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Anaforas nominais: um processo de referenciacao n'Orto do Esposo (fins do seculo XIV e comeco do XV).

INTRODUCAO

Dentre os muitos processos que a referenciacao abrange, trataremos particularmente das anaforas e, entre essas, destacaremos as anaforas nominais. O corpus tomado para analise e a obra Orto do Esposo, texto religioso pertencente ao final do seculo XIV e comeco do XV. Visto que o corpus escolhido e um livro de doutrina catolica, teceremos algumas consideracoes acerca desse tipo de discurso e, em seguida, apresentaremos alguns aspectos da teoria sobre referenciacao, explicitando o conceito sociointeracional de referenciacao, e as variadas formas de manifestacao da referenciacao em lingua portuguesa, com aprofundamento maior na questao da anafora e dos tipos de anafora.

O DISCURSO RELIGIOSO

O corpus em analise neste trabalho sao os tres primeiros livros da obra de cunho religioso, Orto do Esposo. A versao utilizada foi a impressa, mas tambem esta disponivel online, no site CIPM--Corpus Informatizado do portugues medieval (http ://cipm.fcsh.unl.pt/lo gin.jsp).

Orlandi (1987) volta-se para a questao dos tipos de texto e os analisa de forma a estabelecer uma tipologia para eles. A autora elegeu como fatores para classificar os tipos de textos: a) a interacao, ou seja, a reversibilidade, a possibilidade de troca de papeis entre os interlocutores e b) a relacao entre polissemia e parafrase, isto e, a possibilidade de multiplos sentidos.

A partir dessas observacoes, ela estabeleceu tres tipos discursivos: o ludico, o polemico e o autoritario. O ludico e aquele no qual, aparentemente, a intencao e um jogo de palavras, quase neutro; o polemico trava uma tensao equilibrada entre os locutores, havendo a possibilidade de reversibilidade, de polissemia e de parafrase; e o autoritario tende a monossemia, a parafrase e contem a reversibilidade.

O discurso religioso enquadra-se em um dos tipos de discurso autoritario e essa classificacao se justifica por tres fatores basicos, segundo Oliveira (on line): a anulacao da reversibilidade, a assimetria e a naoautonomia.

De acordo com Oliveira (on line), a anulacao da reversibilidade e verificada "pela impossibilidade de interlocucao, de dialogismo entre locutor e ouvinte(s)". A linguagem religiosa esta revestida de um sentido e da autoridade daquele que representa Deus, que fala em seu lugar, e, como eleito para falar em nome de Deus, exorta os fieis, sem lhes dar a possibilidade de troca, de inversao de papeis: quem fala ao povo e quem tem esse direito, cabe-lhe falar e cabe ao povo ouvir.

A assimetria: no discurso religioso, ocorre um desnivelamento entre o locutor e os ouvintes, conferindo ao locutor um lugar privilegiado, pois, nesse jogo discursivo, assume a posicao de representante de Deus. Segundo Wilson (on line),
      No discurso religioso, o poder divino e sustentado, desde seu
   inicio e origem, pela desigualdade de papeis e de lugares,
   sustentada pela fe e reiterada por diversas assimetrias dicotomicas
   como ceu/inferno, bom/mau, bem/mal, agora/na vida eterna entre
   outras.


A nao-autonomia: o locutor que fala e o representante de Deus, ele transmite aos ouvintes o conhecimento da palavra de Deus e, consequentemente, os conduz a salvacao, mas nao tem autoridade para modificar ou alterar a mensagem a ser veiculada.

O texto em analise e um texto caracteristico do discurso religioso: e um livro de doutrina, no qual o autor/pregador se coloca na condicao de representante de Deus e investido do poder de admoestar seus leitores, relatando historias (normalmente de santos) e doutrinas (a religiosa-catolica).

REFERENCIACAO

A questao sobre como a lingua refere o mundo tem sido colocada ha bastante tempo e por diversas teorias. De maneira geral, contudo, as diferentes descricoes ou explicacoes estao pautadas em uma visao da lingua como representacao direta do mundo.

Entretanto as ciencias cognitivas reatualizaram essa questao, considerando que as entidades representadas nos textos nao correspondem diretamente a objetos, mas constituem objetos de discurso. Isso implica admitir que a lingua nao e uma especie de etiqueta que se cola e com a qual se reproduz um objeto do mundo. E uma busca para compreender entender "como as atividades humanas, cognitivas e linguisticas estruturam e dao um sentido ao mundo" (Mondada e Dubois, 2003, p. 20). Nessa perspectiva, fala-se em referenciacao.

De acordo com Koch (2004, p. 57),
      Nosso cerebro nao opera como um sistema de espelhamento, ou seja,
   nossa maneira de ver e dizer o real nao coincide com o real. Ela
   reelabora os dados sensoriais para fins de apreensao e compreensao.
   Essa elaboracao se da essencialmente no discurso. Tambem nao
   postula uma reelaboracao subjetiva individual: a reelaboracao deve
   obedecer a restricoes impostas pelas condicoes culturais, sociais,
   historicas e, finalmente, pelas condicoes de processamento
   decorrentes do uso da lingua.


Conforme Blikstein (apud Koch, 2004), a construcao do objeto depende do ponto de vista adotado por quem fala. Nesse sentido, atualiza-se a afirmacao de Saussure, para quem nao e o objeto que precede o ponto de vista, mas o ponto de vista que precede o objeto. Isso porque as relacoes sociocognitivas estabelecidas pelo sujeito e que determinam sua maneira de descrever uma entidade do mundo.

Um dos fatores que contribui para o questionamento dessa ideia da relacao direta entre lingua e mundo e a instabilidade da lingua, focada na instabilidade entre as palavras e as coisas. Mondada e Dubois (2003, p. 22) ponderam que
      As categorias usadas para descrever o mundo mudam, por sua vez,
   sincronica e diacronicamente: quer seja em discursos comuns ou em
   cientificos, elas sao multiplas e inconstantes; sao controversas
   antes de serem fixadas normativa ou historicamente.


Falar de referenciacao dos objetos e tocar na questao das categorias, pois descrever e, de alguma maneira, categorizar. Entretanto, devido as diferentes categorizacoes, e possivel questionar a nocao tradicional de referencia. Uma categoria esta baseada na prototipicidade, elementos mais ou menos caracteristicos de um grupo. Mas a percepcao do individuo pode trazer para o centro da categoria um elemento nao tao prototipico ou relegar a margem outro elemento muito prototipico. Mondada e Dubois (2003) apresentam o exemplo de pessoas que citam o morcego como ave por apreenderem principalmente sua capacidade de voar. Baseada em exemplos como esse, Koch (2004, p. 54) afirma que
      A forma como percebemos e atuamos com os objetos e fundamental
   para a forma como somos capazes de desenvolver conceitos abstratos
   para eles. Estes conceitos sao fruto direto da percepcao e da acao
   motora e nao um conjun to de conhecimentos abstratos que teriam
   sido organizados da mesma forma por uma mente sem corpo.


Partindo dessa concepcao de que a lingua nao apresenta uma relacao direta com objetos do mundo e que estes sao criados pelo discurso, a partir da maneira como o sujeito lhes apreende e categoriza, Koch (2004, p. 58) adota as postulacoes de Aphotheloz e Richler-Berguelin acerca da referencia. Sao elas:

a) a referencia diz respeito, sobretudo a operacoes efetuadas pelos sujeitos a medida que o discurso se desenvolve;

b) o discurso constroi aquilo a que faz remissao, ao mesmo tempo em que e tributario dessa construcao;

c) eventuais modificacoes, quer fisicas, quer de qualquer outro tipo sofridas "mundanamente" ou mesmo predicativamente por um referente nao acarretam necessariamente no discurso uma recategorizacao lexical, sendo o inverso tambem verdadeiro.

A visao discursiva sobre a referenciacao amplia os horizontes desse processo: no conceito tradicional sobre a referencia, o limite para as ancoragens era o texto; mas, nessa nova perspectiva, o limite e a memoria discursiva. Isso significa que as categorias se constituem a partir do acumulo de informacoes sobre um mesmo assunto, a ponto de caracterizar a prototipicidade, esteja a ancoragem dentro ou alem do texto.

Segundo a compreensao de Koch (2004, p. 59),
      A interpretacao de uma expressao anaforica, nominal ou
   pronominal, consiste nao em localizar um segmento linguistico
   ("antecedente") ou um objeto especifico no mundo, mas em
   estabelecer uma relacao com algum tipo de informacao presente na
   memoria discursiva.


De acordo com a autora (2004, p. 62), estao envolvidas algumas operacoes na constituicao da memoria discursiva:

a) construcao/ativacao: o objeto e introduzido;

b) reconstrucao/ reativacao: um nodulo ja existente e reintroduzido por meio de uma forma referencial;

c) desfocalizacao/desativacao: um novo objeto e introduzido, ficando em foco e o objeto anterior sai do foco.

Interessam-nos particularmente as formas de reconstrucao por sua intrinseca ligacao com a progressao e a coesao do texto. Ainda segundo Koch (2004, p. 67), "A reconstrucao e a operacao responsavel pela ma nutencao do foco, no modelo de discurso, de objetos previamente introduzidos, dando origem as cadeias referenciais ou coesivas responsaveis pela progressao referencial do texto".

A progressao indica o relacionamento dos elementos no texto, manifestado por formas nominais e pronominais. A autora (apud Teixeira, on line) ainda complementa que
      Um texto nao se constroi como continuidade progressiva linear,
   somando elementos novos com outros ja postos em etapas anteriores,
   como se o texto fosse processado numa soma progressiva das partes.
   O processamento textual se da numa oscilacao entre varios
   movimentos, um pra frente (projetivo) e outro pra tras
   (retrospectivo), responsaveis parcialmente pela catafora e anafora.


ELEMENTOS ANAFORICOS NO ORTO DO ESPOSO

A anafora e um dos elementos de coesao do texto. Por meio dela, realizam-se as retomadas que contribuem para o engajamento e a progressao do texto. Teixeira (on line) considera que, pelo procedimento anaforico, um SN evoca e especifica um referente e uma serie de outros co-referem e co-especificam esse referente, instituindo-se assim a progressao/continuidade referencial.

As anaforas podem ocorrer com base em dois grupos: pronominais, ou seja, o referente e um pronome ou nominais, quando o grupo referente tem como nucleo um nome. Normalmente, esses grupos sao constituidos por um determinante (que pode ser um artigo definido, um indefinido possessivo ou um demonstrativo) e um nome.

A autora apresenta uma classificacao dos tipos de anaforas nominais: anaforas co-referenciais e anaforas nao-co-referenciais. O grupo das anaforas nao-co-referenciais se subdivide em anafora por sinonimia, por hiponimia, por meronimia e anafora resumitiva. Abordaremos a definicao de cada uma delas com exemplos extraidos do corpus escolhido.

Anafora nominal co-referencial

Falar em co-referencialidade e novamente recorrer a visao ampliada de funcionamento que o conceito de referenciacao carreia. Enquanto a visao tradicional considera que o referente deve estar explicito no texto, denotado por um termo anterior, a visao de co-referencialidade passou a abarcar o processo que se constroi discursivamente, de maneira progressiva ate a identificacao de algo.

A anafora co-referencial e tambem conhecida por anafora fiel ou total. Isso se deve ao fato de que ela efetua a retomada de um referente por meio de um mesmo nome, efetuando apenas a troca do artigo indefinido pelo definido.

Em nosso corpus, identificamos uma grande quantidade de anaforas co-referenciais, das quais citaremos alguns exemplos:
      Artigo definido + pronome demonstrativo

      Aqui se comeca o liuro que se chama Orto do Esposo...(primeira
   linha do livro)

      E poren non te quise escreuer liuro sinpliz daquellas cousas que
   tu demandaste, mais trabalhei-me fazer este liuro das cousas
   conteudas ennas Escripturas Sanctas...

      Artigo definido + pronome de tratamento

      e achou tres donzellas estar chorando acerqua dos ryos que sayam
   daquel castello, porque a senhora do castello estaua tam emferma
   que era chegada aa morte. E disse-lhe aquel homen caminheyro: Ha
   esperanca de uida em uossa senhora? E as donzelas responderon:

      Artigo indefinido + pronome demonstrativo

      Em [este] ha h[]a fonte de que corren rrios que [re]gam toda
   terra em redor, e [em al]g[][]s tenpos esta fonte cara-se, [em]
   guisa que non corre algua della.

      Quando o enperador Constantino veeo a hJa cidade que chaman
   Bisancio, ueeron h[][]s filosafos [...] E h[][] daquelles
   filosafos tomou en sy todo aquel negocio ....*

      Artigo indefinido + artigo definido

      H[]a sancta uirgem, que auia nome Dorothea, era leuada pera
   degolar pella fe de Jhesu Christo [...] E a sancta uirgem lhe
   respondeo:

      Numeral + artigo definido

      [...] logo apareceu ante [el]la h[][] menino que tragia en
   h[][] [p]ano de linho muy aluo tres macaas muy nobres e tres
   rosas [m]uy fremosas [...] e o menino chegou ante elle con o pano
   do linho aluo, en que tragia aquellas macaas marauilhosas e as
   rossas muy fremossas [...]

      Numeral + pronome demonstrativo

      [...] logo apareceu ante [el]la h[][] menino que tragia en
   h[][] [p]ano de linho muy aluo tres macaas muy nobres e tres rosas
   [m]uy fremosas. [...] e o menino chegou ante elle con o pano do
   linho aluo, en que tragia aquellas macaas marauilhosas [...]

      Pronome possessivo + artigo definido

      O emperador Diocleciano rogou a Sancto Ciriaco que desse saude a
   h[]a sua filha, que era muy maltreyta do diaboo, e Sancto Ciriaco
   entrou hu estaua a filha do enperador e disse*

      Ausencia de pronome + pronome demonstrativo

   Sancto Ignacio mandauan deytar aos leooes pella fe de Jhesu Christo
   (...) E este sancto Ignacio ...


Anafora nao-co-referencial por sinonimia

A ocorrencia desse tipo de anafora justifica-se pela necessidade de se usar termos diferenciados, evitando a repeticao de palavras em um texto. De acordo com Teixeira, "empregar a sinonimia como recurso de coesao referencial em um texto implica utilizar um novo termo/expressao o qual e confederado por ser recuperado como sinonimo de um termo/expressao velho no discurso".

Falar em sinonimia implica levar em conta o fato de que, atualmente, os estudos linguisticos questionam a existencia de um sinonimo perfeito. Considera-se que existem tracos de semelhanca entre os objetos considerados sinonimos e nao que eles sejam necessariamente identicos.

Alem disso, no caso especifico do nosso corpus, os sinonimos sao construidos de maneira autoritaria, propria ao discurso religioso, e se gundo o ponto de vista da Igreja Catolica. Isso faz que encontremos sinonimos que sao aceitos mesmo fora da otica religiosa como
   E diz Seneca que non ha cousa mais danosa a aquel que quer
   aprender, que a uida do ensinador seer torpe, ca o uasso fedorento
   corompe a agua que esta en elle. E ben assy a doutrina he fecta uil
   per razon da uida maa daquelle que ensina, e poren todo aquelle que
   quer ensinar con proueyto daquelles que emsina ...

   e outros sinonimos em que fica marcado que o ponto de vista
   religiosocatolico justifica o uso de determinados objetos como
   sinonimos. E o caso de

   [...] e porem elle he guiador dos olhos do coracom de qualquer que
   con temor e amor do Senhor Deus husa aficadamente ennas sanctas
   Escripturas. E asy como pellas portas do ceeo abertas ouuira o
   Senhor Deus, que fala con elle pella sua propria boca, porque,
   quando leemos pellas escripturas de Deus, entom fala Deus a nos
   [...]

   Dous males fez o meu poboo, leixaron a fonte da agua uiua e cauaron
   cisternas derronbadas que non podem conteer auguas--as sciencias
   dos filosaphos. Outrosy, a sciencia sem uirtude ...


Encontramos 16 ocorrencias de anafora por sinonimia, de acordo com os seguintes pares de sinonimos:

--Sanctas Escripturas = escripturas de Deus

--Jesus Cristo = Senhor Jesus Cristo

--spiritus malignos = maao spiritu

--h[]a gota da sua suor = aquella goteyra

--ensinador = aquelle que quer ensinar

--daquel que ensina = o filosafo

--neh[]as doutrinas = estas sciencias

--Vitctoria = galardom do seu vencimento

--outras sciencias = sciencias terreaes

--sciencia da filosafia = sciencias dos filosafos gentiis,

--papa de Roma = este sancto homen

--as sciencias dos filosaphos = sciencia sem uirtude

--orto da Sancta Escriptura = o canpo da Sancta Scriptura

--E h[][] dos confessores leygos = aquele mancebo

--Salvador = Jesus.

Anafora nao-co-referencialpor hiponimia

E aquela em que a relacao entre anaforizante e anaforizado se baseia na relacao hiponimo/hiperonimo. Essa questao remete ao pensamento sobre categorizacao e sobre prototipicidade, pois, segundo Cruse (apud Teixeira on line), hiponimia e a relacao lexical correspondente a inclusao de uma classe em outra.

De acordo com Teixeira (on line), ha um acarretamento unilateral, pois sempre o hiperonimo vai abranger o hiponimo. Dessa forma, a relacao de hiponimia torna-se uma relacao transitiva, ou seja, os termos subordinados herdam obrigatoriamente as caracteristicas de todos os seus superordenados.

A autora preve a ocorrencia de anafora por hiponimia com o hiperonimo (termo englobante) retomando o hiponimo. Seguindo essa constituicao, foram encontrados os seguintes exemplos:
      Descendeo o meu amado enno seu orto pera pacer ennas ortas e
   colher os lylios. E bem parece seer uerdade que estas flores e as
   outras muytas que som achadas enna Sancta Scriptura, demostram e
   significam flores spirituaaes uirtuosas [...]

      [...] o esqueecimento he conpanheyro da beuidice, e diz Seneca
   que a beuedice he sandice que o homen ha per sua propria voontade.
   Onde todo homen que quer leer e entender as Sanctas Scripturas,
   deue-sse de quitar das delectacooes do corpo,

      Outrossy, os elifantes som de boo entendimento e ligeyros pera
   emsinar [...] E, pois que assy som as animalias brutas aprestes
   pera ensinar e pera receber o enssino, grande uergonca he aos hom
   [][]s non o ffazerem asy.

      E diz Sam Jheronimo que os filosafos antigos emsinauan os seus
   discipulos em boos custumes, onde diz sancto Agostinho e seneca que
   Socrates filosafo primeyramente emclinou toda a filosafia pera
   correger e conpoer os boos custumes. E poren, per exenplo destes
   filosafos

      [...]ca ellas emsinan tenperanca e prudencia de sabedoria e
   justica e uerdade. E non ha cousa mais proueytosa aos hom[]s que
   estas uirtudes,


Entretanto, mesmo nao estando previstas pela autora, ocorreram algumas anaforas em que primeiro se expressa o hiperonimo e, posteriormente, retoma-se uma parte de sua significacao ao especificar-se o hiponimo. Eis as ocorrencias:
      As aues do ceeo cantaron. E diz Salamon ennos Cantares do Amor: A
   uoz da turtur he ouuyda enna nossa terra.

      E poren diz Casiodoro que a Sancta Scriptura he bem conparada e
   semelhante ao orto, porque geera muytos fruytos, ca enna Sancta
   Scriptura acha o homen as h[]as da spiritual alegria e os figos
   da dulcura perdurauil e as spigas da madureza das boas obras e as
   nozes da paciencia.

      Flores apareceron enna nossa terra. E em este orto da Sancta
   Escriptura colhe o homen a rrosa de marteyro e payxom, lilyo de
   castidade e a flor da uiola da humildade, acafram de caridade.


Anafora nao-co-referencial por meronimia ou anafora associativa

Enquanto a anafora por hiponimia estabelece uma transitividade, a anafora por meronimia nao apresenta essa caracteristica; os termos sao relacionados uns aos outros, nao por uma relacao direta, mas associativa. Segundo Teixeira (on line), essas relacoes podem ser expressas de varias maneiras:

1) grupo x membros: O corpo docente ainda esta em reuniao. A professora Isabel foi a unica a ser liberada.

2) objeto x substancia: O sorvete nao ficou bom. A essencia de morango tem gosto estranho.

3) todo x porcao: Quero vender a mesa da minha sala. O unico problema e que a madeira esta um pouco marcada.

4) lugar x localidade: Voce vai adorar Porto Alegre. Vale a pena visitar a Usina do Gasometro.

No Orto do Esposo, encontramos consideravel numero de ocorrencias de anaforas por meronimia, das quais apresentamos algumas:
   Todo x porcao

      A entrada deste parayso, depois do peccado de Adam, sempre foy
   carrada e uedada a toda a geeracon humanal, ca he todo cercado en
   rredor de muro de fogo, em tal guisa que aquel fogo se junta pouco
   meos con o ceeo. E noso Senhor ord[]nou sobre este muro defensom
   de angios boos pera nom leyxar hy chegar os maaos spiritus, por tal
   que a chama do fogo defenda a entrada aos hom[][]s

   Lugar x localidade

      H[]a uez Sancto Antonio con outros frades veo a h[]a cidade que
   chamam Forliuio. E, estando enno mosteiro aa hora que se auia de
   fazer a preegacon, disse o mynistro aos frades [...

   Grupo x membro

      H[][] filosafo, que auia nome Permenides, que morou per quinze
   annos en h[]a penna do Egipto pera poder milhor uaguar aa
   contenplacom da filosafia. E outro filosafo, que ouue nome
   Temisclodes, acabados cento e sete annos en que perseueraua enna
   sciencia, u[][]do-se chegado a morte, disse que se doya muyto
   porque leixaua esta uida quando comecaua de saber. E socrates per
   nou[][]ta e noue annos non quedou de ensynar e escrepuer
   sciencia con door e con trabalho.


Anafora nominal resumitiva ou encapsulamento

Esse tipo de anafora condensa mais que um grupo nominal ou uma frase; pode retomar um paragrafo ou mesmo uma extensao maior de um texto. Teixeira (on line) destaca que esse tipo de anafora toma frequentemente a nominalizacao, tendo como centro um nome formado a partir de um verbo: Nossa gata foi atropelada. Esse acidente deixou-lhe os tracos.

As anaforas resumitivas tambem sao encontradas varias vezes no corpus. Eis algumas:
      E ella, quando ueo ao luguar onde auia de seer degolada, fez
   oracon a Deus, e, acabada a oracom a Deus, logo apareceu ante
   [el]la h[][] menino que tragia en h[][] [p]ano de linho muy aluo
   tres macaas muy nobres e tres rosas [m]uy fremosas. E dise-lhe a
   sancta uirgem: Rogo-te que leues esto a Theo[fi]lo e di-lhe: Ex
   aquello que pidiste a [D]orothea que te emviasse do parayso do seu
   esposo. E a sancta uirgem foy degolada e acabou seu marteyro.

      E a sancta molher, depois que foy certa daquelle prometymento,
   foy muy alegre e muy agucosa enno seruico de Deus e, acabados os
   cem dias, foy pera Jhesu Christo receber gualardom do seu
   vencimento. E esta uitorya pode muy bem aprehender hom[][] enna
   Sancta Scriptura con a graca de Deus.

      E elle mandou-me acoutar, e antre os acoutes que me dauon hi,
   mais me atormentaua a minha consciencia, cuydando en meu coracom
   h[][] uerso do psalmista que diz: Senhor Deus, quen confessara a ty
   emno jnferno? E comecey de braadar e huyuar, dizendo: Senhor,
   amercea-te de myn! E esta palaura dizia eu antre os acoutes que me
   dauam.


CONSIDERACOES FINAIS

Ao estudarmos o conceito sociointeracional de referenciacao e de anafora, percebemos que esses sao processos bem mais amplos e complexos do que o senso comum costuma apresentar. Mais que substituir termos repetidos ou fazer um termo remeter a outro, a anafora e um importantissimo elemento para a coesao e a progressao textuais.

A analise da anafora, segundo uma perspectiva recente e atual, aplicada a um texto da fase arcaica da lingua portuguesa, demonstrou o quanto esse processo esta presente e e produtivo em Lingua Portuguesa desde epocas mais remotas.

Alem disso, a natureza do texto: religioso e, portanto, autoritario, ficou evidente, principalmente na valoracao dos objetos, claramente observavel nas anaforas por sinonimia. Isso nos leva a crer que, alem de contribuir na instauracao e na reconstrucao dos objetos de discurso no texto (Koch, 2003), esse recurso linguistico evidencia questoes discursivas do texto em que esta inserido.

REFERENCIAS

KOCH, I. G. V. Referenciacao. In --. Introducao a linguistica textual. S. Paulo: Martins Fontes, 2004.

MONDADA, L.; DUBOIS, D. Construcao dos objetos de discurso e categorizacao: Uma abordagem dos processos de referenciacao. In: CAVALCANTE,. M.; RODRIGUES B. B.; CIULLA A. (orgs.) Referenciacao. S. Paulo: Contexto, 2003.

OLIVEIRA, M. R. de. CEZARIO, M. M. e ALBANI, F. V. L. Articulacao Adverbial no discurso religioso. Disponivel em _ www.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0502/03.htm. Ultimo acesso em 20/11/06.

ORLANDI, E. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. Sao Paulo: Pontes, 1987.

ORTO DO ESPOSO. Texto inedito do seculo XIV e comeco do XV. Edicao critica com introducao, anotacoes e glossario por MALER, B. Rio de Janeiro: INL: 1956.

TEIXEIRA, M. Coesao Referencial. Disponivel em www.comuninca.unisinos.br/professores/marlene/arquivos/referenciacao 2004 1.pdf. Acesso em 27/11/06.

WILSON, V. Modos de ler o discurso Religioso. Disponivel em <www.filologia.org.br/soletras/5e6/11.htm. Acesso em 28/11/06.

Maria Regina Pante (UEM)

mrpante@uem.br

Adelli Bortolon Bazza (UEM)
COPYRIGHT 2008 Universidade do Estado do Rio de Janeiro- Uerj
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Author:Pante, Maria Regina; Bazza, Adelli Bortolon
Publication:Soletras
Date:Jan 1, 2008
Words:3870
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