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A representacao dos povos de Gog e Magog no mapa de Hereford e a percepcao da alteridade na baixa Idade Media.

The representation of the people of Gog and Magog on the map of Hereford and the perception of otherness in the Middle Ages

La representation des peuples de Gog et Magog sur la carte de Hereford et la perception de l'alterite dans le Moyen Age

O mapa-mundi de Hereford foi confeccionado no final do seculo XIII, na Inglaterra. E o maior mapa que sobreviveu a Idade Media, possuindo 1,59 m de altura por aproximadamente 1,40 m de largura. Nao se encontra inserido em nenhum manuscrito nem e acompanhado por nenhum codice. Composto por uma unica peca, foi preparado para exposicao permanente na catedral da cidade de Hereford, no sudoeste ingles. Seu autor (ou responsavel) foi Ricardo de Haldingham, clerigo da catedral de Hereford. Produzido com a pele inteira de um novilho e fixado em um triptico de carvalho, que ao mesmo tempo o guardava e lhe dava suporte para exposicao, congrega informacoes geograficas, historicas, religiosas, zoologicas e etnograficas, como uma grande enciclopedia ou Summa. E tentador definir o mapa como uma Summa, afinal, produto do mesmo tipo de pensamento que as catedrais goticas e a escolastica. Representa o apice da familia dos mapas ecumenicos. (3)

Na Idade Media Ocidental, nao havia uma palavra, em latim ou vernaculo, que se possa traduzir exatamente como mapa. Objetos como o de Hereford eram muitas vezes chamados de descriptio, forma ou imago--as vezes, a palavra mappa era empregada, mas apenas para indicar que a descriptio fora feita sobre um pedaco de tecido (mappa). Do mesmo modo, nao havia uma area de saber equivalente a geografia, ou mesmo a cartografia. O conhecimento sobre as partes do mundo era dado pela geometria, que o mensurava e descrevia. Ricardo nao pode ser tratado como um cartografo, nem o objeto que produziu, como um mapa, em sentidos modernos. O uso e as funcoes da forma mundi de Hereford ultrapassam a mera descricao do espaco ou a indicacao tematica de determinado assunto. A descriptio representava o que havia na Criacao, refletindo-a como um speculum ou expressando-a como o sudario. (4) Do mesmo modo, Ricardo era um intelectual, um clerigo conhecedor do latim e leitor de livros plenos de autoridade, como o Physiologus (5) e as Etimologias de Isidoro de Sevilha. Nao era um tecnico responsavel pela confeccao de objetos de uso cotidiano. Era um geometra, pois conhecedor dos limites da Terra.

Objeto ainda relativamente pouco pesquisado, em especial no Brasil, o mapa de Hereford e a cartografia medieval permitem ampliar a compreensao da especifica visao de mundo do periodo e o entendimento sobre as especificas categorias por ela utilizadas para interpretar o funcionamento do Cosmos e o lugar do homem na Criacao. O mapa, produzido no interior da Igreja e amparado em autoridades tanto classicas quanto eclesiasticas, assume o duplo papel de descricao legitima e legitimadora de uma peculiar imagem do mundo e, ao apresentar toda a Criacao em uma unica pagina, a funcao de reafirmar os eixos principais dessa imagem, inevitavelmente marcada pelas peculiaridades do cristianismo medieval.

A alteridade em Hereford

A ciencia etnografica constitui uma area do conhecimento nascida entre o final do seculo XIX e o inicio do XX. Representa uma perspectiva moderna e depende, em sua origem, do desenvolvimento de caracteristicas da sociedade ocidental formadas no processo de contato com o Outro a partir de experiencias coloniais e na superacao destas. Para a Idade Media, nao se pode falar em etnografia como uma disciplina autonoma. O olhar medieval sobre o Outro em nada se compara as perspectivas da atual ciencia etnografica. Todavia, uma reflexao sobre a alteridade e uma definicao de seu lugar foi elaborada sem uma teorizacao especifica, mas na pratica da descricao.

Apesar de relativamente economico na representacao de alteridades, o mapa de Hereford expressa em seu programa iconografico as especificidades daquela descricao. E claro que as diferentes regioes da Europa modulavam o estilo geral da percepcao da alteridade de maneiras peculiares. Os contatos com outras civilizacoes sempre foram muito mais fortes e continuados nas Peninsulas Italica e Iberica que na ilha britanica--e, quando estes ocorriam, as dinamicas que os envolviam e os grupos que se relacionavam eram diferentes. Ao Sul, as civilizacoes urbanas e mercantis de Bizancio e dos arabes eram mais presentes que no Norte, mais facilmente assolado por grupos tribais ou de centralizacao estatal relativamente recente.

Buscar, pois, um "olhar medieval sobre o Outro" que ignore as especificidades regionais e dos grupos culturais--certamente os letrados tinhan uma perspectiva diferente dos iletrados--e tarefa fadada ao erro ou a simplificacao. O mapa-mundi de Hereford, por suas condicoes de producao, espelha uma perspectiva eminentemente letrada e clerical. Utiliza-se do vasto referencial classico e das tradicoes ja bem assimiladas ao cristianismo, conforme a organizacao que lhes era atribuida pelo saber erudito da epoca. Porem, como se prestava a uso pedagogico, possui a peculiaridade de refletir, mesmo indiretamente, a perspectiva de seus receptores. Sua exposicao publica implica a possibilidade de leitura mais ampla. Torna-se, portanto, instrumento que permite vislumbrar o construto geral em que se inseria o olhar medieval sobre o Outro.

Ha, no mapa, 23 referencias a povos distantes, e 11 tem figuras acompanhadas de legenda. Nessa selecao, o criterio utilizado foi a nao apresentacao de caracteristicas portentosas ou monstruosas. Os monstros e portentos eram criaturas de humanidade questionavel, senao claramente inumanos--posicao defendida por Agostinho de Hipona, que so considerava humanos os descendentes de Adao e Eva, o que nao seria o caso das criaturas portentosas, como centauros, esfinges, panotios (6) e cinocefalos, (7) dentre outros, apesar de sua aparencia lembrar a de seres humanos. Assim, os portentos expostos no mapa devem ser considerados como integrantes do mundo natural ou, dito de outra forma, ja que a oposicao natureza/humanidade e uma construcao moderna, como integrantes de um mundo nao humano. Quando ha, a descricao dos diversos povos costuma ser pobre, em geral apresentando apenas um elemento distintivo. Uma das maiores legendas possui nove palavras e diz: "Solin dicit . eones insula qui ihabitat . omnis marinar auiu viuuf [Solino diz: os habitantes das ilhas Eones vivem de aves marinhas]. Encontram-se a nordeste, proximos a ilha dos Ipopodes, homens com pes de cavalos, e as iconografias mais proximas sao uma cadeia de montanhas e um rio, sem relacao direta com o texto. Uma das menores possui tres palavras e diz simplesmente: "Hircani. hic habitant" [Os hircani habitam aqui]. Esta perto do rio Oxus, tambem a nordeste. Umas poucas sao ainda mais laconicas, como a que diz apenas Hungari, na fronteira leste da Europa.

A etnografia de Hereford nao se preocupa com a historia dos povos apresentados, com uma unica excecao, tampouco se preocupa em retratar seu cotidiano. Trata-os unidimensionalmente, indicando apenas um elemento distintivo e marcante, como em um exercicio mnemonico. (8) O olhar medieval sobre o Outro, espelhado em Hereford, indica uma percepcao redutora da alteridade--apenas constata-se sua existencia e destaca-se uma unica caracteristica constitutiva.

No seculo XIII, a experiencia direta com o mundo ainda importava menos que o peso da autoridade. A descricao do Outro em Hereford vergava sob esse peso. Mesmo sendo um mapa do seculo XIII, as referencias a muculmanos virtualmente inexistem. (9) Os povos retratados nao o sao por fruto da experiencia, mas por obediencia a autoridade, ja que indicados em textos utilizados como referencia pelo geometra. A percepcao da alteridade nao deve ser buscada, pois, no contato, mas na tipologia em que se inserem, ou melhor, na tipologia disponivel ao Outro. E como se o mapa de Hereford fosse um produto intelectual conservador, cuja producao interna a uma instituicao dominante e bem-inserida no sistema o fizesse espelhar sentidos tradicionais e uteis a sua manutencao. Por outro lado, como um produto artistico, buscava a perfeicao, e, como produto religioso, a eternidade, nao se prendendo a questoes menores, como a representacao da epoca circundante.

As fontes etnograficas de Hereford foram as mesmas que lhe forneceram seus elementos geograficos, zoologicos e monstruosos. As descricoes dos povos distantes eram copias de trechos de Isidoro de Sevilha, Solino, Martiano Capella e, principalmente, da Expositio Mappe Mundi, por sua vez ela mesma uma colagem de trechos daquelas fontes. Mais que tratados sobre os povos do orbis, as fontes do mapa acabavam por fornecer curiosidades frouxamente conexas. As figuras etnograficas de Hereford acabaram por espelhar suas fontes, pois nao apresentam nenhuma conexao explicita entre si, mas ganham alguma coerencia como representacoes da diversidade do mundo e elementos de um inventario. Nenhuma delas possui referencia temporal explicita, o que permite ve-las como representacoes de povos contemporaneos ao geometra e seu publico. Apesar de determinadas figuras no mapa incorporarem o tempo, tornando-o uma representacao nao so das tres dimensoes do espaco, mas tambem da dimensao temporal, as representacoes da alteridade inserem-se exclusivamente no presente. Mesmo a representacao dos povos de Gog e Magog, que se articula com o passado, quando Alexandre os enclausurou, e com o futuro, quando servirao ao Anticristo, os apresenta em um estado atual, presos atras de altos muros. Alias, a unica iconografia que os caracteriza e o largo muro que os retem em uma relativamente pequena peninsula na Scythia (Figura 1). Poder-se-ia considerar que nao ha iconografia para esses povos, uma vez que so se veem um muro e, atras dele, um longo verbete. Todavia, a iconografia de Hereford caracteriza-se por seu carater ideografico--apresenta um elemento de uso consagrado que reflete o sentido do ente representado.

[FIGURA 1 OMITIR]

De longe, o texto descritivo desses povos e o maior dos verbetes de etnicidade, sendo uma das maiores legendas do todo o mapa. Ha, na verdade, dois verbetes, um por tras dos muros e outro fora, com informacoes que se complementam. A importancia dada aos povos de Gog e Magog deve-se, sem duvida, ao teor escatologico do mapa, dominado pela representacao do Julgamento Final e pela distribuicao das letras da palavra MORS [morte] em seus quatro cantos--ve-se um grande M, no alto, a esquerda da prisao e fora do mapa propriamente dito. A ausencia de figuras e compensada largamente pela riqueza da descricao dos terriveis habitos dos servidores do Anticristo. (11) Todavia, essa riqueza apresenta um problema. Se o mapa fazia parte da decoracao de uma catedral e devia atuar como suporte catequetico, um grande texto em latim tem seu alcance reduzido em virtude do desconhecimento dessa lingua pelo vulgo no seculo XIII. A figura do muro seria tao forte e autoexplicativa para quem a visse que prescindiria do texto? Acreditamos que sim, mas nao seria forte sozinha. Como o muro e a caracteristica distintiva desses povos, basta sua figuracao para a garantia do recurso mnemonico necessario, mas a conexao entre significante e significado necessita da predica. Em um de seus niveis de leitura, o mapa e uma mensagem emitida pela Igreja para um receptor leigo. Para a boa decodificacao da mensagem, o receptor necessita de chaves fornecidas obrigatoriamente pelo emissor. A boa interpretacao do significado do muro depende da transmissao de uma chave oral, de uma predica em que essa caracteristica distintiva seja apresentada e para a qual a representacao pictorica sirva como mais um suporte para a memoria.

Nesse sentido, o largo texto por tras dos muros pode ser interpretado como um recurso de autoridade. As letras e palavras remetem a um texto, um documento escrito que, em uma sociedade de oralidade mista, (12) pode apresentar-se como um depositario quase mistico de saber; afinal, extrair de um pedaco de pergaminho com manchas negras palavras que podem ser ouvidas e uma arte muito especial. Ademais, o texto em que se baseava a legenda era a propria Biblia --ela mesma imbuida dessa aura que envolve a eternidade da palavra escrita, que refletia a eternidade da palavra de Deus. O misterio do sentido da escrita pode fornecer a representacao dos povos do Anticristo o carater misterioso e a reverencia necessaria a descricao tao importante.

O maior dos dois verbetes ligados ao muro informa os horrores que esses povos ainda cometem, mesmo aprisionados, e volta ao passado para descrever seu aprisionamento realizado por Alexandre. A segunda legenda, que completa a primeira e trata do futuro, quando esses povos servirao ao Anticristo, encontra-se fora dos muros, talvez em um exercicio metaforico, em que a prisao e posterior libertacao seja indicada pela posicao dos verbetes em relacao a muralha.

A Peninsula em que se encontram presos ocupa uma posicao extrema no mapa, projetando-se para dentro do Mar Oceano e quase rente aos limites da carta. Nao me parece ser coincidencia que o 'M da palavra MORS se localize vizinho a essa Peninsula, com a haste que o sustenta tracando uma linha reta com a cadeia de montanhas que complementa o isolamento realizado pela muralha. Esses povos serao os principais responsaveis pela mortandade que precede o Juizo.

Alem da letra 'M, outra figura proxima que torna a regiao um espaco definitivamente malevolo e o fluvius infernalis, representado logo abaixo da Peninsula, proximo a cabeca bovina. (13) O rio desagua no Mare Caspium, que o conhecimento geografico medieval baseado em Isidoro acreditava ser conectado ao Oceano. (14) A legenda, apenas parcialmente visivel na figura acima, informa que esse rio vem dos infernos, pois encontra o mar com suas aguas fervendo. Seu curso nasce nas montanhas Umbrosi (sombrias), onde se diz que se abre o Gehenna. Essas informacoes encontram-se na margem esquerda do rio; na margem direita e informado seu nome, fluvius achen, provavelmente uma corruptela ou abreviatura de Acherontus [Aqueronte].

A conexao desses povos, enclausurados atras de uma grande muralha, de uma cadeia de montanhas e pelo mar, com a mortandade que precedera o fim dos tempos e com o Anticristo, e sustentada por outros dois componentes do mapa, ambos fortemente caracterizados pela escrita, a saber, a letra 'M e a legenda do rio achen--note-se que a imagem do rio nao denuncia sua origem infernal. O recurso a uma legitimacao escrita reforca o carater catequetico da passagem, pois dependente da intervencao de um letrado/clerigo para se fazer compreender. A escrita tambem pode ser entendida como uma metafora da Palavra (escrita) da Biblia.

A legenda interna aos muros diz:
   Omnia horribiliaplus qam credi potest. frigus intollabile . omni
   tempore ventus acerim a motibs q"m incole bizo vocant . Hic sont
   homines truculenti nimis . humanis carnibus vescentes . cruore
   potates . fili caim maledicti. Hos iclusit dns [Dominus] per magnu
   alexandru . nam terre motu facto in conspectu principis motes sr"
   motes in circuito eor ceciderut . ubi motes deerat ipse eos muro
   isolubili cinxit [Todos os horrores, alem do que se pode crer. Frio
   intoleravel. Todo o tempo um vento gelido vem dos montes que chamam
   "Bizo". Aqui ha homens demasiadamente truculentos. Alimentam-se de
   carne humana. Bebem sangue. Filhos malditos de Caim. Deus os
   enclausurou por meio do grande Alexandre. De fato, a Terra se moveu
   no ilustre combate em presenca do principe, e montes sobre montes
   cairam ao redor deles, impedindo-lhes a fuga. Onde nao havia
   montanhas, ele (Alexandre) construiu um muro indestrutivel].


