Printer Friendly

Adel Souki: contaminations between clay and fire/Adel Souki: contaminacoes entre o barro e o fogo.

Introducao

A aproximacao com a obra da artista mineira Adel Souki e tambem uma maneira de acessar sua trajetoria, seus caminhos de vida, amalgamados com diferentes argilas, processos de queimas e suas conversacoes mundo afora. O barro com o qual trabalha esta sempre impregnado com suas historias e o seu tempo, num constante exercicio do enfrentamento de si mesma. Nascida em 1940, em Divinopolis, no interior de Minas Gerais, cresceu entre livros, mas tambem brincando de fazer panelas com barro molhado. Adel se graduou inicialmente em Letras e, ainda professora de ingles da educacao basica, comecou a estudar arte e a trabalhar com argilas, se formando no curso de Artes Plasticas da Escola Guignard, onde conheceu Amilcar de Castro que, entre outras coisas lhe ensinou "que o belo e o que e verdeiro e que o original era buscar sua propria origem" (Souki: 2007:13).

Entre oficinas, cursos e exposicoes, a aproximacao com a artista japonesa Toshiko Ishii foi um momento especial. Alem da preparacao da argila e do contato com a queima no forno Anagama--de tradicao japonesa--, passou a perceber melhor o tempo, a necessidade de certo vagar para compreensao/apreensao dos seus modos de fazer. Modos de fazer cada vez mais plurais, contaminados tambem por suas incansaveis viagens para ensinar/aprender mais sobre o barro e queimas, passando por pequenas comunidades no interior de Minas Gerais a grandes centros cosmopolitas, como Nova Iorque. Nessas andancas, em um curso no interior da Franca, conheceu o ceramista estadunidense Landry Deese, que aceitou o seu convite para construir um forno Anagama em seu atelie, em um sitio vizinho ao de Toshiko, em Palhano, em Brumadinho, na regiao metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais. A primeira queima foi em novembro de 1998, durante quatro dias e quatro noites. O forno, seguindo os costumes japoneses, deveria ter um nome e, como conta Adel a ideia veio de Deese, que, todas as manhas percebia as terras de diferentes cores, remexidas, proximo ao local onde forno estava sendo construido. Era os rastros de um Tatu, animal que acabou dando nome ao forno.. "Meu anagama se chama Tatu, pela poesia do Landry, pela forma do forno e pelas terras coloridas espalhadas durante a noite", sintetiza a artista (Souki, 2007:28).

1. Incorporacoes

Desde entao, comecou a se esbocar no espaco de trabalho de Adel o que hoje e uma obra em processo ad infinitum de criacao. O entorno do forno (Figura 1) foi, aos poucos, compondo um ambiente que, paradoxalmente esconde e deixa pistas do que acontece nas pesquisas da artista. Ficam por ali vestigios do que ja foi, do que pode vir a ser e do que deve ficar em suspensao. O espaco nao e tao amplo, mas permite desvios e convida a devires que o torna gigante, em condicao de nos diminuir diante de sua capacidade de, quase imperceptivelmente, virar mundo, tensionando e refazendo caminhos de vida tao singulares e multiplos, a ponto de poderem ser apropriados por quem se deixar levar ou esgarcados pela teimosia da resistencia. Resistencia que, para Dewey (2010:265) e propulsora da criacao, como processo de costura, de disponibilidade para se perceber os ruidos e vislumbrar possiveis caminhos a serem trilhados.

No espaco, fragmentos de experiencias passadas se embaralham, sobrepondo, em alternancia aparentemente aleatoria, resquicios de investidas de transformacao e de intervalos aparentemente estereis, revelando percursos e processos em que a artista se defronta com ela mesma, como se embrenhasse na vida para entender a morte ou na morte para entender a vida. Por ali ha sinais de tudo isso, de buscas que se delineam entre o bater e o amassar o barro, juntar cacos, encobrir, escavar e levar ao limite possivel o megulho/enfrentamento com a materia, ora bruta, pesada, persistente, ora decantada, quase volatil, efemera.Com engobes, esmaltes e outros tantos recursos que nao cessam de combinar, numa investigacao constante, curiosa e cuidadosa.

2. Atelie/Instalacao

Estar nesse espaco e uma oportunidade de vivenciar o que Canclini (2016:124) associa as "operacoes metaforicas da arte", que para ele "sao multiplas, instaveis, viajam e, as vezes, so conseguem dizer o que nao encontraram. Ficam na iminencia". E nesse anuncio do que nao pode ser dito (Canclini, 2026:101), os momentos de encontro, experimentacoes e de partilhas em torno do barro e do fogo, diluem as marcas que o definiram como um atelie, lugar onde, tradicionalmente, se percebe "a figura do artista protegida dos confrontos externos" (Lagnado:2009). Os recorrentes tempos de encontros de artistas, amigos ou simplesmente curiosos/visitantes, as rodas de conversas e as queimas fazem emergir provocacoes e escancarar que nao ha como--e tao pouco motivo--para escapar das tensoes e dos seus fluxos, que nao sao daqui ou dali, mas da existencia.

A assuncao desse estado de desinterdicao tambem traz pistas para o seu deslocamento como obra, como instalacao artistica, percebida por Bishop (2005 apud Sotabe 2008:1985) quando "o espaco e o conjunto de elementos dentro desse espaco sao vistos totalmente como uma entidade unica."

Nessa mesma perspectiva e diante de sua permanente reconfiguracao (Figura 2, 3, Figura 4 e Figura 5), o Atelie / Instalacao de Souki se afirma tambem a partir da definicao proposta por Brites e Goncalves (2017), para quem, na instalacao

acontece a vivencia estetica, atraves da participacao mais efetiva: e pressuposto que o visitante nao seja mais um espectador, mas sim um participante que interajacom o projeto proposto pelo artista. Tem lugar um processo intersubjetivo entre o artista e o espectador que passa a ser um participante. O receptor absorve a informacao em circunstancia experimental. Ativa suas intuicoes, sua imaginacao, sua identidade. Em ambos os casos, cria-se uma situacao para a cognicao estetica (Brites e Goncalves, 2017: 21).

3. Performances da materia

As queimas, que acontecem em fogueiras, fornos de papel, a gas, eletrico e no Tatu, sao momentos performativos que reverberam por todos os cantos, ampliando suas dimensoes pelo espaco imensuravel. Mas, mais especificamente nos momentos de queima no Anagama, entram em cena o que se pode chamar de performances da materia, os sons do fogo, das chamas percorrendo as pecas no interior do forno, a fumaca, em diferentes densidades e tonalidades, anunciam sutilezas quase imperceptiveis. O espaco ganha novas densidades, propiciando experiencias esteticas unicas a cada conformacao, que se molda tambem pelas pessoas que passam por ali, como de diferentes partes do Brasil, da Alemanha, do Japao ou dos Estados Unidos. Um grupo indigena, das etnias Xacriaba e Pataxo, por exemplo, participou de uma das queimas (Figura 6), provocando deslocamentos e operacoes esteticas que transfiguraram radicalmente a proposicao da artista, agregando potencias ao espaco artistico de carater aberto e participativo.

Enfim, o Atelie/Instalacao se configura estetica e poeticamente como uma plataforma para pensar e criar, afetando quem se dispoe a visita-lo e a se amalgamar entre suas provocacoes sensiveis que emergem em seus cantos. Ha, para a artista, momentos de silencios, de pesquisas individuais, solitarios, atravessados por encontros polifonicos, entre multiplas narrativas, que se compoem e se recompoem com sons, cores, formas, cheiros, sabores e texturas, entre o torno, o fogo, os livros, as pessoas, as conversas, os ruidos. Nessa sua obra, aberta a visitacoes--e que reverbera em boa parte da sua producao que sai dali para outros espacos--, se cruzam caminhos esquecidos e anunciados, rastros e esbocos da 'concretude' instaurada pelo que Adel chama de rituais, rituais dos quais se vale para tentar compreender a vida. Em outras palavras, nao sucumbindo ao que nos escancara como impossibilidade.

2. Mil Moradas e Uma

Desse trabalho cotidiano, em dialogo com percursos por outros espacos, Adel Souki construiu outra instalacao: Mil Moradas e Uma (Figura 7). O que arrebatou a artista foi a ideia de infinito, que ela encontrou na palestra de Borges sobre a as historias inventadas e reunidas em diversas versoes e edicoes e conhecidas como "As Mil e Uma Noites". A beleza deste nome encantou Borges, para quem Mil e quase sinonimo de infinito e "Mil e Uma" e ir alem do infinito. Ainda segundo o escritor argentino, os arabes dizem que ninguem pode ler "As Mil e Uma Noites" ate o fim. Nao por tedio, mas porque se sente que o livro e infinito. O que encantou Borges, envolveu Adel, que tambem percorreu nesse trabalho caminhos da sua origem arabe. Sua mae era brasileira, e seu pai libanes, que se mudou para o Brasil em 1923.

Elaboradas com diferentes argilas, que desvelam materias diversas, as Moradas se apresentam a partir de Mil e Uma maos, infinitas ideias. Sao moradas imaginadas, sonhadas, vividas e construidas por criancas e jovens da cidade, da periferia e da zona rural, apresentadas em meio aos burburinhos das vozes de quem as ajudou a fazer. O trabalho foi construido aos poucos, envolvendo muita gente, muitas queimas e muitos aprendizados. E, no processo, as falas e vozes das criancas e jovens foram gravadas para, na apresentacao do trabalho, se mantenham ativas.

Conclusao

A oportunidade de me aproximar ainda mais das obras de Adel Souki com a proposta de refletir e partilhar percursos atravessados, intercalados, mas bastantes distintos, se configurou como um exercicio de construcao de uma cartografia poetica, buscando pistas nos processos de producao e uma disposicao para agucar a atencao para alem da informacao. O desejo, desde o inicio, era o de nao manter qualquer tipo de distancia ou neutralidade. Pelo contrario, assumir contaminacoes e radicaliza-las com apropriacoes (consentidas ou nao) buscando nessa conversa, energias e compreensoes, muitas ainda em suspenso, ate porque nao sao traduziveis em palavras e escapam, como apontando para um caminho ainda nao vislumbrado. Ou como disse Thoureau:

Que sera que as vezes tanto nos dificulta determinar o destino a dar aos nossos passos? Creio na existencia de um magnetismo sutil na natureza o qual, se cedermos inconscientemente, nos levara ao caminho acertado. Nao nos e indiferente seguir este ou aquele caminho. Ha o caminho certo, mas a negligencia e a estupidez muito nos sujeitam a seguir o caminho errado. Muito gostariamos de dar aquele passeio que ainda nao encetamos neste mundo real e que simboliza perfeitamente o atalho que adorariamos percorrer no mundo interior e ideal; e as vezes, nao ha duvida, temos dificuldade em escolher a nossa direcao, por nao a termos discernido bem em nosso pensamento (Thoreau, 1950:15-6).

Mas, nao ha pressa. Assim ensinou Toshiko a Adel. Ha sim, muito o que se aprender, a perceber, assumindo nossa incompletude e uma disposicao para novas escutas, novas percepcoes, novas perguntas. Diante de sua vasta producao, que vai alem do barro, percorrendo fotografias e ate mesmo os bordados, entre momentos de dispersao--vislumbrando amplitudes--e de concentracao --perseguindo detalhes--o desafio de dialogar com uma ou duas obras, me conduziu ao seu atelie como uma instalacao rizoma, que afeta e se deixa afetar por tudo o mais que ela elabora, produz, incessantemente, em seu estado permanente de pesquisa/aprendizado. Aprendizado que compartilha sem parcimonia e que nos provoca a querer mais, saber mais, investigarr mais, imersos tambem no barro, no fogo e em afetos. Nao por acaso, atua tambem como uma das coordenadoras do grupo de pesquisa multidisciplinar Cultura do Barro.

Nesses lugares, onde estao outras obras em construcao, os seus generosos cadernos de anotacoes de cada queima no Anagama e de todos os projetos e ideias realizados ou por realizar, ha um encontro com a arte, com a nossa humanidade, com todas suas contradicoes e tensoes. Nao ha como ficar ilesa. Como na propria existencia, nao ha sinais de apaziguamento, apenas intervalos, suspiros. Ha encontros e conflitos, enigmas e insinuacoes de possiveis revelacoes do que nao tem como ser dito, mas que e o que, de fato, interessa. Ad infinitum.

Referencias

Borges, Jorge Luis (1987). Sete Noites. Sao Paulo: Editora Max Limonad Ltda., ISBN: 978-85-35918-83-0 (p.69 a 88)

Brites, Blanca e Goncalves, Lisbeth Rebollo (2016). "reflexoes sobre a exposicao de arte e museu". Para pensar a arte : seus espacos e/em nosso tempo. Santa Maria : ANPAP : UFSM, PPGART : UFRGS, PPGAV. 221 pp. ISBN: 978-85-93462-01-6 [Consult: 2018-10-12]

Canclini, Nestor Garcia (2016). A Sociedade sem Relato: Antropologia e Estetica da Iminencia. Sao Paulo: Edusp, 2016. ISBN 978-85-314-1369-8

Dewey, John (2012). Arte como Experiencia. Sao Paulo: Martins Fontes. ISBN 978-8561635-54-1

Sampaio, Marcio e Souki, Adel (Orgs.) (2007) Adel Souki--Depoimento. Colecao Circuito Atelier--Belo Horizonte: C/Arte. ISBN 978-85-7654-052-6.

Sogabe, Milton (2008). "O espaco das instalacoes: objeto, imagem e publico". Anais do 17o Encontro Nacional da Assossiacao Nacional de Pesquisadores em Artes Plasticas, Florianopolis ISBN 97885-61136-07-917 [Consul: 2018-09-08] 2008. Disponivel em URL: http://www.anpap.org.br/anais/2008/artigos/180.pdf

Souki, Adel (2015). "An anagama in the brazilian countryside". The Log Book: International Wood-fired Ceramics publication--Republic of Ireland. ISSN 1470-1812

Thoreau, Henry David (1950). Andar a pe. Rio de Janeiro: Dominio Publico. [Consult: 05-04-2016] Disponivel em URL: http:// www.ebooksbrasil.org/adobeebook/andarape.pdf.

JULIANA GOUTHIER MACEDO *

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Brasil, artista visual.

AFILIACAO: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Escola de Belas Artes, Departamento de Artes Plasticas. Avenida Antonio Carlos, 6627--Pampulha, Belo Horizonte--MG, 31270-901, Brasil. E-mail: juliana.gouthier@gmail.com

Caption: Figura 1 * Forno Anagama--detalhe.

Caption: Figura 2 * Adel Souki. Atelie/ Instalacao.

Caption: Figura 3 * Adel Souki. Atelie/Instalacao.

Caption: Figura 4 * Adel Souki. Atelie/ Instalacao.

Caption: Figura 5 * Adel Souki. Atelie/Instalacao.

Caption: Figura 6 * India Xacriaba participando da queima no Anagama, de Adel Souki.

Caption: Figura 7 * Adel Souki. Detalhe da instalacao Mil Moradas e Uma
COPYRIGHT 2019 Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2019 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:2. Original articles/Artigos originais
Author:Macedo, Juliana Gouthier
Publication:CROMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2233
Previous Article:"Mural. To undulate and intrigue. How?" Gordon Cullen mural at Greenside Primary School, London, 1952-53/"Para ondular e intrigar. Como?": Gordon...
Next Article:Maria Canas: multidisciplinary artist, icon looter and generator of "glocal" stories (global + local)/Maria Canas: artista multidisciplinar,...

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters