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Access, educational practice and empowerment of patients with chronic diseases/Acesso, pratica educativa e empoderamento de pacientes com doencas cronicas.

Introducao

Cada vez mais comuns em nossa sociedade, as doencas cronicas estao mais presentes nos servicos de saude, requerendo atencao redobrada dos seus profissionais.

A condicao cronica pode ser considerada como uma experiencia de vida permanente, causada por doencas que acarretam perdas e disfuncoes, alem da alteracao no quotidiano. Essa permanencia causa estresse devido a alteracao da imagem corporal, necessidade de adaptacao social e psicologica, alem de mudanca na expectativa de vida (1).

As Doencas Cronicas Nao Infecciosas (DCNI) exercem papel importante no perfil atual de saude das populacoes humanas e a discussao acerca desse tema vem conquistando cada vez mais espaco no sentido de sermos capazes de manter a integridade, a independencia e a autonomia dos individuos acometidos. Estimativas da Organizacao Mundial de Saude (OMS) apontam que as DCNI ja sao responsaveis por 58,5% de todas as mortes ocorridas no mundo e por 45,9% da carga global de doenca (2).

O sistema de saude encontra-se focado na doenca aguda ao inves de doencas cronicas, o que culmina em pacientes desinformados e despreparados para realizar o autocuidado. Os planejamentos das visitas sao breves e nao ha certeza de que as necessidades agudas e cronicas serao eficientemente atendidas (3).

Para que haja melhoria dos cuidados cronicos, e necessaria uma articulacao entre a organizacao fornecedora e a comunidade, utilizandose os recursos comunitarios (3). O servico de saude precisa de reorganizacao pela implantacao de uma rede integrada de servicos para, assim, garantir o cuidado continuo (4). Sousa (5), faz reflexoes sobre mudancas de paradigma e concepcoes do atual modelo ainda focado na doenca, pelo Modelo de Cuidados Cronicos, que tem na abordagem a pessoa, com seus problemas diversos, a complementaridade com os profissionais de saude, a comunidade, o paciente e sua familia.

Os cuidados cronicos ocorrem dentro de tres esferas interdependentes: a comunidade, com suas politicas e recursos; o sistema de saude; e a organizacao fornecedora, seja uma pequena clinica, uma rede frouxa de praticas sanitarias ou um sistema domiciliar integrado (3). A filosofia do modelo de cuidados cronicos prega a melhoria na qualidade do atendimento aos pacientes com doencas cronicas, por meio de uma abordagem pro-ativa, capaz de prever e antecipar possiveis complicacoes e exacerbacoes da doenca e apresentar o envolvimento dos pacientes, de sua familia e da comunidade, alem de uma forte integracao entre cuidados primarios e secundarios, da utilizacao de programas de cuidados e de condutas baseadas em evidencias (4).

O empoderamento e um processo educativo destinado a ajudar os pacientes a desenvolver conhecimentos, habilidades, atitudes e autoconhecimento necessario para assumir efetivamente a responsabilidade com as decisoes acerca de sua saude (6). Pacientes mais informados, envolvidos e responsabilizados (empoderados), interagem de forma mais eficaz com os profissionais de saude tentando realizar acoes que produzam resultados de saude (7).

Este estudo teve como objetivo analisar as percepcoes dos usuarios com doencas cronicas, em acompanhamento na Estrategia Saude da Familia sobre o empoderamento.

Metodologia

O estudo qualitativo descritivo foi desenvolvido em Fortaleza-Ceara-Brasil, com a apreensao do autocuidado a partir das percepcoes dos pacientes com doencas cronicas sobre empoderamento. O campo de pesquisa foi de tres Unidades de Saude da Familia. Os criterios para sua selecao foram: 1) ter equipe minima completa de Saude da Familia (Medico, Enfermeiro, 6-12 Agente Comunitario de Saude, Auxiliar de Enfermagem); 2) possuir Nucleo de Apoio a Saude da Familia (NASF). Os dados foram coletados em entrevistas abertas e observacao sistematica com pacientes.

Foram selecionados intencionalmente para participar da pesquisa dez usuarios com diabetes e/ou hipertensao atendidos na Estrategia Saude da Familia em cada uma das USF estabelecidas, totalizando trinta usuarios, todos eram participantes de grupo de educacao em saude desenvolvido pela equipe (quando havia) ou outra atividade educativa na comunidade e assistidos em visita domiciliar.

No tocante a observacao, a pesquisadora participou de algumas atividades que integraram o itinerario terapeutico do paciente com doenca cronica, observando e registrando no diario de campo os seguintes cenarios: visita domiciliar, consulta individual, consulta coletiva e atividade em grupo, sala de espera e triagem. Esta observacao permitiu captar informacoes que foram complementares as entrevistas.

Os dados foram analisados adotando como ferramenta para organizacao e analise dos dados o software Qualitative Solutions Research Nvivo (QSR) para analise qualitativa de dados, desenvolvido pela Universidade de La Trobe, Melbourne, Australia (8).

Inicialmente todos os dados foram transcritos para o software na forma de documentos com a extensao *.rtf (rich text format) disponivel no Microsoft Word. E para que o processo de recorte e agrupamento fosse facilitado todas as linhas do texto foram numeradas.

Sendo assim, os passos realizados na aplicacao do N-vivo foram: 1) codificacao ou categorizacao --representacao de uma categoria ou ideia abstrata onde e possivel armazenar sua definicao e que no N-vivo nomeia-se de "nos"; 2) conceituacao das Categorias; 3) Agrupamento; e 4) analise dos dados.

Na realizacao desta pesquisa, obedeceu-se a Resolucao 196/96 do Conselho Nacional de Saude (9), que regulamenta os aspectos etico-legais da pesquisa com seres humanos, mediante a aprovacao do projeto guarda-chuva pelo Comite de Etica em Pesquisa da Universidade Estadual do Ceara.

Por fim, ressalte-se que a coleta de dados foi realizada no periodo de uma epidemia de dengue, onde os postos de saude estavam totalmente mobilizados em dar assistencia aos doentes agudos para evitar a superlotacao dos hospitais.

Alem disso, no mesmo periodo houve uma greve dos profissionais, o que limitou o numero de atendimentos nos postos e, consequentemente, dificultou localizar pacientes com doencas cronicas. Tambem encontramos empecilhos em acompanhar os grupos de educacao e visita domiciliar em algumas regionais, pois os mesmos foram suspensos devido a paralisacao dos profissionais.

Por se tratar de uma pesquisa com usuarios da ESF em alguns postos nao havia um local adequado para a realizacao das entrevistas, muitas vezes tendo que realiza-las na fila do atendimento. Isso dificultou um pouco na concentracao deles, alem de dificultar a gravacao por conta do ruido externo.

Resultados e discussao

Dentre as categorias elaboradas teceremos discussao em relacao as barreiras ao acesso e as possibilidades de enfrentamento pelo empoderamento, O papel do empoderamento na relacao profissional-paciente e a pratica educativa e empoderamento na relacao de cuidado.

Barreiras ao acesso e possibilidades de enfrentamento pelo empoderamento

Os pacientes com doencas cronicas necessitam de acompanhamento constante, porem a realidade dos usuarios pesquisados aponta a existencia de barreiras geograficas que impossibilitam sua locomocao, o acesso aos servicos de saude e, por consequencia, restringem as possibilidades da adesao terapeutica.

O acesso e apresentado como um dos elementos do sistema de saude, dentre aqueles ligados a organizacao dos processos de trabalho, que se refere a entrada nele, recebimento de cuidados subsequentes que garantam a continuidade do tratamento (10), sendo a garantia de acesso resolutivo, em tempo oportuno e com qualidade, as acoes e servicos o maior desafio do Sistema Unico de Saude-SUS (11).

Percebeu-se neste estudo que a maior dificuldade esta na distqancia entre o domicilio e a Unidade de Saude da Familia. Como dependem do transporte publico para sua locomocao, muitas vezes nao conseguem chegar tao proximo do posto, pois a organizacao da malha viaria dificulta a acessibilidade, e o usuario realiza longas caminhadas, que os leva a fadiga agravada pela condicao de vulnerabilidade e a falta de estimulo em sequenciarem o tratamento.

Com eles carregam apenas os anseios e a esperanca de conseguir um atendimento diferenciado e humanizado, o que contraria as evidencias cientificas as quais sugerem que pacientes com condicoes cronicas obtem melhor resultado clinico quando recebem tratamento efetivo dentro de um sistema integrado de cuidado, o que inclui o suporte ao autocuidado e acompanhamento regular (12); os principios do Modelo de Cuidado Cronico (3); e as diretrizes da Politica Nacional de Humanizacaoi (13).

E importante considerar que na perspectiva da saude coletiva, as condicoes de desigualdade persistentes em dada realidade constituem iniquidades a serem enfrentadas visando diminuir as vulnerabilidades a que certos grupos populacionais estao expostos, e que resultam de determinantes sociais da saude como niveis de escolaridade e de renda, condicoes de habitacao, transporte, entre outros (11). O empoderamento aparece como peca-chave na promocao da saude desde a Carta de Ottawa em 1986, entendido como processo de capacitacao dos individuos e comunidades para assumirem maior controle sobre os fatores pessoais, socioeconomicos e ambientais que afetam a saude14. Esta relacionado tambem com a equidade, as condicoes reais que as pessoas tem a seu favor para obterem condicoes de vida saudavel, a comunicacao e a participacao social.

O empoderamento requer o dialogo entre o profissional da saude e a comunidade, de modo a identificar necessidades que levem a uma intervencao em virtude do que a comunidade precisa, contando com seu protagonismo na fixacao da agenda da promocao da saude (15). Nesse sentido, acoes intersetoriais, envolvimento do controle social e escuta as necessidades dos usuarios podem ser articuladas no contexto, visando estabelecer compromissos e projetos para a melhoria das condicoes do acesso da populacao aos servicos locais de saude.

O papel do empoderamento na relacao profissional-paciente

Sabe-se que o paciente com doenca cronica, hipertensao e diabetes, necessita cuidar-se constantemente, ser corresponsavel pela manutencao de sua saude e qualidade de vida, gerir sua vida rodeada de cuidados com alimentacao, atividade fisica, ingestao de medicamentos corretamente, assim como sua saude mental. De tal forma, observamos que alguns pacientes aguardam o momento da consulta para externarem suas angustias relativas a doenca, porem, em alguns momentos nao conseguem espaco para o dialogo e a relacao profissional-paciente nao se concretiza, o que repercute negativamente na continuidade do tratamento.

A importqancia da relacao clinica explica porque a adesao terapeutica depende mais do profissional de saude do que das caracteristicas pessoais do paciente. Em particular, o paciente e mais inclinado a corresponder a prescricao se pensa que conhece bem o profissional que o atende (16). Assim, percebemos que a aderencia ao autocuidado esta intimamente ligada a essa relacao, que deve ser baseada na confianca, no respeito aos anseios dos usuarios, na escuta as suas necessidades, no estabelecimento de vinculo e autonomia (17), o que possibilita a responsabilizacao (empoderamento), construcao de propostas terapeuticas promotoras de saude e, consequentemente, melhores resultados de saude (7).

Vivenciamos com os pacientes, no entanto, que, apos conseguirem a consulta, os profissionais de saude nao davam a devida importqancia a pessoa que estava a sua frente com suas duvidas e medos. Muitos relataram que a consulta "nao passa de uma transcricao de receitas". Narram que os profissionais nao se mostram dispostos a tirar duvidas nem a explicar procedimentos e cuidados a serem tomados.

Aqui nao ... so mesmo passam o remedio ... quando voce tem a primeira consulta ai eles verificam a pressao, tudo ... passam o remedio ... quando volta de novo que voce quer falar com ele, ele evita ... passa so aquele remedio que voce ja e acostumado a tomar ne? Elas as vezes pega a minha receita que ja vem, que ja ta acostumada, copia e pronto! (Usuaria 5)

Estas atitudes dos profissionais de saude da atencao primaria levam a interrogar: a qual modelo de atencao estao vinculados? Suas praticas indicam para um foco na conformidade, na qual a relacao do profissional de saude com o ser cuidado se reveste de autoridade que reduz a liberdade de escolha do paciente. Este agir clinico e considerado adequado para doencas agudas, porem, limitado para responder aos problemas de saude; contrario, portanto, ao empoderamento, que propicia um processo de negociacao levando em conta as necessidades, as expectativas e a cultura do paciente.

O encontro do profissional da saude com o usuario e historico, se da a cada situacao singular, nao e possivel ajustar-se a uma regra ou prescricao. Nele ocorre um encontro de escolha de valores de vida em busca da producao do comum, nao cabe ao profissional so saber a necessidade do usuario, mas captar as capacidades dos individuos e comunidades na producao do comum como forca propulsora para prosseguir a vida reinventando novos modos de viver (18). O empoderamento neste sentido pode propiciar que renormalizacoes ocorram e os profissionais podem, assim, questionar os niveis de governanca e e favorecido tambem o repensar das politicas de saude.

Transformar praticas de saude, portanto, exige mudancas no processo de construcao dos sujeitos envolvidos no trabalho em saude. Apenas com profissionais e usuarios protagonistas e corresponsaveis e possivel efetivar a aposta que o SUS faz na universalidade do acesso, na integralidade do cuidado e na equidade das ofertas em saude. Requer, assim, novos sujeitos implicados em novas praticas de saude. Pensar a saude como experiencia de criacao de si e de modos de viver e tomar a vida em seu movimento de producao de normas e nao de sujeicao a elas (19).

Uma vez que a doenca cronica exige um tratamento permanente, faz-se necessario que o individuo cultive habitos e atitudes que promovam a consciencia para o autocuidado. Portanto, aderir ao tratamento e imprescindivel para o controle da condicao cronica e o sucesso da terapia proposta.

A adesao ao tratamento esta relacionada a fatores comportamentais, como percepcao e formas de enfrentamento das adversidades, assim como a fatores externos, tais como problematicas de vida e redes de apoio (20). A vivencia de cada usuario interfere na maneira de visualizar sua doenca em seu contexto de vida, e, desta forma, tambem em como ele participa no tratamento. Por isso, e necessario sensibilidade ao profissional de saude para perceber cada individuo como unico e, desta maneira, adaptar sua forma de assistencia para cada pessoa. Deve colocar como foco de sua atencao a pessoa e nao a doenca, transformando a relacao de cuidado na medida em que o individuo se torna sujeito ativo de seu tratamento (21).

Assim, compreender a percepcao desses usuarios sobre sua realidade, experiencias vividas, promover o empoderamento e, ate mesmo, o que consideram cuidado de si, e importante para que os profissionais procedam na conduta terapeutica embasados, aumentando, assim, as chances de negociacao e elaboracao de plano de acao conjunto ao tratamento. Na verdade, o paciente e o unico e verdadeiro arquiteto de sua propria saude e bemestar. O problema nao e se ele controla a propria doenca, mas como consegue gerenciar sua vida apesar da enfermidade. O empoderamento do paciente e o autocuidado sao, portanto, a forma mais eficaz para lidar com as doencas cronicas, permitindo que o paciente tome uma consciencia critica em relacao a seus problemas de saude.

Deve-se alertar para o fato de que algumas pessoas do estudo utilizam terapias populares para cuidar-se e muitas vezes determinam maior interesse a tais praticas do que as indicacoes de medicamentos. Cabe ao profissional de saude o papel de conhecer e respeitar tais praticas, mantendo uma relacao de confianca onde a cultura do usuario nao seja ignorada. Os profissionais nao podem negar a cultura popular, nem descuidar do acompanhamento e controle das condicoes biofisiologicas dos pacientes, de forma a intervir antes que consequencias mais graves sejam instaladas (22). No entanto, o que percebemos foi que os profissionais de saude nao levam em conta tais conhecimentos populares, muitas vezes condenando-os e isso faz com que a relacao profissional-paciente torne-se vulneravel.

Visualizar o individuo de forma diferenciada da preconizada no modelo convencional permite ao profissional de saude o desempenho de uma assistencia com abordagem integral. Dessa forma, sua acao deixa de limitar-se a cura de doencas ou ao tratamento de sintomatologias e passa a contribuir para um melhor desempenho nas questoes referentes ao processo saude-doenca e, consequentemente, na qualidade de vida do usuario e das comunidades.

Muitos profissionais vem descobrindo a grande potencialidade da relacao dialogada profunda com seus pacientes e com os grupos comunitarios locais para a reorganizacao das praticas de assistencia e promocao da saude, mas vao descobrindo que nao basta querer se aproximar e dialogar. O dialogo entre o profissional de saude e a populacao e dificil. Ha muitos bloqueios culturais, distanciamentos pela desigualdade de poder e desentendimentos. A educacao popular gera praticas de atencao e de promocao a saude extremamente inovadoras e eficazes para quem busca a integralidade e a justica social (23).

Pratica educativa e empoderamento na relacao de cuidado

A educacao destina-se a formar a consciencia critica e a autonomia. Requer a escuta ativa e o dialogo aberto e igual, ja que o objetivo final da educacao nao e apenas uma compreensao da informacao, mas incentivar as pessoas a definir os seus proprios problemas, encontrar as solucoes para si e lidar com eles de forma eficaz, mesmo sob o aspecto emocional (24).

No cotidiano das UBS do municipio de Fortaleza nao ha espaco para o desenvolvimento de acoes de educacao em saude, pois, priorizam-se medidas clinicas assistenciais. Sabe-se que algumas doencas cronicas, como hipertensao e diabetes, dentre outras, requerem uma intervencao constante nao so medicamentosa, mas tambem mediante troca de informacoes, acompanhamentos e orientacoes junto a comunidade, para que se consiga maior resolutividade no tratamento, na cura e eliminacao, facetas estas, cabiveis, por intermedios de acoes de "educacao em saude" integradas ao dia a dia da clinica.

No entanto, o espaco pertinente para seu desenvolvimento e minimo na realidade das acoes assistenciais neste cenario da atencao primaria. Assim, tanto os gestores como os profissionais de saude nao demonstram interesse em "perder tempo" com esse tipo de atividade, procedimento absorvido pela maioria dos integrantes da comunidade, que nao percebem uma intervencao educativa como assistencia a saude, preferindo o metodo tradicional de consulta e prescricao medicamentosa.

Os usuarios que nunca tiveram contato com praticas de educacao em saude nao reconhecem tal atividade como modificadora de sua realidade. No entanto, apreciariam se seus sentimentos e duvidas fossem considerados durante a consulta. Ja aqueles que obtiveram a oportunidade de experimentar essas praticas sentem-se motivados a cuidarem de si, e a multiplicar esses conhecimentos.

Quando a gente vai pra consulta os doutor nao tem tempo de olhar nem pra gente, quem dira de escutar nossos medos, nossas duvidas, mas aqui no grupo nao, a gente fala o que pensa, o que vive e entende melhor das coisas, ai a gente se sente importante, passa a querer ensinar os outros, a cuidar da gente, a viver melhor ... (Usuaria 12).

Assim, quando a situacao dos atores sociais envolvidos na relacao terapeutica nao e compreendida, infere-se erroneamente acerca dos motivos que levam os usuarios a nao desempenharem praticas de autocuidado. Os profissionais de saude parecem nao reconhecer os pacientes como capazes de realizar seu proprio cuidado, deixando, assim, de orienta-los, informa-los e de realizar praticas de educacao em saude que levem ao empoderamento em sua interacao clinica. Diante disso, perdem a oportunidade de conhecer historias de vida, assim como os problemas vivenciados, causando grandes lacunas na relacao profissional-paciente.

Ao conhecer a realidade do usuario e analisar sua fala, percebemos que multiplos fatores impedem o empoderamento, pois as relacoes estabelecidas nao favorecem que o mesmo tenha o dominio sobre sua vida (25), embora, muitas vezes, deseje ser ativo na interacao do cuidado nao encontra subsidios para faze-lo.

Diante do que foi discutido, o fator educacao, no que se refere a dificuldade de promocao do empoderamento do paciente para assumir responsabilidade pelas decisoes sobre sua vida e saude, foi apreendido por nos como o principal desencadeador dos outros aspectos que inibem acoes de autocuidado. Assim, os proprios usuarios relatam que o "nao conhecimento acerca de sua doenca", assim como "a gravidade" e as possiveis "complicacoes" levam-nos a nao seguir as orientacoes sugeridas pelos profissionais.

Faz-se necessaria a efetiva participacao de todos os profissionais inseridos na ESF em uma pratica educativa na atencao dispensada ao usuario. Tal atividade, alem de orientar e tirar duvidas, estimula a confianca na relacao profissional-paciente, assim como torna os usuarios individuos conscientes e corresponsaveis pelo seu tratamento. O ensino do cuidado de si e um processo importante, pois ajuda o individuo na ampliacao do conhecimento do processo saudedoenca, aprimorando a autopercepcao e beneficiando a mudanca de habitos necessaria25.

Um dos caminhos para o desenvolvimento do cuidado permanente e a abordagem do usuario enquanto cidadao e protagonista. O autocuidado evidencia-se de forma relacional, sendo que paciente e profissional dependem um do outro para realizar o cuidado. Nesta vertente, o conhecimento e o acesso as informacoes sao imprescindiveis para a realizacao de escolhas, e nisto incluem-se as praticas de empoderamento, que podem atender a estrategia basica para a promocao da saude, considerada como tecnologia educacional inovadora.

O cuidado empoderador surge como uma atividade intencional que permite a pessoa adquirir conhecimento de si mesmo e daquilo que a cerca, podendo exercer mudancas nesse ambiente e na sua propria conduta. Alem disso, capacita o doente cronico a definir os seus proprios problemas e necessidades, a compreender como pode resolver esses problemas com os seus recursos ou com apoios externos, e a promover acoes mais apropriadas para fomentar uma vida saudavel e de bem-estar (26).

E importante visualizar que trabalhar com saude da familia exige a analise acurada do contexto socioeconomico e cultural em que esta se insere, suas representacoes perante a sociedade, desvendar o entendimento da familia, para que o conhecimento se consolide na pratica, de forma a superar limites e possibilidades para a concretizacao das propostas terapeuticas (22).

Por fim, os usuarios sugerem a construcao de espacos de bem-estar com profissionais qualificados que orientem praticas de exercicios fisicos, alem de atividades que promovam o relaxamento e a integracao entre pessoas da comunidade. Relatam tambem que a revitalizacao de pracas e parques publicos seria um grande incentivo para a realizacao de praticas de autocuidado.

Aprendemos com essas falas que a melhor forma de incentivar o autocuidado e com a aproximacao da equipe com a comunidade. Somente conhecendo suas particularidades e suas necessidades e que a ESF podera adequar sua conduta e, assim, alcancar seus objetivos.

A pessoa esclarecida, familiarizada de sua condicao de ser com doenca cronica, envolvida em seu tratamento tende a sentir-se mais segura e esperancosa quanto a evolucao e prognostico de sua doenca. Assim, os profissionais de saude, ao trabalharem com doentes cronicos, devem ter em mente que o cuidado e uma via de mao dupla, em que o ensinar e o aprender sao construidos em bases de reciprocidade, entre pessoas e saberes (21).

Consideracoes finais

As informacoes coletadas nos revelaram o importante papel que o profissional de saude desempenha no empoderamento do usuario para um cuidado promotor de saude. A sua atuacao perpassa as demais dificuldades encontradas, no sentido de orientar as medidas necessarias e cabiveis que cada usuario e/ou comunidade podera realizar de acordo com a sua realidade.

Desta forma, torna-se necessario reestruturar a conduta dos profissionais inseridos na Estrategia Saude da Familia, pois e funcao primordial promover a saude, tanto individual como da coletividade. Assim, com esse intuito e essencial uma pratica em saude humanizada, focada tambem nos seus determinantes sociais. Deve-se repensar a Promocao da Saude em uma logica intersetorial (saude, urbanizacao, transporte e seguranca) e interdisciplinar. Somente conhecendo de perto os usuarios, o contexto, as potencialidades e as adversidades da populacao atendida e que os profissionais irao manter uma relacao profissionalpaciente que propicie o empoderamento.

Sabe-se que a pratica do autocuidado e focada em uma relacao dialogica, na qual profissionais e pacientes devem compreender que seu sucesso depende da negociacao partilhada. Faz-se necessario, portanto, que os profissionais desenvolvam uma pratica pautada na interacao e na troca de experiencias entre os integrantes da equipe de saude, com vistas a oferecer uma assistencia integral, que valorize o autocuidado como parte da vida, necessario ao bem-estar e desenvolvimento humano.

Acrescente-se ainda que as decisoes e o compromisso dos gestores tem papel fundamental na qualidade do cuidado no que diz respeito a melhoria do acesso a UBS, ambientacao das pracas publicas, maior policiamento nas ruas, alem de proporcionar espacos e incentivos a participacao e educacao popular.

Por fim, ao pensar um novo modelo de assistencia ao doente cronico torna-se necessario reestruturar a qualificacao dos profissionais inseridos na Estrategia Saude da Familia, inserir o empoderamento como pilar da sua pratica de cuidado, uma vez que tem como funcao a promocao da saude, em uma logica intersetorial e interdisciplinar.

Colaboradores

PS Taddeo, KWL Gomes, A Caprara, AMA Gomes, GC Oliveira e TMM Moreira participaram igualmente de todas as etapas de elaboracao do artigo.

Referencias

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Artigo apresentado em 30/04/2012

Aprovado em 17/07/1012

Versao final apresentada em 30/08/2012

Patricia da Silva Taddeo [1]

Kilma Wanderley Lopes Gomes [1]

Andrea Caprara [1]

Annatalia Meneses de Amorim Gomes [1]

Giselle Cavalcante de Oliveira [1]

Thereza Maria Magalhaes Moreira [1]

[1] Departamento de Saude Publica, Centro de Ciencias da Saude, Universidade Estadual do Ceara. Av. Paranjana 1700, Itaperi. 60740-000 Fortaleza CE. patriciataddeo@hotmail.com
COPYRIGHT 2012 Associacao Brasileira de Pos-Graduacao em Saude Coletiva - ABRASCO
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Taddeo, Patricia da Silva; Gomes, Kilma Wanderley Lopes; Caprara, Andrea; Gomes, Annatalia Meneses d
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Nov 1, 2012
Words:4700
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