Printer Friendly

A sabedoria barbara e os limites da helenizacao: o mundo helenistico de Arnaldo Momigliano.

Alien Wisdom and the Limits of Hellenization: Arnaldo Momigliano's Hellenistic World

Nascido em 1908, Arnaldo Momigliano (1908-1987) e talvez o mais proficuo estudioso do mundo antigo do seculo passado. Dono de erudicao virtualmente ilimitada, debrucou-se sobre um inesgotavel manancial de temas relativos a Antiguidade. Entretanto, atribui-se amiude a Os Limites da Helenizacao o titulo de magnum opus de sua vasta bibiografia (BROWN 1988, p. 252). Umas das pioneiras em questionar o conceito de helenizacao, a obra lancada em 1975 vem a tona num momento historico marcado, entre outros, por dois aspectos de grande relevancia. Em primeiro lugar, a repercussao das ditas criticas poscoloniais, (1) que tinham em sua linha de frente a atencao as diversidades de sexualidade, religiosidade ou praticas culturais encontradas em quaisquer grupos humanos (FUNARI; GARRAFFONI 2012, p. 3). Em segundo lugar, os ataques da Siria e do Egito ao Estado de Israel, de grande relevancia para nossa analise pelo fato de Momigliano, como se vera mais adiante, nunca ter escondido sua fe judaica. Tendo isso em vista, neste artigo busca-se analisar a obra do historiador italiano no que se refere a abordagem dada por ele as interacoes culturais durante o periodo helenistico (323-30 a. C.), partindo da hipotese de que, sendo Momigliano um erudito que estabelecia relacoes "[...] entre as ideias e a realidade social, entre o topico que estava sendo examinado e sua historiografia, entre o Mundo Antigo e o moderno, inclusive o nosso [...]" (FINLEY 1989, p. 76-77), parece ser plausivel admitir que ele tenha recebido influxos das criticas pos-coloniais e, principalmente, que sua forte ligacao com a tradicao judaica tambem pode te-lo instado a tingir com tons particularmente dramaticos a resistencia dos judeus frente ao avanco da cultura grega durante o periodo supracitado.

Breve recapitulacao do conceito de helenizacao

O conceito de helenizacao, citado no titulo da mais saudada obra de Momigliano, embora se refira a sociedades e culturas preteritas, e de origem moderna e, portanto, possui data e local de nascimento definidos: durante o seculo XIX, no contexto de unificacao do Estado alemao sob o espectro da Prussia, e reporta-nos aos escritos do historiador, filologo e politico Johann Gustav Droysen (1808-1884). Droysen era fervoroso defensor da unificacao alema sob as redeas prussianas e chegou mesmo a tomar parte como parlamentar na Assembleia de Frankfurt. O erudito, ademais, foi responsavel pela cunhagem do termo "helenismo" na Era Moderna, usado para se referir a cultura greco-macedonia que triunfou, com as armas das falanges, sobre as hordas asiaticas, afirmando a supremacia da civilizacao grega (DROYSEN 2010, p. 37). Droysen via em Alexandre e no helenismo figuras responsaveis por criar um imperio pujante e coeso, no interior do qual surgiria o conceito de helenizacao: a adocao dos apanagios culturais helenicos pelos vencidos. A primeira mencao a tal fenomeno da-se com o uso do verbo "helenizar": "os asiaticos incorporados nas fileiras do grande exercito iniciavam-se na disciplina macedonia e comecavam lentamente a se helenizar" (DROYSEN 2010, p. 292). Ao entrarem em contato com a superioridade belica e moral dos batalhoes de Alexandre, os asiaticos passariam a incorporar os habitos que regiam a vida dos greco-macedonios nos campos de batalha. O conceito de helenizacao que assim nasceu tornou-se deveras popular, e toda uma serie de tomos foi escrita inspirada nas letras do prussiano (ALCOCK 1994, p. 171-188).

Todavia, a partir da segunda metade do seculo XX, esse conceito passou a ser criticado de forma sistematica pela historiografia. (2) Entre aqueles que tomaram parte nesse movimento, alem de Momigliano, pode-se citar Claire Preaux (1904-1979), que defendia uma separacao entre gregos e orientais, negando interacoes culturais entre eles, (3) e Edouard Will (1920-1997), para quem a ideia de helenizacao foi pensada a partir de um contexto em que as potencias europeias tracavam analogias entre a sua expansao colonial e aquela promovida por Alexandre (Cf. WILL 1985, p. 273-301.). Momigliano, portanto, nao se encontrava isolado, ainda que, talvez, entre os autores citados, seja aquele cujas criticas foram mais refinadas, o que pode explicar, ao menos em parte, a maior repercussao de sua obra. (4) No atual estagio da discussao historiografica, a ideia de helenizacao e usada com parcimonia, e, ademais, destaca-se a influencia da cultura autoctone durante o periodo helenistico. (5)

Na sequencia do artigo, serao apresentadas a vida e obra de Momigliano para, depois, abordar suas criticas a helenizacao e mostrar de que forma sua identidade judaica influenciou seus escritos.

A vida e os estudos de Momigliano

Arnaldo Dante Momigliano nasceu no quinto dia de setembro de 1908, na cidade de Caraglio, provincia de Cuneo, norte da Italia. Oriundo de uma eminente linhagem judaica, (6) iniciou seus estudos academicos em 1925, na Faculdade de Letras da Universidade de Turim. La, tornou-se pupilo de outro luminar do estudo da Antiguidade na Italia, Gaetano De Sanctis, responsavel por supervisionar a tesi di laurea do jovem piemontes. Defendido em 1929 e abordando o metodo de escrita do historiador grego Tucidides, esse primeiro trabalho, de acordo com Amoros (1997, p. 196) carregava certas caracteristicas, como o rigor filologico, que acompanhariam Momigliano por toda a vida.

Em 1932, o piemontes comeca a contribuir com a Enciclopedia Italiana, que tinha entre seus organizadores Benedetto Croce e--mais sintomatico Giovanni Gentile (PATLAGEAN 1982, p. 1005). No mesmo ano, assume o cargo de professor de Historia Grega da Universidade de Roma em circunstancias bastante insolitas: De Sanctis havia sido proscrito da catedra um ano antes por ter se recusado a prestar o juramento fascista. Sem constrangimento algum, Momigliano apossou-se do antigo oficio de seu mentor, prestando, claro, o juramento, indispensavel aqueles que se candidatavam a empregos publicos (DI DONATO 2011, p. n/d). Naturalmente, a relacao entre ambos azedou, o que levou Momigliano a romper com os metodos de seu preceptor. O livro Filippo Il Macedone: saggio sulla storia greca del IV secolo a.C., publicado em 1934 pelo piemontes, apresenta uma visao sobre os gregos e a polis bastante distinta daquela defendida por De Sanctis (GABBA 1988, p. 367). Mais do que isso: decadas mais tarde, Momigliano chega ate a censurar seu velho mestre, afirmando que: "[...] o mesmo homem que nao tinha duvidas em perder tudo, opondo-se ao fascismo, estava incerto sobre a guerra na Etiopia e, mais ainda, sobre a Segunda Guerra Mundial" (MOMIGLIANO 1975a, p. 183-184 apud GARCIA QUINTELA 2005, p. 194, traducao nossa). (7)

Em 1936, Momigliano e apontado para a catedra de Historia Romana, da Universidade de Turim, mas a publicacao do Manifesto della razza italiana (8) por parte do governo Mussolini fez com que ele fosse afastado de seu cargo. Em 1939, consegue exilio em Oxford, onde seu trabalho e reconhecido e saudado, ainda que seu sotaque tornasse seus seminarios nao tao concorridos, em que pese sua habilidade em escrever na lingua de Shakespeare (MURRAY 1991, p. 62).

Com o fim da Guerra em 1945, recebe o titulo de doutor honoris causa por Oxford e faz viagem de regresso a Italia. La, e convidado por Croce a tomar assento como diretor do recem-fundado Instituto Italiano de Estudos Historicos, em Napoles. Depois de muito ponderar, Momigliano declina da invitacao e, ainda que tenha sido reempossado como professor em Turim, decide continuar a viver na Inglaterra. Em 1947, e admitido pela Universidade de Bristol como professor de Historia Antiga (DI DONATO 2001, p. n/d).

Em 1951, Momigliano assume a catedra de Historia Antiga na University College London e, em 1964, na Scoula Normale Superiore, em Pisa. Comeca a ser reconhecido por sua devocao a historia da historiografia, tema pelo qual se tornou, nas palavras de Kagan (1992) "a principal autoridade em historiografia da Antiguidade em todo o mundo". Momigliano tentava deixar o mais claro possivel seus metodos nessa area da historia; para ele, nao bastava apenas estudar os autores para realizar um trabalho historiografico bem feito. Antes, era fundamental conhecer com profundidade as fontes que esses autores usavam para embasar seus escritos. E, mais, segundo o autor, era necessario o compromisso com a verdade: "Historia da Historiografia, como qualquer outra pesquisa historica, tem o proposito de distinguir verdade e falsidade" (MOMIGLIANO 1980, p. 31-32 apud CHRIST 1991, p. 11, traducao nossa). (9) Contudo, ainda que o italiano defendesse com afinco a objetividade do conhecimento historico, ha quem considere que ele nao somente deixava suas preocupacoes politicas e religiosas nas estrelinhas de seus escritos como chegava a lancar mao delas em suas avaliacoes dos trabalhos de outros estudiosos (BERTI 1989, p. 301).

Em terras britanicas, Momigliano contribuiu com verbetes no Oxford Classical Dictionary e na Encyclopaedia Britannica, alem de ter recebido a honraria de Knight Commander of the Order of the British Empire, em 1974. Aposentado em 1975, assumiu o cargo de Alexander White Visiting Professor na Universidade de Chicago, onde ficaria ate sua morte, ocorrida a primeiro de setembro de 1987.

Ainda que seu repertorio de referencias teoricas seja vasto, Murray (1991, p. 62) destaca como as principais a erudicao italiana aprendida em sua juventude (10) combinada ao respeito filologico herdado da Altertumswissenschaft alema e a tradicao filosofica de Benedetto Croce. Sua producao e de profunda erudicao e extremamente dificil de classificar, pelo fato de optar mais por artigos e resenhas --publicou mais de setecentos escritos dessa natureza em suas seis decadas de atividade--do que por estudos de folego mais largo. Ademais, a infinidade de temas sobre os quais se debrucou tambem complica a ordenacao de sua obra. Nao obstante, Amoros (1997, p. 195-199), destaca as seguintes tematicas como as lembradas com mais frequencia no cabedal do piemontes: a historia da historiografia, que tem em The Classical Foundations of Modern Historiography (1990) sua mais ilustre representante, a preocupacao com temas ligados a paz e a liberdade em autores antigos e modernos--que parecem conectados a sua propria experiencia como judeu italiano--e, por fim, o periodo helenistico e as interacoes culturais entre gregos e autoctones, cujos baluartes sao os artigos J. G. Droysen: between Pagans and Jews (1970), The Fault of Greeks (1975) e o volume Alien Wisdom: The Limits of Hellenization (1975). Para os fins deste artigo, esses tres textos serao de particular valia como fontes para verificar como Momigliano encarava o mundo nascido das conquistas de Alexandre em termos de interacoes culturais.

Os limites da helenizacao e a sabedoria barbara: o mundo helenistico de Arnaldo Momigliano

Alien Wisdom: The Limits of Hellenization reune as conferencias proferidas por Momigliano na Universidade de Cambridge, em 1973, e no Bryn Mawr College, em 1974, acrescidas de uma bibliografia especifica para cada capitulo. Segundo Funari e Grillo (2014) o objetivo magno de Momigliano com o livro e investigar "como se deu o contato entre os gregos e os celtas, judeus e iranianos, constando que de um espaco cultural para outro as relacoes foram diversas, variando tanto na intensidade quanto no impacto da presenca grega". Com esse norte, veremos de que forma Momigliano encarava as relacoes culturais durante o periodo helenistico, tendo por base o volume e os artigos supracitados.

Para Momigliano, o acontecimento de primeira grandeza durante as conquistas de Alexandre foi a descoberta, da parte dos greco-macedonios, de povos ate entao obscuros, quais sejam os romanos, os judeus e os celtas. Mesmos os persas, familiares desde tempos idos, haviam passado por grandes mudancas, tendo o profeta Zoroastro substituido o monarca Ciro como figura mais ilustre (MOMIGLIANO 1991, p. 10). Ja o Egito, ovacionado desde Herodoto, tinha sido de tal forma dominado que sua cultura nativa tinha "declinado" sob os greco-macedonios, fazendo com que suas imagens se limitassem aquelas de um misticismo extravagante previamente conhecido (MOMIGLIANO 1991, p. 11). Cartago, arrasada por Roma durante as Guerras Punicas (264-146 a. C.), tinha chegado a contrair algumas aliancas com pensadores helenicos, mas nao chegara a contribuir de maneira satisfatoria para o edificio cultural do periodo helenistico (MOMIGLIANO 1991, p. 12). A expansao territorial promovida pelas falanges alexandrinas, assim, teria fomentado uma intensa curiosidade nos gregos a respeito dessas populacoes, fazendo com que eles passassem a avaliar seus tracos culturais cotejando-os aos dos nativos, assimilando, rejeitando e adaptando as singularidades com as quais se defrontavam. E esta a forca motriz por tras do texto de Momigliano (1991 p. 13): "O que desejo verificar e como os gregos vieram a conhecer e avaliar esses grupos de nao-gregos em relacao a sua propria cultura e civilizacao".

Tao logo tomaram ciencia da pujanca intelectual que havia ao seu redor, os helenos passam a desenvolver o conceito que o estudioso italiano chama de "sabedoria barbara": "A nocao de um saber barbaro conquistou estabilidade e aceitacao entre aqueles que se consideravam gregos" (MOMIGLIANO 1991, p. 14). Essa nocao se relacionava a necessidade que os gregos sentiam de "estudar as singularidades dos estrangeiros" (MOMIGLIANO 1991, p. 71). Nos seculos V e IV a. C., ja havia entre eles a vaga consciencia de que "sabios do Oriente" poderiam dissertar sobre a natureza humana. Mesmo o grande estagirita Aristoteles, preceptor de Alexandre, tinha alguma curiosidade sobre um certo "saber do Oriente" (MOMIGLIANO 1991, p. 78). Durante o periodo helenistico, contudo, a ideia de "sabedoria barbara" cresceu de maneira assombrosa, fazendo com que figuras como as de Hermes Trimegisto, Zoroastro e Abraao exercessem notavel influencia com suas proprias doutrinas, desde que fossem professadas em grego (MOMIGLIANO 1991, p. 14).

Do que foi anunciado, ja e possivel perceber uma das maneiras como Momigliano critica a helenizacao: partindo da hipotese de que pensadores de origem nao-grega, por meio de concepcoes filosoficas sofisticadas, estabeleceram-se e se tornaram percucientes na cultura do periodo helenistico. O interesse que havia na doutrina de Zoroastro, por exemplo, atestaria que as relacoes entre gregos e locais nao estavam restritas a assimilacao das praticas helenicas pelos autoctones. A nocao de "saberes barbaros", portanto, reduz a tese da helenizacao a medida que esses saberes foram incorporados a cultura grega conforme fosse o desejo dos helenos.

Maior que o intuito de diminuir a pujanca da cultura grega--afinal, a lingua dos helenos continuava universal durante o periodo helenistico (MOMIGLIANO 1991, p. 15)--, o ponto principal para o italiano reside na grande curiosidade que os nativos da Helade possuiam em relacao aqueles descobertos durante o referido periodo. A curiosidade por essas novas culturas dotadas do "saber barbaro" foi de tamanha magnitude que seu legado e sentido ate os tempos hodiernos:

A Persia, a Mesopotamia e o Egito se mantem mais ou menos onde a erudicao helenistica os colocou como detentores do saber barbaro. Ainda se da lugar de destaque em nossos compendios aos fenicios, e em particular aos cartagineses, por suas instituicoes e colonizacao, porque os gregos se reconheciam nessas coisas (MOMIGLIANO 1991, p. 17).

Nao seria exagerado, portanto, afirmar que o "saber barbaro" se tornou o "saber sobre o barbaro", embora--aos menos para os gregos helenisticos de Momigliano--os ditos barbaros nao fossem tao barbaros assim. Essa posicao fica clara quando o historiador, na ultima pagina de Os limites da helenizacao, afirma que, tao logo os helenos comecaram a se dar conta de toda a exuberancia intelectual que os cercava, passaram a desconfiar de seus proprios saberes (MOMIGLIANO 1991, p. 132).

Desse modo, o historiador italiano opta pela expressao "civilizacao helenistica" para aludir ao mundo nascido das conquistas de Alexandre. Trata-se de uma civilizacao nova, caracterizada nao somente pelo exito da cultura grega sobre os locais, mas pela miriade de relacoes culturais desenvolvidas em seu amago. Eis o mundo enunciado por Momigliano (1991, p. 13-14):
   A civilizacao helenistica permaneceu grega na lingua, nos costumes
   e, sobretudo, na consciencia de si mesma. [...] Isso significou que
   judeus, romanos, egipcios, fenicios, babilonios e ate indianos
   [...] se inseriram na literatura grega com suas proprias
   colaboracoes [...]. No panteao grego foram admitidos mais deuses
   estrangeiros do que em qualquer epoca desde a pre-historia [...].
   Era um sincretismo assimetrico que foi particularmente bem sucedido
   na Italia (Etruria e Roma), deixou sua marca em Cartago, na Siria e
   no Egito, foi mal sucedido na Judeia, bastante insignificante na
   Mesopotamia e afetou pelo menos a iconografia senao a essencia da
   religiao indiana por meio da arte gandora.


A ideia de civilizacao helenistica partia das discordancias que Momigliano nutria abertamente em relacao a obra de Droysen. Em artigo de titulo "J. G. Droysen between Greeks and Jews" (J. G. Droysen entre gregos e judeus), o italiano da o devido credito ao prussiano como formulador do termo "helenismo" no mundo moderno (MOMIGLIANO 1994, p. 149). Entretanto, Momigliano nao se furta a criticar o fato de Droysen tracar analogias explicitas entre a Macedonia e a Prussia, fazendo com que o germanico propugnasse a tese de uma cultura grega exultando sobre o Oriente que nao correspondia a realidade (MOMIGLIANO 1994, p. 158). A solucao encontrada por Momigliano foi propor o termo "civilizacao helenistica", expressao que alberga nao apenas recortes cronologicos ou espaciais, mas, sobretudo, culturais. Essa elocucao encontra ecos no artigo "The Fault of Greeks" (A culpa dos gregos), quando Momigliano propoe: "A nocao de civilizacao helenistica define tanto tempo (323-30 a. C.) quanto espaco (zona do Mediterraneo) no qual essas tres culturas convergiam e comecaram a reagir uma a outra" (MOMIGLIANO 1975, p. 10-11, traducao nossa (11)).

As tres culturas acima mencionadas por Momigliano sao a grega, a romana e a judaica, sendo que as ultimas tinham em comum o fato de nao terem duvida alguma sobre a superioridade de seus respectivos modos de vida em relacao aquele dos gregos (MOMIGLIANO 1975, p. 12), o que, claro, depoe contra a tese de que teriam sido helenizadas. Por isso, na sequencia do texto, serao apresentadas as formas pelas quais Momigliano via as respostas de romanos e judeus ao avanco da cultura grega.

Resistencia a helenizacao: as relacoes entre as culturas grega, romana e judaica no entendimento de Momigliano

Momigliano considerava que o maior poderio belico das forcas de Roma fomentou em seus habitantes a sensacao de superioridade em relacao aos gregos, tambem nutrida por estes ao menos desde quando os exercitos de Pirro foram dizimados (MOMIGLIANO 1991, p. 20). Esse sentimento de primazia fez com que sua populacao passasse a haurir da cultura grega apenas aquilo que interessasse a seus proprios anseios, as vezes ate pagando pelos saberes helenicos, ou nem isso, uma vez que nao era raro ver sabios gregos escravizados pelos romanos (MOMIGLIANO 1991, p. 17). Sendo assim, a aristocracia de Roma achou por bem aprender o idioma grego tendo em vista um projeto imperial ja em curso. Partindo disso, fica cristalino como Momigliano ve uma helenizacao circunscrita por uma empresa politica, no caso romano, inexpugnavel: a construcao de um imperio extraordinario. Em suma, "os intelectuais gregos e romanos tiveram de aprender que em Roma a helenizacao subentendia respeito pela ordem dominante" (MOMIGLIANO 1991, p. 24).

Um caso emblematico era o do historiador e geografo Polibio. Nascido em Megalopolis, na Arcadia, Polibio foi tomado como refem pelos romanos em 167 a. C., mas--em virtude de sua notavel ilustracao--acabou acolhido e respeitado. Vivendo no seio da sociedade romana, nao se defrontou com qualquer surpresa, pois la "[...] encontrou pessoas que nao diferiam dos gregos instruidos em interesses, ideias e reacoes emocionais" (MOMIGLIANO 1991, p. 28). Contudo, a difusao da cultura da Helade nas terras fundadas por Romulo aparece mais uma vez condicionada a vontade dos romanos de se instruirem com as experiencias gregas, que lhes dava uma gigantesca vantagem: "[...] a superioridade que os lideres romanos alcancaram pelo simples fato de poderem falar em grego e pensar em grego, ao passo que os lideres gregos necessitavam de interpretes para entender o latim" (MOMIGLIANO 1991, p. 40). Ademais, essa adocao se dava pari passu a criacao de "uma literatura nacional, autoconfiante e agressiva" (MOMIGLIANO 1991, p. 22) na qual Polibio tomava parte criando em seus escritos "uma atmosfera em que as conquistas romanas se tornavam faceis de compreender e dificeis de contestar" (MOMIGLIANO 1991, p. 31).

Ao proceder assim, Momigliano reduz a helenizacao uma vez mais, agora ao apresentar um erudito grego nao preocupado em disseminar sua cultura nativa, mas em articular um dialogo entre seus conterraneos e os romanos de maneira a "explicar aos gregos por que os romanos venceram e explicar aos romanos o significado e as condicoes de sua propria vitoria" (MOMIGLIANO 1991, p. 33). Um dos conselhos dado por Polibio, num admiravel exercicio de alteridade, versava sobre os perigos que os romanos correriam caso nao debelassem suas sublevacoes internas (MOMIGLIANO 1991, p. 34).

Ainda que criticas possam ser feitas pelo fato de Momigliano sustentar sua argumentacao quase inteiramente nas deducoes do aristocratico Polibio--que, decerto, confabulava apenas com uma minuscula elite letrada -, nao deixa de serem dignas de registro as discordancias que o piemontes nutria em relacao a uma incontestavel propagacao da cultura grega. Alem disso, as interpretacoes de Momigliano de um Polibio absorvido de modo tal pela cultura romana que seria incapaz de traduzi-la em termos gregos--quase como se tivesse sido romanizado--tem sofrido criticas por parte da historiografia moderna. (12)

Ja dissertar acerca da relacao entre judeus e gregos, por sua vez, apresenta um desafio por conta do comprometimento de Momigliano com sua identidade judaica, aspecto que sera mais explorado na proxima secao deste artigo. Por ora, cumpre ressaltar que, para o piemontes, os judeus estiveram desde sempre "convencidos de sua superioridade" (MOMIGLIANO 1991, p. 16). De partida, Momigliano afirma que os judeus eram conhecidos, ainda que de forma superficial, pelos gregos antes do advento de Alexandre, embora fossem ignorados nos registros escritos (MOMIGLIANO 1991, p. 73). De igual modo, nao havia grande ciencia dos helenos por parte dos semitas, embora a ignorancia destes em relacao aqueles fosse menor, em virtude de os gregos fazerem comercio na Palestina (MOMIGLIANO 1991, p. 75-76). Mesmo esse quadro de distanciamento mutuo nao desencoraja Momigliano a tracar diversos paralelos entre o desenvolvimento das duas civilizacoes, talvez a sentenciar que a civilizacao ocidental e devedora da cultura judaica tanto ou mais quanto o e da cultura grega:

O quadro das nacoes em Genesis 10 nos faz lembrar do mapa de Anaximandro; o Livro de Jo, provavelmente uma obra de exilio, tem sido muitas vezes comparado ao Prometeu, de Esquilo [...] (os judeus) confiavam em Deus e em sua propria Lei. Para a mesma finalidade, os gregos confiavam nas proprias inteligencias e iniciativa [...] (MOMIGLIANO 1991, p. 77).

Momigliano tambem admite que, a semelhanca dos romanos, os judeus aprenderam o idioma e os costumes gregos como forma de comparar seu cabedal aquele dos helenos: "[...] tanto judeus quanto romanos decidiram aprender o idioma grego de modo a comparar seus proprios costumes com aqueles dos gregos e modelar sua vida intelectual em relacao aos gregos" (MOMIGLIANO 1975, p. 13, traducao nossa). (13) Assim, a partir de 300 a. C., os judeus comecaram a se versar no idioma grego e, exprimindo suas doutrinas nele, tornaram-se ilustres, como eram os filosofos estoicos Zenao de Cicio (333263 a. C.) e Crisipo de Soli (280-208 a. C.) (MOMIGLIANO 1991, p. 85). Um exemplo lapidar de como procediam os filosofos judeus no periodo helenistico e o de Aristobulo de Paneas, sucessor de Filon de Alexandre e responsavel por uma alegoria em que Ptolomeu IV (181-145 a. C.) fazia incessantes perguntas sobre a Biblia, instigado por seu conteudo (MOMIGLIANO 1991, p. 86). Momigliano defende, por fim, que os judeus amiude consideravam que o modus vivendi herdado de Moises e Abraao era mais auspicioso do aquele apregoado por Homero e Herodoto (MOMIGLIANO 1975, p. 14-15). Em suma, para os judeus, era possivel "afirmarem que haviam sido os mestres dos gregos devido a sua maior antiguidade" (MOMIGLIANO 1991, p. 86).

Nao obstante, o engajamento de Momigliano com sua genealogia judaica parece mais peremptorio quando o historiador discorre sobre as diferentes formas por meio das quais romanos e semitas resistiram ao avanco da helenizacao. Se, no caso dos primeiros, a oposicao era comandada pela independencia politica e uma maquina militar incomparavel, no caso dos judeus, a resistencia era fruto de uma "mera obstinacao da fe" (MOMIGLIANO 1991, p. 88). Como observou de modo perspicaz Starr (1976, p. 1079), quando Momigliano aborda os judeus em Os limites da helenizacao, adota um ponto de vista particular, como se estivesse falando sobre um ethos ao qual pertence. Isso, somado a discussao com Finley e a outros aspectos ainda mais relevantes que serao relatados a seguir, mostra algumas indicacoes do compromisso do historiador com sua identidade judaica.

"Os judeus se mantiveram vivos pela mera obstinacao na fe": por uma afirmacao da identidade judaica nos escritos de Momigliano

Stuart Hall (2005), teorico cultural jamaicano ha pouco falecido, defende que as identidades sociais sao fluidas, reconstruidas e afirmadas conforme as necessidades do tempo corrente. No caso de Momigliano, as impressoes de Hall parecem bastante acertadas. Embora o historiador, conforme se viu, tenha sido expulso da Italia em funcao de sua ascendencia judaica, sua posicao como judeu nem sempre foi tao categorica, de modo que esta ultima parte do artigo tentara dar conta de explicar de que formas ela foi construida e como aparece refletida em seus registros.

Conforme recapitula Hubscher (2010, p. 52-53), Momigliano, em discurso proferido em 1977, afirmava que sua infancia tinha sido cercada por uma tradicao judaica, mas, de modo concomitante, por fortes raizes italianas, em virtude da fervorosa heranca catolica da vila onde nasceu. Parece imperativo que foram esses vinculos com os valores italianos que levaram Riccardo, pai de Momigliano, a se afiliar ao Partido Fascista, no qual exerceu cargos que iam de Fascio di Combattimento Del Comune di Caraglio (1923-1924) ate comissario extraordinario (1929-1932). Ilda Levi, mae do historiador, foi condecorada com medalha de bronze pelos servicos prestados como enfermeira durante a Primeira Guerra Mundial. Nao por acaso, no vilarejo de Caraglio, lar dos abastados Momigliano, eles ficaram conhecidos pela bizarra pecha de "judeus fascistas".

Mesmo o proprio Arnaldo havia se filiado ao GUP (Gruppo Universitario Fascista) de Turim, em 1920, no grupo musical universitario. Esse vinculo, ainda que tenue, seria mantido nas decadas seguintes, ate sua proscricao da Italia em funcao das leis de 1938. Quando ja em terras britanicas, Momigliano da uma declaracao por escrito em que repudia quaisquer tentativas de associar seu nome a doutrina fascista. Entre os pontos levantados, encontra-se a publicacao do jornal antifascista "Difesa Liberale" (1926), sua participacao como articulista no periodico "La Cultura", suprimido em 1933 devido ao seu carater liberal, e a inabalavel crenca em ter proferido incontaveis aulas de "tendencia abertamente liberal" (HUBSCHER 2010, p. 55-56).

Ao mesmo tempo em que tenta refutar qualquer ranco fascista em sua juventude, Momigliano comeca a dar enfase a sua identidade judaica, aspecto bastante notado em seus estudos a respeito do periodo helenistico, escopo deste texto. Incidente capital foi sua violenta altercacao com a obra de Droysen. Momigliano estava convencido de que a decisao do prussiano pouco escrever sobre a importancia dos judeus para a fundacao cultural da civilizacao helenistica residia em dois pontos: a profunda ignorancia da qual padecia o germanico a respeito da tradicao literaria judaica--e com o qual Momigliano (1994, p. 154) se mostrava indignado--e as profundas ambiguidades que Droysen nutria em relacao aqueles que professavam a fe semita. O italiano certificava que Droysen pertencia a um circulo intelectual constituido por diversos judeus convertidos ao protestantismo, entre os quais se encontrava ate Marie Mendelheim, sua primeira esposa; entre eles, teria se estabelecido uma especie de norma social que prescrevia o silencio em relacao as origens judaicas e ao passado (MOMIGLIANO 1994, p. 156-157). Por fim, Momigliano tambem se exaltava com a intervencao das conviccoes politicas de Droysen em sua obra, ainda mais pelo fato de ele ter abandando por completo o estudo do mundo antigo em favor da historia moderna, em particular da Prussia, a partir de 1840.

Desse modo, parece ser factivel admitir que a identidade judaica de Momigliano se manifesta de forma crescente em sua vida e obra. Se no inicio de sua trajetoria, o historiador chegou ate mesmo a se afiliar ao GUP de Turim e a prestar o juramento fascista de modo a tomar posse do cargo de professor em Roma, apos seu banimento da Italia devido aos desmandos da tirania mussoliniana, Momigliano deu, como se viu acima, declaracoes bastante categoricas visando tanto a reafirmar sua ascendencia judaica quanto a repudiar qualquer vestigio fascista em sua juventude. Mais do que isso: o tema do judaismo no mundo antigo aparece de modo mais assiduo em seus estudos, muitas vezes carregando opinioes bastante fortes a respeito de historiadores que, claro, nao davam o justo credito a cultura hebraica, como foi o caso de seu artigo sobre Droysen, publicado originalmente em 1970. Entretanto, o pinaculo desse processo aparece de forma mais nitida nas paginas d'Os limites da helenizacao--obra dedicada a memoria de sua mae, morta em um campo de concentracao--, talvez em virtude dos diversos conflitos militares pelos quais passava o estado de Israel ao menos desde a Guerra dos Seis Dias e cujo fastigio foram os ataques da Siria e do Egito em 1973.

Em Alien Wisdom, ao analisar a situacao dos judeus que se encontravam sob o jugo de Antioco IV, entre 168 e 164 a. C., Momigliano narra com gigantesca dramaticidade a politica de helenizacao implementada pelo soberano seleucida:

O Templo de Jave foi transformado em templo de Zeus Olimpico, os habitantes de Jerusalem foram denominados antioquianos e a misteriosa Acra, a fortaleza, foi ocupada por uma guarnicao siria: praticas tradicionais judias, como a circuncisao e a observancia dos sabados, foram proibidas. Desde tempo imemoriais era inaudita no mundo de fala grega uma tamanha interferencia nos cultos ancestrais de uma nacao (MOMIGLIANO 1991, p. 91, grifos nossos).

No excerto acima, e ostensiva a comocao de Momigliano em relacao aos judeus em territorio seleucida, sufocados de forma horrenda por uma cultura helenistica que transbordava indigencia e esqualidez. Salta aos olhos a escolha pelo uso do termo "nacao", em especial por Momigliano ter testemunhado o surgimento do Estado de Israel, em 1948, ja na condicao de intelectual de prestigio internacional. E ainda mais sintomatica a classificacao da rebeliao macabeia revolta judaica contra a imposicao da cultura grega estabelecida por Antioco IV --como "uma guerra pela independencia" (MOMIGLIANO 1991, p. 91).

Cumpre esclarecer que as conferencias que dao origem ao livro foram proferidas em maio de 1973, em Cambridge, e revisadas em fevereiro-marco de 1974, no Bryn Mawr College. Ao reuni-las na forma de livro, Momigliano objetivava "estimular a discussao a respeito de um assunto importante" (MOMIGLIANO 1991, p. 7). E importante salientar que sua publicacao, em 1975, foi feita ainda sob os ecos dos ataques da Siria e do Egito ao Estado de Israel, em outubro de 1973, em pleno Yom Kippur, a data mais sagrada do calendario judaico e que Momigliano, a proposito, guardava rigorosamente. (14) Claro que, conhecendo o modus operandi do historiador--que prezava pela erudicao e pelo levantamento extensivo de fontes--, nao se poderia afirmar que ele dissertaria sobre o tema simplesmente a reboque dos ataques supracitados, mesmo porque o judaismo sempre esteve presente em sua obra. Ademais, as exposicoes preliminares que deram substancia ao livro foram proferidas em marco de 1973, ao passo que os ataques ocorreram em outubro. O que se defende e a atencao a dois aspectos: em primeiro lugar, a forma particularmente catastrofica com que o piemontes narra a condicao dos judeus no periodo helenistico. Em segundo lugar, a opcao de Momigliano por publicar o livro com tamanha urgencia, talvez inspirado tanto pelos ataques quanto por sua necessidade de afirmar sua ascendencia judaica na tentativa de dissipar as ambiguas relacoes que nutria com o fascismo em sua juventude, conforme visto acima.

Asfixiadas pelo bestial despotismo de Antioco IV, a fe e a tradicao ancestral dos judeus estava ameacada por todos os lados. Segundo Momigliano, o livro biblico de Daniel tinha na passagem "[...] ha um dominio estrangeiro que trouxe consigo a contaminacao" o "unico testemunho contemporaneo do lado judeu" (MOMIGLIANO 1991, p. 100). Cercado de exercitos inclementes, prontos a massacrar sua fe, o povo judeu e tenaz, persistente, inflexivel: sua resistencia representa o "[...] repudio ao helenismo [...] uma reafirmacao da fidelidade da comunidade judia ao Deus de Abraao, Isaac e Jaco" (MOMIGLIANO 1991, p. 92). Sua obstinacao e a dos "[...] judeus palestinos em defender a propria heranca contra a tentativa de helenizacao em grande escala [...]" (MOMIGLIANO 1991, p. 107). A resistencia judaica contra os ataques do helenismo fez com que Antioco IV baixasse um decreto para garantir que as suas leis voltassem a ser respeitadas. Momigliano acrescenta que combater de forma tao ferrenha em favor de suas tradicoes tornaria os judeus ainda mais devotados, fazendo nascer, nos termos do autor:

Uma nova devocao a Lei [...] uma regulamentacao cada vez mais minuciosa das obrigacoes religiosas, uma meditacao mais intensa sobre as relacoes entre a sabedoria divina e a fragilidade humana, e por fim, uma expectativa intermitente, mas muito real, das perturbacoes da Era Messianica [que] reduziram o impacto dos costumes estrangeiros (MOMIGLIANO 1991, p. 103).

Impiedosas investidas estrangeiras. Uma resistencia briosa sustentada sobremaneira pela fe. Um quadro de infortunios e flagelos que se apresentam como interminaveis, mas que nao levam a capitulacao ou a desesperanca. Levam, sim, a uma devocao cada vez mais inquebrantavel. Se talvez seja exagerado afirmar que a substancia dos escritos de Momigliano foi influenciada pela situacao dos judeus em sua propria epoca, pelos motivos ja apresentados, ao menos sua forma particularmente dramatica de narrar os fatos parece ter sido motivada pelo episodio dos ataques a Israel, ainda mais pelo fato de o proprio historiador afirmar que suas primeiras conferencias sobre o assunto foram revisadas antes da publicacao em livro.

A proposito, e digna de registro a insistencia de Momigliano em publicar urgentemente Os limites da helenizacao em forma de salterio, que, alias, foi dedicado a memoria de sua mae, morta em 1943 num campo de concentracao. E sabido que o piemontes deixava engavetados por anos a fio alguns de seus textos, que so veriam a luz do dia em seus famosos Contributi, por vezes publicados com anos de atraso em relacao a data original de sua redacao. Desse modo, por que Momigliano teria tamanha pressa em transformar seus papers em livro? E, mais, como esquecer as palavras do proprio piemontes, ditas originalmente em 1981, portanto pouco depois do lancamento d'Os limites da helenizacao? Em artigo no qual lanca diatribes furiosas contra o historiador americano Hayden White--famoso por suas opinioes, digamos, polemicas, a respeito da objetividade do conhecimento historico e mesmo do Holocausto --, Momigliano sentencia: "Eu sou judeu e sei por experiencia propria o preco que os judeus tinham e tem de pagar para serem judeus. Nao estou coletando dados para fins academicos quando tento entender o que levou os judeus a recusarem a assimilacao a civilizacoes vizinhas" (MOMIGLIANO 1984, p. 54 apud WEINBERG 1991, p. 16, traducao nossa). (15) Enfim, sendo Os limites da helenizacao a obra prima que e--como bem apontou o resenhista John Briscoe, "Momigliano nunca toca um assunto sem ilumina-lo" (1978, p. 110, traducao nossa) (16)--, como menoscabar as palavras de Oscar Wilde: "todo o retrato pintado com sentimento retrata o artista e nao o modelo" (1995, p. 11)?

Consideracoes finais

De acordo com o exposto, Momigliano possui visoes peculiares a respeito das relacoes culturais durante o periodo helenistico, optando por uma abordagem mais multifacetada, tributaria do conceito de "saber barbaro". Momigliano conjectura que os gregos helenisticos ficaram boquiabertos com a exuberancia intelectual que os cercava, fazendo com que no amago de sua civilizacao houvesse uma serie de relacoes culturais complexas.

As teses do italiano aparecem de forma mais clara quando vem a tona as relacoes de romanos e judeus com o helenismo: enquanto os primeiros resistiram a ele em funcao da superioridade garantida por seu pungente aparelho militar, os seguidores da Lei de Moises perseveraram em funcao de sua singular obstinacao. Se, conforme apontam Silva e Feitosa (2009, p. 211), "[...] o historiador produz, com o seu oficio, espacos, tempos e praticas, do mesmo que ele proprio se encontra inserido em contextos e conjunturas que influenciam o tema em analise", parece ser valido indagar ate que ponto o cenario politico--marcado tanto pela emergencia de movimentos sociais que objetivavam dar voz a grupos minoritarios quanto pelos ataques da Siria e do Egito ao Estado de Israel--influenciaria Momigliano, que se encontrava cada vez mais imbuido da necessidade de afirmar sua identidade judaica. A esse respeito, Christ (1991, p. 11) considera como fio condutor de toda a obra de Momigliano a tematica dos contatos entre culturas, religioes e civilizacoes, que remonta a sua juventude e que retorna de modo pungente na velhice, momento em que o italiano comeca a notar de maneira mais clara as influencias de sua vida em seu trabalho, aspecto tambem apontado por Bowersock (1991, p. 33) e que tambem corrobora a tese de que o italiano passou a afirmar sua identidade a medida que foi envelhecendo. Em publicacao ja ao final de sua vida, Momigliano afirma sem rodeios que: "Em certo sentido, na minha vida academica eu nao tenho feito outra coisa senao tentar entender o que eu devo tanto a casa judaica na qual cresci quanto a vila crista-romana-celta na qual eu nasci" (MOMIGLIANO 1987, p. 432 apud CHRIST 1991, p. 5, traducao nossa). (17) Talvez dai decorresse o interesse de Momigliano pelo periodo helenistico, momento no qual esses elementos--as culturas grega, romana, celta e muitas outras--se encontravam, conforme a sugestao de Weinberg (1991).

Na mesma ordem de ideias, Amoros (1997, p. 203) assevera que algumas das ultimas linhas redigidas pelo italiano se encontram no novo prefacio a obra Filippo II Macedone. Saggio sulla storia greca del IVsecolo a. C., reimpressa em 1987. Nele, o historiador italiano admite que, na epoca da publicacao original (1934), estava por demais preocupado com sua liberdade politica e religiosa, aspecto que aparece nas entrelinhas de seus relatos sobre o caolho monarca.

Diante dessas demonstracoes, parece ser factivel afirmar que a preocupacao do historiador italiano com sua identidade judaica e um aspecto que perfaz toda sua obra, que percorre toda sua vida. E foi quando ela chegou ao fim que Momigliano deu seu mais peremptorio veredicto. Na inscricao de sua lapide, ditada pelo proprio e citada por Di Donato, le-se o seguinte:

Aqui repousa Arnaldo Dante Momigliano (1908-1987), professor de Historia Antiga das Universidades de Turim, de Londres, de Chicago e da Escola Normal Superior de Pisa. A sua fe foi o livre pensamento, sem odio e sem dogma; mas amou, com afeto filial, a tradicao hebraica dos antepassados e aqui quis consigo, reunidos na recordacao, os genitores Riccardo e Ilda Momigliano, mortos em terra germanica, em novembro de 1943, por tresloucado odio racial (DI DONATO 2011, p. n/d, traducao nossa). (18)

doi: 10.15848/hh.v0i17.742

Recebido em: 28/2/2014

Aprovado em: 30/6/2014

Referencias bibliograficas

ALCOCK, Susan. Breaking up the Hellenistic world: survey and society. In: MORRIS, Ian. Classical Greece: ancient histories and modern archaeologies. New York: Cambridge University Press, 1994, p. 171- 190.

AMOROS, Pedro. Notas sobre Arnaldo Momigliano: la tradicion historica italiana. Panta Rei, p. 95-103, 1997.

BERTI, Silvia. Autobiografia, storicismo e verita storica. Rivista storica italiana, n. 100, p. 297-312, 1988.

BOWERSOCK, Glen. Momigliano's Quest for the Person. History and Theory, v. 30, n. 4, p. 27-36, 1991.

BRISCOE, John. Review of Alien Wisdom. The Limits of Hellenization by Arnaldo Momigliano. The Classical Review, New Series, v. 28, n. 1, p. 109-110, 1978.

BROWN, Peter. IN MEMORIAM: Remembering Arnaldo. The American Scholar, v. 57, n. 2, p. 251-252, 1988.

DI DONATO, Riccardo. MOMIGLIANO, Arnaldo Dante. In: Dizionario Biografico degli Italiani, v. 75, 2011, p. n/d. Disponivel em: http://www.treccani.it/ enciclopedia/arnaldo-dante-momigliano_(Dizionario-Biograficoy. Acesso em: 13 maio 2014.

DROYSEN, Johann Gustav. Alexandre: o grande. Rio de Janeiro: Contraponto, 2010 [1833].

FEITOSA, Lourdes Conde; SILVA, Glaydson Jose da. O Mundo Antigo sob lentes contemporaneas. In: FUNARI, Pedro Paulo Abreu; SILVA, Maria Aparecida de Oliveira (orgs.). Politica e identidade no Mundo Antigo. Sao Paulo: Annablume, 2009, p. 209-250.

FINLEY, Moses. A tradicao historica: os Contributi de Arnaldo Momigliano. In: --. Uso e abuso da historia. Sao Paulo: Martins Fontes, 1989 [1975], p. 75-87.

FUNARI, P. P. A.; GARRAFFONI, Renata Senna. Discussing acculturation as an interpretive model: Romanisation as a case-study. 2012, p. 1-7. (Manuscrito inedito usado com autorizacao dos autores).

FUNARI, Pedro P. A.; GRILLO, Jose G. C. Os conceitos de helenizacao e de romanizacao e a construcao de uma Antiguidade Classica. In: ALMEIDA, Neri de Barros; NEMI, Ana; PINHIEIRO, Rossana Alves Baptista (orgs.). A construcao da narrativa historica: seculos XIX e XX. Campinas; Sao Paulo: Unicamp; Fap-Unifesp, 2014, p. 205-214.

GABBA, Emilio. Aspetti della storiografia di M. Rivista Storica Italiana, n. 100, p. 362-80, 1988.

GARCIA QUINTELA, Marco. Dumezil, Momigliano, Bloch, between politics and historiography. Historie des etudes indo-europeennes, p. 187-205, 2002-2005.

GOSDEN, Chris. Archaeology and colonialism: cultural contact from 5000 B.C. to the present. Cambridge, UK; New York, NY: Cambridge University Press, 2004.

GRALHA, Julio. A legitimidade do poder no Egito ptolomaico: cultura material e praticas magico-religiosas. 276 p., 2009. Tese (Doutorado em Historia). Programa de Pos-Graduacao em Historia, Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2009.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pos-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

HUBSCHER, Bruno. Arnaldo Momigliano: historia da historiografia e do mundo antigo. 111 p., 2010. Dissertacao (Mestrado em Historia). Programa de Pos-Graduacao em Historia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas Universidade de Sao Paulo. Sao Paulo, 2010.

KAGAN, Donald. Arnaldo Momigliano and the human sources of history. The New Criterion, v. 10, n. 7, 1992. Disponivel em: http://www.newcriterion.com/ articles.cfm/The-human-sources-of-history-4530. Acesso em: 22 fev. 2014.

MOMIGLIANO, Arnaldo. J. G. Droysen between Greeks and Jews. In: BOWERSOCK, Glen; CORNELL, Tim (orgs.) A. D. Momigliano: studies on modern scholarship. Berkeley: University of California, 1994, p. 147-161.

--. Os limites da helenizacao. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991 [1975].

--. Ottavo contributo alla storia degli studi classici e del mondo antico. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1987.

--. Settimo contributo alla storia degli studi classici e del mondo antico. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1984.

--. Sesto contributo alla storia degli studi classici e del mondo antico. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1980

--. Quinto contributo alla storia degli studi classici e del mondo antico. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1975a.

--. The Fault of Greeks. Daedalus, v. 104, n. 2, p. 9-19, 1975.

MORENO LEONI, Alvaro. "Interpretando el mundo romano: etnografia, publico y cultura griega en las 'Historias' de Polibio". Gerion, n. 30, p. 63-90, 2012.

MURRAY, Oswyn. Arnaldo Momigliano in England. History and Theory, v. 30, n. 4, Beiheft 30, p. 49-64, 1991.

PATLAGEAN, Evelyne. Les Contributi d'Arnaldo Momigliano: portrait d'un historien dans ses paysages. Annales, Historie, Sciences Sociales, 37e Annee, p. 1004-1013, Sep-Dec. 1982.

PREAUX, Claire. Le monde hellenistique. La Grece et l'Orient de la mort d'Alexandre a la conquete romaine de la Grece (323-146 av. J.-C.). Paris: Presses Universitaires de France, 1978 (2 vol.)

STARR, Chester. Alien Wisdom. The Limits of Hellenization by Arnaldo Momigliano. The American Historical Review, v. 81, n. 5, p. 1079-1080, 1976.

WEINBERG, Joanna. Where Three Civilizations Meet. History and Theory, v. 30, n. 4, p. 13-26, 1991.

WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995 [1891].

WILL, Eduoard. Por une anthropologie coloniale du monde hellenistique. In: WILLIAM John ; OBER, Josiah (eds.) The Craft of the Ancient Historian: Essays in honour of Chester G. Starr. New York ; London: University Press of America, 1985, p. 273-301.

Thiago do Amaral Biazotto

thiago_a_b@yahoo.com.br

Mestrando

Universidade Estadual de Campinas

Rua Cora Coralina, s/n--Cidade Universitaria Zeferino Vaz

13083-970--Campinas--SP

Brasil

Pedro Paulo Abreu Funari

ppfunari@uol.com.br

Professor titular

Universidade Estadual de Campinas

Rua Cora Coralina, s/n--Cidade Universitaria Zeferino Vaz

13083-970--Campinas--SP

Brasil

* Pesquisa realizada com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico--CNPq.

(1) Pode-se definir de maneira esquematica o pos-colonialismo como o movimento de independencia em grande escala ocorrido em paises da Africa e da Asia apos a 2a Guerra Mundial. Em seu bojo, diversos intelectuais produziram trabalhos que buscavam dar voz as antigas colonias e, ademais, fugir do espectro eurocentrico que marcava os estudos ligados as ciencias humanas ate entao. Edward Said, gracas ao classico Orientalismo: o Oriente como invencao do Ocidente, publicado em 1978, e considerado o maior expoente desse movimento (GOSDEN 2004, p. 18).

(2) Poder-se-ia mesmo voltar ao historiador ingles George Grote, que, em pleno seculo XIX, escreveu que, longe de tentar helenizar a Asia, Alexandre tentava "asiatizar" a Grecia e a Macedonia. Contudo, parece que Grote era uma voz solitaria num contexto ainda marcado pela visao do macedonio como um conquistador benevolo que tinha livrado a Asia dos grilhoes da tirania e do misticismo.

(3) A obra Le monde hellenistique. La Grece et l'Orient de la mort d'Alexandre a la conquete romaine de la Grece (323-146 av. J.-C.), lancada em dois tomos em 1978, e aquela em que as posicoes de Preaux sao formuladas de modo mais sofisticado.

(4) E oportuno ressaltar que Momigliano admite que as criticas pos-coloniais eram relevantes em sua epoca: vide a passagem na qual ele assevera que a descolonizacao contribuiu para uma mudanca de atencao no que se refere aos nativos e escravos, responsavel por influenciar ate mesmo uma reavaliacao dos pensadores helenisticos. Cf. MOMIGLIANO 1994, p. 159.

(5) Exemplo proficuo e a tese de doutoramento de Gralha (2009), na qual o autor defende que, no Egito ptolomaico, longe de haver helenizacao, verificava-se, antes, a manutencao de praticas culturais do periodo faraonico de maneira a legitimar o governo estrangeiro dos sucessores de Alexandre.

(6) O irmao do avo paterno de Momigliano, Amadio, era profundo conhecedor da tradicao judaica, e e quase certo que foi ele o responsavel por introduzi-la no futuro historiador (WEINBERG 1991, p. 14). O compromisso de Momigliano com a identidade judaica foi marcante em toda sua producao, aspecto que sera um pouco mais explorado ao longo deste artigo. Por ora, e salutar lembramos o emblematico episodio citado por Hubscher (2010, p. 47) em que Momigliano acusa o historiador americano Moses Finley de ter repudiado "sua excepcional hereditariedade judaica" pelo fato de este ter alterado seu sobrenome original--Finkelstein--no inicio da decada de 1940.

(7) No original: "the same man who had no doubt in loosing everything by opposing fascism, was uncertain about the war in Ethiopia and even more so about World War II".

(8) Promulgado em agosto de 1938, Manifesto della razza italiana propugnava as leis do regime fascista italiano, cassando a cidadania dos judeus e demonstrando a influencia de Adolf Hitler sobre Benito Mussolini.

(9) No original: "History of historiography, like any other historical research, has the purpose of discriminating between truth and falsehood".

(10) Mesmo Peter Brown (1988), academico de larga erudicao, afirma que no primeiro contato que teve com Momigliano ficou extasiado com sua ilustracao, tecendo, ademais, diversos elogios ao carater do italiano, exaltados ate mesmo para os padroes aduladores de rigueur de um texto em homenagem a um recem-falecido.

(11) No original: "The notion of Hellenistic civilization defines both the time (323-30 B.C.) and the space (Mediterranean zone) in which these tree cultures converged and began to react on one another".

(12) Texto ilustrativo e "Interpretando el mundo romano: etnografia, publico y cultura griega en las 'Historias' de Polibio", de Moreno Leoni. O autor posiciona-se contra a visao do Polibio de Momigliano, apresentando estrategias discursivas usadas pelo historiador arcadiano na investida de criar uma alteridade entre ele e os romanos. Um exemplo seria a narracao a respeito do saque de Cartago Nova, na qual Polibio disserta sobre o butim como uma pratica tipicamente romana, mas, e ao mesmo tempo, deixando claro sua distancia em relacao a ela, uma vez que ela nao era comum entre os gregos. Leoni questiona mesmo o "efeito pratico" do trabalho de Polibio, uma vez que Tito Livio, historiador que atuara ja durante o principado, usa de seus relatos de modo parcimonioso, muitas vezes criando novos sentidos a partir das alocucoes do arcadiano. Cf. MORENO LEONI 2012.

(13) No original: "[...] both Jews and Romans decided to learn Greek in order to compare their own ways with those of the Greek and to shape their intellectual life in relation to the Greeks".

(14) A dar credito ao relato de Weinberg (1991, p. 13), Momigliano mantinha, ate o fim da vida, um apartamento em Cuneo, onde ele e a familia permaneciam durante o referido feriado.

(15) No original: "I am a Jew myself and I know from my own experience what price Jews had and have to pay to be Jews. I am not collecting facts for academic purpose when I try to understand what moved the Jews to refuse assimilation to surrounding civilizations".

(16) No original: "Momigliano never touches a subject without illuminating it".

(17) No original: "In a sense, in my scholarly life I have done nothing else but to try to understand what I owe both to the Jewish house in which I was brought up and to the Christian-Roman-Celtic village in which I was born".

(18) No original: "Qui riposa Arnaldo Dante Momigliano (1908-1987) professore di storia antica nelle Universita di Torino e di Londra e Chicago e nella Scuola Normale Superiore di Pisa. La sua fede fu il libero pensiero senza odio e senza dogma ma amo di affetto filiale la tradizione ebraica dei padri e qui volle seco congiunti nel ricordo i genitori Riccardo e Ilda Momigliano uccisi in terra germanica nel novembre 1943 per folle odio di razza".
COPYRIGHT 2015 Sociedade Brasileira de Teoria e Historia da Historiografia
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2015 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:articulo en portugues
Author:do Amaral Biazotto, Thiago; Abreu Funari, Pedro Paulo
Publication:Historia da Historiografia
Article Type:Ensayo critico
Date:Apr 1, 2015
Words:9036
Previous Article:Aimportancia do metodo critico na renovacao dos estudos catolicos em Portugal: o caso de Luis Antonio Verney.
Next Article:Uma revisao critica das fontes historiograficas para a historia do Imperio Parto (247 a.C.-228 d.C.): o caso de Apolodoro de Artemita e Arriano de...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2022 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |