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Aberturas para vastos universos: contos completos de Flannery O'Connor.

O'CONNOR, Flannery. Contos completos. Traducao Leonardo Froes. Posfacio Cristovao Tezza. Sao Paulo: Cosac Naify, 2008.

720 p. ISBN: 978-85-7503-609-9.

Em Valise de Cronopio, Julio Cortazar compara o romance com o cinema e o conto com a fotografia, observando que um filme e uma 'ordem aberta', enquanto uma fotografia tem uma limitacao previa. A camara abrange um campo reduzido, recorta um fragmento da realidade, fixando-lhe determinados limites, mas deixando entrever uma realidade muito mais ampla.

Numa fotografia ou num conto de grande qualidade, prossegue Cortazar, o fotografo ou o contista sentem necessidade de escolher e limitar uma imagem ou acontecimento significativo, que atue no espectador ou no leitor como uma especie de abertura que projete a inteligencia ou a sensibilidade para muito alem do argumento visual ou literario contido na foto ou no conto.

E este o caso dos contos da norte-americana Flannery O'Connor (1925-1964), que nos chegam em primorosa edicao pela Cosac Naify. E eles vem em muito boa companhia, na traducao do poeta Leonardo Froes, com posfacio de Cristovao Tezza, o escritor brasileiro mais premiado em 2008. A edicao traz ainda sugestoes de leitura, listando as obras de ficcao, ensaios e correspondencia de O'Connor, como tambem uma relacao de obras adaptadas para o cinema e as traducoes encontradas no Brasil. Alem disso, apresenta, uma atualizada bibliografia sobre a autora, incluindo listagem de resenhas publicadas no Brasil.

Flannery O'Connor nasceu no Estado da Georgia, EUA, em 1925. Seus escritos trazem a alegoria gotica desse ambiente rural sulista. A familia da mae era catolica e, sem duvida, o catolicismo foi central em sua vida e obra. Frequentou a Georgia State College for Women, onde comecou sua atividade de escritora e cartunista. Fez mestrado no Writers' Workshop na Universidade de Iowa.

Em 1952, publicou o romance Wise Blood e, em 1955, uma coletanea de contos, A good man is hard to find and other stories. Teve problemas de saude ligados ao lupus, doenca que matara seu pai em 1951. No entanto, continuou a escrever e a viajar fazendo palestras sobre assuntos variados, que iam desde a criacao de pavoes (que ela adorava) ate escrita regional, religiao e ensino de literatura.

Ela e a mae moravam numa fazenda perto de Milledgeville, onde O'Connor criava pavoes e galinhas. Essa propriedade abriga hoje a Flannery O'Connor--Andalusia Foundation, que promove o conhecimento da vida e obra da autora, bem como incentiva o estudo de sua obra literaria e o intercambio de pesquisas (ver www.andalusiafarm.org).

O'Connor publicou o segundo romance, The violent bear it away, em 1960. Faleceu aos 39 anos, em 1964. Postumamente, foi publicado um volume de contos: Everything that rises must converge (1965), Mystery and Manners: Occasional Prose (1969) e Flannery O'Connor: the Complete Stories (1971).

A obra de O'Connor gira em torno de dois aspectos principais: o fundamentalismo predominantemente protestante do Sul dos Estados Unidos e o mundo moderno caracterizado pela esterilidade espiritual. A preocupacao com a questao do bem e do mal e central em sua obra, muitas vezes trazendo uma visao espiritual baseada no Antigo Testamento.

O nome de Flannery O'Connor vem associado, na literatura norte-americana, ao gotico sulista de William Faulkner, Carson McCullers e Tennessee Williams. Em suas paginas, encontramos personagens grotescas, frequentemente envolvidas em situacoes de violencia, de ausencia de piedade e dialogo. O grotesco parece ser usado pela escritora com um proposito de revelacao.

O mais interessante e que O'Connor faz isso com uma abordagem nao-sentimental, num estilo direto e simples, enquanto trabalha a caracterizacao das personagens de maneira aprofundada, em imagens que acentuam essa incongruencia. Com frequencia, suas personagens apresentam mutilacoes, seja no aspecto fisico, mental, moral ou espiritual.

Nas paginas de seus contos, fica clara a observacao de Cortazar: num conto bem realizado, mais importante do que o tema e o tratamento literario desse tema, a tecnica empregada para desenvolve-lo. Estamos falando de intensidade e de tensao: e isso O'Connor consegue com maestria, pela aplicacao de sua inteligencia realista, sua abordagem ironica no tratamento das personagens e situacoes. Ela tem muita habilidade como escritora comica e o uso da ironia e do humor no retrato da classe media e das mulheres de meia idade e algo muito relevante. E o grotesco mesclase ai perfeitamente.

Os criticos insistem em associar sua prosa ao regional e ao religioso. No entanto, vemos que seus textos nos dao aberturas para universos mais vastos. Temos ai personagens que se associam em relacoes pai e filha, mae e filha, mae e filho, trazendo a tona a dificil condicao humana.

Em "O geranio", o velho Dudley vai para Nova York morar com a filha, mas tudo na grande cidade lhe e estranho. Fora de seu lugar, traz lembrancas do Sul, especialmente do companheiro Rabie, o negro com quem costumava cacar e pescar. Na nova vida, vem a tona o preconceito racial. No final da narrativa, a grotesca figura do velho fragilizado parece associar-se ao geranio despedacado:
   [...] pode ver o vaso espatifado com seus cacos
   dispersos entre um punhado de terra esparramada e
   uma coisinha cor-de-rosa que sobressaia de um laco
   de papel verde (p. 22).


Ja o conto "A colheita" trata da angustia de uma escritora em busca de um tema para escrever um conto. A tarefa de Miss Willerton e limpar as migalhas da mesa apos o cafe da manha:
   Limpar a mesa era um alivio. Catar migalhas dava
   tempo de pensar, e se Miss Willerton fosse escrever
   um conto era preciso que de inicio ela pensasse a
   respeito (p. 49-50).


Essa vontade, esse desejo ja estao no proprio nome da personagem, Willie ("will").

Essa busca, agora nao uma "colheita", mas uma "caca", repete-se em "O peru", conto que trabalha o motivo da iniciacao e desilusao. Temos aqui um menino, Ruller, que luta para capturar um peru selvagem e, assim, impressionar as pessoas, sobretudo seus pais. No entanto, ao final, acaba sendo surpreendido por uns "moleques roceiros" (p. 74), que frustram sua tentativa de fazer jus ao nome, que e, entao, ironico. "Ruler" significa governante, rei, soberano.

Em "A vida que voce salva pode ser a sua", Mr. Shiftlet consegue trabalho na propriedade onde vivem uma velha e a filha. Ambas tem o mesmo nome: Lucynell Crater. O olhar de Mr. Shiftlet, "muito claro e esperto" (p. 190) observa tudo o que havia no quintal e e atraido pela "traseira, retangular e enferrujada, de um automovel" (p. 191).

Ha um dialogo interessante entre Mr. Shiftlet e a velha: ele de olho no carro e ela tentando empurrarlhe a filha. Curioso e que Mr. Shiftlet ensina a moca Lucynell, "que era totalmente surda e nunca dissera uma palavra na vida, a dizer 'passarinho'" (p. 194), que ela pronuncia 'basarin'.

Mr. Shiftlet e a velha fazem uma barganha: a velha lhe da o dinheiro para consertar o carro e tambem para uma viagem de nupcias e, assim, ele aceita se casar com Lucynell no gabinete do juiz, para satisfazer a lei, segundo a vontade da velha.

Quando ele abandona Lucynell numa lanchonete de beira de estrada, perguntamos se nao teria sido menos aviltante se tivesse simplesmente furtado o carro. No entanto, a ideia de deslocamento, mudanca e trapaca ja estava em "shift", no seu proprio nome.

Em "Gente boa da roca", tambem temos uma relacao mae-filha e um relacionamento homem-mulher, assim como a questao da trapaca. No entanto, a filha, Allegra, e muito diferente de Lucynell, principalmente no aspecto intelectual.

Allegra (Joy, no original), 32 anos, loura e corpulenta, e filha de Mrs. Hopewell. Tinha uma perna so devido a um acidente de caca quando tinha dez anos, motivo pelo qual usava uma perna de pau. Ao completar 21 anos, Allegra saiu de casa e mudou legalmente seu nome para Hulga.

