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Aimportancia do metodo critico na renovacao dos estudos catolicos em Portugal: o caso de Luis Antonio Verney.

The Importance of the Critical Method for the Renewal of Catholic Studies in Portugal: the Case of Luis Antonio Verney

Esta consolidado na historiografia o entendimento de que Luis Antonio Verney (Lisboa, 1713--Roma, 1792) foi um dos principais autores das ideias que estiveram por tras das politicas pombalinas. Nesse sentido, normalmente sao evocadas algumas caracteristicas de seus escritos que teriam influenciado Sebastiao Jose de Carvalho e Melo, marques de Pombal, por exemplo, na expulsao da Companhia de Jesus dos dominios portugueses (1759) e na formulacao do conteudo dos novos parametros curriculares implementados pelas reformas do ensino, especialmente a reforma da Universidade de Coimbra (1772). De fato, o Verdadeiro metodo de estudar (1746) apresentou a critica mais virulenta dirigida ao ensino jesuitico, propondo como alternativa uma serie de medidas que incluia a leitura de uma enorme quantidade de autores modernos (como Locke e Newton) em cada uma das areas do saber incluidas nas primeiras quinze cartas que compoem a obra (a ultima carta resume as anteriores). Um conhecimento pautado na "razao" e na "experiencia", tal como e idealizado na obra, foi concretizado a partir da instituicao dos novos Estatutos da Universidade (1772). Antes disso, a Logica (1751) e a Ortografia (provavelmente a Ortografia Latina, de 1747) de Verney ja haviam sido indicadas como "livros aconselhaveis" para o ensino secundario nas instrucoes de 1759 (ANDRADE 1978, p.186), emitidas no contexto da ofensiva pombalina contra os inacianos.

Muitas conexoes mais entre a obra verneiana e as acoes pombalinas certamente existem. Porem, quero neste artigo destacar uma componente do Verdadeiro metodo de estudar que e pouco destacado pela historiografia: a questao da critica historica, ou metodo critico, no pensamento de Verney. Muitas vezes valorizando a modernidade da obra por sua recepcao a uma concepcao de ensino que tomava a razao e a experiencia como vetores privilegiados da aquisicao do conhecimento, a historiografia praticamente nao deu atencao a questao da critica nas analises da obra de Verney, muito embora constitua o seu aspecto central e chave para a compreensao de seu todo.

A partir da primeira experiencia liberal portuguesa (na decada de 1820), autores comecaram a identificar na politica de Pombal o inicio do processo que resultou no colapso do Antigo Regime e, consequentemente, no advento do liberalismo (TORGAL 1989, p. 73). Nao e a toa, portanto, que nas fileiras liberais uma ampla gama de historiadores valorizou a figura e as acoes do todo-poderoso ministro de D. Jose (1750-1777), assim como nao ha nenhuma surpresa no fato de muitos de seus detratores se localizarem no espectro ideologico conservador. Em epocas em que a polarizacao ideologica atingiu limites extremos, como nos anos que antecederam a ascensao salazarista e durante o proprio regime ditatorial, Verney chegou a ser praticamente apontado como um adepto das causas liberais. Enquanto Antonio Sergio referiu-se a ele como "apostolo civico" (SERGIO 1979, p. 81), conferindo-lhe papel de protagonista na luta pelo progresso contra a decadencia e organizando uma das edicoes do Verdadeiro metodo de estudar, Joaquim Ferreira sugeria que poderia se tratar de um autor anticlerical (FERREIRA s/d, p.8). Um autor conservador a epoca, como Antonio Alberto Banha de Andrade, referia-se a Verney e a sua obra, respectivamente, como "mentiroso" e "famigerada" (ANDRADE 1946, p. 25-32).

Porem, como defenderemos aqui, essa e uma visao um tanto incompleta --quando nao errada--do pensamento do Barbadinho (como ficou conhecido). Colocado no contexto em que o Verdadeiro metodo de estudar foi escrito, fica nitida a principal preocupacao do autor: prover meios aos estudantes portugueses de defender satisfatoriamente o Catolicismo perante seus detratores, em especial os ceticos, ateistas, materialistas e deistas do Iluminismo, por meio do uso da critica historica como arma.

Breve historia da critica

Quando o jesuita bolandista Daniel von Paperbroeck (1628-1714) afirmou serem falsos todos os diplomas merovingos preservados nos mosteiros, o monge beneditino de Saint-Maur Jean Mabillon (1632-1707) respondeulhe que, se havia diplomas falsos, havia tambem os autenticos. Marc Bloch identificou na obra De re diplomatica (1681), escrita por Mabillon, a fundacao da critica documental, a diplomatica (BLOCH 2001, p. 90). A Congregacao Beneditina Francesa de Saint-Maur havia sido reorganizada por Gregoire Tarisse (1575-1648) com o apoio de Richelieu (1585-1642), passando a privilegiar o trabalho intelectual e a pesquisa erudita, com a finalidade de favorecer os estudos religiosos e dar aos beneditinos ferramentas para que tomassem parte nas discussoes historiograficas que dividiam os cristaos. Para o monge Mabillon, a verdade poderia ser distinguida do erro mediante a adocao de regras objetivas, argumentando ele que a reuniao de provas por meio de um paciente trabalho de pesquisa tornaria possivel a aquisicao da certeza historica (GLENISSON 1991, p. 89-97). A pesquisa da verdade, todavia, servia antes de tudo para confirmar a causa da religiao catolica, nao podendo prejudica-la. O metodo de Mabillon pretendia responder diretamente ao pirronismo historico, que duvidava da possibilidade de se estabelecer certezas (GRELL 1993, p. 222-229; KANTOR 2004, p. 78; BERTELLI 1984, p. 223-234). Para alem dos beneditinos, outras ordens religiosas tambem contribuiam ao avanco da historiografia erudita, tais como oratorianos, agostinhos descalcos, dominicanos e jesuitas (especialmente, mas nao exclusivamente, na Franca) (FERRAO 1928, p. 10-12).

Entre os nomes tambem citados por Bloch como pertencentes a tradicao da critica historica (a que podemos nos referir tambem como critica/erudicao historico-filologica) estavam os do padre oratoriano Richard Simon (1638-1712), Pierre Bayle (1647-1706) e Baruch de Espinosa (1632-1677) (BLOCH 2001, p. 91). O trabalho de exegese de Simon, autor da Historia critica do Novo Testamento (1678), permitiu o surgimento de elementos para uma historicizacao da historia eclesiastica. Ja Bayle, autor do famoso Dicionario historico e critico (1697), propos a aplicacao da duvida cartesiana ao exame das evidencias historicas, procurando fundar um saber puramente humano no qual nao havia lugar para as explicacoes teocentricas (KANTOR 2004, p. 70, 73). Tornando a filosofia independente da religiao (a Revelacao nao poderia ser demonstrada pela razao), argumentou que ate mesmo um ateu poderia levar uma vida virtuosa (HAZARD 1948, p. 91).

Tambem no campo da erudicao e da exegese biblica (mais particularmente, no seio dos estudos hebraicos), Espinosa foi alem, estabelecendo, no capitulo VII do Tratado teologico-politico, "Da interpretacao da Escritura", o que seriam as regras para uma interpretacao verdadeira dos textos biblicos. Segundo ele, "para interpretar a Escritura e necessario elaborar a sua historia autentica e, depois, com base em dados e principios certos, deduzir dai como legitima consequencia o pensamento dos seus autores". Os tres procedimentos necessarios para a elaboracao dessa historia seriam: o conhecimento das linguas originais, a busca pelo verdadeiro sentido dos textos e a realizacao de uma "historia da Escritura" que contextualizasse os textos biblicos. Seguindo-se esse caminho, poder-se-ia examinar os sentidos de cada frase, levantar as ambiguidades e conhecer o seu sentido original (ESPINOSA 2003, p. 114-138). Tambem na obra Etica, Espinosa adotou uma postura no minimo cetica em relacao a religiao revelada, quando nao abertamente negadora das pretensoes a um conhecimento religioso (POPKIN 2000, p. 355). Para o filosofo holandes, "a natureza nao tem nenhum fim que lhe tenha sido prefixado" e "todas as causas finais nao passam de ficcoes humanas" (ESPINOSA 2008, p. 67), correspondendo a divindade basicamente a essa natureza.

Evidentemente, o metodo critico tinha raizes anteriores, bastando lembrar a denuncia da falsidade da Doacao de Constantino feita por Lorenzo Valla (1407-1457). Ja existia entre os humanistas do Renascimento a preocupacao em descobrir o sentido original de textos da Antiguidade, corrompidos na Idade Media, por meio do estudo das linguas originais, especialmente o latim e o grego. Paralelamente, o advento da Reforma Protestante tambem incentivou o processo de recuperacao dos sentidos originais dos livros biblicos, com o que se contestavam as doutrinas catolicas, em particular a tradicao dogmatica (que trata da "verdade revelada" por Deus, isto e, do dogma). O cisma cristao desferido por Lutero, Calvino e outros trazia consigo a preocupacao em relacao a um saber seguro, com catolicos e protestantes das diferentes congregacoes discutindo qual seria o melhor caminho para atingir esse saber seguro. Porem, quando chegamos ao seculo XVII, em particular com o espinosismo, atinge-se um extremo desse processo, questionando-se ate mesmo a veracidade da Biblia enquanto texto de inspiracao divina e a propria existencia de Deus.

Trata-se do que o historiador Paul Hazard denominou "crise da consciencia europeia", expressao criada para caracterizar o movimento de ideias entre 1680 e 1715 no qual "as nocoes mais comumente aceites, a do consenso universal que demonstrava Deus, a dos milagres, eram postas em duvida" (HAZARD 1948, p. 8). Ou seja, neste periodo, o advento de vertentes heterodoxas (materialistas, ceticas, deistas e/ou ateistas) teria acabado por trazer novos inimigos comuns a catolicos e protestantes. Essas vertentes muitas vezes a epoca se misturavam e eram referidas por designacoes comuns como "impias", "epicureus" ou simplesmente "ateistas", como veremos.

Mais recentemente, o tema voltou a ser debatido a partir da interpretacao do Iluminismo realizada pelo historiador Jonathan Israel, que na obra Radical Enlightenment (2001) afirmou que o inicio da "crise da consciencia europeia" teria se dado antes do proposto por Hazard, isto e, em 1650. A intencao de Israel era transformar em ator principal um personagem relativamente periferico na obra de Hazard: Espinosa. Para Israel, Espinosa foi uma especie de mentor e protagonista da tendencia radical que viria a caracterizar o Iluminismo, contestadora da veracidade da Biblia, da Igreja Catolica e das religioes em geral (ISRAEL 2001, p. 20). Ainda em vida, o filosofo holandes ja havia sido denominado por seus contemporaneos religiosos como "ateista"--seu pensamento se fundava na doutrina (materialista) da substancia unica, ou seja, corpo e alma, na qual materia e mente eram reduzidas a uma so substancia, reduzindo-se Deus basicamente a natureza (ISRAEL 2013, p. 15-16).

E importante destacar que, para Israel, o Iluminismo radical constituiu um fenomeno europeu, repercutindo entre as diversas nacoes europeias. Nos estados italianos, sobre os quais falaremos adiante por ter Verney la residido a partir de 1736, era muito comum a designacao "epicureus" para se referir aqueles a quem se atribuia relacao com o pensamento heterodoxo. Tratava-se de uma referencia ao filosofo antigo Epicuro (341 a.C-270 a.C), mas tambem era uma expressao usada para aludir a Lucrecio (99 a.C-55 a.C), sendo ambos compreendidos no seculo XVIII como filosofos hedonistas e "ateus". Israel aponta como exemplos importantes nomes da intelectualidade italiana setecentista, como Paolo Mattia Doria (1667-1746), que era por muitos descrito em Napoles como "espinosista" por crer na existencia de "uma unica substancia" (ISRAEL 2001, p. 670-674). Naquele mesmo contexto napolitano, Giambattista Vico (1668-1744) considerava Maquiavel, Locke e Espinosa como autores ligados a uma visao epicurista de mundo. Apesar da censura a Espinosa, o proprio Vico poderia ser visto como um autor ligado a tendencia radical, segundo Israel, ja que influencias do filosofo holandes poderiam ser encontradas no metodo criticofilosofico, na filosofia etica e na interacao proposta entre religiao e sociedade do sabio italiano (ISRAEL 2001, p. 664-670).

Em oposicao--e praticamente em resposta--a corrente radical do Iluminismo, Israel identificou uma corrente moderada, que nao foi tao a fundo nas criticas a religiao ou as evitou. Essa tendencia, que incluiria nomes como Isaac Newton (1642-1727) e John Locke (1632-1704), contestou a tradicao aristotelico-escolastica a partir dos novos avancos cientificos, mas sempre procurando conciliar as novas visoes de mundo com a autoridade das Sagradas Escrituras (ISRAEL 2001, p. 11-12). Relativamente a Portugal, Verney foi considerado o principal porta-voz dessa corrente, por sua assimilacao de ideias de Newton e Locke, e por seu posicionamento favoravel a censura que visava a afastar ideias tidas como perigosas (ISRAEL 2001, p. 115). Acerca desse ultimo aspecto, de fato Verney faz referencias positivas ao Santo Oficio, mas especialmente para se referir as punicoes empregadas aos judeus (VERNEY 1950a, p. 21). Ja em relacao a "ideias perigosas", as referencias no Verdadeiro metodo de estudar sao abundantes, como veremos.

Uma questao a ser levantada e que, como Verney mantinha-se afastado de Portugal havia uma decada, talvez as ideias contidas em sua obra refletissem mais o contexto intelectual italiano do que o portugues. A hipotese parece ser valida, dado que, na Italia, Verney adquiriu uma vasta quantidade de referencias que serviram de base para sua proposta pedagogica. No que diz respeito em particular ao metodo critico, naquele contexto vivenciava-se na Italia um renascimento dos estudos catolicos, em parte por influencia dos franceses. Como apontou o historiador Arnaldo Momigliano, entre 1690 e 1740, diante do ceticismo com que a historia era vista desde o Renascimento, bem como da critica historica protestante desenvolvida a partir do seculo XVI, os catolicos reagiram valendo-se dos estudos antiquarios (inscricoes, moedas, documentos arqueologicos) (MOMIGLIANO 2004, p. 106-109). O beneditino maurino Bernard de Mautfaucon (1655-1741)--discipulo de Mabillon--esteve na Italia no final do seculo XVII divulgando o metodo critico. Foi por meio de um discipulo deixado por Mautfaucon, o monge Benedetto Bacchini (1651-1721), que Ludovico Antonio Muratori (1672-1750) tomou gosto pela erudicao, iniciando a aprendizagem de rudimentos de paleografia. Bacchini o estimulou tambem a estudar linguas estrangeiras, tais como frances, espanhol e grego. Muratori ainda substituiu-o como bibliotecario do duque de Modena (MOMIGLIANO 1993, p. 240). Destaque-se ainda que entre o imenso epistolario de Muratori, encontram-se cartas trocadas com Mautfaucon e Mabillon (NEVEU 1994, p. 108).

Com base em seus estudos eruditos, Muratori pode tomar parte nas controversias com os protestantes. Padre secular, Muratori redigiu uma serie de obras que nos permitem identifica-lo como um historiador catolico e reformista. Posicionando-se contrariamente a livre interpretacao da Biblia, considerava que dogmas poderiam ser explicados em sua forma linguistica e interpretados pela razao, mas nao poderiam ter seu significado corrigido por um exame individual (MORAIS 2006, p. 12-14). Nesse sentido, apesar de sempre fazer uma pesquisa escrupulosa das fontes, quando se tratava dos fundamentos da religiao catolica, ainda valia o principio da autoridade, no que se assemelhava a Mabillon, seu principal modelo. Entre os correspondentes de Muratori estava Verney, como veremos.

Na terra natal de Verney, a critica era conhecida. Em 1720, num contexto em que a monarquia portuguesa buscava sua afirmacao em relacao as demais nacoes, durante as disputas geopoliticas que atravessavam a Europa, havia sido fundada a Academia Real da Historia Portuguesa. Criada por D. Joao V tanto com um proposito de defesa da nacionalidade portuguesa quanto com o intuito de que se escrevesse a Historia Eclesiastica de Portugal (KANTOR 2004, p. 45; CUNHA 2006, p. 13), seus membros entendiam a critica como a mais importante auxiliar da historia. Apesar de o academico Manuel Caetano de Sousa (1658-1734) ter considerado que ela so devesse aceitar como prova aquelas fontes autorizadas pela Igreja, outros notorios academicos defenderam que imperativos eclesiasticos e tradicoes religiosas nao deveriam limitar ou condicionar a busca da verdade historica, cujo criterio de certeza deveria ser a averiguacao da autenticidade dos documentos (CUNHA 2006, p. 29-34). Francisco Xavier de Meneses (o 4 Conde da Ericeira), que conhecia bem as discussoes em torno do metodo critico que envolveram Pierre Bayle e Mabillon, advogava pela necessidade de comprovacao documental para a escrita de biografias de santos e descricao de milagres (KANTOR 2004, p. 73). Tambem ai se tratava de combater o pirronismo historico, o que e particularmente perceptivel nos discursos do academico Jose da Cunha Brochado (1651-1733) (SILVEIRA 2013, p. 283).

Com Verney, a necessidade da prova para embasar argumentos, do ensino das linguas estrangeiras entre a mocidade, do conhecimento das linguas originais em que foram escritos os textos, alem de outros instrumentos do metodo critico, foi concebida como a chave de todo um programa de ensino, um novo "metodo de estudar" entendido como verdadeiro por oposicao ao metodo usado nos colegios e universidades da Companhia de Jesus. Essa seria a melhor maneira de formar uma geracao que defendesse mais satisfatoriamente a teologia dogmatica e a tradicao da Igreja Catolica perante o pensamento heterodoxo do seculo.

O Verdadeiro metodo de estudar em contexto

Quando da publicacao do Verdadeiro metodo de estudar (1746), Verney residia em Roma, para onde migrou em 1736, aparentemente insatisfeito com os caminhos do ensino em Portugal. Com os jesuitas, ele havia estudado no Colegio de Santo Antao, em Lisboa, e, posteriormente, na Universidade de Evora, onde, dedicando-se a filosofia, alcancou os graus de bacharel e licenciado em Artes. Na mesma universidade, iniciou o curso de Teologia, mas interrompeu-o para se dirigir as terras italianas, de onde nunca mais retornou--tendo possivelmente concluido o curso na Universidade de Roma. A polemica obra (algumas dezenas de folhetos criticos a Verney e em sua defesa circularam nos anos subsequentes a sua publicacao) foi, portanto, tambem fruto dos novos lacos que ele estabeleceu no novo ambiente intelectual em que viveu. Estamos ainda a alguns anos do reinado de D. Jose (1750-1777) e um pouco mais ainda da ascensao do futuro Marques de Pombal como ministro todo-poderoso, o que somente se efetivou apos o tragico terremoto de 1755.

Em Roma, Verney aparentemente manteve relacoes com a Corte portuguesa. Nos anos que precederam sua ida ao estrangeiro, as relacoes entre Portugal e a Santa Se haviam sido atribuladas, chegando-se ate mesmo ao corte das relacoes diplomaticas em 1728 (restabelecidas em 1732) (ALMEIDA 1995, p. 171). Depois disso, a politica romana de D. Joao V passou a perseguir a paridade diplomatica com a Santa Se, somente concretizada pela concessao do titulo de "rei fidelissimo" (1748) ao monarca e aos seus sucessores. Verney residia nas moradias do Hospicio de Santo Antonio dos Portugueses, em Roma. Afirma-se que teria sido de la expulso, mas readmitido por intervencao da Corte (ANDRADE 1965, p. 111-113). A nomeacao como arcediago de Evora, posto do qual tomou posse em 1742, auferiu-lhe rendimentos financeiros. Em 1744, o nome de Verney apareceu como colaborador da Arcadia Romana--academia literaria com a qual o proprio rei portugues contribuia -, tendo ele la recitado, sob o cognome Verenio Origiano, uma oracao pela saude de D. Joao V, que havia adoecido (HOLANDA 2000, p. 187-188). Ainda nos anos 1740, Verney possivelmente recebeu ordens menores, tendo ainda sido provido do habito da Ordem de Cristo (1749). Posteriormente, chegou a afirmar que recebera "ao principio particular ordem da Corte de iluminar a nossa nacao em tudo o que pudesse" (MONCADA 1941, p. 146), embora nao se saiba exatamente de quem, quando, nem o que lhe fora exatamente prometido. O certo e que Verney, alem de manter vinculos com instituicoes e personalidades de sua terra natal, estabeleceu contatos com importantes intelectuais italianos, com destaque para Muratori, com quem trocou correspondencias entre 1745 e 1749. (1) Foi exatamente durante esse periodo, em 1746, que Verney se dirigiu a Napoles para publicar o Verdadeiro metodo de estudar, obra que veio a luz sem sua autoria, mas assinada por um certo "Barbadinho". As quinze primeiras cartas que compoem a obra reivindicam esta renovacao do ensino em cada uma das areas do saber (linguas, gramatica, poesia, direito, medicina, etica, logica, metafisica, retorica, fisica e teologia). Para cada uma dessas areas, Verney aponta as razoes da deficiencia do ensino, nomeando as obras de autores mais pertinentes a serem discutidos pelos alunos portugueses. A 16a carta resume as anteriores.

Tambem na Cidade Eterna, Verney foi o postulador da causa de beatificacao de Bartolomeu do Quental (1626-1698), o fundador da Congregacao do Oratorio em Portugal. Ele havia estudado filosofia com os oratorianos antes de ingressar em Evora. Embora nao tenha sido membro da ordem, ele certamente foi influenciado por suas concepcoes de ensino. Como Antonio Salgado Jr. (editor da mais recente edicao completa) aponta no decorrer das cartas, muitos trechos do Verdadeiro metodo foram copiados das obras Entretiens sur les Sciences e La Rhetorique ou L'Art de Parler, do padre Bernard Lamy (1640-1715), ligado as ideias de Port-Royal, movimento proximo aos oratorianos que propunha reformas no seio do catolicismo. Por exemplo, recomendava que criancas deveriam aprender a lingua vernacula antes de estudarem o latim e o grego (DEJEAN, 2005, p.192-193), sugestao que consta das cartas 1a (Lingua portuguesa) e 4a (Grego e hebraico) (VERNEY 1949, p. 34, 272-273). (2) A justificativa para o estudo dessas linguas, assim como do latim (3a carta), e que seriam idiomas cujo conhecimento era necessario para o bom entendimento dos textos originais, especialmente os antigos, inclusive da Biblia. Outra afinidade com os oratorianos: valorizaram o estudo de historia, geografia e das ciencias, propondo um conhecimento pautado pela clareza, brevidade e utilidade.

A ideia de utilidade permeia tambem as cartas seguintes. A retorica (cartas 5a e 6a) e vista como uma aprendizagem util aos estudantes por fornecer elementos que lhes permitam convencer os adversarios em prol da verdade da religiao e vencer o debate. A poesia (carta 7a), ao contrario, nao necessita merecer maior atencao de alunos e deve ser reservada somente aqueles que revelarem maior aptidao. Os demais devem se preocupar com as questoes de maior utilidade. A filosofia e uma dessas questoes. Subdividida em quatro partes (logica, metafisica, fisica e etica), ela e definida como "conhecer as coisas pelas suas causas; ou conhecer a verdadeira causa das coisas" (VERNEY 1950b, p. 39). As duas primeiras, respectivamente apresentadas nas cartas 8a e 9a, sao praticamente diluidas nas duas subsequentes (10a e 11a). A medicina (carta 12a), concebida quase que como uma sequencia da fisica, e necessaria para a conservacao da saude, enquanto que o direito (13a) e compreendido como uma extensao da etica e voltado a uma reforma que tornasse as leis mais simples, breves e pautadas na "boa razao" (a 15a carta, sobre direito canonico, tambem e uma proposta de reforma). Para a elaboracao de toda essa proposta de reestruturacao curricular da educacao, o ambiente intelectual vivenciado na Italia certamente foi um estimulo. Foi la que Verney conheceu a maioria das obras cujas leituras sugere.

Para alem do ja mencionado ideario relacionado ao "Iluminismo radical", Verney conheceu na Italia um meio com maior abertura a filosofia moderna, particularmente as ideias de Descartes, Newton e Locke. Na Roma sob o papado de Bento XIV (1740-1758), o ensino da fisica experimental havia ganhado impulso, especialmente pela contribuicao de tres religiosos estrangeiros: o jesuita Boscovich (1711-1787), e os frades minimos Le Seur (1703-1770) e Jacquier (1711-1788). Os dois ultimos foram autores de uma traducao dos Principia de Newton, que chegou a ser mencionada por Verney. Jacquier foi tambem professor de fisica da Universidade de Roma, a Sapienza. Aquela altura, as obras de Newton ja se encontravam nas bibliotecas italianas (CASINI 1995, p. 222).

Verney manifesta preferencia pela "estrada modernissima" inaugurada por Newton, e estabelecida nas academias cientificas europeias (VERNEY 1950b, p. 201). A fisica e concebida como "a parte principal da Filosofia", sendo definida como "a ciencia que examina a natureza do Corpo e Espirito mediante os efeitos que conhecemos" (VERNEY 1950b, p. 207). Portanto, o filosofo, depois de fazer uma "verdadeira ideia dos Corpos", deve "examinar a [natureza] dos Espiritos" (VERNEY 1950b, p.238). O seu "principal empenho" deveria ser "examinar a existencia do espirito incriado, causa e principio de todas as coisas [...], pois este e o fundamento de toda a Filosofia e Religiao, e tudo se examina com a luz da boa razao" (VERNEY 1950b, p. 244). Isso significa que mesmo a existencia de Deus deveria ser objeto de um exame racional, tarefa a ser empreendida pelo fisico (filosofo). Em outras palavras, a filosofia natural (fisica) deveria se voltar tambem para o campo da religiao, e justamente para ajudar a provar a existencia da divindade catolica, cuja existencia estava sendo questionada. Nesse sentido, Verney defendia uma conciliacao da filosofia moderna com a teologia, que muitos a epoca entendiam nao ser possivel, de maneira a preservar a segunda.

Quando examinamos outros escritos temporalmente proximos ao Verdadeiro metodo, essa intencao fica clara. Na oracao lida em 1746 na Sapienza, intitulada De conjugenda lectissima Philosophia cum Theologia, Verney advogava pela uniao entre filosofia moderna e teologia como maneira de defender o dogma e a tradicao dos Santos Padres frente a epicuristas e hereticos em geral, como Lucrecio, Hobbes, Espinosa e Bayle. Os catolicos deveriam estar preparados para a batalha de ideias, e por isso sugere que conhecam as linguas orientais (grego, hebraico, siriaco, arabico, caldeu), a historia hebraica, a historia sacra e profana, os decretos de pontifices e concilios, a licao de padres gregos e latinos e ate mesmo a filosofia secular e as sentencas dos mesmos "hereges" (MARTINS 1962). Como mostrou Jose Vitorino de Pina Martins, esse mesmo raciocinio apareceria na carta que Verney remeteu em 1748 a D. Francisco de Paula de Portugal e Castro (1679-1749), o 2 Marques de Valenca, na qual comunicava seu plano de escrever uma grande obra teologica em doze volumes (nunca concretizada), em que discorreria sobre como essa conciliacao seria possivel. Para ele, as fontes peripateticas (escolasticas) deveriam ser abandonadas, e ate mesmo doutrinas de autores nao catolicos poderiam ser usadas no intuito de combater ateus, politeistas, deistas, hebreus e hereticos (MARTINS 1961).

O Verdadeiro metodo de estudar tem como ponto central, portanto, a proposta de uma renovacao do pensamento teologico em Portugal. Toda a estrutura da obra e composta para que se chegue ate a 14a carta (sobre teologia), que e o campo do saber que mais lhe interessava (boa parte da discussao teologica se encontrava nas cartas sobre etica, como dissemos). Verney propoe a adocao de uma teologia dogmatica (nao escolastica) passivel de ser harmonizada com certas tendencias da filosofia moderna. O autor postula a inutilidade das discussoes escolasticas para o que deveria ser o verdadeiro papel do cristao naquele momento: defender a religiao catolica justamente perante as vertentes filosoficas modernas mais radicais em termos politicos e religiosos.

A presenca da Companhia de Jesus na educacao portuguesa era assente numa rede de colegios e universidades, criada a partir do seculo XVI. Ate meados do seculo XVIII, os jesuitas exerciam um virtual monopolio do ensino de filosofia, rompido pelos cursos filosoficos dos oratorianos na primeira metade do Setecentos. O fundamento do ensino ministrado pelos inacianos era a escolastica, um corpo de doutrinas constituido pela uniao de elementos tirados do pensamento aristotelico com procedimentos da fe. No seculo XVIII, as criticas dirigidas a teologia jesuitica (inclusive da parte de Verney) acusavam a inutilidade das discussoes escolasticas, desenvolvidas em longos tratados nos quais nao se detinha no essencial da religiao: os dogmas e a tradicao dos Santos Padres. A isto se pode identificar uma tentativa de se estabelecer uma religiao pautada em bases mais racionais, isto e, com propositos mais claros e de forma mais breve, e de maneira a fazer a religiao chegar a um publico maior, o que era o proposito de Verney.

Sua concepcao teologica parte da ideia agostiniana do pecado original. Para ele, "o pecado de nosso primeiro pai nos trouxe por castigo sermos sujeitos ao engano", sendo por isso os homens "mais sujeitos a conhecer o mal" (VERNEY 1950b, p. 80). Porem, numa contestacao da tese espinosista da unica substancia, Verney afirma que o homem e formado por corpo e alma, sendo esta racional e, portanto, propensa a buscar a verdade. A separacao entre corpo e alma e uma contestacao da tese espinosista da unica substancia. Conhecer a verdade significa ser feliz, porem, a filosofia proporciona uma felicidade apenas incompleta, pois a "verdadeira felicidade" somente poderia ser adquirida por meio dos fundamentos da religiao, mostrados pela etica e pela teologia. Em outras palavras, pela filosofia (etica), conhece-se o que e o "sumo bem", mas apenas a teologia poderia proporcionar os meios necessarios, isto e, a religiao revelada ("Escritura") e os ensinamentos da Igreja ("Tradicao") para atingi-lo. Nesse sentido, a razao e a fe praticamente se confundiam. Ja vimos como a fisica tambem tem um papel teologico.

E justamente para defender essa concepcao de teologia que entra o metodo critico. Verney proclama a necessidade do conhecimento da historia de cada uma das areas do saber. Em seu "novo metodo", a historia e propedeutica e serve ao catolico como arma para que defenda sua religiao, ou seja, para provar a veracidade do catolicismo e afirmar a falsidade dos argumentos dos adversarios.

A critica historica como arma da religiao

O impacto causado pelo novo ambiente intelectual--em particular pela critica--em suas ideias e relatado pelo proprio Verney:

Quando eu era rapaz e somente conhecia os autores por sobrescrito, considerava mais felizes e doutos aqueles homens que possuiam mais livros do que os que tinham menos [...]. Mas, depois que me familiarizei com aqueles mortos; que revolvi muitas e grandes livrarias; que consultei homens doutissimos; que li atentamente os Criticos; e, finalmente, que tomei o trabalho de examinar, com meus proprios olhos, o merecimento de muitas das ditas obras, transformei-me neste particular, e formo tao diferente conceito do mundo, que, se explicasse tudo o que entendo, nao conservaria tao boa correspondencia com tanta gente (VERNEY 1950b, p. 140-141).

Portanto, Verney aponta que a critica o ajudou a refazer sua visao de mundo e o juizo que tinha sobre os autores. Um bom autor e aquele que sabe fazer bom uso de seus procedimentos.

Em carta remetida a Verney a 26 de abril de 1745, Muratori afirma ter lido o primeiro volume da Academia Real da Historia Portuguesa (ate sua extincao foram publicados quinze) e lamenta que nao encontrou nele "uma critica mais sa", ja que os estudos ainda nao tinham sido "suficientemente expurgados da ferrugem das epocas barbaras" (MONCADA 1950, p. 256). Na carta em resposta, Verney concorda com a afirmacao, acusando o peripatismo (aristotelismo) de seus membros como responsavel por essa ma qualidade da critica, uma vez que eles estariam imbuidos por uma filosofia que "se preocupa so com bagatelas e cavilacoes" (MONCADA 1950, p. 259). Ainda assim, afirma que tambem existem bons eruditos entre os academicos, que, no entanto, sao "obrigados a ocultar o que sentem".

No Verdadeiro metodo de estudar, tambem ha uma mencao a um dos membros da Academia Real. Verney afirma que Manuel Caetano de Sousa, apesar de "douto", nao pode ser comparado aos "grandes homens" de "uma critica mais purgada" da Europa, entre os quais lista Mabillon (VERNEY 1950a, p. 126-128). Caetano de Sousa havia escrito uma defesa da antiga ideia de evangelizacao da Hispania pelo apostolo Tiago na obra Expeditio Hispanica S. Jacobi Maioris Asserta (1732), o que desagradou Verney. Sendo assim, o Barbadinho pode ser inserido na tradicao voltada a critica dos "falsos cronicoes" medievais, que a epoca vinham sendo postos em duvida ou negados. O catolicismo deveria ser defendido por meio da razao, e, nesse sentido, deveria ser "purificado" de determinadas "crendices" que o desqualificavam perante uma elite intelectual ilustrada. Nesse processo de racionalizacao da religiao, tambem a teologia deveria ser purificada, abandonando-se a vertente escolastica em prol da dogmatica.

Em cada uma das cartas do Verdadeiro metodo, Verney traca uma historia dos saberes sobre os quais discorre, de forma a mostrar como eles chegaram ao estado de decadencia. Com o intuito de responsabilizar os jesuitas pelo atraso, couberam elogios ate mesmo aos protestantes na historia que teceu da teologia. Depois de narrar a historia do que seria a decadencia da teologia provocada pelo advento da Escolastica, Verney afirma que nao estavam Lutero, Calvino e "outros modernos" completamente errados em suas proposicoes, dado que mostraram terem os catolicos se apartado "do verdadeiro metodo da Teologia", pois "falavam muito, mas nao sabiam nada de Teologia" (VERNEY 1952, p. 248-249). Fica clara uma preferencia pela Teologia dogmatica, tal como apregoada pelos Santos Padres do inicio da era crista, cuja autoridade defende constantemente. O problema dos "hereges", segundo Verney, e que atacaram o fundamento da doutrina crista, mas "se tudo o que dizem os Hereges fosse contrario aos nossos dogmas, seriam Idolatras ou Ateus, e nao Hereges, quero dizer, Cristaos. Nao e o metodo o que se condena nos Hereges; e a ma interpretacao" (VERNEY 1952, p. 231).

Eis que temos ai colocado o problema da verdadeira interpretacao dos textos, o que nos leva ao metodo critico. Teriam sido os protestantes os que abriram os olhos dos catolicos da Republica das Letras para a busca de um "novo metodo" hermeneutico. Para Verney, a partir do seculo XVII, o metodo critico se consolidou:

A Critica, que entao nasceu, ou renasceu, e se aumentou, abriu os olhos ao Mundo Literario para se adiantar nas Ciencias. Nesta era, nao basta que um homem afirme uma coisa; e necessario que a prove e mostre que os monumentos de que tira as suas provas sao livres de toda a corrupcao. Antigamente, citavam um texto de Sto. Agostinho e, sem outro exame, o admitiram; hoje nao basta isso, mas a Critica da um passo adiante, e examina se o texto e verdadeiro, ou suposto; e, ainda admitido isso, examina-se qual foi o intento do Santo, com os socorros tirados da Historia. O grande desejo que tinham os doutos de gozar as obras dos SS. PP. puras fez que revolvessem os arquivos, conferissem os manuscritos, e, com perfeita critica, os examinassem (VERNEY 1952, p. 266).

Esta claro, portanto, o sentido da critica relacionado a uma purificacao da teologia. Ele esta consciente de que essa renovacao dos estudos catolicos se deve em grande parte a atividade dos beneditinos maurinos. Ele chega a comparar o trabalho dos "Benetidinos de S. Mauro" (VERNEY 1952, p. 241) aos escritos de Santo Agostinho, do papa Leao Magno e do padre oratoriano Pasquier Quesnel (1634-1719), jansenista cujas proposicoes chegaram a ser condenadas pelo papa Clemente XI (1700-1701). Em outro momento, Antoine Augustin Calmet (1672-1757)--beneditino, mas da Saint-Vanne (Verdun)--, autor da Historia do Antigo e Novo Testamento e dos judeus, e relacionado como "o melhor comentador literal [da Biblia] que ate aqui tem aparecido" (VERNEY 1950b, p. 230). Ha mencao ate mesmo a Pierre Bayle, cujo nome e arrolado juntamente ao de outros modernos (Malebranche, Descartes, Galilei, Gassendi, Newton e outros) para acusar os portugueses de ignorantes por nao os conhecerem (VERNEY 1950b, p. 9). Lembremos que mesmo jesuitas de outras nacoes ja haviam abracado regras da erudicao nos seculos XVII e XVIII (FERRAO 1928, p. 11), o que supostamente nao havia sucedido em Portugal.

O problema era, portanto, que mesmo autores nao catolicos seriam detentores de conhecimentos, tanto filosoficos e cientificos quanto teologicos, que os portugueses supostamente desconheciam. No campo da teologia, os catolicos portugueses deveriam aprender inclusive com os "hereges", que, como vimos, nao estariam de todo errados. De certa forma, seriam ate superiores aos jesuitas, pois nao escolasticos e bons conhecedores da Biblia. Mas por nao crerem na tradicao da Igreja (dogmas, concilios, ensinamentos dos Santos Padres), estariam errados. O fundamental e que esses mesmos conhecimentos se mostravam muito uteis para refutar o que seria uma ameaca maior do que a existencia de religiosos de outras denominacoes: aqueles que negavam os fundamentos da religiao crista (e, quica, de todas as religioes).

Sao varios os momentos em que Verney se refere a autores considerados heterodoxos, em particular aos que denomina "ateistas". Na carta sobre etica, o nome de Espinosa aparece como uma ameaca a religiao catolica. Verney arrola uma relacao de autores "impios", cujas obras seriam "nocivas", situando o filosofo holandes ao lado de Thomas Hobbes (1588-1679), Locke (aqui provavelmente em funcao de seus escritos politicos), Emanuele Tesauro (1592-1675), Jean Barbeirac (1674-1744) e Nicolau Maquiavel (1469-1527). Embora reconheca que esses autores "tem muita coisa boa", "nao servem senao para homens feitos e bem fundados nos principios da Religiao Catolica, que os podem ler sem perigo e deles tirar o que e util" (VERNEY 1950b, p. 298). Ou seja, a leitura de um desses autores constituiria um perigo ao jovem estudante catolico, que correria o risco de se "contaminar" pelas doutrinas de pensadores anticatolicos, caso nao estivesse preparado. A Etica de Espinosa e apontada como uma obra "impia", pois "tira a liberdade ao Homem e confunde o Homem com Deus, e tudo isto debaixo de belissimas expressoes que podem enganar qualquer" (VERNEY 1950b, p. 297).

Nao ha como saber se a Etica--ou outro escrito de Espinosa--foi mesmo lida por Verney, ou por qual meio formou esse juizo. Importa mesmo e o sentido com que o nome do filosofo holandes aparece no Verdadeiro metodo. Os indicios que fornecemos sobre o "Iluminismo radical" no contexto intelectual italiano e as referencias apresentadas por Verney nos permitem afirmar que Espinosa era compreendido como o principal nome entre os designados como "ateistas". Afinal, o Barbadinho nao poderia aceitar que a Biblia fosse entendida apenas como um texto historico, sem inspiracao divina. Ambos valorizavam o conhecimento historico e assinalavam a necessidade do conhecimento das linguas originais e antigas (grego, hebraico e latim) em que os textos biblicos foram escritos para a efetivacao de um procedimento hermeneutico mais apropriado, mas para o portugues as escrituras e a tradicao catolica representavam um limite cuja transposicao seria intoleravel.

As verdades da religiao sao incontestaveis para Verney, muito embora, em funcao das duvidas que vinham sendo levantadas naquele contexto, elas mesmas devessem ser provadas. Deve-se "provar estas verdades reveladas" para "nos certificarmos da verdade da nossa religiao e reconhecermos que devemos crer com toda a seguranca os nossos Dogmas", e, alem disso, para "taparmos a boca aos Infieis e Hereges, que negam, ou duvidam, de alguma delas" (VERNEY 1952, p. 281-282)--afirmacao que deixa clara a sua intencao de estabelecer um metodo util para a defesa do catolicismo. A existencia de Deus deveria ser tomada como um pressuposto. Mas, infelizmente, era necessario prova-la, ja que este ponto

foi sempre, e ainda por nossos pecados e, debatido entre alguns Filosofos; pois em todos os seculos se acham homens que procuraram obscurecer esta verdade; e ainda no passado houveram [sic] alguns engenhos sublimes que escreveram largamente contra esta materia, e arrastaram muitos para a sua parte (VERNEY 1950b, p. 244-245).

Provavelmente, Verney estava pensando especificamente em Espinosa ao referir-se a "alguns Filosofos". O que e curioso e que ele parecia nao estar encontrando facilidade para levantar as tais provas: "Devo dizer a V. P. que, ainda que esta verdade seja tao clara, contudo ainda ate aqui nao se acharam provas que a pusessem longe de toda a objeccao e tapassem a boca dos Ateistas" (VERNEY 1950b, p. 245).

Conclusoes

Uma vez que, quando publicou o Verdadeiro metodo de estudar, Verney achava-se longe de Portugal havia dez anos, pode-se concluir que a obra diz mais sobre o contexto intelectual italiano do que do portugues. Todavia, as referencias que conheceu no exterior sao usadas para propor uma ampla reforma no ensino em Portugal. Pode-se supor que tinha o temor de que sua terra natal pudesse passar pelo mesmo "perigo" que vivenciava em Roma, isto e, a possibilidade de que la se difundissem as ideias "impias" e "ateistas" das vertentes radicais do Iluminismo. Seja como for, esta mais do que clara sua insatisfacao em relacao ao ensino ministrado pela Companhia de Jesus, assim como seu encantamento pela filosofia moderna, que possivelmente pouco conheceu antes de partir. Se o juizo que fez do ensino inaciano portugues se desenvolveu antes ou depois de chegar a Roma (ou as duas alternativas) e algo que nao se pode desvendar. Mas se la ja chegou com alguma insatisfacao, a vivencia no novo ambiente certamente reforcou o que trouxe consigo.

A proposta de Verney deve ser compreendida dentro do quadro das iniciativas de renovacao dos estudos catolicos ja vivenciadas na Franca, na Italia e em Portugal (em particular na Academia Real da Historia Portuguesa). O metodo critico apregoado por Mabillon, Muratori e Verney estava relacionado a disputa entre catolicos, protestantes, pirronicos e o "Iluminismo radical". Como Jonathan Israel demonstrou, havia forte presenca do pensamento "espinosiano" na Italia em que Verney viveu; da mesma maneira estava presente no Verdadeiro metodo de estudar, bem como em outros escritos seus dos anos 1740--ainda que, na pratica, encontrasse dificuldades para cumprir a tarefa de combate-los pela comprovacao das verdades da religiao por meio do metodo critico. As referencias a Espinosa e a autores "ateus" e "impios" sao uma constante na obra. Da mesma forma, por todas as dezesseis cartas que a compoem, o autor adotou uma linguagem que o tempo todo coloca a discussao em termos de vencer intelectualmente o debate. Na carta sobre teologia, afirma que a "doutrina revelada" deve ser defendida "contra todos os inimigos" (VERNEY 1952, p. 284-285), numa expressao que sintetiza bem o sentido da obra. Os jesuitas sao tomados como adversarios tambem, mas principalmente por estarem supostamente desconectados com as principais linhas de pensamento modernas, nao podendo, assim, defender satisfatoriamente a religiao.

A teologia de Verney se apresentava em bases racionais, nao se tratando de um discurso edificante, com abertura para milagres e discussoes metafisicas. Constituindo-se como uma proposta aberta a chamada ciencia moderna, nela a religiao e defendida dentro do campo da razao. Nesse sentido, podemos dizer que se trata de uma reflexao tipicamente iluminista, podendo Verney ser compreendido dentro dos quadros do Iluminismo catolico (MONCADA 1941). Trata-se de um discurso que, em cada um dos campos do saber, sempre remonta aos primeiros seculos da era crista, relatando uma historia cuja decadencia se inicia com o advento da escolastica, na Idade Media. A modernidade esta associada a renovacao dos estudos e das concepcoes efetuados no Renascimento, constituindo o seculo XVIII, de Mabillon, Newton, Locke e tantos outros citados por ele, o momento do apice do progresso do conhecimento. A permanencia em Portugal de um ensino em que predominava a escolastica no seculo XVIII se tornou a sua maior preocupacao, e o "metodo" a que refere o titulo da obra corresponde tanto ao metodo critico quanto ao empirico-experimental.

As reformas pombalinas da educacao vieram a instituir na Universidade de Coimbra um ensino amparado na experiencia e na razao, concretizando-se, nesse particular, a proposta de Verney. Essa e uma historia contada por muitos livros. Ha, porem, certamente uma historia da critica na segunda metade do seculo XVIII em Portugal, inclusive relacionada as reformas (FERRAO 1928, p. 29-32; SILVA 2010, p. 22-89). Trata-se de um assunto com menos referencias na historiografia, mas que tambem envolve uma dimensao fundamental do pensamento de Verney.

doi: 10.15848/hh.v0i17.774

Recebido em: 1/5/2014

Aprovado em: 7/8/2014

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Breno Ferraz Leal Ferreira

brenoferreira@usp.br

Doutorando

Universidade de Sao Paulo

Av. Prof. Lineu Prestes, 338--Cidade Universitaria

05508-900--Sao Paulo--SP

Brasil

* Este artigo e resultado de dissertacao de mestrado defendida no Programa de Historia Social da FFLCH-USP em 2009. A dissertacao contou com orientacao da Profa Dra. Iris Kantor, a quem muito agradecemos. Atualmente o autor e bolsista CAPES.

(1) Entre as obras mais importantes que escreveu a partir dos anos 1750, estavam suas obras filosoficas Apparatus ad Philosophiam et Theologiam e De Re Logica (1751), De Re Metaphysica (1753) e De Re Physica (1765). No momento em que foi publicada esta, Verney havia sido forcado a sair de Roma (1760) e estava residindo em Pisa, devido ao corte das relacoes entre Portugal e a Santa Se, causado pela expulsao dos jesuitas. Uma incompatibilidade com o ministro plenipotenciario de Portugal em Roma, Francisco de Almada e Mendonca, levou-o a prisao e, em seguida, ao desterro dos Estados Pontificios (1771). A partir dai viveu em Sao Miniato, somente retornando a Roma em 1781, onde morreu em 1792. Antes, porem, havia sido eleito socio correspondente da Academia das Ciencias de Lisboa (1780) e nomeado por D. Maria deputado honorario do Tribunal da Mesa de Consciencia e Ordens (1790).

(2) Tambem opositores dos jesuitas e proximos aos oratorianos, os jansenistas muitas vezes adotaram posturas regalistas e galicanas que viriam a influenciar as reformas pombalinas. Entre as fontes lidas que contribuiram para a divulgacao de tais ideias em Portugal, pode-se destacar o Catecismo de Montpellier, de Francois-Aime Pouget. Os jansenistas apregoavam uma liturgia mais autentica, e, por isso, eram mais adeptos do uso das linguas nacionais como parte do metodo de ensino--como propos Verney (VAZ 1988).
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Ferraz Leal Ferreira, Breno
Publication:Historia da Historiografia
Article Type:Ensayo critico
Date:Apr 1, 2015
Words:9054
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