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A situacao da narrativa contemporanea hoje Entrevista com Julian Fuks.

Soletras: No cenario da producao literaria de hoje, como ve o tipo de literatura que voce produz em relacao ao mercado literario?

E muito dificil voce olhar pra o presente da literatura e da narrativa e nao enxergar diversidade, multiplicidade etc. E um tempo em que nada se assentou, nada prevaleceu sobre

0 outro, nada se esqueceu, esta tudo convivendo simultaneamente. De partida, e possivel dizer que essa e uma das marcas do contemporaneo, mas tem que ter muita cautela com essa nocao, porque em qualquer tempo voce tem essa multiplicidade de discursos e projetos esteticos ou essa multiplicidade. A partir disso, no cenario brasileiro contemporaneo, penso que, perfis que antes nao tinham tanto espaco no meio literario, lentamente tem ganhado vozes. Nesse ponto, a literatura brasileira tem sido mais diversa pelos perfis dos autores e das autoras, como, por exemplo, mais mulheres escrevendo, mais literatura de autoria negra, a presenca de uma literatura de periferia que vai ganhando forca, talvez nao tao bem abarcada e assimilada pelo mercado ainda, mas de outras maneiras, como a forca que emerge dos saraus de periferia, Slam Poetry e essas coisas que voce ve e que sao elementos que estao ganhando bastante forca e vida no cenario contemporaneo. Mas ha, tambem, um tipo de literatura mais ligado ao mercado editorial, mais assimilado e mais aceito, e que tem para mim como fenomeno mais interessante o hibridismo, ou melhor, a narrativa que nao se constitui mais como pura. Nesse caso, aspectos mais tradicionais na ficcao, que marcavam em certa medida o romance tradicional, como o nome proprio para esse sujeito, a invencao de peripecias para a vida desse sujeito, os enredos lineares e cronologicos e o carater biografico entram em crise. Dentro desse panorama, uma resposta contemporanea a essa mudanca tem sido a imersao de certos discursos alheios a literatura dentro da propria literatura, no momento em que a ficcao se deixar permear pela autobiografia, pelo ensaio, pela filosofia, pela historiografia. Sao discursos um pouco destoantes da literatura, embora a literatura sempre tenha se relacionado com eles, mas que agora deixam se assimilar de forma muito mais sistematica e mais extrema. Sinto que a tendencia de mercado e de certa perplexidade diante desse fenomeno e ao mesmo tempo uma aceitacao, o que nao quer dizer que o mercado se indispos com esse tipo de discurso. Tudo bem que antes voce tinha no mercado editorial uma tendencia a valorizar o tradicional, mas agora o mercado editorial em si se abriu para narrativas mais estranhas, romances feitos hoje e que tem bastante circulacao, que tem sido razoavelmente lidos e conquistado premios. Alias, a gente sabe que premiacao agora e diferente, e claramente de um mercado, ou seja, de apreciacao da critica e do publico consumidor. Acho que esse panorama comeca a responder a sua questao e essa entrevista, e tudo que a gente comecar a falar agora tem certa relacao com isso.

Soletras: O historiador marxista Eric J. Hobsbawm, em sua Era dos Extremos, ve o seculo XX como um seculo curto, porem tambem o mais violento e catastrofico. Muitas producoes artisticas e literarias representam esses eventos catastroficos por meio da memoria, trazendo a cena representacoes de guerras e Holocaustos, como o genocidio de Ruanda, os embates na faixa de Gaza, o terrorismo, o Onze de Setembro, as mortes e torturas sofridas nos regimes ditatoriais no mundo. A partir dessa afirmacao, gostaria de saber: como voce ve as narrativas de hoje diante desse contexto de rastros, vestigios e fantasmas dos modelos politicos do seculo XX, consolidados no seio desses acontecimentos de barbarie e que nos visitam talvez nem mais indiretamente, mas diretamente ?

Pelo Hobsbawm a gente ve o seculo XX como periodo das catastrofes, como o seculo do debate do final da racionalidade, da ideia de que seria possivel se alcancar um mundo mais justo, e a percepcao de que a gente estaria longe disso e, portanto, ha uma imersao em um "sem sentido" da existencia, do pensamento e do proprio ato de pensar. Nisso vem uma desconfianca das grandes teorias, das grandes hipoteses historicas e claramente isso marca a literatura. Passa-se a fazer uma literatura de desconfianca em relacao a emancipacao humana e ao entendimento, e a forma da narrativa consegue expressar isso de maneira muito contundente, porque voce tem a linguagem do romance se tornando mais e mais autodestrutiva, mais autocritica, e dai voce observa esse caos do mundo refletido diretamente nas formas dos romances e o romance se faz entao tanto expressao quanto parte desse caos.

Soletras: No tocante aos autores que vem produzindo literatura hoje, mais especificamente, narrativas que entrecruzam o discurso literario e as convulsoes da historia, desestabilizando possiveis fronteiras que ainda persistem entre os pares historico e literario, penso numa determinada comunidade de escritores que estao se dedicando incessantemente a esse problema. Cito Michel Laub, Bernardo Kucinski, Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, dentre outros. Muitos desses escritores dissimulam ou mesmo desestabilizam os limites entre ficcao e autobiografia, ate mesmo trazendo a tona termos como autoficcao e escritas de si. Cito a entrevista ao Jornal O Globo (2013), em que Laub nos deixa algumas consideracoes sobre Diario da queda nao ser uma ficcao autobiografica sobre a tragedia de Auschwitz, mas sim de personagens e tramas que vivem as sombras do que foi Auschwitz e como essa divida historica ecoa em tres diferentes geracoes. Laub diz que ha muito dele ali, alguns dados biograficos, mas que claramente passam por certo filtro ficcional, justamente nesse jogo entre memoria e ficcao, incidindo sobre o que eu ouso chamar de uma ficcao as sombras da catastrofe. Em outros termos, e algo em que voce ate toca, no seu artigo para o livro Etica e pos-verdade, ao colocar que o que esta em jogo em certas construcoes ficcionais e menos o acontecimento da tragedia, mas muito mais o que o antecede. Nisso, pensando nesse passado que antecede a tragedia pessoal, politica e historica, voce enxerga a sua escrita, ou mesmo a de outro escritor hoje, dentro dessa literatura as sombras da catastrofe ou para voce esses limites nunca foram uma questao?

A gente olha com alguma distancia para um seculo, talvez de maneira uniforme demais, mas ha tambem uma questao geracional na forma de lidar com essa sequencia de catastrofes. Ha ali no inicio do seculo XX uma maneira muito direta de lidar com o desastre na literatura, como uma trilogia pos-guerra do Samuel Beckett, entre 45 e 50, que e uma autoimplosao da forma do romance pra dar conta da autoimplosao do continente europeu, assim como tambem e um modo muito direto de lidar com o trauma historico. E, nesse caso, um jeito de tentar com que a narrativa reflita muito diretamente ao que e externo a ela. Ao longo do tempo, me parece que a forma de se referir a esses acontecimentos vai se tornando mais sutil e alusiva, e voce tem narrativas que so tangenciam os acontecimentos historicos e nao narrativas que de fato querem ser o retrato cru desses acontecimentos. Sinto que e fruto tambem da desconfianca do pensamento teorico, sendo uma crise do narrar e do romance, mas tambem e crise da historiografia, uma crise da biografia, do pensamento e das ideias, e voce tem ai entao outra possibilidade.

Soletras: Tratando especificamente da sua obra A resistencia (2015), romance cujo eixo central tambem se fixa em torno de outro evento catastrofico e traumatico para a historia, os regimes ditatoriais no Brasil e Argentina. A resistencia ressignifica esse evento traumatico a partir de uma visao minuciosa e minimalista que evoca os pequenos atos por onde o tragico emerge, mascarado pela banalidade do cotidiano. As diasporas, as migracoes, as guerras e a ditadura denotam a presenca de um fantasma que ronda o presente. Tudo isso e transmitido ao leitor por meio de pequenas tramas, recordacoes precarias que atravessam fotos, objetos e relacoes afetivas. Gostaria que voce comentasse um pouco essas questoes da ditadura na sua escrita e se voce acredita que seu texto se insere nessa forma de escrita, uma estetica que se constroi a partir dos objetos e espacos na ficcao para lidar com esse debito com o passado traumatico.

Depois da publicacao de A resistencia, que e uma busca identitaria, ou uma busca lateral por uma identidade perdida, e marcas do passado que habitariam na minha existencia e na dos meus familiares, meu pai veio conversar comigo, assim como a gente ja vinha conversando ao longo de toda a escrita do meu romance. Mas dessa vez ele veio me contar que ele tinha ido atras de informacoes sobre seus pais e seus avos, e havia descoberto, enfim, que meus bisavos morreram em Auschwitz. A gente so tinha uma informacao vaga, algo como "foram deportados aos campos e nao se sabe o que aconteceu". Nao havia qualquer investigacao mais precisa, e agora como essas informacoes sao muito mais acessiveis, ele conseguiu pelos nomes e documentos chegar a essa informacao mais apurada. Mas o que me chamou a atencao nessa historia nao foi o fato de eles terem morrido em Auschwitz, porque algo como ser deportado para os campos ja significava isso. Entretanto, o que me tocava era o fato de que nao se falava na familia dentro da casa dele, bem como nao se discutia esse trauma e o envio da familia aos campos. A resposta de meu pai foi muito significativa, muito representativa desse referencial geracional: nao se pensa as questoes historicas em funcao das trajetorias pessoais; ele [meu pai] se interessava muito pela questao do Holocausto, pela migracao, pelo trauma historico, mas ele pensava isso a luz de outros fenomenos muito mais amplos, talvez sociais e politicos, por exemplo, ligados ao marxismo. Entao, era uma coisa que para mim demonstrou muito claramente um corte geracional. Agora, ele proprio, incentivado pelo meu texto e tantos outros relatos e ficcoes que fazem uma apreciacao mais subjetiva dessa questao, subjetivou o seu passado, foi atras dessa trajetoria pessoal que ilustra e representa uma coisa mais ampla, mais social, mais historica e mais politica. Para mim foi uma marca. Nesse caso, acho que a literatura que se fazia decadas atras sobre o trauma historico era uma literatura que estava mais preocupada com os fenomenos gerais do que com a particularidade da existencia. Alias, hoje, parece ter uma tendencia vasta geral de recuperacao das proprias raizes, da procura desses fantasmas que voce menciona, a procura desses traumas que ficaram, em alguma medida, relegados ao passado, mas que reverberam constantemente na nossa existencia. Quando a narrativa do passado se subjetiva, voce passa a procurar os vestigios da existencia passada nos elementos mais acessiveis do presente. Ao mesmo tempo, se cria um panteao de recursos possiveis. E possivel observar isso se repetindo em diversas narrativas, como, por exemplo, textos escritos no passado, arquivos familiares em videos, fotos, criando certa ideia de que, quem tiver mais elementos tem mais para produzir e escrever sobre o passado. No entanto, os livros mais consistentes e potentes, em minha opiniao, oferecem uma desconfianca em relacao ao que o material proporciona. Voce ja nao pode confiar na veracidade da fotografia, pois a fotografia e um discurso sobre o passado, e nao um testamento do passado. Mesmo a presenca das coisas, como estar na casa onde aconteceu um evento ou desapareceu alguem, nao e estar diante do fato, voce esta diante de certa materialidade que evoca com distancia esse passado. Mesmo pessoalizando a questao voce nao consegue de fato acessar nenhum tipo de verdade, que e outra marca dessa leitura feita hoje. Nao se quer dar conta da catastrofe ou do trauma, esse tipo de valorizacao perde sentido, porque as reverberacoes dos fatos sao multiplas e tem caracteristicas mais variadas. Por isso, o tipo de literatura ou autoficcao que mais me interessa hoje e a que desconfia de si mesma e desconfia da propria capacidade de reconstruir o passado.

Soletras: A literatura, em algum sentido, pode reforcar ou afirmar pressupostos sociais, historicos e culturais, mas principalmente politicos. Vemos hoje filmes, noticiarios e series de TV confundindo as relacoes entre as (im)possibilidades de se representar um sentido de realidade minima e o total descompromisso etico com a ficcao a partir da distorcao da realidade. Como e a consciencia do discurso politico na sua literatura em relacao a uma etica da ficcao, desde as tematicas colocadas ate as construcoes de personagens? Ou melhor, o que seria uma etica da ficcao pra voce hoje?

O romance vive um momento tenso e de dificil resolucao quanto a essa questao, tanto quando se esta proximo de uma narrativa subjetiva, pessoal e intima, quanto se esta distante do outro, inventando e fabulando tramas distantes de uma existencia propria. Sendo assim, em ambos os casos a questao etica se faz presente. No primeiro caso, lidar com essa materia historica envolve muitas responsabilidades, pois voce esta colocando pessoas em jogo, de modo que ha a criacao de personagens baseados em pessoas cuja existencia esta firmada no presente e passado, e por isso ha uma responsabilidade ou compromisso com essa materia. No meu caso, se converteu num compromisso com a sinceridade, porque eu sentia que pra falar eticamente sobre esse passado, sobre os meus pais e meu irmao, eu deveria buscar o discurso mais sincero possivel, o que nao significa abdicar de recursos da ficcao, mas sim uma tentativa de dar conta de certa realidade e mesmo consciente dessa impossibilidade. Mas e uma tentativa de debater questoes que se colocam efetivamente em nossas vidas, de debater a partir de uma multiplicidade de vozes, sendo que outro compromisso era que nao prevalecesse somente a minha visao dos fatos. Entao, foi preciso internalizar no romance outros discursos, como as palavras dos meus pais e dos meus irmaos, o que resulta num romance mais multivocal e multiplo. Contudo, no presente ha, em qualquer instancia que se ficcionalize, certa responsabilidade junto a liberdade que se tem para narrar. Vejamos o seguinte caso. Pensemos num romance que ficcionalize a figura de um torturador. Nesse caso, embora voce tenha a liberdade de fazer isso, eventualmente voce pode estar fazendo algo antietico. Se o efeito disso e de fato a exaltacao da tortura, eu vou ser um leitor tentado a recusar essa narrativa, por mais virtuosa que ela seja. Se o efeito for a imagem do torturador que acarrete um debate mais complexo, assim como as implicacoes eticas para que ela indique o contrario da exaltacao, e uma outra coisa. Mas ai ha tambem uma etica do proprio autor. Os efeitos de uma obra literaria sao muito impalpaveis pra voce determinar, e nesse caso entra a funcao da critica. Explico-me. As obras nao sao inocentes de partida, e preciso de uma critica, tendo em vista que as obras participam do mundo, sao discursos sobre o mundo e elas podem contribuir para a nossa emancipacao ou agravar a situacao de repressao. Olhemos o caso de Lolita, de Nabokov. Vamos continuar lidando com um texto que naturaliza em grande medida a pedofilia, com alguma tranquilidade acritica ou vamos aceitar essa obra importante, mas tratando criticamente da complexidade que o caso traz? Eu sou um defensor da liberdade autoral artistica, mas essa liberdade convoca uma discussao etica sobre esses atos narrativos. Toda obra tem pertinencia, mas e a critica literaria que vai discutir se aquela obra tem um carater em algum carater libertario ou reacionario. A etica nao so se apresenta na figura do autor, no instante de criacao dessa obra, mas e algo que vai permear todo o mercado e o sistema literario.

Soletras: A partir de algumas leituras de suas obras, tanto em A procura do romance quanto em A resistencia, e possivel perceber possibilidades bastante interessantes de dialogos com muitas correntes da teoria da literatura, diria que quase uma provocacao teorica muito bem colocada. Nisso, ainda levo em conta parte da sua biografia e sua relacao com o meio academico dos estudos literarios, claro, sem pretensao de usar isso como chave- leitora para resolver qualquer questao em sua obra. Entao, sem querer retomar questoes cansadas como as da intencionalidade do autor, ha algumas referencias propositais, mais teoricas, na composicao das suas obras e que digam respeito a sua formacao intelectual?

Para mim, sao questoes que desde o inicio estao interligadas. O meu primeiro livro, Literatura e cegueira, que foi um pouco mais cuidadoso em sua composicao, ja era meu trabalho de conclusao de curso de Jornalismo, na ECA (Escola de Comunicacao e Artes da Universidade de Sao Paulo). A procura do romance e uma reposta as questoes que eu vinha estudando no meu mestrado, sobre a impossibilidade de narrar e as questoes do romance. Havia ali uma questao teorica em alguma medida, que era a dissertacao, e paralelamente eu escrevia um romance que queria internalizar esse paradoxo. Um romance em uma epoca em que se denuncia a morte do romance e amplamente se difunde a impossibilidade de narrar. Depois, no doutorado, ja no departamento de Teoria Literaria da USP, comeco a me relacionar com esses hibridismos contemporaneos, com essas narrativas visitadas por outros discursos. Nesse ponto, talvez a relacao tenha se invertido, porque antes comecei a escrever A resistencia e dai preocupacoes pessoais, de outras razoes, e nao teoricas, surgem. Me vi teorizando a respeito de outros autores que se debrucavam sobre esse fenomeno, sobre esse mesmo metodo, e por isso acabei teorizando quase como fruto de processo de se estar escrevendo autoficcao, e isso implica a ideia da impossibilidade contemporanea da ficcao.

Soletras: Ha um conjunto de escritores que construiu uma poetica muito firme e consistente a partir desse transito entre literatura, teoria e generos hibridos, como Vila- Matas, Ricardo Piglia, Julio Cortazar e J. M. Coetzee. Alias, essa divisao era ate algo impensavel para sujeitos como Jacques Derrida, que sempre esteve nesse nao-lugar muito frutifero entre literatura e filosofia. Voce acha que esses limites inaparentes entre escritor e teorico se fundem na sua obra e trazem algum impacto criativo que so essa formacao poderia proporcionar?

A obra fica muito marcada por isso. Sao autores que se preocupam com o passado da propria literatura e da forma da literatura, e eu gosto de me vincular a essa tradicao. Eles nao pensam o romance sem pensar a historia do romance ao longo dos seculos, sendo a literatura hoje resultado de algo que se processou num pensamento criado por muitos escritores. Ha autores fazendo literatura, muito interessante inclusive, sem uma preocupacao com o passado. Mas para mim, pessoalmente, os que mais me atraem sao os que estao mais refletindo constantemente a pertinencia dos seus romances na relacao com os romances do passado, aquilo que se cristalizou e se consolidou no tempo. Sao autores que pensam o romance como mais uma forma de representacao da historia, e assim o romance nao estaria isolado das ideias do mundo. Na verdade, o romance e as ideias estao em constante interacao, porque voce acaba produzindo um romance que reflete certo pensamento sobre o mundo, assim como uma concepcao historica, e a forma do romance vai espelhar algo dessas preocupacoes. Para mim, e uma percepcao clara que o romancista nao e um sujeito que vive isolado, comprometido so coma propria arte, mas que, sim participa de um debate maior, politico, e e mais um com uma voz numa participacao no debate social. Cada forma e cada linguagem te propoem abordagens e ideias muitos diferentes. Por isso, eu nao abdico da teorizacao por ser escritor deuma obra ficcional. Pelo contrario, certas ideias me convidam a construcao de outros discursos. Eu fiz uma tese convencional e deixei intacta a linguagem academica. A linguagem academica tambem se problematiza e se aproxima do ensaio e esses hibridismos vao transformando todas as linguagens, resultando num movimento dialogico.

Soletras: Qual o lugar da universidade hoje no debate literario?

Eu tenho uma perspectiva muito positiva. Parece que ali se aprofundam muitos debates. Os debates mais rigorosos sobre literatura que eu tive foram naqueles espacos. Mesmo uma defesa de tese ou uma qualificacao sao momentos de aprofundamentos de ideias. Ali se cria, com muita profundidade e rigor, um debate que o mercado editorial tende a recusar. Nao interessa tanto um evento literario que aprofunde demais o discurso e que faca uma exposicao rigorosa de certos conceitos e nocoes. O evento literario tem que ter uma leveza a que a academia nao se propoe e que ela nao exige. Ao mesmo tempo, as obras literarias, no atual contexto do mercado literario brasileiro, exige-se certa leveza e brevidade que a academia nao pede. A academia ainda e um lugar de debate complexo e profundo. Ha o rigor, e claro, que e importante, mas tambem e um risco. Risco, digo, no momento em que se torna dogmatico. Ha momentos na academia de exigencia de linguagem e exigencia de um rigor que talvez nao contribua ao pensamento e ao debate das ideias. A universidade ainda esta muito fechada, por exemplo, ao hibridismo e a uma literatura feita naquele contexto.

Soletras: Permita-me uma colocacao mais longa, mas tambem necessaria para contextualizar a minha pergunta. Jaime Ginzburg, professor da USP, em sua tese de livredocencia, intitulada Critica em tempos de violencia, destaca que ha autores fundamentais da literatura brasileira moderna que elaboram suas narrativas em torno da condicao humana e seu carater agonico, de acordo com o contexto historico brasileiro. Ha, nesses escritores, certa resistencia a um positivismo historico ou mesmo, aquilo que Walter Benjamin chama de historia dos vencedores ou narrativas burguesas. Ainda, o que se chama de era das catastrofes, la em Hobsbawm, por exemplo, foi tambem um periodo do seculo XX em que se desperta um interesse pela memoria em oposicao ao modelo historicista burgues. Essa configuracao, hoje, parece ainda estar muito presente nas construcoes das narrativas no cenario brasileiro, principalmente no tocante a um contexto sombrio em certo cenario de golpe de estado muito conivente com uma politica de esquecimento ou amnesia historica. No entanto, lembro-me de Jean Norton Cru, importantissimo historiador frances que muito refletiu sobre o testemunho em War Books: a study in historical criticism e que, apesar de muito positivista na sua apreensao historicista, ainda sim e eximio e belissimo texto, considerado fundador do genero, pois tratava do choque na volta de soldados da guerra, e nisso findava a ideia de testemunho autentico que, diferentemente de Benjamin, acreditava que esses soldados teriam muito a dizer. Nisso, Cru estabelecia uma especie de hierarquia dos generos, em que o romance ocuparia o ultimo lugar e seria quase um inimigo do testemunho. Ha, claramente, uma valorizacao do documental, ainda muito creditado as grandes narrativas. Por vezes, em seu texto de A resistencia ha passagens como "Nao, nao ha ficcao". Nisso, pergunto: Voce ve a literatura como uma forma de enfrentamento a essas instituicoes do poder que contribuem, a todo o momento, para um esquecimento do passado ?

Um debate que tem me interessado bastante e a questao da pos-memoria, que em alguma medida se relaciona com isso que voce traz e tem sido rico porque nao e unanime o conceito de memoria coletiva e pos-memoria. Ainda e memoria, mas se subjetivou de tal maneira que da mais conta de algo individual do que social. Acho interessante, pois se torna importante nao pela certeza, mas pela controversia. A sua questao me parece fundamental para tratar de um presente no Brasil. Voce nota como no Brasil, em diversas manifestacoes, a memoria esta em jogo e que e fruto de uma controversia: uma distinta visao de pais que se assentou agora e nos deixa duas visoes historicas, sendo que uma delas quer silenciar o passado. Nesse sentido, ha um passado relativizado sob uma concepcao de que a gravidade esta suspensa, como no caso da ditadura, construindo uma narrativa em torno da ideia de que nao ha gravidade na ditadura militar. O nosso atual presidente, eleito de forma nao democratica, Michel Temer, nesta semana afirmou que o golpe militar de 1964 foi uma vontade popular. Nisso, constantemente estao se relativizando crimes na ditadura militar e a gente nao conseguiu de fato chegar a uma visao historica mais consistente e mais difundida desse passado. Esse discurso ainda ganhou mais projecao sob a ideia de que a ditadura tinha as suas qualidades e que foi o melhor momento da historia. Isso se manifesta em varios pedidos de intervencao militar que, por sinal, ja vem acontecendo em mais sentidos e contextos brasileiros. Nesse cenario, quando vem a tona e ganha forca um discurso retrogrado de valorizacao da ditadura, a literatura que se propoe a encarar criticamente esse periodo vai ser rejeitada com quem compactua com esse projeto de retrocesso. Por isso ha uma critica a tudo o que se faca de memoria relacionada a esse passado, como o caso da Comissao da Verdade. Entao, para certa parcela da populacao, esse discurso e indesejado. Falo desse discurso mais progressista, que retoma criticamente o passado e reve a ditadura e suas forcas de retrocesso, tal como ela foi.

Para outra parcela do pais, nao me parece nem um pouco esse caso, pelo contrario: ha uma necessidade de ouvir de novo o que foi a ditadura. Ha alguns fatores que nao foram contemplados e compreendidos, quer dizer, a gente ainda continua lidando com uma ditadura brasileira em que ha mais de 400 desaparecidos, assim como desconsideramos as vitimas camponesas e indigenas na nossa historia, ou seja, ha muito a ser compreendido. Dizer isso em uma obra literaria e ser repetitivo, mas ha tambem essa necessidade de ouvir o que isso representou. A recepcao do meu livro foi um pouco isso, houve uma vontade de ouvir mais uma vez o que foi essa opressao, mas acriticamente. De fato, nao ha tanto uma reflexao dos fenomenos da ditadura militar que ainda se mantem, digo isso porque ha ainda preservados os alicerces da opressao, como uma policia que mais mata no mundo, o genocidio da juventude negra e um anseio por censura e tortura. E so analisar obras do cinema, como Tropa de elite, em que voce tem um torturador aceitavel, que provoca ate risos da plateia. Tendo isso em vista, tortura, censura e desaparecimentos fazem parte de um tripe da ditadura que permanece muito ativo, e sobre isso se fala muito menos do que sobre os crimes da ditadura em si.

Soletras: Raduan Nassar se pronunciou sobre o Premio Camoes e provocou um efervescente debate do lugar do escritor hoje que, nao somente anterior e posterior a sua obra, parece tambem ocupar lugar muito estrategico nas discussoes politicas. Em alguns momentos, e muito dificil nao atrelar vida e obra. Lembro-me, tambem, do caso do Luiz Ruffato, na feira de Berlim, cujo discurso, politicamente contundente, foi muito utilizado em teses e artigos no meio academico, quando se queria discutir a narrativa de hoje. Essa performance do escritor, a primeira vista, parece trazer novamente ao debate, as calorosas discussoes em torno nao mais da morte do autor a la Barthes, mas do retorno do autor como sujeito muito mais ativo e politico. Voce acha que essa performance pode se somar a leitura das obras ou pode ser um empecilho na compreensao de sua producao? Ou ainda, voce acha que a obra por si so ja e um ato politico e nao deve ser atrelada as performances e opinioes do autor?

Em varios fenomenos contemporaneos o hibridismo se constroi com essa relacao do fora do texto. Voce percebe que a relacao biografica do autor tem importancia na concepcao e compreensao da propria obra. De fato, a participacao publica do autor ganha outra natureza e relevancia; a obra nesse momento ja rompeu com a nocao de primado do objeto e de que so interessa o que a obra diz de si mesma. Muitas producoes literarias estao propondo uma relacao franca e direta com o extraliterario. Para alem disso, num contexto atual, os escritores estao sendo muito convocados a aparecem publicamente, nao sao mais essas figuras fechadas em suas casas, escrevendo na solidao romantica da imagem de escritor solitario. Agora eles estao sendo convidados a se expor mais. A principio, isso se dava so por uma aproximacao de curiosidade em relacao a figura do auto
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Author:Dias, Felicio Laurindo
Publication:Soletras
Date:Jul 1, 2018
Words:4672
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