Nesse conto, o tradutor trabalhou a significacao dos nomes proprios; optou por traduzir Joy por Allegra e, em relacao a Hulga, faz um interessante jogo de palavras na traducao do seguinte trecho: "When Mrs. Hopewell thought of the name, Hulga, she thought of the broad blank hull of a battleship". (nosso italico). Em portugues, temos: "Quando Mrs. Hopewell pensava nesse nome, Hulga, o que lhe vinha a cabeca era o casco largo e cor de pulga de um navio de guerra" (p. 349, nosso italico). Na verdade, a "cor de pulga" parece mais apropriada ao som escuro do /u/ de Hulga.

Hulga doutorou-se em filosofia, o que deixava a mae embaracada:
   Qualquer um bem que podia dizer 'Minha filha e
   enfermeira', ou 'Minha filha e professora do ensino
   basico', ou ate mesmo 'Minha filha e engenheira
   quimica'. Mas quem diria 'Minha filha e filosofa', se
   isso era coisa morta e acabada desde os romanos e os
   gregos? Allegra passava os dias lendo, afundada
   numa poltrona. De vez em quando ela saia para dar
   uma volta, mas nao gostava de cachorros, gatos,
   passarinhos, flores, nem da natureza nem de rapazes
   bonitos. Nos rapazes bonitos, se os olhasse, farejava
   tao-so a ignorancia que tinham (p. 351-52).


Por isso, quando ela decide "seduzir" o vendedor de biblias, cuja fala denota sua pouca instrucao ("I didn't mean you no harm, he said"), o desenlace do conto fara o triunfo do determinismo realista, deixando-a reduzida ao nivel do corpo.

Os dois ultimos contos que escolhemos para comentar, "Os confortos do lar" e "Tudo que sobe deve convergir", trazem o relacionamento mae-filho e, pelo uso da onisciencia seletiva, o narrador em terceira pessoa passa ao leitor a visao do filho.

Em "Os confortos do lar", a mae de Thomas resolve ajudar uma moca a quem ele se refere como "safadinha": "E uma tarada, isso e tudo que voce precisa saber. Nasceu sem a faculdade moral -- como alguem nasce sem uma perna ou um rim" (p. 483). A moca e chamada Star: "Dizia se chamar Star Drake. Mas o advogado descobriu que o verdadeiro nome dela era Sarah Ham" (p. 487). Star havia sido presa por passar um cheque sem fundos e a mae de Thomas, vendo o retrato no jornal, resolve ajuda-la.

Thomas nao consegue ocupar o lugar do pai e esse e, basicamente, o grande conflito do texto:
   Era nessas ocasioes que Thomas realmente
   lamentava a morte de seu pai, embora em vida nunca
   o tivesse suportado. O velho nao admitiria tais
   maluquices (p. 486).


Thomas acaba agindo seguindo a voz do Pai e cai na armadilha que havia preparado. A situacao foge ao seu controle e, tragicamente, acaba matando a propria mae.

Em "Tudo que sobe deve convergir", Julian leva a mae a uma aula de emagrecimento na Associacao Crista de Mocos. A mae se orgulha da passada prosperidade da familia. Agora vivem com dificuldades, mas a mae ostenta a soberba e e racista. A cena no onibus que evidencia esse racismo chega ao climax quando a mae e uma mulher negra ficam frente a frente usando um chapeu identico.

Julian tenta mudar os valores da mae: "Aquela mulher era o seu duplo negro", "o velho mundo mudou" (p. 525), mas tudo e inutil. A mae se recusa a mudar suas conviccoes e pode ser vista, alegoricamente, como o declinio do mundo escravocrata sulista.

Os textos de Contos Completos sao, assim, aberturas importantes que vao muito alem da questao regional; trazem reflexoes profundas sobre a esterilidade espiritual que ultrapassa espacos geograficamente demarcados.

Received on November 3, 2008. Accepted on December 3, 2008.

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DOI: 10.4025/actascilangcult.v31i1.5695

Cleide Antonia Rapucci

Departamento de Letras Modernas, Faculdade de Ciencias e Letras, Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", Av. Dom Antonio, 2100, 19806-900, Assis, Sao Paulo, Brasil. E-mail: rapucci@assis.unesp.br
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Rapucci, Cleide Antonia
Publication:Acta Scientiarum Language and Culture (UEM)
Article Type:Resena de libro
Date:Jan 1, 2009
Words:2106
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