Printer Friendly

ARNAUD PERROT (ed.), Les Chretiens et l'Hellenisme. Identites religieuses et culture grecque dans l'Antiquite tardive.

ARNAUD PERROT (ed.). Les Chretiens et l'Hellenisme. Identites religieuses et culture grecque dans l'Antiquite tardive, Paris, Editions Rue d'Ulm, 2013 (Etudes de Litterature Ancienne; 20). 276 pp. ISBN 978-2-7288-0481-8

A nocao de Helenismo tem sido longamente oposta a de Cristianismo, seja para preservar os escritores cristaos de todo e qualquer contacto com a sabedoria do mundo, seja para expropria-los de uma heranca cultural que teriam putativamente "traido". De resto, o termo [phrase omitted] conheceu acepcoes diversas na mentalidade e definicao judaicas, seja como repoussoir (designacao de uma pessoa ou entidade que pretende salientar um "outro", por contraste) ou como estandarte identitario. Assim, "Helenenismo" acentua um antagonismo com o "Judaismo" e o "Cristianismo". Mais tarde, o apostata Juliano revertera as polaridades, valorizando "Helenismo" por oposicao ao outro par. Assim, a nocao de "Helenismo" resulta na de "exclusao".

A designacao "Grego" nao e, tambem ela, mais clara, embora se possa dizer que tera sido marcada de conotacao "confessional" e nao linguistica, etnica, politica ou "civilizacional". As preocupacoes identitarias foram uma das condicionantes das relacoes entre Cristaos e "Helenos". Fortemente aculturada ao mundo grego-romano ao longo dos seculos II e III, a intelectualidade crista helenofona usou a iiaiSeia como instrumento selecto para a divulgacao da nova fe junto dos Gregos, ao mesmo tempo que pretendia ignorar a cultura escolar. Ja na boca de Tertuliano, a celebre pergunta Quid ergo Athenis et Hierosolymis? nao visaria tanto o mundo exterior, mas polemicas internas ao mundo cristao, servindo como libelo de exclusao aos cristaos "desviados", suspeitos de corromperem o "cristianismo" por meio de opinioes oriundas dos pensamentos filosoficos helenos. O Grego e as suas estrategias literarias e retoricas puderam igualmente servir a autores cristaos (como num passo de Basilio de Cesareia), pela subversao e negacao dos lugares argumentativos do Bem, proprios do encomio, contra o proprio Grego. Deste modo, teriam feito brilhar uma certa superioridade (forma de refutacao e contraste ja antes usadas por Platao) do Cristianismo: os bens procurados pelos Gregos nada sao comparados com os da outra vida, aos quais so o cristao estaria em condicoes de aspirar. A heranca classica, o ser Grego, foi ate mesmo reivindicado pelos Cristaos como seu apanagio. Ser e falar Grego ([phrase omitted]), na resposta de Gregorio de Nazianzo a Juliano, seria um patrimonio comum, de que os Gregos se apropriaram pelas leis escolares, mas que igualmente os Cristaos poderiam reclamar como seu, de sorte que este ultimos, conhecedores do Helenismo, seriam ate, em certo sentido, mais gregos do que os proprios Gregos.

Ainda os Cristaos e o Helenismo--assim principia o "avant-propos", assinado por Arnaud Perrot, editor do presente volume de ensaios. Nele se revisita o tema das relacoes entre Judaismos, Cristianismos e lingua e cultura gregas, tema que tem ocupado estudiosos ao longo dos ultimos decenios, no tocante a presenca de formas e lugares comuns literarios, conceitos e modos de argumentacao e praticas espirituais e religiosas.

No primeiro ensaio, Marie-Odile Boulnois procura a definicao e pontos de referencia nas relacoes entre Pais da Igreja e Helenismo, e a resposta a duas questoes: o que se entende por "Pai da Igreja"; a integracao da cultura profana nos Pais (pp. 1 -20).

Seguidamente, Gilles Dorival analisa as continuidades e rupturas entre Helenismo e Cristianismo, numa visao lata no concernente aos conceitos e aos termos que os incorporam, a revelacao paga e a crista e outrossim a filosofia paga e a teologia patristica, aos valores pagaos e ao genero de vida crista (pp. 21-30).

No terceiro artigo, Monique Alexandre, especialista em Filon de Alexandria, trata da cultura grega enquanto serva da lei, remontando ao estatuto da paideia neste mestre judeu. Apercebe uma linha de tradicao prolongando-se ate aos Pais Gregos (pela analise dos casos dos alexandrinos Clemente e Origenes dos Capadocios: Gregorio de Nissa, Basilio, Gregorio de Nazianzo) que se poderia caracterizar como filoniana, mas que--estudos mais recentes o tem vindo a propor--se poderia inserir melhor (no caso concreto de Justino) no ambito de uma relacao geral com o judaismo helenistico (pp. 31-59).

No mais extenso ensaio da colectanea, Olivier Munnich examina o lugar do Helenismo na autodefinicao do Cristianismo, incidindo a sua analise na Apologia de Justino, comecando pelos problemas colocados na primeira parte do tratado e nas especificidades da segunda parte. Em relacao a primeira parte, ocupa-se da questao de ser ou nao um texto na sua origem composito; dos desenvolvimentos anteriores a [phrase omitted] (caps. 1-29); do agrupamento das demonstracoes e seus "corolarios" (caps. 32-52), em que passa em revista o recurso a Escritura, a questao da Biblia judaica como figura do Novo Testamento, a proporsologia; dos desenvolvimentos posteriores a [phrase omitted] (caps. 33-67). No capitulo 63 do tratado, analisa a teofania e as suas implicacoes teologicas e prossegue com o tratamento da eucaristia (no cap. 65) e uma tentativa de sintese. Debruca-se ainda sobre a arte da composicao na primeira parte da Apologia (pp. 61-122).

Em "Les Chretiens et l'Histoire, de Luc a Eusebe de Cesaree", Sebastien Morlet analisa a dicotomia e complementaridade entre historiografia judaica (nao critica; narrativa) e grega (racional e critica), o olhar dos primeiros cristaos sobre a historiografia grega, o livro de Actos dos Apostolos como uma narrativa nao "a grega", ao contrario da Historia Eclesiastica de Eusebio (pp. 123-48).

Arnaud Perrot estuda as praticas cristas de silencio e a filosofia grega, analisando o motivo da adoracao silenciosa na argumentacao patristica num capitulo do Gnostico de Evagro Pontico (seculo IV), um texto paradigmatico para a compreensao das relacoes entre Cristianismo e cultura grega; seguidamente, examina a lingua dos misterios e a expressao da transcendencia divina no silencio de adoracao, o fideismo e a ortodoxia no discurso de controversia teologica no silencio dos Capadocios (pp. 149-159).

No ensaio seguinte, Philippe Hoffmann aborda uma acusacao anti-crista formulada por Proclo, a da ignorancia em teologia. Proclo entendeu detectar nos Cristaos ignorancia (ayvoia), lacunas de formacao cientifica ([phrase omitted]), dissensao ([phrase omitted]) e ateismo, que teriam confundido a hierarquia das realidades e desconheceriam a distincao entre o Ser e o Devir, a Eternidade e o Tempo, e critica o [phrase omitted] (credo) da fe crista, ignorante do Uno (tambem chamado o Bem, que esta para alem de todo o ser) e conhecedor somente da funcao "demiUrgica" do Criador (pp. 161-197).

Ghislain Casas explora Pseudo-Dionisio Areopagita e o seu Platonismo desprovido de Platonismo; o seu corpus, segundo a autora, coloca problemas de hermeneutica e opera uma dupla destruicao do Platonismo; nela, nota-se um uso da linguagem platonica, pese embora para neutralizar o seu significado platonico, o que leva a autora a colocar a seguinte questao: tratar-se-a de uma artimanha de falsario ou de uma estrategia de um convertido (pp. 199-218)? No ultimo estudo, Michel-Yves Perrin propoe um percurso de ida e volta de Adolf Harnack (professor de Historia do Cristianismo em Berlim de 1888 a 1921) a Erasmo, tendo em vista uma releitura critica da Walter Glawe, Dis Hellenesierung des Christentums in der Geschicht der Theologie von Luther bis auf die Gegenwart (Berlim, 1912). No entender do autor, convem reler criticamente o pensamento de Harnack, professor e historiador que no entanto se apresenta como "teologo", e esta necessidade sera igualmente valida para a tese de Glawe.

Aparelham o volume uma extensa bibliografia, repartida por duas seccoes--autores antigos e medievais, e modernos--(pp. 241-266), um indice de autores antigos e medievais (pp. 267-274) e um indice de citacoes das Escrituras (pp. 275-276).

A guisa de balanco, a tematica das relacoes entre Cristianismo e Helenismo nao cessa de cativar o interesse de estudiosos. Relacoes ferteis, nao raro de rejeicao, exclusao e disputas acesas, e sem embargo da aculturacao. Com efeito, os Pais da Igreja ou aprenderam e beberam profundamente da cultura grega ou eram oriundos dela. E em tal medida que as suas categorias de pensamento e formas de elaborar ideias e argumentacao muito deveram a esse mundo, do qual alguns se diziam os verdadeiros continuadores e superadores, sob a cobertura espiritual da verdade e da revelacao que proclamavam, a fe em Cristo. Ja em Paulo de Tarso se nota esta viragem (como a entendeu Harnack, citado na p. 224) da "majestade da simplicidade do Evangelho", mais castica e mais proxima do fundo judaico, para o pensamento helenico; viragem que traduz a passagem do conhecimento da pessoa e vida de Cristo e da consagracao a Cristo para a ideia religiosa, a cristologia, a doutrina, da "profecia em exegese erudita". Esta viragem teria sido resultante do influxo do Helenismo. O presente volume vem enriquecer a copia de producao sobre a tematica e merece, por tudo isto, toda a atencao e apreco.

[Please note: Some non-Latin characters were omitted from this article.]

RUI MIGUEL DUARTE

Centro de Estudos Classicos da

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

rmduarte@campus.ul.pt
COPYRIGHT 2016 Universidade de Lisboa. Centro de Estudos Classicos da Faculdade de Letras
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2016 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Duarte, Rui Miguel
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2016
Words:1450
Previous Article:ALINE ESTEVES, JEAN MEYERS (eds.), Tradition et innovation dans l'epopee latine, de l'Antiquite au Moyen Age.
Next Article:STEPHANE RATTI, Antiquus error: Les ultimes feux de la resistance paienne 'Scripta uaria' augmentes de cinq etudes inedites.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters