentado em 14/04/2008

Aprovado em 17/06/2008

Versao final apresentada em 06/06/2008

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Fernando Castim Pimentel [1]

Petronio Jose de Lima Martelli [1]

Jose Luiz do Amaral Correa de Araujo Junior [1]

Raquel Moura Lins Acioli [2]

Cicera Lissandra Sa Vieira Macedo [3]

[1] Centro de Pesquisas Aggeu Magalhaes, Fiocruz. Av. Professor Moraes Rego s/n, Cidade Universitaria. 50670-420 Recife PE. nandocastim@yahoo.com.br

[2] Universidade Federal de Pernambuco.

[3] Secretaria de Saude, Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Castim Pimentel, Fernando; de Lima Martelli, Petronio Jose; do Amaral Correa de Araujo, Jose Luiz, J
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Jul 1, 2010
Words:6119
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