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A study of the chemical and physical properties of cashew nut shell ash for use in cement materials/Estudo das caracteristicas quimicas e fisicas da cinza da casca da castanha de caju para uso em materiais cimenticios.

Introducao

A preocupacao com o cenario energetico mundial, que vem se agravando desde a Crise do Petroleo iniciada em 1973, tem estimulado a busca por fontes de energias renovaveis que diminuam o consumo de combustiveis fosseis, esgotaveis e altamente poluentes, por produtos sustentaveis em acordo com as normas ambientais vigentes. Sabe-se que a queima de derivados de combustiveis fosseis (petroleo e carvao, por exemplo) esta acelerando o aumento da temperatura do planeta, fenomeno conhecido pela comunidade cientifica como aquecimento global.

Apesar de nao ser recente, somente agora tem demandado preocupacao dos paises desenvolvidos, ate entao alheios aos apelos da comunidade cientifica. Perda da diversidade, aumento da temperatura, temporais, diminuicao da producao de generos alimenticios e outros problemas sao algumas consequencias deste fenomeno, que podem frear qualquer tipo de desenvolvimento humano, esteja ele na escala economica ou social.

Por essa razao, a busca por materiais alternativos, o desenvolvimento de materiais menos poluentes ou que utilizem menos materias-primas naturais, a reutilizacao de residuos solidos e a diminuicao da emissao de gas carbonico sao algumas medidas necessarias para o atual cenario mundial.

O uso de cinzas agroindustriais

Os subprodutos de origem vegetal, notadamente os subprodutos agroindustriais, residuos ou cinzas processadas, vem sendo estudados para utilizacao como combustiveis, fertilizantes e estabilizantes de solos. A construcao civil, pelo expressivo volume fisico de materiais que incorpora, e o maior mercado potencial para reciclagem. Muitas pesquisas sao encontradas na literatura atual, as quais estao sendo desenvolvidas com residuos agroindustriais visando seu aproveitamento como adicoes minerais em matrizes cimenticias (JOHN et al., 2003).

As cinzas sao subprodutos gerados por processos industriais ou agroindustriais, ou originam da queima de outros residuos, pela reincorporacao destas no processo. Aplicacoes de residuos agroindustriais como adicao mineral no cimento Portland tem grande aplicabilidade na construcao civil, visto que esses materiais possuem caracteristicas fisicas e quimicas que sao proprias para utilizacao em concretos e argamassas (MANNAN; GANAPATHY, 2004).

Segundo John et al. (2003), em principio, qualquer cinza vegetal predominantemente siliciosa, que possa ser produzida no estado amorfo e com finura adequada, pode ser utilizada como adicao mineral. Sua reatividade vai depender da composicao quimica, fortemente influenciada pelo produto que gerou a cinza, pelo solo e pelo processo de producao da cinza. Uma vez que as cinzas contenham elevado teor de silica, elas podem ser de utilizacao viavel como adicoes minerais.

Outro fator relevante referente as adicoes minerais deve-se a sua composicao fisica (estado amorfo ou cristalino) e, caso apresentem reatividade, em meio aquoso com o CH (hidroxido de calcio), resultando em endurecimento, podem ser utilizados como adicao mineral pozolanica.

A reacao pozolanica se caracteriza pelo consumo lento do CH livre, apos hidratacao do cimento anidro, pelo material pozolanico que gera C-S-H (silicato de calcio hidratado) adicional. Essa reacao pode ser simplificadamente representada pela Equacao 1.

alpha]Si[O.sub.2] + [beta]CaO+[phi][H.sub.2]O [right arrow] [alpha]CaO x [beta]Si[O.sub.2] x [phi][H.sub.2]O (1)

As pozolanas, sejam elas naturais ou artificiais, devem ter como constituinte preponderante a silica, que reage com a cal para formar o C-S-H, contribuindo para a resistencia mecanica do sistema cimenticio. Pode conter tambem alumina e oxido de ferro responsaveis pela formacao de silicoaluminatos e aluminatos, com contribuicao menos expressiva para a resistencia mecanica, alem de oxidos de metais alcalinos e oxido de calcio (MALHOTRA; MEHTA, 1996).

