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An academic parable: Robert W. Fogel's raft/ Uma parabola academica: a jangada de Robert W. Fogel.

O desmesurado volume de informacao disponivel hoje em dia nao garante que as novas geracoes "estejam informadas". Ate entre historiadores, pessoas portanto focadas em extrair informacao do passado, vemos a repeticao de "memes academicos" que nem sempre espelham adequadamente o que ocorreu e, mais comumente, reforcam versoes tendenciosas da historia. Cremos que um desses memes (1) recorrentes seja o papel do livro Time on the Cross: The Economics of American Negro Slavery, de Robert W. Fogel e Stanley L. Engerman (que abreviaremos como "TOTC" e "F&E"), nos estudos sobre a escravidao norte-americana e, por extensao, sobre escravidao em geral.

TOTC foi publicado em 1974 e, com ele, F&E alcancaram um feito inedito e, possivelmente, irreprodutivel. Com um livro amplamente louvado (pela grande midia e parte da comunidade academica), mas tambem criticado em profundidade (por especialistas em historia quantitativa da escravidao) por afirmar mais do que demonstra, por alardear o que nao entrega, por sonegar fontes, por empregar dados pouquissimo representativos para validar afirmacoes taxativas e gerais, por apresentar argumentos sistematicamente viesados em defesa das opinioes dos autores e, alem disto tudo, por conter inumeros erros de raciocinio e de calculos--ou seja, com tudo o que e explicitamente banido da pratica academica--estes autores tornaram-se conhecidos do grande publico como importantes historiadores economicos; foram aclamados por (boa parte de) seus pares como respeitados, embora polemicos e iconoclasticos, colegas; acumularam a fama de terem feito avancar o conhecimento historiografico sobre a escravidao norte-americana; e ate hoje gozam da recompensa maxima da academia que e serem repetidamente citados quando se escreve sobre economia da escravidao. Este descompasso pode ser parcialmente explicado pelo fato de, depois de TOTC, Fogel ter continuado a comandar pesquisas sobre escravidao, desenvolvendo com sucesso sua trajetoria de "superstar" academico. Na decada e meia que se seguiu, publicou outros quatro volumes--intitulados Without Consent or Contract--, num total de cerca de 2.100 paginas, onde repetiu, mas tambem reviu e ampliou argumentos lancados em TOTC, agora agregando a participacao de 2 coeditores, 17 coautores aos textos do volume principal e, nos dois volumes de "textos tecnicos" anexos, mais 34 contribuicoes de alguns desses mesmos coautores, junto com outros 16, num total de 36 pesquisadores (FOGEL 1989; FOGEL; ENGERMAN 1992a; 1992b). Nesses livros, alguns temas polemicos de TOTC foram atenuados, muitos novos dados foram analisados, mas os principais argumentos foram reafirmados. Em 1993, Fogel recebeu o chamado Premio Nobel de Economia.

Os presentes comentarios visam a reavivar as criticas levantadas no que foi intitulado pelo proprio Fogel de "debates sobre escravidao", frequentemente desconhecidas (ou nao mencionadas) pelos que citam o livro e seu principal autor.

Ao voltar recentemente a este volumoso debate, surpreendeu-nos a clareza e o vigor das criticas a TOTC. (2) Surpresa ainda maior sobreveio ao percebemos que aquelas criticas--arrasadoras, do nosso ponto de vista--se diluiram entre as multiplas polemicas midiaticas que se seguiram a publicacao de TOTC, de fato desaparecendo das reputacoes de F&E, em especial depois da publicacao de Without Consent or Contract.

Apesar dessas extensas polemicas a seu redor, vemos TOTC ser citado quase unicamente pela repeticao das afirmacoes de seus proprios autores, que, como indicamos a seguir, foram exageradamente autocondescendentes e autoenaltecedores ao anunciarem os significados de seus proprios resultados, ao repetirem a quem estariam se contrapondo e ao insistirem nas conclusoes pelas quais esperavam ser avaliados por contemporaneos e pela posteridade. (3) Por fim, ficamos admirados mais uma vez ao verificar como esta obra e seus autores se beneficiam de uma reluzente reputacao "oficial", que ultrapassou as contundentes criticas de que foi alvo, seja aquelas que os autores desconsideraram, seja aquelas que responderam mas, na opiniao de muitos historiadores, de fato nao contestaram.

Antecedentes

TOTC foi publicado numa epoca em que os temas escravidao e racismo vinham sofrendo revisao em diversas frentes, na esteira da difusao de uma ideologia igualitaria, propalada pelos Estados Unidos durante a guerra de 19391945, em oposicao a ideologia racista do nacional-socialismo. Em torno desses temas, a sociedade norte-americana fartava-se de pontos sensiveis, entre eles o ainda regionalmente hegemonico racismo sulista e, no ambiente academico, as explicacoes historiograficas sobre as causas da Guerra da Secessao e sobre o significado da escravidao para os estados sulistas, bem como reavaliacoes da escravidao em geral na historia dos Estados Unidos. O contraste entre a ideologia igualitaria e as praticas racistas norte-americanas, seja no exercito vencedor (onde os batalhoes de negros eram mantidos segregados), seja no cotidiano dos estados do Sul, seja ainda nos livros-textos de historia, alimentou uma onda de revisoes historiograficas. (4)

Um segundo contexto antecedente de importancia fundamental para toda a polemica que se seguiu situa-se na propria historiografia. Trata-se da aplicacao a temas historicos do raciocinio metodologico e das praticas de "testes empiricos", quantitativos, desenvolvidos pela teoria economica neoclassica. Esta outra "onda" academica trouxe suas proprias polemicas, que opuseram pesquisadores com formacao em economia aqueles com formacao em historia, metodos quantitativos a historiografia "tradicional", uma epistemologia reputada "cientifica" as "ideologicas" ou "metafisicas", alem de muitas oposicoes multilaterais e inconciliaveis entre diversas escolas dentro das ciencias sociais e da historia. Vale lembrar que a abordagem metodologica autoentitulada de "cliometria" por Fogel se compoe de dois pilares: por um lado, o uso de dados e de tecnicas quantitativas e, por outro, dos conceitos da teoria economica neoclassica, essencialmente estaticos e baseados em hipoteses ceteris paribus, quase sempre irreais em situacoes historicas. Ao insistir nos trunfos cientificos do "quantitativismo", Fogel tornava esta a caracteristica definidora da nova escola. Subsidiariamente--no que so podemos considerar como uma agenda oculta--Fogel conseguiu embutir, como passageiro clandestino na caracteristica "quantitativo", todo o arcabouco da teoria economica neoclassica, que, apesar de intrinseco a sua abordagem, raramente vinha explicitado. (5) Assim, o epiteto cliometrico passou a designar, usualmente sem maiores especificidades, qualquer estudo quantitativo em historia, o que contribuiu para transmitir ao grande publico--e mesmo para os ambientes academicos mais distantes da historia economica--uma ideia de nitida oposicao entre dois campos, onde os "cliometristas", quantitativistas e (portanto) cientificos, opunham-se aos historiadores "tradicionais", nao quantitativos e (portanto) ideologicos e avessos ao "metodo cientifico". (6)

Robert Fogel foi um dos pioneiros da cliometria com sua tese onde "comprovava" a pouca importancia das estradas de ferro para a economia norte-americana no seculo XIX atraves da construcao hipotetica de uma economia sem estradas de ferro, imaginada existir 60 anos apos a real introducao das ferrovias. Embora seu metodo contrafactual tenha desencadeado relevante discussao sobre causalidade historica, sua conclusao quanto as estradas de ferro foi bastante contestada dentro da propria grei cliometrica. (7) Assumindo a polemica e como forma explicita de se distinguir do restante dos pesquisadores que se dedicam a historia, Fogel regularmente classifica seu metodo com o termo "cliometria", cujo debut, segundo ele, teria ocorrido em 1956:

A cliometria anunciou seu nascimento numa conferencia em Williamstown em 1956 [...] O ponto alto da conferencia foi a apresentacao por dois jovens econometristas de Harvard, com forte interesses historicos, Alfred H. Conrad e John R. Meyer, que surpreenderam a conferencia com um trabalho chamado "A economia da escravidao no Sul do Pre-Guerra". Contradizendo o conhecimento estabelecido, argumentavam que, longe de ter sido um desastre economico, as plantacoes escravistas do Sul ante-bellum haviam sido altamente lucrativas (FOGEL 1996, p. 11).

Nesse ambiente intelectual, Conrad e Meyer haviam reunido dois assuntos polemicos--escravidao e metodos quantitativos em historia--num unico texto, (8) onde analisavam a lucratividade da escravidao a partir de sua "racionalidade economica", ou seja, com base numa argumentacao quantitativa onde procuraram calcular como um senhor de escravo seria suposto tomar uma decisao "racional", ao cotejar os custos de comprar e manter seus escravos com a receita que viria a auferir ao longo da futura vida util desses "bens de capital". Atribuiram a seu texto o objetivo explicito de contribuir para a controversia entre historiadores tradicionais e os revisionistas sobre a estagnacao ou lucratividade do sistema escravista no Sul dos EUA as vesperas da Guerra Civil.

O longo debate resultante logo extrapolou os contidos limites da comunidade de economistas. Embora Fogel tenha avaliado que "foi o desafio metodologico posto pelo [texto de Conrad e Meyer] mais do que a essencia do problema [da lucratividade da escravidao] que inicialmente chamou a atencao da maioria dos cliometristas" (FOGEL 2003), o debate ganhou muito de seu impeto polemico por seus implicitos aspectos morais e politicos, de aparentemente "defender" a escravidao ao mostra-la lucrativa e nao moribunda, o que--alem do mais--se confundia facilmente com a simples "defesa da escravidao".

Nos anos que se seguiram, diversos estudos adotaram por tema os problemas da escravidao, abordando-os com metodologia da teoria economica. (9) Em 1972, Engerman e Genovese, com o apoio institucional de Fogel, organizaram um seminario que pretendia reunir diversas abordagens quantitativas ao estudo da escravidao, onde alguns dos futuros criticos de TOTC ja apresentariam pesquisas sobre os temas polemicos. (10) Foi exatamente nessa decada de 1963 a 1973 que os estudos "cliometricos" avancaram com firmeza no establishment academico norte-americano, tornando-se praticamente o padrao no setor, como demonstrou Whaples, ao calcular o percentual de trabalhos quantitativos no total de artigo publicados pelo Journal of Economic History (Figura 1).

TOTC e sua divulgacao

Em 1971, F&E publicaram uma coletanea de textos representativos da producao cliometrica na decada anterior, onde ja incluiam um texto intitulado "A economia da escravidao". Muito deste material seria logo reaproveitado em TOTC. Levantavam a questao da eficiencia relativa do trabalho escravo. Ao ensaiarem um calculo preliminar dessa eficiencia, Fogel lembra ter-se espantado ao chegar a um melhor resultado para a agricultura escravista do que para a livre. Dedicaramse, entao, durante alguns meses ao estudo do tema, mas so conseguiram "piorar" o problema, pois o trabalho escravo continuava mostrando-se mais eficiente do que o trabalho livre.

Neste ponto fizemos o que todos os economistas fazem quando tem um problema: solicitamos apoio para pesquisa a National Science Foundation (NSF). Esta bolsa e as varias que se seguiram permitiram que levassemos a cabo um aprofundado exame de todos os aspectos da escravidao, como uma instituicao economica, social e politica (FOGEL 1996, p. 12).

O primeiro resultado publico dessas pesquisas foi TOTC. Para realizar o extenso levantamento de dados sobre o qual se apoiou TOTC, F&E lancaram mao de um exercito academico: 5 cliometristas com diferentes especializacoes, cerca de 25 estudantes de pos-graduacao da Universidade de Chicago, cerca de 20 profissionais que leram todo o manuscrito em versao preliminar e 93 pessoas, incluindo conceituados historiadores economicos e historiadores da escravidao que leram partes do manuscrito (GUTMAN 1975a, p. 2).

O livro foi publicado em duas partes, sendo a primeira explicitamente preparada "para o grande publico", em edicao economica, com capa chamativa (onde era promovido como "um amplo reexame dos fundamentos economicos da escravidao negra americana") e sem "detalhes academicos", que foram relegados ao volume de "evidencias e metodos", em edicao mais cara. No tomo principal, o texto adota uma retorica afirmativa, sem os qualificativos nem os argumentos probatorios usuais da redacao academica. Como resume Weiss (2001), "[TOTC] foi escrito e produzido de modo a atrair uma quantidade anormalmente grande de atencao". Os proprios autores enfatizam esta intencao: "A reconstrucao que surgiu [de suas pesquisas] encontra-se tao em desacordo com as crencas comuns e suas implicacoes sao tao centrais a compreensao de problemas contemporaneos, que acreditamos que estas novas descobertas nao devam mais ficar restritas as paginas de esotericas revistas academicas" (FOGEL; ENGERMAN 1989, p. 4).

Ja no Prologo de TOTC, F&E listam um "decalogo" do que pretendem ser "algumas das principais correcoes a caracterizacao tradicional da economia escravista" que apresentam no restante do livro. Essas afirmacoes serao repetidas sistematicamente, quase como mantras, ao longo do texto: a escravidao nao havia sido um sistema irracional, nem se encontrava moribunda as vesperas da Guerra Civil; a agricultura escravista nao havia sido ineficiente se comparada a livre; o escravo nao era preguicoso; nao havia incompatibilidade entre escravidao e industria; a familia escrava havia sido a unidade social basica da escravidao; a qualidade de vida material dos escravos se comparava favoravelmente com a de trabalhadores livres; os escravos recebiam cerca de 90% do valor de seu trabalho; e, por fim, a economia dos estados sulistas estava em franca expansao nas decadas anteriores a 1860. Considerando o contexto da epoca, quando ocorriam aguerridos debates sobre a participacao dos negros na sociedade norte-americana, pode-se imaginar a estrepitosa repercussao midiatica desse decalogo. (11)

TOTC teve seu lancamento programado como uma campanha de marketing de produto de consumo popular: (12) sua primeira resenha apareceu, inabitualmente, no Wall Street Journal, seguida de outras, todas favoraveis, na grande imprensa (como Time, o New York Times e o Washington Post). Segundo Kolchin, "F&E tornaram-se celebridades instantaneas, aparecendo em artigos e resenhas na imprensa popular e convidados a explicar suas descobertas ao publico pelo radio e em programas de entrevistas ..." (KOLCHIN 1992, p. 491). Em talk shows com audiencia nacional, Fogel repetia seu decalogo de "descobertas", insistindo no processo "cientifico", computadorizado, pelo qual os resultados foram obtidos. As "descobertas" tornavam-se especiais e unicas justamente por dependerem de esotericas tecnicas matematizadas e do (entao) dispendioso tempo de computadores. (13) Apesar desse pano de fundo, os temas de interesse das grandes midias nao eram nem as filigranas da pesquisa historica e nem as discussoes metodologicas. Desde logo, os debates fugiram aos canones academicos, assumindo tom emocional e colorido ideologico. Discutia--se o "julgamento historico" da escravidao e os autores justificavam-se de acusacoes de defender a escravidao, protegendo-se atras do "metodo cientifico" propiciado pela cliometria. (14) Ao final, no entanto, as questoes de metodologia mostravam-se de pouco interesse para o publico, diante dos virulentos debates sobre temas morais e ideologicos--em torno da escravidao e da "heranca" da escravidao para os atuais afro-americanos--que foram o foco quase exclusivo da atencao geral. Esses debates de alta visibilidade tiveram como consequencia desqualificar qualquer discussao tida por "tecnica" como um assunto menor frente a importancia dos problemas morais em discussao. Como algo implicito dessa oposicao, concluia-se que, sendo os temas tecnicos de fato irrelevantes para o grande publico, tambem so poderiam ser irrelevantes as criticas tecnicas lancadas contra TOTC.

As criticas academicas a TOTC

Apesar da aclamacao do grande publico e de diversos setores academicos, TOTC enfrentou intensas e numerosas criticas profissionais. Embora Fogel ja fosse conhecido na comunidade academica como defensor das tecnicas quantitativas e dos metodos neoclassicos em historia, tanto por sua polemica tese contrafactual sobre as ferrovias, quanto por sua atuacao como divulgador de pesquisas historicas com estes enfoques (inclusive fora dos temas economicos), TOTC abriu novos debates e discussoes. Podemos aferir a importancia atribuida pelos especialistas em historia economica quantitativa a necessidade de se contraporem as declaracoes do livro pela rapidez e pelo numero das criticas que se seguiram a sua publicacao. Weiss relata: "Houve uma abundancia de pesquisas, papers, edicoes especiais de revistas, coletaneas de artigos, monografias e sessoes de conferencia ..." (WEISS 2001). TOTC saiu em maio de 1974. Ja em setembro, eram publicados o artigo de David (1974) e a critica de Haskell (1974). Em janeiro de 1975, Gutman publicava sua extensa resenha (de 175 paginas) (GUTMAN 1975b). Seguiam-se: David e Temin (1975) e Haskell (1975). O texto de Gutman, revisto e ampliado, foi publicado como livro ainda em 1975 (GUTMAN 1975a). Os artigos de David (Stanford), Gutman (CUNY), Sutch (Berkeley), Temin (MIT) e Wright (Michigan) foram reunidos no livro Reckoning with Slavery, publicado em 1976, com uma introducao do historiador tradicional (nao quantitativista), Kenneth Stampp, que fora asperamente criticado por F&E em TOTC. A abrangencia, precisao e relevancia das cuidadosas criticas desses seis autores, ao longo das 380 paginas do livro, apontam indesculpaveis falhas de TOTC. E, como bem observou Haskell, tais criticas nao provinham de adversarios da cliometria; eram os proprios especialistas em metodos quantitativos e na abordagem economica neoclassica quem as assinavam--o que, por outro lado, seria de se esperar, dada a hermeticidade das tecnicas e da apresentacao da obra, insistentemente fora dos "protocolos" academicos dos historiadores. (15)

Outra importante medida do ineditismo da polemica em torno de TOTC foi o fato de terem sido organizados diversos encontros universitarios exclusivamente para discutir o livro. O simposio de maior repercussao, com a presenca de uma centena de pesquisadores, entre eles destacados historiadores economicos e cientistas sociais interessados em historia, e dos proprios autores, ocorreu durante tres dias, na Universidade de Rochester, em outubro de 1974, sob a organizacao "ecumenica" de Eugene Genovese e Stanley Engerman. (16) Como bem notou Haskell, a discussao metodologica esperada por F&E nao chegou a acontecer, pois "TOTC, julgado sob suas proprias premissas, mostrou-se tao seriamente falho a ponto de nao sustentar qualquer controversia mais profunda" (HASKELL 1975). F&E procuraram responder as consistentes criticas a logica, as premissas e ao padrao academico do livro e, ao final, imprensados, optaram por qualificar o livro de "um relatorio preliminar". (17) Eugene Genovese, ao fechar o evento, viu-se impelido--com "luvas de pelica", supomos--a chamar TOTC de "um fracasso criativo"!

Como uma discussao, mesmo resumida, dos temas criticados extrapolaria, em muito, os limites de um unico texto, ficaremos aqui com sua simples itemizacao, acompanhada de algumas citacoes de fontes.

Sobre a forma do livro, houve dois tipos de critica: uma primeira quanto ao tom de sua redacao, assertivo e sem as incertezas ou escrupulos comuns a argumentacao academica (18) e uma segunda quanto a incompleta comprovacao de fontes ou mesmo a ausencia de comprovacao. (19)

Houve, ainda, criticas generalizadas ao tratamento dado por F&E aos historiadores "tradicionais" e outros estudiosos da escravidao e da economia sulista, que foram caracterizados (muitos criticos preferiram dizer "caricaturados") por chavoes, dos quais F&E omitiram todas as qualificacoes e precaucoes argumentativas com as quais esses autores haviam apresentado suas interpretacoes. Aproveitando esta caracterizacao forcada de seus predecessores, F&E inflaram suas "descobertas", atribuindo-se a autoria de argumentos e pioneirismo no uso de fontes ja usuais na historiografia sobre escravidao. Quanto a isto, Stampp avalia que, do decalogo de "correcoes" de TOTC, os primeiros 4 itens "a maioria dos historiadores da economia sulista havia aceitado ha muito tempo"; o sexto havia sido publicado por Starobin quatro anos antes de TOTC; "nao conheco nenhum historiador que defenda o setimo"; e o argumento central do decimo havia sido publicado por Easterlin 14 anos antes de TOTC. As tres correcoes remanescentes (5, 8 e 9) seriam afirmacoes ineditas e, portanto, nao pertencendo a qualquer "interpretacao tradicional", nao poderiam ser consideradas "correcoes". Concluiu, assim, que a "interpretacao tradicional da escravidao" criada por F&E nao passava de um "judas" retorico a ser malhado ao longo do texto (STAMPP 1976, p. 12-13).

Gutman enumera 25 "erros essenciais" de TOTC, que cobrem praticamente todos os argumentos de F&E sobre as motivacoes dos cativos para adaptar-se ao sistema escravista: castigos, premios, estrutura ocupacional urbana e rural, percentual de escravos em posicoes "gerenciais", mobilidade de escravos, unidades familiares e casamentos, idade ao primeiro filho, entre outros topicos (GUTMAN 1975a, p. 8-11).

A linha mestra de TOTC

Haskell percebeu uma fraqueza intrinseca do metodo cliometrico quando aplicado a historia, que transparece claramente em TOTC: apesar de sua precisao, as equacoes, para serem resolvidas, requerem parametros, cuja estimacao deriva de dados historicos ou, a falta destes, de hipoteses sobre seus possiveis valores.

Embora a cliometria exija que estas e qualquer outra hipotese sejam tornadas explicitas, nao fixa um limite para o numero de hipoteses que possam ser feitas, ou quao alto podem ser empilhadas hipoteses contingentes, contanto que sejam explicitadas. [...] Embora TOTC nao seja um exercicio contrafactual, depende de uma cadeia de hipoteses e estimativas nao menos ousada (HASKELL 1975).

Essa "pilha" de hipoteses alicercam o tema central de TOTC, que, segundo Gutman, seriam "as realizacoes dos negros, sob adversidade". Com tais "realizacoes", os atuais afro-americanos poderiam orgulhar-se de seus antepassados. A "nova historia economica" desmontava a imagem do escravo submisso ou, no maximo, reativo, rebelde, colocando no seu lugar um "agente da etica de trabalho protestante".

Para construir seu argumento em torno deste tema, F&E pretendem que, no sistema escravista norte-americano, havia incentivos para que os escravos trabalhassem com eficiencia, incentivos estes tanto negativos (o castigo) quanto positivos (premios--em tempo livre, benesses ou dinheiro--e a possibilidade de uma "carreira" que levaria a funcoes mais prestigiosas--de trabalhador bracal a trabalhador domestico, artesao e supervisor de campo). Este argumento seria comprovado por uma serie de subargumentos relativos, entre outros aspectos, a vida em familia, a qualidade da alimentacao e da moradia oferecidas pelos senhores a seus escravos. Os escravos teriam internalizado este sistema tao bem que F&E caracterizam os escravos como tendo adotado uma etica de trabalho protestante, ou seja, que trabalhavam e trabalhavam bem porque assim era de seu interesse (e, portanto, assim o desejavam). Eram mais eficientes porque davam maior esforco por hora de trabalho, obtendo, portanto, maior produto do que o trabalhador livre. Sendo assim, comprovava-se a maior eficiencia da unidade produtiva baseada no trabalho escravo, o que demonstrava a consequente eficiencia de toda a economia escravista e, por fim, a vitalidade da economia sulista as vesperas da Guerra Civil. Ao serem desmontados cada um dos varios subargumentos e afirmacoes, desmontava tambem a pilha de hipoteses criadas por F&E, desfazendo-se todas as suas "correcoes" a historiografia da escravidao. O problema original--a lucratividade da unidade economica escravista--transformava-se somente num elo, possivelmente verdadeiro, mas agora isolado, de uma longa cadeia de hipoteses no argumento de TOTC.

David e Temin apontam essa contraditoria atitude diante do trabalho escravo como o que F&E teriam visto como a maior "realizacao" do povo americano negro sob escravidao. E mais, que F&E haviam, consequentemente, rejeitado tanto a imagem do escravo infantilizado e submisso (o chamado "sambo") quanto a necessidade (economica) da rebeldia ao cativeiro, defendidos por tendencias historiograficas opostas. Em TOTC, ambos senhores e escravos se mostram desumanizados, convertidos em meros agentes economicos que so reagem aos incentivos e desincentivos oferecidos pelo mercado. (20)

A blindagem de TOTC

Ao longo das quase quatro decadas desde os debates em torno de TOTC, podemos perceber uma combinacao de movimentos que levaram ao que poderiamos qualificar como a "blindagem" de TOTC, isto e, sua transformacao num marco academico "acima do bem e do mal", que nao haveria mais sentido discutir.

O primeiro desses movimentos foi, certamente, o vai-e-vem das polemicas sobre o "decalogo" de TOTC, durante as quais, segundo Jean Heffer, "Fogel parece ter adotado posicoes mais moderadas" (HEFFER 1977, p. 825). Essa extensa e variada polemica frequentou regularmente as revistas economicas e historicas de lingua inglesa durante as tres decadas apos a publicacao de TOTC, com destaque para o tema da lucratividade e da eficiencia (inclusive tecnologica) da unidade agricola escravista.

O segundo (e talvez o mais importante movimento nesse sentido) foi a continuidade das pesquisas sobre os temas debatidos, sejam aquelas conduzidas pelo proprio Fogel, sejam as de diversos pesquisadores independentes. (21) Fogel, por seu lado, arregimentou um grande numero de coautores e assistentes de pesquisa, buscou novas fontes historicas e procurou tornar a argumentacao de TOTC "mais robusta", sobrepujando a exposicao original com novos dados e analises. Essa nova fase da polemica se consolidou com a publicacao de Without Consent or Contract (WCC), onde Fogel, no entanto, continua contrastando seus "resultados" com as "interpretacoes tradicionais". Na avaliacao de Kolchin:

O surgimento em 1974 de TOTC, por F&E, acendeu uma enorme controversia historica. [...] o cerne dessas revisoes [em WCC] foi no sentido de baixar o tom da retorica e nao de repudiar as posicoes basicas. Apesar de concessoes menores aos criticos, de ajustes mais numerosos e refinamentos aos argumentos anteriores, WCC oferece uma reafirmacao das interpretacoes apresentadas em TOTC (KOLCHIN 1992, p. 495).

Mais do que a ajuda de simples assistentes de pesquisa para levantamento de dados, como ocorreu para TOTC, Fogel angariou, em WCC, a colaboracao efetiva de profissionais reconhecidos, de fato diluindo a responsabilidade pela producao de argumentos ao estruturar o livro em torno de verbetes e artigos com autorias independentes. Kolchin explicita que:

Mais uma vez, [Fogel] se protege das criticas historicas ao cooptar a maior parte da profissao: como TOTC, WCC contem uma lista excessiva de agradecimentos [...] a 26 estudantes, a 37 de quem aprendeu ao debater, a 19 que leram o manuscrito, a 56 que leram partes dele, a 7 editores e seus assistentes e, por fim, a Stanley Engerman [...] (KOLCHIN 1992, p. 495).

Cremos que outro movimento fundamental (e em grande medida consequencia dos proprios debates sobre TOTC), que tambem serviu como atenuante das polemicas, foi o surgimento de novas areas de estudos em torno da antropometria, nas quais medicoes de peso e altura passaram a servir como indicadores, essencialmente quantitativos, para niveis de nutricao e de qualidade de vida, conceitos de dificil afericao em si. O proprio Fogel abracou o tema, enveredando pelo estudo da correlacao entre o desenvolvimento economico e o desenvolvimento corporal (FOGEL 2004).

Associado a estes varios movimentos diluidores das polemicas, devemos reconhecer o merito pessoal de F&E, que, apesar da onda de criticas especializadas, por vezes asperas, que sofreram, mantiveram relacoes profissionais e ate cordiais com muitos de seus criticos, frequentemente colegas de departamento, coparticipantes em simposios ou coautores em coletaneas sobre historia economica. Embora isto nao tenha reduzido ou evitado criticas, certamente trouxe uma medida de civilidade e de proposito cientifico a discussao (pelo menos a que tratou dos aspectos mais tecnicos do debate). Fogel confessou ter sido esta uma epoca dura, como podemos avaliar dos comentarios de Peter Kolchin:

Embora alguns dos ataques foram mal humorados e exagerados e so produziram revisoes menores das estatisticas de Fogel e Engerman, as criticas mais fundamentais a sua abordagem historica basica deixaram TOTC com poucos defensores entre os historiadores profissionais. Poucos anos apos sua publicacao, a visao dominante sobre o livro havia se tornado de condescendencia ironica: [...] tratava-se de uma obra ousada, mas agora desacreditada, que acrescentava pouco ao importante fluxo de revisionismo da escravidao nos anos [19]70 (KOLCHIN 1992, p. 492).

E importante notarmos que--talvez fora do comportamento comumente esperado em situacoes como essas--varios dos criticos mais veementes de F&E (Gutman, Wright, Sutch e Temin) haviam recebido agradecimentos desses autores em TOTC. F&E dedicam um paragrafo especial ao agradecimento a K. Stampp, que lhes ofereceu detalhados comentarios, "[...] ajudando a fortalecer nossos argumentos, mesmo quando se contrapunham com seu trabalho. Ao agir assim, estabeleceu um padrao academico que nos esforcaremos a seguir, quando for nossa vez de enfrentar a critica de nossos colegas" (FOGEL; ENGERMAN 1989, p. 278).

Os criticos, por sua vez, mostraram-se agradecidos a eles por seu apoio a suas proprias pesquisas, demonstrando seu respeito intelectual por estes pesquisadores.

Herbert Gutman escreveu no Prefacio a seu Slavery and the Numbers Game:

F&E sao antigos colegas. Poucas pessoas foram mais importantes para meu proprio trabalho e mais generosas com seu tempo do que Stanley Engerman. Sinto-me endividado a ele. Nao obstante, como as paginas que se seguem deixam repetidamente claro, estou convencido de que TOTC e uma obra profundamente falha (GUTMAN 1975a, p.VIII).

Gavin Wright, outro autor de duras criticas a TOTC (WRIGHT 1976), escreveu, pouco depois, em 1978, no seu livro The Political Economy of the Cotton South, o seguinte cortes reconhecimento a Fogel:

Este livro nao [...] leva adiante o debate com TOTC de Robert W. Fogel e Stanley Engerman, um livro que aborda muitos temas que nao tocamos aqui. Nosso livro deve muito ao trabalho desses dois estudiosos e as discussoes e correspondencia com eles durante varios anos, mesmo que, ao final, seu ponto de vista seja bem diferente (WRIGHT 1978, p. 6).

O conjunto de autores que mais se dedicaram para reunir de forma concatenada as criticas a TOTC, David, Gutman, Sutch, Temin e Wright, tambem fizeram questao de agradecer coletivamente a F&E:

Nao consideramos necessario reiterar agradecimentos anteriores, salvo um: Stanley Engerman e Robert Fogel generosamente responderam a numerosas perguntas e ofereceram dados brutos, que facilitaram em grande medida parte do trabalho sobre que se apoiam os capitulos adiante (DAVID; GUTMAN et al. 1976, p. X).

Esses multiplos agradecimentos e demonstracoes de respeito academico transparecem tambem na declaracao desses autores de que nao viam o livro como uma "polemica sobre a experiencia afro-americana de escravidao" e, sim, como "uma contribuicao cientifica a escrita da historia americana em geral e da historia da sociedade sulista ante-bellum em particular".

Sem duvida, trata-se de exemplos, de parte a parte, a serem seguidos.

A "jangada" de Robert Fogel

Talvez caiba insistir, por fim, no dever de oficio do historiador de analisar criticamente as fontes, seja pessoalmente, seja pela intermediacao dos que o fizeram, de modo a transmitir a seu leitor a mesma seguranca que tiver adquirido sobre sua adequacao aos argumentos em pauta. Perguntara o aluno interessado: "Mas como saberei que este historiador efetivamente as analisou?" Como quase tudo em historia, nunca poderemos ter certeza absoluta disso, mas, seguindo os "protocolos" historiograficos, poderemos aumentar nossa confianca nas fontes e no historiador que afirma te-las analisado. No caso de TOTC, no entanto, quem seguiu a risca os protocolos historiograficos e cientificos nao foram os autores e, sim, seus criticos. E justamente, ao refazerem o percurso que F&E haviam citado como as pesquisas geradoras de TOTC, estes criticos trouxeram a tona inumeros problemas. Contra tudo o que se espera de um texto academico de primeira linha, F&E valeram-se das aparencias de protocolos academicos, porem expuseram dados e conclusoes apontadas, ja na epoca, como absolutamente fora de qualquer padrao academico de exposicao e argumentacao. A precisao tecnica de tais criticas e a quantidade em que foram trazidas tornam incontroversa a acachapante sentenca de que a pesquisa, a construcao e a redacao de TOTC fugiram insistentemente as praticas minimas do ramo. Feita esta constatacao, cremos que qualquer posterior referencia ou citacao ao livro deveria se fazer acompanhar dos devidos caveats, para evitar que os leitores destas referencias ou citacoes tambem sejam iludidos pelas aparencias e implicitamente aceitem a totalidade do conteudo a que remetem. Nao pode ser esquecido, consequentemente, que TOTC e uma obra atravessada por falhas desclassificantes: informacoes erradas, erros de calculos, omissao de fontes, distorcoes de amostragem, retorica argumentativa tendenciosa, entre outros problemas que procuramos relembrar neste artigo.

Assim, se nao somos capazes de explicar, pelo conteudo de TOTC, sua repercussao na epoca e sua continuada reputacao, so nos resta buscar uma explicacao sociologica, na qual o livro apareceria mais como simbolo do que como obra academica de fato. Apesar de suas falhas, nao ha como negar que TOTC tenha consolidado uma mudanca de paradigma para a historiografia da escravidao, tanto por seus metodos quanto em sua epistemologia. Nem ha que discutir, tampouco, que a publicacao de TOTC tenha constituido um pico nos debates sobre escravidao.

Confrontados com esta antinomia, ocorre-nos uma parabola: F&E teriam criado, com TOTC, uma "jangada academica", que pode ser envolvida, afundada, virada e revirada, mas que sempre volta a tona--incolume, apesar de molhada --como se nada acontecera. So tal "jangada" poderia enfrentar criticas tao claras e contundentes, que, por muito menos, reprovariam qualquer candidato a titulo ou a cargo academico, conseguindo isola-las em esotericos debates entre especialistas, enquanto o publico, as instituicoes financiadoras oficiais e mesmo a comunidade academica em geral, fora daqueles especialistas, se contentavam com as afirmacoes originais dos autores e com os emblematicos rotulos enaltecedores que extraiam dessas afirmacoes.