A passagem informa elementos da historia desses povos, das caracteristicas geograficas e ambientais do lugar em que vivem, alguns de seus habitos e mesmo uma palavra de sua lingua--Bizo. (15) E o registro etnografico mais completo do mapa. O unico que apresenta mais de um aspecto da vida do povo representado, mas, mesmo assim, ainda os apresenta unidimensionalmente. Todos e cada um dos individuos desses povos sao maleficos, todos sao "filhos malditos de Caim". A primeira coisa que se diz e que aquele lugar e aquelas pessoas representam todos os horrores "alem do que se pode crer", e todo o resto apenas confirma essa sentenca.

Entre o ambiente circundante e os horrores que nele se passam estabeleceu-se uma relacao. Nao que os medievais acreditassem sociologicamente que o homem e um fruto de seu meio, mas homens extremos compartilhavam com seu ambiente o carater liminar de sua existencia. A vida humana, como os medievais a concebiam, nao podia ser compartilhada por esses seres. Sua regiao deveria ser tao dura como seus coracoes. Para provocarem dor e sofrimento na escala em que provocariam, os filhos de Caim deveriam compartilhar desse sofrimento. O carater repulsivo de sua vida refletia-se no ambiente igualmente repulsivo em que viviam. Como estavam bem ao Norte, em uma posicao extremada, o clima era extremo. O frio era intoleravel. Apenas seres mais bestas que humanos o suportariam.

Aqueles homens deveriam ser os mais embrutecidos do orbis. Sua missao era promover a pior das guerras. Mas nao bastava a agressividade do clima e das relacoes sociais. Eles deveriam desrespeitar tudo o que era humano. Deveriam realizar os mais horrendos e violentos atos. E o que poderia ser mais agressivo do que comer a carne de outros homens e beber seu sangue? Afinal, esse era seu destino, tornar-se o martelo da humanidade. Eram humanos, mas representavam o anti-humano, por isso devoravam nossa carne. A um animal e permitido comer carne humana, afinal, nao tem razao e sua selvageria os justifica, mas outros homens devorarem seus irmaos, isso e demoniaco. Nao a toa que sao os filhos de Caim. Sao assassinos de seus irmaos.

A indicacao de uma origem genealogica e um elemento importante na representacao da alteridade na Idade Media. Os livros de historia sempre apresentam a genealogia das nacoes. O mapa de Hereford define-se como uma descricao do mundo feita a partir do livro Sete livros de historia, de Paulo Orosio. (16) Neste, os povos sao sempre apresentados a partir de uma genealogia. Orosio nao foi o criador dessa tradicao, vinda da profunda Antiguidade, mas foi um dos principais veiculos dela para a Idade Media. O padrao se repete em outros livros de historia, como na Historia Brittonum, de Nennius, escrita no seculo IX, mas com acrescimos que chegam ate o seculo XIII, em que, no capitulo 10, os bretoes sao apresentados como descendentes de gregos e romanos, pois seu povo descende
   do lado da mae de Lavinia, a filha de Latino, rei da Italia, e da
   raca de Silvano, o filho de Inaco, o filho de Dardano; que era
   filho de Saturno, rei dos gregos, e que, possuindo uma parte da
   Asia, construiu a cidade de Troia. Dardano era o pai de Troilo, que
   era o filho de Priamo e Hecuba; Anquistes era o pai de Eneias, que
   era o pai de Ascanio e Silvio; e este Silvio era o filho de Eneias
   e Lavinia, a filha do Rei da Italia. (17)


Silvio, chamado de Postumo, pois nasceu depois da morte de seu pai, era o pai dos bretoes. Um gens era, pois, como uma familia, com uma cabeca e um ancestral fundador.

O ancestral e importante nao so para indicar um ponto de origem, mas principalmente para fornecer ao povo um carater. Como os romanos, que em determinada fase de sua historia buscaram relacionar-se com um passado glorioso por meio de sua insercao em uma linhagem que vinha de Eneias, os medievais identificavam o carater dos povos com o de seus ancestrais. Se um gens buscava reforcar sua dignidade, sua ancestralidade era buscada em figuras mitologicas que representassem valores elevados. Cada povo descende de uma figura-chave. As gentes eram, na verdade, como grandes grupos tribais, com um ancestral (mitico?) fundador, talvez seu totem, e certamente a corporificacao de sua dignidade. No caso dos povos de Gog e Magog, como se buscava reduzir-lhes a dignidade, seus antepassados so poderiam ser indignos. E quem melhor do que Caim para gerar uma descendencia maldita?

Gens tao desgracado precisava ser contido, afinal, apenas no momento certo deveria aparecer no palco da historia para desempenhar seu papel de coadjuvante no terrivel drama do Juizo Final. Deus, portanto, teve de utilizar um de Seus instrumentos para conte-los, e apenas um grande homem poderia desempenhar essa funcao: Alexandre, que, apesar de pagao, tinha estatura suficiente para bem desempenhar esse papel. Na tradicao medieval, Alexandre fora um dos maiores monarcas, padrao e modelo para todos os outros.

Orosio, uma das principais fontes do mapa de Hereford, no terceiro livro de suas Historias, (18) narra os eventos marcantes da vida desse principe, mas nada diz sobre sua luta contra os futuros servidores do Anticristo, e o caracteriza como um lider sanguinario. Porem, no vasto tempo entre o seculo V e o XIII, Alexandre tornou-se signo de virtude e bom governo. Para a cavalaria, tornou-se um de seus modelos ideais. Ignorando o Alexandre de Orosio, o geometra de Hereford o adota como instrumento divino e "ilustre principe". A conexao entre as conquistas de Alexandre e o enclausuramento dos povos de Gog e Magog teria se dado por meio de interpolacoes entre versoes em vernaculo de sua lenda e o livro de Revelacoes, realizadas ao redor do seculo VII por Pseudo-Methodius. (19) Outra forte influencia foi a Cosmographia, de Aethicus Ister, (20) esta ultima uma fonte direta utilizada na confeccao do mapa. Dadas as semelhancas, a Cosmographia deve ter fornecido a base do texto da legenda do mapa. (21)

Alexandre venceu esses inimigos com o auxilio divino. As montanhas desabaram para criar uma barreira natural, apenas completada pelo enorme muro construido pelo Macedonio. Pode-se levantar a questao: por que Deus nao os cercou pelos quatro lados? Por que deixou um deles descoberto, necessitado da construcao de um muro para completar Seu desejo de aprisionamento daqueles povos? A resposta, parece-me, liga-se ao fato de que esses povos um dia escaparao. E quando isso acontecer nao sera por falha nos empecilhos criados por Deus, pois perfeitos, mas nos criados pelo homem, portanto faliveis.

Proximo ao muro, mas do lado de fora, ha outra legenda, que diz:
   Isti inclusi idem esse creduntur . qui a solino antropophagi [em
   vermelho] dicuntur inter quos et essedones [em vermelho] numerantur
   nam t~pre [tempore] anticristi erupturi et omni mundo persecucionem
   illaturi [Esses enclausurados, tambem se acredita, sao os que
   Solino chamou de Antropofagos, entre os quais os Essedones (22)
   devem ser listados. De fato, no tempo em que o Anticristo aparecer,
   por todo o mundo se espalharao perseguicoes].


Apenas essa legenda informa da conexao entre os filhos de Caim e o Anticristo, assim como do papel que desempenharao quando fora de seu encerramento. Porem, o mais interessante nessa legenda e que o cartografo de Hereford procurou estabelecer uma tipologia. Ha outros povos antropofagos, os aprisionados atras da muralha nao sao os unicos. Mas a que serviria essa tipologia? De certo modo, ela diminui a aberracao representada pelos povos de Gog e Magog? Acreditamos que essa tipologia liga-se ao carater unidimensional com que as gentes sao apresentadas, isto e, apenas uma caracteristica do povo deve ser destacada. Os filhos de Caim sao os servidores do Anticristo e representam todo o horror imaginavel. Essa caracteristica nao deve se contaminar com outras. Sua antropofagia faz parte dos horrores que representam, nao e sua caracteristica distintiva. Para os Essedones, a antropofagia e sua caracteristica distintiva. Ricardo de Haldingham quis deixar bem claro que esses povos, apesar de compartilharem um elemento "cultural", nao podiam ser comparados, pois eram diferentes em seu fator identitario preponderante, necessariamente unico.

Mas a muralha nao e a unica referencia aos povos de Gog e Magog do mapa. No extremo Norte, proximo a terra dos Hiperboreos (23) e aos altares de Alexandre que marcam o limite norte de seus dominios, esta uma ilha chamada de Terraconta. A ilha mais proxima desta e chamada de Insula Mirabilis, e sua legenda diz quam Alexander non nisi per pces et obsides intuit [a qual Alexandre nao visitou sem preces e garantias]. Novamente o macedonio vincula-se aos filhos de Caim.

[FIGURA 2 OMITIR]

Na ilha Terraconta (Figura 2, a ilha maior, a esquerda), onde nao ha iconografias, apenas o texto de sua legenda, le-se Terraconta isula . qua inhabitant. turchi de stirpe gog et magog . gens barbara et inmuda . iuuenu carnes et arbortiva munducantes [Ilha de Terraconta, na qual habitam os turchi, da estirpe de Gog e Magog. Uma raca barbara e imunda, que se alimenta da carne de jovens e abortos].

Os "filhos malditos de Caim" nao foram explicitamente chamados de povos de Gog e Magog, mas esses turchi sao apresentados como de sua estirpe. Encontram-se em uma ilha, portanto enclausurados, e apresentam habitos tao terriveis quanto os primeiros. Sao eles uma segunda apresentacao dos mesmos povos? Naomi Kline acredita que sim. (24) Todavia, a legenda diz que sao "da estirpe de Gog e Magog" (grifo meu). Pertencem, portanto, a mesma linhagem--mas sao o mesmo gens, ou o mesmo povo? Acredito que nao nesses termos. Esses outros filhos de Caim, afinal da mesma estirpe, possuem um gentilico proprio--turchi--, sao outro povo. Podem ser vistos como outro ramo da mesma gens, mas nao sao identicos aos aprisionados por Alexandre. Como um ramo de uma grande gens, compartilham algumas das caracteristicas do tronco principal, pois o ancestral da "raca" e o determinante de seu carater, mas ramos secundarios nao compartilham do mesmo destino ou gloria (para o bem e para o mal) do eixo central.

Desempenhariam algum papel no drama do Juizo? As legendas nao tratam disso. Porem, a semelhanca entre "turchi" e "turcos" e notavel. Mas o que e um "turco" no seculo XIII? A Cosmographia de Aethicus Ister, de meados do seculo VII, ja estabelecia uma relacao entre o nome Turchi e os povos de Gog e Magog. (25) Provavelmente, essa palavra era um gentilico geral para barbaros, nao definidos apenas pela lingua que falavam (ou nao falavam), mas ja agregada a conotacao de violencia e selvageria. A fonte da legenda no mapa e a Expositio Mappe Mundi, que apresenta virtualmente o mesmo texto. (26) Por sua vez, a Expositio deve ter-se baseado na Cosmographia. (27)

Entre os seis termos usados por Aethicus Ister para caracterizar os turchi como uma gens desprezivel nao consta a palavra "barbaros". Na legenda de Hereford, essa palavra esta em vermelho. Por que? Barbaro e um adjetivo pejorativo referente ao comportamento dos turchi que merece destaque? Essa palavra aparece mais uma vez no mapa, novamente em uma referencia etnografica sem iconografias. No Sul da Africa, proximo ao territorio habitado por diversos portentos, ha uma pequena inscricao, sem iconografia, que diz Hic barbari . getuli . natabres et garamentes . habitant [Aqui habitam os barbaros Getulos, Natabres e Garamantes]. A palavra barbaro reflete uma tipologia, assim como antropofago. Os turchi eram, pois, barbaros, isto e, selvagens, e sua selvageria ligava-se a sua ascendencia e a maldade que dela provinha.

No seculo XIII, o gentilico turchi deve ter-se facilmente ligado ao ambiente do final das Cruzadas. O mapa nao trata de seu presente, tanto que esses turchi estao no Norte, e nao no Leste, mas seu nome certamente ecoava sentidos bem contemporaneos--apesar de acreditar que essa nao era a intencao do cartografo.

A cidade de Hereford, no seculo XIII, era uma comunidade relativamente acostumada com a presenca do Outro, pois la se encontrava a segunda maior comunidade judaica da Inglaterra. (28) Aquele seculo, porem, foi marcado pela rejeicao dessa convivencia proxima. Naquele momento, as alteridades mais visiveis aos medievais eram os muculmanos, contra quem se realizavam as Cruzadas orientais na Terra Santa e ocidentais na Peninsula Iberica, e os judeus, que desde o seculo XI passaram a sofrer perseguicoes cada vez maiores e mais violentas. (29) A comunidade de Hereford deve ter sido atingida muito proximamente por essa rejeicao, e seu mapa a registra. Primeiramente, por uma grande rejeicao ao presente. Os "Outros" representados em Hereford nao guardam relacao direta com os acontecimentos do seculo, mas vem dos livros e das tradicoes mais antigas. A rejeicao a alteridade e tamanha que em Hereford os Outros so aparecem perifericamente, mal se diferenciando dos portentos. De certo modo, a verdadeira alteridade era formada pelos portentos, pois os Outros que nao possuiam partes de seu corpo fora da "normalidade" eram um mero apendice daqueles. O diferente era antes e acima de tudo estranho.

A permanencia de um olhar dicotomico sobre a realidade, que a dividia em pares de oposicao, era um elemento central da perspectiva medieval da alteridade. A distincao Mesmo/Outro se relacionava com a mais basica entre bem e mal, Deus e o Diabo. O questionamento da humanidade do Outro nao se articulava em um questionamento da semelhanca de figura entre esses e os ocidentais, mas se relacionava com a retirada de sua dignidade humana, so conferida pela profissao da fe segundo a ortodoxia crista. O caso de Gog e Magog e dos turchi e um exemplo extremado dessa perspectiva, mas que funcionava como padrao de referencia para a quase desumanidade do Outro.

O Mesmo e o nao Mesmo

O principal elemento a unir as diferentes sociedades do medievo ocidental era o cristianismo. E nele, portanto, que se encontra o principal elemento aglutinador da percepcao medieval da alteridade. Os medievais estavam acostumados a pensar o mundo em pares de oposicao, em que o conjunto Ceu/Inferno, ou Deus/ Diabo, fornecia o paradigma. O mundo dos homens dividia-se entre aqueles que conheciam o Cristo e tinham um estilo de vida correto marcado pela fe e aqueles que nao o tinham. Assim, a alteridade, de fato, e unidimensional. Representa apenas o nao Mesmo. O cristianismo possui um projeto totalizador, nao apenas porque se imiscui em todos os aspectos da vida do crente, mas porque defende a pregacao e a conversao de todo o gentio. O nao cristao (ou o nao Mesmo) e um, digamos, cristao em potencial, pois sua existencia so faz sentido como um ainda nao converso, ou um pecador inveterado. Boa parte das representacoes da alteridade em Hereford, e especificamente os povos de Gog e Magog, pode ser percebida como de pecadores.

Uma comparacao interessante e bastante esclarecedora da nocao de Outro posta em Hereford pode ser feita considerando-se duas pequenas historias de judeus presentes na Legenda aurea. Nesse contexto, e em diversos sentidos, a alteridade mais proxima aos cristaos medievais era formada pelos judeus. Essa proximidade milenar, se nao forneceu o modelo de relacao medieval com o Outro, ao menos nos permite estabelecer um paralelo de suas caracteristicas com grande clareza.

Na Legenda aurea, de Jacopo de Varazze, ha diversas historias em que aparecem judeus, mas virtualmente todas seguem um mesmo padrao. No conjunto de narrativas referentes a Sao Nicolau, ha duas historietas em que eles desempenham papel importante, e o padrao pode ser verificado. Na primeira, um cristao havia tomado certa quantia emprestada a um judeu, mas, nao tendo como fornecer garantias ao emprestimo, jurou sobre um altar de Sao Nicolau que lhe devolveria o dinheiro assim que pudesse. O tempo passou e, como o emprestimo nao foi pago, o devedor foi levado a juizo. Para nao pagar o debito e mesmo assim evitar ser punido, o cristao elaborou um plano. Seguiu para o tribunal com uma bengala oca, recheada com moedas de ouro. Quando foi prestar juramento, pediu ao judeu que lhe fizesse o favor de segurar sua bengala, e jurou ter restituido ate mais do que o que havia pedido. Depois do juramento, pediu a bengala de volta. Dessa maneira, pretendia safar-se do pagamento da divida, pois de certo modo a havia pago, e o judeu, de bom grado, lhe devolveu o dinheiro. Saindo do tribunal, sentiu um sono repentino e dormiu em um cruzamento, sendo atropelado por uma carroca, que o matou e destruiu a bengala, revelando sua artimanha. O judeu, porem, recusou-se a pegar o dinheiro que era seu por direito, afirmando que so o faria se o morto ressuscitasse pelos meritos de Sao Nicolau--o que aconteceu quase imediatamente, levando o judeu a se converter e a se fazer batizar.

A segunda historia, narrada logo em seguida a anterior, diz que um judeu, testemunha do poder miraculoso de Sao Nicolau, mandou fazer uma imagem do santo e a colocou em sua casa. Quando empreendeu uma longa viagem, disse a imagem: "Nicolau, aqui estao todos os meus bens, que confio a voce; se nao fizer boa guarda, vingo-me com chicotadas" Apesar disso, sua casa foi roubada, sendo deixada para tras apenas a imagem de Nicolau. Ao ver-se sem seus bens, o judeu cumpriu o prometido e puniu a imagem por nao ter protegido adequadamente sua propriedade. Quase imediatamente, Sao Nicolau apareceu diante dos ladroes, todo ensanguentado, exigindo que devolvessem os bens furtados, ou seriam punidos. Assustados, os ladroes cumpriram a ordem e contaram o milagre. Por sua causa, o judeu se converteu e abracou a fe crista. (30)

Por essas historias percebe-se que o olhar medieval sobre a alteridade a reduzia ao Mesmo. Os judeus, ao menos os dessas anedotas, apesar de nao serem cristaos, reconheciam o valor de um juramento sobre um altar e mandavam esculpir imagens de santos. Ao fim das historias, ambos abandonaram sua fe e converteram-se ao cristianismo. Era como se a alteridade existisse apenas para se converter e dar testemunho do poder divino. E, mesmo em sua existencia preconversao, adotavam alguns habitos cristaos. O mapa de Hereford informa que os hircani habitam perto do rio Oxus, e os habitantes das ilhas Eones vivem das aves marinhas, porem, no mais, permite inferir que viviam como o Mesmo.

Ha uma unica representacao de judeus no mapa de Hereford, mas nao no conjunto iconografico das alteridades e, sim, nas representacoes da historia. Os Iudei foram postos na base do monte Sinai, adorando o bezerro de ouro, enquanto Moises em seu topo recebia as Tabuas da Lei. Importante na representacao do Outro era mostrar seu erro, e nao suas semelhancas. Se em narracoes como as da Legenda aurea a alteridade era apresentada em etapas (1. repetindo o erro; 2. no momento da revelacao; 3. na conversao final), as figuras postas em Hereford pretenderam-se mais eloquentes e diretas na marcacao exclusiva da diferenca, pois, diferentemente da obra de Varazze, nao sustentavam uma narrativa, mas serviam de mote para as predicas.

Todas as figuras de alteridade apresentam-se distantes dos pontos mais significativos do mapa e mostram-se unidimensionalmente. Os "outros" povos ou sao guerreiros, ou medrosos, tem bons habitos ou comportam-se de maneira mais selvagem que a pior besta--nao ha meio-termo, nao ha complexidade. Essa representacao, que se submetia a uma oposicao binaria primordial, ser ou nao cristao, sobrepunha-se ao antagonismo humano/nao humano. Esta ultima sobreposicao nao era simples e direta, mas guardava grande ambiguidade e era marcada por uma tensao basica: seriam as outras gentes verdadeiramente humanas?

Os medievais nao apresentavam a questao nesses termos. Elucubracoes sobre sua humanidade em termos raciais nao faziam parte do repertorio medieval, mas a certeza do paganismo do Outro lhe retirava qualquer dignidade humana. Os "malditos filhos de Caim" que comiam carne humana claramente nao eram pessoas como os frequentadores da catedral de Hereford.

A ignorancia geral sobre o estilo de vida do Outro engendrava a consolidacao de uma percepcao unidimensional e antitetica deste, que em muito contribuia para sua desumanizacao. Apesar de suas formas humanas, os outros povos podiam mostrar (monstrare) sentidos secundarios, servir como alertas, sinais de designios divinos--do mesmo modo que os monstros e portentos. Afinal, todo o Cosmos era como um livro para a escrita divina.

A representacao dos portentos e monstruosidades era, em grande parte, um olhar sobre o Outro. Era uma maneira de apreender e lidar com a existencia de povos fora dos limites da cristandade. A peculiaridade medieval e que entre o mundo que entendemos por natural e o que definimos como humano havia uma fronteira muito flexivel em alguns de seus aspectos. Humanos e animais compartilhavam caracteristicas e muitas vezes podiam confundir-se, como o bezerro nascido de uma mulher registrado por Isidoro de Sevilha, (31) ou os cinocefalos, uma gens com cabeca de cachorro, ou ainda os simeae, criaturas tao semelhantes a homens que era facil confundir uns com os outros--dai o termo "simios".

Agostinho acreditava que os cinocefalos obviamente nao eram humanos, apenas simeae. O bispo de Hipona define a humanidade em poucas palavras, considerando como homens apenas as criaturas descendentes de Adao. Mas as outras criaturas de Deus nao eram nosso oposto--nao era em relacao a elas que o Humano se definia.

Nao havia unidade entre humanos e animais, e claro, mas todas as criaturas vivas compartilhavam de certa contiguidade no espaco ideal que ocupavam na mente dos medievais. Os portentos demonstram que pode ser inutil procurar uma fronteira clara entre os animais e os humanos em suas formas ou em suas vidas terrenas. Deve-se, pois, optar pela percepcao de um continuum e de uma grande imbricacao. E como se existisse um polo humano, mas nao um polo completamente inumano e seu oposto, pois o olhar medieval sobre o Cosmos projetava neste uma vontade e um funcionamento que tinha o homem como padrao. (32)

Aristoteles, e com ele toda a escolastica, acreditava que a alma compreende tres elementos, a alma nutritiva, compartilhada por homens e plantas, a alma sensivel, compartilhada por homens e animais, e a alma intelectiva, exclusiva dos homens. (33) Essa sutileza universitaria nao devia alcancar plenamente o saber popular, mas a diferenca entre humanos e animais certamente era percebida pelos medievais como a posse de uma anima, um vigor--uma coisa--a mais que os outros seres, por menos letrados que fossem. (34) Mas estabelecer a distancia ente o mundo humano e o nao humano nao parece ter sido uma grande preocupacao dos medievais. Essa foi uma questao moderna. (35)

Keith Thomas sugere que, na Inglaterra do inicio da Modernidade, era usual considerar o mundo como feito para o homem. (36) Essa era a heranca medieval. O Cosmos fora criado para satisfazer nossas necessidades. Sua propria existencia era dependente da nossa, nao o contrario. Porem, nao e necessario esperar os tempos modernos para que essa percepcao inicie seu processo de mudanca. Os ultimos tempos medievais, em especial depois da redescoberta de Aristoteles, foram marcados pela imagem de uma natureza que se submetia a leis--leis divinas que a faziam submissa ao homem, mas leis. O que chamamos de natureza comecava a ganhar autonomia em relacao aos desejos e necessidades humanas. Mas o seculo XIII nao viu esse processo concluido--talvez nem nosso seculo o veja. Os anos 1200 refletem na arte um olhar sobre o mundo natural que se expressa tenso, ambivalente, entre ler o mundo como um largo conjunto de metaforas e le-lo como um conjunto coerente de criaturas que se inter-relacionam--por mais fantasticas que sejam. (37) No mapa de Hereford, o Cosmos apresenta-se em toda a sua exuberancia e cada coisa tem seu lugar, mas Deus (Cristo entronizado) ainda rege o mundo, do alto, e a partir da teleologica perspectiva da Salvacao.

Os homens se submetem a vontade divina, tendo seus destinos marcados por sua origem--o ancestral que fornece o carater--e pelos designios de Deus como se pode ver na expressao "Malditos Filhos de Caim". Esses seres carregam a ambiguidade de serem humanos, mas condenados. E, condenados, possuirem habitos despreziveis, selvagens.

O que de certo modo surpreende em Hereford, tao rico em representacoes pictoricas, e a relativamente pequena quantidade de representacoes iconograficas desse tipo de alteridade--etnografica. Ha apenas 11 registros do Outro. Certamente porque, para seu produtor e publico, a separacao entre portentos e povos distantes nao existia, ou, de tao tenue, era como o papel de seda que recobre as figuras em um livro antigo. Tracar uma fronteira entre as duas representacoes como se estas refletissem duas percepcoes diferenciadas e mais uma necessidade moderna de categorizacao, e subcategorizacao, que uma determinacao do olhar medieval. Os habitos hediondos refletiam-se, em muitos povos, em sua aparencia hedionda.

Esse olhar percebia as categorias com que se instrumentalizava para enxergar a realidade de uma maneira menos estanque e compartimentada que o nosso. A interpenetracao, ou a continuidade das categorias, e uma forte caracteristica da percepcao medieval, mas nao pode ser entendida como um tipo de falha. Longe de gerar confusoes ou ser reflexo de um primitivismo (ou pensamento pre-logico) daquela mentalidade, a contiguidade das categorias reflete o impacto da vivencia medieval do cristianismo sobre suas concepcoes de mundo. Antes de tudo, o Cosmos era a ordenacao de uma unica e soberana vontade divina. Assim, todas as suas partes eram, na verdade, reflexos desta. Variacoes do mesmo tema, como em um exercicio retorico de repeticao para obter o efeito desejado.

Levi-Strauss, em um de seus livros classicos, (38) busca demonstrar que o pensamento dos selvagens nao deveria ser definido como infantil, ou pouco afetado pela experiencia civilizacional. O "primitivo" nao era um ser recem-lancado na natureza que se apropriava dela com a inocencia de criancas de pureza idealizada. Seu olhar sobre o mundo era resultado de um processo de reflexao e de um exercicio especulativo que o autor considera "proximo daquele dos naturalistas e hermeticos da Antiguidade e da Idade Media: Galeno; Plinio; Hermes Trimegisto; Alberto, o Grande ...". (39) Ou seja, a classificacao dos medievais (ou dos ditos selvagens) nao poderia ser considerada menos o resultado de uma empreitada racional que de uma intuicao fragil e infantil. Seus sistemas de classificacao apenas se submetiam a logicas proprias e originais, mas nem por isso atrasadas em relacao a uma razao perfeita e/ou mais evoluida e bem-acabada--pretensiosamente, a logica ocidental moderna. Toda a simbologia do pensamento medieval pode ser entendida a partir de seu peculiar sistema de classificacao e das relacoes que se construiam entre seus entes--como, por exemplo, entre os animais e as virtudes e/ou pecados.

O mapa de Hereford e um grandioso produto dessa logica e nos fornece chaves para compreende-la, pois ressalta a contiguidade entre os entes do universo e os poe em seus lugares. Da mesma maneira que os homens do periodo tendiam a olhar o espaco como uma contiguidade, em que se inseriam diferentes niveis de qualidade/sacralidade (do Eden ao Inferno), lado a lado apresenta seres de diferentes niveis de humanizacao, mas que nem por isso deixam de ser algo humanos.

As 11 representacoes mais claramente humanas ocupam, no continuum em que se inserem, um lugar mais proximo do polo plenamente humano--descendentes de Adao e Eva, que possuem alma e podem ser alcancados pela Boa-Nova.

A sociedade do Ocidente medieval caracterizou-se, por muito tempo, por seu isolamento. Depois da queda do Imperio Romano do Ocidente, do distanciamento entre a parte latina e a grega da civilizacao mediterranea e do avanco arabe que empurrou o Ocidente mais para o Norte, os medievais passaram a ocupar uma periferia do mundo. Cada vez mais voltado para si mesmo, o Ocidente desaprendeu a conviver com o diferente--o que foi reforcado pelo carater excludente de uma religiao de salvacao baseada no culto de um Deus unico e exclusivo. (40) O "Outro" era, portanto, uma realidade distante e negada pelo cotidiano. Existia em um alem geografico que, se, por um lado, ajudava a definir as fronteiras da cristandade, por outro, podia ser definido como um difuso "nao-e-o-Mesmo"/ nao-e-cristao.

A geografia foi um fator fundamental para a constituicao do Outro. Nao tanto a geografia "real", mas uma geografia mental que separava as comunidades. (41)
   Na verdade a geografia nao tinha lugar no catalogo medieval das
   sete artes liberais e por isso, sem a dignidade de uma verdadeira
   disciplina, ela torna-se repositorio de conhecimentos e
   pseudoconhecimentos, de dogma biblico, de historias de viajantes,
   de especulacoes de filosofos e do imaginario mitico. (42)


As descricoes do espaco alem-cristandade e de seus povos no mapa de Hereford inseriam-se no projeto civilizacional eclesiastico e em um repertorio organizado em uma sociedade extremamente dependente da oralidade. O conjunto de conhecimentos classicos, ou consagrados pela tradicao, a disposicao de Ricardo de Haldingham deu forma as representacoes da alteridade, tanto quanto o desejo catequetico presente nas obras realizadas por, ou consagradas a, clerigos.

