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AUTOMEDICACAO COMO TEMA DE SITUACAO DE ESTUDO/SELF-MEDICATION AS A TOPIC OF STUDY SITUATION/AUTOMEDICACION COMO TEMA DE UNA SITUACION DE ESTUDIO.

Introducao

A automedicacao tem sido uma pratica cada vez mais comum na sociedade. Em busca de melhora ou cura para alguma doenca, as pessoas se arriscam a fazer uso de medicamentos de maneira indiscriminada sem prescricao medica ou por indicacao de pessoas nao qualificadas para tal recomendacao. Essa pratica esta presente em todas as classes sociais, no entanto, atinge com mais frequencia as pessoas com baixa escolaridade (LUCENA, 2007).

Portanto, em paises pouco desenvolvidos, o numero de medicamentos de venda livre tem crescido nos ultimos tempos, o que ocasiona um consumo exacerbado sem prescricao medica. O uso indiscriminado de medicamentos e feito principalmente por pessoas leigas, que sao instruidas por amigos/vizinhos e, ate mesmo, por atendentes de farmacias. Alem do mais, a fiscalizacao realizada pelas agencias reguladoras nao consegue controlar completamente esse problema (SOUSA, ANDRADE, 2013).

Nesse contexto, vale ressaltar que fatores economicos, politicos e culturais contribuem para a difusao da automedicacao. Alem do mais, a disponibilidade desses produtos no mercado proporciona mais condicoes de consumo, pois, a cada dia, aumenta-se o numero de farmacias e drogarias, alem das propagandas realizadas por estes estabelecimentos, que tendem a ressaltar os beneficios e a omitir ou minimizar os riscos e possiveis efeitos adversos, estimulando o uso inadequado dos produtos (LUCENA, 2007; SILVA, PINHEIRO, 2013).

Em nosso pais, a extensao da automedicacao nao e conhecida com precisao, mas, de acordo com o Instituto de Ciencia, Tecnologia e Qualidade (BRASIL, 2014), que entrevistou 1.480 pessoas em 12 capitais brasileiras, cerca de 76,4% dos brasileiros que participaram da pesquisa praticam a automedicacao. Entre os que adotam essa pratica, 32% costumam aumentar a dose do medicamento prescrito pelo medico com o objetivo de potencializar o efeito do remedio. Vale ressaltar que a capital brasileira que registra o maior indice de automedicacao e Salvador (na Bahia), em que 96,2% dos habitantes adotam tal pratica. Ja a capital em que o habito e menos frequente e Belo Horizonte (em Minas Gerais), em que 35% se automedicam.

Nesse cenario, surge a necessidade de amenizar a problematica acerca da automedicacao, o que implica na formacao de pessoas com capacidade critica, que estejam conscientes a respeito da influencia da cultura, da midia e dos problemas da saude publica sobre a pratica da automedicacao, tanto em relacao aos aspectos positivos quanto aos negativos. A formacao dessas pessoas pode ocorrer na escola, uma vez que a sua principal funcao e colaborar para o exercicio da cidadania e para a formacao dos alunos (SANTOS, SCHNETZLER, 2003; SOUSA, ANDRADE, 2013). Nesse sentido, o ensino de Quimica pode ser um facilitador nesse processo, e trabalhos como dos autores LAUTHARTTE, FRANCISCO JUNIOR (2011); SALDANHA, SILVA NETA, WEBER (2012); PAZZINATO et al. (2012); FARY et al. (2012); SILVA, PINHEIRO (2013); SOUSA, ANDRADE (2013); RICHETTI, ALVES FILHO (2014) revelam essa possibilidade.

No entanto, ainda e possivel perceber que o ensino de Quimica, muitas vezes, ocorre de forma mecanica. O metodo de transmissao-recepcao, em que o professor - dito detentor do saber - transmite os conteudos aos seus alunos, preocupa-se com a universalizacao do conhecimento, a memorizacao, o treino, a repeticao, tornando os conteudos verdades absolutas e inquestionaveis (MALDANER et al., 2007). Alem disso, na maior parte dos casos, as aulas sao meramente expositivas. Muitas vezes, os alunos que aprendem por meio desse metodo nao conseguem perceber que sua realidade social e cotidiana tem relacao com a Quimica.

Nesse contexto, prevalece a concepcao de que o curriculo e um conjunto de orientacoes oriundas das diretrizes curriculares produzidas em ambito nacional, nas secretarias de Educacao dos Estados e/ou Municipios e na propria escola, com base nos documentos oficiais, nas propostas pedagogicas e nos regimentos escolares. Todavia, a organizacao interdisciplinar do curriculo rompe com a linearidade do conhecimento escolar, possibilitando uma relacao entre os saberes cientificos e o contexto cotidiano, o que podera proporcionar um aprendizado mais significativo e uma formacao socialmente relevante (MALDANER et al., 2007).

Diante desse cenario, BOFF (2016) pensa na escola nao apenas como uma instituicao social que busca o desenvolvimento cognitivo dos sujeitos, articulados aos problemas sociais, culturais e de saude. Enfatiza, tambem, que a escola precisa promover, desenvolver, avaliar e julgar o desempenho escolar dos estudantes, numa perspectiva critica emancipatoria. De acordo com os Parametros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental (PCN) (BRASIL, 1997), documento em que a SE se baseia, a escola tem a funcao de formar cidadaos capazes de atuar com competencia e dignidade na sociedade e, para isso, e necessario que a instituicao escolar garanta um conjunto de praticas planejadas com o proposito de contribuir para que os alunos se apropriem dos conteudos de maneira critica e construtiva. E importante ressaltar que neste texto nao mencionamos e discutimos aspectos relacionados a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), porque a SE e uma proposta balizada nos pressupostos de contextualizacao e interdisciplinaridade discutidos pelos PCN.

Um ponto relevante se refere a importancia da organizacao do trabalho pedagogico da escola, que, segundo MESSEDER NETO (2016), e fundamental para que o aluno se aproprie da heranca historico-cultural da humanidade. Nessa perspectiva, MALDANER et al. (2007) e FRISON et al. (2007) designam a escola o papel institucional e social de constituir sujeitos nas formas culturais que o momento historico determina. Para isso, e necessario que a escola produza aprendizado e desenvolvimento mental a fim de permitir que o estudante tenha acesso ao conhecimento cientifico ao mesmo modo que desenvolva sua capacidade mental para o meio social.

Nessa perspectiva, a SE vem sendo desenvolvida no ambito do Grupo de Pesquisa em Curriculo e Formacao de Professores em Ensino de Ciencias (GPeCFEC), na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), universidade publica do nordeste do Brasil, visando processos de ensino e aprendizagem e a formacao inicial e continuada de professores, tendo como exemplo atividades realizadas por AMARAL et al. (2013) que desenvolveu uma SE com o objetivo de discutir o conteudo "Concentracao" em uma turma de curso tecnico em Biotecnologia de uma escola publica. A SE denominada "Alisantes--uma forma de ensinar concentracao" segundo os autores, apresentou resultados positivos, no que se refere a construcao de conhecimentos e a articulacao entre as disciplinas que compoem o curriculo escolar. Alem do mais, os estudantes apresentaram condicoes para lidar com instrumentos culturais (aparatos tecnologicos, tabelas e metodologias).

PINTO et al. (2013) desenvolveu uma SE em turma de curso tecnico em Enfermagem intitulada "Automedicacao: ?Um mal necessario?" com o objetivo de contextualizar o conteudo de quimica "Concentracao e Diluicao de solucoes" no exercicio do profissional de Enfermagem, a fim de auxiliar na construcao do conhecimento cientifico. Os autores concluiram que a implementacao da SE possibilitou o desenvolvimento do senso critico dos estudantes quanto as consequencias da automedicacao, alem de facilitar a compreensao do conteudo.

REIS (2015) em seu trabalho de conclusao de curso descreveu a elaboracao de uma SE intitulada "Eu, a Quimica e o Lixo: Tudo a ver" com o intuito de possibilitar que o curriculo e o processo de ensino e aprendizagem dos estudantes da Educacao de Jovens e Adultos (EJA) fossem repensados. A autora analisou as contribuicoes da SE, que ocorreu em doze momentos e apresentou como instrumentos de pesquisa, a analise do curriculo da escola, da propria SE, entrevista com o professor de Quimica da turma e o diario de campo da autora. A autora ressaltou a participacao efetiva dos estudantes e uma melhor compreensao dos conteudos de Quimica abordados na SE.

PIMENTA (2016) abordou a tematica cabelos cacheados por meio de uma SE, que foi implementada em curso tecnico em Biocombustiveis. A tematica emergiu da necessidade de discutir as questoes et-nico-raciais em torno dos tipos de cabelos.

ALMEIDA (201 7) considerou a SE como um espaco formativo para profesores de uma escola do campo. Em seu trabalho o autor construiu um processo formativo considerando as etapas da SE, para que os participantes, alem de conhecerem a proposta tambem pudessem vivencia-la.

O trabalho de GUIMARAES (2017) consistiu na implementacao de uma SE numa escola de tempo de integral e de curriculo integrado. Nesse trabalho, o autor evidenciou a tematica chocolate e o cacau, posibilitando que os estudantes tivessem contato com obras da literatura local do autor Jorge Amado, bem como tambem evidenciassem os conceitos cientificos que permeavam a tematica.

SAMPAIO (2017) desenvolveu um processo formativo para profesores que atuam na EJA na mesma escola que REIS (2015), no entanto, esse trabalho teve como foco a formacao dos profesores na perspectiva da SE.

O trabalho de FREIRE (2017) teve como tematica o uso da agua do Rio Almada, que e um rio localizado no entorno da escola em que a pesquisa foi realizada. Nesse trabalho a autora evidenciou os cuidados com a agua e com o solo, enfatizando o mau uso desses recursos e descarte indevido do lixo. Alem dessas producoes do grupo de pesquisa, evidenciamos tambem trabalhos de outros autores, como, por exemplo, BOFF, PINO (2013); CRUZ, GEHLEN (2016), e TAHA et al. (2017).

Este artigo apresenta a producao, o desenvolvimento e a execucao da SE, que teve como tema a automedicacao, com o objetivo de investigar os processos de ensino e aprendizagem que se deram por meio do desenvolvimento da SE.

1. Com quem dialogamos?

A SE se caracteriza como uma proposta de reconfiguracao curricular que evidencia a relacao entre a experiencia cotidiana do aluno e o saber cientifico (MALDANER et al., 2007). E uma proposta de reconfiguracao curricular pautada na abordagem tematica, que prioriza a contextualizacao e a interdisciplinaridade de conteudos de ciencias (HALMENSHLAGER; SOUZA, 2012). A escolha e a organizacao dos conteudos abordados por meio da proposta tem uma relacao com uma situacao real presente no cotidiano dos alunos. Considerando-se esses aspectos, MALDANER, ZANON (2006) afirmam que a SE e,
[...] conceitualmente rica, identificada nos contextos de vivencia
cotidiana dos estudantes fora e dentro da escola, sobre a qual eles tem
o que dizer e, no contexto da qual, eles sejam capazes de produzir
novos saberes expressando significados e defendendo seus pontos de
vista. (MALDANER, ZANON, 2006 p. 53)


A referida proposta e norteada pela abordagem historico-cultural, principalmente nas concepcoes de Vygotsky, que, cada vez mais, integra a pesquisa em ensino de ciencias (MALDANER et al., 2007). Vale ressaltar que, na SE, nao ha aprofundamento, de forma dinamica, do processo pedagogico em torno do seu desenvolvimento em sala de aula, pois parece privilegiar mais a questao da significacao conceitual, indicando preocupacao mais cognitiva do que pedagogica (GEHLEN, MALDANER, DELIZOICOV, 2012). Sendo assim, MALDANER, ZANON (2006) afirmam que as tendencias pedagogicas como a SE estao direcionadas para a compreensao do processo de formacao de ideias e de constituicao da mente das pessoas em seu meio social mais amplo ou na escola. Dessa forma, os significados sao produzidos na interacao social, e corroboram com a abordagem historico-cultural, proposta por Vygotsky, que propoe que o desenvolvimento dos seres humanos esta baseado na sociedade e na cultura. Assim sendo, pode-se afirmar que as interacoes sociais sao determinantes para a aprendizagem e para a reconstrucao cultural (MALDANER, ZANON, 2006; MALDANER et al., 2007).

Considerando-se que a proposta e norteada pela abordagem historico-cultural, principalmente nas concepcoes de Vygotsky, GEHLEN, MALDANER, DELIZOICOV (2012) afirmam que na SE nao ha aprofundamento do processo pedagogico em torno do seu desenvolvimento em sala de aula, uma vez que se prioriza mais a questao da significacao conceitual, demonstrando preocupacao mais cognitiva do que pedagogica. Nesse sentido, a SE direcionada pelas ideias vygotskyanas, segundo GEHLEN, MALDANER, DELIZOICOV (2012), apresenta sintonia com a Abordagem Tematica Freiriana, no entanto, na SE nao se explicita o processo de obtencao dos temas a serem abordados no contexto escolar.

Ainda que nao fique explicito o processo para obtencao dos temas, e importante ressaltar que trabalhos como dos autores AMARAL et al. (2013); PINTO et al. (2013); REIS (2015); PIMENTA (2016); ALMEIDA (2017), GUIMARAES (2017), SAMPAIO (2017) e FREIRE (2017) ja apresentam indicios de que para a definicao dos temas da SE e necessario que haja alguns criterios, principalmente porque a SE e uma proposta que possibilita que elementos do cotidiano sejam inseridos na abordagem de conceitos cientificos com maior significado para os alunos. A producao e o desenvolvimento dessa proposta fortalecem a triade--Professor da escola, Professor formador e Professor em formacao--por meio da construcao de saberes (ZANON, 2003; FRISON, et al. 2007). Alem disso, ocasiona um profundo envolvimento dos sujeitos envolvidos e um comprometimento com o cotidiano escolar (BOFF, 2016). Nessa perspectiva, compreende-se que a utilizacao de situacoes de estudo como alternativa para a reconfiguracao curricular da disciplina Quimica podera contribuir para uma aprendizagem significativa para os alunos.

2. Percurso metodologico

A pesquisa foi realizada em uma escola publica localizada em um municipio da Bahia, Brasil, que atende a cerca de 475 alunos, do 6 ano do Ensino Fundamental ao 3 ano do Ensino Medio, distribuidos nos turnos matutino, vespertino e noturno. As atividades deste trabalho foram realizadas em turma de 3 ano do Ensino Medio com 40 estudantes matriculados, no entanto, frequentavam as aulas em media 25 alunos. Essa turma foi escolhida, porque se tratava de uma turma em que a autora do trabalho realizava o Estagio Supervisionado. A escola foi fundada em 2005, sendo de grande valia para o bairro, uma vez que inicialmente so havia uma escola que atendia apenas ao Ensino Fundamental. O bairro em que a escola se encontra e caracterizado por muitos problemas sociais, como, por exemplo, violencia, trafico de drogas e pobreza. Nesse sentido, a escola busca envolver a comunidade em suas acoes na tentativa de contribuir para o desenvolvimento social e o exercicio da cidadania.

Em consonancia com o objetivo da escola, um grupo de pesquisa constituido por professores formadores e alunos de pos-graduacao e de graduacao, em parceria com os professores da Educacao Basica, tem estreitado os lacos na interface universidade-escola, de modo a fortalecer o trabalho colaborativo. Nessa perspectiva, tem-se construido, no contexto do grupo, Situacoes de Estudo que sao implementadas em escolas publicas, afim de proporcionar um ensino contextualizado, significativo e dialogico entre as ciencias. As atividades foram direcionadas por um dos autores deste trabalho e foram divididas em quatro etapas distribuidas em 8 aulas de 50 minutos, que estao resumidas e sistematizadas no Quadro 1. As aulas tiveram por base o diario de campo da pesquisadora, questionarios e relatos dos estudantes, que foram os instrumentos de construcao de dados da pesquisa. Vale ressaltar que as atividades foram baseadas e adaptadas de SILVA, PINHEIRO (2013).

A pesquisa realizada foi de cunho qualitativo (LUDKE, ANDRE, 1986) e teve como objetivo nao so avaliar o espaco escolar, mas, tambem, investigar os processos de ensino e aprendizagem por meio da SE cujo tema foi a automedicacao. No contexto do grupo de pesquisa, a SE e construida considerando-se as tres etapas apresentadas por Auth (2002) e discutidas por GEHLEN, MALDANER, DELIZOICOV (2012), sendo que a primeira etapa da dinamica de sala de aula e a problematizacao, que busca apontar os primeiros entendimentos dos alunos sobre a tematica abordada.

Considerando que a SE e balizada nos pressupostos vygotskyanos, a primeira etapa da SE se fundamenta no que, VYGOTSKY, LURIA, LEONTIEV (2010) mencionam quando distinguem os conceitos em espontaneos e cientificos, sendo o primeiro construido a partir do convivio cotidiano, na interacao social, e o segundo tem sua origem nos processos de ensino atraves da intermediacao do professor e da realizacao de atividades estruturadas. Dessa forma, "nessa etapa, problematiza-se o conceito espontaneo do estudante mediante a introducao do conceito cientifico para abordar um problema que esta vinculado a uma situacao real do contexto do estudante [...]" (GEHLEN, MALDANER, DELIZOICOV, 2012 p. 6).

Ainda segundo VYGOTSKY, LURIA, LEONTIEV (2010), o movimento do conceito espontaneo em direcao a abstracao possibilita o movimento do conceito cientifico em direcao ao concreto, o que caracteriza, dessa forma, a evolucao conceitual a qual esta relacionada aos novos significados dos conceitos, tanto cientificos quanto cotidianos. Vale ressaltar que a evolucao conceitual nao representa mudanca conceitual, ou seja, nao ha substituicao do conceito espontaneo pelo cientifico, mas e construido um novo sistema de conceitos (HALMENSCHLAGER, SOUZA, 2012).

Com isso, na problematizacao, o aluno tem o primeiro contato com a palavra representativa dos conceitos que serao estudados. No entanto, as ideias iniciais dos estudantes precisam ser consideradas para a construcao dos conceitos cientificos a partir de uma situacao real que possibilite a compreensao em niveis mais complexos. A fim de possibilitar esse dialogo entre as vivencias dos estudantes e o conhecimento sistematizado oferecido pela escola, a formacao dos professores deve ser constante uma vez que estes sujeitos necessitam estar atentos as diferentes manifestacoes dos alunos para problematizar e proporcionar a construcao dos conhecimentos cientificos (FRISON et al., 2007). E nesse momento, que se refere a primeira etapa da SE, que o professor apresenta algumas palavras que mostram outras possibilidades de se compreender a situacao em estudo, conforme e apresentado no 1 momento da SE.

a. 1 Momento: Os alunos e a automedicacao (Aulas 1 e 2)

Nesse primeiro momento, um questionario contendo cinco (5) perguntas abertas foi respondido individualmente pelos alunos. Esse instrumento buscou investigar a compreensao dos alunos acerca do tema automedicacao, como, por exemplo, os riscos, as consequencias, a importancia da leitura das bulas e da orientacao medica. Apos a resposta ao questionario, foi proposta uma discussao acerca das questoes que foram abordadas no questionario, apresentando aspectos legais que permeiam o assunto, enfatizando as propostas do Ministerio da Saude e da Organizacao Mundial da Saude para solucionar o problema da automedicacao. Alem disso, foi solicitado que os alunos levassem bulas de medicamentos utilizados por eles e/ou familiares para a atividade posterior.

A segunda etapa da SE e caracterizada como primeira elaboracao, o que remete para atividades que buscam o aprofundamento sobre as circunstancias que foram apresentadas na primeira etapa e que, segundo FRISON et al. (2007), estabelecem relacoes entre os conhecimentos cotidianos e cientificos, considerando questoes sociais, culturais e economicas. Entao, "e por meio dessas atividades que os estudantes vao ter o primeiro contato com conhecimentos cientificos para alem da palavra representativa de um determinado conceito" (GEHLEN, MALDANER, DELIZOICOV, 2012 p. 10). Destarte a primeira elaboracao no contexto da SE e o primeiro contato do estudante com questoes em que estao sendo usadas nao apenas palavras representativas de um determinado conceito, mas tambem lhe sao agregados outros significados que possibilitam uma compreensao mais complexa da tematica, como bem descritos nos 2 e 3 momentos, que consistem na segunda etapa da SE.

b. 2 Momento: A Historia dos medicamentos e a importancia da leitura das bulas (Aulas 3 e 4)

No segundo momento, foi apresentado um video "Mundos Invisiveis O surgimento dos Remedios--Episodio 3" (1) que relata a historia do surgimento dos remedios, mais especificamente dos antibioticos. A partir da discussao com a turma sobre o video, foram apresentados os tipos de medicamentos de acordo com a funcao no corpo humano. Posteriormente, foi dado inicio a uma discussao com os estudantes sobre a importancia da leitura das bulas. Foram listados no quadro os nomes dos medicamentos indicados pelos estudantes. Logo apos, a sala foi dividida em 6 grupos de tres componentes para a leitura das bulas e a realizacao de uma atividade que sera discutida, posteriormente, neste artigo.

c. 3 Momento: Acao dos medicamentos, saude e autocuidado (Aulas 5 e 6)

Nesse terceiro momento, foi apresentado outro video denominado "Trabalho sobre automedicacao" (2) que aborda os motivos que levam as pessoas a se automedicarem e os riscos dessa pratica. Com isso, os alunos foram alertados sobre os medicamentos que sao vendidos sem receita medica, sobre a importancia da leitura das bulas e da orientacao de um profissional de saude. A palavra principio ativo foi introduzida por meio de uma discussao sobre a acao dos medicamentos naturais e industrializados, ressaltando-se as especificidades dos medicamentos de referencia, genericos e similares.