Esta "jangada" precisou ser construida, o que exigiu, antes de mais nada, que os autores se posicionassem favoravelmente junto a financiadores de pesquisas, junto as hierarquias universitarias e, claramente, junto a colegas e potenciais criticos. Alem deste bem-sucedido posicionamento politico, F&E conseguiram feito pouco comum que foi serem ouvidos e apreciados pelo grande publico. Mesmo tachados de "polemicos" e "iconoclasticos", lograram obter o qualificativo bem mais importante, de "relevantes".

Vale lembrar que em nenhum momento depois da "acareacao de Rochester" os autores concederam derrota que nao fosse em pontos menores ou "detalhes de pesquisa, a serem futuramente aperfeicoados". Em contrapartida, tampouco em nenhum momento deixaram de louvar o profissionalismo dos criticos e de agradecer suas criticas.

Ao aluno que, tendo lido este relato, pense em dedicar-se menos aos tediosos protocolos da historiografia e mais a politica academica, lembramos que F&E estudaram e se estabeleceram profissionalmente numa epoca quando transcorria mudanca unica nas relacoes raciais norte-americanas. E que, por formacao (alias longa e trabalhosa), estavam posicionados nas hostes metodologicas que se expandiam naquele momento historico e que lograram se impor no mundo academico das decadas seguintes. Nenhum desses contextos e eventos se repetira. Alem do mais, como insistem os economistas de Chicago, o atual mercado academico--bem mais competitivo--certamente punira quem aparentar pouco profissionalismo, preferindo recompensar seus concorrentes mais esforcados.

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* Agradeco os pertinentes comentarios de Ricardo Salles e Rafael Marquese, bem como dos pareceristas desta publicacao, permanecendo, contudo, responsavel pelas opinioes aqui expressas.

(1) Termo criado em 1976 por Richard Dawkins. E, para a memoria, o analogo do gene na genetica: a unidade de informacao minima que se multiplica de cerebro em cerebro ou de midia em midia.

(2) Por exemplo, as resenhas de Haskell (1975), Supple (1977) e Fenoaltea (1981); o simposio dedicado a discussao de TOTC (WALTON 1975); e especialmente as criticas de David, Gutman, Sutch, Temin e Wright, com introducao de Stampp (DAVID; GUTMAN et al. 1976), alem da obra de Gutman (1975a).

(3) "O primeiro volume [de TOTC] e escrito num estilo direto, declaratorio, que consegue incrivel forca argumentativa por deixar de lado as tediosas tarefas de qualificacao e comprovacao [...] acumula desprezo pelas interpretacoes anteriores, em especial as de Kenneth Stampp de Berkeley [...]. O segundo volume e efetivamente cheio de tabelas, equacoes e cripticas descricoes de procedimentos, mas de fato nao comprova a estoria relatada tao simplesmente no primeiro volume" (HASKELL 1975). Todas as traducoes sao nossas.

(4) Esse contexto e descrito pelo proprio Fogel (2003, p. 1-3), que cita Kenneth Stampp (1952; 1956) como o historiador que inicia esta revisao pos-1945. Tambem devemos acrescentar como decisivos nesta revisao: Gunnar Myrdal (1944), Eric Williams (1944) e Frank Tannenbaum (1947).

(5) O simples uso de dados e metodos quantitativos nao era entao novidade, pois a historiografia francesa (tanto a vinculada aos Annales, quanto aquela focada na reconstituicao macroeconomica), ja os utilizava em abundancia ha quase meio seculo e dentro de perspectivas epistemologicas bem distintas. Por um lado, enfatizavam menos o aspecto quantitativo em si do que o aspecto serial dos dados e de seu tratamento. Por outro, passavam ao largo das teorias de mercados, fundadas na conceituacao de um "equilibrio" entre oferta e demanda de produtos, trabalho ou capital.

(6) O assunto vem sendo amplamente resenhado e debatido ha 6 decadas. Para uma medida de seus contornos: Claudia Goldin resenha os trabalhos de Fogel e North (GOLDIN 1995); Claude Diebolt discute a abrangencia de temas e problemas epistemologicos em torno da cliometria (DIEBOLT 2012); Avner Greif avalia as mudancas nas relacoes entre cliometria e teoria economica neoclassica (GREIF 1997); Angela M. Rojas descreve a evolucao da area de 1957 a 2005, analisando os programas cientificos dos cliometristas e das instituicoes onde pesquisam (ROJAS 2006).

(7) Haskell (1975) cita as criticas de David, Desai, Lebergott, Scheiber, McClelland e Gerschenkron. Para uma resenha detalhada da obra de Fogel, ver Davis (2000).

(8) Segundo Conrad e Meyer (1964, p. IX), a conferencia mencionada por Fogel teria de fato ocorrido em setembro de 1957 (e nao 1956). O texto publicado no Journal of Political Economy (CONRAD; MEYER 1958), com duas criticas posteriores e suas respectivas respostas, foi reproduzido em CONRAD; MEYER 1964.

(9) Alguns exemplos: Yasuba mostrou que o sistema escravista poderia se perpetuar com a criacao lucrativa de escravos (YASUBA 1961); Evans Jr. estimou taxas de retorno sobre o capital em escravos no periodo 1830-60, reafirmando a viabilidade da escravidao (EVANS Jr 1962); E. Domar modelou razoes economicas para o surgimento e o desaparecimento da escravidao agricola (DOMAR 1969), Bergstrom discutiu de forma matematizada a otimizacao do equilibrio competitivo numa economia escravista (BERGSTROM 1971). Nos anos 1970, o calculo da lucratividade da escravidao brasileira foi tema para estudos de Helio Portocarrero de Castro, Pedro Carvalho de Mello e Robert W. Slenes. No presente trabalho, contudo, deixaremos de lado a discussao relativa a escravidao no Brasil.

(10) Sutch analisou a "criacao" de escravos e a expansao da escravidao para o Oeste (SUTCH 1975); Goldin procurou mostrar que o numero de escravos urbanos diminuiu nao por sua inviabilidade ou falta de demanda por eles nas cidades, mas porque o preco dos escravos na agricultura aumentou, retirando-os de ocupacoes urbanas (GOLDIN 1975).

(11) A resenha de Mildred Fierce, por exemplo, cita o decalogo verbatim e lanca: "[... ] varios aspectos de seus argumentos nos levam de volta [... ] diretamente para a posicao de muitos apologistas do seculo XIX ou inicio do seculo XX [...] com sua caracterizacao da escravidao como uma instituicao benigna e flexivel ..." (FIERCE 1975, p. 91-92). Barry Supple resume assim o carater radical da revisao proposta por F&E: "Um livro que concluiu que a escravidao havia sido um instituicao economica lucrativa nao porque os escravos eram explorados, mas exatamente porque eles nao o eram [...] estava fadado a ter um impacto assaz retumbante" (SUPPLE 1977, p. 181).

(12) Fierce avalia que: "[...] o que estamos presenciando e uma magistral promocao de marketing, cuidadosamente planejada, sem paralelo na historia editorial das chamadas obras academicas. Os editores e os autores sao epitomes do axioma capitalista da 'maximizacao de lucros'" (FIERCE 1975, p. 89-90).

(13) As resenhas mais populares insistiram que "muitos de seus graficos, equacoes e simbolos estao acima da compreensao da maioria dos historiadores". Comentou Gutman: "A mensagem era perfeitamente clara. Historiadores que nao dispusessem desses instrumentos poderiam chafurdar por outros 100 anos em confusao subjetiva e nunca conseguirem avaliar ou rebater o trabalho dos cliometristas" (GUTMAN 1975a, p. 3).

(14) Vale lembrar que, no final dos anos 1960 e na primeira metade dos anos 1970, escravidao era tema de multiplas abordagens e polemicas. Como exemplos, mencionamos os assuntos e autores a seguir: comparacoes internacionais (Freyre, Elkins, Tannenbaum, Harris, Brion Davis e Mintz); analise marxista (Genovese e Davis); publicacoes de relatos e biografias de escravos (Blassingame, Harlan, David Cronon e Douglass), textos de escritores negros (Barksdale e Kinnamon); historia de negros livres e libertos (Morgan e Litwack). Comecavam a ganhar importancia os estudos focados na familia negra, sob escravidao ou liberdade (Moynihan, Franklin Frazier, Genovese, Schweninger, Rawick e Gutman). Estudos focados no papel das mulheres, no entanto, so viriam a assumir importancia maior nas decadas de 1980 e 1990 (Leslie, White, Stevenson, Frankel, Lerner e Forbes).

(15) F&E fazem questao de agradecer, em TOTC, a diversos desses autores, com o caveat de que "Nao se deve supor que aqueles cuja ajuda reconhecemos concordem necessariamente com nossos resultados. Alguns deles tem sido altamente criticos do encaminhamento geral de nossa pesquisa [...]" (FOGEL; ENGERMAN 1989, p. 277).

(16) Haskell (1975) cita a presenca de: Kenneth Stampp, Stanley Elkins, David Brion Davis, Vann Woodward, Winthrop Jordan, Oscar Handlin, Albert Fishlow, Peter Laslett e Hartwell.

(17) A que David et al. responderam, explicitando o descompasso entre as afirmacoes em TOTC e esta desculpa inconvincente: "... [o livro] nao foi publicamente apresentado nem publicamente recebido como mera especulacao. TOTC se anuncia como o produto de descobertas de 'quase uma decada e meia' de intensas e sofisticadas pesquisas por um grande grupo de estudiosos, a partir das quais 'as principais caracteristicas da real operacao da economia escravista estao agora claras'. Sem duvida, qualquer obra historica que faz tais afirmacoes merece nada menos do que ser levada a serio e julgada sobre seus proprios meritos" (DAVID; GUTMAN et al. 1976, p.VIII-IX).

(18) Os proprios autores, em TOTC 2v., Apendice A, concedem ter extrapolado os protocolos academicos (FOGEL; ENGERMAN 1974, p. 4).

(19) Sobre falhas na comprovacao das fontes e do raciocinio: "Talvez a critica academica mais comum a F&E seja sua omissao [... ] em anotar seus argumentos de modo a permitir que seus leitores examinem facilmente suas fontes ou determinem a maneira como chegaram a suas conclusoes. O texto nem oferece notas de rodape nem citacoes numeradas ao suplemento. Consultar o suplemento ao ler o texto e sempre dificil, muitas vezes atordoante e por vezes futil. [...] sua afirmacao de so terem aceitado seus 'inacreditaveis' resultados depois de checarem e rechecarem seus dados nao se sustenta pela leitura de suas fontes, que, de fato, empregaram displicentemente" (STAMPP 1976, p. 9-10). "Uma conclusao cientifica, mesmo que plausivel ou ideologicamente palatavel, so se torna cientifica se os metodos especificos empregados para se chegar a ela se conformam aos padroes estabelecidos na disciplina" (DAVID; GUTMAN et al. 1976, p.VII-VIII).

(20) "Os senhores aparecem indistinguiveis de puros homens economicos [... ] [F&E] consideram que tambem os escravos haviam aprendido a reagir a uma gama de incentivos economicos ..." David e Temin (1975) apud Gutman (1975a, p. 6).

(21) Olmstead e Rhode examinam a evolucao da produtividade do trabalho escravo frente a introducao de diversas variedades de algodao (OLMSTEAD; RHODE 2007) e a diversas variaveis da colheita (OLMSTEAD; RHODE 2011); G. Wright analisa a economia algodoeira como motor da economia sulista (WRIGHT 1974; 1975; 1978); Grabowski e Pasurka criam modelo para analisar as eficiencias tecnologicas relativas da unidade escravista e nao escravista (GRABOWSKI; PASURKA 1989); e Hummel (2001) argui a lucratividade da escravidao junto com sua ineficiencia social.

Heitor Pinto de Moura Filho

heitormoura@yahoo.com.br

Presidente

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Recebido em: 2/4/2013

Aprovado em: 19/7/2013
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:de Moura Filho, Heitor Pinto
Publication:Historia da Historiografia
Date:Apr 1, 2014
Words:7933
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