Printer Friendly

Acoustic experimental study of consonant cluster acquisition: data from a child/Estudo acustico experimental da aquisicao de onset complexo: dados de uma crianca.

Introducao

Quando pensamos em aquisicao fonologica da lingua, compreendemo-la enquanto decurso que ocorre de forma paulatina e flexivel. Gradualmente, a medida que a crianca vai se apropriando dos padroes segmentais e silabicos, mais apta ela se encontra a produzir as palavras de sua lingua.

Segundo Ribas (2004), a aquisicao do onset complexo no portugues brasileiro (PB) se constitui como a ultima estrutura silabica a ser estabilizada no inventario fonologico da crianca, decorrendo, em geral, aos cinco anos de idade. Com esse foco, o intuito central deste estudo (1) e observar o comportamento acustico de silabas CCV produzidas por uma crianca de quatro anos e meio, do sexo masculino, falante monolingue do PB, sem alteracoes na fala e tendo ja adquiridos todos os segmentos da lingua e as demais estruturas silabicas existentes no PB. Configura-se em um estudo experimental cuja analise acustica visual detalhada possibilitara verificar a variabilidade apresentada na aquisicao de tal estrutura, em funcao de sua maior complexidade fonetico-fonologica.

No PB, o onset complexo e constituido por uma obstruinte na primeira posicao, a saber: /p, b, t, d, k, g, f, v/, ao passo que, na segunda posicao desse ataque ramificado, apenas as liquidas /l, r/ (2) sao permitidas (RIBAS, 2003). Porem, restricoes sao observadas quanto:

(i) a estrutura /vr/, que ocorre apenas em onset medial (3), como na palavra livro;

(ii) a estrutura /dl/, que nao e observada em nenhum contexto;

(iii) a estrutura /vl/, que compreenderia apenas alguns nomes proprios, como Vladimir ou Vlaudete, ou certos emprestimos, como Vladivostoque, ou neologismos, como vlog, correspondendo a uma abreviacao de videoblog (video + blog);

(iv) a estrutura /tl/, por ser escasso o numero de palavras que a apresentem e por estar limitada ao onset medial, como em atleta, ou ao onset absoluto em onomatopeias como tlim tlim.

De acordo com o estudo de Ribas (2002) sobre o PB, o inventario de palavras que apresentam onset complexo com a liquida lateral na segunda posicao e muito menos elevado (10,17%, segundo SEARA, 1994) se comparado ao das palavras que possuem a liquida nao lateral (46%, segundo SEARA, 1994) nessa mesma posicao. Assim, os encontros consonantais que possuem o /l/ como segunda consoante apresentam uma propriedade marcada, o que refletiria na aquisicao do vocabulario infantil e, consequentemente, no lexico do adulto (RIBAS, 2002).

Considerando-se que a experiencia linguistica e essencial para a aquisicao da linguagem e a formacao da gramatica, e assumindo-se que o sistema cognitivo do individuo e dinamico e mutavel e que quaisquer alteracoes, em pequena ou grande escala, apontariam para as habilidades de processamento utilizadas no desempenho da linguagem, a presente pesquisa se apoia na fonologia baseada no uso (BYBEE, 2001).

Esse modelo teorico preconiza que o uso frequente de certas formas, na producao bem como na percepcao, influenciaria suas representacoes na memoria. Em consequencia, as sequencias foneticas das palavras seriam influenciadas pela familiaridade com padroes que se repetem na lingua. Assim, a gramatica de uma crianca, naturalmente separada da dos adultos, estaria baseada no que a crianca experencia a partir de suas possiveis habilidades cognitivas. As representacoes cognitivas da crianca refletem, entao, a variacao encontrada no input linguistico, e mesmo criancas pequenas sao capazes de produzir variantes de formas linguisticas que retratam bem a variacao linguistica encontrada na fala dos adultos (BYBEE, 2010).

Tais pressupostos podem nos fornecer um contributo para a compreensao do desenvolvimento da linguagem, no nosso caso, a oral. E as questoes que se colocam como pertinentes sao: (1) quais estrategias de reparo a crianca pode se valer quando nao produz o onset complexo? (2) a variabilidade atingira item por item, ou todos de uma so vez? e, por fim, (3) a gradiencia, se encontrada neste estudo, tera relacao com a frequencia de ocorrencia das palavras utilizadas pela crianca?

Para responder a terceira questao, teremos de ter palavras pouco e muito frequentes. No caso da escolha de palavras pouco frequentes, que podem nao fazer parte do inventario lexical utilizado pela comunidade de fala na qual a crianca esta inserida, preferimos estabelecer logatomas (wug-words), os quais tambem podem nos fornecer pistas sobre o processamento das palavras pouco frequentes em um estudo experimental (NEVINS, 2016), como a presente pesquisa. Esses logatomas obedecerao aos principios da lingua e, nessa situacao, seguirao a fonotatica dos segmentos nas palavras que serao estabelecidas como muito frequentes, considerando-se ponto de articulacao consonantal e vozeamento.

Estudos sobre a fala adulta (SILVA, 1996; SILVEIRA, 2007) tem mostrado que silabas [C.sub.1][C.sub.2]V--alvo do presente estudo, principalmente aquelas cuja segunda consoante seja o tepe, apresentam a esquerda do tepe um segmento vocalico, denominado vogal de apoio. Partimos, entao, da hipotese de que a crianca em estudo, por estar com quatro anos e meio de idade, possui um conhecimento implicito sobre a presenca de um segmento entre a primeira consoante e a vogal, e tentaria, de alguma forma, produzi-lo nas palavras muito frequentes, visto que a repeticao de uso pela comunidade de fala seria capaz de favorecer a producao efetiva do alvo, o que nao ocorreria quanto aos logatomas. Essa pressuposicao se baseia no fato de que, nessa idade, as criancas ja saberiam da existencia de duas consoantes consecutivas, conhecimento este, porem, profundamente atrelado a experiencia linguistica individual (MIRANDA, 2007).

Assim, dispomos, na primeira secao deste artigo, de um pequeno resumo da proposta da Fonologia de Uso (BYBEE, 2001); de como o uso pode influenciar a producao fonetica; de um apanhado sobre a aquisicao do onset complexo no PB; bem como o porque de se estabelecer logatomas para o presente estudo. A Secao 2 exemplifica a producao do tepe e da liquida lateral em onset complexo na fala de adultos, que servem como base para a analise dos encontros consonantais produzidos pela crianca em estudo, uma vez que o tepe e a liquida lateral sao alvos que a crianca procura alcancar. Desse modo, poderemos avaliar, no detalhe acustico, os dados emitidos pela crianca e a sua aproximacao ou substituicao do alvo. A Secao 3 e dedicada a descrever o corpus coletado, estabelecendo criterios de acordo com a frequencia de ocorrencia dos itens lexicais e apresentando os logatomas considerados para o presente estudo. Na quarta secao, discutimos os resultados encontrados e, na ultima secao, sao expostas as conclusoes deste estudo.

1. Revisao da literatura

1.1. A Fonologia de Uso

A Fonologia de Uso (Usage-Based Phonology), proposta por Bybee (2001), refere-se a uma teoria que procura investigar o lexico mental, os processos cognitivos dinamicos e recorrentes, por serem atribuidos a eles o desenvolvimento da gramatica, o processamento da linguagem, assim como as mudancas linguisticas. O cerne dessa proposta esta na frequencia de uso das palavras, ou seja, a armazenagem dos itens lexicais seria decorrente de seu uso, e nao de sua estrutura. Assim, itens que possuam alta frequencia de uso poderao ser estocados no lexico mental e serem acessados mais facilmente, mesmo que, tambem, regras possam ser neles aplicadas. E essa frequencia que propicia um continuum entre as formas autonomas e nao autonomas, negando, portanto, a existencia de pontos de corte discretos (BYBEE, 1985). Isso explicaria, por exemplo, a partir de uma perspectiva diacronica, por que os verbos do ingles regularizados foram os menos frequentes e por que formas supletivas sao usadas tao naturalmente quanto as regulares.

Uma fonologia baseada no uso concebe a lingua como um objeto cultural, como um acordo estabelecido socialmente cuja estrutura e formada e firmada pela repeticao. E seria com a repeticao, portanto, que se obteria forca lexical, fazendo com que certas representacoes sejam mais habituais e de facil acesso. A repeticao tambem seria a responsavel por causar a automatizacao de certos movimentos articulatorios.

Esse modelo compreende os efeitos de frequencia de uso a partir de dois vieses, a saber, a frequencia de ocorrencia (token) e a frequencia de tipo (type). O termo token implica o total de vezes que um item ocorre em um determinado corpus; o termo type corresponde ao total de itens em um corpus que compartilham uma propriedade particular, como um dado prefixo, por exemplo.

A Fonologia de Uso refere-se, entao, a um modelo dinamico probabilistico baseado no uso, nao intentando ir contra os pressupostos linguisticos tradicionais, mas somente pretendendo ampliar as concepcoes acerca do fenomeno de aquisicao das estruturas sonoras das linguas, para que seja melhor apreendido.

Sobre as unidades linguisticas responsaveis pela avaliacao e categorizacao, elas podem dizer respeito as vogais, como visto em Pierrehumbert (2001); as silabas, de acordo com Cristofaro-Silva (2002), pois seriam elas as identificadas pelos falantes, e nao os sons individuais. Para esta autora, os sons podem ser influenciados por outros que estao ao seu redor, alem de que a silaba e vista como o contexto especifico para que distribuicoes alofonicas ocorram. Para Bybee (2001), a palavra e a unidade basica da representacao fonologica, alem de possuir independencia pragmatica. Nao obstante, devido ao teor de nosso estudo, o qual corresponde a aquisicao do onset complexo, entendemos ser a silaba o lugar primeiro para analise.

1.2. A influencia do uso na producao fonetica

As diferentes pronuncias, assim como a exposicao a distintos contextos situacionais nos quais as palavras sao ditas, atuam na forma como acessamos e categorizamos as informacoes linguisticas e, consequentemente, na forma como produzimos os itens lexicais. Assim, considera-se que as criancas, ao serem expostas a uma mesma lingua, nao seguem a mesma ordem de aquisicao dos fonemas e das silabas, e isso se da pelo fato de elas darem preferencia a determinadas rotinas articulatorias e a certos padroes (VIHMAN; CROFT, 2007).

De acordo com esses autores, os tracos de memoria correspondentes a novas experiencias linguisticas, como a percepcao da fala, sao estabelecidos a cada exposicao. Desse modo, a frequencia de ocorrencia desempenharia um importante papel na representacao fonologica da crianca que esta adquirindo a linguagem, bem como na do adulto, visto que esses usuarios da lingua sao altamente sensiveis as regularidades implicitas no lexico.

As criancas conseguem desenvolver uma "gramatica fonologica" a partir de palavras as quais sao expostas holisticamente, isto e, tal gramatica se forma tanto pela experiencia auditiva quanto articulatoria, em que se sugere que as criancas, assim como os adultos, sao sensiveis a probabilidade fonotatica.

Assim, a crianca, em desenvolvimento tipico, ao adquirir gradualmente um vocabulario mais robusto, evidencia que ela nao esta simplesmente conhecendo mais palavras, mas tambem esta sendo capaz de fazer generalizacoes foneticas cada vez mais apuradas. Ou seja, as criancas com vocabularios maiores sao mais precisas ao produzir palavras do que criancas com vocabularios menores, nao apenas de itens de baixa frequencia, como tambem de sequencia estruturais pouco frequentes (EDWARDS et al, 2004).

1.3. Sobre a aquisicao do onset complexo no PB

A idade de aquisicao do onset complexo (emersao e estabilizacao) estaria compreendida entre 2:0 e 5:0 (AVILA, 2000; GUIMARAES, 2000; RIBAS, 2000; STAUDT, 2008), considerando-se os dois grupos de liquidas. A silaba CCV representa a estrutura silabica mais tardia a estabilizar-se pelo fato de /l, r/ caracterizarem os ultimos segmentos a ser adquiridos em contexto de onset simples, sendo o /l/ aos 3:0 e o /r/ aos 4:2 (MEZZOMO; RIBAS, 2004), alem de exigir uma organizacao articulatoria mais complexa (YAVAS et al, 2001).

Salientam-se as variacoes individuais verificadas durante a aquisicao, e mesmo que algumas criancas adquiram determinadas estruturas bem antes do que outras, isso nao representa, necessariamente, um desvio ou um atraso na aquisicao da linguagem (LAMPRECHT, 2004).

Para Staudt (2008) e Ribas (2004), os onsets complexos com liquida lateral e nao lateral emergiriam em um mesmo periodo, assim como quando estabilizados. Para as autoras, as criancas adquirem tal estrutura como um todo e nao os segmentos em separado, o que significa dizer que, quando a estrutura CCV foi adquirida, qualquer encontro consonantal permitido em tal estrutura estaria licenciado na fala. Ja, de acordo com Avila (2000), a aquisicao do onset complexo ocorre de forma gradual, mas nao linear, pois sao adquiridos, primeiramente, os encontros com a liquida lateral, mesmo que estes possam constituir uma propriedade marcada no PB (RIBAS, 2002).

Sobre as estrategias de reparo, Lamprecht (1993) observou que simplificacoes ocorrem nas formas infantis e isso se da por razoes relacionadas a maturidade articulatoria e perceptual, sendo possivel observar, nos onsets complexos, estrategias como o apagamento de [C.sub.2] (posicao ocupada pelas liquidas), estagios intermediarios, como a substituicao de [C.sub.2] por uma aproximante [j] ou o caso de [l] ao inves de [r], ate a forma C + [r] ser considerada estabilizada.

No mesmo sentido, ao analisar 49 criancas com idade entre 2:4 e 5:10, Toni (2017) tambem constatou que a posicao C2 e aquela que apresenta o maior numero de estrategias de reparo, geralmente sendo apagada ou substituida por outro segmento da mesma classe natural. Quanto a faixa etaria, percebeu-se uma grande variabilidade nas producoes de criancas na faixa de 4 anos, cujos dados apresentaram a ausencia de C2; producoes incipientes em relacao ao total de encontros consonantais apresentados no experimento; producoes ainda nao estabilizadas, mas recorrentes; ate o onset complexo ser considerado como adquirido. Ja na faixa dos 5 anos, observou-se uma maior uniformidade a caminho da estabilizacao.

Sobre os estagios intermediarios, Toni (2017) observou que as criancas que produziram menos dados com a estrutura CCV, substituiram o tepe pela liquida lateral, como tambem a liquida lateral pela semivogal [j]. Ja nas criancas que apresentaram mais producoes equivalentes ao alvo, foi notada uma preferencia pela substituicao da liquida lateral pelo tepe. E mesmo que a crianca nao produza efetivamente o alvo, as producoes intermediarias oferecem indicios importantes do conhecimento fonologico que a crianca possui.

1.4. Sobre o uso de logatomas

Conforme Nevins (2016), todas as linguas humanas sao regidas por uma serie de principios baseados no uso de segmentos vocalicos e consonantais que nos servem para rotular o mundo e estabelecer conceitos mentais. Codigos seriam implementados a partir da combinacao de elementos e, caso quisessemos tornar uma lingua mais complexa, poderiamos, de maneira paradigmatica, estender o numero de segmentos disponiveis, ou, de forma sintagmatica, ampliar "as possibilidades de combinacao para inserir estruturas silabicas mais complexas" (NEVINS, 2016, p. 68), pertencentes ao dominio da fala.

A combinatorialidade fonologica foi capaz de construir palavras com sentido a partir de segmentos sem sentido. Trata-se de escolhas que as linguas tem em termos de sofisticacao. No presente estudo, os logatomas (wug-words), entendidos como itens criados experimentalmente para corroborar ou enfraquecer uma determinada hipotese (NEVINS, 2016), foram estabelecidos para substituir as palavras pouco frequentes. Essa estrategia foi usada, por acharmos que, provavelmente, as palavras que encontrariamos como pouco frequentes nao fariam parte do inventario lexical da crianca em fase de aquisicao, alem de serem de dificil representacao visual. Desse modo, introduzimos itens com frequencia zero ao experimento, ou seja, itens nao presentes em nenhum corpus linguistico.

Tais logatomas, ao obedecerem a disposicao segmental das palavras muito frequentes e, consequentemente, a fonotatica da lingua portuguesa, podem ser comparados as palavras muito frequentes, tanto em relacao ao comportamento da silaba quanto a sua duracao. Isso pode aliciar a investigacao sobre novas questoes fonologicas, o que ampliaria o conhecimento na area em relacao a estrategias cognitivas, visto que se trata de itens que poderiam existir na lingua portuguesa.

2. A producao do tepe e da liquida lateral em onset complexo na fala adulta

A liquida nao lateral [r] apresenta-se acusticamente como um segmento composto por dois momentos acusticos, a saber, um periodo de quase silencio seguido por uma batida breve (SILVEIRA; SEARA, 2008). Observa-se ainda que, em encontros consonantais tautossilabicos, foco do nosso estudo, ocorre a producao, a esquerda do tepe, de um segmento vocalico que e semelhante a vogal tonica, denominado vogal de apoio. A diferenca entre a vogal de apoio e a vogal nucleo da silaba estaria na menor duracao da vogal de apoio (SILVA, 1996). Observe a Figura 1.

A Figura 1 apresenta a producao de uma silaba CCV, sendo a primeira posicao ocupada por uma oclusiva dentoalveolar e a segunda posicao ocupada por um tepe. Nessa figura, em (a), e possivel a visualizacao da vogal de apoio (a esquerda do tepe); em (b), ve-se o tepe que e constituido pelos dois momentos acusticos (um periodo de quase silencio e uma breve batida); e, em (c), a vogal do nucleo da silaba.

Observe a Figura 2 que exibe a producao da silaba CCV, tendo a primeira posicao ocupada por uma consoante oclusiva dentoalveolar e a segunda posicao por uma lateral alveolar. Nessa figura, observam-se, em (a), a consoante liquida lateral e, em (b), a vogal nucleo da silaba. Comparando-se as Figuras 1 e 2, ve-se que, quando na presenca da liquida lateral [l], cujas caracteristicas acusticas sao muito semelhantes as dos sons vocalicos, observam-se uma forma de onda regular e uma continuidade espectral bem definida com discreta variacao dos formantes em relacao as vogais que estariam na margem direita da silaba. Distintamente do que se observa na producao do tepe, para a pronuncia da liquida lateral, nao haveria a necessidade de uma abertura oral como apoio (SILVA, 1996; SILVEIRA, 2007).

Ainda de acordo com Silva (1996), o tepe, independentemente da sua posicao silabica, sempre se apoiara em duas vogais, isto e, sempre ocupara uma posicao "intervocalica" (SILVA, 1996, p. 69).

A analise da producao dos encontros consonantais da crianca se apoiara na producao exibida por adultos tipicos, como os dados reportados acima.

3. Metodologia para a coleta e analise de dados

O corpus foi estabelecido, primeiramente, obedecendo a alta frequencia de ocorrencia dos itens lexicais e considerando-se as pressuposicoes acerca da Fonologia baseada no uso (Bybee, 2001).

Em razao de Bybee (2006) questionar a impossibilidade de, ate o momento, a Fonologia de Uso definir medidas exatas sobre faixas de frequencia baixa e alta devido a diversidade dos fenomenos linguisticos que podem ser verificados nos estudos linguisticos, o que validaria, portanto, o uso de logatomas, o presente trabalho buscou palavras que fizessem parte da rotina da crianca. E isso foi feito em virtude de a repeticao de uso ser capaz de automatizar certos movimentos articulatorios baseados na fisiologia da fala (PHILLIPS, 1984; BYBEE, 2001).

O convivio com a crianca se deu nos tres meses anteriores a gravacao do experimento, resumindo-se em tres encontros semanais com uma hora de duracao cada. Foram, portanto, trinta e seis encontros, em intervalos de tempo regulares, os quais foram substanciais para a compreensao da dinamica do desenvolvimento da crianca, alem de corroborar que as palavras muito frequentes elencadas neste estudo fazem, realmente, parte da comunidade de fala na qual a crianca esta inserida.

Para isso, as palavras que se apresentaram comuns na fala dirigida a crianca foram relacionadas em um corpus linguistico que apresentasse criterios rigorosos quanto ao estabelecimento da frequencia de ocorrencia.

Deste modo, elegemos o Corpus Brasileiro (4), projeto sediado no Centro de Pesquisas, Recursos e Informacao de Linguagem da Pontificia Universidade Catolica de Sao Paulo, coordenado pelo professor Tony Sardinha, para observacao da frequencia de ocorrencia das palavras. Essa escolha foi motivada pela robustez do corpus, que possui o maior numero de itens lexicais do portugues brasileiro relacionados ate o momento. Esse corpus e composto por mais de 989,4 milhoes de palavras, coletadas em textos falados e escritos.

Assim, itens lexicais do corpus selecionado, a partir das palavras mais comuns observadas durante o convivio com a crianca, que tiveram mais de mil ocorrencias no Corpus Brasileiro foram considerados muito frequentes. Entre os itens mais frequentes, foram entao escolhidos para analise neste estudo 16 deles. A escolha desses 16 itens lexicais se baseou na possibilidade de desenhos que os ilustrassem de forma clara, ou seja, tais itens lexicais foram apresentados a crianca a partir de seus desenhos ilustrativos, por intermedio de slides. Os dados produzidos pela crianca foram gravados em um ambiente com pouco ruido e sem tratamento acustico.

Outros criterios para a montagem do corpus de gravacao foram estabelecidos. Sao eles:

(1) apresentar palavras iniciadas por oclusivas sonoras em relacao ao onset absoluto, pois, pela falta de contextos anteriores aos itens em alguns momentos, como o emprego de determinantes, por exemplo, seria dificil delimitar, no sinal acustico de fala, o inicio das oclusivas surdas devido a ausencia de vibracao das pregas vocais no momento inicial (silencio) (5) que antecede a explosao (burst);

(2) conceber itens com a estrutura CCV que apresentem obstruintes com pontos de articulacao distintos, constituidos com as liquidas lateral e nao lateral. Foram selecionadas a oclusiva bilabial sonora /b/, formando onset complexo absoluto; a oclusiva dentoalveolar surda /t/, formando onset medial, dado que sao escassas as palavras que possuem o encontro /tl/, ainda mais com alta frequencia de ocorrencia; e a oclusiva velar sonora /g/. Quanto ao ponto de articulacao labiodental, elencamos palavras com a fricativa surda /f/, pelo motivo de nao possuirmos palavras com o encontro consonantal /vl/. Tal fricativa nao compromete a visualizacao do inicio da producao, visto que se tem ruido no sinal acustico de fala;

(3) levantar itens correspondentes ao onset simples, tambem com alta frequencia de ocorrencia, para que possamos examinar as respectivas duracoes. Isso nos auxiliou na verificacao da possibilidade de uso da estrategia de alongamento compensatorio (BRASIL et al., 2010), o qual supriria a ausencia de um segmento que a crianca talvez nao consiga produzir, mas que perceba sua existencia. Quando possivel, esses onsets simples apresentaram vogais similares aos dos onsets complexos em relacao a altura vocalica e a anterioridade/posterioridade da lingua. Suas silabas subsequentes obedecem aos pontos de articulacao e a sonoridade das consoantes das silabas posteriores aos onsets complexos.

O Quadro 1, a seguir, apresenta a lista das palavras com alta frequencia, todas paroxitonas, cujos acentos estao nas silabas alvo analisadas, com suas respectivas frequencias de ocorrencia exibidas no Corpus Brasileiro.

Como apontado por Huback (2007), em estudos baseados no uso, o lexico mental se constroi a partir da experiencia, ou seja, as experiencias de vida de cada ser humano sao refletidas em seu vocabulario. No entanto, percebemos que, mesmo que uma palavra fosse altamente frequente em um corpus linguistico, isso nao significaria que o falante ja a tivesse ouvido. Assim, como o estudo requeria encontros anteriores a coleta de dados por se tratar de um estudo envolvendo criancas, esses encontros permitiram a participacao ativa na rotina da crianca e a observacao das palavras que, realmente, faziam parte do inventario dessa crianca. Essas palavras sao as exibidas no Quadro 1.

Em relacao aos logatomas, estes foram construidos obedecendo as caracteristicas segmentais dos onsets complexos das palavras muito frequentes, assim como as caracteristicas das silabas subsequentes. Tais logatomas foram estabelecidos como nomes proprios de bonecos usados em brincadeiras. Assim, nos trinta e seis encontros que antecederam a gravacao dos dados, foram discriminados oito bonecos dos quais cada um possuia um logatoma correspondente (8).

As producoes de seus onsets complexos nos logatomas serao comparadas as producoes dos onsets complexos nas palavras muito frequentes, a fim de verificarmos caracteristicas temporais (duracao), assim como as possiveis producoes consonantais. Os logatomas se encontram transcritos e distribuidos, de acordo com a estrutura do onset complexo (9), no Quadro 2, a seguir.

Podemos perceber que os logatomas tambem sao paroxitonos, com o acento sempre presente na silaba CCV. As silabas subsequentes tambem obedecem aos pontos de articulacao e a sonoridade das silabas consecutivas presentes nas palavras muito frequentes.

Apos os tres meses de convivio, a gravacao dos dados ocorreu em apenas um encontro, na residencia da crianca. Tanto os desenhos ilustrativos das palavras muito frequentes quanto os bonecos foram apresentados no mesmo momento. Os bonecos foram reunidos e a crianca foi capaz de nomea-los, do mesmo modo quando os desenhos nos slides foram exibidos. A crianca pronunciou apenas uma vez cada item.

Deste modo, somando-se o numero de palavras frequentes e de logatomas, tem-se vinte e quatro itens coletados e posteriormente analisados, a partir do programa de analise de fala Praat (10), permitindo a validacao dos resultados de acordo com a inspecao visual dos dados amostrados na forma de onda e no espectrograma. Em funcao do numero de itens relacionados para este trabalho, nao nos foi possivel realizar uma estatistica inferencial sobre tais dados. No entanto, essa impossiblidade nao invalida os resultados que serao aqui apresentados, principalmente porque, em estudos sobre estrategias de reparo, o detalhamento acustico aqui apresentado e visto como muito necessario para uma mais adequada observacao dos dados produzidos.

Para a obtencao automatica dos valores de duracao dos segmentos e das silabas, foi utilizado um script do Praat (11). Pelo fato de a velocidade de elocucao intervir na duracao absoluta dos segmentos, isto e, quanto mais elevada for a velocidade de fala, menos elevada sera a duracao de cada segmento, o calculo da duracao foi estabelecido a partir de valores relativos. A duracao dos segmentos vocalicos esta em relacao a duracao da silaba, assim como a duracao da silaba de onset complexo esta em relacao a duracao da palavra. Dessa forma, a duracao relativa da vogal corresponde ao percentual de ocupacao da vogal na silaba em que se encontra e a duracao relativa da silaba CCV corresponde ao percentual de ocupacao da silaba CCV na palavra. As duracoes relativas foram calculadas conforme (1) e (2).

(1) dur relativa da vogal (%) = (dur absoluta da vogal/dur absoluta da silaba CCV) x100

(2) dur relativa da silaba CCV (%) = (dur absoluta da silaba/dur absoluta da palavra) x100

O script utilizado foi capaz, tambem, de nos fornecer os valores dos formantes das vogais, mais especificamente, do primeiro e do segundo formantes, que dizem respeito a altura vocalica e a anterioridade/posterioridade da lingua, respectivamente (CRISTOFAROSILVA, 2015). Tais valores sao relevantes ao confrontarmos o comportamento, nas silabas CCV, das vogais nucleo e das possiveis producoes de vogais de apoio correspondentes. Esse assunto e abordado no inicio da proxima secao.

4. Resultados e discussao

Na analise da producao na primeira posicao do onset complexo, nossos dados mostraram que apenas uma das producoes nao apresentou o vozeamento esperado, ou seja, na palavra "globo" (12), a oclusiva velar [k] foi produzida no lugar de [g]. Todas as demais consoantes oclusivas e fricativas foram produzidas adequadamente pela crianca, tanto em palavras muito frequentes quanto nos logatomas.

4.1. Onset complexo com o tepe e a presenca de vogal de apoio

Na segunda posicao do onset complexo, observamos que encontros consonantais cuja segunda consoante era a lateral foram produzidos com o tepe. Um exemplo pode ser visto na palavra "globo", que, alem de ser produzida com a primeira consoante do encontro nao vozeada, exibiu a presenca do tepe [r] ao inves da liquida lateral. A producao de [r] se repete em todos os itens com onset complexo absoluto que deveriam ter a segunda posicao ocupada pela consoante [l] (13). Observe a Figura 3.

A Figura 3 apresenta a silaba tonica "glo" da palavra "globo", produzida como [kro]. Nessa figura, podemos observar a pronuncia do segmento oclusivo como nao vozeado [k], como mencionado no inicio desta secao. Percebe-se ainda a presenca da vogal de apoio (em (a)) a esquerda do tepe (em (b)).

As transcricoes foneticas da producao da crianca referentes as palavras muito frequentes e aos logatomas estao apresentadas no Quadro 3.

No Quadro 3, e evidenciado que os itens com onset complexo absoluto ou medial, que apresentavam a construcao "oclusiva + [l]", foram produzidos como "oclusiva + [r]" em 100% dos dados.

Nos dados exibidos na Figura 3, apos a consoante oclusiva nao vozeada [k], percebese uma regiao com formantes de transicao que evidenciam a vogal de apoio. Assim, a partir de transcricoes foneticas que se basearam na visualizacao acustica dos dados produzidos, mostradas no Quadro 3, observa-se que, tanto nos encontros consonantais com o tepe quanto nos encontros com a lateral (produzidos como tepe), foi possivel verificar a producao frequente de vogais de apoio a esquerda do tepe. Essas vogais de apoio estiveram presentes em 58,82% dos dados (15). De fato, esse percentual corresponde aos itens que possuem uma oclusiva em C1, dado que os itens que possuem uma fricativa em C1 foram produzidos sem a vogal de apoio. Tais dados vao de encontro ao proposto por Silva (1996), pois as palavras muito frequentes frutas e flores, assim como os logatomas frissa e fleru, foram todos produzido com o tepe e sem a vogal de apoio, ou seja, o tepe nao ocupou uma posicao intervocalica nestes itens.

No logatoma "patletu", houve metatese e a silaba pretonica foi a que apresentou a estrutura CCV. Nesse caso, a segunda consoante tambem foi o tepe e a vogal de apoio estava presente.

Como mencionado, nas construcoes de "oclusiva + [r]" em onset absoluto, todas as producoes foram elocucionadas com o tepe na segunda posicao e, nesse caso, com a presenca da vogal de apoio a esquerda do tepe. Os itens com onset complexo medial de "oclusiva + r", como na palavra "estrela" e no logatoma "petreli", apresentaram comportamentos diferentes. Na palavra "estrela", foi identificada a presenca de um ditongo decrescente [ew], nao sendo observada a producao do tepe. Ja no logatoma "petreli", houve o apagamento do tepe, sendo produzida a silaba CV no lugar de CCV. Este foi o unico caso de simplificacao de onset complexo.

Sobre os encontros consonantais com fricativa na primeira posicao, como ja dito, verificamos que todos os itens tambem apresentaram o tepe, porem, vogais de apoio nao foram verificadas. Observe a Figura 4.

Na Figura 4, pode-se observar o ruido caracteristico da fricativa surda, seguida pelo inicio de vozeamento, demonstrado pela emissao de pulsos glotais assim como pela presenca da barra de sonoridade, o que corresponderia ao tepe, e a posterior producao da vogal nucleo da silaba. Nao se observa a vogal de apoio, apenas o periodo de quase silencio e uma breve batida, momentos caracteristicos do tepe.

Os dados analisados podem nos fornecer pistas de que a crianca em estudo ja teria um conhecimento implicito sobre a presenca de encontros consonantais nas palavras. No entanto, ela estaria em um nivel intermediario da efetiva producao da lateral, posto que, segundo Silveira (2007), a frequencia de vogais de apoio em contextos com a liquida lateral e mais baixa do que a frequencia de vogais de apoio em contexto com a liquida nao lateral.

A Figura 5, a seguir, apresenta a forma de onda e o espectrograma da silaba "fle" do logatoma "fleru", produzida como [fre].

Na Figura 5, observa-se que a silaba tonica "fle" do logatoma "fleris" foi produzida como [fre] com caracteristicas similares as da silaba tonica da palavra "flores", mostrada na Figura 4, quanto a ausencia da vogal de apoio. Ambas as figuras ratificam os resultados apontados por Silveira (2007), em que as vogais de apoio sao menos frequentes quando a primeira consoante do encontro consonantal e uma fricativa (SILVEIRA, 2007).

4.2. A duracao das silabas CCV

Em relacao a duracao das silabas tonicas com onset complexo, para que fosse possivel contrapo-las as silabas tonicas dos logatomas, assim como as silabas das palavras correspondentes com onset simples, fizemos o calculo da duracao relativa considerando a duracao da palavra, conforme apresentado na Secao 3. Isso foi feito porque a maioria dos dados possuem duas silabas (75%). Observe a Tabela 1.

A partir das duracoes relativas apresentadas na Tabela 1, verificou-se que todas as silabas com onset complexo apresentaram duracao mais elevada quando comparadas as suas correspondentes com onset simples. Isto significa dizer que a duracao relativa media das silabas com onset complexo nas palavras muito frequentes e de 50,87%, ou seja, tais construcoes ocuparam, em media, 50,87% das palavras, ao passo que a duracao relativa media das silabas com onset simples das palavras muito frequentes e de 44,66%, ou seja, silabas com onset simples ocuparam apenas 44,66% das silabas. Quanto as silabas tonicas dos logatomas, com frequencia zero, a duracao relativa media (57,56%) e mais elevada do que a apresentada pelas silabas tonicas das palavras com onset complexo (50,87%) que nao constituem logatomas.

A analise visual acustica para a etiquetagem dos dados e a coleta automatica dos valores de duracao via script possibilitaram a verificacao de que em todas as producoes (a excecao da producao do logatoma petreli) nao ocorreu a simplificacao do onset complexo. Dessa maneira, nao se pode observar questoes relacionadas ao alongamento compensatorio, ou seja, nao se pode observar o comportamento da duracao entre as producoes com onset complexo e com simplificacao de onset complexo.

Ao analisarmos os dados, tornou-se pertinente comparar o comportamento das vogais de apoio em relacao as vogais nucleo, para que possamos perceber em que medida elas podem ser semelhantes ou distintas. Esse e o conteudo da proxima subsecao.

4.3. Comparacao entre as vogais de apoio e as vogais nucleo

Para estabelecermos uma comparacao entre as vogais de apoio e as vogais nucleo das silabas tonicas, calculamos suas duracoes em relacao as silabas correspondentes, conforme podemos observar na Tabela 2.

Na Tabela 2, sao apresentados os valores medios de duracao relativa e dos dois primeiros formantes (F1 e F2) da vogal de apoio e da vogal nucleo correspondente.

Primeiramente, quanto a duracao relativa das vogais, podemos perceber, de acordo com a Tabela 2, que as vogais de apoio apresentam duracao relativa media de 9,72%, enquanto as vogais nucleo correspondentes apresentam duracao relativa media de 71,57%.

O espaco acustico, plotado a partir dos valores de F1 e F2 das vogais de apoio (VA) e das vogais nucleo (VN) produzidas pela crianca, e apresentado na Figura 6. Todas as vogais pertencem a producoes de silabas com onset complexo. Observe a Figura 6.

De acordo com o espaco acustico mostrado na Figura 6, em tres producoes (18,75% dos dados), pudemos perceber as vogais de apoio com valores de F1 e F2 muito proximos aos de suas vogais nucleo correspondentes, indicio de que essas vogais compartilham caracteristicas articulatorias. Sao elas:

(1) a silaba ['bvri] do logatoma "brissa" ("VA2log/VN2log", destacadas em cinza);

(2) a silaba ['gvri] da palavra "grito" ("VA7p/VN7p", destacadas em azul-escuro);

(3) a silaba ['gvre] do logatoma "gleba" ("VA8log/VN8log", destacadas em verde-claro).

As demais producoes (81,25%) mostram que as vogais de apoio, em relacao as vogais nucleo correspondentes, ora se apresentam como mais altas, ora como mais baixas, assim como se apresentam mais anteriores ou posteriores em determinados contextos, independentemente da qualidade da vogal nucleo, assim como da frequencia de ocorrencia dos itens. Este fato ja havia sido apontado por Silveira (2007), ou seja, para a autora, a vogal de apoio seria um segmento vocalico entre C1 e C2, e nao o inicio da producao da vogal nucleo.

Conclusoes

A intencao deste trabalho foi, primeiramente, observar como a crianca em estudo, com quatro anos e meio completados no momento de gravacao dos dados, poderia lidar com os alvos. Como dito, trata-se de uma crianca com aquisicao considerada tipica, com todos os outros segmentos ja adquiridos, como as liquidas em posicao de onset simples, tanto absoluto quanto medial.

Quanto as nossas questoes de pesquisa, ao tentarmos responde-las, primeiramente sobre o uso de estrategias de reparo, o presente estudo nos mostra que a crianca tem conhecimento da silaba ramificada, ou seja, ela estaria mentalmente representada. A questao se centraria na producao da silaba CCV, pois na impossibilidade de produzir a lateral /l/, a crianca se valeria do uso do tepe, o que poderia validar a frequencia de tipo (type), alem de corroborar os dados exibidos por Toni (2017), os quais mostraram que as criancas que estavam mais proximas a alcancar o alvo apresentaram uma preferencia pela substituicao da liquida lateral pelo tepe.

Indo ao encontro do que foi observado por Ribas (2002), como os encontros consonantais com a liquida lateral acarretam uma propriedade marcada, visto que o type C + [r] e o mais frequente, a producao da liquida nao lateral nas silabas CCV refletiria a sua aquisicao e consequente pronuncia nos itens lexicais tratados. Trata-se de uma hipotese que poderia ser perpassada a questoes diacronicas da lingua, o que validaria o fato de ser o rotacismo uma tendencia natural da lingua portuguesa, e que estaria implicado, tambem, a conotacoes sociais (TEM TEM, 2010).

Outra questao que se instaura, e que agora vai de encontro ao proposto por Staudt (2008) e Ribas (2004), e a de que, para as autoras, nao existiria uma ordem de aquisicao para o onset complexo, ou seja, ambos os encontros seriam adquiridos ao mesmo tempo. Os dados, mesmo nao se tratando de um estudo longitudinal, podem nos indicar que haveria um ordenamento, cuja primazia esta nas producoes com tepe na segunda posicao, fato que nos mostraria que a aquisicao do onset complexo pode ser guiada por esse segmento, talvez pela articulacao do tepe estar predominantemente aliada a producao de vogal de apoio.

Salientamos, a nosso ver, que o que estaria em jogo, principalmente, seria a frequencia de tipo nos dados analisados. Quanto a frequencia de ocorrencia, ela se mostrou pertinente quanto a duracao das silabas, fator este fundamental quando estudamos a tonicidade na lingua portuguesa (MASSINI-CAGLIARI, 1992). Ao observarmos que os logatomas, com frequencia de ocorrencia zero, apresentaram silabas com mais longa duracao relativa se comparadas com as silabas das palavras muito frequentes, independentemente da qualidade da vogal tonica, a repeticao de uso poderia ser capaz de automatizar determinados movimentos articulatorios fundamentados na fisiologia da fala. E por sabermos que as palavras pouco frequentes, assim como os logatomas, podem implicar em uma pronuncia mais cuidadosa, isso pode acabar por demonstrar que a frequencia de ocorrencia das palavras esteja, realmente, afetando o lexico mental, nao devendo ser descartada.

Vimos que a producao do tepe nos encontros consonantais tautossilabicos perpassa os logatomas, salientando que o uso de palavras criadas para determinado experimento pode refletir a natureza das estrategias e generalizacoes que os aprendizes desenvolvem. Isto responderia a nossa segunda questao, pois, mesmo que observemos que a producao do tepe nao e categorica, ela se apresenta em 81,25% das silabas tonicas, sendo que os comportamentos mais dispares foram encontrados nas palavras que apresentam onset medial. Referimos, portanto, essas producoes como um entre-caminho ate a efetiva producao de encontros consonantais com a liquida lateral, ou melhor, como um nivel intermediario ate que seja adquirida a coordenacao articulatoria necessaria.

Ainda sobre o uso de logatomas, estudos futuros podem ser realizados para observarmos o comportamento de construcoes possiveis na lingua, mas nao presentes em seu inventario, como a criacao de palavras com /dl/, por exemplo, ou com /vl/, para verificarmos, tambem, se em tais construcoes haveria o processo de rotacismo. A investigacao de palavras que podem ser possiveis ou ate mesmo impossiveis na lingua, pode nos fornecer pistas de como o nosso cerebro lidaria com certas particularidades gramaticais.

Quanto a terceira questao, sobre a gradiencia que poderia ser encontrada, ela nao parece estar relacionada com a frequencia de ocorrencia dos itens, dado que pudemos observar o mesmo comportamento tanto em itens com alta frequencia de ocorrencia quanto nos logatomas.

Evidentemente, estudos futuros com um numero maior de dados devem ser efetivados para que os indicios aqui observados sobre o comportamento dos encontros consonantais tautossilabicos sejam ou nao ratificados. Enfatizamos a importancia da observacao dos detalhes foneticos, reforcando as caracteristicas individuais e os processos cognitivos que sao construidos de acordo com as experiencias da comunidade de fala na qual estamos inseridos. E acreditamos que o experimento aqui discutido possa contribuir com os estudos sobre a aquisicao fonologica do PB e com as possiveis variacoes intrinsecas aos segmentos.

Referencias

AVILA, Maria Carolina. A aquisicao do ataque silabico complexo: um estudo sobre criancas com idade entre 2:0 e 3:7. 2000. Dissertacao (Mestrado em Letras)--Curso de P os-Graduacao em Letras, Universidade Catolica de P elotas, Pelotas.

BRASIL, Brunah et al. O uso de alongamento compensatorio em diferentes gravidades do desvio fonologico. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, v. 15, n. 2, p. 231-237, 2010.

BYBEE, Joan. Language, usage and cognition. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.

--. From usage to grammar: the mind's response to repetition. Language, v. 82, n. 4, p. 711-733, 2006.

--. Phonology and language use. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.

--. Morphology: a study of the relation between meaning and form. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Company, 1985.

CRISTOFARO-SILVA, Thais. Descartando fonemas: a representacao mental na fonologia de uso. In: HORA, Dermeval da; COLLISCHONN, Gisela (Orgs.). Teoria linguistica: fonologia e outros temas. Universidade Federal da Paraiba: Editora Universitaria, 2002. p. 200-231.

EDWARDS, Jan et al. The interaction between vocabulary size and phonotactic probability effects on children's production accuracy and fluency in nonword repetition. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, v. 47, 421-436, 2004.

HUBACK, Ana Paula. Efeitos de frequencia nas representacoes mentais. 2007. Tese (Doutorado em Linguistica)--Programa de Pos-Graduacao em Estudos Linguisticos, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

LAMPRECHT, Regina. Antes de mais nada. In: LAMPRECHT, Regina (Org). Aquisicao fonologica do portugues: perfil de desenvolvimento e subsidios para terapia. Porto Alegre: Artmed, 2004. p. 17-32.

LAMPRECHT, Regina. A aquisicao da fonologia do portugues na faixa etaria dos 2:9-5:5. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 28, n.2, p. 99-106, 1993.

LOPES, Silvana et al. A producao do onset complexo: aquisicao guiada pela silaba ou pelo segmento? Revista CEFAC, v. 17(1), p. 78-87, 2016.

MAGALHAE S, Jose Sueli de. Producao de oclusivas mais liquidla nao-lateral e consciencia fonologica na fala de criancas em aquisicao da linguagem: analise pela Geometria de Tracos. 2000. Dissertacao (Mestrado em Linguistica)--Universidade Federal de Uberlandia, Uberlandia.

MASSINI-CAGLIARI, Gladis. Acento e Ritmo. Sao Paulo: Contexto, 1992.

MEZZOMO, Carolina; RIBAS, Leticia. Sobre a aquisicao das liquidas. In: LAMPRECHT, Regina (Org.). Aquisicao fonologica do portugues: perfil de desenvolvimento e subsidios para terapia. Porto Alegre: Artmed, 2004. p. 151-164.

MIRANDA, Izabel Cristina. Aquisicao e variacao estruturada de encontros consonantais tautossilabicos. 2007. Tese (Doutorado em Linguistica)--Programa de Pos-Graduacao em Estudos Linguisticos, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

NEVINS, Andrew. A utilidade de logatomas e lingua inventadas na fonologia experimental. Caderno de Squibs, v. 2, n. 1, p. 67-78, 2016.

PIERREHUMBERT, Janet. Exemplar dynamics: word frequency, lenition and contrast. In:

BYBEE, Joan; HOOPER, Paul (Eds.). Frequency effects and the emergence of linguistic structure. Amsterdam: John Benjamins, 2001. p. 137-157.

PHILLIPS, Betty. Word frequency and the actuation of sound change. Language, v. 60, n. 2, p. 320-342, 1984.

RIBAS, Leticia. Sobre a aquisicao do onset complexo. In: LAMPRECHT, Regina (Org.). Aquisicao fonologica do portugues: perfil de desenvolvimento e subsidios para terapia. Porto Alegre: Artmed, 2004. p. 151-164.

--. Onset complexo: caracteristicas da aquisicao. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 38, n. 2, p. 23-31, 2003.

--. Aquisicao do onset complexo no Portugues Brasileiro. 2002. Dissertacao (Mestrado em Letras)--Programa de Pos-Graduacao em Letras, Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

SILVA, Adelaide. Para a descricao fonetico-acustica das liquidas no portugues brasileiro: dados de um informante paulistano. 1996. Dissertacao (Mestrado em Linguistica)--Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

SILVEIRA, Francine; SEARA, Izabel Christine. Vogal de apoio em grupos consonantais CCV no Portugues Brasileiro. Revista da ABRALIN, v. 7, n. 1, p. 27-47, 2008.

SEARA, Izabel Christine. Estudo estatistico do portugues falado na capital de Santa Catarina para elaboracao de frases foneticamente balanceadas. 1994. Dissertacao (Mestrado em Linguistica)--Programa de Pos-Graduacao em Linguistica, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianopolis.

SILVEIRA, Francine. Vogal epentetica no Portugues Brasileiro: um estudo acustico em encontros consonantais. 2007. Dissertacao (Mestrado em Linguistica)--Programa de Pos-Graduacao em Linguistica, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianopolis.

STAUDT, Leticia. Aquisicao de onsets complexos por criancas de dois a cinco anos: um estudo longitudinal com base na teoria da otimidade. 2008. Dissertacao (Mestrado em Linguistica Aplicada)--Programa de Pos-Graduacao em Linguistica Aplicada, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Sao Leopoldo, Sao Leopoldo.

TEM TEM, Luiza. Rotacizacao das liquidas nos grupos consonantais: representacao fonologica e variacao. 2010. Dissertacao (Mestrado em Letras Vernaculas)--Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

TONI, Andressa. Estrategias de reparo ao ataque ramificado CCV na aquisicao fonologica. Revista Letras, Curitiba, n. 96, p. 255-286, 2017.

VIHMAN, Marilyn; CROFT, William. Phonological development: toward a "radical" templatic phonology. Linguistics, v. 45 (4), p. 683-725, 2007.

YAVAS, Mehmet et al. Avaliacao fonologica da crianca: reeducacao e terapia. Porto Alegre: Artmed, 2001.

Data de envio: 06/08/2018

Data de aceite: 17/12/2018

Mariane Garin Belando *

Cristiane Lazzarotto Volcao **

Izabel Christine Seara ***

* Doutoranda do Programa de Pos-Graduacao em Linguistica da Universidade Federal de Santa Catarina.

** Professora Associada do Departamento de Lingua e Literatura Vernaculas da Universidade Federal de Santa Catarina.

*** Professora Associada III da Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pos-Graduacao em Linguistica. Bolsista do CNPq--Brasil (308604/2015-6).

(1) Esta pesquisa foi aprovada pelo Comite de Etica em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da da Pro-Reitoria em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, sob processo numero 1.619.76.

(2) Utilizamos, neste trabalho, a fonte fonetica correspondente ao teclado grafico do Alfabeto Fonetico Internacional (IPA) disponivel em http://westonruter.github.io/ipa-chart/keyboard/, acesso em 21 de ago. 2017.

(3) Um exemplo observado em algumas falas de criancas e o composto vrum-vrum, utilizado para designar automoveis ou quaisquer outros veiculos para transporte, o que comportaria tal grupo consonantal em onset absoluto. Porem, essa construcao nao fara parte de nossa metodologia por ser distinta daquelas delimitadas no nosso corpus, apresentado na Secao 3.

(4) Disponivel em http://corpusbrasileiro.pucsp.br, ultimo acesso em set. 2017.

(5) Se determinassemos um valor fixo, como 50 ms, por exemplo, para o silencio caracteristico das oclusivas surdas, isto nao corresponderia a efetiva producao dos dados, devido ao seu carater artificial, assim como nao seria condizente com suas contrapartidas sonoras.

(6) Essa palavra foi apresentada no plural por conta da disposicao no slide, ou seja, foram apresentadas mais de uma fruta na figura, de forma generica, para que a crianca nao pronunciasse apenas maca ou laranja, por exemplo.

(7) Neste caso, a palavra foi pluralizada para que nao fosse produzido um monossilabo com coda: flor, o qual se diferenciaria das estruturas silabicas estabelecidas.

(8) Por se tratar de itens que foram pronunciados a crianca em situacoes anteriores a coleta dos dados, poderiam nao ser considerados como logatomas, mas como palavras novas incorporadas ao vocabulario da crianca. Porem, a expressao logatoma se mantem por serem itens nao pertencentes a lingua portuguesa, alem de terem sido dirigidos a crianca em apenas um determinado contexto situacional.

(9) Seria importante, para o estudo, computar logatomas que apresentassem onset simples para que pudessem ser comparados as palavras muito frequentes com onset simples estabelecidas. Mas, isso demandaria um maior esforco cognitivo a crianca, devido aos intervalos entre os encontros e por ter sido pedido aos familiares da crianca para que nao pronunciassem os logatomas, estando tais pronuncias restritas apenas a quem realizou o experimento.

(10) Programa desenvolvido por Paul Boersma e David Weenink (Universidade de Amsterda). Disponivel em: http://www.fon.hum.uva.nl/praat/, acesso em out. 2017.

(11) Script desenvolvido por Fernando Santana PACHECO (2008).

(12) Em muitos dados, a diferenca entre vozeado e nao vozeado nao era percebida de oitiva, sendo o vozeamento observado somente a partir da visualizacao dos pulsos glotais. Isso salienta a importancia do uso de analises acusticas detalhadas em pesquisas como a que realizamos aqui.

(13) Havia, no total, seis itens lexicais com a lateral como segunda consoante, sendo tres muito frequentes (blusa, flores, globo) e tres logatomas (blizu, fleru e gleba).

(14) As transcricoes de v sobrescrito correspondem a presenca da vogal de apoio.

(15) O logatoma "patletu" fez parte do calculo dos dados (dos 58,82%), pois ha a presenca de vogal de apoio, mesmo que tenha ocorrido metatese e esteja presente, portanto, na silaba pretonica. Do mesmo modo, sua silaba tonica tambem foi ponderada, fazendo com que tal item tenha sido duplamente contabilizado.

(16) As etiquetas foram estabelecidas para que pudessemos observar melhor o comportamento dessas vogais no espaco acustico plotado, que se encontra na Figura 6.

Caption: Figura 1: Forma de onda e espectrograma da silaba [tra] produzida por um homem adulto. Em (a), visualiza-se a vogal de apoio; em (b), visualiza-se o tepe e, em (c), a vogal nucleo da silaba.

Caption: Figura 2: Forma de onda e espectrograma da silaba [tia] produzida por uma mulher adulta. Em (a), visualiza-se a liquida lateral e, em (b), a vogal nucleo da silaba.

Caption: Figura 3: Producao de kvro na palavra "globo", com a presenca da consoante nao vozeada [k], da vogai de apoio (a), do tepe (b) e da vogal nucleo (c).

Caption: Figura 4: Forma de onda e espectrograma de "fio" na palavra "flores", produzida como [fro] com a presenca do tepe (b) (no lugar da lateral) seguido da vogal nucleo da silaba (c), mas sem a vogal de apoio a esquerda do tepe.

Caption: Figura 5: Forma de onda e espectrograma da silaba "fie" do logatoma "fleru" produzida como [fre] com a presenca do tepe (b) e a vogal nucleo (c), mas sem a vogal de apoio.

Caption: Figura 6: Espaco acustico plotado a partir dos valores de F1 e F2 das vogais de apoio (VA) e das vogais nucleo (VN) produzidas pela crianca.
Tabela 1: Duracao das silabas tonicas em relacao a duracao
das palavras.

Itens          Silabas       Duracao relativa (%)

braco      ['[b.sup.v]ra]           50,87
bota            ['bo]               49,23
"bressi"   ['[b.sup.v]re]           52,76
blusa      ['[b.sup.v]ru]           49,76
bola            ['bo]               47,96
"blizu"    ['[b.sup.v]ri]           58,88
frutas         ['fru]               45,30
fita            ['fi]               43,84
"frissa"       ['fri]               67,28
flores         ['fro]               60,97
fada            ['fa]               51,63
"fleru"        ['fre]               71,33
grito      ['[g.sup.v]ri]           54,05
gato            ['ga]               33,13
"grutu"    ['[g.sup.v]ru]           49,70
globo      ['[k.sup.v]ro]           44,29
goma            ['go]               42,19
"gleba"    ['[g.sup.v]vre]          45,38

Tabela 2: Duracao relativa das vogais de apoio e das vogais
nucleo e seus valores de F1 e F2 extraidos.

Etiquetas (16)     Itens        Silabas       Duracao    Duracao
                                              relativa   relativa
                                                (VA)       (VN)

V1p                braco     ['[b.sup.v]ra]     8,20      67,94
V1log            "bressi"    ['[b.sup.v]re]     8,25      65,12
V2p                blusa     ['[b.sup.v]ru]     3,74      80,37
V2log             "blizu"    ['[b.sup.v]ri]     8,37      80,15
V3p               frutas         ['fru]          --       39,18
V3log            "frissa"        ['fri]          --       51,36
V4p               flores         ['fro]          --       51,68
V4log             "fleru"        ['fre]          --       65,12
V5p               estrela        ['tew]          --       55,19
V5log            "petreli"       ['te]           --       56,11
V6p               atleta     ['[t.sup.v]re]     5,84      76,89
V6log            "patletu"   [[p.sup.v]ra]     10,89      65,27
                                 ['te]           --       62,35
V7p                grito     ['[g.sup.v]ri]    20,70      65,31
V7log             "grutu"    ['[g.sup.v]ru]    15,14      68,71
V8p                globo     ['[k.sup.v]ro]     8,59      73,04
V8log             "gleba"    ['[g.sup.v]re]     7,45      72,93

Etiquetas (16)      Vogal de     Vogal nucleo
                      Apoio

                  F1     F2      F1      F2

V1p              542    1837    1103    1923
V1log            685    2070     843    2256
V2p              517    1972     548    1708
V2log            473    2295     494    2279
V3p              376    1806     565    1471
V3log            390    2198     510    2429
V4p               --     --      667    1549
V4log             --     --      748    2250
V5p               --     --      508    1537
V5log             --     --      776    2422
V6p              586    1996    1021    2330
V6log            597    1837     857    2470
                  --     --      664    2450
V7p              550    2363     557    2464
V7log            552    1650     536    1182
V8p              515    1298     672    1464
V8log            488    2066     520    2010

Quadro 1 : Palavras com alta frequencia de ocorrencia
analisadas no presente estudo

       Itens lexicais   Frequencia de ocorrencia

/br/       braco                 18.617
/b/         bota                 2.014
/bl/       blusa                 1.216
/b/         bola                 36.292
/fr/     frutas (6)              18.079
/f/         fita                 14.690
/fl/     flores (7)              21.691
/f/         fada                 1.039
/tr/      estrela                11.696
/t/       costela                1.511
/tl/       atleta                13.296
/t/        pateta                1.023
/gr/       grito                 4.931
/g/         gato                 6.314
/gl/       globo                 4.736
/g/         goma                 1.604

Quadro2: Logatomas criados para o presente estudo.

        Logatomas

/br/    ['bresi]
/bl/    ['blizu]
/fr/    ['frise]
/fl/    ['fleru]
/tr/   [pe'treli]
/tl/   [pa'tletu]
/gr/    ['grutu]
/gl/    ['glebe]

Quadro 3: Transcricoes foneticas das producoes do corpus
pela crianca.

         Itens       Transcricoes (14)

/br/     braco      ['[b.sup.v]rasu]
/br/   "bressi"     ['[b.sup.v]resi]
/bl/     blusa      ['[b.sup.v]ruze]
/bl/    "blizu"     ['[b.sup.v]rizu]
/fr/    frutas         ['frutes]
/fr/   "frissa"         ['frise]
/fl/    flores         ['froris]
/fl/    "flern"         ['freru]
/tr/    estrela        [estewta]
/tr/   "petreli"        [peteli]
/tl/    atleta     [a'[t.sup.v]rete]
/tl/   "patletu"   [[p.sup.v]ra'tetu]
/gr/     grito      ['[g.sup.v]ritu]
/gr/    "grutu"     ['[g.sup.v]rutu]
/gl/     globo      ['[k.sup.v]robo]
/gl/    "gleba"     ['[g.sup.v]reba]
COPYRIGHT 2018 Federal University of Juiz de Fora (UFJF)
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2018 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Belando, Mariane Garin; Volcao, Cristiane Lazzarotto; Seara, Izabel Christine
Publication:Veredas - Revista de Estudos Linguisticos
Date:Jul 1, 2018
Words:8687
Previous Article:Notes on causativity in Timbira languages/Anotacoes sobre causatividade em linguas Timbira.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters