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AS CONSEQUENCIAS FISICAS, PSIQUICAS E SOCIAIS EM INDIVIDUOS COM ORTOREXIA NERVOSA.

INTRODUCAO

Atualmente, e comum ouvir sobre 'culto ao corpo', 'industria da beleza', 'vida saudavel', entre outros conceitos que se associam a saude e ao bem-estar corporal. Portanto, observa-se a preocupacao demasiada com a estetica corporal e o fator de rejuvenescimento desenvolvido por muitas pessoas (Azevedo, 2007).

Diante disso, percebe-se, por meio midiatico, a grande demanda na busca por solucoes que venham aprimorar a estetica e a saude. Isto porque a midia estimula e demonstra a referida situacao diante de campanhas, programas, series televisivas, propagandas, entre outras possibilidades. Observa-se essa preocupacao ate mesmo nos artigos cientificos, visto que e possivel encontrar diversos estudos que se relacionam a esta procura pelo corpo e saude perfeitos.

Sabe-se que o descuido com a saude pode ocasionar diversas patologias, porem e possivel afirmar que o excesso de cuidado tambem pode ser considerado patologico. Por esta razao, faz-se necessario abordar sobre o tema do desenvolvimento de doencas que se relacionam a extrema preocupacao com a saude.

Consoante ao exposto, ve-se a realizacao de estudos sobre a nova patologia, a ortorexia nervosa, a qual afeta e modifica de modo consideravel a vida psiquica e social do individuo, independentemente da sua condicao social.

Portanto, compreende-se a necessidade de conceituar a ortorexia, e a importancia dos novos estudos sobre a patologia que nao e considerada um transtorno alimentar.

Desse modo, um novo comportamento em relacao a alimentacao vem chamando a atencao de profissionais da saude, a ortorexia nervosa (ON). Tal comportamento tem sido caracterizado, de forma geral, como a obsessao por alimentos saudaveis.

Muitas das pessoas mais desbalanceadas que eu ja conheci sao aquelas que submetem a si mesmos a uma alimentacao saudavel. De fato, eu acredito que muitos deles contrairam um novo transtorno alimentar, o qual cunhei "ortorexia nervosa" (Bratman, 1997).

A expressao ortorexia nervosa originase das palavras gregas orthos (preciso ou correto) e orexis (apetite) e e definida como um comportamento obsessivo por uma nutricao adequada (Varga e colaboradores, 2014) ou obsessao por alimentacao saudavel (Pontes e Montagner, 2011).

Considerada um termo muito recente e dificilmente compreendido, a ON e raramente abordada por profissionais da saude e da alimentacao, que tem como foco o ensino de uma alimentacao saudavel. Trata-se de um quadro que comeca a ser discutido como um transtorno alimentar (TA), visto que este e um grave disturbio.

Segundo Cordas (2004), os disturbios afetam principalmente adolescentes e adultos jovens do sexo feminino e podem levar a grandes prejuizos psicologicos e sociais, alem de aumentar o numero de morbidade e mortalidade.

Conforme Bosi e colaboradores (2008, p. 29), "estima-se que o risco de desenvolver Transtorno de Comportamentos Alimentares (TCA) pode estar presente em 20% das mulheres jovens, por apresentarem comportamentos subclinicos precursores, embora nem todas cheguem a desenvolvelos".

Os transtornos alimentares tem uma etnologia multifatorial, ou seja, diferentes fatores que interagem de forma complexa e, muitas vezes, produzem ou perpetuam uma doenca. Esses fatores dividem-se em tres: os predisponentes (aqueles que aumentam a chance de aparecimento do transtorno, nao o tornando inevitavel), os precipitantes (marcam os sintomas e precipitam a doenca) e os mantenedores (que determinam se o transtorno vai ser perpetuado ou nao) (Morgan, Negrao e Vecchiatti, 2002).

A ON ainda nao e considerada um transtorno alimentar, portanto, nao se faz presente no DSM-V, no CID-10 e no manual de diagnosticos de TA da Associacao Americana de Psicologia (APA). De acordo com Martins e colaboradores (2011, p. 346), "tal comportamento alimentar e ainda pouco explorado na literatura cientifica por diversas razoes. E possivel que, por nao ser um TA oficialmente reconhecido, a ON tenha um numero limitado de trabalhos publicados".

Santos (2012) destaca a importancia de existir uma formacao maior sobre o tema, ja que pode ser utilizada como promocao de saude. Porem enfatiza os escassos materiais teoricos, metodologicos e operacionais. O autor apresenta um paradoxo: fala-se muito em educacao alimentar, mas pouco se sabe sobre ela.

Uma classificacao clara da ON ainda nao foi devidamente desenvolvida, e ha uma recorrente discussao se ela pertenceria ao grupo dos transtornos alimentares ou dos transtornos obsessivos compulsivos (Janas e colaboradores, 2012).

Em virtude da crescente onda de preocupacao com o estilo de vida saudavel para fugir de doencas relacionadas a ma alimentacao (tais como as doencas cronicas), houve um grande boom de procura por dietas saudaveis e na producao e prevencao que estas podem proporcionar. Tamanha preocupacao esta se provando ser exagerada e, portanto, inviavel. Segundo Shah (2012, p. 7), quando levada ao extremo, alguns clinicos e pesquisadores acreditam que a alimentacao saudavel pode acarretar muitos problemas.

A variedade dos problemas alimentares sugere que uma verdadeira psicopatologia da alimentacao cotidiana vem ocupando o cenario contemporaneo. "Nunca se falou e se pensou tanto em alimentacao como nos ultimos tempos. Um novo cliche surgiu no cenario da modernidade: comer ou nao comer, eis a questao!" (Fernandes, 2012, p. 136).

Acredita-se que existam grupos mais vulneraveis: as mulheres, o periodo da adolescencia e as que se dedicam em esportes como culturismo (Bartrina, 2007). Todavia a ON acomete tanto o publico feminino quanto o masculino, fazendo com que ambos transformem em uma obsessao o que era para ser uma alimentacao saudavel.

As pessoas que possuem ON, no entendimento de Varga e colaboradores (2014), podem ser caracterizadas como: que se preocupam em consumir somente comidas saudaveis; que sempre (com raras excecoes) comem em horarios determinados; consideram que estar acima de seu devido peso e um sinal de fraqueza; evitam digerir alimentos que tenham especificas cores; desaprovam quem nao consegue ser mais forte que seus desejos alimentares; acham que outras pessoas podem ser culpadas pelas proprias doencas; sempre comem as mesmas coisas, sao criticas em relacao as pessoas que nao comem de forma saudavel; e gastam uma grande quantidade de tempo preparando suas refeicoes.

Essa possivel nova "patologia" ocorre por fases. Inicia-se como uma pequena preocupacao em que a pessoa tem objetivos pequenos, como ter habitos alimentares mais saudaveis, comecar a praticar exercicios fisicos e emagrecer. Em seguida, ha uma preocupacao maior nos tipos de alimentos ingeridos, tais como alimentos sem conservantes, sem corantes, totalmente naturais e uma preocupacao exacerbada com o fisico.

Conforme o peso corporal vai diminuindo e a carga de exercicios fisicos vai aumentando, a obsessao por alimentos saudaveis toma conta da maior parte do tempo do sujeito. "Na ON a pessoa inicialmente deseja melhorar sua saude, tratar uma doenca ou emagrecer. Finalmente, a dieta torna-se a parte mais importante da vida" (Ribeiro e Oliveira, 2011, p. 66).

Nos casos de ON, o individuo encontra-se em desequilibrio, distorcendo alguns conceitos, entre eles a alimentacao correta. A alimentacao saudavel segue as recomendacoes nutricionais e evita restricoes, como classificar alimentos em "bons" ou "ruins", "saudaveis" ou "nao saudaveis", mas esse conceito depende de muitos fatores (Martins e colaboradores, 2011).

De acordo com Bratman (1997), a ON esta ligada a sensacao ilusoria de seguranca (na prevencao das doencas), a urgencia de controlar totalmente a vida de alguem (eliminando o imprevisivel), a um "conformismo disfarcado" (comer de forma saudavel ajuda o sujeito a aceitar o modelo de corpo ideal), a busca tanto espiritual quanto de identidade e a um desejo de autoprivacao.

A ingestao ritual de comidas encaradas como "puras" cumpre uma funcao de transcendencia purificante, para Castiel e Dardet (2007).

Os adeptos da ON procuram o aperfeicoamento moral tambem por intermedio da comida. Porem, diante de muitas tentacoes cotidianas--como pizzas, hamburgueres, chocolates--, eventualmente ocorrem quedas que podem envolver refeicoes com essas guloseimas "impuras".

Sob tais circunstancias, para retornar ao "estado de graca", sao necessarias dietas mais estritas que atuam como condenacao e assumem papel de atos de penitencia para superar os sentimentos de culpa. A vida passa a girar em termos de regimes alimentares. "O excesso de cuidados, com caracteristicas patologicas, ocorre quando a preocupacao com o alimento saudavel compromete o prazer de comer [...] e quando a pessoa sente muita culpa, eventualmente cede ao desejo de ingerir alimentos" (Magnoni, 2012, p. 104).

Cada dia se torna um dia para comer bem, ser bom, ser melhor do que os outros no progresso da dieta e na autopunicao, caso a tentacao venca. Por vezes, a comida fica tao restrita em sua variedade e calorias que a saude do individuo "sofre"--uma virada ironica para a pessoa que sempre se dedicou a uma dieta saudavel.

Segundo Loureiro (2004, p. 43), "a alimentacao e muito mais do que apenas nutrientes: tem um significado muito proprio para cada pessoa do grupo, constituindo um traco de identidade".

Donini citado por Lopes e Kirsten, (2009, p. 101) afirma que o "desejo de comer alimentos saudaveis nao e uma desordem, mas quando isso se torna uma obsessao e atinge de forma negativa a vida do individuo, pode entao esse habito conduzir a ortorexia".

Os individuos com comportamento ortorexico objetivam ingerir alimentos que contribuam para um organismo em bom funcionamento livre de impurezas, resultando em um corpo saudavel e uma melhora na qualidade de vida.

Dessa maneira, eles adotam habitos para sua alimentacao que acabam prejudicando seu relacionamento com a sociedade.

Entre as regras impostas por eles mesmos, os ortorexicos tendem a seguir habitos como pesar os produtos, administrar as calorias ingeridas, selecao alimentar, ler rotulos dos produtos, mastigar repetidas vezes antes de engolir e exclusao total de alimentos considerados por eles como impuros e prejudiciais (Martins e colaboradores, 2011).

Existem outros tipos de habitos, mencionados por Moreno e Sanchez (2007), como: "algumas condutas relacionadas com a preparacao--verduras sempre cortadas de determinadas maneiras--e com os materiais utilizados--somente ceramica, somente madeira etc)".

Quem possui ON nao sente mais a necessidade de interagir com outras pessoas, pois se considera "superior" aos que nao seguem seu mesmo estilo de vida e o mesmo tipo de dieta. Por esse motivo ocorre em grande parte dos casos um isolamento social (Varga e colaboradores, 2014).

Decorrente da preocupacao exacerbada e do desenvolvimento das regras a serem cumpridas, surge um afastamento social por parte dos ortorexicos com as outras pessoas. O ortorexico observa atentamente o que as outras pessoas comem e muitas vezes se ve na obrigacao de esclarecer-lhes o motivo de seu cuidado alimentar, procurando influencia-las e ao mesmo tempo corrigi-las em relacao ao tipo da alimentacao que praticam (Aksoydan e Camci, 2009).

Com isso, comecam a desenvolver um sentimento de desprezo quanto aos que consomem alimentos que na visao deles nao sao saudaveis e passam a ter uma dificuldade de relacionamento acompanhada de um sentimento de solidao (Lopes e Kirsten, 2009).

Katrina (2003) mostra que a obsessao pela dieta saudavel pode sobrepor outras atividades e interesses, destruir relacionamentos e tornar-se fisicamente perigosa.

Os familiares e amigos tendem a se afastar dos individuos com ortorexia, porque eles trazem consigo a possibilidade de conflito com os demais, ja que nao confiam ingerir alimentos preparados por outras pessoas que nao sejam eles, tornando sua frequencia em churrascos, eventos familiares e restaurantes muito raras, e provavelmente quando esta vem a acontecer, eles levam ou preparam seu proprio alimento (Shah, 2012).

Segundo Donini citado por Lopes e Kirsten (2009, p.102), "com esse comportamento, os ortorexicos, em casos extremos, preferirao morrer de fome a comer os alimentos que consideram impuros ou insalubres e, assim, prejudiciais a sua saude".

A preferencia por consumir alimentos preparados por eles mesmos esta associada a uma inseguranca de serem envenenados por agrotoxicos e defensivos agricolas ou contaminados pela falta de higiene de utensilios e/ou manipuladores (Pontes e Montagner, 2011).

O ortorexico utiliza apenas alimentos que procedem de um local conhecido. Ele exclui diversos itens essenciais de sua dieta sem que haja nenhuma substituicao destes.

Donini e colaboradores citados por (Lopes e Kirsten, 2009, p. 102) asseveram que "a supressao de gorduras, por exemplo, pode comprometer a ingestao de vitaminas lipossoluveis e acidos graxos, ambos imprescindiveis para o organismo".

A obsessao causada pelos ortorexicos ocasiona perda de relacionamentos sociais e insatisfacoes afetivas, isso agrava ainda mais a situacao do individuo, pois favorece as preocupacoes sobre os alimentos.

A ortorexia nervosa surge, inicialmente, como um desejo de melhorar sua saude, tratar uma doenca, ou emagrecer, mas com o passar do tempo acaba se tornando a parte mais importante de sua vida (Ribeiro e Oliveira, 2011).

O tratamento da ON demanda um time multidisciplinar incluindo profissionais da medicina, da psicologia e da nutricao. Em alguns casos, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) combinada com determinados recaptadores inibidores de serotonina (assim como a sertralina, fluoxetina e paroxetina) pode ser usada no tratamento das pessoas com ON (Brytek, 2012).

E importante frisar que, diferentemente dos pacientes com transtornos alimentares, os individuos com ON tendem a responder bem ao tratamento por causa da sua preocupacao com a saude e o bem-estar. Trabalhar com o circulo mais proximo dos pacientes promovendo a educacao da nutricao mostrase o componente inicial para a solucao do problema.

As pessoas com ON por vezes tem historias ou tracos em comum com os pacientes anorexicos (Bartrina, 2007). Estes sao muito cuidadosos, detalhistas e caprichosos com uma necessidade exacerbada de cuidado e protecao.

Visto que a ON ainda nao e considerada um transtorno alimentar, Martins e colaboradores (2011) apresentam caracteristicas que diferenciam os pacientes com ON dos que possuem transtorno alimentar. Um exemplo importante a destacar e que os pacientes com bulimia ou anorexia nervosa objetivam a perda de peso, enquanto os pacientes ortorexicos buscam uma alimentacao perfeccionista.

A receptividade em relacao ao tratamento e outro aspecto caracteristico, em que a resistencia ao tratamento e menor por parte do ortorexico do que os com TA.

Assim, segundo Bartrina (2007), "a pessoa com ortorexia consegue responder melhor ao tratamento, precisamente por essa preocupacao pela sua saude e auto-cuidado". Ja os pacientes com TA apresentam a negacao e dificuldade de aceitacao da existencia do transtorno.

Estudos recentes (Shah, 2012) apontam que a ON, assim como os TAs, esta se tornando cada vez mais presente na sociedade. Entre as pesquisas, embora ainda seja um assunto considerado "recente", encontram-se alguns materiais com assuntos relacionados a ON.

Alguns examinam a relacao da ON com nutricionistas brasileiros (Alvarenga e colaboradores, 2013), outros relacionam a ON com os atletas (Segura-Garcia e colaboradores, 2012) e outros ainda a prevalencia da ON com os artistas turcos (Aksoydan e Camci, 2009), alem da ON com a prevalencia em medicos residentes na faculdade de Medicina da Turquia (Bosi, Camur e Guler, 2007). Ha ainda um estudo que aborda a populacao geral (Ramaciotti e colaboradores, 2013).

Encontrou-se uma pesquisa realizada no Distrito Federal, em uma escola profissionalizante, nos cursos tecnicos de Nutricao e Dietetica e Secretariado. A pesquisa utilizou o Orto-15, um questionario com 15 perguntas, as quais foram elaboradas por Donini e colaboradores (Montagner e colaboradores, 2014).

O questionario visa descobrir aspectos do individuo que possam demonstrar a prevalencia de sintomas ortorexicos, apresentando questoes norteadoras e opcoes de resposta.

Observa-se que as perguntas sao muito bem direcionadas ao publico ortorexico, e poucas delas precisaram ser reavaliadas para a ocorrencia de um melhor sentido. Esse estudo teve como objetivo abrir caminho para que novas pesquisas sobre a ortorexia sejam realizadas. Os autores buscaram a traducao do questionario (que estava em italiano), bem como a aprovacao por parte dos autores originais para seu uso aqui no Brasil (Montagner e colaboradores, 2014).

Loureiro (2004, p. 44) aponta que "os programas mais eficazes para a adocao voluntaria de comportamentos alimentares saudaveis resultam de um conjunto de estrategias concentradas entre os niveis individual, social e ambiental".

Estrategias estas que sao veiculadas pela midia e muitas vezes sao inalcancaveis, causando nao somente a ON, como tambem a bulimia, a anorexia, a obesidade, a vigorexia, entre outros disturbios.

O culto ao corpo vem sendo discutido e ja faz parte do cotidiano das pessoas. O meio social cultural ou os meios de comunicacao midiaticos sao fatores que podem influenciar na aquisicao de TA e de ON (Shah, 2012; Varga e colaboradores, 2014), mesmo que, nao sendo considerada como um transtorno se refira a imagem corporal dos individuos.

Braggion e colaboradores (2000, p. 16) descrevem a imagem corporal como "a capacidade de representacao mental do proprio corpo pertinente a cada individuo, sendo que esta imagem envolve aspectos relacionados a estrutura [... ] e a aparencia (forma, aspecto), entre varios outros componentes psicologicos e fisicos da imagem corporal".

O culto ao corpo se tornou uma modalidade que vem chamando atencao por produzir uma obsessao pela forma e pela saude. O discurso do corpo saudavel se revela pela busca para atingir um ideal de beleza de acordo com padroes predeterminados (Carvalho, Amaral e Ferreira, 2009, p. 201).

A midia possui um grande poder de "persuasao". As informacoes transmitidas por ela chegam com rapidez ate as pessoas, disseminando ideias e padroes de beleza as quais podem levar o individuo a querer alcancar um corpo adequado e uma saude inabalavel (Costa, 2007). "O conhecimento sobre a percepcao corporal pode auxiliar os profissionais de saude na busca da recuperacao do equilibrio interno do paciente, evitando o desenvolvimento de transtornos alimentares e concorrendo para a expressao de um estado nutricional saudavel", com o objetivo de ter condicao para um melhor estado geral de saude e garantia de qualidade de vida (Rodrigues e colaboradores, 2012, p. 60).

"Na sociedade de consumo em que se vive, atualmente, os valores predominantes sao o culto ao corpo e a saude, observando um ambiente perfeito para novos transtornos alimentares" (Lopes e Kirsten, 2009, p. 98).

Castro (2007, p. 2) afirma que "a preocupacao com o corpo esbelto, na contemporaneidade, pode ser compreendida como algo que diz respeito a condicao do individuo na modernidade".

Cruz e colaboradores (2008 p. 1), no inicio do texto, apontam que "nada mais atual do que a adoracao desenfreada pelo corpo magro e o efeito cascata que e desencadeado por esta adoracao".

Segundo Loureiro (2004, p. 43), "a alimentacao e uma das principais determinantes da saude e traduz as condicoes de vida de cada um, o contexto em que se move, a cultura que perfilha. Sendo um traco de identidade, e tambem o reflexo das pressoes sociais".

Especialistas em medicina, nutricao, entre outros, procuram disseminar a educacao para habitos saudaveis. A midia, por sua vez, usa tais profissionais para propagar a ideia de que para sobreviver e necessario ser extremamente saudavel (Costa, 2007).

E de grande valia afirmar que as pessoas precisam melhorar seu estilo de vida e habitos alimentares, portanto ter uma vida e uma atitude saudavel pode melhorar e muito a qualidade com que se esta vivendo. No entanto a midia traz a situacao de uma maneira que tem causado preocupacoes, pois, ao impor determinados padroes corporais vinculando-os a saude alimentar, ainda que de forma rebuscada, essas indagacoes permeiam o cotidiano de muitas pessoas, as quais recorrem a meios mais "acessiveis" por assim dizer, que acabam trazendo consigo serios prejuizos futuros (Cruz e colaboradores, 2008).

Tal aspecto consta do trecho seguinte: "A pessoa ortorexica inicia uma busca obsessiva por normas (ou regras) de alimentacao saudavel. As informacoes sao obtidas atraves dos meios de comunicacao, porem sao informacoes distorcidas e exageradas para ficar saudavel" (Rosario, 2013).

Alem da midia, alguns meios sociais que os individuos frequentam durante a vida sao fortes influenciadores quanto a imagem subjetiva que cada um desenvolve.

Entretanto Domene (2008), quando mostra a escola como um ambiente de promocao da saude, identifica dois desafios: o primeiro se refere a formacao do professor, que deve promover a compreensao de habilidades como ler, escrever, interpretar textos.

E o segundo diz respeito a qualificacao de projetos pedagogicos da escola, para que por meio deles seja possivel transmitir o conhecimento cientifico necessario e util ao estudante.

Esses dois desafios, se superados, garantirao uma melhora da qualidade de vida dos alunos, pois desde pequenos serao ensinados a interpretar as informacoes, trazendo o conhecimento cientifico para a sua realidade.

Quando o assunto e alimentacao saudavel, Oliveira e Oliveira apresentam (2008, p.501) "a consolidacao da educacao alimentar e nutricional como estrategia para garantir a promocao da seguranca alimentar e nutricional".

Portanto, conclui-se que uma das formas de prevencao seria a transmissao da informacao correta, entendendo que, por a ON ser um comportamento alimentar recente, muitas pessoas nao tem conhecimento necessario sobre formas de dietas e a maneira correta de selecionar alimentos, o que acaba aumentando o risco de desenvolver uma patologia.

REFERENCIAS

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E-mails dos autores:

gabe-ee@hotmail.com

gabi.troglio@hotmail.com

luana.hammes@hotmail.com

thamyresgalvao@gmail.com

rangel7@uol.com.br.

Endereco para correspondencia:

Luiz Arthur Rangel Cyrino.

Rua Princesa Isabel, n. 238, sala 414.

Centro, Joinville, SC.

CEP: 89201-270. Tel.: (47) 3433-0329.

Recebido para publicacao em 10/07/2015

Aceito em 20/02/2016

Gabriela Cunha Coelho [1], Gabriela Meira Troglio [1] Luana Hammes [1], Thamyres Daiane Galvao [1] Luiz Arthur Rangel Cyrino [2]

[1]-Academicas do Curso de Psicologia da Universidade da Regiao de Joinville-UNIVILLE, Joinville, Santa Catarina, Brasil.

[2]-Mestre em Neurociencia pela Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, Medico especialista em Terapia Nutricional Total, Professor de Neurofisiologia e Psicofarmacologia no curso de Psicologia e Fisiopatologia do curso de Farmacia da Universidade da Regiao de Joinville-UNIVILLE, Joinville, Santa Catarina, Brasil.
Quadro 1--Questionario ortho-15 para avaliar a prevalencia de
sintomas de ortorexia.

Marcar com um X a alternativa      Sempre   Muitas   Algumas   Nunca
que melhor corresponde ao seu               vezes     vezes
comportamento em relacao a
comida

1. Voce fica atento (a) as
calorias dos alimentos quando
come?

2. Quando voce vai a um mercado
de alimentos, se sente confuso a
respeito do que deve comprar?

3. Nos ultimos tres meses,
pensar sobre sua alimentacao tem
sido uma preocupacao?

4. As suas escolhas alimentares
sao determinadas pela
preocupacao com seu estado de
saude?

5. O sabor e a qualidade mais
importante que voce leva em
consideracao ao escolher um
alimento?

6. Normalmente, voce se dispoe a
pagar mais por alimentos
saudaveis?

7. A preocupacao com alimentacao
saudavel toma mais de tres horas
do seu dia?

8. Voce se permite alguma quebra
da sua rotina alimentar?

9. Para voce, o seu humor
influencia o seu comportamento
alimentar?

10. Voce acredita que a
conviccao de se alimentar
saudavelmente aumenta sua
autoestima?

11. Voce acha que o consumo de
alimentos saudaveis modifica seu
estilo de vida (ida a
restaurantes, amigos ...)

12. Voce acredita que consumir
alimentos saudaveis pode
melhorar o seu aspecto fisico?

13. Sente-se culpado (a) quando
sai da sua rotina alimentar?

14. Voce pensa que no mercado
existem alimentos nao saudaveis?

15. Ultimamente, voce costuma
estar sozinho (a) quando se
alimenta?

Fonte: Montagner e colaboradores (2014).
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Author:Coelho, Gabriela Cunha; Troglio, Gabriela Meira; Hammes, Luana; Galvao, Thamyres Daiane; Cyrino, Lui
Publication:Revista Brasileira de Obesidade, Nutricao e Emagrecimento
Date:May 1, 2016
Words:4599
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