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ACEITACAO E SUPERACAO DO ERRO MOTOR POR PRATICANTES DO TIME DE FUTSAL FEMININO DA UFPB.

Acceptance and overcoming of motor error by practitioners from UFPB female's futsal team

INTRODUCAO

As habilidades do futsal podem ser divididas em tecnicas individuais dos jogadores de linha e do goleiro. As tecnicas individuais dos jogadores de linha sao conduzir, passar, chutar, dominar, driblar, fintar, marcar e cabecear; ja as do goleiro sao espalmar, defender, lancar, pegar, fechar o angulo e sair, porem, esta posicao tambem requer uso de tecnicas dos jogadores de linha (Voser, 2003).

O desempenho tecnico de um(a) jogador(a) pode influenciar diretamente no resultado de uma partida, tanto positivamente quanto negativamente (David, Picanco e Reichert, 2014).

No futsal as habilidades motoras podem ser mais dificeis de desempenhar e apresentam maior possibilidade de erro, pois neste jogo dinamico as dimensoes da quadra se tornam pequenas com relacao a quantidade de jogadores, o que exige do praticante rapida tomada de decisao e acao (Aburachid e colaboradores, 2015).

Logo, cada uma das tecnicas--que podem ser entendidas como habilidades motoras--anteriormente citadas devem estar bem desenvolvidas no desportista de maneira a otimizar seu desempenho, sendo o treinamento um modo de aperfeicoar os fundamentos do jogo.

As habilidades podem ser melhoradas com o uso de feedback durante o treinamento, que pode ser dividido em inerente (a propria pessoa que desempenha a habilidade consegue perceber as informacoes referente a performance) e aumentado (informacao externa, fornecida por outra pessoa, equipamentos eletronicos, etc., apresentada a pessoa que desempenha a habilidade). O feedback pode ser descritivo, usado para comunicar o erro, e prescritivo, que e utilizado para mostrar o erro e orientar na correcao (Schimdt e Lee, 2016).

Existem diversos metodos a serem seguidos no ensino e no treinamento do futsal, que vao desde principios analiticos ate abordagens que desenvolvem maior compreensao de jogo, ou ainda a combinacao de metodos ja existentes. Contudo, sugere-se criar novos metodos que se adaptem a necessidade do aluno ou atleta (Waltrick e Reis, 2016).

Por exemplo, seria possivel utilizar a pratica em blocos, que consiste em repetir a mesma habilidade motora em um numero elevado de repeticoes ou por um tempo determinado, passando para a segunda habilidade apos terminar toda a pratica da primeira e assim por diante, com o foco em um movimento especifico por vez (Schimdt e Lee, 2016).

Deste modo o presente artigo traz uma proposta de metodo para a aceitacao e a superacao do erro motor/ASEM (Martins, 2018) com o intuito de principalmente contribuir para a melhoria do desempenho individual ao analisar a percepcao de praticantes de futsal feminino sobre a eficacia do metodo ASEM.

MATERIAIS E METODOS

Este artigo derivou de um estudo de caso de cunho misto (quantitativo e qualitativo) --util na compreensao de novas ideias e de elaboracao de hipoteses, principalmente em conteudos ainda nao trabalhadas amplamente --apresentando delineamento transversal, ja que as participantes nao foram investigadas ao longo dos anos (Thomas, Nelson e Silverman, 2007).

Para o tratamento dos dados quantitativos usou-se a frequencia absoluta, media e desvio padrao. Ja para os dados das entrevistas semiestruturadas empregou-se a analise do discurso (Orlandi, 2001), que visa compreender os aspectos mais significantes da fala e resgatar o sentido da transcricao dos discursos.

As entrevistas foram transcritas e divididas em seis categorias (impressoes gerais, pontos positivos, pontos negativos, sugestoes, demais observacoes e sentimentos com relacao a entrevista), com a manutencao das expressoes e construcoes linguisticas tipicas da oralidade. Para preservar a privacidade das participantes solicitou-se que elas escolhessem uma pedra preciosa para ser utilizada como codinome.

Os materiais utilizados foram um aparelho celular (iPhone 5s) para filmagem; um notebook (Dell 2 em 1 Inspirion 11 Serie 3000) para cortes dos videos, transformacao em camera lenta, congelamento e marcacao das imagens, bem como apresentacao do material resultante do processo para as participantes; entre uma e quatro bolas de futsal (uma Penalty storm 500, uma Keeper 300 e duas Penalty max 500) durante a aplicacao da segunda fase do metodo ASEM; uma bomba para encher bolas (Kipsta dupla acao); oito cones e tres marcadores para delimitacao do espaco e alvo; tres aparelhos (iPhone 5s, Samsung Galaxy Ace e X-Sound! Mp3 player) para gravar as entrevistas; caderno e lapis para demais anotacoes.

A pesquisa foi realizada entre 18 de julho e 10 de outubro de 2018 e teve como participantes tres atletas, do sexo feminino, do time de futsal da Universidade Federal da Paraiba (UFPB). As pesquisadas afirmaram ja terem praticado a modalidade antes de ingressarem no time de futsal feminino da UFPB.

O responsavel pelo time de futsal assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), bem como as demais participantes, propiciando a aplicacao do estudo.

Essa pesquisa foi submetida e aprovada sob o Protocolo CAEE 79024217.0.0000.8069 no Comite de Etica do Centro de Ciencias Medicas/CCM da UFPB e seguiu as diretrizes do Conselho Nacional de Saude.

O presente estudo de caso (n=3) satisfaz a quantidade minima de jogadores de acordo com a Regra do Futsal, indicando que a partir de tres jogadores(as) na quadra o jogo pode ser iniciado ou continuado (Cbfs, 2018).

Os criterios de inclusao da pesquisa foram ter 18 anos ou mais e participar do time de futsal feminino da UFPB, enquanto que os de exclusao foram faltar tres treinos seguidos ou desistir de integrar a pesquisa.

Antes de introduzir a aplicacao do metodo ASEM foi determinado o nivel de aprendizagem motora das praticantes, que se deu a partir da classificacao de tres estagios idealizada por Fitts e Posner (1967).

Em seguida deu-se inicio ao metodo ASEM, dividido em duas fases (Martins, 2018); para a fase da aceitacao do erro motor (primeira fase), que visa facilitar a elucidacao do praticante sobre o que estaria equivocado na tecnica (visto que nem todas poderiam perceber e/ou aceitar que estao desempenhando movimentos erroneamente), filmaram-se as atuacoes das praticantes durante os treinos do time.

Alem das filmagens, que foram avaliadas por mais de um pesquisador (total de sete pesquisadores aplicaram o metodo, todos dos cursos de Educacao Fisica da UFPB), incluindo a avaliacao de pessoa que atuou na area com experiencia pratica, observacoes in loco foram realizadas a fim de eleger a habilidade a ser trabalhada (erro mais critico).

Em seguida, tendo como base um checklist da habilidade (lista dos movimentos que necessitam ser desempenhados), congelava-se o video no erro mais critico dando origem a imagens que ressaltavam um aspecto positivo desempenhado pelas praticantes (Imagem A) e indicando-se o erro mais critico (Imagem B).

Para servir como modelo da performance adequada, realizou-se a filmagem do desempenho executado corretamente por outra praticante ou por pesquisadoras participantes, resultando na Imagem C (sem identificar o rosto), que apresentava o aspecto positivo destacado.

Apos a preparacao das imagens, mostrou-se as desportistas dois videos sobre o desempenho delas que haviam sido gravados, em velocidade normal e lenta, pedindo-se que elas destacassem o aspecto positivo em suas atuacoes.

Em seguida, com as imagens dispostas lado a lado, comentou-se o aspecto positivo apresentado na Imagem A e o aspecto negativo demonstrado na Imagem B. Posteriormente, a Imagem A foi substituida pela Imagem C chamando-se atencao para o contraste entre as tecnicas corretas e o modo como as participantes estavam executando a habilidade motora.

Apos a exposicao do material e a conversa sobre qual habilidade havia sido escolhida para trabalhar e o motivo, perguntou-se as praticantes as opinioes delas sobre o que estava certo e o que estava errado em seus desempenhos.

Foi ressaltado que a acao desempenhada com o erro motor poderia acarretar lesoes, alem de prejudicar a partida. Com o asseguramento de que as praticantes aceitaram seu erro passou-se para a fase da superacao do erro motor.

Nessa etapa as praticantes foram submetidas as sessoes similares e individuais de treinamento, sendo que continuaram com os treinos usuais do time e demais atividades fisicas de suas rotinas.

As atividades foram aplicadas pela pratica em blocos e tiveram como base de desenvolvimento a taxonomia bidimensional de Gentile (1987), iniciando-se a pratica com o membro nao dominante.

Apos finalizados os 16 niveis da taxonomia, com a pratica desempenhada apenas pelo membro nao dominante, as participantes retornavam ao primeiro nivel realizando cada atividade com a alternancia entre perna nao dominante e dominante. Vale ressaltar que, ao longo das praticas, o pesquisador tinha em posse um pequeno kit de primeiros socorros para utilizar, caso necessario.

Durante as praticas tambem foram fornecidos feedbacks verbais intermitentes e antes das correcoes era incentivado, com perguntas, que as participantes percebessem como estavam seus desempenhos. Quando elas nao identificavam o erro recebiam indicacoes do que deveria ser corrigido (conhecimento de desempenho prescritivo), mas precedendo a informacao do erro era "elogiado" algo que tinha sido desempenhado de maneira correta.

Finalizada a segunda fase do metodo ASEM, as participantes foram filmadas de novo para confirmar se superaram o erro mais critico. Com essa filmagem deu-se origem a Imagem D que foi posicionada ao lado da Imagem B como forma de comparar o antes e o depois. As comparacoes foram mostradas a cada praticante oito dias apos o termino do seu treinamento, ocasiao em que foi realizada a entrevista semiestruturada.

RESULTADOS E DISCUSSAO

Apesar das praticantes (media de idade de 21,6 anos; [+ o -]3,0), todas destras, nao serem iniciantes no que diz respeito ao tempo de pratica, na maioria das habilidades motoras foi possivel perceber que encontravam-se na fase cognitiva de Fitts e Posner (1967), apresentando caracteristicas da fase associativa nas habilidades dominar e chutar, com excecao de uma participante que estava totalmente na fase cognitiva (dominar).

Com relacao aos resultados da primeira fase de aplicacao do metodo ASEM todas aceitaram seu erro motor, sendo que duas praticantes prontamente aceitaram o seu erro e uma inicialmente nao aceitou (somente quando foram apresentadas as imagens com o erro da praticante e o modelo, bem como foi falado o que deveria ser consertado e as vantagens desse ajuste, o erro motor foi aceito).

Dependendo da pessoa, a aceitacao tambem precisa ser promovida por fatores exogenos. Foi observado em pesquisa com pacientes terminais que alguns chegavam a aceitacao da morte inevitavel a partir de reflexoes proprias enquanto outros necessitavam de algum auxilio externo para poderem atingir a aceitacao (Kubler-Ross, 1996).

A aceitacao do erro motor ocorre no momento em que o participante consegue perceber e admitir o erro motor que executa, porem quem aplica o metodo ASEM deve estar atento para perceber se essa aceitacao foi de fato verdadeira ou se a falsa anuencia esta sendo usada pelo praticante para mascarar seu inconformismo, necessitando de outros estimulos para assumir que errou (Martins, 2018).

Os resultados sugerem que a aceitacao do erro motor seria independente da habilidade trabalhada, configurando-se como um fator intrinseco ao participante, pois a aceitacao do erro na habilidade dominar foi diferenciada entre as praticantes. Como certas pessoas precisam de mais argumentos para aceitarem seus erros, a exposicao de imagens e o provimento das informacoes verbais fundamentadas na melhoria do desempenho, facilitadas pelo metodo ASEM, indicaram ter sido uma eficiente forma de convencimento.

O dominio solado (n = 2) e o chute com a face interna do pe (n = 1) foram treinados em seis dias em media ([+ o -]1), aplicando-se a taxonomia pela segunda vez mais rapidamente do que quando foram inicialmente praticados apenas com o membro nao dominante, sendo que em nenhum momento foi preciso utilizar o kit de primeiros socorros.

Salienta-se que, apesar de existirem habilidades mais complexas que outras, o que determinou a duracao dos treinamentos foi o aperfeicoamento das participantes nas atividades e nao a habilidade em si, ja que a mesma habilidade (ex.: dominio solado) foi treinada por seis dias por uma praticante e por cinco dias para outra.

Ao longo da aplicacao das atividades, quando perguntado as participantes sobre algo errado em seu desempenho, na maioria das vezes elas conseguiram detectar o erro com o uso do feedback inerente, consertando-o na tentativa subsequente. Quando nao conseguiam identificar o erro (falta de foco) foi fornecido o feedback aumentado.

Assim, principalmente nas primeiras atividades foi fornecido o conhecimento de desempenho prescritivo e a medida que as falhas foram diminuindo passou a ser informado o conhecimento de desempenho descritivo, decrescendo a frequencia do emprego do feedback.

Em relacao as impressoes gerais das praticantes sobre o metodo, ficaram aparentes questoes como o auxilio de imagens, o reconhecimento do erro e o aprendizado da movimentacao e postura corporal corretas, conforme pode ser observado nos discursos a seguir:

Ah, eu gostei porque eu vi o resultado agora, ne? Que [breve pausa] a minha postura tava um pouco pra baixo e agora ta melhor. (Safira, 19 anos).

Eu achei muito interessante [...] Porque muitas vezes a gente pratica o esporte ha muito tempo [...] mas eu nao sabia identificar onde tava o erro. Entao, a partir de agora eu consegui ja me orientar enquanto a isso [...]. (Jade, 21 anos).

Eu achei massa! O ruim era so o negocio da perna mesmo, pra lembrar, lembrar de sempre, ta sempre com a cabeca, e [breve pausa] olhar pra frente. E muito ruim lembrar. (Rubi, 25 anos).

Estudos apontaram que o aprendizado de um novo padrao se da nao pelo fato de o cerebro deletar o padrao antigo, mas sim por ser capaz de identificar o erro, adotando o reconhecimento do padrao equivocado como primeiro passo para aprimorar a tecnica (Herzfeld e colaboradores, 2014).

Para facilitar o reconhecimento do erro o uso de imagens pode ser empregado, visto que o recurso visual apresenta a capacidade de auxiliar a aceitacao do erro pelo fato do registro na forma de imagem ser de dificil contestacao e da comparacao entre o antes e o depois favorecer a identificacao do aperfeicoamento alcancado com a aplicacao do metodo ASEM.

Antes da aplicacao do metodo a praticante Jade expressou que nao sabia o que fazia errado, indicando que a identificacao do erro foi conseguida no decorrer da aplicacao dos estimulos provenientes do metodo ASEM.

Um dos elementos da memoria de trabalho e a capacidade de realizar triagem nas informacoes, dar atencao a determinada tarefa e ignorar distracoes, sugerindo que os que tem maior capacidade de memoria conseguem eliminar distracoes e utilizar aspectos relevantes com mais eficiencia, enquanto pessoas com menor capacidade codificam mais estimulos, incluindo os irrelevantes (Rodrigues, 2015).

Apesar da dificuldade de recordar e reproduzir o que era requisitado com a aplicacao do metodo ficou aparente no discurso de Rubi o esforco que fez para se aperfeicoar, salientando que caracteristicas individuais, incluindo a capacidade da memoria de trabalho, podem ser determinantes para agilizar esse processo.

Com relacao a categoria pontos positivos do metodo ASEM, foram abordados temas como a monotonia no treinamento, o uso do membro nao dominante e o reconhecimento dos beneficios advindos dos aspectos trabalhados:

Eu gostei do ... do jeito que... tipo assim, no comeco, ne? [...] Eu achava bem chatinho, ne? Eu pensava que ia fazer tudo em dois dias, que ja ia pegar, mas foi ... eu gostei do jeito que ensinou e tal. (Safira, 19 anos).

[...] comecando com a, com a esquerda foi um, um processo [...] que e o meu caso, ne? Com a esquerda, que e o meu nao dominante [...] eu tendo mais essa nocao de fazer com a nao dominante, quando eu passei pra dominante eu ja consegui realizar mais facil [...]. (Jade, 21 anos).

Um aspecto positivo e a do olhar pra frente [...] Pronto, isso foi uma boa, porque assim, a gente ve mais [...] amplamente, todo mundo na frente, da pra ver, circular a bola melhor tambem. E a posicao da perna eu acho que quando a pessoa estende tem mais, como eu posso dizer? O tempo de chegada ate a bola diminui [...] eu gostei. (Rubi, 25 anos).

Em um estudo sobre futsal foi apresentado que 25% dos participantes apontaram a monotonia nos treinamentos (repeticao dos exercicios) como causa de desistencia da pratica entre meninos de 13 anos, indicando a importancia de escolher um metodo que mantenha a motivacao do aprendiz e estimule-o a continuar superando obstaculos existentes e/ou propostos (Tobias, Cazella e Ribeiro, 2016).

A suposicao inicial feita por Safira era de que as praticas seriam macantes, mas ela vivenciou ao longo da aplicacao do metodo desafios a serem superados, contribuindo para seu aprendizado. Portanto, e necessario adequadamente dosar o nivel das atividades para devidamente estimular o praticante, possibilitando que o desafio de aprender uma habilidade motora primeiramente com o membro nao preferencial seja empregado.

Um estudo com 42 estudantes universitarios destros e com media de idade de 20 anos que necessitavam realizar tarefa com uma das maos mostrou que 48 horas de restricao sensoriomotora em um dos membros superiores proporcionou transferencia da habilidade entre os membros, indicando que a imobilizacao pode levar a transferencia bilateral de aprendizagem (Meugnot e Toussaint, 2014).

Apesar de nao ser possivel apagar da memoria a forma errada de executar o movimento (Schimidt e Lee, 2016), o fato de o metodo trabalhar inicialmente com a perna nao dominante (raramente estimulada) parece ter funcionado como um "restart", auxiliando a transferencia de aprendizagem para a posterior execucao correta da habilidade com o membro dominante.

Com relacao as correcoes feitas nas habilidades praticadas, a fala de Rubi reflete o aperfeicoamento da postura corporal alcancado, indiretamente indicando a importancia do feedback trabalhado durante a aplicacao do metodo.

Durante o aprendizado de uma nova habilidade motora o aprendiz lida com muitas informacoes, alem do fato de nao ter certeza de como desempenhar o movimento para atingir a meta da habilidade, propiciando que o feedback inerente nao seja suficiente para promover a adequada aprendizagem. Portanto, usa-se o feedback aumentado, utilizado durante ou apos desempenho satisfatorio ou insatisfatorio da habilidade motora, conforme reportado em estudo com praticantes do nado crawl (feedback inerente associado ao feedback aumentado terminal) (Katzer e colaboradores, 2015).

No presente estudo o feedback aumentado mostrou-se como uma ferramenta util na correcao das habilidades dominar e chutar, inclusive auxiliando o reconhecimento das proprias praticantes com relacao aos seus desempenhos ao adicionar informacoes ao feedback intrinseco.

No quesito relacionado aos pontos negativos do metodo ASEM as praticantes referiram direta ou indiretamente a monotonia inicial, o tempo de repeticao da atividade e a validade ecologica, como pode ser notado a seguir:

Nao, eu gostei. Como eu falei, ne, no comeco eu achava meio chatinho mas depois eu comei a gostar. Acho que nao tem nenhum ponto negativo nao. (Safira, 19 anos).

Nao sei, nao vi nada, nada negativo. So que assim, eu so achei era muito dificil fazer sem a bola, mas eu sei que e uma fase necessaria. (Jade, 21 anos).

Ah, a questao de ser sempre so com uma perna [...] Porque so fazer so com uma perna cansa, ai e bem complicado. E como a pessoa, nao e, a perna dominante, ai e complicado. (Rubi, 25 anos).

A importancia de utilizar fundamentos da aprendizagem motora para o ensino da tecnica, fornecendo feedback e estabelecendo metas ao longo das atividades propostas (Waltrick e Reis, 2016), pode fazer com a motivacao do praticante flua naturalmente, mesmo em atividades repetitivas.

Pelo fato da pratica em blocos, utilizada no metodo ASEM, ser extremamente repetitiva, quem aplica o metodo deve estar sempre atento a motivar periodicamente o praticante, inclusive com o uso de feedback, alem de elaborar claras metas a serem alcancadas nas atividades como forma de manter o foco do individuo, mesmo se nao espelharem muita proximidade com a situacao real.

A validade ecologica, que indica a necessidade do ambiente no qual os testes ou atividades sao aplicados tenham estimulos externos e o proprio contexto o mais proximo possivel das situacoes reais (Rodrigues, 2017), deve ser buscada em qualquer treinamento para otimizar o desempenho do praticante.

Na taxonomia bidimensional de Gentile com bola (Martins, 2018), utilizada para guiar as atividades aplicadas, existiram etapas que exigiram das praticantes o desempenho da habilidade sem o uso de objetos ou pessoas, assim como atividades que foram desempenhadas com bola e individuo que fez o papel de um adversario, com o intuito de proporcionar uma progressao suave das dificuldades que precisaram ser vivenciadas (refletindo os principios da validade ecologica).

Apesar da metodologia sistemica nao promover a repetitividade pelo fato de embasar o treinamento em jogos (Filgueiras, 2014), praticas como as proporcionadas pelo metodo ASEM, que utilizam a repeticao, podem ser beneficas desde que fatores como o aproveitamento adequado do feedback e a criacao de desafios (como desempenhar com o membro nao preferencial), dentre outros, estejam presentes.

As sugestoes para melhoria do metodo relatadas foram relacionadas a mais praticas que refletissem as condicoes do jogo:

Eu nao sei [...] Eu acho que, as partes mais com bola, acho que era importante ter mais, ter negocio de ta com a bola mais vezes, acho que isso. (SAFIRA, 19 anos).

Nao sei, eu gostei da metodologia [...] A bola parada, e mais complicado de fazer parado do que em movimento. [...] e sempre a bola parada ai eu tenho que pensar: eu nao posso arrastar, eu nao posso arrastar. Ai e dificil. (RUBI, 25 anos).

Ainda que a bola seja o objeto central de foco e consequentemente, de disputa no futsal, tornando sua presenca nos treinamentos essencial (Miguel, 2015), no metodo ASEM o desempenho sem a bola e empregado para proporcionar que o praticante realize adequadamente os movimentos que compoem a habilidade sem a preocupacao de manipular um objeto antes de desempenhar a mesma atividade com o objeto, bem como desempenhar a habilidade sem deslocamento corporal antes de desempenha-la com o transporte corporal, com o intuito de facilitar a aprendizagem.

Nas demais observacoes sobre o metodo as praticantes indicaram ter gostado da experiencia vivenciada e reconhecido o aperfeicoamento conquistado:

[...] Que eu gostei de ter participado do projeto e acho que vi uma melhoria muito grande. Como tu me mostrou as fotos de antes e do depois, acho que o projeto foi bem feito. (Safira, 19 anos).

Assim, eu acho que o projeto ele e muito importante para todas as atletas, assim, porque [breve pausa] algumas pessoas tem a consciencia de que nao faz tudo corretamente. Algumas pessoas nao tem essa consciencia, que acham que estao fazendo tudo correto, se voce for intervir ela nao vai acreditar e tal [...] eu vi que e uma evolucao [...] entao assim, de verdade, assim, eu fiquei muito feliz com a oportunidade. (Jade, 21 anos).

A metodologia foi boa, nao tenho mais o que falar. (Rubi, 25 anos).

A demonstracao, que pode otimizar a aprendizagem de habilidades motoras no futsal (Brandao e colaboradores, 2016) e em outros esportes, tambem apresenta a capacidade de ser viabilizada por meio de imagens.

No metodo ASEM, as imagens utilizadas no comeco e no final do processo serviram como demonstracao da habilidade, forma de reconhecimento e de aceitacao do erro motor, alem da confirmacao do aperfeicoamento na performance, sugerindo que foi valido o uso desse recurso.

Por fim, sobre os sentimentos com relacao a entrevista, foi possivel verificar que as praticantes se sentiram a vontade:

Me senti bem. Consegui responder [Risada] (Safira, 19 anos).

Tranquilo, de bouas, natural assim, achei tudo otimo. (Jade, 2018).

A entrevista eu sou, eu tenho vergonha, mas ta ... ta ... ta bom (Rubi, 2018).

A personalidade e formada por diferencas interindividuais e construida atraves de aspectos como temperamento, necessidades e motivos, por exemplo, fazendo com que o comportamento pessoal dependa de como o sujeito compreende o meio no qual esta inserido e o seu papel nele. Portanto, o desenvolvimento da personalidade tambem pode sofrer influencia de processos de aprendizagem e de socializacao (Samulski, 2009), devendo ser contemplado pelos que guiam esse processo.

Independentemente de suas personalidades nenhuma praticante se mostrou constrangida com a entrevista e todas pareceram estar satisfeitas com seus desempenhos e suas participacoes, tanto nas atividades quanto na entrevista, diminuindo a possibilidade de relatarem assuntos incoerentes com o que vivenciaram.

CONCLUSAO

A percepcao das praticantes sugeriu que o metodo ASEM foi eficaz ao aperfeicoar as habilidades dominar e chutar no futsal, indicando que estudos futuros, utilizando uma amostra maior, com diferentes habilidades motoras do futsal, de outros esportes e contemplando situacoes de jogo, sejam realizados para melhor analisar o referido metodo.

REFERENCIAS

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Endereco para correspondencia:

Violeta Vieira de Brito.

Av. Eutiquiano Barreto, 645/apto. 404, Manaira, Joao Pessoa-PB.

CEP: 58038-311.

Recebido para publicacao em 14/11/2018

Aceito em 06/01/2019

Violeta Vieira de Brito [1]

Caroline de Oliveira Martins [1]

[1]-Universidade Federal da Paraiba (UFPB), Joao Pessoa-PB, Brasil.

E-mails dos autores:

vvb_vvb@hotmail.com

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Author:Vieira de Brito, Violeta; de Oliveira Martins, Caroline
Publication:Revista Brasileira de Futsal e Futebol
Date:May 1, 2019
Words:5221
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