Printer Friendly

AGENTES DE PASTORAL NEGROS E A BIBLIA NO CONTEXTO AFRO: Uma Hermeneutica de Anos de Encanto.

Introducao

Para refletir os 32 anos da presenca e atuacao dos Agentes de Pastoral Negros e necessario pensar a articulacao entre a Palavra e a vida.

Em meio a tantos sofrimentos um encanto permanece: a certeza de fe que o Deus que cremos Libertador, caminhou com os nossos antepassados e caminha conosco. Ele se revela nas diversas e diferentes manifestacoes presentes na comunidade negra, nas religioes e culturas, o que provoca a necessidade do dialogo e do encontro. Isso que marcou o que celebramos e recordamos da atuacao do povo negro nesses anos de historia e vivencia, nos lugares e espacos que ocupamos, nas nossas origens, no presente e no futuro.

Interpretar esses anos indica um caminho, uma postura de valorizacao dos passos dados, que nao iniciaram conosco, mas que continuamos firmemente nesse tempo recordando, cantando, dancando, celebrando e finalmente vivendo.

Da vida para o canto

Parte desse texto foi pensado e pode ser afirmado vivido, a partir do cotidiano de idas e vindas para o trabalho. No transporte de massa, no cotidiano da Baixada Fluminense, junto com tantos outros negros e negras de Nova Iguacu, no trem da Central. Inicialmente nos perguntamos: lugar dos negros e dos pobres?

Nessas idas e vindas e claro que a memoria era dos Navios Negreiros. Transporte tao desumano que trouxe o nosso povo negro da Africa e que de maneira parecida, nao mais pelos mares, mas pela ferrovia, em terra, conduz pelos trilhos as trilhas da vida, sofrimentos e lutas dos que vao para o Centro do Rio, saindo das periferias para produzir riquezas.

Assim pensamos a teologia, neste lugar concreto, a partir desse referencial que e a Baixada Fluminense. Lugar de tantos que vem de outros cantos do Brasil, marcadamente experimentados pelo que e o Exodo com suas cicatrizes da escravidao, que embalados nao pelas ondas, mas pelo saculejar, sonham Quilombos de libertacao.

Vale lembrar Solano Trindade: (1)
Trem sujo da Leopoldina correndo, correndo,
parece dizer tem gente, com fome
tem gente com fome, tem gente com fome... Piiiiii

Estacao de Caxias de novo a dizer de novo a correr
tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome.=

Vigario Geral, Lucas, Cordovil, Bras de Pina, Penha Circular

Estacao da Penha, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Carlos Chagas

Triagem, Maua trem sujo da Leopoldina correndo, correndo
parece dizer tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente
com fome.

Tantas caras tristes, querendo chegar em algum destino, em algum
lugar

Trem sujo da Leopoldina correndo, correndo
parece dizer tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente
com fome

So nas estacoes quando vai parando lentamente comeca a dizer
se tem gente com fome da de comer, se tem gente com fome da de
comer,
se tem gente com fome da de comer

Mas o freio de ar todo autoritario manda o trem calar,
Psiuuuuuuuuuuu.


Isso nos leva a pensar e a recordar o canto tao comum entre nos, Agentes de Pastoral Negros, quando nos organizavamos para preparar nossa formacao e nossas celebracoes nas comunidades. Cantado tantas vezes na roda em nossos encontros pelo Brasil afora: "Sou de la da Africa". Vale resgatar a letra, simples e significativa para nossa experiencia.
Sou de la! De Africa!
Se eu nao sou de la, os meus pais sao de la, de Africa.
Sou de la! De Africa!
Se eu nao sou de la, os meus avos sao de la, de Africa.
Sou de la! De Africa!
Se eu nao sou de la, os meus ancestrais sao de la, de Africa.

Pela minha cor, pelo meu sorriso!
Pelo meu andar, pelo meu sambar!

Sou de la! De Africa!
Se eu nao sou de la, os meus pais sao de la, de Africa.
Sou de la! De Africa!
Se eu nao sou de la, os meus avos sao de la, de Africa.
Sou de la! De Africa!
Se eu nao sou de la, os meus ancestrais sao de la, de Africa.


Canto e memoria comum entre os Agentes de Pastoral Negros, que nos possibilitam pensar sobre o que nos encanta, saber as origens e lugar no mundo e consequentemente na Biblia, como a seguir.

Do canto para o encanto

Nao era somente para cantar, mais do que isso, nossa organizacao estava em uma fonte comum que era a leitura da Palavra de Deus. Os Agentes de Pastoral Negros descobrem a partir dos encontros ao redor da Biblia Sagrada que esse povo tem Missao. Essa encanta de beleza nossa atuacao e nossa insercao nas CEBs, chegando ate Santa Maria, Rio Grande do Sul. Ja na conquista da Campanha da Fraternidade 1988--A fraternidade e o negro: "Negro um clamor de justica!". Cantamos e marcamos o lugar e o tempo--"Negros, mulheres, indios... Na Igreja de Santa Maria, as culturas oprimidas vao aparecendo".

"De la da Africa", que a vinda nao foi a toa, nem por nada. Explorados sim, mas tambem identificados com o povo de Deus que saiu do Egito, que fica na Africa, nada e por acaso. Vendo nas duas historias um encontro verdadeiro com Deus da Vida e da Libertacao, surge a descoberta da necessidade da participacao nao so no espaco das igrejas cristas, mas para alem, ao encontro com aqueles que sao de outras religioes de matriz africana, encontro com as tradicoes dos nossos pais e maes, nossos ancestrais, nos terreiros e tambem nos espacos da resistencia que foram a capoeira, o maculele, o samba, o pagode e outras expressoes que encantam a vida de nossa gente.

Esses novos lugares se tornaram referencias para um testemunho de libertacao, de resistencia que nao passava somente pelas comunidades catolicas e pelo espaco da profissao de fe crista. Brota do encontro e do testemunho verdadeiro da presenca do Deus que caminha em outros espacos. Disso resultou a grande formacao do lugar em que se quer fazer teologia. Nesses anos algumas coisas mudaram, tantas aquisicoes.

Do encanto para fora do canto

Encantados com a certeza da presenca de Deus na nossa vida e na nossa historia, partimos para a leitura e a interpretacao desta presenca e o significado para a nossa propria identidade de teologos e teologas negras. Necessariamente, assim comecamos a pensar tambem na nossa realidade a possibilidade da Teologia Feminista Negra. Dai o grupo das mulheres negras APNs.

Essa teologia e certamente a partir dos pobres de forma ecumenica e pluralista. Porem para alem do ecumenismo, percebendo a necessidade de um dialogo inter-religioso, pois as liderancas religiosas de matriz africana nao sao reconhecidas dentro do processo e espaco ecumenicos. Considerando a propria condicao historica, sabemos do nao reconhecimento dos Pais e Maes de Santo desde o passado pela sua religiosidade, mas sabemos o quanto, sofredores, perseguidos e marginalizados, sao resistentes e vencedores.

A identificacao veio a partir da propria fala de Deus no Exodo:
Iahweh disse: Eu vi a miseria do meu povo que esta no Egito. Ouvi seu
grito por causa dos seus opressores, pois eu conheco as suas angustias.
Por isso, desci a fim de liberta-lo da mao dos egipcios e para faze-lo
subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e
mel, o lugar dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos ferezeus, dos
heveus e dos jebuseus. Agora o grito dos israelitas chegou ate mim, e
tambem vejo a opressao com que os egipcios os estao oprimindo. Vai,
pois, e eu te enviarei a Farao, para fazer sair o meu povo, os
israelitas." (2)


Ao recordar e recuperar estas historias, cresce no coracao e na memoria a certeza da presenca amorosa e cumplice de Deus, do Deus do Exodo nesse caminho de libertacao. Como e importante e bom ainda hoje reafirmar a fe no Deus libertador que ve a miseria de seu povo, ouve seu clamor e desce para liberta-lo.

As mulheres negras, nessa tradicao libertadora recuperam a figura de Agar. "A Iahweh, que lhe falou, Agar deu este nome: "Tu es El-Roi", pois disse ela, "vejo eu ainda aqui, depois daquele que me ve?" (3). A matriarca de um povo sabe que Deus a ve e afirma a sua visao feminina de Deus, conhece a sua situacao, determina o seu lugar e o lugar de encontro com seu Deus.

A escrava africana, que tambem teve descendencia numerosa, a insubmissa e outras vezes submissa que busca seus direitos, aquela a quem Deus se revelou e a mae libertadora que nos ajuda a crer "naquele que vive e que me ve".

Criadas e criados a imagem e a semelhanca de Deus, reconhecemos que a acao libertadora de Deus leva o povo a busca de vida em comunidade e com dignidade. Olhando para os primeiros capitulos de Genesis, encontramo-nos com um Deus que cria o ser humano a sua imagem e semelhanca. Quantas vezes nao escutamos e refletimos sobre este texto?

Com o passar dos anos chega o momento em que estas palavras sao ouvidas desde outro lugar, as escutamos com ouvido e alma coletivos, como negras e negros que tem seu rosto e seu corpo discriminados, explorados por uma ideologia que afirma sua inferioridade. Somos criados e criadas a imagem e semelhanca de Deus, criados/as da terra, com cor e cheiro de terra, saimos com a cara de nosso Pai-Mae. Temos um rosto parecido com a divindade que nos criou. Isso nos faz levantar a cabeca, reconhecer a dignidade e fortalecer a autoestima, caminhar em busca da libertacao, fazer exodos na busca de novos lugares ano apos ano.

E Deus quem ocupa os espacos, sai do seu canto e toma a atitude, pelo encanto que tem com seu povo. Ele cria e recria continuamente, suas atitudes e suas acoes que se destacam. Ele ve, ouve, conhece e desce e envia. Ele se mostra, deixa ser visto. Esses devem ser tambem os passos da teologia afro-brasileira de se colocar a caminho e se ver. Isso provoca o caminhar no tempo, tempo este de liberdade religiosa.

A consciencia da necessidade de fazer a caminhada pela liberdade religiosa e proclamar com outros: "Eu tenho fe!", tem marcado a nossa trajetoria. Ja caminhando para o setimo ano, a presenca e participacao na caminhada pela liberdade religiosa, expressa esse lugar que queremos ocupar teologicamente. Junto com outros lideres religiosos que dialogam com outras e diversas expressoes de religiosidade, porem, que se colocam no espaco social numa perspectiva de construcao de liberdade e democracia.

Fomos descobrindo uma grande sabedoria do encontro com o outro. Sabedoria que possibilita a gente receber e integrar a presenca do Deus vivo nesses novos espacos. Assimilar e cultivar a possibilidade da troca, do dar e receber. Resgatar e receber a transmissao de um conteudo tao antigo presente na oralidade dos "nossos mais velhos", que provoca e garante uma espiritualidade da escuta de Deus, necessariamente pela escuta do outro em nosso tempo. Esse texto se tornou um referencial fundamental, voltar as origens da libertacao oferece um direcionamento, no sentido de voltar as origens da nossa gente.

Voltando para as origens

E necessario afirmar que a religiao e cultura africanas deixaram um legado importantissimo e fundamental para compreender os valores do povo negro que veio da Africa e que construiu sua historia nessa terra.

De uma forma propria, com elementos inteiramente originais, resistindo a toda imposicao cultural e religiosa, ao preconceito e ao racismo homens e mulheres de terreiros, Babalorixas e Yalorixas, formaram uma tradicao religiosa, cultivaram espacos de fe e de culto, de preservacao, de resistencia e de teimosia desde o periodo da escravidao. Por essa persistencia e criatividade, por sua autenticidade e identidade e que valores fundamentais para a formacao cultural do povo brasileiro se tornaram conhecidos e reconhecidos.

Oferecem uma forma de cultuar a Deus e de encontro com a natureza que devem ser vistos como formadores de uma consciencia religiosa e social transformadora e revolucionaria, de uma mistica de encontro com a criacao e o com Criador, ultrapassando os espacos religiosos, atingindo o sagrado. Assim como na capoeira, no samba, no carnaval a cosmovisao tem uma importancia e significado, em que a vida e a existencia se unem ao divino, como bem expressou o samba de enredo, entre outras belezas, como dizemos "Oh que coisa bonita, oh que coisa bonita, Deus Pai criador, criar negra cor. Oh que coisa bonita!"
Bailou no ar
O ecoar de um canto de alegria
Tres princesas africanas
Na sagrada Bahia
Iya Kala, Iya Deta, Iya Nasso
Cantaram assim a tradicao Nago
(Olurun)
Olurun! Senhor do infinito!
Ordena que Obatala
Faca a criacao do mundo
Ele partiu, desprezando Bara
E no caminho, adormecido, se perdeu
Odudua
A divina senhora chegou
E ornada de grande oferenda
Ela transfigurou
Cinco galinhas d'Angola e fez a terra
Pombos brancos criou o ar
Um camaleao dourado
Transformou em fogo
E caracois do mar
Ela desceu, em cadeia de prata
Em viagem iluminada
Esperando Obatala chegar
Ela e rainha
Ele e rei e vem lutar
(Iere)
Ierere, iere, iere, o o o o
Travam um duelo de amor
E surge a vida com seu esplendor (4)


Saberes como possibilidade da construcao de conhecimentos universais oferecendo uma qualidade de vida diferenciada, que resgata o humano, masculino e feminino, na proximidade do divino, rainha e rei. Sao referenciais na luta pela sobrevivencia do planeta e na busca de uma qualidade nas relacoes entre sujeitos, grupos e sociedade. Construcao de valores a partir da Historia e Cultura do Povo Negro, da forma bela e encantadora de cantar e contar. Isso nos oferece alguns indicativos para pensar a experiencia agrupada nesses tantos anos.

Novas formas de experiencia de Deus

Consideramos que nao ha uma so experiencia com Deus. Nas praticas de fe, nas varias manifestacoes religiosas e culturais, na vida cotidiana, no enfrentamento com uma sociedade de exclusao, ha tambem outros lugares de experiencia com Deus.

Um Deus que nao so se revela como pai, mas tambem como mae, como terra, como irma e irmao, como amiga e amigo. Um Deus que come e se faz comida, danca, festeja, celebra a vida e luta, se manifesta na natureza e na vida simbolica. E um Deus que tambem e mulher negra, crianca, corporeidade.

Esta maneira, muito rica e simples, de viver e expressar as experiencias com Deus, nos ensina a nao absolutizar a experiencia crista como unica experiencia com Deus. Isso nos provoca a pensar alguns indicativos, a partir da experiencia vivenciada e sistematizada de alguns elementos para uma hermeneutica que deve ser atualizada nesses tantos anos.

Indicadores para uma hermeneutica negra

O caminho feito nesses 32 anos nos indica algumas direcoes. Tracar uma hermeneutica negra nao e uma tarefa facil, porem a certeza e que o caminho ensina. Portanto, o que aqui colocamos sao alguns pressupostos, que partem de nossas experiencias de releitura biblica e trabalho popular com as comunidades negras.

Uma hermeneutica biblica a partir das realidades do povo negro exige um enfrentamento com as eclesiologias tradicionais na busca de novas maneiras de ser igreja, com uma cristologia que historicamente tem sido construida a partir de uma ideologia branca e masculina.

Com efeito, este modelo de cristologia, onde a pessoa de Jesus Cristo e o unico pressuposto da revelacao, com uma liturgia que nao leva em conta as manifestacoes religiosas do povo negro e que ignora suas expressoes corporais, sua mistica, e suas tradicoes miticas, considera como unico ponto de partida para a celebracao os pressupostos ocidentais europeus.

A leitura negra da Biblia exige um posicionamento politico. Nao se trata de ser negro ou negra para ler a Biblia desde nossa realidade. A hermeneutica negra nao pode ser entendida como problema de cor da pele, mas como uma causa politica. Assumir a causa negra e assumir um processo de libertacao que implique em transformacoes sociais radicais onde todas e todos possamos participar com nossas particularidades culturais e nossas contribuicoes fundamentais para uma sociedade que nao discrimine nem marginalize a causa do sexo, da idade, da raca, da opcao sexual. Esse posicionamento necessariamente se confronta com a teologia colonial e busca novos caminhos.

Teoloqia pos-colonial

Desde o periodo colonial ate os nossos dias a resistencia do povo negro foi o elemento importantissimo garantido pela oralidade e pelas praticas dos nossos antepassados. A oralidade e a transmissao de conhecimentos dentro dos espacos religiosos de tradicao de matriz africana, assim como das tradicoes culturais garantiram um legado importantissimo. Neste contexto e que pensamos a teologia afro-brasileira, considerando a religiosidade africana e as expressoes culturais.

Hoje ja se discute academicamente e se reconhece um legado historico e cultural riquissimo, de valor inegavel na construcao social e religiosa do povo brasileiro, porem se deve afirmar que foi construido inicialmente com a vida e a pratica e nesse contexto se inserem os APNs.

Entende-se hoje a possibilidade do pensar teologico e de considerar a questao negra que se colocam na perspectiva da reflexao e questionamento pos-colonial para a Africa, para a America Latina, em especial no nosso contexto brasileiro, considerando o aspecto cultural e social, ideologico e religioso afro-brasileiro.

A questao fundamental se apresenta a partir do pensar que considera a necessidade de viver e criar teologia e hermeneutica que reconhece valores religiosos pessoais e comunitarios, modo de ser e pensar no lugar africano, ou no nosso caso afro-brasileiro. Isso se resume numa expressao de profunda importancia, ou seja, do "lugar da vida".

A questao inicial que se coloca e: A teologia europeia e a teologia?

A producao teologica africana precisa ser considerada a partir de suas origens, sua concepcao e sua mentalidade. Assim como tradicionalmente afirma a relacao da filosofia com a teologia, encontramos um questionamento relevante ao pensar a mente e a concepcao europeia diante da africana que herdamos.
Uma das principais foi o projeto de negritude de Leopoldo Senghor, que
buscava revelar a identidade africana pela distincao das
caracteristicas mentais de europeus e africanos. De acordo com Senghor,
a mente europeia diferencia-se do seu objeto e o considera
desapaixonadamente como um sistema ordenado e determinado, com leis que
podem ser (?) tornando-os inteligiveis a um observador indiferente. Por
outro lado, Senghor pensa que e mentira (?) africana nao se diferencia
do mundo, mas desenvolve seu conhecimento das coisas tornando-se tanto
sujeito quanto objeto ao mesmo tempo, e sentindo compassivamente as
coisas por meio da participacao. (5)


Temos um outro lugar para pensar a teologia, mas tambem outra maneira apaixonada, proxima, envolvente e participativa. Evidente na pratica da roda e de igualdades de posicoes. Apoiado nesse argumento podemos pensar com Bruce Janz que afirma que e importante compreender nao o que a tradicao significa de abstrato, mas o que e no pensamento africano e como pode um entendimento local e anunciado pela tradicao capacitar africanos e afro-brasileiros a entender por si mesmo, a vida africana, a si mesmo e o outro, a realidade e o universo. Tradicao nao e objeto de pensamento, mas um modo de pensar. E um marcador de mundo-vida. O pensamento de Bruce Janz ao tratar a situacao da filosofia africana, entre os temas da obra Filosofia contemporanea em acao, contribui para essa compreensao da teologia.
[...] "O que significa fazer filosofia neste lugar (africano)?". Essa
questao e fenomenologica e hermeneutica, em vez de essencialista. Ela
assume que ja ha um significado contido em um mundo-vida, em vez de
supor que ele tem de ser criado ou justificado. Isso nao significa que
a filosofia africana deva ignorar a tradicao, razao, linguagem, cultura
e praticidade como conceitos-chave - bem ao contrario. Mas cada um
desses conceitos comporta-se como todos os outros conceitos como
marcadores de um territorio viajado de uma paisagem habitada. (6)


A tradicao aponta para o que importa, e para o modo como importa. A teologia afro-brasileira tem de cuidar disso, do seu potencial conceituai criativo, que tem suas raizes. Isso significa tornar-se parte da cultura, de suas ideias nao como conceitos sobre a tradicao, mas a propria tradicao e religiosidade. O que esta em questao e "O que e a teologia africana e afro-brasileira?". A compreensao e possivel quando e "voltada ao lugar". Decorre disso a necessidade de se perguntar, entre outras tantas questoes nesses anos passados e que fica para o futuro:
De onde que a teologia vem?
Qual a sua relevancia para a vida e a historia?
Qual seu lugar para essas pessoas?


Os comprometimentos etnicos e raciais, nacionais e ate mesmo internacionais, culturais ou mesmo religiosos, politicos e ideologicos dos teologos afetam a forma como a teologia e feita. O pensamento teologico e afetado pelo lugar em que e praticado e pelo tempo em que e elaborado. No curso dos 32 anos de APNs quanta coisa mudou, ate mesmo o lugar que ocupamos nas igrejas e fora delas, na sociedade e na academia.

Muitas conquistas foram realizadas e muitos lugares ocupados. Nesse sentido entende-se a questao hermeneutica, que vai possibilitar interpretar os proximos anos. Nao e hermeneutica puramente teorica, mas sim do lugar da vida, "mundo-vida", da historia, da sensibilidade, do religioso, do corpo, da poesia, da musica, da danca, do espaco natural, da cosmo-visao etc.

Trazer a vida negra para a teologia e refletir sobre ela, criando novos territorios e estendendo o ambito da vida e que nos refaz e nos projeta no caminhar dos proximos anos. Aqui neste lugar, situados ao mesmo tempo em outros espacos que a historia podera nos colocar, que reconhecemos o presente, olhamos o passado e projetamos o futuro. E necessario pensar uma postura hermeneutica critica que considera os saberes na sua origem, onde e como aparece e se expressa, para que proposito e usado, para onde caminha.

E importante compreender nao o que a tradicao significa de abstrato, mas o que e no pensamento africano e como pode um entendimento local e anunciado pela tradicao capacitar africanos e afro-brasileiros a entender por si mesmo, a vida africana, a si mesmo e o outro, a realidade e o mundo. Tradicao nao e objeto de pensamento, mas um modo de pensar, de interpretar. E um marcador de mundo-vida, do lugar. Uma certa tradicao os APNs ja tem construida.

Consideracoes Finais

Considerar a acao libertadora de Deus na historia de homens e mulheres com um referencial tao antigo que e a historia e luta do povo negro no Brasil e na Africa, assim como na Biblia e referir-se necessariamente a uma historia salvifica de construcoes ano apos ano.

Os 32 anos dos APNs se inserem numa busca de identidades, de encontros, de compreensao da acao de Deus pelos caminhos, pelos mares, estradas e trilhos em que passaram nossos pais e maes, nossos ancestrais e deixaram como grande legado a ser seguido e passos para serem dados.

Isso nos provoca a uma nova postura frente a continuidade de tradicoes e expressoes presentes na historia e cultura brasileira, do povo afro-brasileiro. E fundamental considerar a necessidade de ressignificar a Biblia a partir de novas perguntas, de novos lugares interpretativos e de novos sujeitos, de novos tempos.

O que aqui esta se afirmando sao apenas algumas representacoes, entre tantas outras, de indicadores de possibilidades de leitura, vivencia e releitura da experiencia historica no lugar da vida do povo afrodescendente, no encontro com teologos, poetas, sambistas, gente de grande experiencia e sabedoria. A Africa esta na Biblia e na vida do povo afro-brasileiro que fez e faz Exodo que cria e recria a existencia e festeja mais um ano.

Notas

(1.) Solano Trindade foi cidadao politizado e apontou problemas de desigualdade e injustica na vida social brasileira. No debate da questao racial no pais, tornou-se precursor. Ao longo da vida se envolveu com a poesia, as artes plasticas, o teatro e o folclore. Mas foi, sobretudo, o poeta do povo. Mas, por causa desta musica, em 1944, Solano foi preso e teve o livro "Poemas de uma Vida Simples" apreendido. Alem disso, em 1964, um dos seus quatro filhos, Francisco Solano, morreu numa prisao da ditadura militar. Com a arte e o artesanato que se espalhavam pelas ruas, a cidade ganhou outros contornos e deu origem ao novo nome do lugar, que passou a ser conhecido como Embu das Artes."

(2.) Biblia de Jerusalem. Sao Paulo: Paulus, 2003. Exodo 3, 7-10.

(3.) Biblia de Jerusalem. Sao Paulo: Paulus, 2003. Genesis 16, 13.

(4.) Neguinho da Beija-flor, Mazinho e Gilson. Samba Enredo do terceiro titulo da Beija-Flor de Nilopolis. 1978. A criacao do mundo na tradicao Nago.

(5.) CAREL, H.; GAMES, D. Filosofia contemporanea em acao. Porto Alegre: Artmed, 2008, p.102.

(6.) JANS, Bruce. A filosofia como se o lugar importasse: a situacao da filosofia africana. In: CAREL, H.; GAMES, D. Filosofia contemporanea em acao. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 111.

Referencias bibliograficas

Biblia de Jerusalem. Sao Paulo: Paulus, 2003.

Carel, H.; Games, D. Filosofia contemporanea em acao. Porto Alegre: Artmed, 2008, p.102.
COPYRIGHT 2017 Association for Religion and Intellectual Life
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2017 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Ribeiro, Obertal Xavier
Publication:Cross Currents
Date:Mar 1, 2017
Words:4097
Previous Article:SER AGENTE DE PASTORAL NEGROS NO CONTEXTO DA REALIDADE BRASILEIRA.
Next Article:JUREMA AFRO-INDIGENA: O Maximo Divisor Comum da Religiao Minima Brasileira.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2022 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |