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Abilities and skills among Family Health Strategy workers/Habilidades e competencias entre trabalhadores da Estrategia Saude da Familia/Habilidades y capacidades de los trabajadores en la Estrategia Salud de la Familia.

Introducao

O presente artigo versa sobre o trabalho interdisciplinar desenvolvido no ambito da Estrategia Saude da Familia--ESF, no Municipio de Fortaleza, Estado do Ceara, tendo como objetivo compreender as percepcoes dos trabalhadores envolvidos no cotidiano das praticas, acerca dos lugares ocupados pelas diferentes categorias profissionais nessa proposta de atencao primaria em saude.

A Estrategia Saude da Familia surge no Brasil em 1994, como PSF--Programa Saude da Familia, na tentativa de contribuir para a consolidacao do Sistema Unico de Saude--SUS, mediante o fortalecimento da atencao primaria a saude. A sua apropriacao como estrategia, no intuito de transcender a nocao restrita e eleitoreira atribuida a categoria programa, tem inicio em 1997, quando o Ministerio da Saude assinala seu destacado papel na reorientacao do modelo assistencial (Fraiz, 2007; Brasil, 1997).

Com efeito, a partir desse marco, se atribui, a Estrategia Saude da Familia, a responsabilidade pelo desenvolvimento e aplicacao de propostas referentes a organizacao do processo de trabalho e a atencao a saude. Pretendia-se, assim, superar as praticas de cuidado eminentemente curativas alavancadas pelo Modelo Medico-Assistencial Privatista (Paim, 2003).

Em suma, competiria, a Estrategia Saude da Familia, a responsabilidade de viabilizar o SUS como um modelo assistencial plural, cuja enfase estaria na promocao da saude, com o objetivo de alterar a volumosa demanda espontanea por acoes e servicos de saude, por meio da organizacao e do controle dessa mesma demanda.

Para levar a cabo uma tarefa dessa envergadura, seria imprescindivel operar inumeras transformacoes na producao do cuidado em saude. Dentre estas, assinala-se a abordagem da acao em saude voltada a familia e seu contexto, passando a demandar um olhar e um fazer interdisciplinares (Fraiz, 2007).

Segundo o Ministerio da Saude (Brasil, 2011), "esta concepcao supera a antiga proposicao de carater exclusivamente centrado na doenca, desenvolvendo-se por meio de praticas gerenciais e sanitarias, democraticas e participativas, sob a forma de trabalho em equipes, dirigidas as populacoes de territorios delimitados, pelos quais assumem responsabilidade" [grifo nosso].

E importante destacar que a producao cotidiana do cuidado em saude depende, em grande parte, das competencias dos trabalhadores da saude, bem como do grau de interacao entre as varias identidades profissionais no ambito da Estrategia Saude da Familia (Silva, Felix, 2007). Esse conjunto de atributos desejaveis aos trabalhadores da saude consta como competencias e habilidades nas Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos da area de Saude (Brasil, 2001).

As competencias que se esperam dos profissionais de saude podem ser circunscritas a tres dominios (Saupe et al., 2007; Silva, Felix, 2007): o conhecimento (saber); as habilidades (saber fazer); e as atitudes (saber ser e conviver/querer fazer). Pode-se ainda identificar, nesses dominios, competencias clinicas e nao clinicas (Silva, Tanaka, 1999).

O verbete competencia e definido, em Ferreira (2009), como "qualidade de quem e capaz de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa; capacidade, habilidade, aptidao, idoneidade". Para Perrenoud (1999, p.7), significa "uma capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situacao, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles". E continua, afirmando que, "para enfrentar um situacao da melhor maneira possivel, deve-se, via de regra, por em acao e em sinergia varios recursos cognitivos complementares, entre os quais estao os conhecimentos" (Perrenoud, 1999, p.7).

No campo da formacao e do trabalho em saude, as competencias aparecem como recursos demandados aos trabalhadores, materializados via conhecimentos, habilidades e atitudes imprescindiveis para consolidacao do Sistema Unico de Saude e Estrategia Saude da Familia (Saupe et al., 2007), entendido como um conjunto de processos tecnicos e sociais.

Entendemos que as varias identidades profissionais que interagem na Estrategia Saude da Familia, se horizontalmente organizadas e articuladas, podem atuar sinergicamente e enxergar o contexto social e psicoafetivo de historias de saude de individuos e de familias (Silva, Felix, 2007), ampliando o potencial resolutivo da atencao basica a niveis mais proximos do que se apregoa (Fraiz, 2007).

Essa expectativa, em relacao aos processos humanos que se estabelecem no trabalho em saude, e que muito se reitera nos documentos oficiais, remete-nos invariavelmente a discussao acerca da hierarquia de saberes e de poderes no cotidiano das praticas e do cuidado. No entanto, a despeito da sua importancia, ainda e escassa a producao cientifica concernente a essa tematica, sinalizando uma lacuna que carece ser preenchida, a fim de se identificar a intensidade do avanco ou da permanencia registrados nessas relacoes e, por conseguinte, produzir respostas que contribuam para a superacao de hiatos que ainda se observam entre a teoria e a pratica no cotidiano dos servicos de saude.

Percurso metodologico

Ante a diversidade de vertentes que caracterizam a tradicao qualitativa (Denzin, Lincoln, 2006; Tesch, 1995), esta investigacao se alinha com o enfoque critico-interpretativo, uma vez que toma a subjetividade na interface com a materialidade a que se vincula, dialeticamente. Noutras palavras, essa conjuncao possibilita construir uma reflexao critica acerca do objeto, com a pretensao de subsidiar acoes de intervencao, entendendo a pesquisa como processo transformador no sentido da ampliacao dos horizontes de compreensao dos atores envolvidos.

O espaco de observacao deste estudo compreende o Municipio de Fortaleza, capital do Estado do Ceara, Nordeste do Brasil, em funcao da expressiva ampliacao das equipes de Saude da Familia e da cobertura da Estrategia Saude da Familia, e incorporacao de um conjunto de acoes voltadas a efetiva alteracao do modelo assistencial, observada a partir de 2006.

Fortaleza e um municipio com populacao estimada em 2.458.545 habitantes. O municipio se subdivide politico-administrativamente em seis Secretarias Executivas Regionais (SER), responsaveis pela operacionalizacao das politicas publicas governamentais, onde se inserem seis Distritos de Saude, que atendem a populacao residente em 84 bairros (Fortaleza, 2007). A Atencao Basica e constituida por 304 equipes de Saude da Familia, distribuidas em 87 Centros de Saude da Familia (Fortaleza, 2011).

O estudo envolveu medicos, enfermeiros e agentes comunitarios de saude integrantes das Equipes de Saude da Familia. A nao-inclusao da categoria de dentistas se justifica pelo fato de que, na ocasiao da elaboracao do projeto ao qual se vincula esta pesquisa, nao havia, ainda, a instituicao da equipe ampliada--que incluiu os trabalhadores da saude bucal--junto as Equipes de Saude da Familia, no Municipio em questao.

Assim, as categorias profissionais incluidas neste estudo sao pertencentes a equipe minima estabelecida pelo Ministerio da Saude para as equipes de saude da familia, observando que a categoria de auxiliar de enfermagem nao foi incluida no escopo deste estudo. Foram convidados a participar profissionais das categorias referidas, atuantes nesse modelo por um periodo igual ou superior a seis meses, no momento da entrevista, de modo a possibilitar um acumulo subjetivo capaz de possibilitar a compreensao do objeto demarcado para estudo.

Na tradicao qualitativa, nao se observa relevancia da validacao numerica da amostra no sentido de possibilitar a generalizacao dos achados (Minayo, 1998; Patton, 1987; Trivinos, 1987). Nestes termos, sua selecao foi intencional, como usualmente se procede em pesquisas qualitativas (Coyne, 1997), alinhando-se a proposta de amostra teorica ou theoretical sampling, definida por Strauss e Corbin (2008, p.195) no sentido de "tornar densas categorias em termos de suas propriedades e de suas dimensoes".

Destituida de logica probabilistica, a amostra foi dimensionada de modo a permitir a "... exaustao, ou seja, a recorrencia das categorias no material coletado" (Bosi, 1996, p.30), ou, ainda, a saturacao teorica (Fontanella, Ricas, Turato, 2008; Strauss, Corbin, 2008), que propoe a coleta de dados ate que todas as categorias estejam esgotadas, e se alcance a subsequente compreensao, em profundidade, da producao subjetiva que emerge na relacao com os grupos/atores investigados.

Para a apreensao das narrativas dos informantes, foram realizadas entrevistas individuais, com conteudo gravado apos seu consentimento. Em momento posterior, essas entrevistas foram transcritas. Consoante o principio da nao-diretividade (Thiollent, 2008), o instrumento utilizado para a obtencao do material foi um roteiro norteador flexivel, contendo algumas questoes abertas, oportunamente desdobradas em novas perguntas, a partir do conteudo emergente nas falas dos entrevistados. As questoes solicitavam seu livre pronunciamento acerca da proposta e de seu trabalho junto a Estrategia Saude da Familia, contemplando aspectos como: sentimentos, vivencias, relacao com os usuarios e relacao com outros trabalhadores.

Os trabalhadores foram convidados a participar por livre adesao informada e, posteriormente, entrevistados no proprio local de trabalho. As entrevistas--18 no total--tiveram, em media, a duracao de trinta minutos. As transcricoes foram realizadas sob supervisao das proprias pesquisadoras, logo apos a obtencao do material empirico.

Apos a transcricao, o material empirico foi submetido a leitura transversal e horizontal, de maneira a permitir a impregnacao pelo sentido do "todo" de cada depoimento, bem como a identificacao dos temas centrais e dimensoes presentes nas narrativas, e que constituem os eixos de significacao da analise empreendida, conforme se propoe na abordagem de analise tematica (Pope, Ziebland, Mays, 2009).

Esse processo teve inicio com a compilacao das informacoes ou categorias por temas, tomandose o cuidado para que todas as manifestacoes sobre os temas encontrados tenham sido incluidas. Desse estagio inicial, de carater mais descritivo, passamos a analise de interconexoes entre os temas e dimensoes e, entao, ao processo de interpretacao dos sentidos dos discursos, ou seja, a construcao da rede de significados (Bosi et al., 2010). As categorias analiticas nao foram, portanto, estabelecidas a priori, tendo sido construidas a partir dos discursos emergentes no material empirico.

Ao final, analisamos, de forma comparativa, as correspondencias e discrepancias entre os discursos produzidos pelos atores sociais das diferentes categorias profissionais que compoem o universo pesquisado, relacionando-os com as singularidades e/ou condicoes historicas especificas.

Resultados e discussao

O recurso adotado para a exposicao dos resultados consiste na apresentacao das falas mais evocativas, as quais se reiteram na quase totalidade dos relatos. Os referidos discursos aparecem codificados conforme o grupo ao qual pertence seu autor. Nesse sentido, foram utilizados os seguintes codigos: E = enfermeiro; M = medico; ACS = agente comunitario de saude.

Entre os medicos entrevistados, destacamos a fluencia com que os principios doutrinarios norteadores da estrategia se mostram presentes em suas falas, quando solicitados a se pronunciar sobre a mesma.

"E uma visao diferente, e uma visao que a gente trabalha dentro da equidade, diversidade, integralidade, acesso longitudinal". (M1)

"O Programa Saude da Familia consiste basicamente num acompanhamento pelo sistema da longitudinalidade e tambem pelo principio da universalidade e equidade. O cuidado de favorecer aos que sao mais desfavorecidos...". (M3)

Ja nas narrativas dos enfermeiros, os aspectos organizativos ou operacionais decorrentes da implantacao da estrategia no Municipio emergem com maior nitidez quando comparados a dimensao teorica ou conceitual atinente ao SUS e a ESF No tocante a esses temas, observa-se que a mencao aos principios aparece destituida da preocupacao em aparentar conhecimento ou compreensao. Em contrapartida, e inequivoca sua maior familiaridade com a descricao da operacionalizacao das acoes.

"E muito bom porque aquele negocio (de ficar) so receitando no consultorio, atendendo, tambem cansa; e o bom do PSF e isso: porque tem muita coisa diferente e nao e sempre a mesma coisa e a gente pode fazer isso". (E1)

"Aqui a gente trabalha com idosos basicamente, que a maior incidencia e de hipertensao e diabetes. A gente trabalha com puericultura e pediatria ate cinco anos de idade, a gente trabalha com mulheres em idade fertil no planejamento familiar, na prevencao do cancer ginecologico. A gente faz tambem grupos, pre-natal. Eu acho que basicamente e isso, os programas codificados pelo PSF e grupos educativos". (E1b)

E notoria a compreensao da proposta da Estrategia Saude da Familia nas duas categorias profissionais entrevistadas. No entanto, o predominio de um dos recursos das competencias--o saber, representado pela preocupacao em dar visibilidade ao dominio teorico da proposta, por meio do emprego dos termos tecnico-cientificos que integram os textos oficiais--, prevalece no discurso dos medicos. Esse dominio, o do saber, e definido por Saupe et al. (2007, p.656) como o "conjunto de conteudos obtidos predominantemente por meio de exposicao, leitura e re-elaboracao critica, que possibilitam ao profissional o dominio cognitivo de um saber e a capacidade de tomar decisoes e resolver problemas em sua area de atuacao".

"Os medicos, eles tem um conhecimento bom, mas eles chegam com dificuldade na aplicacao dessas outras coisas". (M1)

Por outro lado, entre enfermeiros, fica claro o entendimento da proposta a partir das implicacoes desse novo referencial nas praticas em saude, ou seja, no campo das habilidades--do saber fazer, ja que os principios norteadores da proposta e os termos tecnicos mais empregados para sua caracterizacao nao sao colocados em relevo. As habilidades (Saupe et al., 2007, p. 656):
   representam o saber fazer do dominio psicomotor e sao indicadas
   pelo 'conjunto de praticas adquiridas, sobretudo por demonstracao,
   repeticao e re-elaboracao critica, que fornecem ao profissional o
   dominio psicomotor, a pericia de um saber fazer e a capacidade de
   tomar decisoes e resolver questoes no seu campo de atuacao'.


Os depoimentos dos Agentes Comunitarios de Saude--ACS demandam uma leitura particular, por se tratar de uma categoria que prescinde de formacao profissionalizante institucionalizada. Nesse sentido, fomos surpreendidos pelo fato de esta ter sido a unica categoria a referir a necessidade de um 'novo olhar' sobre a saude e de um outro jeito de fazer saude', sugerindo, assim, nao apenas o conhecimento de pressupostos teoricos que sustentam a proposta, como, tambem, o compromisso com aspectos como a promocao da saude e os principios filosoficos do SUS, revelando, assim, uma compreensao ampliada de saude.

"O PSF acho que e um programa muito importante porque nele voce cuida daquela comunidade ja com outros olhos". (ACS1)

"Eu nao entendia muito bem como (era) o Programa Saude da Familia, mas com o passar do tempo voce vai vendo como acontece, voce vai vendo que e um outro jeito de fazer saude. Eu vejo isso, entao as pessoas estao acostumadas ter a saude curativa: quando ela vem, chega, e atendida e ela volta e o medico nao sabe o nome do paciente, o paciente nao sabe o nome do medico e vai embora e por isso fica". (ACS5)

Nessas falas, o que se explicita e uma mudanca do olhar e uma mudanca de atitude frente ao usuario e suas necessidades de saude. As atitudes:

representam o saber ser e conviver do dominio afetivo e compreendem o 'conjunto de comportamentos adquiridos por intermedio de observacao, introjecao e re-elaboracao critica que conferem ao profissional o dominio etico e afetivo de um saber ser e saber conviver, alem da capacidade de tomar decisoes e de solucionar problemas na sua area de atuacao'. (Saupe et al., 2007, p.656)

Em sintese, enquanto o discurso medico revela sua correspondencia com o dominio cognitivo--o saber--, temos, entre os enfermeiros, a compreensao da proposta a partir das habilidades--o fazer; e, entre os ACS, cuja identidade se constroi no cotidiano do trabalho--valoriza-se a dimensao atitudinal --, o ser e conviver.

O fato de os diferentes recursos que envolvem as competencias nao se mostrarem presentes com a mesma intensidade no discurso das categorias profissionais que integram este estudo nao significa, necessariamente, sua completa ausencia; no entanto e reveladora da existencia de uma hierarquia de valores internamente semelhante--ja que compartilhada entre seus membros--e externamente diferenciada--ao se reconhecer a especificidade e a interdependencia entre os codigos de valoracao e a construcao social de cada uma delas.

Partindo dessa premissa, julgamos pertinente evocar a reflexao sobre como tais dominios--o saber, o fazer e o querer fazer--tem sido trabalhados no processo de formacao.

Para tanto, recuperamos uma discussao anteriormente iniciada (Bosi, Uchimura, 2007), acerca dos valores presentes na formacao em saude, pois, ainda que os conhecimentos/saberes sejam contemplados, o que dizer acerca das habilidades e atitudes, tao importantes quanto o dominio cognitivo para a consolidacao do modelo assistencial plural? Por esse motivo, reiteramos, agora de forma contextualizada, a seguinte questao (Bosi, Uchimura, 2007), a qual remete, inequivocamente, ao questionamento da formacao em saude: como transformar o sistema buscando torna-lo o que ainda nao somos?

Sao ilustrativas dessa situacao as narrativas assinalando a fragil influencia do processo de formacao medica na escolha pela area de atuacao:

"Depois que a gente saiu da faculdade [...] e que (es)tavam mudando o curriculo pra ir mais pra atencao basica. E, tanto que agora aumentou mais seis meses [...]. Da minha parte foi mais o interesse, vim de uma familia mais humilde que teve problema com atendimento e que ta mais ligada nessa area. E (o) que (me) fez optar por essa area e nao a faculdade em si". (M2a)

A formacao tampouco ofereceu o preparo tecnico adequado para a atuacao na atencao primaria:

"Ai passa cinco anos sem ver nada. Sem ver nada, sem ir pro posto. Ai no ultimo ano, e que (em) um mes a gente passou no posto de saude. E muito pouco diante da necessidade; e sem falar que a maioria dessas pessoas que se formam, querendo ou nao, acaba indo pra um PSF, acaba indo pra atencao primaria pelo menos inicial. E vao muitas vezes despreparados, porque a formacao nao era pra atencao primaria e sim pra atencao secundaria e terciaria. Agora que isso esta mudando e isso e bom". (M2b)

"Porque quando a gente termina o curso de medicina--e que nao e diferente de hoje--a gente nao ta preparado pra entrar aqui. [...] porque a parte pratica mesmo a gente so aprende com o dia-a-dia. Entao uma residencia, seja ela no saude da familia, seja ela em qualquer area que voce quiser fazer, eu acho que e importante pra que voce tenha seguranca no que voce realmente vai fazer". (M4)

Para efetivacao da mudanca do modelo assistencial, a formacao assume, evidentemente, posicao de destaque. E, sobre a formacao medica, Feuerwerker (2002, p.1) afirma:

Pode-se dizer que existe quase uma exigencia social de que se mude o processo de formacao para que se produzam medicos diferentes. Medicos com formacao geral, capazes de prestar uma atencao integral e humanizada as pessoas, que trabalhem em equipe, que saibam tomar suas decisoes considerando nao somente a situacao clinica individual, mas o contexto em que vivem os pacientes, os recursos disponiveis, as medidas mais eficazes. (grifo nosso)

Freidson (1998) defende que a analise da consolidacao de competencias, a servico da profissionalizacao de uma dada categoria profissional, exige reconhecer as relacoes entre as competencias especificas e suas expressoes na historia dessa mesma categoria, como condicao imprescindivel para a definicao da sua identidade social. Partindo dessa premissa, recuperamos alguns elementos da historia de formacao dessas duas categorias profissionais atuantes na saude.

Na historia da formacao medica, observa-se o predominio do ensino na modalidade tradicional, baseado na transmissao de saberes, na experiencia do professor e na valorizacao do conteudo em detrimento da formacao de valores (Feuerwerker, 2002). Nao por acaso, ja que tal formacao tem sido fortemente condicionada: pelas macroestruturas economicas e politicas, pelo entendimento que se tem de saude-doenca e de necessidades de saude, pela organizacao dos servicos e politicas de saude e, particularmente, pela pratica medica, embora as escolas formadoras tenham relativa liberdade no que tange seu funcionamento (Feuerwerker, 2002).

Em documento recentemente publicado, a Organizacao Pan-americana da Saude (2008) assinala os principais problemas da formacao medica nos paises americanos, dentre os quais destacamos: os escassos conhecimentos e habilidades, por parte dos egressos, para o manejo da atencao primaria em saude; a enfase no modelo biologicista; a centralizacao das praticas de aprendizagem nos hospitais; a ausencia de um enfoque de promocao da saude e prevencao de doencas em niveis individual, familiar e comunitario desde os primeiros anos da formacao; e a carencia de uma formacao integral sob as perspectivas tecnica e humanista.

No que se refere ao percurso adotado pela Enfermagem no sentido de sua profissionalizacao, o avanco da pratica ocupacional para essa categoria profissional foi alicercado no esforco de melhoria da imagem, a fim de se conquistar reconhecimento, por meio do investimento na formacao academica ou dimensao cognitiva (De Domenico, Ide, 2006).

Com efeito, a historia da formacao em Enfermagem--e de outras ocupacoes de saude--no Brasil revela contornos semelhantes aqueles apresentados pela formacao medica, pois, em sua origem, o ensino da Enfermagem fora influenciado pelo Modelo Hospitalocentrico, orientado pelas demandas de mercado que se faziam presentes aquela epoca. Ate 1972, todas as mudancas empreendidas no curriculo minimo de enfermagem privilegiaram o modelo medico/hospitalar (Ito et al., 2006).

Em um estudo acerca das competencias do enfermeiro a partir das percepcoes de tecnicos e docentes, De Domenico e Ide (2006, p.399) encontraram resultado semelhante, pois, conforme afirmam, "competencias referidas como de exercicio diario nao traduziram todas as dimensoes do exercicio profissional que sao almejadas pelas diretrizes para a formacao do graduado ...". Nesse contexto, adquire destaque o fato de que as competencias tecnico-cientificas apareceram com maior destaque nas acoes de natureza curativa, de forma associada ao fazer prescritivo.

Transpondo a reflexao para outro dominio alem da formacao, a divisao do trabalho entre as categorias no interior das equipes tambem exerce sua influencia nessa diferenciacao de posicoes ocupadas no interior da Estrategia Saude da Familia.

Entre os medicos, houve mencao de que a integracao e o sentimento de pertencimento a equipe sao resultados de iniciativas de acolhimento de uma categoria por outra(s). Nessas falas, a afirmacao acerca da aceitacao do outro e pelo outro assume especial relevancia na constituicao do trabalho em equipe:

"E, do grupo aqui, a gente trouxe a auxiliar de enfermagem que estava so dentro da unidade e ela ta participando e foi excelente, ela ta satisfeita, ela ta sentindo que faz parte da equipe. E, as agentes comunitarias, mostrei pra elas que elas sao importantes, que elas precisam, que elas que convivem, elas e que fazem o inicio, explicam a idade, fazem os convites da volta. Entao, a equipe toda ta trabalhando--o medico, a enfermeira, o auxiliar e o agente comunitario". (M1)

"O saude da familia pela rede e o trabalho em equipe, se nao houver esse trabalho em equipe fica dificil, entao tem que haver uma boa interacao entre o medico e o enfermeiro, principalmente entre o medico e o enfermeiro [...]. Principalmente medico e enfermeiro, eles tem que estar muito unidos, ter o mesmo ideal, trabalhar conjuntamente com a visao global do paciente e decidindo tudo em equipe mesmo, as estrategias, como atuar preventivamente na comunidade vendo quais sao os riscos que aquela comunidade, aquele area ta enfrentando". (M6)

A fala abaixo confirma a importancia da aceitacao e do respeito mutuo, para que o trabalho em equipe possa ser considerado bom ou produtivo:

"Eu acho que no momento eu trabalho com uma boa equipe, eu acho que a gente fala a mesma lingua, entao fica facil. Particularmente eu nao tenho o que dizer, a gente tem o apoio da equipe, a gente tem o apoio do medico, tem apoio do enfermeiro. Eles tambem tem o nosso apoio. Entao, assim, eu acho que cada um trabalha como cada um tivesse uma funcao, mas uma funcao dependente da outra". (ACS. 2)

Por outro lado, aquelas mesmas falas (de medicos) nos autorizam a supor que exista o reconhecimento de uma suposta superioridade tecnica ou, simplesmente, de uma distinta relevancia, que privilegiaria algumas categorias que integram as equipes em detrimento de outras. Essa (oficiosa) hierarquia tecnica entre os membros da equipe e apontada como obstaculo para enfermeiros; mas, em contraposicao, a autonomia tecnica que se viabiliza e o maior reconhecimento da sua importancia, em saude coletiva, sao motivos de comemoracao:

"Bem, a enfermagem e uma coisa que realmente se avancou muito atualmente. A gente sabe que vem engatinhando aos poucos e com o PSF gracas a Deus a nossa autonomia aumentou bastante". (E3)

"A gente tem oportunidade de atuar com mais autonomia, atende a crianca na puericultura. Eu me sinto muito bem trabalhando no programa de saude da familia porque eu acho que e um programa que satisfaz a enfermeira porque ela pode atuar com mais autonomia, e um trabalho multidisciplinar, e um trabalho de equipe, mas a gente se sente mais a vontade pra trabalhar". (E5)

Na obra de Bosi (1996, p.51), "a autonomia [...] representa a capacidade de avaliar e controlar o desenvolvimento do trabalho. E nisso que reside a essencia do profissionalismo." E complementa: "O conceito de autonomia, em Freidson, liga-se intrinsecamente a dimensao do conhecimento, ao saber, ja que expressa uma competencia tecnica legitimada" (Bosi, 1996, p.51, grifo nosso).

Essa nocao de superioridade tecnica de uma categoria em relacao as demais, no campo da saude, tem suas raizes no Modelo Medico-Assistencial Privatista. E esse modo de fazer saude que se pretende superar mediante a construcao do SUS e a efetivacao pela Estrategia Saude da Familia (Brasil, 1997).

Naquela perspectiva--curativista -, todo e qualquer ato tecnico em saude--a excecao das imunizacoes--somente teria inicio a partir do adoecimento, o que colocava, evidentemente, o medico em posicao central, ja que toda acao terapeutica derivava, e ainda deriva, necessariamente, de um diagnostico clinico--prerrogativa medica. No entanto, a finalidade da Estrategia Saude da Familia consiste em contribuir para a alteracao do modelo assistencial, priorizando, juntamente com as acoes curativas, as acoes de promocao da saude. E nao ao acaso, pois a Organizacao Pan-americana da Saude (2008, p.8) reconhece que a Atencao Primaria em Saude "siegue sendo la principal y mas efectiva estrategia para promover la salud y alcanzar el mas alto nivel de salud posible para cada persona". Invariavelmente, essa mudanca de foco--a saude em lugar da doenca--provoca alteracoes nas relacoes de poder anteriormente instituidas.

Entendemos ser importante o estabelecimento de novas relacoes entre os profissionais da saude, baseadas, agora, na interdisciplinaridade, e nao apenas na multidisciplinaridade, a fim de se construirem novas formas de producao do cuidado, que questionem as "certezas profissionais" instituidas pelo modelo biomedico (Saupe et al., 2005).

Com efeito, a interdisciplinaridade--discutida em Vilela e Mendes (2003) como a necessidade de se superar a fragmentacao do conhecimento, com vistas a unidade do saber--leva a necessidade de transformacao das formas de relacao anteriormente instituidas, o que se nos apresenta como um desafio de grande magnitude a ser transposto, pois, como sustenta Assuncao (2005), ao afirmar a indissociabilidade entre a interdisciplinaridade e a intersubjetividade, nao ha como escapar desse encontro, dessa interacao entre diferentes identidades profissionais historicamente construidas.

Nao obstante, reconhecendo que todos os trabalhadores em saude "fazem clinica cuidadora e operam praticas sanitarias" que constituem um nucleo comum a ser matriciado pelas especificidades de cada formacao, o movimento de mudanca dessa relacao, da verticalidade para a horizontalidade, podera, tambem, aproximar o fazer tecnico do universo e logica dos usuarios (Merhy, 2007).

Consideracoes finais

A realizacao deste estudo nos permitiu identificar a existencia de diferentes graus de familiaridade, entre os trabalhadores de saude, acerca das competencias e habilidades profissionais. Nessa perspectiva, os dominios cognitivo (do saber), procedimental (do saber fazer) e atitudinal (querer fazer) se destacam, com maior ou menor expressividade, em cada uma das categorias profissionais consideradas no ambito deste recorte, denotando o lugar ocupado por cada uma delas e as relacoes verticalmente estabelecidas em funcao do controle sobre o saber e o fazer profissionais.

Com efeito, a instituicao de tais lugares ou espacos obedece a dinamica da historia de organizacao e profissionalizacao de cada uma dessas categorias, inerentes a divisao social e tecnica do trabalho e a evolucao das politicas da saude em nossa sociedade, por conseguinte, a evolucao do processo de formacao em saude no mundo ocidental.

A interdisciplinaridade, para se efetivar nas praticas de saude, demanda outras formas de relacao que se distanciem da hierarquia de poder instituida por modelos assistenciais curativistas; e novos lugares para as diversas categorias atuantes no campo da saude, atualmente muito mais diversificadas e numerosas que aquelas consideradas no ambito deste estudo.

Sustentamos, pois, a necessidade de oportunizarmos, no processo de formacao, experiencias integradoras e interdisciplinares, a fim de que saberes e fazeres diferenciados estejam presentes no processo de vinculacao do estudante com uma determinada identidade profissional, de maneira que esta nao resulte associada a apenas uma categoria ou corporacao profissional, mas a um campo de conhecimento e praticas, voltado a atender necessidades e demandas sociais, em especial aquelas que se apresentam no ambito da saude.

Colaboradores

Katia Yumi Uchimura e Maria Lucia Magalhaes Bosi trabalharam conjuntamente na concepcao, delineamento do estudo, analise e interpretacao do material empirico. Katia Yumi Uchimura atuou na redacao do artigo, e Maria Lucia Magalhaes Bosi na sua revisao critica, bem como na aprovacao da versao a ser publicada.

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Recebido em 01/10/2010. Aprovado em 09/05/2011.

Katia Yumi Uchimura (1)

Maria Lucia Magalhaes Bosi (2)

* Resultado parcial de tese (Katia Yumi Uchimura, 2010), pesquisa financiada pelo CNPq (Proc. n. 403351/2004-9) e aprovada pelo Comite de Etica em Pesquisa da Faculdade Evangelica do Parana.

(1) Programa de Doutorado em Saude Coletiva em Associacao Ampla de IES (UECE/UFC/UNIFOR). Endereco: Rua Padre Anchieta, 2770. Bairro Bigorrilho. Curitiba, PR, Brasil. 80.730-000. uchimurakatia@terra. com.br

(2) Departamento de Saude Coletiva, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Ceara.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Uchimura, Katia Yumi; Bosi, Maria Lucia Magalhaes
Publication:Interface: Comunicacao Saude Educacao
Date:Jan 1, 2012
Words:5659
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