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Alcindo Moreira Filho: reframer of matter/Alcindo Moreira Filho: o ressignificador da materia.

Introducao

Na pretensao de dialogar com o artista e sua obra, trago para esse coloquio as palavras do poeta Fernando Pessoa; por conseguir "palavrar" o que meus olhos veem e o meu coracao sente:

   E assim escrevo, querendo sentir a natureza, nem sequer como um
      homem,
   Mas como quem sente a natureza, e mais nada.
   E assim escrevo, ora bem, ora mal,
   Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
   Caindo aqui, levantando-me acold,
   Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.
   (Pessoa, apud Cagliardi, 2006:19)


Alcindo Moreira Filho e natural de Caconde/SP, artista visual, mestre e doutor em artes plasticas pela Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo, e livre docente do Instituto de Artes da Universidade Estadual de Sao Paulo (Figura 1). Convidado pelo Itamarati (1979/81) realizou exposicoes em Madrid, Washington e Santiago do Chile. Foi artista residente do Medana Contempory Museum (2010). Detentor de varias premiacoes nacionais e internacionais, suas obras estao presentes em colecoes particulares e em museus como: Museu de Arte Contemporanea da USP, Pinacoteca do Estado de Sao Paulo, Museu de Arte Moderna de Sao Paulo, Museu de Maldonado e outros. Foi homenageado pela UNESP, que contemplara a galeria de arte da universidade com o seu nome.

Materialidade, experimentacao, serialidade, repeticao, apropriacao, acumulacao, multiplicacao, sustentabilidade, efemeridade, transitoriedade, descontextualizacao e ressignificacao sao alguns dos conceitos que podemos identificar na obra de Alcindo.

1. Atelie-Laboratorio-Casa do Artista-Alquimista

   O meu olhar e nitido como um girassol.
   Tenho o costume de andar pelas estradas
   Olhando para a direita e para a esquerda,
   E de vez em quando olhandopara trds...
   E o que vejo a cada momento
   E aquilo que nunca antes eu tinha visto,
   E eu sei dar por isso muito bem...
   Sei ter o pasmo essencial
   Que tem uma crianfa se, ao nascer,
   Reparasse que nascera deveras...
   Sinto-me nascido a cada momento
   Para a eterna novidade do Mundo...
   Creio no mundo como num malmequer,
   Porque o vejo. Mas nao penso nele
   Porque pensar e nao compreender...
   O Mundo nao se fez para pensarmos nele
   (Pensar e estar doente dos olhos)
   Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
   Eu nao tenho filosofia; tenho sentidos...
   (Pessoa apud Cagliardi, 2006:32)


Pai de infinitas (pai)sagens materico-experimentais, estetico-sensoriais, urbanas e campais; inventor de pais(agens).

Entrar em seu atelie urbano em Sao Paulo, a cidade do trabalho, e adentrar um universo construido por um operario da arte (Figura 2).

No teto podemos vislumbrar um ceu infinito de rendas, desenhos, bichos de arame, obras em seu nascedouro, em construcao ou avidas de contemplacao. Seus objetos sao deslocados da funcao primaria e ressignificados; verdadeiras invencoes que unem tecnicas artesanais, perpassam os readymades e vao muito alem, sem preconceitos de ordem temporal, espacial, pratica ou teorica. Um verdadeiro arsenal de materias tateis, cuja paisagem nos leva a caminhar para o passado, possibilita-nos estabelecer redoes com o presente e nos transporta para o futuro.

   Passar a limpo a materia
   Repor no seu lugar as coisas que os homens desarrumarampor
      naoperceberempara
   que serviam
   Endireitar, como uma boa dona de casa da Realidade,
   As cortinas das janelas da sensafao
   E os capachos as portas da Percepfao
   Varrer os quartos da observafao
   E limpar opo das ideias simples
   Eis a minha vida, verso a verso.
   (Pessoa, in Cagliardi, 2006:136)


Visitar seu atelie em Monte Alegre do Sul e imergir numa paisagem paradisiaca que envolve e dialoga com suas obras tridimensionais, ressignificando um(a) nov(a)o pais(agem), um lugar para ser, estar, sentir e pensar (Figura 3).

Alcindo e o verdadeiro artista-alquimista em seu atelie-laboratorio-casa. A pesquisa estetica e seu estilo de vida: coleta, acumula, coleciona, multiplica e transforma a materia pela acao do fogo, da terra, do ar ou da agua. Uma obra pode ser uma criacao imediata fruto de impulsos e ideias advindos de suas experiencias e vivencias no mundo ao longo do caminho, como pode ser construida durante anos ate alcancar a completude. Uma de suas caracteristicas e retomar trabalhos antigos colocando-os em novos contextos e lugares, atribuindo-lhes novas concepcoes.

Sua arte realizada com dedicafao e talento, derruba distancias entre o possivel e o impossivel. Instaura um reino onde a verdade pldstica, presente nos elementos constitutivos de cada trabalho, prevalece, numa sutil alianfa entre o conhecimento tecnico apurado dos mestres do passado e a ousadia do fazer contempordneo (Ambrosio, 2009).

A criatividade e o rigor sao seus atributos e merecem disthnpao, o que o torna notavel pela capacidade de desenvolver as especificidades tecnicas e processuais de cada trabalho, de acordo com o material utilizado e a multiplicidade de suportes que, segundo o artista, geram necessidades exclusivas para cada obra executada. A qualidade do aprimoramento tecnico identitario da obra e sua adequacao ao espaco criam multiplas imagens que possibilitam infinitas relacoes e reflexoes teorico-pratico-poeticas e existenciais, assim como a projecao de novas referencias a partir do repertorio do apreciador-fruidor. Seu olhar sensivel, sua percepcao agucada, conscientemente coerente e em sintonia com os homens e o mundo de seu tempo, aliados a criatividade e ao rigor da praxis proporcionam a sua producao um carater inedito.

2. "Etnovisualidade do gosto"

Prontospara o gesto de estimular os sentidos: campo visual, cenicas corporais, tato e gosto, aromas sonoros, ruidos paladares. Sao figuras que alertam para uma poetica das condensafoes sinestesicas, sao ideogramas do sensorial.

(Chalhub, catalogo da exposicao, 1995)

Quando Alcindo comecou a pensar sobre a Bienal de Santos enquanto preparava um cafe surgiu uma ideia. Colocou o filtro de papel usado sobre o azulejo e iniciou uma serie de conjecturas mentais sobre ele. Esta cena lembrou-me de um episodio literario: Um menino de seis ou sete anos costumava sentar-se ao lado da mesa de trabalho do seu avo e lia para ele enquanto este costurava. Ele lembra vividamente, que enquanto o avo apertava o ferro sobre a costura, olhava "sonhadoramente pela janela". O menino "ficava imaginando o que ele estaria sonhando, o que o fizera sair de si." O devaneio do avo o fascinava. Ele sabia que "nao tinha menor relacao com o que ele estava fazendo, que ele nao tinha o menor pensamento para qualquer de nos, que estava sozinho e, estando sozinho, estava livre." (Miller, 1974 :8). O Alcindo e esse ser livre que materializa seu devaneio e nos convida a desfruta-lo. Ele demonstra que aquilo que desejara toda sua vida nao era viver, na concepcao popular de viver, mas expressar-se. Meu olhar apreende esse ente que nao tem interesse em viver, mas apenas nisto que faz, algo que e paralelo a vida, que faz parte dela e fica alem dela. So lhe interessa o que ele imagina que e (Miller, 1974 7).

O processo de materializacao do imaginado e arduo e proficuo. Ele conta que o cafe era considerado o ouro negro do Brasil e ele desejava ir alem, almejava revelar a estetica do cafe. O artista iniciou sua pesquisa indo a campo: Buscou conhecer os tipos de cafe na Sociedade Brasileira de Cafe, entrevistou baristas, estudou sobre sua producao, etc.. Observou vistas aereas de estradas de cafe que vira na infancia em Caconde: a cidade do cafe. Segundo Alcindo, os arabes fazem cafe sem coador, os africanos coam em folhas. Para ele os limites de cada tribo estao na sua poetica. As sacas de cafe delimitam barreiras, dividem grupos, mas em contrapartida tambem unem pessoas.

Homem de ideais que sou, quem sabe se a minha maior aspirafao nao e realmente nao passar de ocupar este lugar a esta mesa deste cafe? (Pessoa apud Soares, 2010: 100)

Na instalacao ele empregou o grao, o po, os filtros usados e as xicaras. Com estes elementos, criou linhas e espirais as quais chamou de "cafe". Ressignificou o grao, transgrediu o seu uso comum e desenhou a poetica invisivel do cafe (Figura 4, Figura 5).

3. "O ceu aprisionado" e "Entrenuvens"

Nuvens ... Hoje tenho consciencia do ceu,poishd dias em que nao o olho mas sinto, vivendo na cidade e nao na natureza que a inclui. Nuvens... Sao elas hoje a principal realidade, epreocupam-me como se o velar do ceu fosse um dosgrandes perigos de meu destino. Nuvens... Passam da barrapara o Castelo, de Ocidentepara Oriente, num tumulto disperso e despido, branco as vezes, se vao esfarrapadas na vanguarda de nao sei o que; meio-negro outras, se, mais lentas, tardam em ser varridas pelo vento audivel; negras de um branco sujo, se, como se quisessem ficar, enegrecem mais da vinda que da sombra o que as ruas abrem de falso espafo entre as linhas fechado ras da casaria. (Pessoa, 2002)

A exposicao "Paulistas na Paulista" (1998) propos aos artistas que respondessem e interpretassem as varias perguntas que permeiam o inconsciente dos usuarios da grande avenida: O que? Como? Quem? Com o que se faz a Paulista?

O artista propos o "ceu aprisionado" e nao so o ceu, mas a terra, as folhas de ouro, os cabelos, o algodao, as cedulas de dinheiro, os fragmentos de espelho, os papeis e outros. Alcindo mensura o aparentemente imensuravel, reconfigura em outro lugar e contexto, propoe novos sentidos, propulsores de varias leituras perceptivo-sensoriais do mundo. Em 2013, a obra foi exposta novamente junto a exposicao "Entrenuvens" (Figura 6, Figura 7).

Para o curador Norval Baitello Junior, o artista revela:

[...] a historia de sua desmemoria e a desmemoria de sua historia, apobreza de sua riqueza e a riqueza de sua pobreza, a decadencia de seus signos elevados e a elevafao de seus signos decaidos, seus jardins fragmentados por espelhos narcisicos os detritos de sua vaidade e a vaidade de seus detritos. O ceu aprisionado e as nuvens aprisionadas nao sao apenas metdforas, sao vivencias sensoriais da viagem em uma nave que se cre maior que o tempo e oferece nas janelas aspaisagens de seu mais recondito dmago. (Catalogo da exposicao, 1998, SP)

O artista expandiu seus devaneios sobre sua antiga paixao: o ceu, culminando na exposicao "Entrenuvens" (Figura 8, Figura 9). Retomou as obras de Franz Post que veio com Mauricio de Nassau em 1630 com a missao de retratar a paisagem brasileira, apaixonou-se pelo ceu de Recife e registrou em desenhos e aquarelas (Acervo do Louvre).

Alcindo fotografou o ceu de Recife, Olinda e Monte Alegre do Sul/SP, selecionou duzentas imagens estremadas e projetadas em forma circular. Fez uma alusao ao caminho de Santiago que ia do Oriente a Finisterre (fim da terra em latim) e esta sob a Via Lactea. Ele utilizou caixas de CDs e de madeira, algodao e parafina (materias primas de varios objetos).

O artista propos uma reflexao-pratica sobre a sustentabilidade ao inaugurar pela primeira vez uma exposicao no pais que converteu todo carbono usado, desde o transporte das obras de Sao Paulo para Recife ate os copos descartaveis utilizados no coquetel em arvores que foram plantadas.

Segundo a curadora Elvira Vernaschi, ele utilizou uma tonelada de algodao que contraposto a sua leveza propos o contraditorio "sobre como as coisas mudam a partir de um ponto de vista."

(In) Conclusoes

As palavras sao a materia prima da arte poesia. Me apropriei e parafraseei os versos do mestre Pessoa, a partir da minha leitura peculiar e tomo a liberdade de expressar o que meu olhar-sentir capta sobre o artista, Alcindo, e o que sua obra suscita em mim:

"Alcindo sente tudo de todas as maneiras e vive tudo de todos os lados, e a mesma coisa de todos os modos possiveis e ao mesmo tempo. Realiza em si toda a humanidade de todos os momentos. Multiplicou-se para se sentir, para se sentir precisou sentir tudo. Transbordou, nao fez senao extravasar-se. Sente na sua cabeca a velocidade do giro da terra. Faz-se levantar-se mil vezes e dirigi-se para o abstrato. Resolve a inquietacao dessa equacao prolixa. Cavalgada energetica por dentro de todas as energias. Cavalgada explosiva, explodida como uma bomba que rebenta. Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espirito adiante do corpo. Adiante da propria ideia veloz do corpo projetado. Com todos os seus sentidos em ebulicao, com todos os seus poros em fumo. Que tudo e uma so velocidade, uma so energia, uma so divina linha. " (Pessoa, 1999:92)

Ele e um artista e ser humano critico, responsavel, coerente e consciente de sua existencia, nao apenas coloca o dedo na ferida mas a trata e as cura. E um cocriador (Laszlo, 2008) do seu planeta, por ressignificar a materia, os objetos esquecidos, perdidos, abandonados, esquecidos, descartados, em prol da conservacao, preservacao, valorizacao, renovacao, transformacao, reaproveitamento, reutilizacao, vitalizacao, pela memoria e eternizacao. Portanto, contraponto em nossa cultura aos que elegeram o descartavel e o imemoravel. Para isso sua acao artistica e ousada, corajosa, estetica e etica. O resultado da fruicao com suas obras e a expansao da percepcao humana, cuja limitacao e propulsora das crises atuais. E preciso ressignificar, para isso, como faz o artista e disse o poeta: "(...) Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo."

Artigo completo submetido a 26 de janeiro e aprovado a 31 de janeiro de 2014.

Referencias

Cagliardi, Caio (2006). Pessoa: poemas completos de Alberto Caeiro. Sao Paulo: Hedra. ISBN 978-85-7715-014-4.

D'Ambrosio, Oscar (2009). O acumulador de imagens. Sao Paulo: UNESP Cencia. Outubro/2009. [Consult. 2014-01-22] Disponfvel em http://www.unesp.br/aci_ ses/revista_unespciencia/acervo/02/arte.

Laszlo, Ervin & Currivan, Jude (2008). COSMOS: Unindo ciencia e espiritualidade para um novo entendimento do universo e de nos mesmos. Sao Paulo: Cultrix. ISBN 978-85-316-1106-3.

Miller, Henry (1974). Tropico de Capricornio. Sao Paulo: IBRASA.

Moreira Filho, Alcindo (1995). Etnovisualidades. Catalogo. Sao Paulo: Bienal de Santos.

Moreira Filho, Alcindo (1998). Paulistas na Paulista. Catalogo. Sao Paulo.

Moreira Filho, Alcindo (2013). Entrenuvens. Catalogo. Recife: Caixa Cultural do Recife.

Pessoa, Fernando (2002). Desassossego. Sao Paulo: Companhia das Letras.

Pessoa, Fernando / Alvaro Campos (1999). "Passagem das horas" in Poemas de Alvaros de Campos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

Soares, Aldo & Dubas, Laurence Sarah (2010). Desassossego: Lisboa e Pessoa. Sao Paulo: Martins Fontes. ISBN978-85-616735-80-0.

MARGARETE BARBOSA NICOLOSI SOARES, Brasil, artista visual. Frequenta o Doutorado em Artes Visuais.

AFILIACAO: Universidade de Sao Paulo--USP. Escola de Comunicacoes e Artes--ECA, Av. Prof. Lucio Martins Rodrigues, 443--Cidade Universitdria, CEP 05508-020--Sao Paulo--SP, Brasil. E-mail: margaretebarbosa@usp.br
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Soares, Margarete Barbosa Nicolosi
Publication:GAMA
Date:Jul 1, 2014
Words:2353
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