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Amizade e Bem-Estar subjetivo.

Friendship and Subjective Well-Being

No Relatorio de Desenvolvimento Humano Global de 2011, o Brasil consta em 84 lugar no Indice de Desenvolvimento Humano e no quesito satisfacao geral com a vida, dentre 187 paises (Programa das Nacoes Unidas para o Desenvolvimento -PNUD, 2013). Essa posicao evidencia que o pais precisa atentar para questoes importantes a felicidade, como o respeito a todos, a validacao de direitos, a ampliacao de oportunidades. Para alem de indicadores objetivos, esses relatorios mostram a preocupacao com o aspecto subjetivo da felicidade, por isso e relevante investir na pesquisa psicologica desse campo.

Na literatura psicologica a felicidade vem sendo referida como bem-estar subjetivo (BES), satisfacao, estado de espirito, afeto positivo ou avaliacao subjetiva da qualidade de vida. Para Myers (2000), felicidade e algo mais profundo e duradouro do que um bom humor momentaneo. Segundo esse autor, pessoas felizes sao menos autocentradas, menos hostis e abusivas, menos vulneraveis a doencas, mais amaveis, tolerantes, confiaveis, criativas, decididas e dispostas a ajudar.

Diener (1984) identifica tres tratamentos ao BES na literatura: 1) e concebido por criterios externos, como uma virtude, e a felicidade seria a posse de qualidades desejaveis; 2) abrange o que leva as pessoas a avaliarem positivamente suas vidas; e 3) considera o BES como o estado de preponderancia de afetos positivos sobre os negativos. Diener (1984) destaca, ainda, os seguintes aspectos: a subjetividade, uma vez que o bem-estar e parte da experiencia individual; o entendimento de que ele e composto por fatores positivos, e nao so pela ausencia de fatores negativos; e o fato de o bem-estar incluir uma medida global, no lugar de somente uma medida limitada de um unico aspecto da vida.

Duas tradicoes filosoficas fundamentam as diferentes concepcoes da literatura, como relatam Woyciekoski, Stenert e Hutz (2012). A Tradicao Hedonica considera as emocoes prazerosas, satisfacao de vida e relativa ausencia de estados desprazerosos; na Tradicao Eudaimonica o bem-estar e visto de modo integral, dai o conceito de bem-estar psicologico presente em muitos estudos (Moreira & Samera, 2006). Raramente sao investigados o BES e o bem-estar psicologico juntos (e.g. Freire & Tavares, 2011).

Uma das formas de tratamento cientifico mais utilizadas tem sido a proposta de Diener, Lucas, Oishi e Suh (2002). Para eles, BES consiste de tres componentes distintos, porem correlacionados: satisfacao de vida (avaliacao cognitiva global da vida da pessoa), afeto positivo e ausencia de afeto negativo. Portanto, BES envolve o que as pessoas pensam e sentem a respeito de suas condicoes de vida, com criterios de avaliacao do proprio individuo, e nao externos. Trata-se de uma grande categoria de fenomenos incluindo as respostas emocionais das pessoas (afeto positivo e negativo), dominios de satisfacao e os julgamentos globais de satisfacao de vida (Giacomoni, Hutz, & Reppold, 2007).

Muitos estudos mostram que pessoas felizes (ou seja, felicidade enquanto BES) sao bem sucedidas em varios dominios de suas vidas. Woyciekoski et al. (2012) localizaram, na literatura publicada entre 1980 e 2011, que os fatores intrinsecos associados ao BES sao personalidade, locus de controle, confianca, defesas repressivas, otimismo, religiosidade, virtudes e a forma como a pessoa pensa/percebe o mundo. Nivel socioeconomico, cultura (individualista ou coletivista), suporte social, relacionamentos (familia, conjuge e amigos) e eventos de vida foram identificados como fatores extrinsecos.

O trabalho de Argyle (2001) em psicologia da felicidade reuniu dados de diversos paises sobre aspectos importantes a vida de seus habitantes. Tres dimensoes da vida trazem mais felicidade as pessoas: trabalho, lazer e relacionamentos.

O papel dos relacionamentos no BES e um interesse recorrente em pesquisa. Ao final da decada de 1980, Pavot, Diener e Fugita (1990) concluiram que as pessoas relatam sentimentos de maior felicidade diante de apoio social. Na decada seguinte, Myers (2000) tambem salienta o aspecto interpessoal da felicidade, apontando que pessoas casadas relatam maior felicidade e satisfacao de vida do que pessoas que nunca casaram ou que se separaram/divorciaram. Lyubomirsky, King e Diener (2005) sugerem que pessoas felizes, isto e, aquelas que experimentam mais afetos positivos do que negativos, tendem a ter sucesso e mais satisfacao com relacionamentos. Woyciekoski et al. (2012) tambem denotaram essa relacao entre BES, apoio social e relacionamentos.

Segundo Argyle (2001), sao tres os tipos de relacionamentos que mais explicam a felicidade: familia, romance e amizade. O foco do presente trabalho esta na relacao entre amizade e BES. Assim, cabe apontar os estudos que se dedicaram especificamente a estudar o papel da amizade para a felicidade e bem-estar das pessoas. Contudo, previamente e apresentado um breve panorama sobre as relacoes de amizade.

A amizade e um relacionamento percebido como significativo e que envolve aspectos como companheirismo, ajuda (instrumental, emocional e social), confianca, autorrevelacao, proximidade relacional, autovalidacao, respeito, lealdade e disponibilidade. Do amigo se espera e a ele se oferece perdao, compaixao, paciencia, empatia, altruismo, gratidao e honestidade (Souza & Hutz, 2007a).

A amizade difere conforme a etapa de vida. Enquanto na infancia ela se ve pautada por brincadeiras, companheirismo, diversao e afeto, na adolescencia ela se acresce de lealdade, confianca, proximidade e autorrevelacao (Bukowski, Newcomb, & Hartup, 1996; Peron, Guimaraes & Souza, 2010). E na saida da adolescencia e entrada na adultez jovem que as amizades atingirao um apice funcional desenvolvimental, ajudando o individuo em sua adaptacao a novas tarefas de vida e desafios em termos de relacoes interpessoais e de carreira profissional (Rawlins, 1992). No entanto, a quantidade de amigos diminui com a entrada na adultez e o envolvimento em romance estavel, casamento, surgimento de filhos e dedicacao ao trabalho (Carbery & Buhrmester, 1998).

Ainda assim, a amizade e um relacionamento importante para a vida adulta, por vezes como complemento a ausencia de lacos familiares fortes. Dessa forma, cabe investiga-lo na relacao com o BES em adultos.

Nas diferencas de genero na percepcao da qualidade da amizade, as mulheres experimentam mais satisfacao e sentimentos positivos com relacao a melhor amizade do que os homens (Mendelson & Aboud, 2003; Souza & Hutz, 2007b). Um estudo com adultos-jovens gauchos (media de 23 anos) nao encontrou diferencas de genero para sentimentos negativos (Souza & Hutz, 2007b). Para as funcoes da amizade, entendidas por Mendelson e Aboud (1999) como ajuda, autovalidacao, alianca confiavel, companheirismo estimulante, intimidade e seguranca emocional, encontrou-se diferenca apenas para homens que indicaram uma melhor amiga: para eles, essa amiga e capaz de melhor prover seguranca emocional e autovalidacao (Souza & Hutz, 2007b). Ainda assim, prevalecem amizades de mesmo sexo, tanto em estudos brasileiros (DeSousa & Cerqueira-Santos, 2012; Souza & Hutz, 2007b) como de outros paises (Mendelson & Aboud, 1999). Estudos complementares com adultos brasileiros mostraram tambem que os homens nao costumam dizer ao melhor amigo que ele tem esse status, bem como, sem distincao de genero a origem da melhor amizade e a escola e o melhor amigo mora na mesma cidade do participante (Souza & Hutz, 2008a).

O presente trabalho segue o modelo teorico de Mendelson e Aboud (1999, 2003) para a qualidade da amizade (seis funcoes, sentimentos positivos e negativos e satisfacao com a amizade). Esses construtos sao avaliados pelos Questionarios McGill de Amizade, validados para uso no Brasil por Souza e Hutz (2007a) (mais detalhes na secao de procedimentos metodologicos). Ao mesmo tempo em que a presente pesquisa foi conduzida, DeSousa e Cerqueira-Santos (2012) realizaram um estudo com as escalas validadas por Souza e Hutz (2007a) com 124 adultos-jovens do Sergipe (idade media de 23 anos). Confirmaram-se os achados anteriores quanto a um maior numero de amizades de mesmo sexo, residentes na mesma cidade, com origem na escola e melhor amizade que conhece esse status. No entanto, os autores nao realizaram comparacoes de sexo para as funcoes, sentimentos e satisfacao com o relacionamento. Portanto, novos estudos com tais analises podem colaborar com o corpo de trabalhos desse campo, inclusive com a introducao da variavel BES. A seguir e revisada a literatura com os estudos disponiveis que evidenciam a associacao entre amizade e BES.

McDonough e Munz (1994) encontraram, em amostra com 198 adultos, evidencia de que elevados niveis de bem-estar se associa a niveis mais profundos de participacao nos relacionamentos de amizade em termos de comunicacao e consideracao, ao passo que baixos niveis de bem-estar se associaram mais a funcao de companheirismo nas amizades estudadas. Ademais, bem-estar psicologico e fisico foram mais altos em pessoas com relacionamentos proximos com familia e amigos, o que condiz com a literatura sobre felicidade e relacionamentos.

Rodriguez, Mira, Myers, Morris e Cardoza (2003) realizaram um estudo com 338 adultos-jovens (idade media de 22 anos) de etnia latina residentes nos Estados Unidos com o proposito de avaliar a relacao entre apoio percebido de amigos e familiares e o bem-estar na reducao do estresse. Ainda que ambos os apoios da familia e dos amigos contribuiram para sentimentos de bem-estar, o dos amigos foi visto como mais relevante para o bem-estar positivo e reducao do estresse. Esse estudo e interessante na medida em que utiliza uma amostra cuja bagagem cultural e composta tanto pela cultura norte-americana como pela latino-americana, e a cultura e um dos determinantes do BES, como indicado por Woyciekoski et al. (2012). Alem disso, tratou-se de uma amostra com adultos-jovens, o que indica que a importancia da amizade prossegue na entrada para a vida adulta, como apontado tambem nos estudos empiricos sobre amizade nessa faixa etaria (Carbery & Buhrmester, 1998; Rawlins, 2002).

Demir, Ozdemir e Weitekamp (2007) investigaram as relacoes entre a melhor amizade e amizades proximas e o BES em 280 adultos-jovens (media de 23 anos). Enquanto para mensurar BES os autores utilizaram o modelo de Diener et al. (2002), para avaliar a qualidade da amizade e suas funcoes foram utilizadas a versao reduzida das escalas de Furman e Buhrmester (1985), abordando companheirismo, intimidade, alianca confiavel, afeto e conflito (confiabilidade das escalas entre 0,84 e 0,90). As analises mostraram que as caracteristicas da amizade estudadas para a melhor amizade do participante se associaram positiva e significativamente com o BES (correlacoes entre 0,25 e 0,70), com excecao de conflitos. Uma analise de regressao foi conduzida, evidenciando que a qualidade da melhor amizade foi capaz de significativamente prever felicidade (BES), e que o companheirismo foi a caracteristica mais responsavel por esse resultado. Interessantemente, McDonough e Munz (1994) ja haviam mostrado uma relacao relevante entre companheirismo e bem-estar.

Ao final do trabalho, todavia, Demir et al. (2007) fazem a ressalva de que as escalas usadas para avaliar a qualidade da amizade no estudo contribuiram para o resultado de que a melhor amizade respondeu por 8% da variancia relativa ao BES, e que outras medidas da qualidade da amizade podem trazer indices melhores. Foi o que mostrou a pesquisa de Demir e Weitekamp (2007), na qual foram utilizadas a escala das funcoes da amizade de Mendelson e Aboud (1999) e as tres escalas de Diener et al. (2002).

Demir e Weitekamp (2007), em um estudo sobre amizade e personalidade como preditores da felicidade (300 mulheres e 123 homens norte-americanos, media de idade de 22,5 anos), encontraram que tanto as funcoes da amizade como o nivel de conflito na amizade (escala criada pelos autores) responderam por 15% da variancia envolvida no resultado de que funcoes e conflitos na amizade predizem felicidade. Ademais, verificaram que as funcoes de companheirismo e de autovalidacao foram fortes preditores da felicidade, quando foram controladas as variaveis genero e personalidade. Um estudo com amostra brasileira somaria achados a literatura no que diz respeito a relacao amizade e felicidade, com relacao aos itens nao avaliados, como satisfacao com a amizade e sentimentos positivos e negativos com relacao ao melhor amigo.

Gilman et al. (2008) analisaram a qualidade de vida em 1338 adolescentes (media de 15 anos) de nacoes individualistas (Irlanda e Estados Unidos) e coletivistas (China e Coreia do Sul). Americanos e Irlandeses relataram maior satisfacao com amigos que os demais adolescentes, e os chineses maiores taxas de satisfacao com a familia. Interessantemente, Lansford, Antonucci, Akiyama e Takahashi (2005) compararam relacionamentos sociais e bem-estar com adolescentes e adultos dos Estados Unidos e do Japao (faixa etaria de 13 a 93 anos)--uma nacao individualista e uma coletivista, conforme o estudo de Gilman et al. (2008). Estar casado e/ou ter um melhor amigo associou-se positivamente com bem-estar, ao passo que relacionamento com pais ou com filhos nao apresentou associacao significativa nos dois paises investigados.

Park e Huebner (2005) encontraram correlacao positiva entre satisfacao global de vida e satisfacao com os amigos em adolescentes (media de 15 anos) coreanos e estado-unidenses. Esse resultado tambem se aproxima ao do encontrado por Gilman et al. (2008) com culturas semelhantes. Importa lembrar que a cultura e listada como um dos fatores determinantes do BES (Woyciekowski et al., 2012).

Embora comumente estudada na comparacao entre nacoes, caberia investigar tambem possiveis diferencas quanto ao BES e a amizade em grupos culturais de um mesmo pais, por exemplo, representados por estados localizados em regioes distintas. Comparacoes entre estados brasileiros com respeito ao BES poderia trazer novos insights na questao de como pessoas de diferentes regioes do pais percebem a qualidade do relacionamento de amizade.

Sao raros os estudos brasileiros sobre amizade em adultos, e apenas um adotou uma abordagem predominantemente quantitativa com grande amostra na avaliacao da qualidade da amizade com instrumentos que detalham funcoes da amizade, satisfacao global com o relacionamento, e sentimentos positivos e negativos direcionados ao amigo (Souza & Hutz, 2007b). O estudo de DeSousa e Cerqueira-Santos (2012) nao verificou diferencas de sexo. Ademais, o unico estudo brasileiro localizado sobre amizade e BES foi o de Kipper (2003) com 60 participantes adultos divididos entre aqueles com amizades no trabalho e aqueles que possuem apenas colegas que nao sao amigos. Para estes ultimos, os dados do BES apontaram indices significativamente maiores de afetos negativos e menores de afetos positivos, na comparacao com os que possuem colegas que tambem sao amigos. Portanto, seria uma contribuicao a literatura cientifica nacional um estudo que investigue BES e amizade, com amostra maior e sem o entrelacamento de dois tipos distintos de relacionamentos (de colegas de trabalho e de amizade).

Em suma, a literatura oferece dados mostrando que: sao escassos os estudos brasileiros sobre amizade em adultos; ha medidas objetivas e consistentes para a avaliacao da qualidade da amizade, no caso, considerando afetos positivos e negativos, satisfacao global com o relacionamento e funcoes principais da amizade (Mendelson & Aboud, 1999, 2003); a amizade e percebida de modo diferente dentre distintos grupos culturais; a investigacao de outras variaveis importantes para as relacoes de amizade sao relevantes, como no caso, indicado na literatura, do estado civil; as relacoes de amizade sao importantes para a felicidade das pessoas, no caso, para o BES, com evidencias de distintos paises; nao ha estudos nacionais que abordem BES e amizade utilizando ambos os modelos de Mendelson e Aboud (1999, 2003) e de Diener et al. (2002). Como ja abordado em estudo brasileiro anterior, sao exemplos de outras variaveis que poderiam agregar novos achados a pesquisa os seguintes fatores: origem da amizade, duracao, relacionamento concomitante, amizades extras, reciprocidade, e caracteristicas importantes a amizade indicadas espontaneamente pelos participantes. Alem disso, o genero mostra vivencias diferenciadas para as amizades e, portanto, deve fazer parte das analises.

O presente trabalho vem procurar responder a mais de uma lacuna na literatura, como argumentado. O objetivo principal da pesquisa foi investigar a relacao entre a melhor amizade e BES em adultos-jovens de duas regioes geograficas brasileiras, utilizando-se os modelos de Diener (1984) e de Mendelson e Aboud (1999, 2003). Como objetivos secundarios, buscou-se: verificar diferencas de genero e de estado civil, bem como descrever e comparar caracteristicas da amizade entre gauchos e mineiros em termos de origem da melhor amizade, duracao, relacionamento concomitante, amizades extras, percepcao da reciprocidade no relacionamento, e caracteristicas da amizade indicadas espontaneamente pelos participantes.

Metodo

Participantes

O estudo contou com 116 participantes de Minas Gerais (MG) (media de 20,2 anos) e 116 do Rio Grande do Sul (RS) (26 anos), de ambos os sexos e niveis socioeconomicos distintos. A amostragem foi por conveniencia e com a colaboracao de professores da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Instrumentos e Procedimentos

Os participantes preencheram, coletivamente e durante um periodo de aula, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e os instrumentos da pesquisa. O preenchimento levou, em media, 30 minutos. Os instrumentos utilizados foram os Questionarios McGill de Amizade (Mendelson & Aboud, 1999, 2003), validados para uso no Brasil por Souza e Hutz (2007a, 2007b), e as Escalas PANAS (Watson, Clark, & Tellegen, 1988) e a Escala de Satisfacao de Vida (ESV) (Diener, Emmons, Larsen, & Griffin, 1985), validadas por Giacomoni e Hutz (1997).

A ESV e formada por cinco afirmacoes relativas a satisfacao com a propria vida (exemplo: "Minhas condicoes de vida sao excelentes"); para cada uma, o participante deve marcar como se sente diante de sete pontos em uma escala Likert (entre 1 = discordo plenamente e 7 = concordo plenamente). A consistencia interna foi de 0,87 (Giacomoni & Hutz, 1997). As Escalas PANAS oferecem uma lista de 40 adjetivos que representam o estado de humor a que se referem, organizados alfabeticamente, sendo 20 positivos (como em "entusiasmado") e 20 negativos (por exemplo, "nervoso"). A pessoa deve redigir a esquerda de cada adjetivo o numero que melhor representa "ate que ponto voce tem se sentido desta forma ultimamente" (entre 1 = nem um pouco e 5 = extremamente). A consistencia interna foi de 0,88 e 0,86, respectivamente, para afetos positivos e negativos (Giacomoni & Hutz, 1997).

Sao tres os Questionarios McGill de Amizade. O Questionario das Funcoes da Amizade (QFA) avalia seis funcoes da amizade: ajuda, alianca confiavel, autovalidacao, companheirismo, intimidade e seguranca emocional, representadas por cinco sentencas (total de 30 itens). Para cada uma, o participante deve indicar como se sente em relacao ao amigo: 1 = nunca, 2 = raramente, 3 = de vez em quando, 4 = muito frequentemente e 5 = sempre. A Escala de Satisfacao com a Amizade (ESA) avalia o nivel de satisfacao com o relacionamento com o amigo em sete sentencas; ja a Escala de Sentimentos Positivos com relacao ao Amigo (ESPA) utiliza seis. Sao respondidas em conjunto com as opcoes 1 = discordo muito, 2 = discordo em parte, 3 (sem rotulo), 4 = concordo em parte, e 5 = concordo muito. A Escala de Sentimentos Negativos com relacao ao Amigo (ESNA) possui 18 sentencas, com as opcoes de 1 = nunca, 2 = raramente, 3 = de vez em quando, 4 = frequentemente, e 5 = muito frequentemente. A consistencia interna das escalas que compoem os Questionarios McGill variou de 0,73 a 0,89 (Souza & Hutz, 2007a).

Utilizou-se tambem um questionario sociodemografico (sexo, estado civil, naturalidade, cidade de residencia, curso universitario) e o Questionario Complementar de Amizade (Souza & Hutz, 2008a), que trata das questoes como origem da melhor amizade, duracao, relacionamento concomitante, amizades extras, percepcao da reciprocidade no relacionamento e caracteristicas importantes a amizade (uma questao aberta sobre um aspecto importante da amizade nao abordado nos questionarios). Para as analises foram conduzidas comparacoes de medias (testes t), correlacoes (Pearson), post hoc de Bonferroni e analise de regressao, mediante o pacote estatistico SPSS.

Resultados

Serao apresentados primeiramente os dados descritivos sobre as amizades das duas amostras, com base no Questionario Complementar de Amizade. As mulheres mineiras (79%) indicaram menos amizades de mesmo sexo, na comparacao com as gauchas (84%). Ja o vinculo concomitante com a melhor amizade investigada foi maior com ex-colegas de colegio (32%) na amostra mineira, enquanto que para a maioria dos gauchos a melhor amizade nao possui outro vinculo concomitante (33%), ou seja, a melhor amizade nao e um atual ou ex-colega de escola, nem de trabalho, nem integrante da familia, vizinho ou parceiro romantico - e apenas um(a) amigo(a), sem lacos previos. A media da duracao da melhor amizade foi maior para a amostra gaucha (10 anos) do que para a mineira (aproximadamente 7 anos). Ja quanto ao participante saber se a sua melhor amizade tem conhecimento desse status de melhor amigo(a), 64% dos mineiros indicou sim e 61% dos gauchos afirmou que tambem creem que sua melhor amizade sabe que esta no topo da lista de amigos do respondente.

Para a analise da questao do aspecto da amizade nao abordado nos questionarios, foi possivel analisar um mon tante maior de questionarios: 256 questionarios coletados em MG e 118 no RS. Desse total (N = 374), 43,% dos mineiros deixaram uma contribuicao nesse sentido, e 38,1% dos gauchos colaboraram. Tomando-se as duas amostras em conjunto, a maioria das sugestoes foram avaliadas pelos instrumentos. As demais sugestoes se assemelham as encontrados por Duarte e Souza (2010) com adultos gauchos, como afinidades/identificacao, irmandade, amizade pela Internet, admiracao, respeito, reciprocidade, carater e virtudes. Os conteudos novos envolveram o fato de ter familiares ou parceiros romanticos como melhor amizade, e a influencia bidirecional (positiva ou negativa) de tais relacoes com a amizade da pessoa.

Na comparacao de medias entre homens e mulheres, as mulheres apresentaram significativamente mais satisfacao e mais sentimentos positivos direcionados a melhor amizade do que os homens. A media feminina para a satisfacao com a amizade foi de 4,79, enquanto a masculina foi de 4,65 (t = 2,54; gl = 230; p = 0,012). Nos sentimentos positivos, as mulheres tiveram media de 4,87, ao passo que os homens tiveram 4,73 (t = 3,56; gl = 230; p < 0,001). A comparacao de medias de sentimentos negativos associados ao amigo nao encontrou diferenca significativa entre mulheres (1,92) e homens (1,96).

Na comparacao de medias entre mineiros e gauchos com respeito a percepcao da qualidade da melhor amizade, nao foi encontrada diferenca estatisticamente significativa para as seis funcoes da amizade, sentimentos positivos, nem para a satisfacao com o relacionamento. Nos sentimentos positivos, a media entre os mineiros foi de 4,81, enquanto entre os gauchos foi de 4,84. Na satisfacao com a amizade, a amostra de MG obteve media de 4,71, ao passo que a amostra sulista apresentou media de 4,78. A diferenca significativa foi nos sentimentos negativos associados ao amigo. Enquanto a amostra mineira indicou media de 2,02, a gaucha indicou 1,85 (t = 2,96; gl = 230; p = 0,003).

No BES apenas a dimensao de afeto positivo nao apresentou diferenca significativa entre sexos. A media nas mulheres foi de 61,8 e nos homens foi de 62,1. Os homens indicaram mais afeto negativo que as mulheres (t = -2,27; gl = 230; p = 0,024), com os primeiros indicando media de 47,8, e as segundas de 44,0. Na satisfacao de vida, a diferenca foi estatisticamente significativa mas limitrofe (t = 1,93; gl = 230; p = 0,055), com as mulheres tendo media de 24,3, e os homens de 22,8.

Nas comparacoes entre estados e BES, a diferenca significativa encontrada foi para afeto positivo (t = -2,48; gl = 229; p = 0,014), com media de 63,9 dos gauchos, superior aos 59,9 dos mineiros. Para afeto negativo, a media de MG foi de 45,3, praticamente igual a do RS (45,2). Na satisfacao de vida, a media do RS foi 24,3 e a de MG foi de 23,3.

A comparacao de BES por estado civil apontou uma diferenca estatisticamente significativa (F(2,226) = 4,24; p = 0,015) entre participantes casados e outros dois grupos (solteiros e namorando/noivos), segundo o teste post hoc (Bonferroni). A media de afeto positivo foi estatisticamente superior nos casados (68,5) na comparacao com solteiros (60,9) (p = 0,014) e com namorando/noivos (61,4) (p = 0,029). Nao foram detectadas interacoes significativas entre as variaveis "estado*sexo*estado civil" para satisfacao de vida ou para satisfacao com a amizade de acordo com a analise de variancia efetuada.

A Tabela 1 apresenta as correlacoes entre as dimensoes do BES e da amizade. Como se pode notar, os sentimentos negativos com relacao ao amigo nao se relacionam significativamente ao afeto positivo da pessoa, e os sentimentos positivos direcionados a melhor amizade nao se correlacionam significativamente com a satisfacao de vida nem com o afeto negativo. Todavia estar satisfeito com a vida e sentir-se predominantemente contente esta positivamente associado a uma boa satisfacao com a melhor amizade, e negativamente associado com afetos negativos. Os sentimentos positivos com o amigo e o afeto positivo estao fortemente relacionados, como seria de se esperar e concordando com as correlacoes de afeto positivo e satisfacao com a amizade.

Como as comparacoes entre estados geraram diferencas significativas nos afetos positivos do BES e nos sentimentos negativos relacionados ao amigo, decidiu-se realizar analise de regressao separadamente por estado. Tambem nao foram inseridas as funcoes da amizade dada a diferenca de genero apontada na literatura (Souza & Hutz, 2007b) e dado que as demais escalas sao mais voltadas para avaliacoes globais relacionadas a amizade (satisfacao com o relacionamento e sentimentos positivos e negativos). Apos a analise envolvendo BES e as escalas de satisfacao com a amizade e de sentimentos com o amigo, foi possivel identificar tres direcionamentos gerais quanto a felicidade. Para os mineiros, o afeto negativo prediz satisfacao de vida (B = -0,468, t(110) = -5,25, p < 0,01). Ja quanto a amostra gaucha, o afeto positivo (B = 0,450, t(111) = 5,913, p < 0,01) e o afeto negativo (B = -0,343, t(111) = -4,513, p < 0,01) predizem, juntos, a satisfacao de vida. Ja com respeito a amizade e BES, as analises demonstraram que a satisfacao com a amizade nao prediz satisfacao de vida, tampouco unindo as amostras ou adicionando/retirando variaveis do modelo.

Discussao

Foram realizadas analises para melhor compreender a relacao entre a melhor amizade e BES em adultos-jovens de duas regioes geograficas brasileiras. Em complemento, foram investigadas diferencas de genero e de estado civil, bem como empreendidas comparacoes de caracteristicas da amizade entre gauchos e mineiros.

Nas comparacoes de genero na amizade, as mulheres apresentaram maior satisfacao com a melhor amizade e mais sentimentos positivos direcionados a ela. Esse resultado e semelhante ao apontado por Mendelson e Aboud (1999, 2003) e pelo estudo de Souza e Hutz (2007b) com adultos gauchos. Dessa forma, realmente parece haver uma consistencia de resultados que confirmam a percepcao das mulheres sobre suas melhores amizades como de satisfacao mais elevada e de vivencia de mais sentimentos positivos do que no caso dos homens e suas melhores amizades. A recomendacao que Wright (1988) faz, contudo, e de que muitas vezes os modelos teoricos para amizade utilizam como base a experiencia feminina com amizades, adotando, portanto, um vies sexista no estudo desses relacionamentos. Ainda assim, futuros estudos sobre amizade em adultos ja podem partir de analises separadamente por genero, aprofundando outras variaveis e aspectos mais qualitativos da satisfacao com a amizade e dos sentimentos positivos.

No entanto, os sentimentos negativos nao diferenciaram entre homens e mulheres, da mesma forma que no estudo nacional previo (Souza & Hutz, 2007b). De um lado, cabe considerar que, como se trata do segundo estudo brasileiro em que os sentimentos negativos direcionados ao melhor amigo nao apresenta diferencas de sexo, pode ser relevante revisar os itens da escala de sentimentos negativos, em especial pelas ressalvas feitas pelos autores no estudo de validacao (Souza & Hutz, 2007a). De outro lado, e possivel considerar que os sentimentos negativos percebidos no melhor amigo nao sejam a dimensao mais importante para diferenciar homens e mulheres, como alerta Wright (1988). Ademais, esta se tratando, no presente estudo e no anterior (Souza & Hutz, 2007b), da melhor amizade, ou seja, aquela com a qual a pessoa ja possui bons niveis de confianca, intimidade e seguranca emocional. De todo modo, mais pesquisas sobre a percepcao dos sentimentos negativos na amizade de adultos poderao trazer novos direcionamentos.

Na comparacao entre estados, apenas os sentimentos negativos associados ao melhor amigo apresentaram diferenca significativa. Os participantes mineiros se diferenciaram dos gauchos nessa avaliacao, o que poderia indicar um certo descontentamento com o amigo. No entanto, as avaliacoes para satisfacao com a amizade nao diferiram entre estados. O que pode ocorrer, nesse caso, e uma interferencia da duracao da amizade. A medida que o relacionamento de amizade se prolonga, os amigos passam a melhor conhecer o outro, passam por uma variedade de experiencias, inclusive negativas e com o envolvimento de conflitos entre os dois. As tentativas exitosas de resolucao de conflitos fortalecem a amizade e tornam os amigos mais compreensivos e tolerantes, o que pode, inclusive, reduzir a probabilidade futura de envolvimento em novos conflitos. Assim, as amizades gauchas, que apresentaram duracao aproximada de 10 anos, podem estar mais consolidadas e apresentar mais experiencia previa com sentimentos negativos do que as amizades mineiras da amostra, com media de duracao de sete anos e com origem predominantemente escolar.

Concordando com a literatura empirica (DeSousa & Cerqueira-Santos, 2012; Mendelson & Aboud, 1999; Souza & Hutz, 2008a), a maioria dos participantes possui uma melhor amizade de mesmo sexo. O vinculo concomitante sugere um apego maior a amizades antigas (escola) em mineiros, o que pode ser explicado pela media de idade inferior a dos participantes gauchos em quase seis anos, posicionando os primeiros no inicio da adultez-jovem, e os ultimos ja dessa etapa se despedindo. Nos estudos com amostras gaucha e sergipana, a origem da amizade mais citada foi, realmente, colega de escola (DeSousa & Cerqueira-Santos, 2012; Souza & Hutz, 2008a).

Foi pequena a diferenca entre as amostras gaucha e mineira quanto a indicacao de reciprocidade na amizade (61 e 64%, respectivamente), e porcentagem semelhante foi encontrada nos trabalhos anteriores (64% em Souza & Hutz, 2008a; 65% em DeSousa & Cerqueira-Santos, 2012). Ja com relacao a maior duracao da amizade na amostra do RS, muito provavelmente essa diferenca tambem pode ser explicada em funcao da diferenca etaria dos participantes dos dois estados. Os gauchos, com media de 26 anos de idade, tem condicoes de envolvimento em uma melhor amizade por mais tempo, no contraste com os mineiros, que com idade ao redor de 20 anos, ainda tendem a indicar uma melhor amizade provavelmente advinda do ensino medio.

Sobre a diferenca na quantidade de respostas espontaneas sobre topicos faltantes sobre a amizade nos questionarios, muito provavelmente os adultos-jovens da amostra mineira ainda estao vivenciando ao maximo suas melhores amizades, e a respeito delas ainda tem o que refletir e comentar, portanto listaram mais itens. Rawlins (1992) identifica um apice desenvolvimental das amizades entre a adolescencia e o tempo dedicado ao ensino superior antes dos 30 anos de idade. Sobre as relacoes indicadas entre amizade, familia e romance, trata-se nao apenas de uma curiosidade dos participantes, mas tambem de uma necessidade de mais investimento em pesquisas que estudem conjuntamente a amizade com a familia e o romance. Alem disso, delineamentos mais sofisticados, que analisem, por exemplo, diades de melhores amigos poderao esclarecer questoes de reciprocidade, afinidades e identificacao pontuadas pelos respondentes. A insercao da variavel personalidade tambem poderia trazer contribuicoes nesse sentido, por exemplo, na busca de semelhancas entre melhores amigos.

Na investigacao sobre BES, o primeiro resultado encontrado foi quanto aos gauchos apresentarem significativamente mais afeto positivo do que os mineiros. Esse resultado poderia estar associado ao indice de desenvolvimento humano municipal disponivel ate o momento, no qual o RS consta em 9 lugar (com 0,865) e o MG, em 71 lugar (0,839) (PNUD, 2013). Isso pode colaborar para a compreensao dos dados. Ademais, para os participantes mineiros o afeto negativo prediz satisfacao de vida, enquanto que, para a amostra gaucha, o afeto positivo e o afeto negativo predizem, juntos, a satisfacao de vida. Assim, enquanto para os primeiros a satisfacao de vida parece depender da ausencia de experiencias negativas, para os segundos isso nao e suficiente, precisando tambem de experiencias positivas. No entanto, deverao ser desenvolvidos estudos que demonstrem uma tal relacao entre as afericoes subjetiva e objetiva da qualidade de vida de um dado municipio ou estado brasileiro.

Quanto a questao de genero no BES, os participantes homens apresentaram significativamente mais afeto negativo e menos satisfacao de vida, na comparacao com as mulheres. Esse resultado nao era esperado, conforme estudos previos conduzidos no Brasil com as escalas PANAS e de Satisfacao de Vida (Giacomoni & Hutz, 1997). Um novo formato para as escalas PANAS foi desenvolvido por Zanon (2011), que criou sentencas para cada adjetivo da versao original, por exemplo, "Muitas vezes, eu fico nervoso.", no lugar do adjetivo "nervoso". Nesse novo formato, as mulheres apresentaram significativamente mais afetos negativos do que os homens (p. 24), e nao houve diferencas para afetos positivos. Assim, o resultado encontrado no presente estudo foi oposto ao de Zanon (2011). Mesmo que se argumente sobre a diferenca de formatos das escalas PANAS, ha estudos que vem questionando sua estrutura fatorial. Por exemplo, Gaudreau, Sanchez e Blondin (2006) sugerem uma estrutura com tres fatores, no lugar de dois. Portanto, alem do alerta que Wright (1988) faz com relacao aos estudos sobre amizade, mas que valem para estudos de diferencas genero em geral, ha que se considerar as modificacoes mais recentes que vem sendo empreendidas nas escalas PANAS (Gaudreau et al., 2006; Zanon, 2011). Portanto, as pesquisas sobre BES e diferencas de sexo precisam de continuidade, aprofundamento e modificacoes metodologicas com novas amostras brasileiras.

Investigou-se tambem a relacao entre estado civil e BES, com interacao significativa entre essas variaveis. Os participantes casados sentem significativamente mais afeto positivo em suas vidas, sem distincao de sexo ou estado. Esse resultado tambem foi observado por Lansford et al. (2005). A literatura nacional disponivel e recente confirma que pessoas casadas tendem a ser mais felizes (Scorsolini-Comin & Santos, 2010). Todavia nao necessariamente se pode, por enquanto, concluir que homens, ao casarem, passam a sentir mais afetos positivos do que negativos. Estudos mais detalhados seriam necessarios.

Das relacoes entre amizade e BES analisadas, percebe-se que a satisfacao com a amizade se correlaciona significativamente com satisfacao de vida e afetos positivos e negativos, sendo uma relacao inversa com este ultimo e positiva com os dois primeiros. Esse resultado se aproxima aos de McDonough e Munz (1994), Rodriguez et al. (2003), Park e Huebner (2005) e Gilman et al. (2008). Esses autores verificaram tambem a associacao positiva e significativa entre bem-estar, felicidade, BES e relacoes de amizade. Confirma-se, portanto, que a amizade e um dos tres relacionamentos mais importantes para a felicidade, como preconizado por Argyle (2001).

A busca por relacoes atraves da analise de regressao mostrou que satisfacao com a melhor amizade nao prediz satisfacao de vida, o oposto ao encontrado na literatura empirica revisada, ou seja, de que satisfacao com a amizade prediz satisfacao de vida. De toda forma, sabe-se que felicidade e BES sao dependentes de, principalmente, tres diferentes tipos de relacionamentos: familia, romance e amizade (Argyle, 2001). Assim, apenas ter bons amigos ou mesmo uma melhor amizade nao garante uma felicidade "relacional"; ha que se estar contente com as relacoes com a familia e/ou envolvido em um relacionamento romantico que contribua para a felicidade pessoal.

Ja se esta alcancando, no Brasil, uma quantidade interessante de estudos sobre as relacoes de amizade, desde a infancia ate a velhice. Assim, no lugar de sugerir mais estudos sobre amizade no Brasil, ha que se buscar investigar novas variaveis relevantes a esse relacionamento, e associa-lo a outros aspectos importantes para a saude humana, como sua relacao com a depressao, a ansiedade, o desempenho no trabalho e, inclusive, seu papel sobre a quantidade e a qualidade de praticas de lazer na vida das pessoas. Outras areas de conhecimento ja vem investindo no estudo da amizade, como no caso da Administracao (Schujmann & Costa, 2012).

Ainda assim, no que diz respeito a relacao entre BES e amizade, ha que se investir em novos estudos, mas com o acrescimo da avaliacao da qualidade dos relacionamentos romanticos e familiares, na busca de um modelo que mapeie, e especifique, as interacoes possiveis entre os tres mais importantes relacionamentos humanos e seu papel na felicidade e BES. Foram essas associacoes, inclusive, sugeridas pelos participantes do presente estudo, e que, um tanto lentamente, comecam a aparecer nos delineamentos de pesquisa em relacionamentos no Brasil.

Recebido em 01.11.2011

Primeira decisao editorial em 22.06.2013

Versao final em 05.07.2013

Aceito em 27.07.2013

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Luciana Karine de Souza (2) Monica Grace Duarte Universidade Federal de Minas Gerais

(1) Apoio: CNPq; FAPEMIG; PRPq-UFMG; FUNDEP/SANTANDER. Agradecimentos a C. S. Hutz, M. Mendelson; aos participantes e docentes que possibilitaram a coleta de dados.

(2) Endereco para correspondencia: Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciencias Humanas, Departamento de Psicologia, Av. Antonio Carlos, 6627, sala F-4050, Campus Pampulha, Belo Horizonte, Minas Gerais, CEP 31.270-901. E-mail: lukarides@gmail.com
Tabela 1. Correlacoes entre as Dimensoes do Bem-Estar Subjetivo e
da Amizade

Dimensoes da Amizade          Satisfacao     Afeto      Afeto
                                de Vida     Positivo   Negativo

Satisfacao com a Amizade        0,13 *      0,27 **    -0,16 *
Sentimentos Positivos com o      0,11       0,18 **      -0,1
  Amigo
Sentimentos Negativos com o    -0,17 **      -0,03     0,21 **
  Amigo

Nota. **p < 0,01; *p < 0,05.
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Author:de Souza, Luciana Karine; Duarte, Monica Grace
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Oct 1, 2013
Words:7094
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