E importante esclarecer que, no Brasil, os medicamentos de referencia sao os medicamentos registrados como inovacao junto ao Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) cuja eficacia, seguranca e qualidade foram comprovadas cientificamente perante o Orgao Federal competente, a Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (ANVISA), por ocasiao do registro. Quando um medicamento de referencia e produzido, a industria que o desenvolveu faz uma protecao patentaria. Apos a expiracao da protecao patentaria ou de outros direitos de exclusividade, os medicamentos genericos sao produzidos, para tanto, devem comprovar eficacia, seguranca e qualidade, alem de apresentar biodisponibilidade igual a do medicamento de referencia ou inovador. Os medicamentos genericos agem em nosso organismo da mesma forma que os medicamentos de referencia agiriam, e, por isso, sao os unicos que podem substituir o medicamento de referencia. Ja os similares sao aqueles que contem o mesmo ou os mesmos principios ativos, apresentam a mesma concentracao, forma farmaceutica, via de administracao, posologia e indicacao terapeutica, e que sao equivalentes aos medicamentos registrados no orgao federal responsavel pela vigilancia sanitaria, podendo diferir em caracteristicas relativas ao prazo de validade, embalagem, rotulagem, excipientes e veiculos, devendo sempre ser identificados por nome comercial ou marca (BRASIL, 2014).

A terceira etapa da SE e caracterizada como funcao da elaboracao e compreensao conceitual, "momento relacionado ao nivel conceitual atribuido a cada ciclo de estudos ou serie, e a volta ao problema em foco" (GEHLEN, MALDANER, DELIZOICOV, 2012 p. 13). Nesse momento, sao exploradas situacoes que apresentam explicacoes de cunho cientifico e o aluno comeca a relacionar as palavras representativas dos conceitos cientificos com o contexto no qual as mesmas sao empregadas. Essa etapa esta descrita no 4 momento, que se refere a terceira etapa da SE.

Nessa perspectiva, vale ressaltar que VYGOTSKY (2007) sugere, pelo menos, dois niveis de desenvolvimento, sendo o primeiro nivel o de desenvolvimento real, que, segundo ele, e "o nivel de desenvolvimento das funcoes mentais da crianca que estabeleceram como resultado de certos ciclos de desenvolvimento ja completados" (2007 pp. 95-96), ou seja, segundo MESSEDER NETO (201 6), refere-se aquilo que a crianca consegue fazer sozinha, sem ajuda. Ja o segundo nivel e a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) que, segundo VYGOTSKY (2007), e determinado atraves da solucao de problemas sob a orientacao de um adulto ou em colaboracao com companheiros mais capazes. Segundo MESSEDER NETO (2016), corresponde ao que a crianca consegue fazer em colaboracao, ou seja, por imitacao; de modo que, "aquilo que hoje ela faz em colaboracao com o mais capaz, amanha conseguira fazer sozinha" (2016 p. 120).

VYGOTSKY (2007 p. 98) caracteriza a ZDP como "aquelas funcoes que ainda nao amadureceram, mas que estao em processo de maturacao, funcoes que amadurecerao, mas que estao presentemente em estado embrionario". Alem disso, nao se trata de uma area fisica, como afirma MESSEDER NETO (2016), mas se refere a um conceito que indica que a crianca faz mais coisas acompanhadas de um ser mais capaz que sozinha. Vale ressaltar que, na escola, o par mais capaz se refere ao professor, que deve promover, de maneira voluntaria e especifica, o maximo de desenvolvimento e tem a funcao de "emprestar" suas funcoes psiquicas aos estudantes, de modo que as funcoes deles amadurecam.

d. 4 Momento: Conhecendo a quimica dos medicamentos (Aulas 7 e 8)

No quarto momento, foram exploradas as formulas estruturais dos principios ativos dos medicamentos pesquisados pelos alunos, os quais, em grupo, construiram cartazes com a formula estrutural planar dessas moleculas. Vale ressaltar que os alunos ja haviam tido aula de ligacoes quimicas, hidrocarbonetos e funcoes organicas. Apos a construcao dos cartazes, nesse 4 momento, os alunos responderam a lista de exercicios que apresentava questoes referentes as moleculas desenhadas no cartaz, evidenciando as questoes trabalhadas durante a SE. A lista de exercicios continha questoes que investigavam os conhecimentos dos alunos acerca dos conteudos curriculares abordados durante as atividades da SE, como, por exemplo, a classificacao dos carbonos de uma molecula, solubilidade das moleculas organicas e identificacao das funcoes organicas.

Nesse momento, tambem, foi solicitado que os alunos escrevessem um relato individual sobre as atividades realizadas durante a SE, evidenciando de que maneira as atividades influenciaram no processo de ensino e aprendizagem deles, o que, foi utilizado como informacao obtida, analisada e apresentada neste texto.

A analise das informacoes de toda a producao gerada nos quatro momentos foi feita utilizando-se a Analise Textual Discursiva (ATD). Segundo MORAES, GALIAZZI (2006), na ATD, as informacoes analisadas, neste caso, toda a producao dos momentos necessita ser transformada em documentos escritos para, entao, ser submetida a analise. A analise textual envolve identificar e isolar enunciados dos materiais gerados, categorizar esses enunciados e produzir metatextos, integrando neles descricao e interpretacao, e utilizando como base de sua elaboracao o sistema de categorias construidas (MORAES, GALIAZZI, 2006). Dessa forma, foram consideradas tres categorias, sendo duas, a priori, denominadas: a) "Compreensoes sobre automedicacao" e b) "Compreensoes sobre solubilidade" e uma emergente denominada c) "Consideracoes sobre a SE". E valido salientar que, neste artigo, sao discutidas apenas duas categorias: a b) e c).

3. Compreensoes sobre solubilidade

Apropriar-se do conhecimento e pensar sobre situacoes do mundo para entende-las. No caso da Quimica, trata-se de ser capaz de pensar sobre o mundo material, utilizando os conhecimentos quimicos (OLIVEIRA, GOUVEIA, QUADROS, 2009). Sendo assim, a fim de facilitar a compreensao dos alunos acerca de muitas situacoes vinculadas ao seu dia-a-dia e conceitos cientificos trabalhados em sala de aula, e importante que o professor tenha conhecimento das concepcoes previas dos estudantes (AZZOLIN et al., 2013).

A aprendizagem deve ser tratada em termos de dominio e apropriacao. O conhecimento memorizado e de dominio dos alunos, uma vez que "sabem usar o instrumento cultural", ainda que por pouco tempo, todavia nao se apropriam desse conhecimento, ou seja, nao utilizam esse conhecimento em outras situacoes de suas vidas (WERTSCH, 1998 apud OLIVEIRA, GOUVEIA, QUADROS, 2009).

Dessa forma, os instrumentos de construcao de dados, como foi o caso dos questionarios, do relato e da atividade do ultimo momento, buscaram identificar como os estudantes se apropriaram dos conhecimentos sobre solubilidade, observando a estrutura molecular, relacionando-a com a polaridade e as interacoes intermoleculares. Sendo assim, vale ressaltar que a solubilidade de uma substancia organica esta diretamente relacionada com a estrutura molecular, sobretudo com a polaridade das ligacoes e da especie quimica como um todo. Geralmente, os compostos apolares ou fracamente polares sao soluveis em solventes apolares ou de baixa polaridade, enquanto que compostos de alta polaridade sao soluveis em solventes tambem polares (MARTINS, LOPES, ANDRADE, 2013).

A Figura 1 mostra um cartaz produzido pelos alunos, no qual desenharam moleculas dos principios ativos dos medicamentos mais comentados durante as atividades.

Os fragmentos de falas extraidas do 3 momento, a seguir, demonstram como os alunos se apropriaram do conceito de solubilidade,
"A Loratadina possui essas caracteristicas, pois trata-se de uma
substancia apolar. Ja a Dipirona e soluvel em agua por ser polar".
(ALUNO A)
"Loratadina contem uma cadeia extensa por isso e uma substancia apolar
e e insoluvel em agua, dipirona e um sal, soluvel e polar". (ALUNO B)
"Porque a Loratadina tem uma cadeia extensa e, portanto, e apolar
(...)". (ALUNO E)
"A Loratadina nao tem hidroxila para fazer ligacao de hidrogenio com
agua tornando-a uma molecula pouco polar. Por outro lado, a Dipirona e
soluvel devido ao fato de que ela apresenta em sua estrutura ions".
(ALUNO G)


Ficou evidente que os alunos tem uma certa apropriacao acerca do conceito de solubilidade, mas algumas respostas apresentam termos comuns do cotidiano, ou seja, e empregada a linguagem do senso comum, conforme se observa a seguir na fala extraida do 3 momento:
"A Loratadina e apolar porque ela nao se desmancha dentro da agua e a
Dipirona e polar porque ela desmancha na agua". (ALUNO J, grifo nosso)


Essa observacao corrobora com Oliveira, Gouveia e Quadros (2009), uma vez que esses autores afirmam que questoes cotidianas e sociais dos estudantes deveriam ser canalizadas para efetivar a assimilacao, a apropriacao e a construcao de conceitos cientificos. SALDANHA, SILVA NETA, WEBER (2012) afirmam que abordar temas sociais, como automedicacao, promove a apropriacao da linguagem cientifica e fornece habilidades de argumentacao e de pensamento critico, alem de favorecer o processo de ensino e aprendizagem, contribuindo, dessa maneira, para a formacao de cidadaos conscientes e capazes de tomar decisoes.

Apesar de perceber uma apropriacao acerca do conceito de solubilidade pelos alunos, vale ressaltar que foram percebidas muitas copias entre os estudantes, o que dificultou uma maior discussao sobre a apropriacao desses conhecimentos.

4. Consideracoes sobre a Situacao de Estudo

De acordo com os Parametros Curriculares Nacionais para o Ensino Medio (PCNEM) (BRASIL, 1997), que fundamentam os principios da SE, o aluno ja tem conhecimentos adquiridos por consequencia de suas vivencias pessoais, e que aqueles sao carregados de afetos e valores. Assim, as interacoes estabelecidas na sala de aula com o contexto do aluno sao fatores determinantes para a aprendizagem, sendo que a contextualizacao pode configurar um recurso para promover um processo de ensino e aprendizagem significativo (HALMENSCHLAGER, SOUZA, 2012).

Vale ressaltar que contextualizar nao significa apenas abordar qualquer situacao pertinente no cotidiano do aluno, apesar de ser esta a compreensao de contextualizacao mais presente no ambito do ensino de Ciencias (HALMENSCHLAGER, SOUZA, 2012). RICARDO (2015) afirma que a contextualizacao nao pode ser caracterizada pelo ato de "falar de coisas" que os alunos conhecem e enfatiza que ha uma necessidade de ter clareza sobre as definicoes apresentadas para os alunos e a compreensao das contribuicoes da abordagem para o processo de ensino e aprendizagem de Ciencias, a fim de promover um novo entendimento das situacoes estudadas a partir dos conceitos cientificos adquiridos. Confirmando a potencialidade da contextualizacao, conforme a fala extraida do 4 momento, o Aluno A expressa que,
(...) "consegui compreender varios conteudos relacionados a
"Automedicacao", por meio de atividades (sic) de explicacoes e
conversas sobre o assunto (...) Aprendemos a ler bulas quimicamente
falando e associamos automedicacao com funcoes organicas". (ALUNO A)


Esse fragmento aponta que a automedicacao como tema de SE alem de ser interessante para os alunos permite que questoes sociais presentes no cotidiano deles sejam relacionadas com os conteudos curriculares. Assim, percebemos, como bem salientam SILVA, PINHEIRO (2013), que os alunos consideram pertinente falar da automedicacao no contexto das aulas de Quimica.

A SE, em sua origem, considerou a interdisciplinaridade definida nos Parametros Curriculares Nacionais (PCN). Contudo, a concepcao que integra essa reconstrucao curricular pode ser diferente, pois diversos autores apresentam compreensoes distintas para esse termo (HALMENSCHLAGER, SOUZA, 2012). RICARDO (2015 p. 68), em seu trabalho, compreende interdisciplinaridade de acordo com documentos oficiais, o qual a considera como "uma necessidade em razao da contextualizacao do que se pretende ensinar em situacoes reais, ou proximas do real vivido pelo aluno". Alem disso, vale ressaltar que, ainda segundo esse autor, a interdisciplinaridade proposta nas orientacoes desses documentos oficiais tem carater instrumental, uma vez que nao permite a fragmentacao da situacao estudada. Considerando esses aspectos, entendemos e reconhecemos a limitacao deste trabalho no que se refere a interdisciplinaridade, tendo em vista que as atividades foram realizadas apenas com o professor de Quimica.

MALDANER et al. (2007) afirmam que os estudos mostram que as disciplinas dialogam quando os professores dos diferentes componentes curriculares consideram determinado contexto ou situacao concreta como o objeto de estudo coletivo. Nesse sentido, no processo de escolha da tematica, que deve possibilitar a abordagem de conteudos curriculares de forma articulada, e considerado o potencial desta para a realizacao de um trabalho interdisciplinar. De acordo com HALMENSCHLAGER, SOUZA (2012), isso aponta que a compreensao de interdisciplinaridade presente na SE tem relacao com a metodologia de ensino que esta direcionada a um determinado assunto ou tema que pode ser abordado pelas diferentes disciplinas que constituem uma SE.

Nessa perspectiva, compete ao professor entender a aprendizagem como um processo, que ocorre por sucessivas aproximacoes do conteudo cientifico, de forma que a cada nova aproximacao novos elementos devem ser adicionados, a fim de proporcionar a aprendizagem, que de fato promovera o desenvolvimento do educando (MESSEDER NETO, 2016). Dessa forma, "o ensino precisa ser uma atividade consciente por parte do professor, de modo que todas as suas acoes confluam para o objetivo central da escola: ensinar os conceitos classicos e socialmente relevantes" (2016 pp. 122-123).

Neste trabalho, buscamos atender algumas caracteristicas de uma proposta interdisciplinar e entendemos que foi possivel cumprir grande parte do planejamento apresentado na Figura 2, que mostra os possiveis temas e conteudos que podem ser abordados a partir da tematica automedicacao.

Os fragmentos a seguir extraidos do 4 momento afirmam que houve uma discussao acerca da acao dos medicamentos no organismo:
Na parte teorica foram abordados (sic) exemplos e funcoes que os
remedios e medicamentos desempenham no organismo humano". (ALUNO A)
"Durante o projeto foi destacado os riscos da automedicacao, mostrou
que cada medicacao tem uma acao diferente no nosso organismo". (ALUNO F)


E possivel perceber, entao, que as discussoes acerca de acoes quimicas e biologicas dos medicamentos no organismo caracterizaram a interdisciplinaridade proposta pela SE. Alem do mais, a questao "por que os medicamentos liquidos agem mais rapido que os comprimidos?" surgiu durante as atividades do 3 momento e rapidamente foram discutidos conceitos relacionados a superficie de contato, o que demonstra que a tematica tambem exige conhecimentos fisicos.

Vale ressaltar que, alem das discussoes acerca do conteudo das Ciencias, houve tambem uma discussao historica bastante proveitosa sobre o surgimento dos medicamentos, pois permitiu que fossem debatidos paradigmas relacionados com o progresso das ciencias, principalmente a Quimica.

5. Algumas consideracoes

A busca por uma aprendizagem significativa necessita de um olhar interdisciplinar e contextualizado que conduza a uma maior interacao entre as questoes socioculturais e os conteudos curriculares. Nessa perspectiva, a SE se mostrou uma proposta de inovacao curricular interessante de ser usada na escola, uma vez que a SE prioriza uma abordagem tematica no ensino de Ciencias que tem como primazia a contextualizacao e a interdisciplinaridade. Nesta SE, apesar de ter sido pensada considerando muito mais aspectos da componente curricular quimica, foi possivel fazer articulacoes com outras componentes, como a biologia, historia e a fisica ainda que o trabalho tenha sido realizado apenas pelo professor de Quimica. Alem disso, possibilitou discussoes concernentes a area da saude.

A SE em questao tambem possibilitou uma evolucao conceitual sobre o tema abordado, uma vez que, no discurso dos alunos, varios conceitos que inicialmente eram carregados de informalidade comecaram a emergir de maneira mais cientifica. Sendo assim, pode-se afirmar que com a proposta curricular houve o desenvolvimento de habilidades sociais, a capacidade de se comunicar efetiva e coerentemente, a qualidade da apresentacao escrita das ideias, permitindo a autonomia e a criatividade, o dialogo, a interacao e a comunicacao.

A cada experiencia identificamos lacunas trazidas pela SE, dentre elas podemos enfatizar a contextualizacao e a interdisciplinaridade, que sao premissas dessa proposta, mas que sao dificeis de serem alcancadas em sua totalidade. Em relacao a esse aspecto, o grupo de pesquisa tem se aprofundado em teoricos que discutem a interdisciplinaridade na tentativa de ressignificar a SE e possibilitar novas compreensoes.

Foi possivel confirmar que a automedicacao e uma pratica muito comum na realidade local. A analise dos dados da pesquisa aponta que as pessoas compreendem o conceito de Automedicacao e conhecem os riscos e as consequencias da pratica, mas fica evidente tambem que inumeros sao os motivos que levam as pessoas a se automedicarem, dentre eles esta a indicacao de medicamentos por pessoas nao habilitadas (familia, amigos e vizinhos), a autoconfianca e a falta de acesso aos servicos de saude publica. Com o trabalho, os alunos demonstraram que ficaram mais conscientes dos riscos da automedicacao. A participacao efetiva, os textos produzidos por eles, tambem foram indicativos da receptividade da tematica nas aulas.

6. Agradecimentos

Aos estudantes e a professora da escola, a agencia de fomento CAPES.

7. Referencias Bibliograficas

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Roberta Conceicao Bomfim (*), Elisa Prestes Massena (**)

Como citar este articulo: Bomfim, R. C. y Massena, E. P. (2019). Automedicacao como tema de situacao de estudo. Candola, Ensenanza y Aprendizaje de las Ciencias, 14(2), 360-375. DOI: http://doi.org/10.14483/23464712.13519

Recibido: 24 de junio de 2018; aprobado: 11 de abril de 2019

(*) Professora licenciada em Quimica. Mestre em Educacao em Ciencias pelo Programa de Pos-Graduacao em Educacao em Ciencias da Universidade Estadual de Santa Cruz--UESC, Ilheus, BA--Brasil. Correio eletronico: roberta.bomfim02@gmail.com - ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2974-2182

(**) Professora e orientadora no Programa de Pos-Graduacao em Educacao em Ciencias, Universidade Estadual de Santa Cruz--UESC, Ilheus, BA--Brasil. Professora Adjunto do Departamento de Ciencias Exatas e Tecnologicas da mesma instituicao. Correio eletronico: elisapmassena@gmail. com--ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7670-0201

(1.) Link do video: https://www.youtube.com/watch?v=3JvBk5TdKA0

(2.) Link do video: https://www.youtube.com/watch?v=Ij8md3GuBEc
Quadro 1. Sintese dos momentos.

Etapa da SE   Momento   Desenvolvimento

1             1         Aplicacao de um questionario sobre
                        alguns aspectos que envolvem a
                        automedicacao, afim de promover a
                        problematizacao; Discussao sobre as
                        possiveis lacunas que surgirem com a
                        problematizacao; Solicitar que os alunos
                        levem para a aula bulas de medicamentos
                        utilizados por eles e familiares.
2             2         Apresentacao do video "Mundos Invisiveis
                        O surgimento dos Remedios--Episodio 3"
                        <https://www.youtube.com/watch?v=iHazhGrbFLw>
                        Discussao sobre os conceitos do video e ideias
                        pessoais de cada aluno sobre a historia da
                        alquimia;
                        Aula expositiva-dialogada sobre os tipos de
                        medicamentos, para que os alunos identifiquem a
                        aplicabilidade dos diferentes medicamentos e
                        reconhecam a importancia das bulas;
                        Preenchimento de uma tabela com as informacoes
                        contidas nas bulas trazidas (Nome do
                        medicamento, Classificacao, Precisa de receita?,
                        Indicacoes, Efeitos colaterais e Principio
                        ativo).
              3         Apresentacao do video "Trabalho sobre
                        automedicacao"
                        < https://www.youtube.com/watch?v=Ij8md3GuBEc>
                        Questionamento sobre os motivos que levam as
                        pessoas a se automedicarem, alem de discutir os
                        riscos e os beneficios dessa pratica que sao
                        apresentados no video. Discussao sobre os
                        medicamentos naturais e genericos.
3             4         Construcao em grupos de cartazes com desenhos,
                        planos das moleculas dos medicamentos. Resolucao
                        de exercicios individualmente com questoes sobre
                        as moleculas construidas pelos grupos.

Fonte: Dados de pesquisa, 2016.
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Title Annotation:Resultado de investigacion
Author:Bomfim, Roberta Conceicao; Massena, Elisa Prestes
Publication:Gondola, ensenanza y aprendizaje de las ciencias
Date:Jul 1, 2019
Words:8565
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