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AN ANTHROPOLOGICAL PERSPECTIVE OF FEMINICIDEIN MARINA COLASANTI'S SHORT STORIES/UMA PERSPECTIVA ANTROPOLOGICA DO FEMINICIDIO NOS CONTOS DE MARINA COLASANTI.

Introducao

A violencia contra a mulher no espaco da familia se manifesta quando um marido/companheiro impoe normas de controle e/ou punicao a sua esposa/ companheira. A recorrencia desses crimes como o assedio psicologico, o carcere privado e as agressoes fisicas reforcam valores morais que estao centrados em uma contradicao social que reconhece a liberdade da mulher ao mesmo tempo em que se veiculam discursos de dominio do corpo feminino como parte do exercicio da masculinidade. Tal repertorio de generos prima pela valorizacao da forca e da virilidade masculina, como marcas da normatizacao do corpo do homem. No espaco domestico, a ideia de posse do corpo da mulher e a agressividade masculina dao o ritmo das agressoes que, em muitos casos, antecedem o feminicidio (1).

Nesse contexto, os crimes de genero vao alem de desvios comportamentais, pois sao sustentados por um repertorio social que confere inteligibilidade por meio da premissa de que a agressao proporciona respeito aos homens e medo as mulheres. Assim, no espaco familiar, a fantasia de que o corpo da mulher e parte do territorio masculino e mantida por um repertorio que regula esse tipo de violencia por diversas maneiras perversas de punicao como o feminicidio. Tal crime e usado como uma norma de regulacao da identidade feminina e e representada historicamente nas artes com diferentes perspectivas que repetem normas ou questionam formas de controle do corpo feminino. Esse tipo de representacao nos convida a uma reflexao de como essa tessitura se realiza na literatura, pois acreditamos que "a literatura responde a um projeto de conhecimento do homem e do mundo" (Compagnon, 2009: 26).

Nos textos literarios, o feminicidio e representado como o estopim de um padrao de masculinidade. Por exemplo, na literatura brasileira regionalista, temos exemplos de textos que repetem tais normas como em Menino de engenho (1932), de Jose Lins do Rego. Nessa obra, o personagem-narrador descreve todo seu desespero ao ver a mae assassinada por seu pai. Todavia, ao relembrar a educacao recebida no engenho do avo, ele retoma as lembrancas do feminicidio como uma consequencia de um homem transtornado e doente. Ja na literatura contemporanea, por exemplo, no conto "Venha ver o por do sol", da coletanea Antes do baile verde, (1970), Lygia Fagundes Telles nos coloca frente a frente com a mente de um criminoso que arma uma emboscada para sua ex-namorada apos ser trocado por outro homem. A producao de Telles tem a peculiaridade de deslocar a identidade masculina por meio de uma estetica da desregulacao de genero quando relaciona o repertorio machista do criminoso com fantasmas dos valores patriarcais.

No conto de Telles, o desnudamento das engrenagens de violencia fica mais explicito, pois o corpo da mulher e punido por questoes de genero e pelo excesso de masculinidade exercido na execucao do feminicidio. A protagonista, Raquel, tem o corpo sacrificado por um ex-companheiro, Ricardo, que a prende em um cemiterio abandonado, depois de planejar uma emboscada como vinganca por ter sido trocado por outro. Essa obra traz a tona o repertorio social de genero que condena o corpo da mulher ao sacrificio quando fora do padrao moral patriarcal conforme estudos ja publicados sobre essa obra (Gomes, 2014).

Dando sequencia a essas reflexoes, a partir do dialogo entre texto literario e normas culturais, este artigo abre o debate sobre as regulacoes e normas que dao sustentacao ao feminicidio pela interpretacao dos valores morais masculinos descritos nos contos de Marina Colasanti: "Porem e igualmente" e "Uma ardente historia de amor", da coletanea Um espinho de marfim e outras historias (1999), e "Uma questao de educacao" da obra Contos de amor rasgados (1986) (2). Para isso, investigamos os valores sociais da "questao da honra" como justificativa para esse crime, analisando os valores sociais que estruturam o feminicidio: o assedio psicologico, a crise de masculinidade. Esses minicontos desmascaram a estrutura social que condena as mulheres ao sacrificio a partir de valores hegemonicos ao expor o corpo feminino vitima de homens superficiais e mecanicos, mas contraditorios ao fazerem referencia a valores culturais proprios do processo civilizatorio.

Para esta analise, recorremos a uma base teorica interdisciplinar, respaldada pelos estudos antropologicos. Partiremos das contribuicoes feministas para a ampliacao dos sentidos da violencia contra a mulher, levando em conta que a violencia de genero e parte da "violencia estrutural reproduzida pelas vias da discriminacao nos campos economico e social" (Segato, 2003: 02). Dentro dos estudos acerca da normatizacao das regras de genero, debateremos sobre os valores culturais em torno do feminicidio de acordo com Wania Pasinato. Pelos aspectos esteticos, retomamos os estudos de Elodia Xavier sobre o corpo feminino na literatura para identificar as marcas do corpo assediado e sacrificado.

A normatizacao do feminicidio

Por fazer parte de praticas sociais, a violencia contra a mulher precisa ser analisada pelo duplo movimento que a impulsiona: as instancias das regulacoes e as operacoes de poder. Tanto seu campo simbolico, quanto a maneira como ela se repete socialmente sao relevantes para uma visao mais ampla dos valores que dao sustentacao a esse ato. Judith Butler propoe um deslocamento do imaginario simbolico para as normas culturais generificadas da imposicao do poder masculino, visto que a norma e um produto cultural que se mantem pela citacao, isto e, "somente pela virtude de seu poder repetido de conferir realidade, e que a norma e constituida como uma norma" (2014: 267).

Na tradicao familiar brasileira, a violencia contra a mulher vem de longa data e e parte da cultura patriarcal herdada de uma sociedade excludente e extremamente controladora e disciplinadora. Portanto, estamos diante de um debate que perpassa a questao da violencia como parte do imaginario de controle patriarcal para se reestruturar por meio de reflexoes acerca dos conceitos de sexo/genero e poder que confirmam que ha "relacoes desiguais de genero", quando identificamos o elogio masculino da forca e da agressividade (Machado, 2014: 124).

Para desnudar as sutilizas como a violencia e regulada, tentamos fugir de categorias homogeneizantes, quando pensamos em causas e contextos e quando buscamos compreender as relacoes de poder, pois os valores relacionados ao patriarcado tambem estao se adaptando aos novos contextos, visto que esse repertorio de normas culturais "sofreu transformacoes para garantir sua sobrevivencia num mundo em que os papeis sociais de genero estao mudando em velocidade vertiginosa" (Pasinato, 2011: 237). Como parte de normas coletivas, a violencia contra a mulher e regulada por esse imaginario patriarcal, visto que qualquer norma "nao e exterior ao seu campo de aplicacao", pois "e produzida na producao desse campo" (Butler, 2014: 267). Ao reconhecermos a violencia como uma norma, produzida dentro do campo de regulacao de genero, o repertorio social, pretendemos fazer uma reflexao sobre os subsidios simbolicos que estao relacionados ao poder masculino na pratica do feminicidio.

Alem disso, em volta da tenue fronteira entre violencia e fantasia, repete-se um discurso de medo das mulheres que passa pela valorizacao do poder masculino no qual "o temor e medo das mulheres, ou o sentimento de culpa das mulheres foram construidos reciprocamente pela legitimacao do poder de genero instaurado legalmente de controle e castigo dos homens, com a reciproca culpabilizacao das mulheres" (Machado, 2014: 108). Portanto, a violencia de genero e parte de um campo de luta em que velhos padroes sao impostos "de maneira transversal", nos quais o corpo feminino e mantido aprisionado ao desejo do homem (Pasinato, 2011: 239).

Assim, acreditamos que ao questionar a regulacao de genero propria da familia patriarcal, a ficcao de Marina Colasanti nos proporciona uma densa reflexao acerca das normas que relativizam o feminicidio como um ato de masculinidade. Para esta abordagem, aproximamos forma literaria e conteudo representado, valorizando os elos entre "poetica" e "humanidade" como nos sugere Compagnon (2009: 18). Especificamente, tal particularidade de revisar e deslocar o imaginario masculino opressor pode ser identificada como uma marca da "literatura pos-moderna", visto que seus textos sao atravessados por "questoes ideologicas e politicas", por priorizar representacoes caricatas da masculinidade tradicional. Essa literatura em que feminismo e desregulacao de genero se misturam faz parte das estrategias esteticas dos textos pos-modernos conforme nos ensina Linda Hutcheon (1993: 05).

Quanto aos conceitos teoricos sobre a representacao da violencia na literatura brasileira, destacamos o estudo de Elodia Xavier sobre a representacao do corpo feminino, que reconhece o quanto as praticas no interior da familia controlam, disciplinam e marginalizam a mulher, "uma vez que as acoes corporais sao orientadas pelos e para os contextos institucionais" (2007: 26). Com base nesse estudo, propomos a identificacao de dois tipos de corpo: o "assediado" e o "sacrificado". Esses corpos sao regulados por um padrao identitario patriarcal que visa "controlar, fiscalizar a honra e fazer obedecer as mulheres, impondo assim sua vontade quer seja por agressao fisico-moral ou apenas moral" (Machado, 2017: 42).

A identificacao desses corpos, nos contos de Colasanti, nos da indicios do quanto sua literatura explora a violencia contra a mulher como um intertexto cultural. Assim, os corpos "assediado" e "sacrificado" sao representacoes que condensam tensoes sociais e funcionam como roteiros de leitura que tanto nos move para o espaco do texto, como nos coloca frente a frente com valores proprios da violencia contra a mulher.

Na continuidade, identificamos as particularidades da estetica de desregulacao de genero de Marina Colasanti.

A esposa sacrificada

Esteticamente, a literatura de Marina Colasanti e marcada por um olhar feminista que desloca valores patriarcais e verdades hegemonicas acerca das relacoes matrimoniais. Seu universo familiar e um espaco de descentramento e de questionamento das identidades femininas submissas. Seus classicos contos infantis da coletanea Doze reis e a moca no labirinto do vento (1978) trazem satiras do imaginario dos contos de fadas com propostas de revisao da historia da mulher. Essas narrativas descrevem protagonistas donas de suas historias, que procuram seus parceiros e se afastam deles quando se sentem oprimidas, pois nao aceitam o destino de viver a sombra de um principe, rompendo com as regulacoes proprias do genero feminino: obediente, submissa e esposa. Assim, esteticamente, a narrativa de Colasanti privilegia o olhar parodico do universo masculino como no classico "A moca tecela", dessa mesma coletanea.

Nos contos "Porem igualmente" e "Uma ardente historia de amor", da coletanea Um espinho de marfim e outras historias, identificamos a presenca do humor e da ironia como recursos que deslocam a identidade masculina agressora, uma vez que esses minicontos trazem personagens vazios e sem rumo apos praticar o feminicidio. As marcas esteticas, quando deslocam normas que naturalizam a violencia contra a mulher, tem a particularidade de abrir o texto para os sentidos plurais da interpretacao e para uma pratica de leitura que atualize os valores morais por tras da representacao literaria. Assim, estamos preocupados com a identificacao de aspectos esteticos que explicitem a moral de macho, relacionada ao padrao patriarcal, aquele que entende o corpo da esposa como uma extensao do marido, que tem 'direito' de posse advindo do contrato de casamento (Machado, 2010: 79).

Esse deslocamento estetico e fundamental para ampliarmos os sentidos dos textos literarios com arquivo cultural. Tal opcao esta presente na ironia dos titulos e na representacao de uma masculinidade pautada pelo culto da forca e da virilidade. Nos textos selecionados, a autora abre uma reflexao sobre a brutalidade masculina imposta para manter o controle da esposa e a omissao dos que presenciam as torturas. Em "Porem igualmente", Colasanti aborda a omissao da familia e dos vizinhos no caso dos espancamentos que antecedem o feminicidio. A protagonista, D. Eulalia, vivia apanhando, mas ninguem se metia na historia dela. Para os vizinhos e familiares era vista como "santa" e "anjo" (Colasanti, 2012: 41).

Com a omissao social, a mulher vitima de espancamentos tende a sucumbir diante de tanta violencia. No conto nao e diferente: "o marido, depois de surra-la, jogou-a pela janela" (2012: 41). Nesse caso, a violencia e praticada como um exercicio de forca e controle do corpo da mulher. Nao ha referencia a erros que ela tenha cometido. O narrador reforca o silencio dos que presenciavam os abusos, descrevendo o quanto a omissao tambem e parte da violencia. Nesse conto, o uso do alcool e usado como desculpa para o descontrole masculino, mas o que prevalece e a falta de atitude dos sujeitos que abandonaram a mulher a rotina de espancamentos.

No campo semantico, a autora retoma a metafora do anjo quando anuncia um feminicidio brutal: "D. Eulalia rompeu em asas o voo de sua trajetoria" (Colasanti, 2012: 41). Assim, os espancamentos sao explorados como parte do repertorio que reconhece o corpo sacrificado como o "ponto final em um continuum de terror, que inclui abusos verbais e fisicos e uma extensa gama de manifestacoes de violencia e privacoes a que as mulheres sao submetidas ao longo de suas vidas" (Pasinato, 2011: 224). No conto de Colasanti, diante de um quadro de espancamentos continuos, o feminicidio e anunciado como uma surpresa para todos retomando o paradoxo do titulo, que e confirmado com o estado de espanto dos vizinhos: "Porem igualmente se surpreenderam" (Colasanti, 2012: 41).

Essa postura de desqualificar a gravidade das agressoes fisicas e morais do corpo feminino nao esta restrita a literatura. Lia Zanotta Machado destaca que a violencia sofrida dentro de um relacionamento estavel ainda e vista como "crimes de bagatela", pois faz parte da esfera privada. Esse discurso de desqualificacao desses delitos e sustentado por uma ideologia que a "defesa da harmonia familiar, da harmonizacao e da pacificacao, transformando os conflitos e violencias de genero como bagatelas" (2017: 44).

Esteticamente, o modelo ironico de Colasanti expoe as contradicoes do repertorio social que aceita uma mulher ser espancada, mas se surpreende com sua morte como reforca os adverbios do titulo "porem igualmente", que podem ser traduzidos como a desqualificacao da gravidade deste crime. Essa postura ironica e condizente com as obras pos-modernas de autoria feminina que primam pela revisao de valores morais mantidos para beneficiar o sujeito masculino (Hutcheon, 1993: 09). Esta em jogo, a revisao contra a esposa, pois o corpo feminino e normatizado pela dor e pela humilhacao. Trata-se de um corpo disciplinado, ao qual e imposta a submissao do feminino pela forca (Xavier, 2007: 59). Alem disso, o conto proporciona uma reflexao acerca das contradicoes sociais identificadas na omissao social diante de casos explicitos de agressao fisica contra uma mulher.

No segundo conto selecionado, Colasanti retoma o tema do feminicidio a partir do campo metaforico do uso do corpo da mulher como uma boneca em "Verdadeira historia de um amor ardente". O modelo ironico dessa narrativa e costurado do titulo a cena final do corpo queimado. Com isso, a metafora da boneca nos ajuda a entender como funciona o abuso do corpo da mulher pela masculinidade excessiva. Tal representacao e construida por meio do jogo entre a construcao do corpo da boneca e o abuso que ele vai sofrendo ate ser descartado: "comecou a moldar aquela que preencheria seus desejos" (Colasanti, 2012: 56). Esse corpo de cera maleavel se aproxima muito do desejo masculino de total controle do corpo da mulher, alcancado com o uso do corpo feminino docil, aquele que e "treinado para nao ter direitos, para servir", estando sujeito a uma disciplina que orienta obediencia e/ou ceder aos desejos do homem (Xavier, 2007: 74).

Essa metafora do corpo de cera, como uma matriz de docilidade, reproduz um repertorio simbolico de total regulacao da mulher: "formando e deformando a amada no fluxo do seu prazer" (Colasanti, 2012: 57). Ao colocar em destaque o corpo moldado da esposa, esse conto expoe de forma metaforica valores morais que fazem parte da identidade masculina de acordo com Lia Zanotta Machado, que ressalta que homens violentos tem "controle e posse da mulher, desejo de ter, desejo de nao perder, desejo de que as mulheres nada queiram a nao ser eles mesmos" (2010: 14).

Assim, nesse contexto de total dominio masculino, o corpo feminino pode ser classificado como "assediado", pois sofre o controle do um companheiro que lhe impoe um misto de terror e abuso como normatizacao de genero. Tal violencia, simbolicamente assinada pelo desejo de violacao tem como pano de fundo "conflitos e estrategias sociais ligadas" aos modos de representacao (Moore, 2000: 41).

Logo, a representacao da mulher, como boneca, abre o texto literario para o repertorio patriarcal de posse do corpo como territorio da masculinidade. O jogo metonimico do corpo feminino como objeto maculavel e normatizado pela nocao de docilidade como padrao de submissao da esposa (Xavier, 2007: 58). Alem disso, a ironia que atravessa o titulo do conto "verdadeira historia de amor" assusta pela forma fria e racional com que o homem se relaciona com o corpo da boneca. Nesse sentido, a obsessao do homem pelo corpo docil e abordada como um transtorno comportamental, reproduzindo o desejo de moldura corporal como um obsessao do excesso de masculinidade.

Desse modo, o modelo ironico fica mais explicito na parte final da narrativa, quando o marido resolve se livrar da boneca com um isqueiro. Nesse momento o jogo narrativo retoma a metafora da execucao da esposa ao ressaltar que ele queima o cabelo da companheira: "inflamou a tranca da mulher, iluminando o aposento" (Colasanti, 2012: 57). Ao expor a perversidade desse marido, o conto representa o feminicidio como uma opcao para o tedio do marido e problematiza o conceito de masculinidade como uma pulsao pelo sacrificio do feminino.

Por essa metafora do corpo sacrificado, constatamos que a violencia que nasce do culto possessivo da virilidade masculina advem do desejo de ter uma esposa moldada ao prazer, todavia descartavel conforme o humor do macho: "E, sereno, comecou a ler a luz do seu passado amor, que queimava lentamente" (Colasanti, 2012: 57). Por essa linha de interpretacao, o corpo maculavel e descartavel esta relacionado ao culto do poder masculino. Portanto, o feminicidio e apontado como um crime sustentado por um repertorio simbolico de desvalorizacao do corpo e da liberdade da mulher, (Pasinato, 2011: 232).

Assim, esse conto de Colasanti reproduz um corpo feminino sacrificado como uma extensao do imaginario patriarcal que controla e pune a esposa conforme os desejos do marido. A queima da boneca/esposa reforca o cuidado do texto literario em explorar o intertexto da violencia contra a mulher como um recurso estetico. Esse modelo literario revisa regulacoes simbolicas e esta relacionado aos limites impostos aos direitos da mulher. Logo, o tom ironico da narrativa pode ser identificado na tentativa de naturalizacao do corpo da mulher como uma extensao da masculinidade.

Esteticamente, esse modelo ironico pode ser lido pelo fato de esse homem se impor de uma forma unilateral, pois impos o absurdo do controle da liberdade da esposa. Essa radicalizacao representacional e artisticamente um construto critico que denuncia esse tipo de violencia e reforca o poder da literatura de nos proporcionar uma escapatoria de normas alienantes ou opressoras (Compagnon, 2009: 34). Esse homem raso e mecanico e deslocado pelo tom ironico da narrativa que descreve sua limitacao emocional. Nesse caso, Colasanti expoe que o maior problema desse homem mecanico nao e sua crise de masculinidade, mas sim o desrespeito pelo direito de liberdade da esposa. Esse modelo artistico faz parte de uma proposta de revisao das normas patriarcais, deslocando o imaginario masculino opressor e a submissao feminina para ressaltar uma estetica atravessada por "questoes ideologicas e politicas", quando prioriza representacoes caricatas machistas (Hutcheon, 1993: 05).

Na sequencia, demonstraremos como o modelo parodico de Colasanti vai alem do deslocamento do excesso de masculinidade para enfatizar como o machismo se opoe ao processo civilizatorio, quando ressalta valores morais por tras do feminicidio conjugal.

A ironia do processo civilizatorio

O modelo estetico de desregulacao de genero tambem esta presente nas narrativas que exploram a moral masculina como justificativa para o feminicidio no conto "Uma questao de educacao", da obra Contos de amor rasgados. Nesse conto, Colasanti desnuda normas simbolicas e sociais em torno do controle da fidelidade feminina, pois ha uma esposa brutalmente decapitada, apos ser vista conversando com o amante na porta de casa. Esteticamente, por ser construido por cenas impactantes, temos um olhar particular que encerra um "saber insubstituivel" que "desconcerta, incomoda e desorienta", porque e portador de um "apelo a emocao e a empatia" (Compagnon, 2009: 47)

