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Alteridade e subjetividade em E. Levinas.

Alterity and Subjectivity in E. Levinas

INTRODUCAO

A pos-modernidade, certamente, ainda nao conseguiu encarar suficientementea problematica central de sua filosofia: a recuperacao da verdadeira autonomia do sujeito humano (1). O que durante a Modernidade chegou ao forum de uma subjetividade absoluta, e um ideario que vai desde o cogito de Descartes a Kant na perspectiva de uma egolatria a partir do sujeito apoditico, recebendo uma releitura pelas Meditacoes cartesianas segundo a fenomenologia de Husserl. Mas a critica fundamental e feita por Emmanuel Levinas ao analisar o projeto da filosofia moderna ao tratar do sujeito etico ao sujeito da responsabilidade politica. Pois, todo o projeto de filosofia de Levinas instaura um novo humanismo dentro da perspectiva da afirmacao da subjetividade. O eu somente podera ser afirmado por um principio anterior a consciencia da existencia. O ponto arqueologico e uma infinita interpelacao etica da alteridade do outro. A etica da alteridade parte da consciencia de uma responsabilidade infinita para com a alteridade do outro. Uma etica que tem sua exigencia no reconhecimento da alteridade do outro. Levinas e um pensador que vai alem das perspectivas da subjetividade, do psiquismo e da egologia da Modernidade. O presente ensaio concentra-se na tematica da Alteridade e Subjetividade no pensamento de Emmanuel Levinas, isso a partir das suas principais obras sao Totalidade e Infinito e Outro modo de ser, ou alem da essencia.

Em Levinas deparamo-nos com a dimensao da interpelacao etica que se manifesta pela epifania do rosto do outro, cujo olhar coloca em total questionamento a minha subjetividade com o clamor: "Tu nao mataras". Levinas usa a alteridade infinita e absoluta do outro. Com isso Levinas avanca alem do pensamento dialogico de Martin Buber (2), em sua dialogicidade da relacao reciproca do eu-tu, para ir ao encontro da misteriosa relacao de justica.

A SUBJETIVIDADE

Seguindo os passos da construcao feita por Kant o conceito de sujeito proporciona uma unidade das faculdades cognoscitivas, a qual se considera por sua parte como a base fundamental para a reconstrucao racional da validez cientifica, e a liberdade e o necessario na concepcao da subjetividade. "Kant define o sujeito como liberdade que, porsuavez, funda a autonomia do sujeito. Para Levinas, liberdade e autonomia nao sao mais que secundarias e so aparecem no nivel da fenomenalidade posteriormente" (3). Pois segundo Levinas, a subjetividade estabelece-se alem da egologia, da autonomia absoluta do eu e da experiencia e da ipseidade ou do em-si e do para-si. Deve-se levar em conta a introducao de uma. Passividade anterior a toda receptividade. A subjetividade e transcendente. Para Levinas e o Bem antes de ser. Sao estas as principais teses do Cap. IV. A Substitution, Autremment qu'etre. A condicao da subjetividade humana e possibilitada atraves da relacao do eu com o outro, na qual esta implicada a relacao que se estabelece ja anteriormente a qualquer arche, ou seja, a subjetividade existe ja anteriormente a arche, ela e an-arquica. Mesmo antes da minha existencia, ja na subjetividade, o meu eu e infinitamente responsavel pelo outro. Pois Levinas busca, por um lado, a intemporalidade e a temporalidade das circunstancias privilegiadas do vivido em que se constitui a temporalidade, segundo Franz Rosenzweig. Levinasvai ao encontro como Rosenzweig pensa o passado a partir da consciencia religiosa da criacao; o presente, a partir da escuta e da acolhida da revelacao; e o futuro, a partir da esperanca da redencao, elevando assim essas referencias paradigmaticas biblicas do pensamento a um nivel da propria temporalidade da subjetividade.

Levinas expressa o misterio e o enigma da subjetividade a partir da ideia da relacao infinita inter-humana e com o infinito. A subjetividade expressa-se atraves da condicao de ser refem do outro, o que implica uma ruptura da totalidade e a instauracao da experiencia do outro como uma experiencia da transcendencia. Assim, aminha subjetividade realiza-se concretamente na historia atraves da relacao com o outro, que se manifesta atraves de seu rosto, cujo olhar e uma constante interpelacao de justica: "Tu nao mataras". A subjetividade acontece na existencia humana atraves da relacao intersubjetiva e na exigencia infinita de justica para com o outro.

O outro revela-se na epifania de seu rosto: Na interpelacao etica. A apresentacao do rosto--a expressao nao desvela--um mundo interior, previamente fechado, acrescentando assim uma nova regiao a compreender ou a captar. Chama-me, pelo contrario, acima do dado que a palavra poe ja em comum entre nos. O que se da, o que se toma, reduz-se ao fenomeno, descoberto e oferecido a captacao, arrastando uma existencia que se suspende na posse. Em contrapartida, a apresentacao do rosto poe-me em relacao como ser. O existir do ser- irredutivel a fenomenalidade, compreendida como realidade sem realidade--efetua-se na inadiavel urgencia com que ele exige uma resposta. Essa resposta difere da "reacao" que o dado suscita, porque nao pode ficar "entre nos", como quando das disposicoes que eu tomo em relacao a uma coisa. Tudo o que se passa aqui "entre nos" diz respeito a toda gente, o rosto que o observa coloca-se em pleno dia da ordem publica, mesmo que dela me separe ao procurarcom o interlocutora cumplicidadede uma relacao privada e de urna clandestinidades (4).

ETICA COMO EXPERIENCIA DE TRASCENDENCIA

A vocacao do ser humano, segundo Levinas, e para a transcendencia. Em sua relacao com Deus, o ser humano ultrapassa sua dimensao do ser. O ser humano e chamado para o bem e para o infinito atraves da alteridade absoluta. Assim, o ser humano e chamado para o sere para a acao vital, convocado na sua existencia para a responsabilidade infinita para com o outro. Inclusive o ser humano torna-se refem do outro e pode sacrificar o ser. Seu chamamento humano lhe possibilita ir muito alem da experiencia de seu ser, pois o ser humano e justamente um ser de relacao infinita com o outro. A subjetividade sempre e pensada em relacao infinita com o outro, assim como a relacao absoluta com Deus, como uma experiencia etica da transcendencia. Levinas descreve a subjetividade nao nas categorias da filosofia transcendental, mas atraves de sua concretude e vulnerabilidade no fenomeno da sensibilidade e da corporeidade. Descreve a subjetividade a partir da fenomenologia da finitude, que se relaciona mais com a fenomenologia de Husserl, no caso mais da intuicao do que da deducao. Ela conduz-nos para o fundamento ultimo atraves do caminho da reducao fenomenologica e compreende, assim, a verdade nao como uma deducao logica, mas como a experiencia vivenciada da alteridade concreta e absoluta do outro (5).

Nessa perspectiva em que se desenvolve a experiencia da alteridade, a subjetividade sera despertada para a vida etica, da infinita responsabilidade para com a alteridade do outro. A subjetividade, alem de ser uma relacao que se relaciona consigo mesma, no sentido da autonomia vista segundo Immanuel Kant: "Em todos os juizos sou sempre o sujeito (Subjekt) determinante da relacao que constitui o juizo. Que entretanto, eu, que penso, sempre tenha que valer no pensamento como sujeito e algo que nao poder ser considerado simplesmente como predicado inerente no pensamento, e uma proposicao apoditica e mesmo identica; mas ela nao significa que eu, enquanto objeto, seja um ente subsistente para mim mesmo, ou uma substancia. A ultima afirmacao vai muito longe e por isso tambem requer dados que nao se encontram de modo algum no pensamento e que talvez (se considero simplesmente o sujeito pensante como tal) sejam em numero maior do que se possa jamais encontrar nele (6)". E segue a concepcao da relacao do si-proprio, conforme o pensamento de Seren Kierkegaard: "O homem e espirito. Mas o que e espirito? E o eu. Mas, nesse caso, o eu? O eu e uma relacao, que nao se estabelece com qualquer coisa de alheio a si, mas consigo propria. Mais e melhordo que na relacao propriamente dita, ele consiste no orientar-se dessa relacao a propria interioridade. O eu nao e a relacao em si, mas sim o seu voltar-se sobre si propria, o conhecimento que ela tem de si propria depois de estabelecida" (7). Mas a subjetividade, alem de ser auto-conhecimento, autoconsciencia e relacao com a interioridade ela e fundamentada e sustentada, segundo Levinas, a partir da relacao etica com o outro. A subjetividade concretiza-se como fenomeno historico a partir da experiencia de transcendencia. Aqui reside o fundamento da etica da alteridade. E uma superacao de qualquer solipsismo moral. Levinas compreende a subjetividade como vivencia da interioridade. A subjetividade e essencialmente uma experiencia e consciencia do gozo interior, e ela se caracteriza pela unicidade. O eu quer viver. E viver na subjetividade significa experienciar a separacao. A separacao significa que a subjetividade plenifica-se no egoismo e no ateismo. E, antes de tudo, a experiencia da solidao incomensuravel da criatura face ao ato criador, a vivencia da separacao do criador do mundo e do outro. Entrementes, na subjetividade, essa separacao supera-se pela transcendencia e pela infinita relacao com a absoluta alteridade do outro.

A vida do ser humano acontece sob o firmamento da transcendencia; sua tentativa e romper com a totalidade e poder irromper com a experiencia do Infinito. A subjetividade face a transcendencia define-se como refem e substituicao do outro. O eu e infinitamente responsavel pelo outro. Essa responsabilidade nao podera ser institucionalizada ou fundamentada por leis, mas e a interpelacao do outro que provoca a minha experiencia de subjetividade. E a necessidade do outro que provoca a minha vulnerabilidade e faz-me irromper na relacao com a justipa. O ser humano responde, e a resposta sempre e uma resposta para o outro, ele e interpelado eticamente pelo outro. " A responsabilidade pelo outrem--responsabilidade ilimitada que a rigorosa contabilidade do livre e do nao-livre nao mede mais, reclama a subjetividade como refem insubstituivel que ela desnuda sob o Eu numa passividade de persecucao [... ] em Si" (8). Assim Levinas assume a transcendencia de um modo radical; isto foi-lhe possivel pelo fato de ter questionado a tradicao do pensamento ocidental e ter introduzido uma inovacao na filosofia pelas categorias e paradigmas biblicos. Esta seria tambem uma critica radical a filosofia da Modernidade, que mantem como ponto irradiador o cogito e o psiquismo a partir da totalidade absoluta do eu. Aconcepcao de subjetividade em Levinas nao e fragmentada, mas e exatamente a sintese da relacao e da experiencia da radicalidade da fundamentacao ultima do ser humano.

A vida do ser humano e concebida por Levinas como sendo a experiencia etica. O autor de Totalidade e Infinito inicia com uma longa descricao a partir da intuicao fenomenologica existencial, tal como a necessidade de abertura do ser-com-o-outro para uma realidade de ser-para-o-outro. O Dasein em Levinas tem fome, sofre as penurias da contingencia existencial e inclina-se para a alteridade. Para Levinas,essae a experiencia originaria da etica. "A etica ja por si mesmaeumaotica" (9). O ato de alimentar-se e o primeiro ato moral. A pessoa que se alimenta recebe da bondade do outro o alimento; por exemplo, na relacao entre recem-nascido e mae, com a familia e, mais tarde, num ambito social mais abrangente, a sociedade na qual a pessoa vive. Como, ao ser alimentado, houve a satisfacao de uma necessidade que possibilita irromper na vida, assim isso ocorre na economia num momento seguinte. Essa experiencia fenomenologica da satisfacao das necessidades e do rompimento do egoismo provoca a primeira experiencia etica do ser humano, que e encontrar-se com a alteridade do outro. E uma experiencia fenomenologica. Levinas acentua cada vez mais essa perspectiva fenomenologica da satisfacao das necessidades primordiais, como o alimento, o abrigo, o afeto, a economia e o conhecimento tecnico como elementos existenciais sustentadores da vida humana. Elementos esses que sao essenciais para a experiencia fenomenologica da etica. E Levinas busca compreender a fenomenologia de Husserl para uma experiencia metafisica. "A fenomenologia husserliana tornou possivel a passagem da etica para a exterioridade metafisica" (10).

O que ha de fundamental e inovador no pensamento de Levinas e o seu carater etico. O humanismo de Levinas sustenta- se em cima da interpelacao etica do outro, que se manifesta em sua alteridade sob varios aspectos, como, por exemplo, na concretude existencial pela fenomenologia da corporeidade, da proximidade e da relacao concreta. Masa revelacao ou a epifania do outro nao e meramente fenomenologica, e sim manifestacao de sua absoluta alteridade.

A obra de Levinas irrompe com uma nova imagem sobre o ser humano. Levinas aponta para uma nova experiencia da etica, a etica como experiencia de transcendencia, que se introduz na historia da humanidade. Com isso sera introduzida dentro da antropologia filosofica uma nova perspectiva que perpassa as multiplas dimensees do conhecimento humano, desde a Teologia, Psicologia,

Direito e mesmo no campo da tecnica. A concepcao fundamental desse novo humanismo de Levinas, conhecida como humanismo do outro homem, e a solidariedade e a infinita responsabilidade etica que se correlacionam com a experiencia humana.

A ALTERIDADE EINTERPELACAO ETICA

Tratar da alteridade quer dizer, antes de tudo, incluir a etica numa nova perspectiva filosofica. A relacao para com o outro se realiza na forma da bondade que se chama justica e responsabilidade infinita para com outro e se concretiza historicamente numa experiencia de transcendencia, solidariedade e responsabilidade pelo outro. A alteridade e uma experiencia de interpelacao etica. Esta experiencia se manifesta pelo rosto do outro.

A alteridade etica desenvolvida na filosofia de Emmanuel Levinas e tratada, por sua vez, como fundamento para a etica da filosofia da libertacao e para uma teoria critica do Direitos Fundamentais. A exterioridade e uma nova categoria da antropologia filosofica. A ruptura etica com a totalidade se da atraves da proximidade do outro. A subjetividade plenifica-se sempre na relacao com o outro. A verdade sera vivenciada pelo ser humano na pratica da justipa, que acontece apos o ato de justipa: na misericordia. A realidade humana na filosofia da libertacao e a historia de conscientizacao do pobre oprimido que clama por justipa. Pois, pela filosofia da alteridade o pensamento de Emmanuel Levinas delineia-nos uma nova concepcao da atividade do filosofar. Levinas manifesta uma constante preocupacao em torno da reflexao sobre a etica e para tal introduz o Rosto humano como a expressao radical da alteridade e da transcendencia. Essa nova dimensao filosofica recebeu ecos, em profundidade, na filosofia da libertacao, tematica abordada, principalmente, por Juan Carlos Scannone (11) e Enrique Dussel (12).

Com o conceito da alteridade Levinas dimensiona sua critica a filosofia da egolatria moderna. A concepcao fundamental da imagem do homem levinasiano sera correlacionada com o "humanismo do outro homem", com a etica e a solidariedade como fundamento originario da etica da libertacao.

Levinas acentua a absoluticidade dos polos do eu e do outro. O outro e outro, isto e, unicidade; e exterior, e estrangeiro para mim, nao sera alcanpavel, encontra-se na distancia infinita para com o meu eu. Ele e sujeito absoluto. Mas o outro se apresenta diante de mim como o desprotegido e sem forpas; ele apresenta-se em sua plena nudez diante do meu "eu". O outro confirma a minha unicidade. Ele encontra-se na exterioridade de toda relacao de poder e de liberdade do meu eu.

Ser aberto significa ser excluido e ferido na subjetividade pelo outro. A vulnerabilidade do rosto do outro exige um compromisso etico na acao historica, O eu sera constantemente colocado em questionamento pelo outro. Nesse questionamento, que e um questionamento etico, trata-se especialmente da responsabilidade que eu tenho para com o outro. Ele gera uma consciencia etica.

Essa filosofica significa amor pela verdade, isto e, ela apela pelo outro enquanto tal, pelo ser do outro, atitude esta que nao devera ser confundida com uma mera reflexao abstrata do eu em seu solipsismo.

Levinas nos mostra como, na relacao da solidao excludente, a alteridade faz um rompimento, um real transcender, que nao significa mais um retorno do eu para si mesmo. O transcender, como relacao com o outro, nao acontece mais nas categorias do ser, porem na sua temporalidade, ou seja, na esperanca na qual se da a expectativa da libertacao. O rompimento etico com a totalidade se da atraves da aproximacao para com o outro.

Levinas chama de metafisico o impulso para a exterioridade radical. E um impulso metafisico essa busca pelo outro, que e absolutamente outro. Essa busca e uma busca do absolutamente outro, do infinito, O outro se encontra na exterioridade. Contra ele se cometeu injustipas. A ideia do infinito e desejo infinito pelo outro. Esse desejo metafisico abarca toda a filosofia de Levinas.

No desejo pelo outro, a minha solidariedade torna-se acao historica concreta, como forma de irrestrita responsabilidade que tenho pelo outro. Essa responsabilidade ultrapassa todas as dimens5es dos meus limites e minha finitude por meio da ideia do infinito. O desejo nao parte de mim, ele vem do outro: do seu olhar que reclama justica de mim, de sua palavra pela qual ele se revela e do infinito. Esse desejo pelo outro e, segundo Levinas, a medida para o infinito, O desejo pela alteridade suscita em nos sempre mais desejos. Esse desejo nao podera ser saciado por nenhum fim e nenhuma satisfacao.

A ideia do infinito, em conjunto com a ideia da bondade e a ideia do desejo, desperta a subjetividade do outro. Essa responsabilidade antecede o proprio eu. Levinas fundamenta, por meio da ideia do infinito, sua critica a totalidade.

A proximidade sera pensada por Levinas fora das categorias ontologicas. Segundo Levinas e a filosofia da libertacao, a existencia do ser humano e tecida profundamente pela proximidade da relacao. Essa relacao e plenitude da relacao etica, da responsabilidade infinita pelo outro. A proximidade nao se entende, na filosofia de Levinas, como a dimensao da especialidade, porem como pura relacao, sem intermediagdes; ela nao se compreende sem o peso do drama do ser.

Por intermedio da obsessao pelo outro acontece uma ruptura com a totalidade, e o ser humano entra assim na relacao com a alteridade do outro. A subjetividade alcanca sua plenitude sempre em relacao ao outro. A alteridade tem uma dimensao metafisica, e etica. O nosso mundo permanece, por intermedio da alteridade, um mundo aberto. O outro e a origem radical e o fim do "ser-no-mundo".

A totalidade sera rompida a partir da subjetividade. A subjetividade aparece como aberta para a exterioridade, sem poder escapar da relacao assimetrica, a qual, porseu lado, se manifesta ao outro de maneira diacronica como culpada e responsavel.

A experiencia etica e, na verdade, uma experiencia metafisica, isto e, nao e um processo dialetico de desvelamento nem ontologico, mas e um processo interpessoal da revelacao e da transcendencia. O desejo pela transcendencia sera despertado por meio do grito pela justica e pela revelacao do rosto do outro.

Por intermedio dos conceitos da alteridade e da exterioridade, desenvolvidos na filosofia de Levinas, somos levados ao ponto central da filosofia da libertacao: a experiencia da libertacao do outro que se encontra na injustica.

A alteridade tem uma dimensao etica; o rosto do outro e justamente o comego da filosofia.

Falar da alteridade significa, antes de tudo, incluir a etica no pensar. A relacao com o outro se realiza na forma da bondade, que se chama de justica e verdade e se concretiza historicamente numa infinita experiencia de transcendencia, como solidariedade e responsabilidade pelo outro.

As categorias biblicas, o orfao, o pobre, a viuvaeoestrangeiro, utilizadas na filosofia de Levinas, recebem uma significacao concreta e um destino na filosofia da libertacao e recebem nomes concretos: O outro e o oprimido, que se chama de indio, de campones sem terra, agricultor pobre e esquecido pela cobica dos interesses transnacionais do agro-negocio, e todo esse que se encontra marginalizado nas periferias dos grandes centros urbanos, e o desempregado sem perspectivas de futuro, e todo tipo de pobre do povo, que clamam por justica. Em Levinas, necessariamente, emerge uma "questao dificil-que nao fazsenao especificar a relacao entre etica e politica." ... "A politica, em compensacao, se ela e justica, dobra-se a etica, inaugurando o espago homogeneo de uma simetrizacao de todas as relacoes, ou mais exatamente, a acidentalizacao da relacao a partir da nao-relacao sujeito/outrem". (13) A revelacao desse outro exige uma correspondente praxis libertadora. Esse outro nao podera ser negado nem desconsiderado, uma vez que ele se encontra justamente fora da dimensao do jogo do meu eu. O outro que vem ao meu encontro, que clama por justica em sua interpelacao, rompe com o sistema da opressao, com a ideologia ou ilusao, ele rompe com o egoismo do eu.

CONCLUSAO

Das consideracoes sobre alteridade e subjetividade pode-se concluir alguns pontos que requerem cada vez mais reflexoes e nos sirvam como fundamento aos enormes desafios que a historia atual desencadeia para uma educacao para a paz e a superacao do egoismo cego no qual a humanidade mergulha cada vez mais.

O ser humano vivencia a presenca concreta do outro que se encontra na exterioridade e que com ele mesmo estar na transcendencia. Nesse sentido, a proximidade no horizonte do ser-para-o-outro nao tem nenhuma delimitacao espacial e temporal, porem abarca toda a humanidade. O ser-para-o-outro refere-se a um saber moral, ao pensar moral, a bondade, a diaconia, a substituicao do outro e a justica. A relacao com o outro, no ser-para-o-outro, plenifica-se fundamentalmente no ser da comunidade, o que corresponde a responsabilidade etica para com o outro, como uma experiencia na alteridade.

Na definicao da interioridade soberana, Levinas descreve a liberdade como vontade. A verdade sera vivida pelo ser humano quando este praticar verdadeiramente a justica. Por meio do outro, apresentam-se diante do eu "muitos outros". Levinas chama esses "muitos outros" de terceiros. Aqui esta a razao por que a relacao do eu com o outro alcancauma dimensao infinita.

A verdade correlaciona-se com as relacoes sociais, que exigem a realizacao da justica. Ajustica consiste em reconhecer a alteridade do outro na sua absoluta alteridade.

A solidariedade consiste em ouvir o grito e a interpelacao do outro. A tradicao da filosofia da libertacao esta profundamente arraigada na experiencia da historia do exodo e da ressurreicao e, com isso, ela se manifesta comprometida com uma tradicao critica.

A perspectiva da filosofia da libertacao esta no fato de se poder realizar uma releitura critica da realidade a partir da experiencia das categorias vivenciais do pobre, do orfao, da viuva e do estrangeiro (excluido), na perspectiva de uma etica da libertacao. E servindo como pressuposto da etica intercultural.

A tarefa etica intercultural consiste em nao retomar o logos imperialista grego ou usar a ratio opressora da Conquista feita pela Europa. A etica intercultural interpela-nos para fazer uso da palavra e dos gestos do contexto das muitas formas de vida nova para superar a historia da opressao. Tudo isso requer uma hermeneutica que seja capaz de situar a filosofia na sua devida contextualizacao.

Afilosofia da libertacao, como um pensar que surge de uma historia do sofrimento e que, portanto, serve como fundamento etico para compreender a alteridade, sera, nesse sentido, uma nova dimensao para a historia da filosofia. Essa filosofia coloca um novo horizonte na luz da historia. Ela aponta para os direitos fundamentais dos oprimidos e como viver plenamente as virtudes.

Afilosofia da libertacao fundamentar-se-a numa perspectiva positiva. Na filosofia da libertacao, as categorias da paz, justica, amor, solidariedade e promocao humana recebem um espago especial na reflexao interior e um status social sao realidades eticas e, portanto, portadoras da libertacao.

O filosofo da praxis libertadora desenvolvera sua filosofia nao mais na pura abstracao especulativa, mas busca a fundamentacao originaria de seu pensar no meio do povo sofredor a caminho da libertacao.

A praxis libertadora, segundo Enrique Dussel, parte da verdade do oprimido. O oprimido e o pobre que sofre da injustica pois esta na exterioridade, excluido da vida do sistema. Pois, o oprimido, possui consciencia de sua contingencia historica. Quando falamos de uma praxis libertadora, naofalamos de um mero desejo, porem de uma realidade transformadora. E uma praxis politica.

A realidade da interpelacao etica e a experiencia do pobre oprimido que ensaia sua libertacao. A libertacao e uma reacao da dimensao comunitaria do ser humano. Essa libertacao se expressa como solidariedade e atinge em plenitude a vida social. Assim criam-se e desenvolvem-se novas relacoes sociais de solidariedade, de participacao social, co-responsabilidade para com o povo e experiencia de uma utopia concreta. Nessa perspectiva e na da liberdade de acao historica do povo e de muitas outras realizacoes sociais, cria-se uma nova realidade para o ser humano a qual redundara numa sociedade maisjusta. Essa nova forma de sociedade se estabelecera por meio das lutas solidarias historicas contra a via totalitaria, descrita por Levinas, que e a guerra, o imperialismo, a forpa militar, a ditadura economica em todo o mundo, a supressao da dignidade humana pela manipulacao social e terrorismo de Estado.

No entanto, a solidariedade e o novo caminho da esperanca renovadora da utopia humana. A comunidade de comunicacao real existe na solidariedade, na responsabilidade para com o outro. A solidariedade gera comunidade real da vida na qual todos terao participacao.

Antonio SIDEKUM

Nova Harmonia, Sao Leopoldo, Brasil.

Recibido: 10-09-2012 * Aceptado: 19-01-2013

(1) Cfr. FABRI, M (2011). "Husserl, Levinas e a crise do projeto transcendental da modernidade", in: CREMONEZI, AR & BAPTISTELLA, R (Orgs.) (2011). Sociedade Pos-moderna: Luzes e sombras. Nova Petropolis, Nova Harmonia, pp.15-31.

(2) Ver em BUBER, M (1979). Ich und Du. Heidelberg, Lambert Schneider.

(3) CARRARA, OV (2010). Levinas: do sujeito etico ao sujeito politico: elementos para pensar a politica outramente. Aparecida, Ideias & Letras, p. 76.

(4) LEVINAS, E (1972). Humanisme de l'autre homme. Montpellier, p. 190.

(5) Cfr. SIDEKUM, A (1993). EthikalsTranzendenzerfahrung: Levinas und die Philosophie derBefreiung. Aachen, Augustinus.

(6) KANT, I (1974). Critica da razao pura. Sao Paulo: Abril Cultural, p. 203.

(7) KIERKEGAARD, S (1979). O desespero humano. Porto, Tavares Martins, p. 34.

(8) LEVINAS, E (1974). Autrement qu'etre ou au-dela de !'essence. A Haye, Martinus Nijhoff, p. 159.

(9) Ibid, p. 17.

(10) Ibidem.

(11) SCANNONE, JC & SANTUC, V (1999). Lo politico en America Latina. Buenos Aires, Bonum.

(12) DUSSEL, E (2000). Etica da libertacao: na idade da globalizacao e da exclusao. Petropolis, Vozes; DUSSEL, E (1980). Filosofia da libertacao. Sao Paulo, Loyola.

(13) BENSUSSAN, G (2009). Etica e experiencia: a politica em Levinas. Passo Fundo, IFIBE, pp. 92-93.
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Author:Sidekum, Antonio
Publication:Utopia y Praxis Latinoamericana
Date:Jan 1, 2013
Words:4739
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