Quando Gregorio Magno sugeriu o uso das imagens para possibilitar uma "leitura" das verdades da fe pelos iletrados, nao se pretendia que o contato com as imagens fosse apenas um momento pacifico e/ou de reflexao. Diferentemente do processo de juntar letras e ecoar palavras e significados na mente, olhar imagens implica um contato mais completo com seus significados. A velocidade com que este atinge os sentidos e a caracteristica devocional das imagens fazia com que essa "leitura" fosse muito mais que a relacao entre significantes e significados. "Ler" as imagens implicava uma aproximacao fisica com os significados sagrados. A atividade mais intelectualizada da leitura dava lugar, no exercicio de olhar imagens, as mais diretas e materiais manifestacoes de adoracao. (43) O carater didatico das imagens nao se dava apenas pela inteleccao de seus significados, mas pela experiencia que esse contato possibilitava. As figuras em Hereford, mesmo as nao devocionais, compartilhavam da forca desse contato. No que se refere a alteridade, certamente nao ha espaco para a adoracao, mas a reacao que deveriam provocar tinha o mesmo grau de impacto. Se o Outro e rejeitado, suas figuras devem provocar rejeicao. Se o Outro e diferente e grotesco, assim suas figuras manifestam-se.

Apesar de pretender-se um inventario da Criacao, o mapa de Hereford jamais poderia ser completo. Devia optar, pois, por expressar o mundo mais do que descreve-lo em minimos detalhes. As representacoes do Outro refletem seu sentido --sua selvageria e o carater hediondo de suas vidas. Assim, a diversidade de povos pode ser reduzida; afinal, sao todos iguais na unica caracteristica que importa--nao sao o Mesmo.

Ja em Orosio, ve-se uma pequena diversidade de gentes. Em sua descricao da geografia do mundo, a cada regiao apontada, trata de um minimo de 28 (Mesopotamia) a um maximo de 44 (India) nacoes. (44) A humanidade e diversa, mas de uma diversidade relativamente limitada. Porem, Orosio ainda era um escritor da Antiguidade. Seu periodo ainda tinha nao so a lembranca, mas a experiencia de um Zmperium universal e multicultural. Para os medievais, todavia, o mundo era muito menor ou muito menos diverso. As variacoes da humanidade espelhavam a unica relacao de alteridade possivel, ser ou nao cristao, e, dentro desta, estar ou nao na heresia. Uma sociedade com tanta ideia de limite como a medieval--o proprio universo e limitado por uma casca--nao pode conceber uma variedade infinita de modos de vida. Na verdade, ha apenas um modo de vida possivel; os outros sao deturpacoes, deterioracoes, aberracoes. Mesmo nao se constituindo em portento, o Outro sempre sera uma coisa portentosa, por seus habitos.

Em Hereford, o Outro e expresso como em um show de horrores. Quem o ve maravilha-se com o espetaculo, teme a diferenca e regozija-se por estar "salvo". Todo homem e culpado pelo Pecado Original, apenas o arrependimento e o batismo na Ecclesia podem redimir essa situacao. Estar na Comunidade (45) dos integrantes da Igreja, dos seguidores da fides em Cristo, e a unica maneira de abandonar a essencia fraca e pecaminosa da humanidade. Quem estava fora da Ecclesia era um ser humano de segunda categoria. A Biblia, em especial o Antigo Testamento, reforcava esse padrao de relacionamento com o Outro: so ha um povo escolhido, agora, os cristaos; os demais, do que uma humanidade limitada, tem uma alma limitada.

O olhar medieval sobre o mundo e egocentrico--o mundo existe por causa do homem, o homem de primeira classe, o cristao, unico com a chave para decodifica-lo. Uma vez que as outras gentes existiam como um veiculo para os designios de Deus, e Sua vontade e unica, sua leitura metaforica tambem so podia ser unica/unidimensional.

Em sociedades fortemente influenciadas por meios orais de transmissao de conhecimento, a elaboracao de um discurso depende das caracteristicas da oralidade. Na transmissao de saga, por exemplo, cada heroi e lembrado por uma de suas caracteristicas distintivas. Do mesmo modo, os outros tipos de informacao tem de se vincular a um elemento distintivo que os tornem facilmente acessiveis a mente. Para guardar imagens do Outro, era necessario, pois, eleger um elemento distintivo que facilitasse seu armazenamento na memoria. Hereford registra a lembranca da alteridade dentro de categorias possiveis aos medievais e reforca essas mesmas categorias ao se fiar sempre em um elemento distintivo. Os povos de Gog e Magog sao um exemplo extremo, mas paradigmatico, da percepcao mais geral da alteridade que, dentro de tres eixos de relacao com o Outro, axiologicamente Hereford opta por definir como "o mau"; praxiologicamente, por rejeitar tudo o que oferecem, e, epistemicamente, por ignorar.

Paulo Roberto de Nunez Soares (2)

(1) Artigo recebido em 10.3.2012 e aprovado para publicacao em 3.5.2012.

(2) Doutor em Historia pela Universidade de Brasilia (2005). Analista Legislativo da Camara dos Deputados. E-mail: paronuso@gmail.com

(3) Os mapas-mundi medievais podem ser divididos em tres familias: os hemisfericos, os intermediarios e os ecumenicos. Ver ANDREWS, Michel. The study and classification of medieval mappamundi. Archeaologica, v. LXXV, p. 61-76, 1925-1926.

(4) RIBEIRO, Maria Eurydice de Barros. O sentido da historia: tempo e espaco na cartografia medieval, seculos XI-XIII. Tempo, v. 7, n. 14, p. 14, jan./jun. 2003.

(5) Tratado sobre os animais e seres da natureza, atribuido a Plinio, o Velho. Fonte de diversos bestiarios.

(6) Assemelham-se a pessoas, mas possuem orelhas tao grandes que podem cobrir todo o corpo, como se fossem uma capa.

(7) Tem um corpo humano, mas cabeca de cachorro.

(8) Caracteristica de um sistema de comunicacao fortemente marcado pela oralidade.

(9) Exceto por uma referencia indireta, na representacao do Bezerro de Ouro com o nome de Mahu --Maome.

(10) Hereford mappamundi. Copia fac-simile por Konrad Miller, 1896, editada por Wychwood Editions, distribuida por Hereford Map Centre, Church Street, 24/25, Hereford, HR1 2LR, Inglaterra.

(11) O grande texto da legenda e retirado de passagens do Genesis (10: 1-5), Ezequiel (38) e Revelacoes (20: 7-10). Cf. KLINE, Maps of medieval thought: the Hereford paradigm. Woodbridge, Suffolk: Boydell Press, 2001. p. 185. Note-se que o texto biblico refere-se aos povos de Gog e Magog, mas o mapa nao lhes da esse nome.

(12) Zumthor, Paul. A letra e a voz. Sao Paulo: Cia. das Letras, 1993.

(13) Essa cabeca e parte da representacao de um animal que lembra o Minotauro. Nao ha conexao direta entre essa criatura e o ambiente que a cerca.

(14) Cf. WESTREM, The Hereford map. Turnhout: Brepols, 2001. p. 101-103.

(15) WESTREM, S. D. Op. cit., p. 68, informa que a palavra e, na verdade, um termo frances para o vento Norte.

(16) Na parte de baixo do mapa esta inscrito Descriptio orosii de ornesta mundi . sicut interius ostenditur. Ha certa controversia sobre a traducao dessa frase, em especial da palavra ornesta, mas consideramos que a melhor traducao e "Descricao de Orosio da beleza do mundo, como exibido por inteiro" O cartografo refere-se aos Sete livros de historia contra os pagaos, escritos por Paulo Orosio no seculo V a pedido de Santo Agostinho. O primeiro livro, capitulo II, descreve as partes do orbis e deve ter servido como um roteiro para o geometra definir os limites do mundo que pretendia exibir por inteiro.

(17) Cf. traducao de Adriana Zierer. In: COSTA, Ricardo da (Org.). Testemunhos da historia: documentos de historia antiga e medieval. Vitoria: Edufes, 2002. p. 221.

(18) O livro se concentra em suas conquistas desde a vitoria sobre Dario ate sua morte, envenenado por um escravo, na Babilonia. Descreve algumas batalhas e desfila uma longa lista de territorios conquistados.

(19) Cf. ANDERSON, Alexander's gate: Gog and Magog, and the inclosed nations. Cambridge, 1932 apud KLINE, Naomi R. Op. cit., p. 184-186.

(20) Id. Ibid.

(21) As semelhancas entre a legenda em Hereford e a descricao na Cosmographia sao ressaltadas por S. D. The Hereford map. Op. cit., p. 68. Note-se que ha uma grande semelhanca entre o texto do mapa e o equivalente na Expositio Mappe Mundi, mas este ultimo tambem deve ter-se baseado em Aethicus Ister.

(22) No mapa, em outra localidade, ha uma figura especifica para os Essedones, retratados em seu canibalismo.

(23) Povo que vive mais ao Norte--hiperboreos. Segundo Solino, vivem em constante discordia, quando alcancam certa idade, jogam-se no mar de um alto penhasco. Nao ha figura que os acompanhe, apenas as montanhas que limitam o territorio em que vivem.

(24) KLINE, Naomi R. Op. cit., p. 184-185.

(25) Cf. KLINE, Naomi R. Op cit., p. 186, n. 61. Portanto, muito antes de os povos hoje chamados de turcos alcancarem as fronteiras europeias.

(26) Entre a informacao da Expositio e o mapa, a diferenca e que este nao apresenta as duas ultimas palavras constantes na Expositio.

(27) Cf. WESTREM, S. D. Op. cit., p. 136.

(28) FLETCHER-JONES, Pamela. The Jews of Britain. Oxford: Windrush Press, 1990. Destaque-se que os judeus foram expulsos da Inglaterra no final do seculo XIII.

(29) MALKIEL, David. Jewish-Christian relations in Europe, 840-1096. Journal of Medieval History, v. 29, n. 1, mar. 2003. Ligadas aos ideais de purificacao do mundo expressos com grande violencia nas Cruzadas.

(30) As duas historias estao no terceiro capitulo do primeiro livro da Legenda aurea, aqui consultada na traducao de FRANCO JR., Hilario. Legenda aurea: vidas de santos. Sao Paulo: Cia. das Letras, 2003. p. 74-75.

(31) SEVILHA, Isidoro de. Etimologias. livro XI, cap. 3. Disponivel em: <http://www.thelatinlibrary. com/isidore.html>. Acesso em: 23 jan. 2012.

(32) GUREVICH, Aaron. Categories of medieval culture. Londres/Boston: Routledge & Kegan Paul, 1985, em especial sugere-se ver o capitulo intitulado "The Divine Comedy before Dante". A teoria do micro/macrocosmo, ou seja, a concepcao de que o corpo do homem e analogo ao Cosmos, era defendida por diversos pensadores medievais e reproduzia as percepcoes populares do periodo. Gervasio de Tilbury, cujos escritos foram a base para um outro famoso mapa-mundi medieval --Ebstorf--, defendia essa leitura, afirmando na primeira parte das Otia Imperialia: "em suma, o homem deve se chamar mundo [...] os gregos chamavam o homem de microcosmo, que significa mundo menor [...] mundo, este e o homem" (In summa homo mundus appellatur [...] et graecus hominem microcosmus hoc est minorem mundum appelabat [...] et mundus, hoc est homo). Apud WOLF, A. News on the Ebstorf map. In: PELLETIER, Monique (Org.). Geographie du monde au Moyen Age et a la Renaissance. Paris: Editions du Comite des Travaux Historiques et Scientifiques, 1989. Essa percepcao era quase natural em um sistema de pensamento que entende o universo criado a partir da expressao da vontade de uma unica divindade que coroa sua Criacao com uma criatura ad imagine Sua. Assim, todo o Cosmos se define em um jogo de imagens em que um original (imaterial) reflete-se em todas as imagens (materiais).

(33) Cf. THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. Sao Paulo: Cia. das Letras, 1988. p. 37.

(34) Esse sistema de pensamento nao era fechado sobre si mesmo, tendo incorporado diversos acrescimos das mais diversas origens. Mas esses acrescimos inseriam-se em um sistema de pensamento cuja amarra era o cristianismo e cujos intelectuais mais significativos expressavam-se sob sua egide.

(35) Cf. THOMAS, Keith. Op. cit.

(36) Id., p. 61.

(37) Essa tensao e particularmente perceptivel no gotico. Ha, porem, trabalhos classicos, como o de Wilhelm Worringer (Form in gothic. Traducao inglesa de Formalprobleme der Gothik. Londres: A. Tiranti, 1957), que tendem a ler esse estilo reforcando seu lado simbolico e a forca de seu misticismo. O tamanho, o formato das torres, as tramas das ogivas, a aparente leveza de conjuntos tao pesados, o sentido das linhas levando ao alto, o valor e uso da luz, enfim, todas as caracteristicas significativas do estilo ressaltariam sua espiritualidade. Por outro lado, o naturalismo das representacoes de pessoas, plantas e animais permitiria defender o oposto. Os seculos do gotico, pois, podem ser lidos como um periodo em que duas percepcoes diferentes concorriam, sem uma competicao direta ou acirrada entre ambas, com(o) reflexos (d)nas inovacoes tecnicas. Nao e desprovido de significado que nesses mesmos seculos desenvolvia-se a escolastica aristotelica e o misticismo.

(38) LEVI-STRAUSS, Claude. O pensamento selvagem. Campinas: Papirus, 2006.

(39) Id., p. 58.

(40) Destaque-se que me refiro ao "Outro" no sentido civilizacional. A cristandade, mesmo com sua diversidade interna, forjou na Europa uma civilizacao cujos pressupostos basicos eram compartilhados por seus integrantes.

(41) Assim, comunidades judaicas dentro dos territorios da cristandade ocupavam um espaco muito distante na geografia mental. Como o mapa nao retrata judeus como alteridade, estes nao entraram na analise, servindo, em poucos momentos, apenas como referencia de controle e comparacao.

(42) BOORSTIN, J. Os descobridores. Gradiva: Lisboa, 1994. p. 103. O autor acaba por reproduzir preconceitos que lembram a lenda de uma Idade de Trevas, mas, apesar de discordar de suas concepcoes basicas, e necessario reconhecer que o conhecimento espacial medieval era uma colagem de elementos de diversas fontes. Todavia, nao se pode considerar que essa colagem fosse resultado de a geografia nao ser uma "verdadeira disciplina"--o que quer que isso signifique. Boorstin nao utiliza nenhuma das contribuicoes da antropologia cultural, que talvez lhe permitissem perceber que cada cultura organiza o conhecimento a partir de suas proprias categorias de pensamento.

(43) BROWN, Peter. Images as a substitute for writing. In: CHRYSOS, Evangelos; WOOD, Ian (Eds.). East and West: modes of communication (proceedings of the First Plenary Conference at Merida). Leiden (Holanda): Brill Academic Publishers, 1999. p. 15-34, mais especificamente p. 23-25.

(44) OROSIO, Paulo. Historias. Introducao, traducao e notas Eustaquio Sanchez Salor. Madri: Gredos, 1982. livro 1, cap. 2.

(45) Nunca e demais lembrar que Ecclesia pode-se traduzir como comunidade, assim como por assembleia, e origina nossa palavra igreja.
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Author:de Nunez Soares, Paulo Roberto
Publication:Tempo - Revista do Departamento de Historia da UFF
Date:Jul 1, 2012
Words:10450
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