No terceiro texto selecionado "Uma questao de educacao", da coletanea Contos de amor rasgados, Colasanti explora o homicidio macabro e o antropofagico, retomando o modelo ironico de criticar a violencia de genero. O titulo tambem traz pistas da referencia aos valores morais que serao representados, explorando o feminicidio como parte do ritual da manutencao da moral masculina, pois o marido mata sua esposa, logo apos ve-la conversando com outro homem: "Quando ela entrou, decapitou-a com o machado" (Colasanti, 2010: 203). Nessa forma de violencia, o corpo da mulher e punido por ter se projetado fora do padrao patriarcal, visto que a significacao territorial da corporalidade feminina e fundamentada por normas pertencentes a ordem moral (Segato, 2003: 06). Sua estetica traz uma reflexao acerca da contradicao do casamento, calcado em valores obsoletos, como a honra, em oposicao ao processo civilizatorio que ampliou o "debate em torno da desigualdade social entre os sexos", pois nao e o marido, "enquanto individuo", que concede a liberdade a uma mulher. "Ela se fundamenta na estrutura da propria sociedade" (Elias, 1994: 184).

A negacao da falta de dominio do corpo da mulher e exposta pela brutalidade da cena: "Depois recolheu a cabeca e antes que todo o sangue escapasse pelo pescoco truncado, jogou-a na panela. Picou a cebola, os temperos, acrescentou agua, e comecou a cozinhar a grande sopa" (Colasanti, 2010: 203). Assim como nos contos anteriores, Colasanti vincula a crise de masculinidade ao comportamento patetico do personagem masculino. A sequencia de acoes apos a decapitacao reforca que se trata de um ritual, que envolvia criterios de como preparar a vinganca.

Ao abordar o deslocamento da cultura "da honra familiar e da honra masculina", o texto revisa comportamentos de fidelidade, que reforcam moralmente, "como contraparte, a submissao e a vergonha das e nas mulheres" (Machado, 2014: 107). Pela logica patriarcal, a uma mulher nao cabe o papel de ser infiel, a regulacao de genero expurga esse comportamento para primar pela posse compulsoria do corpo feminino. Assim, o conto retrata uma estrutura de genero que controla os sombrios territorios do sacrificio feminino como parte dos contratos sociais.

Nesse caso, a decapitacao da companheira reforca valores morais que punem e controlam a sexualidade das mulheres. O exagero da cena tenta sintetizar, de forma satirica, o quanto a estrutura de genero e cega e fascista ao propor o sacrificio da mulher adultera. Com essa visao, o conto de Colasanti parodia o feminicidio por defesa da honra, opondo-se a um padrao cultural hegemonico de controle e posse do corpo da mulher que so esta autorizado a ter desejo pelo marido, pois nao pode ter nada para alem desse compromisso matrimonial, conforme destaca Lia Machado (2010: 14).

No campo estetico, o tom parodico pode ser localizado do titulo a parte final do conto. Seu roteiro de leitura descreve um ritual macabro sem consumacao do ato antropofagico. Tal modelo literario pode ser identificado na rejeicao da sopa por causa do fio de cabelo: "Nunca, desde pequeno, suportara a visao de cabelos na comida" (Colasanti, 2010: 203). Guiado por um principio educacional, o assassino refuga o prato com a cabeca da mulher. Ele nao refuga sua sopa antropofagica por ela expor o corpo e o rosto da mulher, mas ela confirma a mulher como objeto sacrificial como uma punicao metonimica da honra masculina. Sem reconhecimento das regras basicas para uma boa convivencia e sem o respeito as normas sociais, o casamento fica vulneravel, pois o "autocontrole" deixa de ser praticado por esse marido, que nao respeita habitos internalizados pela civilizacao para praticar normas obsoletas de conduta social (Elias, 1994: 106).

O impacto dessa cena nos remete ao questionamento da regulacao da honra como um principio norteador de genero e brutalidade sustentada por uma questao moral hegemonica que da sustentacao a uma "pratica cultural de controle e vinganca masculina" e e visto como uma forma de regulacao do corpo da mulher (Pasinato, 2011: 232). Assim, no jogo estetico de Colasanti, as normas sociais sao trapaceadas pelo tom ironico que permite ouvir o grito da mulher sacrificada, reforcando o poder da estetica do texto literario (Compagnon, 2009: 37).

Nesse caso, esta em jogo o fato de a personagem masculina rejeitar a comida que tem cabelo, todavia ele nao teve educacao suficiente para propor o dialogo e o entendimento sobre o fim do relacionamento com a esposa. Pelo contrario, o marido opta pelo abatimento da mulher, como se ela fosse um animal que pegou uma doenca contagiosa e precisa ser eliminado. Ao expor essa brutalidade, esse conto reforca sua postura feminista explicitando uma normatizacao traicoeira para o corpo da mulher, pois a "maior parte dos homicidios de mulheres" que sao cometidos em espacos domesticos, "por seus parceiros intimos ou conhecidos" (Pasinato, 2011: 242).

Dessa forma, a atmosfera macabra desse conto nos remete a uma sociedade de regras aviltantes do desrespeito aos direitos da mulher. Com essa representacao repugnante, Colasanti brinca com tais valores, revelando a tirania de um homem que cumpre uma regulacao moral de controle de genero. No plano estetico, a visao caricata da delicadeza de um homem que nao consegue finalizar seu ritual canibalesco, apos decepar a esposa, por uma questao de requinte civilizatorio, reforca o quanto as regulacoes de genero sao contraditorias quando analisamos os principios punitivos do corpo feminino. O comico esta no fato de haver discrepancia entre valores relativos ao respeito a vida e os valores relativos ao requinte ou aos modos da mesa, o abjeto nao esta no caldo com a cabeca da mulher, mas esta no fio de cabelo.

O contraste entre a decapitacao da mulher e a rejeicao da comida reforca o modelo parodico dessa narrativa que pode ser vista como estrategia de denuncia, pois traz uma parodia de um homem educado que brinca com a justificativa da questao da honra como motivo do feminicidio. Esse deslocamento da brutalidade do crime para o comico do fio de cabelo na sopa expoe uma estetica que desregula valores morais centrados na crise da masculinidade, quando o homem nao reconhece a liberdade da companheira para promover valores patriarcais (Gomes, 2016). Essa representacao reforca o quanto o sacrificio da mulher ainda faz parte do imaginario masculino como uma saida para a perda da honra. A ambiguidade presente na rejeicao da sopa da cabeca da esposa reforca o modelo literario que revisa essas regulacoes simbolicas que fazem parte da moral hegemonica.

Esse modelo parodico traz a visao do quanto a violencia de genero e praticada como parte de contratos imaginarios. Ela e cometida por maridos em crise com sua honra e valores morais. Nos dois contos em que o feminicidio e descrito, a mulher e punida por homens possessivos e ciumentos, que usam a violencia como vinganca. Sao criaturas ameacadas pelo medo da infidelidade feminina e expoem a fragilidade de um sujeito masculino, traido por questoes educacionais. Ao brincar com os valores morais, os contos de Colasanti reforcam a barbarie das regulacoes morais que desqualificam o corpo feminino e impoem penas fatais.

Consideracoes finais

Ao identificarmos, no texto literario de Colasanti, a alternancia de modelos esteticos: o ironico e parodico para, questionar a identidade masculina, constatamos o deslocamento de valores morais proprios do patriarcado. Essa tecnica narrativa privilegia a representacao do feminicidio por uma estetica particular que se apropria de um repertorio comum da violencia para articula-la de uma posicao artistica (Compagnon, 2009: 37). Em comum, as narrativas analisadas explicitam o fascismo das regulacoes de genero por meio dos deslocamentos ironicos. Seus personagens masculinos repetem normas sociais, mas sao carregados de duvidas e desconfiancas que denunciam um sistema de punicao impiedoso. Nesse processo representacional, o excesso de masculinidade esta articulado por meio da forca e brutalidade com que os homens agem em prol de seus valores morais (Machado, 2010).

Esse modelo de desregulacao da violencia domestica desloca a postura punitiva dos agressores e descentra a violencia simbolica das relacoes de genero. Nos contos "Porem e igualmente" e "Uma ardente historia de amor", da coletanea Um espinho de marfim e outras historias, o feminicidio esta mais relacionado ao exercicio do excesso de masculinidade, presentes na forca e na virilidade dos personagens masculinos. Ja na narrativa seguinte, "Uma questao de educacao", da obra Contos de amor rasgado, o modelo parodico esta associado ao riso que a representacao do marido vingativo desperta no final do miniconto. Ao representar um marido que refuga da sopa com cabelo, depois da brutalidade de decepar a esposa, o conto expoe a contradicao da violencia de genero diante do processo civilizatorio.

Tais contos condensam imagens do corpo feminino assediado e sacrificado, pois sao normatizados por abusos fisicos e psicologicos incorporados a dinamica do feminicidio no espaco familiar. Nos quatro exemplos, esse crime tem a ver com o excesso de masculinidade e a questao da honra do homem traido. Assim, no contexto patriarcal, o sacrificio da mulher e visto como um ato disciplinador, que resgata a moral do homem, pois o corpo feminino traz as marcas da forca e do poder masculino nas relacoes conjugais e sua execucao esta simbolicamente naturalizada como resultado da imposicao da logica do macho (Segato, 2003: 03).

As opcoes esteticas dos tres contos frente aos valores do feminicidio revisa o repertorio patriarcal regulado pelo excesso de masculinidade nos dois primeiros casos e pela crise de masculinidade nos segundos. Em comum, ha um choque entre valores civilizatorios do casamento e normas punitivas ancestrais como a agressoes fisicas, violacao sexual e imposicao da moral do macho. Com essa revisao estetica, as "normas abstratas" foram identificadas como formas de controle e punicao da mulher, visto que a violencia e marcada pela regulacao que subordina o feminino ao masculino por meio de processos heterogeneos que tanto "condicionam" como "excedem" os sujeitos que tentam controlar as relacoes de genero (Butler, 2014: 272). No texto de Colasanti, essas normas sao trapaceadas pelo tom ironico que permite ouvir o grito da mulher sacrificada, reforcando o poder da estetica do texto literario (Compagnon, 2009: 37).

A dinamica desses textos retoma tradicoes de longa duracao que rebaixam os corpos femininos fora dos padroes idealizados, visto que as regulacoes de genero "sao inventadas e reinventadas" de forma dinamica para manter os privilegios masculinos (Machado, 2017: 38). Alem disso, a literatura de Colasanti expoe a incoerencias do feminicidio praticado por um marido que se recusa a aceitar a liberdade da mulher, visto que "o processo civilizador, a despeito da transformacao e aumento das limitacoes que impoe as emocoes, e acompanhado permanentemente por tipos de libertacao dos mais diversos" (Elias, 1994: 184).

Portanto, os contos de Colasanti contestam discursos sociais e institucionais que naturalizam a desigualdade de genero, quando expoem o excesso de masculinidade em contraste com valores civilizatorios nos quatro textos. Essa estrategia literaria de expor o absurdo da violencia se opoe a discursos institucionais que "produzem a alta tolerancia em relacao a violencia contra as mulheres" (Machado, 2014: 124).

Por fim, destacamos que na ficcao de Colasanti, ironia e parodia se confundem para deslocar o poder masculino e desconstruir politicamente representacoes de genero contaminadas por "questoes ideologicas" hegemonicas, ressaltando uma estetica pos-moderna de revisao das representacoes tradicionais (Hutcheon, 1993: 09). Assim, o modelo parodico de Marina Colasanti reforca a proposta de traducao feminista da literatura pos-moderna que tanto desregula as questoes de genero, por seu olhar parodico da masculinidade, descrita pelo excesso de forca e virilidade e pela falta de valores civilizatorios.

Referencias bibliograficas

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(1) Neste artigo, vamos trabalhar apenas com a abordagem relacionada ao feminicidio conjugal, aquele praticado pelo companheiro ou ex-companheiro da vitima, mas ha diversos casos de feminicidios que sao praticados contra mulheres anonimas que externam o odio misogino praticado por homens violentos como os casos de milhares de mulheres assassinadas na Ciudad Juarez, na decada de 1990, no Mexico, de acordo com estudos de Rita Lauro Segado (2005).

(2) Este texto traz os resultados parciais de uma pesquisa de pos-doutorado desenvolvida junto ao Programa de Pos-Graduacao em Antropologia Social da UnB (2016-2018), supervisionada pela Profa. Dra. Lia Zanotta Machado, acerca do feminicidio na literatura brasileira, com financiamento do CNPq.

Carlos Magno Gomes

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Author:Gomes, Carlos Magno
Publication:Revista Artemis
Date:Jan 1, 2019
Words:5692
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