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Algumas propostas de analise da coordenacao e da subordinacao a partir do comportamento das conjuncoes da area da causa e da explicacao.

INTRODUCAO

O presente trabalho pretende fazer uma reflexao sobre os conceitos de coordenacao e subordinacao a partir do estudo das conjuncoes porque, pois e ja que, que pertencem a area semantica da causa/explicacao.

Comecaremos esta reflexao com a exposicao do trabalho de Carlos Vogt (1989) acerca dessas tres conjuncoes. O autor se propos a fazer um estudo semantico-argumentativo desses elementos a partir de uma serie de caracteristicas que os aproximam e os afastam uns dos outros.

A seguir, passaremos ao estudo de Flavia Carone, que, no ultimo capitulo de seus texto Subordinacao e coordenacao: confrontos e contrastes (1987), vai retomar o trabalho de Vogt para complementar suas ideias sobre os dois processos de estruturacao de periodos.

Por fim, faremos uma reflexao acerca das questoes levantadas e respondidas por esses dois autores e das questoes levantadas e nao respondidas por eles. Em funcao da existencia de pontos nao resolvidos nas obras de Vogt e Carone, ainda que citados, apresentaremos uma nova proposta para a abordagem do assunto em questao.

O TRABALHO DE VOGT

Carlos Vogt escreveu um interessante texto em que fez uma analise semantico-argumentativa das conjuncoes porque, pois e ja que. A analise foi inspirada pela pesquisa feita por Ducrot e professores de frances e de Matematica--o chamado grupo de logica e linguagem, que fez uma pesquisa com conjuncoes assemelhadas do frances (parce que, car e puisque). O objetivo do autor e refletir sobre as possiveis relacoes entre o ensino da lingua e o ensino do pensamento logico.

Vogt alerta para o fato de que, nas gramaticas tradicionais, a classificacao dessas conjuncoes como coordenativas explicativas ou subordinativas causais nao e absolutamente clara e os criterios utilizados pelos gramaticos, por serem apenas indicativos de intuicoes possiveis, insistem em repetir a diferenca e adiam a explicacao provavel.

Alguns autores, diz Vogt, mencionam que as explicativas nao passam de causais coordenativas que nem sempre se separam claramente das causais subordinativas (Bechara, 1964). Said Ali, por exemplo, explica que as causais subordinativas se separam da oracao principal por uma pausa muito fraca, mas a coordenativa separa-se da oracao anterior por uma pausa mais forte.

Vogt comeca apresentando semelhancas entre as conjuncoes porque e ja que, semelhancas estas que as afastam de pois:

a) porque e ja que podem ser encontradas no comeco do enunciado, isto e, a oracao introduzida por essas conjuncoes pode vir anteposta. A oracao iniciada por pois, ao contrario, exige um texto anterior:

Porque sabe logica, ele se acredita um genio. Ja que voce insiste, eu venho.

Mas

* Pois sabe grego, ele se acredita romano.

b) Porque e ja que podem combinar-se com e, enquanto pois normalmente nao o faz:.

Pedro voltou porque estava cansado e porque estava doente.

Eu virei ja que voce insiste e ja que Joao partira.

Mas

*Pedro voltou, pois estava cansado e pois estava doente.

No entanto, o que Vogt tenta provar e que, do ponto de vista sintatico, pois e ja que estao mais proximas uma da outra do que porque e ja que por uma serie de testes, tais como:

a) o fato de que somente a oracao introduzida por porque pode responder a uma pergunta por que?

Por que voce ficou resfriado?

Porque eu sai sem agasalho.

* Ja que eu sai sem agasalho.

* Pois eu sai sem agasalho.

b) as conjuncoes pois e ja que nao podem ser extrapostas. A conjuncao porque pode.

Ele comeu pouco porque esta doente.

E porque esta doente que ele comeu pouco.

Ele comeu pouco, ja que esta doente.

* E ja que esta doente que ele comeu pouco.

Ele comeu pouco, pois esta doente.

* E pois esta doente que ele comeu pouco.

Se os testes supracitados ja apontam uma semelhanca entre pois e ja que e um afastamento dessas duas conjuncoes em relacao a porque, outros testes reforcam essa percepcao. Entre eles, detalharemos os testes da negacao e da interrogacao.

a) Teste da negacao

As oracoes de ja que e de pois nao podem ter seu conteudo negado. Quando o periodo e submetido a uma negacao, ha a ruptura do bloco, com a negacao incidindo apenas sobre o verbo da outra oracao.

Pedro nao parou de trabalhar, ja que sao 5 horas.

Pedro nao parou de trabalhar, pois sao 5 horas.

A interpretacao para as sentencas acima e que Pedro nao parou de trabalhar (o nao incide sobre parou de trabalhar) e a razao para ele nao ter parado de trabalhar e o fato de serem 5 horas.

Ja a conjuncao porque tem comportamento dubio. Por um lado, a particula negativa pode incidir sobre parou de trabalhar e, neste caso o comportamento de porque e identico ao de pois e o de ja que, provocando uma ruptura do bloco entonacional em dois, fazendo com que cada oracao se comporte como um bloco entonacional separado.

Pedro nao parou de trabalhar, porque sao 5 horas.

Neste caso, nega-se que Pedro tenha parado de trabalhar e a razao para ele nao ter parado de trabalhar e o fato de serem 5 horas.

Por outro lado, porque pode ter um comportamento totalmente diferente das outras duas conjuncoes, com a particula negativa incidindo sobre o conteudo da oracao introduzida por porque e nao sobre parou de trabalhar. Assim, teriamos:

Pedro nao parou de trabalhar porque sao 5 horas.

A interpretacao seria que Pedro parou efetivamente de trabalhar, mas a razao para ele ter parado de trabalhar nao foi o fato de serem 5 horas.

Neste caso, as duas oracoes formam um unico bloco tonal, nao ha pausa entre uma oracao e outra.

b) Teste da interrogacao

Tem resultados identicos ao teste da negacao. As oracoes introduzidas por ja que e por pois nao podem ter seus conteudos questionados. Quando submetidos a este teste, ha ruptura do bloco, isto e cada oracao se comporta como um bloco tonal a parte.

Pedro parou de trabalhar? Ja que sao 5 horas.

Pedro parou de trabalhar? Pois sao 5 horas.

O que se pergunta e se Pedro parou ou nao de trabalhar e pergunto isso ja que/pois sao 5 horas.

Ja a conjuncao porque tem um comportamento dubio, como no teste da negacao. Por um lado e possivel que a pergunta incida sobre o conteudo apenas da primeira oracao, como aconteceu com pois e com ja que.

Pedro parou de trabalhar? Porque sao 5 horas.

Ou seja, pergunta-se se Pedro teria ou nao parado de trabalhar e a razao para tal pergunta e porque sao 5 horas. Neste caso, cada oracao e um bloco tonal individual.

No entanto, e possivel que a pergunta incida sobre a oracao de porque. Assim, teriamos:

Pedro parou de trabalhar porque sao 5 horas?

A interpretacao seria a seguinte: nao estamos perguntando se Pedro parou ou nao de trabalhar. Sabemos que ele parou de trabalhar. Queremos saber se a razao para ele ter parado de trabalhar foi o fato de serem 5 horas.

Neste caso, as duas oracoes formam um unico bloco tonal, nao ha pausa entre elas.

Dois outros testes feitos pelo autor--encadeamento e quantificacao --tem os mesmos resultados dos testes da negacao e da interrogacao.

As conclusoes a que Vogt chega sao as seguintes:

--os testes mostram que a classificacao tradicional que opoe pois, como conjuncao de coordenacao as conjuncoes porque e ja que, enquanto conjuncoes de subordinacao e superficial e inadequada. Para Vogt, pois e ja que situam-se do lado da coordenacao. Enquanto isso, porque apresenta uma ambiguidade fundamental: e a unica conjuncao capaz de explicar pelo elo da causalidade que estabelece entre o conteudo de duas proposicoes, o conteudo da primeira pelo conteudo da segunda (caso em que as duas proposicoes formam um unico bloco tonal); por outro lado, tem um comportamento que a

aproxima da conjuncao pois, quando a explicacao desliza para uma especie de justificacao do que se diz na primeira proposicao (caso em que cada proposicao forma seu proprio bloco tonal).

--a operacao que as conjuncoes pois, ja que e porque (na interpretacao em que ha ruptura do bloco) realizam nao se faz no nivel de seus conteudos, mas ao nivel dos atos de fala de instituem esses conteudos.

--o fato de a oracao de pois nao poder ser anteposta e a de ja que poder deve-se ao fato de que a primeira conjuncao marca um ato de fala de justificacao de algo anteriormente expresso (so se pode justificar aquilo que ja foi dito), ao passo que a segunda conjuncao introduz um ato de fala caracterizado pela inferencia: se a proposicao introduzida por ja que e apresentada como uma evidencia tal que, se o ouvinte a admite, ele sera forcado a admitir o conteudo da outra oracao.

CONSEQUENCIAS DOS ESTUDOS DE VOGT EM CARONE

Segundo Carone, a diferenca fundamental entre a coordenacao e a subordinacao e que o segundo processo realiza a translacao, o primeiro, nao. Ou seja, na subordinacao impoe-se a oracao o status subalterno de termo de outra oracao, mediante a acao de um elemento translativo (conjuncao subordinativa ou pronome relativo). A conjuncao coordenativa, ao contrario, nao podendo realizar a translacao, faz com que cada oracao relacionada entre com seu valor oracional intocado. Para Carone, portanto, somente a conjuncao coordenativa tem a capacidade de relacionar oracoes, visto que a subordinacao previamente deve transferir o todo a parte, para que esta possa, entao, articular-se com uma parte de outro todo. Em outras palavras, o elemento de subordinacao relaciona uma oracao transferida a condicao de um substantivo, um adjetivo ou um adverbio por meio de um translativo a um elemento (um termo) da outra oracao, ao passo que o elemento de coordenacao, nao tendo esta capacidade de transferir uma oracao a condicao de substantivo, adjetivo ou adverbio, relaciona sua oracao com outra oracao.

Em vista do que foi dito acima, podemos ver que Carone concorda com Vogt quando este considera que as conjuncoes pois e ja que sao coordenativas uma vez que relacionam atos de fala de cada oracao e nao os fatos expressos em cada uma delas. Ja a conjuncao porque poderia ser tanto uma coordenativa explicativa quanto uma subordinativa causal, como ja foi exposto por Vogt.

Lembremos, tambem, que tal proposta traz de volta a ideia da pausa como elemento instaurador da coordenacao, defendida por Carone no capitulo 3. As conjuncoes pois e ja que, por romperem o bloco, fazendo com que cada oracao se comporte como um bloco tonal a parte, tem, portanto, comportamento de coordenativa. A conjuncao porque tanto pode provocar a ruptura do bloco (caso em que atuara como coordenativa) ou manter as duas oracoes como um so bloco tonal, caso em que atuara como subordinativa, sem pausa, portanto.

No entanto, Carone nos alerta que ha motivos que levam a confusoes entre a causal e a explicativa, por mais diferentes que sejam, na vida, a causa e a explicacao (aquela e anterior ao fato, e esta nos a buscamos a posteriori). O primeiro e que a explicativa e "lateralmente" uma causal. Alguns chegam a dizer que ela exprime uma relacao de causa "mais frouxa". O verdadeiro problema e que ela nao exprime uma causa referencial daquilo que e dito no enunciado da outra oracao, mas a causa do ato e da atitude do locutor ao produzir seu enunciado. Nao e a causa do "dictum", mas do "modus" do falante, visto que gerou o seu julgamento sobre o fato exposto.

Por exemplo, quando dizemos A moca vai viajar, porque vi seu passaporte, nao podemos dizer que o fato de ter visto o passaporte seja a causa para a viagem da moca. Mas e a causa para o ato de fala representado pela oracao A moca vai viajar (uma conclusao a que o falante chegou). Esse "modus a que se refere Carone concretiza-se em um verbo ilocucional (digo, juro, concluo, suponho, acho, etc.).

ALGUMAS CONSIDERACOES SOBRE AS PROPOSTAS ACIMA

Esta claro, na proposta de Vogt, a enfase a semantica. O autor procura demonstrar que, do ponto de vista do significado, porque, pois e ja que, ainda que parecidas, apresentam nuances semanticas que as diferenciam ligeiramente umas das outras. Essas distincoes de significado vao ter reflexos no comportamento sintatico de cada conjuncao analisada. Lembramos aqui a passagem final de Vogt do objetivo maior de seu estudo: "Neste sentido e que estas conjuncoes constituem "operadores" argumentativos, isto e, marcadores de subjetividade, e o seu estudo devera contribuir para mostrar a importancia das intencoes dos falantes na organizacao do discurso e na sua estruturacao como texto." (1989, p. 60)

Todavia, pode-se observar que o significado passado pela conjuncao esta, para Vogt, intimamente ligado ao processo de estruturacao de periodos. A conjuncao porque e a unica que permite a interpretacao como causal, em um de seus usos. Assim, e a unica que pode ser subordinativa. As outras duas, assim como o porque em outro de seus usos, sao conjuncoes que nao passam a ideia de causa de um fato expresso na outra oracao. Elas explicam, justificam o ato de fala da outra oracao. Logo, sao coordenativas, pois relacionam oracoes.

Carone vai explicar esse ponto de forma mais clara. A conjuncao porque em um de seus usos (aquele em que permite que sua oracao forme um unico bloco com a outra oracao) mostra-nos que a oracao de porque esta relacionada ao fato expresso pelo verbo da outra oracao. E, assim, uma oracao que esta subordinada a um termo da outra oracao (o verbo). A conjuncao funciona, neste caso, como um translativo, reduzindo a oracao a condicao de adverbio. Nos demais casos, pois, ja que e porque (no seu uso proximo a pois e ja que), Carone explica que as conjuncoes nao inserem uma oracao na outra, nao operam a translacao, mas relacionam os atos de fala de cada oracao. Por isso, sao coordenativas.

Um ponto que nos parece merecer reflexao e a ligacao intima estabelecida entre causa e subordinacao e explicacao e coordenacao. A gramatica tradicional tambem "amarra" a questao causal x explicativa ao processo de estruturacao de periodos, subordinacao x coordenacao, de modo que a oracao causal so pode ser subordinada e a explicativa so pode ser coordenada, muito em razao de um exame pouco aprofundado dessas duas questoes, que, no nosso entender, estao em campos distintos, a primeira oposicao no campo da Semantica e a segunda, no da Sintaxe. Mas e a propria gramatica tradicional, ao tentar distinguir coordenacao de subordinacao, que diz que, na coordenacao, uma oracao nao funciona como termo da outra oracao, ao passo que, na subordinacao, uma oracao e funcao sintatica da outra.

Assim, ao tentar mostrar por que pois e ja que, apesar de serem, em seu entender, coordenativas explicativas, comportam-se diferentemente no tocante a possibilidade de inversao de oracoes, Vogt explica que tal diferenca esta relacionada ao ato de fala que cada uma dessas conjuncoes introduz. A explicacao e de natureza semantica, mas condiciona o fato de serem as conjuncoes coordenativas ou subordinativas e nao apenas de serem causais ou explicativas. Contudo, o autor deixa de lado a outra caracteristica que ele mesmo cita que afasta ja que de pois: a possibilidade de a primeira coocorrer com e e a impossibilidade da ultimapois coocorrer com a mesma conjuncao. Em outras palavras, a oracao introduzida por ja que pode ser desdobrada por coordenacao, mediante o uso da coordenativa e, ou mesmo por coordenacao assindetica. Mas, com conjuncao pois, isto nao acontece.

Carone vai retomar Vogt, mostrando que as conjuncoes ja que e pois (e porque, em um de seus usos), nao relacionam uma oracao a um termo de outra oracao. Nao operam, desta forma, a translacao. Relacionam oracao a oracao. Somente a conjuncao porque (no outro uso) relaciona a sua oracao ao verbo, transformando a oracao em adjunto adverbial. As duas primeiras conjuncoes e o porque, em um de seus usos, sao coordenativas, porque sao marcadas pela pausa. Ja, no outro uso de porque, nao marcado pela pausa, esta conjuncao funcionaria como subordinativa.

E preciso ter cuidado com essa afirmacao tao generalizante de que a pausa e obrigatoriamente elemento instaurador da coordenacao, pois, se assim o for, entao as oracoes subordinadas substantiva apositiva e adjetiva explicativa, que representam a funcao sintatica de aposto, sao coordenativas, uma vez que sao marcadas por pausa significativa. No entanto, sao introduzidas ou pela conjuncao subordinativa integrante (a subordinada substantiva apositiva) ou pelo pronome relativo (a subordinada adjetiva explicativa), elementos reconhecidamente de subordinacao e citados pela propria Flavia Carone como tais. Este ponto relacionado as oracoes que exercem a funcao sintatica de aposto nao e mencionado por Carone.

Outro ponto, que pode mostrar o perigo da generalizacao da pausa como elemento instaurador da coordenacao e o uso de certos adverbios de frase, como em, Certamente, Pedro vira a festa, ou Francamente, este filme e horrivel. Seriam esses adverbios (certamente e francamente), elementos coordenados na estrutura da frase? Perini nos propoe que esses termos adverbiais tem os seguintes tracos sintaticos: [-CV, +Ant, -Q, -CN, -Cl, -pNdP, +PA], exercendo, assim, a funcao sintatica que ele nomeia de adjunto oracional.

Da mesma forma que elementos adverbiais podem exercer, na sentenca, funcoes sintaticas diferentes da de adjunto adverbial, o que e desconsiderado por Carone, as oracoes adverbiais poderiam, tambem, exercer funcoes sintaticas outras diferentes das de adjunto adverbial. E, assim, da mesma maneira como o termo adverbial pode vir marcado na sentenca pela pausa, caso do adjunto oracional, a oracao adverbial poderia tambem ser separada da sua principal por pausa, pois nao exerceria a funcao sintatica de adjunto adverbial. Nem por isso, perderia seu carater subordinado, pois o que da esse carater e o fato de ela exercer uma funcao sintatica na principal. Estariamos, entao, questionando o papel da pausa como elemento obrigatoriamente instaurador da coordenacao.

UMA OUTRA PROPOSTA

As reflexoes que fizemos no item anterior nos levaram a pensar em uma outra proposta para a questao. Essa proposta parte de uma premissa basica: a de que a analise semantica das conjuncoes deve ser separada da analise do processo de estruturacao de periodos. Em outras palavras: determinar se uma conjuncao tem valor causal ou explicativo nao tem, em nosso entender, relacao com a investigacao sobre o estudo dos processos de estruturacao de periodos, a saber, coordenacao ou subordinacao.

Ha 3 principais caracteristicas das conjuncoes coordenativas:

1-as conjuncoes coordenativas exigem pre-texto, isto e, as conjuncoes coordenativas estao sempre ligando sua oracao a algo previamente expresso. Tal caracteristica da a oracao coordenada uma rigidez posicional total. A oracao introduzida pela conjuncao coordenativa nao pode ser movimentada, isto e, nao pode ser levada para antes da outra oracao com a qual esta coordenada. Isto nao acontece com a maioria das conjuncoes subordinativas adverbiais, que, por introduzirem oracoes que representam termos adverbiais, tem mobilidade no periodo. O papel da conjuncao subordinativa adverbial nao e o de ligar a sua oracao a algo previamente expresso, mas o de conferir a sua oracao o "status" de um termo adverbial;

2- as conjuncoes coordenativas funcionam em todos os niveis: inter-oracional e intra-oracional. Consideremos a definicao de coordenacao dada por Tesniere: "a coordenacao e a consequencia de um fenomeno de "desdobramento" de um termo, que se ve, assim, em face de um peculiar "alter ego". Nesse processo, parece que vao surgindo clones do individuo original, numa multiplicacao para a qual nao ha teoricamente limites. Quando esse fenomeno atinge o centro da oracao, o verbo--ao qual todos os termos se subordinam imediata ou mediatamente--, ocorre o desdobramento em duas oracoes coordenadas." Podemos, entao, concluir que a conjuncao coordenativa atua dentro da oracao, no desdobramento de funcoes sintaticas semelhantes, atua ligando oracoes que exercam a mesma funcao sintatica de um mesmo elemento de uma principal, numa atuacao muito proxima a anterior, mas com a diferenca de que, aqui, as funcoes sintaticas estao em forma de oracao e, por fim, atua ligando oracoes sintaticamente independentes, isto e, oracoes em que uma nao e termo da outra, caso em que a coordenacao atingiu o verbo.

3- as conjuncoes coordenativas nao coocorrem ligando uma oracao a outra. A razao para isso e que se duas palavras relacionam as mesmas oracoes, isso significa que apenas uma e conjuncao coordenativa, pois seria uma redundancia termos dois elementos de coordenacao juntos desempenhando a mesma funcao Isso exclui do rol das conjuncoes coordenativas uma serie de elementos que vem sendo, tradicionalmente, incluidos nessa classe, tais como as palavras de valor adversativo porem, todavia, contudo, entretanto, no entanto, todas passiveis de coocorrerem com mas, esta sim uma verdadeira conjuncao coordenativa, e com e, a mais coordenativa das conjuncoes coordenativas, e as conclusivas portanto, pois, consequentemente, todas passiveis de coocorrerem com e. Alias, uma razao que leva a excluir tais elementos do grupo das conjuncoes coordenativas e o fato de que podem ter colocacao flutuante na oracao, ao passo que as conjuncoes coordenativas verdadeiras so podem situar-se no inicio da oracao. A proposta de que esses elementos nao sao conjuncoes coordenativas e sim adverbios ja vem sendo amplamente defendida por ilustres autores tais como Bechara (1999) e Bomfim (1987). Elementos sintaticamente semelhantes em ingles (however, nevertheless, therefore) tambem foram excluidos por Quirk et alii do rol das conjuncoes coordenativas, sendo incluidos no grupo dos adverbios. Entretanto, e perfeitamente possivel a convivencia como os dois primeiros elementos de uma oracao de uma conjuncao coordenativa e outro elemento de subordinacao (conjuncao subordinativa integrante, conjuncao subordinativa adverbial, pronome relativo, preposicao, esta no caso das reduzidas) porque cada elemento realiza um papel distinto: o elemento de subordinacao subordina uma oracao a outra fazendo com que uma oracao se comporte como uma funcao sintatica de outra; ja o de coordenacao une duas oracoes que exercem a mesma funcao sintatica de uma mesma principal.

Em vista do exposto, concluimos que, das conjuncoes examinadas, pois tem mais caracteristicas de coordenativa. Ela exige o pretexto, pois sua oracao nao pode ser movida. Ela nao coocorre com nenhuma outra conjuncao coordenativa. Assim, nao se pode desdobrar uma oracao introduzida por pois. Apenas no nivel de funcionamento dessa conjuncao e que ela tem uma comportamento que difere das mais autenticas conjuncoes coordenativas, uma vez que pois so atua no nivel inter-oracional e, mesmo nesse nivel, nao liga oracoes subordinadas que exercam a mesma funcao sintatica de uma mesma principal. Quanto a ja que e porque, tem comportamento sintatico tipico das subordinativas: so atuam ligando oracoes, nao exigem pretexto, podem ter sua oracao desdobrada por coordenacao (porque coocorre com as coordenativas e, ou e mas; ja que coocorre apenas com e).

O que dissemos acima ja nos mostra nossa discordancia em relacao a Vogt no tocante a classificacao da conjuncao ja que, considerada por ele como coordenativa.

Alem disso, entendemos que as gramaticas tradicionais tem razao quando consideram que, na subordinacao, uma oracao e funcao sintatica de outra e, na coordenacao, ha independencia sintatica, pois uma oracao nao funciona como termo de outra, postura da qual nem mesmo Flavia Carone discorda.

Contudo, pensamos que o grande problema com relacao as subordinadas adverbiais esta no fato de se achar que os termos adverbiais na oracao so podem exercer a funcao de adjunto adverbial, o que pode ser claramente contestado acima. O estudo superficial e incompleto das funcoes sintaticas exercidas pelos elementos adverbiais e pelos sintagmas preposicionados na oracao acaba atingindo, tambem, o estudo das funcoes sintaticas das oracoes adverbiais no periodo.

Quirk et alii (1985) propoem que as oracoes adverbiais podem exercer duas funcoes: a de adjunto adverbial e a de disjunto adverbial. Caracterizam-se os adjuntos adverbiais pela possibilidade de responderem a uma pergunta adverbial e pela possibilidade de serem extrapostos ou clivados. Os disjuntos adverbiais, ao contrario, nao sao passiveis dessas operacoes.

Assim, com relacao as conjuncoes subordinativas adverbiais acima citadas (porque e ja que) somente a primeira introduz oracoes que podem responder a uma pergunta adverbial (compor que?) e oracoes que podem ser extrapostas ou clivadas. Assim, somente porque pode introduzir oracoes que exercem a funcao de adjunto adverbial. Ja que, nao podendo introduzir oracoes que se submetam aos processos acima expostos, nao introduz oracoes adjuntos adverbiais, mas disjuntos adverbiais.

CONCLUSOES

Nao descartamos a possibilidade de um estudo semantico das conjuncoes. A proposta de Vogt de estudar as nuances de significado existentes nas conjuncoes porque, pois e ja que e, sem duvida, muito interessante. Esse estudo e vital para que se possam entender as intencoes comunicativas dos falantes ao escolherem uma determinada conjuncao em detrimento de outra que tenha semelhancas semanticas muito grandes, mas algumas nuances de significado. E um estudo sobretudo essencial na determinacao do valor argumentativo desses elementos.

No nosso entender, no entanto, um estudo que separe a questao do comportamento sintatico (conjuncao coordenativa ou conjuncao subordinativa) das questoes ligadas a Semantica (causal ou explicativa) parece responder de forma mais abrangente as perguntas feitas pelo proprio Vogt e englobar melhor as semelhancas e diferencas apontadas pelo autor com relacao as conjuncoes supracitadas.

BIBLIOGRAFIA

BECHARA, Evanildo. Moderna gramatica portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999.

BOMFIM, Eneida. Adverbios. Sao Paulo: Atica, 1987.

CARONE, Flavia de Barros. Subordinacao e coordenacao: confrontos e contrastes. Sao Paulo: Atica, 1988.

CUNHA, Antonio Sergio Cavalcante da. O comportamento sintatico das conjuncoes causais/explicativas. Dissertacao de Mestrado. PUCRJ, 1994.

PERINI, Mario A. Gramatica descritiva do portugues. Sao Paulo: Atica, 2000.

QUIRK, Randolph et alii. A comprehensive grammar of the English language. London: Longman, 1985.

VOGT, Carlos. Indicacoes para uma analise semantico-argumentativa das conjuncoes porque, pois e ja que. In: Linguagem, pragmatica e ideologia. Sao Paulo: Hucitec, 1989.

Antonio Sergio Cavalcante da Cunha (UERJ)

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Author:da Cunha, Antonio Sergio Cavalcante
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2008
Words:4215
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