Em recente entrevista em periodico tecnico especializado, Povindar Kumar Mehta defendeu menor consumo de concreto nas novas estruturas, alem de menos cimento nas misturas para concreto e o uso de pouco clinquer para produzir cimento. O especialista propos que se substituisse parte da massa de clinquer por cinzas residuais e/ou pozolanas naturais. Ele fez, ainda, uma comparacao abstrata entre o concreto e o deus Shiva da mitologia hindu, atestando que o concreto e um material capaz de absorver a enorme quantidade de residuos gerados pela sociedade (REVISTA TECHNE, 2008).

Por essas e outras razoes, varios estudos estao sendo realizados com o objetivo de substituir as materias-primas da construcao civil (cimento e agregados) por residuos industriais e urbanos. Sendo assim, este trabalho se propoe a avaliar as caracteristicas fisicas e quimicas da cinza da casca da castanha do caju (CCCC), visando seu aproveitamento como adicao mineral em matrizes cimenticias.

Material e metodos

O caju e formado pelo pedunculo, pseudofruto carnoso e duro, de cor amarela, alaranjada ou vermelha e pelo fruto verdadeiro do cajueiro, a castanha de caju, de onde se extrai o principal produto de consumo, a amendoa (PAIVA et al., 2000).

O processo de obtencao da amendoa comeca pela decorticacao, ou seja, a separacao da amendoa e da casca, que acontece em tanques com cardol. Este e aquecido pelo calor gerado em caldeiras, ao passar por serpentinas numa temperatura de 800 [+ or -] 5[degrees]C. Os subprodutos dessa etapa sao as amendoas, de grande valor comercial, e as cascas encharcadas de cardol (Figura 1), ainda com grande potencial combustivel. Comparativamente, o poder calorifico deste residuo e equivalente ao de outros produtos utilizados para o mesmo fim, como a casca da semente de algodao, casca de amendoim, serragem e outros (AGOSTINI-COSTA et al., 2000).

[FIGURE 1 OMITTED]

Essas cascas, residuos da producao, sao incorporadas novamente ao processo, e geram calor nas caldeiras para a decorticacao de novas castanhas. A cinza e o residuo colhido no fundo da grelha das caldeiras, resultante da queima das cascas, cujo resfriamento se faz lentamente. Atualmente, esse residuo e utilizado como adubo em plantacoes de caju e uma pequena parte e destinada a aterros sanitarios comuns. A cinza representa aproximadamente 5% do peso da castanha inicial, e com a atual produtividade da cajucultura, a geracao dessas cinzas e de aproximadamente 15 mil toneladas por ano.

Na bibliografia consultada nao foram observadas pesquisas sobre o uso da cinza da casca da castanha de caju (CCCC) como adicao mineral para concretos e argamassas. Contudo, ha uma possivel potencialidade em relacao a esse uso, considerando-se os resultados obtidos com outras cinzas de origem agroindustrial, pela expressiva quantidade de silica em materiais de origem organica.

A cinza utilizada nesta pesquisa foi cedida pela empresa Cione--Companhia Industrial de Oleos do Nordeste, localizada em Fortaleza, Estado do Ceara, disposta em sacos lacrados de faces aluminizadas. A amostra utilizada passou por moagem em moinho de bolas metalicas durante 1h (LIMA et al., 2007). As caracteristicas principais do moinho utilizado para a moagem da CCCC sao: volume interno de 6,8 L; velocidade de 132 rotacoes [min..sup.-1]; 12 esferas com 170 g cada uma; e quantidade de CCCC utilizada em cada moagem de 700 g.

Para as analises de pozolanicidade, utilizou-se cimento de alta resistencia inicial, CP V ARI, fornecido pela Ciminas S.A.--Grupo Holdercim, com massa especifica igual a 3,12 kg [dm.sup.-3], massa unitaria no estado seco e solto igual a 1,02 kg [dm.sup.-3] e superficie especifica Blaine igual a 4.687 [cm.sub.2] [g.sub.-1]. A cal hidratada utilizada foi do tipo CH-III, da marca Itau, com massa especifica igual a 2,30 g [cm.sup.-3] e massa unitaria no estado solto igual a 0,50 g [cm.sup.-3].

Analise quimica

A amostra foi solubilizada em meio de fusao alcalina e os elementos determinados em espectrometro de emissao otica com plasma induzido, modelo VISTA, da marca Varian, exceto para potassio e silicio, que foram determinados em espectrofotometro de absorcao atomica com chama, modelo Spectra A 640, da marca Varian (IT AQ-158 revisao 009). A analise quimica foi realizada no Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de Sao Carlos.

Determinacao da massa especifica e da massa unitaria

O ensaio de massa especifica da CCCC foi realizado seguindo as recomendacoes da NM 23 (AMN, 2000). Por sua vez, o ensaio de massa unitaria da CCCC foi executado de acordo com a NBR 7251 (ABNT, 1982). A unica alteracao deu-se em relacao ao recipiente, que nesta pesquisa foi alterado para um de 3,0 litros. Essa mudanca foi necessaria pela caracteristica da CCCC, ja que essa nao se trata de um agregado, e sim, de um material pulverulento.

Analise dos extratos lixiviado e solubilizado

Nas analises de lixiviacao e solubilizacao das amostras de CCCC foram determinados possiveis contaminantes e/ou metais pesados contidos no material, seguindo, respectivamente, as especificacoes da NBR 10005 e da NBR 10006 (ABNT, 2004b e c). O residuo foi classificado de acordo com as especificacoes da NBR 10004 (ABNT, 2004a). As analises foram realizadas no Departamento de Hidraulica e Saneamento da Escola de Engenharia de Sao Carlos (EESC-USP).

Analise por difratometria de raios X

A identificacao dos picos presentes no difratograma, por comparacao em bancos de dados especificos, permite a avaliacao sobre o quanto uma amostra e amorfa ou cristalina, como tambem sua comparacao, de forma qualitativa, com outros materiais de mesma natureza. Essa tecnica foi utilizada na amostra do po da CCCC para a obtencao dos materiais cristalinos predominantes, bem como para a observacao da presenca da fase amorfa.

As analises foram realizadas no Laboratorio de Cristalografia de Raios X do Instituto de Fisica de Sao Carlos (IFSC-USP). Utilizou-se um difratometro de raios X da marca RIGAKU ROTAFLEX, modelo RU200B. As condicoes para realizacao das analises foram: radiacao, Cu Ka; tensao, 50 kV; corrente, 100 mA; varredura com passo de 0,02[degrees] 29; tempo de coleta, 2[degrees] [min..sup.-1]; intervalo de varredura, 3[degrees] a 100[degrees] 29.

Determinacao da superficie especifica--metodo BET

Foi escolhido o metodo BET (Brunauer-Emmet-Teller) para analise da superficie especifica da CCCC. O ensaio foi realizado no Departamento de Engenharia Quimica da Universidade Federal de Sao Carlos.

Analise da pozolanicidade com o cimento Portland e com a cal

Para a analise da pozolanicidade com a cal e com o cimento Portland foram seguidas as recomendacoes da NBR 5751 (ABNT, 1992a) e da NBR 5752 (ABNT, 1992b), respectivamente.

Resultado e discussao

Analise quimica

Nos resultados da analise quimica da CCCC (Tabela 1), nota-se um teor de silica (Si[O.sub.2]) no valor de 12,17%, abaixo dos teores recomendados por outros autores para que uma cinza apresente reatividade. Para JOHN et al. (2003), na avaliacao da reatividade de uma adicao mineral e de fundamental importancia realizar uma analise quimica, devendo esse material apresentar silicio como elemento predominante.

Alem disso, a CCCC nao apresenta as exigencias minimas da NBR 12653 (ABNT, 1992c), especificados na Tabela 2, que a classifiquem como material pozolanico, salientando a alta perda ao fogo e o alto teor de alcalis. No entanto, apesar de ser um ponto de partida para classificar as adicoes minerais como materiais pozolanicos, Malhotra e Mehta (1996) divergem a respeito de normas como a NBR 12653, por varios motivos, entre eles: i) a quantidade minima de 50% de (SiO2 + Al2O3 + Fe2O3) nao apresenta relacao direta com as propriedades do material; e ii) parte-se do principio de que o material encontra-se na fase amorfa, o que muitas vezes nao ocorre.

Portanto, apenas a analise quimica nao deve ser um fator determinante na reatividade da CCCC, sendo apenas indicativa em relacao as quantidades de materiais potencialmente reativos. Outros fatores, como superficie especifica, a capacidade de empacotamento e o efeito filer, podem contribuir na melhora das propriedades de argamassas confeccionadas com essa cinza (LAWRENCE et al., 2005).

Pela analise quimica, observou-se tambem a expressiva quantidade de potassio ([K.sub.2]O), 24,79%, de magnesio (MgO), 16,34%, e de sodio ([Na.sub.2]O), 2,15%, presentes na CCCC. Esses constituintes, denominados alcalis, podem provocar a decomposicao do concreto e influenciar a velocidade do aumento da resistencia desse material. O teor de Na2O, por exemplo, nao deve ultrapassar 0,6% em massa no concreto.

A NBR 12653 (ABNT, 1992c) tambem limita a quantidade de equivalentes de [Na.sub.2]O nos materiais pozolanicos em 1,5%. O calculo da equivalencia de [Na.sub.2]O leva em consideracao tambem o teor de potassio, por meio da equacao "[Na.sub.2]O + 0,64[K.sub.2]O" (NEVILLE, 1997). Por essa formula, a quantidade de alcalis disponiveis na CCCC fica em 18,02%, o que limita seu uso em baixos teores, dependendo do tipo de cimento utilizado.

Massa especifica e massa unitaria

O resultado referente a analise da massa especifica da CCCC foi de 2,23 g [cm.sup.-3], obtido pela media de dois ensaios consecutivos. O resultado referente a analise da massa unitaria da CCCC foi de 0,56 g [cm.sup.-3], obtido pela media de tres ensaios consecutivos.

A massa unitaria da CCCC apresenta um valor maior que o da silica ativa, calculado em 0,20 g [m.sup.-3]. Essa diferenca aponta para a melhor compactacao das particulas da CCCC em relacao as da silica ativa. Esse resultado pode ser atribuido a forma dos graos ou a variacao do tamanho das particulas, o que confere a essas uma maior compacidade (MALHOTRA; MEHTA, 1996).

Niveis de contaminacao

Pelas analises do extrato lixiviado, segundo a norma NBR 10005 (ABNT, 2004b), e do extrato solubilizado, segundo a norma NBR 10006 (ABNT, 2004c), foram detectados varios metais pesados na amostra de CCCC. A Tabela 3 apresenta tais substancias, as quais conferem periculosidade aos residuos, encontradas no extrato solubilizado da CCCC.

Esses teores apresentam-se acima do limite permitido, para varias substancias quimicas, de acordo com o Anexo G--Padroes para o ensaio de solubilizacao, e com o Anexo C--Substancias que conferem periculosidade aos residuos da NBR 10004 (ABNT, 2004a). De acordo com a citada norma, apesar dos altos niveis encontrados de metais pesados e fenol no extrato solubilizado, a CCCC classifica-se como Residuo nao-perigoso--Classe II A--Nao-inerte. Os residuos com tal classificacao podem ter propriedades de biodegradabilidade, combustibilidade ou solubilidade em agua.

Uma das causas da contaminacao por metais pesados pode ser pela utilizacao de agrotoxicos no cajueiro. Penetrando na casca da castanha, esses produtos podem nao ter sido totalmente eliminados durante o processo industrial do qual se origina a CCCC.

Os estudos relativos a metais pesados nos ecossistemas tem indicado concentracoes elevadas desses elementos em muitas areas proximas de complexos industriais urbanos, e tambem, nas areas de agricultura altamente tecnificada. Nessas regioes, os solos tem sido poluidos com chumbo, cadmio, niquel, prata e outros metais pesados (ALLOWAY, 1995). O aumento anormal das concentracoes desses elementos nos solos de tais areas resulta da deposicao atmosferica e da aplicacao de fertilizantes, corretivos, agrotoxicos, agua de irrigacao, residuos organicos e inorganicos (RAMALHO; SOBRINHO, 2001).

Quanto as interacoes com a matriz cimenticia, Chandra (1996) salienta que a presenca de metais pesados pode afetar o desenvolvimento das resistencias e a hidratacao dos produtos cimenticios, como apresentado na Tabela 4.

A origem do fenol pode ser atribuida ao liquido da castanha do caju (LCC). As cascas das castanhas apresentam LCC mesmo depois de queimadas e separadas da amendoa. O processo de queima, do qual se origina a CCCC, pode nao eliminar totalmente o fenol. De coloracao escura e bastante viscoso, o LCC e considerado um composto agressivo a saude humana, sendo formado principalmente de cardanol (60 - 65%), cardol (15 - 20%), material polimerico (10%) e tracos de metilcardol. O extrato dissolvido contem acido anacardico (60 - 65%), cardol (15 - 20%), cardanol (10%) e tracos de metilcardol (AGOSTINI-COSTA et al., 2000).

Difratometria de Raios X

Pelo difratograma da CCCC, observa-se um halo caracteristico da presenca de material amorfo, entre os angulos 25[degrees] e 35[degrees] 20, conforme Figura 2.

Pela identificacao das fases cristalinas presentes no difratograma da amostra de CCCC, pode-se observar os elementos predominates no po "in natura", com destaque para o mineral arcanita ([K.sub.2]S[O.sub.4]--sulfato de potassio), pico identificado aproximadamente no angulo 30[degrees]20. Os demais compostos encontrados sao formados, predominantemente, pelas especies quimicas potassio (K), fosforo (P) e calcio (Ca), principais constituintes da CCCC, destacados pela analise quimica.

[FIGURE 2 OMITTED]

O sulfato de potassio e comumente utilizado em fertilizantes a base de potassio, podendo ser essa a sua origem. O sulfato de potassio foi encontrado tambem em amostras de cinza originadas da queima do bagaco do caju--pedunculo (SANTOS et al., 2007). Sabe-se que o sulfato de potassio, mesmo tendo custo mais elevado, e recomendado para utilizacao em diversas culturas como substituto do cloreto de potassio--KCl (MASCARENHAS et al., 1994).

Superficie especifica BET

Os dados relativos ao ensaio BET da CCCC sao apresentados na Tabela 5.

O metodo BET e largamente utilizado para determinar a superficie especifica de materiais solidos com diferentes tamanhos de poros. Sabe-se que uma limitacao do metodo BET e o fato de que ele somente pode ser aplicado em amostras porosas se estas possuirem poros abertos que possam ser preenchidos pelo gas utilizado (ODLER, 2003).

Mais de 30% da superficie especifica das particulas de CCCC se referem aos poros internos. Essa caracteristica pode explicar a maior demanda de agua de amassamento e a perda de trabalhabilidade da argamassa, quando ha a substituicao de cimento Portland (CPV ARI) por CCCC acima de 10%.

Analise da pozolanicidade

Os resultados da analise da pozolanicidade com o cimento Portland, apresentados na Tabela 6, indicam que o indice de pozolanicidade (IP) dos corpos-de-prova com CCCC nao atingiu o valor de 75% exigido pela NBR 12653 (ABNT, 1992c), nao podendo ser classificada como material pozolanico. Porem, a substituicao de 35% de cinza, em volume, no lugar de cimento Portland, pode ser considerada alta, uma vez que os niveis otimos de utilizacao da cinza da casca do arroz, geralmente, podem chegar a 30% em massa (GANESAN et al., 2008).

Em relacao ao ensaio de pozolanicidade com a cal, terminado o tempo de cura, estabelecido pela norma NBR 5751 (ABNT, 1992a), no qual os corpos-de-prova foram mantidos protegidos por filme plastico para evitar perda excessiva de umidade, eles foram esfriados a temperatura ambiente e capeados com enxofre. No entanto, por causa da pouca resistencia adquirida durante a cura, nao foi possivel concluir o capeamento com enxofre pela desintegracao dos corpos-de-prova durante a operacao. Essa baixa resistencia a compressao, bem inferior aos 6,00 MPa exigidos pela norma NBR 5751 (ABNT, 1992a). Valores abaixo de 6,0 MPa tambem foram obtidos em ensaios de pozolanicidade com a cal utilizando a cinza do bagaco da cana-de-acucar (CBC) moidas por tempo inferior a 30 min. (CORDEIRO et al., 2008).

Alguns estudos indicam que nao existe correlacao entre os resultados da atividade pozolanica obtidos com a mistura de cal e os obtidos com cimento Portland. Na verdade, sao dois sistemas diferentes, estudados em condicoes de ensaio tambem diferentes. Nao se pode deixar de considerar o efeito da elevada temperatura no ensaio com a cal. O ensaio similar, em temperatura ambiente, deve demonstrar resultados bem inferiores. Assim, esse ensaio so seria relevante se a aplicacao que se busca para a pozolana envolver a mistura com a cal levada a alta temperatura (JOHN et al., 2003).

Conclusao

A partir dos resultados obtidos na caracterizacao fisico-quimica de amostras de cinza da casca da castanha de caju, estudadas nesta pesquisa, pode-se concluir que:

--a analise quimica nao pode e nem deve ser a principal determinante do potencial reativo de uma cinza, visando seu aproveitamento como substituto parcial do cimento Portland em matrizes cimenticias. Os ensaios normativos existentes para determinacao da pozolanicidade de adicoes minerais podem ser considerados incompletos, nao fornecendo subsidios para a analise da reatividade por outros parametros, como a quantidade de material amorfo presente na amostra. Apesar do baixo teor de silica presente na CCCC, outros fatores, como superficie especifica, a capacidade de empacotamento e o efeito filer, podem contribuir na melhora das propriedades de argamassas confeccionadas com essa cinza;

--em relacao aos niveis de contaminacao, a analise do extrato solubilizado da CCCC apresentou varios tipos de metais pesados e fenol. Os metais pesados interferem no desenvolvimento das resistencias e nos tempos de pega das matrizes cimenticias;

--pela tecnica de Difratometria de raios X, pode-se observar um halo presente no difratograma da CCCC "in natura", caracteristico de materiais amorfos;

--o conjunto de analises deste trabalho indica a restricao ao uso da CCCC em matrizes cimenticias em razao dos altos teores de alcalis, dos metais pesados e do fenol detectados nessa cinza.

DOI: 10.4025/actascitechnol.v32i4.7434

Agradecimentos

Fundacao de Apoio a Pesquisa do Estado de Sao Paulo--Fapesp, pela bolsa concedida, e ao Laboratorio de Construcao Civil--LCC/ SAP/EESC-USP.

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Received on June 25, 2009.

Accepted on February 9, 2010.

License information: This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.

Sofia Araujo Lima (1) * e Joao Adriano Rossignolo (2)

(1) Departamento de Engenharia Civil, Universidade Federal de Sao Carlos, Rod. Washington Luis, km 235, SP 310, 13565-905, Sao Carlos, Sao Paulo, Brasil. (2) Departamento de Engenharia de Biossistemas, Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, Universidade de Sao Paulo, Pirassununga, Sao Paulo, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: sofiaalima@yahoo.com.br.
Tabela 1. Analise quimica da CCCC.

                                                          [Fe.sub.2]
Constituintes   [K.sub.2]O    MgO    Si[O.sub.2]   CaO    [O.sub.3]

Amostra (%)       24,79      16,34      12,17      6,54      3,06

                              [Al.sub.2]
Constituintes   [Na.sub.2]O   [O.sub.3]    MnO    Ti[O.sub.2]    PF

Amostra (%)        2,15          1,37      0,29      0,087      17,90

Tabela 2. Exigencias fisicas estabelecidas para materiais
pozolanicos.

                                                  NBR 12653
Propriedades                           CCCC (%)   Classe "E"

Si[O.sub.2] + [Al.sub.2][O.sub.3] +      16,60        50,00
  [Fe.sub.2][O.sub.3]
S[O.sub.3], % max.                          --         5,00
Teor de umidade, % max.                     --         3,00
Perda ao fogo, % max.                    17,90         6,00
Alcalis disponiveis em [Na.sub.2]         2,15         1,50
  [O.sub.2] % max.

Fonte: NBR 12653 (ABNT, 1992c).

Tabela 3. Substancias periculosas encontradas na CCCC e os
respectivos limites exigidos pela NBR 10004 (ABNT, 2004a).

                                                Limite maximo
                                                 no extrato
Parametro           Unidade        Resultado   (mg [L.sup.-1])

Cadmio          mg Cd [L.sup.-1]     0,57           0,005
Chumbo          mg Pb [L.sup.-1]     1,39           0,01
Cromo total     mg Cr [L.sup.-1]     3,09           0,05
Fenois totais      mg C6H5OH         0,042          0,01
Prata           mg Ag [L.sup.-1]     0,62           0,05
Manganes        mg Mn [L.sup.-1]     0 To           0,10

Tabela 4. Influencia dos metais pesados na reatividade hidraulica
e na qualidade do cimento e concreto (CHANDRA, 1996).

                Influencia na                  Influencia na qualidade
            reatividade hidraulica             do cimento e concreto
                                       Inicio     Desenvolvimento
                                        e fim           das
Parametro                              de pega     resistencias

Cadmio             nao afeta           retarda       nao afeta

Chumbo      [down arrow] [C.sub.2]S    retarda        diminui
             [up arrow] [C.sub.3]A

Cloretos    [up arrow] [C.sub.3]S      acelera        aumenta
             [up arrow] [C.sub.3]A

Cromo       [down arrow] [C.sub.2]S    acelera        diminui

Manganes    [up arrow] [C.sub.3]S      depende        diminui
            [up arrow] [C.sub.2]S     do teor *
             [up arrow][C.sub.3]A
             [up arrow][C.sub.4]AF

(*) Quando o manganes ocupa o lugar do Fe2O3 (F) no C4AF em menos
de 50% de substituicao, a pega na matriz cimenticia e acelerada;
quando esse teor passa dos 50%, ocorre o fenomeno inverso.

Tabela 5. Dados da superficie especifica da amostra analisada.

                                   Area
Amostra   Pretratamento   ([cm.sup.2] [g.sup.-1])

CCCC         Moagem               17.230

          Superficie especifica      Superficie especifica
           externa da particula         interna do poro
Amostra   ([cm.sup.2] [g.sup.-1])   ([cm.sup.2] [g.sup.-1])

CCCC              11.740                     5.496

Tabela 6. Resultado da analise da pozolanicidade com cimento
Portland.

                                   Amostra padrao    Amostra com
                                                        CCCC

Resistencia a compressao (MPa)          27,19           9,33
Indice de pozolanicidade                  --           34,31
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Author:Lima, Sofia Araujo; Rossignolo, Joao Adriano
Publication:Acta Scientiarum. Technology (UEM)
Date:Oct 1, 2010
Words:4549
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